Mostrar mensagens com a etiqueta Vimioso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vimioso. Mostrar todas as mensagens

29.8.15

Damas das searas



Nigella gallica Jord.

A disseminação das plantas dióicas (aquelas com flores unissexuadas, estando as masculinas e as femininas em pés diferentes) é um processo minado de riscos. Talvez por isso quase todas as plantas continentais que colonizam ilhas são monóicas, uma vez que o reencontro no novo habitat de um exemplar masculino com um feminino é uma questão de sorte. Mas as flores hermafroditas também têm uma empreitada difícil. Apesar de as estruturas masculinas e femininas estarem presentes na mesma flor, parece ser-lhes vantajoso activar cada uma no momento apropriado, poupando recursos e optimizando o procedimento que conduz à fertilização. Simplificando, digamos que a flor é sobretudo masculina no início da sua função e depois, até se formar o fruto, é a componente feminina que domina. Por isso, a polinização tem de ser regulada por um mecanismo que permita sincronizar estas fases. Enquanto apronta os sacos de pólen para que este possa ser levado eficientemente pelo polinizador, é preciso que os nectários se vão enchendo, a flor se vá aformoseando e, se possível, perfumando para que os insectos reparem nela. Depois os estames alongam-se, afastando-se da coluna central da flor onde protegeram o estigma, reduzindo desse modo a possibilidade de auto-polinização. Uma vez fertilizada, as sépalas e pétalas perdem a coloração e a flor liberta-se desses adereços, para que o que sobra passe despercebido aos predadores e o fruto se forme em segurança.

É este, em resumo, o ciclo de vida da flor de Nigella. Atentemos aos detalhes da espécie das fotos: as sépalas são grandes, de cor azulada; as pétalas menores, brancas, bilabiadas, com o lábio inferior bífido de ápices claviculados (como pontas de fósforo); os numerosos estames, que se separam na fase masculina da flor; e o estigma ao centro, inicialmente cingido pelos estames. As flores são solitárias e as mais altas são as primeiras a desabotoar, o que leva a crer que os polinizadores tendem a descer perto da haste mas a planta impede-os de encontrar mais flores viáveis, incentivando-os a mudar de pouso e assim garantindo que a polinização é cruzada. O fruto é uma cápsula grande com muitas sementes escuras (detalhe a que alude o nome latino Nigella).

Em Portugal ocorrem três espécies deste género. Todas parecem apreciar solos bem drenados e locais expostos à luz, como sejam searas e outros campos de cultivo. A N. damascena é a mais frequente, com folhas finas e muito divididas (para não perder muita água por evaporação, já que estas são herbáceas anuais de regiões quentes) a envolver a flor, dando-lhe um ar de castelo de conto de fadas ameaçado por silvas perigosas (chamam-lhe damas-entre-verde ou barbas-de-velho). Encontram-se em locais pedregosos de prados, olivais e pomares de sequeiro. A N. papillosa é um endemismo ibérico e, por cá, muito raro: no portal Flora On está registada apenas no Alentejo e nos concelhos transmontonos de Mogadouro e da Alfândega da Fé. A flor tem sépalas azul-violeta, anteras púrpura e um cabelinho denso de folhas. Em Julho, encontrámos junto ao rio Maçãs uns poucos exemplares da terceira espécie de Nigella, que se distingue das anteriores pela folhagem e pelos adornos das flores. A N. gallica é natural do sul de França e da Península Ibérica; as Floras indicam que, por cá, a sua distribuição se restringe à metade norte.

4.7.15

Salsa das vacas



Anthriscus sylvestris (L.) Hoffm.

Segundo algumas fontes, o nosso povo chamaria cicuta-dos-prados a esta herbácea. É um nome enganador para uma planta que, ao contrário da verdadeira cicuta, não é venenosa; e aliás, como sugere o nome inglês cow parsley, pode ocasionalmente ser empregue em culinária. Sendo ambas umbelíferas de porte elevado (a salsa-das-vacas atinge 1,5 metros de altura, a cicuta pode chegar aos 2 metros), que dão flores brancas e apresentam folhas tripinatissectas, é de facto grande o risco de serem confundidas por gente pouco versada em subtilezas morfológicas. Não seria com tranquilidade que consumiríamos uma refeição alegadamante condimentada com este Anthriscus, se ele tivesse sido colhido na natureza. O fraco uso que em Portugal se dá às ervas aromáticas espontâneas empobrece a nossa cozinha e é por isso de lamentar, mas podemos interpretá-lo como o instinto de defesa de quem se reconhece ignorante: é melhor não nos metermos com o que conhecemos mal, não vão as coisas dar para o torto. A mesma atitude de humilde abstinência preveniria os trágicos envenenamentos com cogumentos que ocorrem quase todos os anos.

