11/09/2010

Desaparecida


Epipactis palustris (L.) Crantz


Epipactis palustris var. ochroleuca

Desde a chegada do doutor Haselmayer até à sua partida, o egrégio senhor conde e o seu respeitável hóspede costumavam passar o tempo todo juntos, sem comerem, sem tocarem nas cobertas da cama, a falar constantemente da Lua, com um fervor misterioso que eu não conseguia entender. A sua exaltação atingia o auge quando a lua cheia calhava justamente no dia 21 de Julho: de noite, iam ao pequeno charco pantanoso do castelo e passavam horas e horas de olhos fixos na água, contemplando a imagem argêntea do disco celeste. Uma noite, ao passar casualmente pelo local, cheguei mesmo a ver os dois senhores a lançarem à água uns pedaços esbranquiçados - muito provavelmente, miolo de pão - e quando o doutor Haselmayer se apercebeu, disse prontamente:
- Estamos só a dar de comer à Lua... oh, perdão, queria dizer ao... ao cisne.
Mas a perder de vista não havia um cisne que fosse. Nem um peixe.

O que ouvi, por acaso, nessa noite pareceu-me estar ligado por um laço misterioso à cena a que assistira, pelo que se me gravou na memória, palavra por palavra, e logo o transcrevi fielmente.
- (...) Seria um mal assim tão grande?
- Mal? Inconcebível! Tremendo! - vociferou o conde com a sua voz estridente. Pensai um pouco: o homem dotado da capacidade de propagar a civilização no cosmos! Como pensais que seria a Lua passadas duas semanas, meu caro? Em cada cratera haveria um velódromo e, a toda a volta, terrenos de decantação das águas de esgoto. Se é que, antes disso, não se imiscuiu a chamada arte dramática, e o solo não se tornou árido, eliminando para sempre qualquer possibilidade de vegetação. Gostaríeis porventura que os planetas estivessem ligados telefonicamente de acordo com a hora das cotações da Bolsa, e que as estrelas duplas da Via láctea fossem obrigadas a exibir certificados oficiais de casamento? Não, não, meu caro, por mais algum tempo o universo pode muito bem ir vivendo na rotina do costume.

Gustav Meyrink, Die Vier Mondbruder [Os quatro irmãos da Lua] (A Biblioteca de Babel, textos seleccionados por Jorge Luis Borges, Ed. Presença, 2007)

10/09/2010

Dos rios que correm no Oeste


Darmera peltata (Torr. ex Benth.) Voss

Também eu, que visitei os EUA uma única vez, trago comigo uma América mental em nada enriquecida ou modificada por tão breve estadia. Trago até várias: a América dos filmes (quem pode hoje escapar dela?) e a América dos livros para rapazes que li na transição para a adolescência. São duas Américas incomunicantes: uma está cristalizada, a outra renova-se a cada ida ao cinema. A América dos filmes confunde-se com o mundo inteiro, mas a que me ficou das leituras desordenadas só a mim pertence.

Que livros eram esses? Lembro-me das biografias dos heróis do Oeste (Davy Crockett, Buffalo Bill, Kit Carson) e sobretudo de um livro com o título A caminho de Ohio. Sei hoje que o estado de Ohio não é propriamente no extremo oeste do continente americano, mas a história da família que venceu dificuldades inconcebíveis para chegar à terra prometida (paisagens verdejantes, rios banhando solos generosos) ficou-me a simbolizar a saga dos pioneiros que atravessam continentes. Quem deixasse para trás o Atlântico só alcançando a costa do Pacífico poderia fugir ao deserto: era assim a minha geografia do Novo Mundo. E não guardei os livros que sustentaram tal tresleitura. Se calhar eram maus livros, tal como eu era mau leitor. Registo que a autora de A caminho de Ohio (que na língua original se chamou By wagon and flatboat e teve a primeira edição em 1938), apesar de usar o nome sonante de Enid La Monte Meadowcroft, foi muito maltratada pela posteridade. Não há edições correntes dos seus livros e nem sequer a Wikipedia a conhece.

