Petição pelo regresso dos goivos

Metrosideros excelsa - avenida de Montevideu, Porto
Até 2001 havia flores e canteiros à sombra destes metrosíderos; havia o som e o cheiro do mar que uma sebe ocultava; havia uma fonte circular jorrando água por muitas bicas. Mantêm-se as árvores e o mar, agora à vista de todos pelo derrube da sebe, mas de resto tudo se foi. A fonte, em estado de ruína, já não sabe fazer cantar a água.
Sob os metrosíderos, em vez de flores, espalharam tapetes de conchas: escuras, frágeis, todas iguais, nem aos coleccionadores poderiam interessar. Tê-las-ão trazido como oferenda, já que as árvores não podiam descer à praia para recolhê-las? Teriam função decorativa? Ou, quem sabe, talvez desse modo se fornecesse às árvores a dose diária de cálcio recomendada pela UE e pela indústria de laticínios. Isto admitindo que as conchas têm cálcio na sua composição (palpita-me que sim) e que as árvores, como as crianças e os idosos, precisam dele para fortalecer os ossos. Ainda assim, custa-me imaginar o mesmo arquitecto que as quis abater no papel da figura maternal que lhes leva à boca (ou à raiz) a colher de iogurte.


Erysimum cheiri (goivos)
As flores têm feito um tímido regresso: nesses tanques secos, geométricos, vão surgindo Gazanias e Lampranthus; mas, apesar de vistosas, essas são flores burocráticas, que em cada dia não trabalham mais do que xis horas, não chegando sequer a abrir o expediente em dias foscos. Pior do que tudo, não deitam cheiro que possa temperar a maresia. Por isso é imperativo o regresso dos goivos que até 2001 perfumavam a avenida de Montevideu, logo antes do Castelo do Queijo. E há outra razão de peso que tem a ver com a defesa e preservação da língua de Camões: como podemos desprezar uma flor com um nome tão eufónico como goivo? Nenhum outro idioma lhe reservou palavra tão bonita: os franceses chamam-lhe giroflée, os ingleses wallflower, e os alemães sabe-se lá o quê. É certo que já falámos várias vezes de goivinhos, mas o diminutivo perde ressonância e poder evocativo se não conhecermos os goivos genuínos. Seria como lembrarmo-nos apenas do santinho dos espirros, tendo esquecido o que é um santo devidamente canonizado: em vez do mártir ou asceta de vida heróica e pose arrebatada, só nos viria à lembrança um sujeito de nariz pinguço, sempre a puxar do lenço.




























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