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27.12.16

Posfácio

Escrevi este texto, por convite, em Janeiro de 2015, para servir de posfácio a uma edição ilustrada do conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono. Dois anos depois, é inevitável concluir que a edição encalhou de vez. Mesmo que alguma vez saia do prelo, não é certo que inclua o texto tal como está. Acho que ele merece ser lido, e aproveito a ocasião para o ilustrar a meu gosto. Mais do que um comentário ao conto de Jean Giono, trata-se de uma celebração dos carvalhos e dos carvalhais.

Plantar árvores: porquê, onde e quais?

Elzéard Bouffier, o protagonista do conto de Jean Giono, fez com que uma região árida se transfigurasse ao plantar centenas de milhares de árvores. A água regressou aos ribeiros e às fontes, os vales voltaram a ser férteis e a recompensar os cultivadores, voltaram as flores e os pássaros, aldeias outrora em ruínas foram reocupadas por uma nova e esperançosa geração. Se as árvores puderam fazer tudo isso; se sabemos, além do mais, como elas tornam respirável o ar que nos envolve, e como é agradável a sua sombra nos dias de estio - então plantar árvores, e quantas mais melhor, é indiscutivelmente uma boa ideia.
Contudo, uma boa ideia mal executada pode ser contraproducente. Nem todos os lugares são indicados para o plantio, nem todas as épocas do ano são ideais para essa tarefa, nem todas as árvores são igualmente desejáveis, nem toda a gente domina as competências úteis para uma operação bem sucedida. E, em muitas ocasiões, é mais acertado e valioso plantar árvores na cidade (seja para arborizar uma rua, um jardim ou um parque) do que em espaços naturais.
Portugal é um país bastamente arborizado, sobretudo no norte e centro do seu território. Só na extensa planície alentejana, onde os esparsos povoamentos de sobreiros e azinheiras se estendem sem fim à vista, é que nos domina a impressão de serem escassas as árvores para uma província tão vasta. E mesmo aí o cenário muda ao sermos confrontados com olivais intensivos em que as árvores se concentram aos milhares por hectare. No resto do país, vemos desfilar eucaliptais, pinhais e acaciais em formação cerrada ao longo de auto-estradas, vias rápidas e estradas nacionais. Todas essas árvores cumprem tarefas ambientais da maior importância, a começar pelo tão falado «sequestro do carbono». Só que, além da vertente global em que se joga a habitabilidade futura do planeta, as nossas preocupações com o ambiente devem atender a aspectos locais, em que a palavra-chave é «biodiversidade». Numa plantação de eucaliptos (ou de pinheiros, ou de choupos-negros) o ar pode ser puro e revigorante, as águas do ribeiro podem ainda correr frescas e cristalinas. De facto, se forem esses os únicos parâmetros de comparação usados, talvez o eucaliptal não seja assim tão inferior ao carvalhal. Mas um carvalhal maduro tem muita coisa além dos carvalhos: tem prímulas, anémonas, lírios, hipericões, morangueiros, gerânios, gilbardeiras, madressilvas, selos-de-Salomão, violetas, narcisos e jacintos; tem variadíssimos fetos, musgos, fungos e líquenes; tem medronheiros, azevinhos, padreiros, loureiros e azereiros; tem os vermes e insectos que se alimentam da profusão vegetal, e os pássaros e reptéis que fazem pasto dos insectos; tem esquilos, javalis e corços. Em contraste com a vida exuberante de uma genuína floresta, uma plantação florestal é um deserto verde.
Assim, se a nossa motivação for dar uma mãozinha à natureza, é preferível plantarmos carvalhos e outras árvores autóctones, mais capazes de interagir com a vida à nossa volta do que as árvores originárias de outros países ou continentes. Devemo-nos lembrar, porém, de que as árvores já existiam no planeta antes de surgir a espécie humana, e que elas sabem reproduzir-se sem a nossa ajuda. Em espaços onde a natureza foi preservada ou tem condições para se regenerar, é talvez preferível acarinhar aquele rebento de carvalho que nasceu espontaneamente em vez de insistirmos em plantar o nosso. Nesses lugares, a exemplo do que fez Elzéard Bouffier, é quase sempre melhor semear do que plantar, tendo o cuidado de fazer uso, sempre que possível, de sementes fornecidas pelas árvores que já lá existam.
E será que, se dispusermos (luxo improvável nos dias de hoje) de um terreno amplo, e formos capazes de igual paciência e sabedoria, podemos ao fim de muitos anos criar uma floresta tal como fez Elzéard Bouffier? As centenas de anos que leva um carvalhal maduro a estabelecer-se dificilmente podem condensar-se nas poucas décadas em que decorre uma vida humana. Mas talvez consigamos uma biodiversidade razoável se não sujeitarmos o nosso projecto de floresta à mesma limpeza cega e obsessiva com que nos jardins urbanos se aparam os relvados.
Se, em muitos lugares, a melhor ajuda que podemos dar à natureza é não a perturbar, abdicando com humildade de deixar a nossa marca, já na cidade o caso é outro, pois a maioria das árvores que lá existem tiveram mesmo que ser plantadas. E aí plantá-las é uma questão de saúde pública, tanto física como mental. Já não se trata de imitar a natureza, mas de dela tomar de empréstimo algo que amenize o artificialismo do meio urbano. Seleccionar a árvore adequada para cada local (em rua estreita ou jardim acanhado não cabem carvalhos nem plátanos); plantá-la na altura certa (quando caem as primeiras chuvas do Outono); não esquecer que, depois de plantada, a árvore vai precisar das nossas atenções durante dois ou três anos para não morrer à míngua de água: eis algumas das preocupações a ter em conta. E, se certas árvores exóticas (como a tília, o plátano, o ginkgo, o tulipeiro e as diversas magnólias) são excelentes para as cidades, tanto pela sua resistência à poluição como pelas suas virtudes ornamentais, não seria mau dar às nossas árvores autóctones, que têm sido tão ignoradas, algum protagonismo na arborização urbana. Além dos carvalhos, sobreiros, azinheiras, lódãos e padreiros (os dois últimos já plantados com alguma assiduidade em jardins e arruamentos), poder-se-iam usar loureiros, azevinhos, azereiros, bétulas, zelhas, cerejeiras, freixos, sanguinhos e pilriteiros: entre árvores de folha caduca ou de folha perene, de grande, médio ou pequeno porte, umas que resistem melhor ao frio e outras ao calor, são muitas as possibilidades de escolha.