Como hoje tais livros ingénuos já não me fazem viajar, recorro às plantas. Para despoletar o efeito alucinogénio (muito moderado, é certo) basta vê-las e conhecer-lhes a história. A Darmera peltata, por exemplo, é originária de uma faixa que se estende do norte da Califónia ao sul do Oregon, onde vegeta nas margens de riachos de montanha. Quantas vezes os heróis do Oeste (ou os vilões por eles perseguidos) não pernoitaram com as suas montadas (no Oeste não há cavalos, só montadas) junto a um desses riachos floridos? Infelizmente os digests biográficos para crianças ou adolescentes não se detinham em descrições do mundo natural. Só agora, já adulto, é que a imagem fica completa.

A Darmera peltata é peculiar por as inflorescências - em hastes que podem superar 1 m de altura - surgirem desacompanhadas da folhagem. As folhas, que aparecem só no Verão e têm cerca de 60 cm de comprimento, são lobadas e ligam-se aos pecíolos pelo centro da face inferior. Esse arranjo, que faz lembrar um guarda-chuva e aliás explica o epíteto peltata, justifica que um dos nomes comuns da espécie seja umbrella plant.

09/09/2010

Elegância no parque de estacionamento


Linaria elegans Cav.

Há tempos, propusémos que os postes e muros feios das cidades, construções recentes mas descascadas ou invadidas por grafitos, recebessem mantos de plantas viçosas que escondessem a deselegância e a inconveniência. Não é só pela mão de Patrick Blanc que as plantas sobem pelas paredes. A mesma solução serve para os desertos de cimento que encimam ou bordejam os sumptuosos parques de estacionamento - quase sempre vazios - que, por obra do progresso, usurparam algumas belas praças do país. Para a escolha das espécies vegetais, aqui deixamos uma sugestão.

Há cerca de 150 espécies no género Linaria, distribuídas pela Europa temperada, Norte de África e centro-oeste da Ásia, sendo a maioria natural da Península Ibérica, com uma orgulhosa percentagem lusa. O que, ponderemos, não é surpresa. Estas plantas anuais não exigem, em geral, demasiados nutrientes do solo; por exemplo, a da foto, natural do norte de Portugal e Espanha, prospera em torrões secos, ácidos e pobres. Enfim, como sempre, há caprichos e algumas populações estão em declínio, seja por falta de argila, de xisto ou de calcário. Contudo, a grande maioria parece beneficiar da existência de lugares abertos, rochosos, soalheiros e sem competidores. Ora, clareiras nos matos e pastos carecas em bosques são algumas das nossas especialidades a que a rotineira e incendiária limpeza florestal de Verão garantem perenidade.

Dando argumentos à afamada arquitectura citadina dos lajedos sem rodriguinhos, que não nega aos automóveis a justa primazia, algumas plantas vão mais longe no seu apreço pelos nossos rituais de apropriação do mundo, despontando nas fendas do macadame que reveste os lugares de estacionamento. Encontrámos estes exemplares de Linaria elegans num desses espaços de piso britado para dezenas de viaturas em Pitões das Júnias, uma aldeia situada a 1200 metros de altitude e dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

As variações morfológicas no género Linaria tornam árdua a tarefa de identificar as espécies, muitas vezes bem sucedida apenas na presença de flores e sementes maduras. Não porém neste caso. As flores, cujo cálice é formado por cinco sépalas desiguais esbranquiçadas ou tingidas de cor malva, têm o formato típico das linárias (corola de pétalas unidas num tubo com dois lábios, o superior de duas pétalas, de entrada protegida por uma bossa no lábio inferior e que termina num esporão longo (~14 mm) recheado de néctar), mas as pétalas superiores são notórias e lembram as orelhinhas alçadas de um burro. [Apesar de tudo, esta herbácea prefere a ruralidade genuína.] A haste floral é penugenta e a planta tem folhas de dois tipos: as dos ramos férteis são lineares e alternas, as dos estéreis são lanceoladas, dispondo-se as basais em verticilos de 4 ou 5.

Se não podemos sombrear com árvores os tectos despovoados dos parques subterrâneos - as raízes poderiam corroer a solidez da construção -, por que não revesti-los com uma colecção de linárias portuguesas, que condescendem em mostrar-se ao olhar rasteiro de quem vê o mundo pela janela do carro?

08/09/2010

Do Havai para Valongo

Lycopodiella cernua (L.) Pic. Serm.

