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13.4.05

São coisas assim...


Fotos: pva 0504 - Drimys winteri - Jardim do Morro, Gaia

... que tornam o coração vulnerável, disse Eugénio de Andrade. Entusiasmados com a alameda de tílias do Jardim do Morro, entrámos no arboreto que ela ladeia. E no topo do morro deparámo-nos com uma bela surpresa: um exemplar em flor, com aroma característico a jasmim, de uma Drimys winteri.

Nativa do sul da Argentina e Chile, de zonas de floresta húmida, esta pequena árvore pertence à família Winteraceae, designação que homenageia o Capitão William Winter que acompanhou a expedição de Sir Francis Drake em 1578. Por sugestão indígena, aceite por Winter, a casca da árvore - rica em vitamina C e taninos - foi bebida em chá, de sabor acre (daí o nome grego do género), pelos marinheiros, tornando-se remédio santo contra o escorbuto que tanto afligia os viajantes. A estrutura simples dos carpelos e o tronco sem vasos renderam alguma notoridade ao género Drimys nos anos 50 do século passado pela polémica sobre o carácter primitivo da árvore. Esta característica da madeira é hoje aproveitada no fabrico de instrumentos musicais.

As folhas são carnudas, com pecíolo curto e nervura central acentuada. Tal como os lódãos, exibe três tipos de flores. As mais vistosas são estreladas, agrupam-se em umbelas com pés longos, têm pétalas cor-de-marfim e centro com uma coroa verde.

12.4.05

Tílias do Jardim do Morro



Fotos: pva 0504 - tílias e, em primeiro plano na 2.ª foto, glícinia, azálea e loendro

Ainda que avesso desde criança ao exercício físico, sempre gostei de andar a pé. Na verdade, só quando desesperaram de nos fazer praticar desportos a sério é que os médicos e outros oficiosos promotores da boa forma física se lembraram de elevar o naturalíssimo acto de caminhar, entretanto rebaptizado como walking, à categoria de desporto. Mas eu nunca caminhei por desporto - como aliás nunca pedalei por desporto, nem fiz nada com o intuito consciente de praticar desporto.

Sou sobretudo um caminhante de cidade. É a andar a pé que coso mentalmente os retalhos do tecido urbano e surpreendo os seus contrastes. Mas há motivos mais prosaicos para esta preferência: não me enervo com o trânsito e chego sempre a horas; e, quando estudante, andar a pé era um importante reforço da mesada, pois embolsava todo o dinheiro que me era entregue como subsídio de transporte. Nos anos em que, morador em Gaia, estudava no Porto, passei quase diariamente sob esta alameda de 22 tílias no Jardim do Morro, prelúdio para a travessia da Ponte D. Luís com o mais famoso postal do Porto a desenrolar-se vertiginosamente até à foz do rio.

O meu convívio com estas árvores tem assim mais de vinte anos, embora de início nem lhes soubesse o nome. Estão saudáveis, bonitas, elegantes como só as tílias - e por isso, e também pela amizade antiga, vou desde já galardoá-las com o título de melhor alameda de tílias que conheço. Numa bem-vinda excepção à regra, as obras do Metro só as beneficiaram: a Avenida da República, finalmente livre da perturbação do trânsito no seu troço final, fornece-lhes agora uma envolvente digna da sua grandeza. E a Câmara de Gaia, ao contrário da sua congénere portuense, não parece ter equipas de especialistas encarregadas de desfigurar as tílias, que assim podem exibir intacta a arquitectura ímpar das suas copas. (No Porto, o zelo podador extravasou da via pública e vitimou mesmo as tílias do Palácio de Cristal, que ficaram em estado lastimável.)