Não sendo esta a ocasião para descrever todas essas árvores, não queremos deixar de falar do carvalho, esse construtor de florestas. Na verdade são várias as árvores designadas por esse nome, já que em geral o termo «carvalho» pode aplicar-se a todas as espécies arbóreas ou arbustivas do género Quercus, das quais se contam pelo menos oito em Portugal. O que todos os Quercus grandes ou pequenos têm em comum são as sementes em forma de bolota. Contudo, é mais corrente reservar-se o nome «carvalho» para as árvores de folhagem caduca ou marcescente, já que as espécies perenifólias como o Quercus suber (sobreiro), o Quercus rotundifolia (azinheira) e o Quercus coccifera (carrasco) são amplamente conhecidas por outros nomes. Usando essa terminologia mais estrita, são quatro as espécies arbóreas a que em Portugal chamamos carvalho. Um deles, o Quercus canariensis, só existe por cá na serra algarvia de Monchique, e daí o ser conhecido como carvalho-de-Monchique. Muito semelhante no porte e na folhagem é o Quercus faginea (carvalho-cerquinho ou carvalho-português), que é o carvalho mais comum no Algarve e no litoral centro, reaparecendo depois na Terra Quente transmontana. É especialmente frequente no Maciço Calcário Estremenho, onde é a principal árvore nos bosques naturais mais bem conservados. Árvore de médio porte, não ultrapassando os 20 metros de altura, de copa larga, as suas folhas são aproximadamente elípticas, com margens dentadas. Os dois restantes carvalhos portugueses têm folhas profundamente recortadas (ou lobadas), mais de acordo com a imagem tradicional que temos dessas árvores. O Quercus robur (carvalho-alvarinho ou carvalho-roble), capaz de exceder os 30 metros de altura e de viver várias centenas de anos, é tido em grande parte da Europa como o carvalho por excelência, tanto pelas históricas florestas em que era (e é) a árvore dominante como pela madeira que fornece, uma das mais estimadas em marcenaria. Era nestas árvores que o druida da aldeia de Astérix se empoleirava para colher o visco, ingrediente indispensável para a confecção da poção mágica; e foram estes os carvalhos com que Elzéard Bouffier criou de raiz a sua floresta. Em Portugal, o carvalho-alvarinho, que se distribui sobretudo pelo quadrante noroeste do país (Minho, Douro Litoral e Beira Litoral), pode ser apreciado como árvore isolada (vários são os exemplares multicentenários classificados como «árvores de interesse público») mas também formando bosques mais ou menos extensos. Os nossos melhores carvalhais encontram-se no Minho, e no Gerês é justamente famosa a Mata da Albergaria, que alberga uma biodiversidade ímpar. Se avançarmos para o interior do país, ultrapassando a linha do Gerês, Marão, Montemuro e Estrela, o carvalho-alvarinho vai sendo gradualmente destronado por um carvalho de menor porte e madeira menos nobre, o carvalho-negral, que tem o nome científico de Quercus pyrenaica e é também conhecido como carvalho-pardo-das-Beiras. As folhas do carvalho-negral são mais largas e recortadas que as do carvalho-alvarinho, mas o modo mais expedito de as reconhecer é pelo tacto, já que elas são macias, quase felpudas, ao passo que as do carvalho-alvarinho são glabras. Frequente no interior norte e centro do país, desde a serra de Montesinho, em Bragança, até à serra de São Mamede, em Portalegre, o carvalho-negral tem uma grande capacidade de regeneração após o fogo, formando matos baixos e densos em áreas recém-ardidas. Menos comuns são os carvalhais bem desenvolvidos, mas vão ocorrendo aqui e ali ao longo da área de distribuição da espécie, com os mais notáveis exemplos a concentrarem-se no nordeste transmontano, em especial nas serras de Montesinho, Nogueira e Bornes.
Resulta desta dissertação que, se o leitor quiser valorizar o seu jardim ou o seu terreno plantando ou semeando carvalhos, então deverá escolher aquele que melhor se adapte ao clima e às características do solo da sua região. Em Lisboa e em toda a faixa litoral daí até Coimbra, onde predominam os solos calcários e o clima é acentuadamente mediterrânico, a opção pelo carvalho-cerquinho é quase uma (agradável) necessidade. No entanto, há nichos que podem comportar excepções, como a serra de Sintra: pela abundância de sombra e frescura, trata-se de um autêntico enclave nortenho às portas de Lisboa, onde é sabido que o carvalho-alvarinho vegeta alegremente. Subindo de Coimbra até ao Minho, e mantendo-nos mais ou menos a oeste da linha recta que passa por Seia (na serra da Estrela) e Vila Real (nos contrafortes do Marão), encontramos as regiões mais pluviosas e fartamente arborizadas do país: é o território do carvalho-alvarinho, escolha indiscutível do carvalho-a-plantar para quem lá vive. Mas mesmo aí já começa a aparecer o carvalho-negral, e não apenas nas altitudes mais elevadas onde costuma ser preponderante. Na Beira interior e na Terra Fria transmontana o caravalho-negral é a escolha de eleição, mas quem more em Vila Real ou noutro ponto da difusa linha de fronteira entre as duas espécies pode dar-se ao luxo de plantar carvalhos-negrais e carvalhos-alvarinhos à mistura.
Porto, Janeiro de 2015
Paulo Ventura Araújo