Apesar de o Anthriscus sylvestris ser comestível, não é dos condimentos mais recomendados, havendo quem descreva o seu sabor como desagradável. Será bom talvez para vacas, mas para pessoas nem tanto. Anda longe de ter prestígio equiparável ao do seu congénere Antheriscus cerefolium: o cerefólio (em francês cerfeuil, em inglês chervil), amplamente cultivado em França, é um dos quatro componentes da mistura de ervas finas tão usada na culinária gaulesa (os outros são a salsa, o cebolinho e o estragão).

A salsa-das-vacas distribui-se por grande parte da Europa e da Ásia, e está ainda naturalizada na América do Norte, mas é pouco comum na região mediterrânica e também em Portugal, onde ocorre esporadicamente no centro e no interior norte. Quem conseguir encontrá-la nos nossos campos (ela floresce de Abril a Junho) pode, ainda assim, desejar experimentá-la nos seus cozinhados sem ter que correr risco de vida, e é para essas pessoas que aqui deixamos umas dicas breves. Notemos primeiro que a salsa-das-vacas apresenta caule hirsuto, desprovido de manchas e marcadamente estriado (ver 2.ª foto), enquanto que o caule da cicuta é glabro, comparativamento liso e com manchas púrpuras. Os frutos, se estiverem presentes, também ajudam na diferenciação: os da salsa-das-vacas são alongados (4.ª foto), os da cicuta (foto) quase esféricos. Finalmente, assinalemos as muito características brácteas pendentes (4.ª e 6.ª fotos) que a salsa-das-vacas exibe na base da cada uma das umbélulas (uma umbélula é cada um dos "cachos" de flores que constituem uma umbela; na 6.ª foto em cima vemos uma umbela composta por 8 umbélulas).

6.1.15

Papoila dos picos



Papaver argemone L.

Há uns anos, numas férias de Verão na quinta dos avós no Douro, andávamos nós, ainda crianças, a apanhar cristais de quartzo que a abertura de uma estrada tinha posto a descoberto quando reparámos num terreno em pousio pintalgado por centenas de flores com quatro pétalas alaranjadas que pareciam feitas de papel enrugado. Colhemos umas tantas, tão sedosas e frágeis que receámos que chegassem a casa desfeitas. Exibindo o nosso troféu, ouvimos um estranho sermão sobre a natureza fingidamente pura e a sedução das plantas perversas. As lindas papoilas eram afinal fonte de vício, fantasia e torpor, incompatíveis com uma existência saudável. Pedimos detalhes, que foram prontamente negados; era demasiado arriscado revelarem-nos, inocentes mas prontos para a aventura, os efeitos de tais tentações do mal.

O castigo por sermos nessa altura tão ignorantes foi uma sentida desilusão com o campo e um receio paralisante de tudo o que o compunha. Hoje sabemos que há várias espécies de papoilas, que as sementes de algumas delas até são usadas em culinária e que só a Papaver somniferum, não se sabe muito bem se exótica ou nativa no nosso país, é origem da morfina, da heroína e do ópio. É da espécie P. rhoeas que derivam quase todos os cultivares ornamentais, com fantásticas corolas matizadas de rosa, cinza, azul e carmim. Em Portugal são seguramente nativas cinco espécies, das quais a P. rhoeas parece ser a mais abundante e a P. argemone a que menos vezes é avistada, e quase sempre na região nordeste do país. São polinizadas por insectos que, dizem os entendidos, gostam de comer o pólen. As várias espécies distinguem-se bem através dos frutos, uns mais longos outros mais arredondados, uns glabros outros com espinhos, embora todos encimados por uma tampinha estriada com o que restou do estigma da flor.

O epíteto argemone deriva da palavra grega que designa «uma mancha branca ao centro», que alguns lêem como aludindo às cataratas que esta planta supostamente cura. Por causa dessa fama e da existência do género Argemone, terá havido confusão, no uso em farmacopeia popular, entre a Papaver argemone e a Argemone mexicana, esta realmente tóxica. Dessa vez, a culpada do desastre não foi a papoila.

