21.3.10
21.3.08
Dia da árvore

Trachycarpus fortunei
Da janela do automóvel vejo uma espécie de palmeira plana como um leque. Digo sabem o que aconteceu àquela árvore um gigante esqueceu-se dela dentro de um livro. Cortesmente todos riem.
Ana Hatherly, Tisana 143
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25.8.07
A figueira

Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.
Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)
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25.8.07
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15.8.07
"En mi pecho florido..."
.
«En mi pecho florido
Que entero, para él solo, se guardaba.
Mi bien quedó dormido.
Y yo le regalaba
Y el ventalle de cedros aire daba.
El aire de la almena,
Cuando ya sus cabellos esparcia
Con su mano Serena,
En mi cuello hería
Y todos mis sentidos suspendía »
San Juan de La Cruz- Noche oscura del alma
Los Mártires, Granada, 1586
Poema transcrito daqui
Ver foto do "famoso cedro bajo el cual San Juan de la Cruz escribió parte da obra". Trata-se de um Cupressus lusitanica (conhecido vulgarmente entre nós por Cedro-do Buçaco)
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15.8.07
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11.8.07
Negrilho revisitado
No centenário do poeta
.jpg)
Fotos Abril 2006 - Um dos lugares de Miguel Torga: Largo de Eirô em S. Martinho de Anta- povoação do concelho de Sabrosa onde nasceu em 12 de Agosto de 1907. Ver fotografia deste negrilho ou ulmeiro (Ulmus minor) ainda vivo.
Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
Miguel Torga in Diário VII (1956)
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4.7.07
Andar na cidade como quem anda no campo
.
«Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ela era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros... »
Poema III de "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro >
Transcrito daqui > (O Farol das Letras)
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4.7.07
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30.6.07
As flores do Jacarandá
.

Largo das Oliveiras- Porto
Lá para Sul, "the blue season" já acabou, mas por cá ainda nos vamos poder surpreender com eles por uns tempos...
O jacarandá florido
Brando cantar trazia
Branda a viola da noite
Branda a flauta do dia
O Jacarandá florido
Brando cantar trazia
O vinho doce da noite
A água clara do dia
Quem o olhava bebia
Quem o olhava escutava
O jacarandá florido
Que o silêncio cantava
Matilde Rosa Araújo > in As Fadas Verdes > ed. Civilização, 1994
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30.6.07
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6.6.07
À oliveira da serra
. .

Flores de oliveira- Distrito de Viseu -Junho 2007
À oliveira da serra,
o vento leva a flor.
À oliveira da serra,
o vento leva a flor.
Ó i ó ai, só a mim ninguém me leva,
Ó i ó ai, para o pé do meu amor.
Ó i ó ai, só a mim ninguém me leva,
Ó i ó ai, para o pé do meu amor.
À oliveira da serra,
o vento leva a ramada.
À oliveira da serra,
o vento leva a ramada.
Ó i ó ai, só a mim ninguém me leva,
Ó i ó ai, para o pé da minha amada.
Ó i ó ai, só a mim ninguém me leva,
Ó i ó ai, para o pé da minha amada.
(letra, pauta e karoeke in Domingos Morais & Alfarrábio)
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6.6.07
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18.5.07
"Um cheiro que se não estranha..."
Título furtado daqui

Debaixo da laranjeira,
Caiu-me uma flor no rosto:
Ai! Jesus, que tão bem cheira!»
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11.5.07
"Ai flores, ai flores do verde pino"