21.6.08

Jardins japoneses

Foi anunciado em Lisboa, no final de 2004, que iria abrir ao público em Belém no Verão seguinte um jardim japonês composto por 461 cerejeiras; tratava-se de uma iniciativa da Associação de Amizade Portugal-Japão, apoiada pela Câmara Municipal, para celebrar o 461.º aniversário das relações luso-nipónicas. Em Setembro de 2006, porém, o Jornal de Notícias noticiava que a inauguração não tinha ainda data marcada, apesar de as obras da primeira fase estarem concluídas. É que as cerejeiras revelavam dificuldades em vingar, e a afluência de visitantes ao local poderia prejudicá-las. Além disso, como seria exagerado enfiar 461 cerejeiras num terreno de apenas 6000 m^2 (o que daria 13 m^2 de espaço vital para cada árvore), acabaram por ser plantadas só 170. Não sei se alguma vez houve inauguração, mas de 2006 para cá as coisas foram de mal a pior: como contou António Barreto há duas semanas no Público (pode ler a crónica na Sombra Verde), praticamente todas as árvores morreram. Isso mesmo tinha sido denunciado, em Dezembro de 2007, pelo blogue Cidadania LX, que falava ainda do relvado seco e do sistema de rega inoperante. Um único consolo é possível tirar de tamanho fiasco: por não terem chegado a ser plantadas, houve 291 cerejeiras que não morreram.