30.12.14

Saveirinho-com-foice


Astragalus hamosus L.

Na nossa versão fantasiada da natureza, por vezes despimos o campo do que ele tem de hostil. Noutras, pelo contrário, fazemos uma leitura contaminada pelos nossos receios, interpretando aspectos da morfologia das plantas como traços premeditados de defesa ou ataque. Veja-se o exemplo dos espinhos. Para nós são armas espetadas em riste, prontas para nos furar a ousadia e a pele. Para a planta são talvez resultado da adaptação a um habitat seco, a uma brisa persistente, a um polinizador que precisa de disfarce, ou ao pêlo dos animais de que os frutos apanham boleia.

No género Astragalus, da família das leguminosas, as flores têm, em geral, cores intensas e porte avantajado, ou nascem agrupadas em cachos densos de forte impacto. Se juntarmos a isso a folhagem vistosa, de folhas pinadas compostas por uma dezena de pares de folíolos (completadas, em algumas espécies, por um folíolo terminal), dispostos harmoniosamente numa ráquis longa, somos levados a considerar este género como um dos mais formosos da família. Mas, dando atenção aos detalhes, começamos a torcer o nariz. A espécie das fotos é bastante penugenta, com pêlos que se espetam facilmente nos dedos e lhe dão um ar descabelado. Temos até a impressão de que os cálices campanulados estão a magoar as pétalas frágeis, e de que os frutos, curvados como ganchos, jamais atrairão um bicho que lhes disperse depois as sementes.

Engano nosso. O anzuelo (ou gancho, como é conhecida esta planta em espanhol) é espécie anual de distribuição ampla na região mediterrânica, e está presente em quase toda a Península Ibérica. Por cá, há registos dele no nordeste e na metade sul. Começa a florir em Março, mas em Julho ainda se encontram flores, nessa altura misturadas com as tais vagens cilíndricas, curvadas em semi-circunferência, de uns 4 cm de comprimento. Este exemplar, que vimos em Vimioso, num torrão seco e arenoso das minas de Sto. Adrião, não está inteiramente conforme à descrição do Astragalus hamosus nas várias Floras, ou, de resto, à de alguma outra das 13 espécies de Astragalus listadas para a flora lusitana. Não é pela corola, aqui de cor creme e ali com veios azuis, mas pelo aspecto dos cálices. Contudo, a identificação aqui proposta parece ser a que mais bem se lhe ajusta.

13.12.14

Nem Coimbra, nem Mondego



Lotus conimbricensis Brot.

Apesar dos incentivos, fiscais ou de outro teor, que alguns garantem existir, nunca como hoje se produziram em Portugal tão poucos bebés. Na expectativa de que a situação se altere, têm surgido novos e gigantescos hospitais pediátricos e centros materno-infantis, autênticos hotéis de cinco estrelas em que qualquer mãe gostaria de se hospedar, e em que qualquer bebé gostaria de vir ao mundo. Também têm, é verdade, encerrado serviços hospitalares e maternidades no interior do país, mas as atenções, cuidados e até luxos como aqueles que a medicina e a construção civil modernas podem proporcionar exigem que os nascimentos se concentrem nas principais cidades do litoral. Já lá vai o tempo em que era possível nascer em Santo Tirso, Vimioso ou Salvaterra de Magos. Agora nasce-se, se é que se quer nascer, em Coimbra, Porto ou Lisboa.