Foto: inflorescência de Pinus pinaster -Parque da Cidade
-Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pos comigo?
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?
-Vós me perguntades polo voss' amigo,
e eu bem vos digo que é sã e vivo.
- Ai Deus, e u é?
-Vós me perguntades polo voss' amado,
e eu bem vos digo que é viv' e são.
-Ai Deus, e u é?
-E eu bem vos digo que é sã e vivo,
e seerá vosc’ ant' o prazo saido.
-Ai Deus, e u é?
-E eu bem vos digo que é viv' e são,
E será vosc'ant' o prazo passado.
-Ai Deus , e u é!
D. DINIS > (1261- 1325)
(Ontem não pude ir buscar o meu exemplar do Volume 4 -PINHAIS E EUCALIPTAIS da coleccção Árvores e Florestas em Portugal, já que para mim também tem sido impossível adquirir estes livros no quiosque habitual; tenho curiosidade em saber se esta poesia de D. Dinis é lá citada, pois no primeiro volume, no capítulo dedicado ao Pinhal de Leiria, transcrevem-se excertos de poesias referindo este célebre "cantar de amigo", mas não o próprio poema...)
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11.5.07
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4.5.07
"...and my heart has been struck with the hearts of the planes!"
.
The Trees Are Down
"...and he cried with a loud voice: Hurt not the earth, neither the sea, nor the trees"-Revelation
They are cutting down the great plane-trees at the end of
the gardens.
For days there has been the grate of the saw, the swish of
the branches as they fall,
The crash of the trunks, the rustle of trodden leaves,
With the 'Whoops' and the 'Whoa', the loud common talk,
the loud common laughs of the men, above it all.
(...)
It is not for a moment the Spring is unmade to-day;
These were great trees, it was in them from root to stem:
When the men with the 'Whoops' and the 'Whoas' have carted
the whole of the whispering loveliness away
Half the Spring, for me, will have gone with them.
It is going now, and my heart has been struck with the
hearts of the planes;
Half my life it has beat with these, in the sun, in the rains,
In the March wind, the May breeze,
In the great gales that came over to them across the roofs from the great seas.
There was only a quiet rain when they were dying;
They must have heard the sparrows flying,
And the small creeping creatures in the earth where they were lying -
But I, all day, I heard an angel crying:
'Hurt not the trees.'
© by Charlotte Mew
(post dedicado a todos os que sentem uma profunda dor com o abate dos plátanos do Campo Pequeno em Lisboa)
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4.5.07
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2.3.07
O FREIXO
.
«Alto freixo redondo apazigua
Entre verdes pinhais a minha aldeia,
E, toucado de pássaros, à lua,
Parece uma mulher que se penteia.
Pede-lhe o vento norte segurança,
Toca-lhe o pé água de fresco poço;
Eu, tornado a meus olhos de criança,
Em seu casto perfil me sinto moço.
Seus ramos vejo como via os anjos
Que à vida me trouxeram pequenino.
Ó imaginação, que altos arranjos
Fazes às coisas simples transtornadas:
Vinhas em flor, um breve freixo fino,
Cães, colmeias sem mel, águas passadas! »
Vitorino Nemésio
in Nem toda a noite da vida, 1953
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2.3.07
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7.2.07
Vida
.
bolota de Quercus coccifera (Arrábida 2001)
Do que a vida é capaz!
A força de um alento verdadeiro!
O que um dedal de seiva faz
A rasgar o seu negro cativeiro!
Ser!
Parece uma renúncia que ali vai,
É um carvalho a nascer
Da bolota que cai!
Miguel Torga Diário II
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7.2.07
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20.1.07
Todas as árvores apaziguam o espírito
«Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.
Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.»
"Infância", in Três Rostos,1989
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
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20.1.07
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17.1.07
Rezo, dobrado, aos Anjos da manhã.
O céu é fosco e o coração sonoro
Como a chuva que cai na telha vã
E o verbo com que imploro.
Terra de lume implanta
O meu corpo de velho
Enrolado na manta.
As minhas mãos estão postas ou podadas?
Sou gente ou vide?
O chão, com minhas folhas amontoadas,
Do Inferno me divide.
Mas rezo sempre, como o fio da fonte
Teima na rocha viva ao mar virada
Na esperança de que um cântaro desponte
E o apare ainda - ou a covinha breve
Que, tremendo o queimor da água salgada,
Ele próprio em pedra abriu
Como na terra leve,
Ajudado dos álamos, o rio.
Vitorino Nemésio
"Terra de Lume", in O Pão e a Culpa (1955 )
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17.1.07
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3.1.07
"Não me posso conformar..."
Ao ler (via PJ ) na página da Associação dos Amigos do Mindelo a relação da incrível quantidade de detritos que encontraram ao longo do areal, lembrei-me com nostalgia do belo poema de José Régio. Será que ele se conformaria? E que diria deste megaprojecto?
«Vila de Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar...
- Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.
Vento norte, ai vento norte,
Ventinho da beira-mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é minha terra natal!,
Nenhum remédio me vale
Se me não vens cá buscar,
Venta norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar...
Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
que em Azurara começa
E ao Porto vai acabar...,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale!
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar...
Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.
Bom cheirinho dos pinheiros..
Sei de um que quase te vale:
É o cheiro da maresia,
- Sargaços, névoas e sal -
A que cheira toda a vila
Nas manhãs de temporal.
Ai mar de Vila do Conde~,
Ai mar dos mares, meu mar!,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale.
Nenhum remédio me vale,
Nem chega a remediar...
Abria de manhãzinha
As vidraças par em par.
Entrava o mar no meu quarto
Só pelo cheiro do ar.
Ia à praia, e via a espuma
Rolando pelo areal,
Espuma verde e amarela
Da noite de temporal!
Empurrada pelo vento,
Que em sonhos ouço ventar,
Ia à praia, e via a espuma
Pelo areal a rolar...
(...)
Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Não me posso conformar... »
José Régio>
"Romance do Vila de Conde", in Fado (1941)
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25.12.06
Paisagem
.
Debaixo da
oliveira
verde
calma
A mãe bate palmas
O pai bate palmas
O menino bate palminhas
A mãe diz:
-Filho da minha alma!
O pai diz:
-Filho da alma minha!
Matilde Rosa Araújo, Mistérios (Livros Horizonte, 1988)
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25.12.06
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20.10.06
Era uma árvore
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Jacarandá do Parque de S. Roque, abatido em 2006
Era uma árvore no passeio
e fosse tempo claro ou feio,
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho.
E foi vivendo. Viver gasta
músculo e flama de ginasta,
quanto mais uma arvorezinha
meio garota-de-sombrinha.
Carlos Drummond de Andrade, Viola de Bolso
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18.8.06
Árvores intensas Casas de trapo
Chilreia a chuva Coxeia a cama
Frutos votivos Cal calejada
Ponte romana
Luiza Neto Jorge
(Silves 83. Poesia, Assírio & Alvim. Lisboa 2001)
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29.5.06
«essa árvore é perfeita
«essa árvore é perfeita
pena que as folhas são verdes
e caem, sujando minha ignorância
pena que as raízes são subterrâneas
e profundas - e eu tão superficial
pena que o tronco tem casca externa
pena que as flores não combinam
com a cor do novo carro que comprei
pena que, um dia, insatisfeito,
terei que cortá-la e não plantar outra no lugar
pena que os frutos são comestíveis demais
e atraem pássaros barulhentos e indesejáveis
pena que não dê sombra à noite
pena que não abane o rabinho
quando chego em casa
pena que cresça para cima
pena que produza oxigênio
pena que não seja de ferro, plástico e papel celofane
pena que o perfume das flores seja apenas aroma
pena que seja apenas uma árvore»
Poema inédito de NICOLAS BEHR
(de seu próximo livro INICIAÇÃO A DENDROLATRIA)
obrigada, nikolaus!
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29.5.06
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