O erro mais clamoroso do projecto terá sido o local escolhido para as cerejeiras. Em 2001, no Porto, deu-se um caso semelhante: apesar dos avisos em contrário, plantaram-se oliveiras à beira-mar na requalificada rotunda do Castelo do Queijo, e secaram todas em poucos meses. Cada vez mais - em Lisboa, no Porto e no país - os nossos jardins são planeados por quem nada entende de plantas e de jardinagem; o resultado é o desperdício de dinheiro e o desmazelo no espaço público.

Além do projectista ignorante, há outra figura que explica, desta vez pela ausência, o nosso reiterado insucesso: é o jardineiro. Sem ele, não há Câmara Municipal que consiga manter decentemente os jardins ou espaços verdes inaugurados com pompa e circunstância. Nos países onde essa profissão é acarinhada, os jardins, em vez de degenerarem em caricaturas de si próprios, crescem em beleza e maturidade. Gosto de imaginar que esta estátua no Holland Park, em Londres, à qual só falta um carrinho de mão, é uma homenagem aos jardineiros que lá trabalham ou trabalharam, e a quem se deve a beleza serena de lugares como o Jardim de Quioto.



O Jardim de Quioto existe desde 1991. É um simples lago com cascata rodeado por um caminho e por meia-dúzia de árvores: tulipeiro, bétula, pinheiros, áceres arbóreos e arbustivos. Há rochas, maciços de azáleas, uma sebe mista, quatro ou cinco bancos bem espaçados. Cada elemento deste pequeno espaço - seja ele vegetal ou inerte - parece estar no lugar exacto. Mas o jardim que hoje vemos não foi assim criado, completo e imutável, no dia em que se cortou a fita: é um trabalho diário de amor e paciência, feito por quem sabe do seu ofício.




Jardim de Quioto - Holland Park - Londres

11.6.07

A ler- "Planar sobre a copa das árvores"



N' O Primeiro de Janeiro : «Passeio à descoberta de exemplares monumentais
Um passeio destinado a visitar as árvores monumentais do Porto levou ontem 50 pessoas à Cordoaria. O objectivo passa pelo enquadramento da ancestralidade das árvores na evolução da cidade e na consciencialização da necessidade de preservar esse património arbóreo.

"Quantos anos tem?". "De onde é originária?". "Qual a altura máxima que alcança?". As perguntas escorriam, umas após as outras, à medida que os olhares percorriam aquele colossal ser vegetal que habita na Alameda dos Plátanos, na Cordoaria.

Foi ali que cerca de meia centena de pessoas se reuniram, para participar no passeio «Rota das Árvores Monumentais», organizada numa parceria entre a Câmara Municipal do Porto, a Fundação Porto Social e a editora Gradiva. "Não esperava esta adesão surpreendente" , confessa, notoriamente satisfeita, Maria Pires de Carvalho, docente da Faculdade de Ciências do Porto, co-autora do livro À Sombra de Árvores com História e a guia da visita, que se esforça por saciar a curiosidade que a atinge de todas as direcções.

"Esta sequóia é originária dos Estados Unidos" (...) O tronco, espesso e enrugado, ergue-se dezenas de metros, ligeiramente debruçado sobre o pequeno lago da Cordoaria.
A poucos metros ao lado, a atenção de todos é subitamente revertida para uma estátua. O monumento encontra-se ali desde 1904. A individualidade que homenageia morreu seis anos antes. (...) José Marques Loureiro (1830-1898) criou o "Horto das Virtudes", jardim também conhecido como "Passeio das Virtudes", actualmente fechado ao público. .............................................................................
A ler também no Jornal de Notícias: «Árvores contam histórias das gentes e da cidade - Rota das árvores monumentais juntou entusiastas desde a Cordoaria aos jardins do Palácio, no Porto- (...) "As árvores também são património a preservar e fazem falta à cidade". Além disso, "têm uma história antiga associada" ao Porto, notou, explicando que o passeio visou sensibilizar as pessoas para a necessidade de proteger as árvores. Na Casa Tait, a resposta foi simbólica: 13 pessoas deram as mãos à volta de um tulipeiro para o medir. »