Não é certamente por culpa do Hospital Pediátrico de Coimbra, inaugurado em Fevereiro de 2011, que o grande botânico português Félix Brotero (1744–1828), se vivesse hoje, dificilmente reencontraria este Lotus em Coimbra. A Quinta das Sete Fontes, local onde originalmente Brotero colheu o Lotus conimbricensis, nome com que baptizou o achado no vol. 2 (de 1805) da sua Flora Lusitanica, foi sendo amputada com o crescimento urbano da cidade e, em meados do século passado, ficou reduzida a muito pouco com a construção do Hospital da Universidade de Coimbra. O novo Hospital Pediátrico foi apenas o derradeiro prego no caixão. Da antiga quinta sobram a casa, a capela e pouco mais, mas em Maio de 2000 a então proprietária pediu a classificação do conjunto ao antigo IPPAR. Mais de 14 anos depois, somos informados na página da Direcção-Geral do Património Cultural que a Casa das Sete Fontes (incluindo capela, edifícios anexos e mata) está desde 2007 em "vias de classificação", o que é uma espécie de pena suspensa sem fim à vista. Poderia pensar-se que o atraso na classificação e a indefinição de uma zona de protecção foram uma ajuda para que a construção do Hospital Pediátrico e dos seus acessos não sofresse percalços. A história, porém, é um pouco mais complicada. Os percalços de facto existiram, em parte porque as sete fontes insistiam em deitar água, mas a maior discórida, envolvendo IPPAR, Câmara de Coimbra e proprietários em cerrada disputa judicial, centrou-se na tentativa de demolição de uns velhos anexos agrícolas. Tenham eles permanecido de pé ou não, o certo é que, somando-se ao hospital, um novo prédio de habitação acabou por comer mais uma fatia do arvoredo.

Enfim, uma história como tantas outras do urbanismo nacional, a que o Lotus conimbricensis, que há muito terá abandonado a cidade do Mondego em busca de lugares mais propícios, é de todo indiferente. Esta planta anual de prados húmidos, cuja área de distribuição abrange o sul da Europa e o norte de África, e que em Portugal surge em quase todo o continente mas de modo muito esporádico, singulariza-se pela cor branca das suas flores, quando a maioria das suas congéneres dá flores amarelas. Outra particularidade já assinalada por Brotero é que cada pedúnculo sustenta apenas uma flor. Quanto a medidas, a planta é pouco avantajada: as hastes não têm mais que 20 a 30 cm de altura, e as flores, quase sempre em escasso número, ficam-se pelos 7 mm de diâmetro.

O único exemplar que encontrámos vivia no concelho de Vimioso, lugar onde as flores, ao contrário dos bebés, ainda têm permissão para nascer.


Freixos (Fraxinus angustifolia) em Campo de Víboras, perto do rio Maçãs

6.12.14

Iva aumenta


Ajuga chamaepitys (L.) Schreb.

O título pode trazer-nos um pico de visitantes, mas apressamo-nos desde já a desfazer equívocos: este texto não fala de impostos, embora muitos botânicos (não é essa a nossa prática) tratem as plantas como simples matéria colectável. Acontece que a planta de hoje é uma versão algo aumentada da iva, ou Ajuga iva se lhe quisermos dar o nome completo, uma diminuta planta de base lenhosa que ocorre com assiduidade nos terrenos calcários secos do centro e sul de Portugal. A Ajuga pyramidalis e a A. reptans, a última também usada como ornamental, completam o quarteto destas labiadas presentes no nosso país. Os traços de parentesco mais evidentes em todas elas são as flores pequenas, dotadas de um lábio inferior proeminente mas destituídas de lábio superior, e as brácteas grandes, semelhantes às folhas, bem maiores do que as flores.

A Ajuga chamaepitys, que tem a reputação de ser uma erva ruderal mas ultimamente se tem feito muito rara, revelando fraca adaptabilidade às mudanças nas práticas agrícolas e no uso dos solos, é uma planta anual (ou bienal, segundo alguns) que, pela nossa curta experiência (vimo-la apenas duas vezes), parece preferir terrenos descampados e secos sobre substratos calcários ou margosos. É uma planta ramificada e peluda, de não mais que 20 cm de altura, com flores amarelas de cerca de 2 cm de diâmetro. As folhas, que são divididas em três segmentos compridos e estreitos, quase lineares, dispõem-se de forma muito densa e dão à planta uma vaga semelhança com um rebento de pinheiro. Assim se explica o epíteto chamaepitys, palavra grega composta de chamae, que significa rasteiro, e de pitys, pinheiro. A mesma comparação é retomada no nome ground-pine que os britânicos dão a esta espécie. Curiosamente, a própria planta parece ter interiorizado a analogia, esforçando-se por torná-la mais completa, já que, ao que consta, as suas folhas rescendem a pinho quando esfregadas.

2.8.14

O sol no Egipto



Helianthemum aegyptiacum (L.) Mill.