10.2.05

Visita à Quinta de Marques Gomes



Fotos: pva 0501 - Quinta de Marques Gomes - Gaia

A Quinta de Marques Gomes, também chamada Quinta do Montado, em Gaia, foi aqui assunto há umas semanas, quando trouxemos um texto de opinião no JN do nosso amigo Bernardino Guimarães. O caso pode assim resumir-se: a Câmara de Gaia abdica da oportunidade de construir um valiosíssimo parque urbano com cerca de 30 hectares, integrando zonas húmidas ribeirinhas, campos agrícolas fertéis e uma vasta mata, em troca de mais uma urbanização megalómana. É a história do costume, com a agravante de Gaia, um dos concelhos mais extensos e populosos do país, ser também um dos mais pobres em espaços verdes: no seu miolo urbano há dois únicos e pequenos jardins públicos, o do Morro e o Soares dos Reis. O Parque Biológico de Gaia e a Estação Litoral da Aguda, duas notáveis realizações no domínio ambiental, não podem servir de eterno álibi a esta despreocupação camarária com a qualidade do espaço público concelhio.

Uma longa alameda, sombreada por alinhamentos de tílias afogadas em vegetação daninha, conduz do portão de entrada da quinta, na zona alta do Canidelo, à grande mansão abandonada, a que altivas palmeiras-das-Canárias ainda fazem guarda de honra. O palacete foi usado, entre 1975 e 1991, por uma cooperativa de ensino e como sede de uma associação popular, e terá sido nesse período que os canteiros ajardinados em seu redor foram substituídos por placas de cimento. Em volta do pátio, grandes árvores ornamentais recordam a antiga opulência: tílias de porte formidável, uma melaleuca, araucárias, um metrosídero monumental enfeitado com cachos de raízes aéreas. E pela encosta abaixo, descendo suavemente em direcção ao Douro, mas tão densa que dele não permite o menor vislumbre, estende-se a mata... de acácias, numa demonstração conclusiva da ameaça que esta árvore, capaz de obliterar em poucos anos toda a concorrência, representa para a floresta portuguesa. A dada altura o caminho desemboca em campos agrícolas cultivados, e a vista alarga-se até ao rio. Adivinham-se já os folhetos promocionais anunciando as vistas privilegiadas... para quem as puder pagar, quando este panorama único, embalado num silêncio raro, for tapado pela cortina de prédios que requalificará a zona baixa da quinta.

28.12.04

Dos jornais: a Quinta de Marques Gomes (Gaia)

«Que está a ser feito das últimas zonas verdes com dimensão e significado na Área Metropolitana do Porto? A resposta é simples: em certos casos, estão esses derradeiros bastiões entregues ao esquecimento e, o que é pior, à voracidade das operações imobiliárias - sem que ao menos a opinião pública tenha uma ideia clara sobre o que se está perdendo. E isto passa-se no momento em que mais se fala de "requalificar", de defender o ambiente e de ordenar o território. Algum dia - certamente já tarde de mais - lamentaremos amargamente a perda de espaços que tornariam possível a qualidade de vida e a verdadeira humanização das cidades!

A Quinta de Marques Gomes é um desses espaços, porventura dos mais importantes. Estendendo-se entre S. Paio e o Cabedelo, e da marginal do Douro até aos pontos mais altos de Canidelo, aí se guardam matas e terras cultivadas, pastagens e prados selvagens, num conjunto notável, como que emoldurando o belo cenário estuarino, com a sua paisagem bela e surpreendente.
(ver foto aérea) Vila Nova de Gaia poderia contar com tal património natural para criar o "Parque da Cidade" tão necessário e diversas vezes proposto. Mas não. A Quinta, e tudo o que ela significa como "pulmão" de Gaia e da zona do Porto, está em grave risco de se perder.

Foi recentemente anunciado o que a aguarda: a sua transformação num "agregado com cerca de 1100 casas, totalizando mais de 148 mil metros quadrados de habitações - com uma cércea , em média, de quatro andares -, e 10 mil de escritórios, a que acrescem 70 mil metros quadrados de estacionamento subterrâneo".

Uma tão pesada ocupação significa, sem apelo nem agravo, a transformação da Quinta numa saudade, certamente com resultados lucrativos, mas que se duvida possam ser de interesse público.»


Bernardino Guimarães no JN de 28/XII/2004
(texto completo aqui)
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Adenda: Visita à Quinta de Marques Gomes (10/II/05)