20.4.07

Tulipeiro revisitado


Tulipeiro (Liriodendron tulipifera) -Casa das Artes- Porto
Ver álbum de fotos

3.8.06

Jardim e mata protegidos


Santo Inácio: carvalho-alvarinho, rododendros e Eucalyptus obliqua

O arvoredo oitocentista da Quinta de Sto. Inácio, que inclui uma colecção notável de camélias portuguesas, rododendros e kalmias, além de majestosos carvalhos, pinheiros mansos (cujo registo de plantio data de 1800), eugénias, avelaneiras, azevinhos, azereiros e cuningamias - companhias de uma elegante araucária brasileira e um venerando tulipeiro - está finalmente classificado como de interese público. Uma distinção atribuída ao jardim romântico e à mata da Quinta pela Direcção-Geral de Recursos Florestais (Diário da República, 2ª Série - Nº 146 de 31 de Julho de 2006 - cópia aqui) que aguardávamos com expectativa dada a ameaça de construção de uma via rápida que iria truncar a ala nascente da propriedade.

Há na Quinta outro conjunto de árvores digno de nota: várias espécies de eucaliptos criados de sementes australianas recebidas por Roberto e Christiano Van-Zeller da Sociedade de Divulgação do Eucalipto por troca de sementes de couve galega, como documenta uma carta do Departamento de Agricultura de Victoria, de Dezembro de 1911, na posse dos herdeiros.

19.4.06

Simetria



Aprendemos em pequeninos que uma dobra num rectângulo de papel, seguida do corte de um modelo, produz, abrindo-se a página, uma figura com simetria relativamente à linha de dobragem. Assim fizemos frisos de pássaros, peixes, conchas, bonecas e letras. Pois foi justamente este o procedimento que os tulipeiros adoptaram para fabricar as suas folhas.

Ao contrário da maioria das plantas, cujas folhas nascem inteiras, mas minúsculas, crescendo depois sem perder o formato inicial, o tulipeiro começa por fabricar apenas metade de cada folha; esta replica-se uns dias mais tarde como se desdobrasse uma página vincada.

A forma das folhas tem um interesse adicional: elas lembram silhuetas de gatos, com orelhas e bigodes perfeitamente desenhados. Para rematar tanta sabedoria, a floração ocorre em simultâneo com a folhagem nova e as flores são lindas tulipinhas com laivos cor-de-laranja e bordo caprichosamente revirado.

Por tudo isto aqui fica a sugestão: o tulipeiro mais majestoso do Porto está no jardim da Casa das Artes, na rua António Cardoso.

25.11.05

Árvores da Casa do Passadiço

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Há dois anos, tive que "fazer horas" na zona mais antiga de Braga e deambulei como é meu costume nas cidades: procurando as árvores das quais avisto apenas o cimo da copa ou os ramos entre as casas. As descobertas são sempre agradáveis: casas antigas, jardins, pequenos largos.

Nessa tarde cinzenta de Novembro o resultado foi surpreendente e começou logo no pequeno Largo São João do Souto onde, em vez de castanheiros ou carvalhos, encontrei duas magníficas árvores na chamada Casa do Passadiço: um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) no auge da sua beleza outonal e uma Ginkgo biloba com a folhagem ainda verde. (ver outra foto aqui)

Na Casa do Passadiço pode mesmo... passar-se e por isso não há entraves à fruição das árvores que aliás se avistam perfeitamente do Largo. (Esta casa senhorial do XVIII que deve o seu nome ao facto de nela existir uma passagem pública está actualmente transformada numa loja de decoração.)