É um sol pálido e de vida curta aquele que estas flores representam. A exemplo do girassol (género Helianthus) e da verrucária (Heliotropium europaeum), também as plantas do género Helianthemum têm a reputação, plasmada no nome científico, de virarem as flores para a luz do sol. Mas na verdade não sabemos se o H. aegyptiacum cumpre esse tropismo, pois as suas flores são tão débeis e efémeras, deixando cair as pétalas por exaustão ao fim de duas ou três horas, que raramente as podemos ver. O hábito de descartar sem demora a produção florística de cada dia é comum a todas as cistáceas, mas nas estevas, sargaços e tuberárias as flores ainda se aguentam até ao fim da tarde, derramando-se então à volta da planta num tapete de pétalas brancas, rosadas ou amarelas.

Descrita por Lineu em 1753 como Cistus aegyptiacus, e mudada um século mais tarde por Philip Miller para o género Helianthemum, esta herbácea anual de floração primaveril e não mais que 30 cm de altura gosta de lugares secos e soalheiros, de preferência arenosos: gosta, em suma, do Egipto e dos desertos enfeitados com pirâmides. Aceita, contudo, relaxar essas exigências, e por isso frequenta os dois lados da bacia mediterrânica, alcançando o norte da Península Ibérica e, em Portugal, a Terra Quente transmontana. Mas o Egipto, terra que tantos apetites coloniais atraiu, era nos séculos XVIII e XIX mais interessante e acessível aos viajantes e estudiosos norte-europeus do que os países do sul da Europa. Talvez por isso tanto Lineu como Miller indiquem o Egipto como terra natal desta cistácea, ignorando a sua presença no continente europeu.

Philip Miller (1691–1771), botânico e jardineiro inglês, fornece pretexto para a nossa segunda menção do Chelsea Physic Garden em poucos dias. Miller foi sucessor de Samuel Doody como jardineiro-chefe do histórico jardim londrino, mantendo-se no cargo durante 48 anos. Com início em 1741, foi publicando edições sucessivamente aumentadas do seu Gardeners Dictionary, com a oitava e última edição (um tomo de mais de 1300 páginas) a surgir em 1768. Esses Dicionários para Jardineiros, apesar de incluírem abundantes conselhos sobre o cultivo de plantas, eram genuínos tratados científicos, e asseguraram ao autor um lugar entre os grandes botânicos da história. Sobre a emancipação do género Helianthemum, que consta da derradeira edição do Gardeners Dictionary, Miller justifica-a com o facto de as cápsulas dos frutos terem apenas três segmentos, enquanto que as plantas que optou por manter no género Cistus dão em geral cápsulas com cinco segmentos. Esse critério, com alguns aditamentos que justificaram a posterior partição do género Helianthemum em géneros adicionais (entre eles Tuberaria e Fumana), é ainda hoje aceite e válido.

7.6.14

Espelho nosso


Legousia scabra (Lowe) Gamisans

Estima-se que em Portugal, continente e ilhas, ocorram cerca de 4 mil espécies de plantas, algumas exóticas. Embora este número seja actualizado de vez em quando, para incluir as novidades e, sobretudo, para se adaptar às frequentes revisões taxonómicas, certo é que estamos ainda longe de as ter visto todas. Mas há que reconhecer que a apresentação de plantas que aqui fazemos tem os dias contados e, como aconselharia o nosso estimado Carlos Silva, teremos de passar às borboletas.

Façamos, porém, uma pausa. Se bastasse aos botânicos catalogar as plantas que vêem, sem ter em conta a multiplicidade de lugares onde podem ser encontradas e, consequentemente, desvalorizando as associações entre elas e a necessidade de programar a sua conservação de um modo compatível com o nosso uso do território, a botânica seria uma ciência com fim à vista. Terminada a listagem, bastaria manter um serviço eficiente de secretariado para pôr em dia as perdas e ganhos da biodiversidade, mais aquelas que estes. Ora o que lemos nas Floras mostra que o trabalho dos botânicos (e, mais geralmente, dos biólogos) não é tarefa miúda ou sequer à beira da conclusão. Além de ser essencial conhecer as plantas em detalhe, um saber que nos dias de hoje exige informação genética e domínio de aspectos teóricos sofisticados, é preciso ter um plano geral das suas escolhas de habitat, que ignoram as linhas de fronteira que traçamos nos mapas, e responder pela coexistência de animais e plantas, num programa global de sobrevivência. Francamente, cuidar de um mundo tão estragado, constantemente sujeito a perturbações, é tarefa de valentes. Estranha-se que quem tem poder de decidir sobre o nosso ambiente não estime a valia destes cientistas e não se guie por eles.