Tulipeiro (Liriodendron tulipifera) Braga- 11.2003

De copa de árvore em copa de árvore fui dar a outro tulipeiro* de porte invulgar nos Jardins do Museu dos Biscainhos , árvore que deverá ter mais de 200 anos. Como já se aproximava a hora de encerramento ao público não tive tempo de visitar o Jardim mas simpaticamente deixaram-me ir espreitar o tulipeiro, não sem antes me advertirem que não poderia tirar fotografias. Nem à árvore? Nem à árvore. Só com autorização. A minha reacção actual para estas directivas provincianas dos nossos ciosos zeladores do património é um grandessíssimo encolher de ombros e só não publico a foto que tirei porque realmente a luz já estava fraquíssima (e entretanto ainda n. lá voltei). .

* Ver algumas fotos desse magnífico tulipeiro e do Jardim (da autoria dum nosso amigo também do Norte).

2.2.05

As primeiras árvores classificadas no Porto

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As primeiras classificações de árvores de interesse público ocorreram em 1939: catorze em todo o país, das quais três na cidade do Porto, tendo sido estas últimas por proposta do professor Américo Pires de Lima (então director do Departamento de Botânica "Dr. Gonçalo Sampaio").
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Destas três árvores monumentais portuenses classificadas em 1939, apenas sobrevive um enorme tulipeiro (Liriondendron tulipifera), actualmente em pleno recreio da Escola E.B.1 nº 47 -João de Deus (na rua de João de Deus, transversal de Pedro Hispano). Com a provecta idade de 300 anos e apesar de podada violentamente, a árvore floresce todos os anos, marcando o ponto impreterivelmente com as suas flores em forma de túlipa, razão de ser do seu nome vulgar.
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Para além deste tulipeiro, foram então igualmente classificados o velho ulmeiro da Cordoaria, impropriamente apelidado de Árvore da Forca, e o não menos antigo pinheiro manso do "Pinheiro Manso". Este último pouco tempo sobreviveu à classificação pois foi derrubado pelos ventos do ciclone de 1941; o ulmeiro aguentou-se já muito diminuído até 1986.

Tulipeiro da Casa Tait

Fotos: mdlramos 04
Em 1951, foi classificado o magnífico tulipeiro da chamada casa Tait, na rua de Entre-Quintas, (propriedade pertença desde 1978 da Câmara Municipal do Porto). O tronco mede cerca de 8, 50 m. de perímetro à altura do peito (ver foto em artigo no Naturlink) e a sua bela ramagem ergue-se a mais de 25 metros de altura, bem acima das casas e do restante arvoredo do jardim.

A concluir esta curta lista temos duas japoneiras de um jardim privado na freguesia de Paranhos, classificadas em 1992 por iniciativa da proprietária.

A foto destas últimas árvores assim como os três mapas que reproduzimos encontram-se na publicação Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público Instituto Florestal (1995), que pode ser encomendada na Biblioteca da Direcção Geral dos Recursos Florestais.

Ver: Árvores classificadas no Porto em 2005

24.8.04

O Parque de Vizela 120 anos depois




O Parque das Termas em Caldas de Vizela foi criado entre 1884 e 1886 pelo famoso horticultor portuense José Marques Loureiro, proprietário do Horto das Virtudes, e pelo jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa, autor dos jardins de Arca d'Água, do Carregal e de outros históricos jardins do Porto. O Parque apresenta sinais de degradação, como seja o avanço das acácias e dos eucaliptos na sua periferia, e as poluídas águas do rio Vizela não ajudam a compor o bucolismo ideal; mas as árvores que Marques Loureiro plantou atingiram um desenvolvimento luxuriante, emprestando ao local uma imponência e solenidade únicas: não conhecemos no país nenhum outro parque ou jardim com tal concentração de árvores gigantescas.

Nestas fotos vemos algumas dessas árvores: à direita em cima um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) cujo tamanho se pode avaliar comparando com o da figura humana em primeiro plano; em baixo, também à direita, uma tília de dimensões semelhantes; e, à esquerda em baixo, uma Sequoia sempervirens (das muitas que há no Parque rivalizando em porte com as do Buçaco) eleva a sua flecha bem acima da concorrência.

Esta história é para continuar: amanhã publicaremos um texto de 1886 de José Duarte de Oliveira, redactor do Jornal de Horticultura Prática, descrevendo as obras de construção do Parque das Termas, verdadeiro mostruário desse estabelecimento ímpar da horticultura portuguesa do século XIX que foi o Horto das Virtudes.
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