Para os amadores, que se passeiam pelo campo quando lhes apetece, e que amuam se não encontram as raridades que querem observar, um trabalho bem sucedido de conservação das plantas é um passaporte para inúmeros passeios e lições, de botânica e, às vezes, grego ou latim. A planta das fotos, uma herbácea esguia mas de média estatura que vimos nos calcários de Santo Adrião, em Vimioso, dá disso testemunho (pode ver aqui um mapa das populações de que há registo em Portugal). O nome do género homenageia Bénigne Legouz de Gerland (1695-1774), político francês e entusiasta pelas ciências e pelas artes, que deu a Dijon um centro de História Natural, um jardim botânico e uma escola de Belas-Artes; o epíteto latino scabra refere-se à aspereza do caule da planta. Em inglês, a espécie Legousia hybrida é conhecida como espelho-de-Vénus.

Quando o sol aquece, as flores da Legousia abrem completamente, formando um prato, e exibem um azul quase púrpura; caso contrário, reduzem-se a uma campânula meio fechada de cor azul pálida. Dias seguidos de chuva e nevoeiro em Maio podem levar as flores a não desabotoar de todo, restando-lhes a auto-polinização. Por isso, são bem-vindos os dias soalheiros que, diz a ciência das nuvens, se avizinham.


Minas de Santo Adrião, Vimioso

17.6.13

O padre e o lobo



Antirrhinum lopesianum Rothm.

Esta planta é um endemismo ibérico de que só se conhecem registos em Trás-os-Montes e no Douro internacional. Pertenceu em exclusivo à flora portuguesa entre 1877-79, altura em que o colector Manuel Ferreira, da equipa do Jardim Botânico de Coimbra liderada por Júlio Henriques, a descobriu, e 1989, ano em que Amich e colaboradores encontraram populações no lado espanhol. Contudo, a descrição da planta em publicação científica foi primeiro feita em 1956 por Werner Rothmaler, um botânico alemão refugiado em Portugal. A falta de iniciativa dos botânicos portugueses talvez se devesse ao facto de julgarem tratar-se do A. molle e não de uma espécie até então desconhecida. Em jeito de recaída, Pinto da Silva chega mesmo a designá-la, em 1973, como Antirrhinum molle L. subsp. lopesianum, mas análises recentes da morfologia e considerações sobre a ecologia de ambas confirmam que se trata de espécies distintas. A designação escolhida por Rothmaler homenageia o Padre Miranda Lopes (1872-1942), que encontrou, em 1926, esta planta em Argoselo e Teixo. Sobre a contribuição para o estudo da flora de Trás-os-Montes deste colaborador de J. Henriques, A. X. Pereira Coutinho e G. Sampaio, aos quais durante anos enviou amostras de plantas que foi descobrindo em Vimioso e arredores, num tempo em que o nordeste português ficava a muitos dias de viagem, sugerimos a leitura da obra de João Paulo Cabral sobre Gonçalo Sampaio.

O que se nota de imediato ao ver este «dragão das arribas» é a penugem branca muito densa nas folhas e caules. Dá logo vontade de passar a mão por essa lã; notamos então como é planta débil e ficamos com um ligeiro visco nos dedos, substância que talvez a proteja de predadores ou, pelo contrário, atraia polinizadores. As flores são bocas-de-lobo idênticas às de outras espécies do género Antirrhinum, mas brancas com veios roxos no topo.

Dir-se-ia que é planta de xisto, o tipo de rocha e solo ácido comuns em Trás-os-Montes. Na verdade, ela coloniza fendas de rochas onde escorre água rica em calcário. Foi nesse ambiente que vimos duas plantinhas à beira da estrada, junto ao rio Maçãs, depois algumas dezenas abrigadas por grandes rochas bastante mais acima no monte, e ainda exemplares dispersos por vários recantos à sombra. Não se julgue, contudo, que é planta abundante. Não só está restrita a poucos locais como as populações são diminutas e ocorrem em habitats raros. É razão de peso para que exista um livro vermelho da flora portuguesa, onde esta planta surgiria na lista das que estão em risco de desaparecer. Não sendo a sua presença nesse livro protecção suficiente, pelo menos os responsáveis pela sua extinção estariam previamente avisados e, portanto, sem álibi.