O escocês Arthur Conan Doyle (1859–1930) não foi só autor de Sherlock Holmes. A certa altura até se cansou de registar os casos do eminente detective e quis livrar-se dele atirando-o por uma ravina abaixo; depois, já se sabe, teve de ressuscitá-lo, explicando de forma canhestra que ele afinal não caíra no precipício. Conan Doyle queria ser reconhecido como escritor sério, ou pelo menos não ficar amarrado a um único personagem. Escreveu vários contos sem Sherlock Holmes, romances históricos à maneira de Walter Scott (escocês), e outros de aventuras que nada ficam a dever aos de Robert Louis Stevenson (também escocês).

The Lost World, livro que Conan Doyle publicou em 1912, narra uma aventura na América do Sul. Mais ou menos no local onde Brasília seria construída, ou talvez uns milhares de quilómetros a noroeste (as indicações geográficas são imprecisas), uma expedição liderada pelo tempestuoso Professor Challenger descobre, num planalto quase inacessível, formas de vida que se julgavam extintas há milhões de anos - incluindo, claro está, todos os dinossauros que viriam a ganhar fama no Jurassic Park, mas também hominídeos (o tal missing link muito discutido na imprensa da época) e uma curiosa variedade de plantas.

O imenso planalto onde a vida pré-histórica se refugiou é de formato oval e está delimitado, a todo o perímetro, por uma ravina de uns 100 metros de altura, inclinada para dentro. É como um estádio descomunal desprovido de acessos por lapso do arquitecto. O isolamento em relação ao exterior terá protegido os dinossauros das convulsões que ditaram a sua extinção no resto da planeta.

A vida vegetal do enclave é uma miscelânea de épocas e de latitudes. As mesmas condições que salvaguardaram os dinossauros permitiram a sobrevivência das plantas suas contemporâneas; e há também plantas modernas cuja presença não carece de grandes explicações, pois as sementes têm os seus próprios meios de vencer barreiras geográficas. Suscita estranheza que o autor fale de carvalhos e faias, árvores que julgamos ser europeias, mas há árvores dos mesmos géneros (Quercus e Fagus) originárias do continente americano, pelo menos da metade norte. Damos o devido desconto e deixamo-nos embalar na aventura. As plantas primevas incluem ginkgos (confere, pois diferentes espécies desta árvore espalharam-se pelo mundo no período jurássico), fetos e equisetáceas. E poderiam incluir licopodiáceas como a planta que hoje aqui trazemos, mas admite-se que Conan Doyle não tenha sido exaustivo: ele quis afinal escrever um romance de aventuras e não um tratado de botânica.

Tanto as equisetáceas como as licopodiáceas são das plantas terrestres mais primitivas que se conhecem. Surgiram no período devónico (de 415 a 360 milhões de anos atrás), foram das primeiras a terem raízes e folhas reconhecíveis, e delas se formaram as florestas que primeiro revestiram os continentes. E eram florestas a sério, pois essas famílias botânicas incluíam árvores de grande porte, apesar de hoje, da mesma linhagem, só restarem plantas herbáceas.

A presença da Lycopodiella cernua - uma planta prostrada e muito ramificada com caules que atingem os 50 cm de comprimento - no vale do rio Ferreira, em Valongo, é ainda mais misteriosa do que a dos carvalhos e faias no mundo perdido de Conan Doyle. Não por se tratar de uma relíquia pré-histórica que se acreditava extinta e só sobreviveu em Valongo: de facto, a planta tem uma distribuição cosmopolita e é mesmo abundante em certos habitats. Mas são habitats tropicais ou temperados húmidos: Havai, América e Ásia tropicais, Macaronésia. Na Europa, a Lycopodiella cernua só ocorre em Valongo... e na Sicília. Assevera a Flora Ibérica que se trata de populações naturalizadas. Serão mesmo? Quem iria dar-se ao trabalho de importar, e logo para um vale quase desabitado em Valongo, uma planta tão pouco vistosa?

Seja qual for a explicação para a sua presença nas margens do rio Ferreira, o que é certo é que a Lycopodiella cernua é uma das plantas mais raras e ameaçadas de toda a flora portuguesa.

07/09/2010

Abrótea dos pântanos


Represa na vizinhança dos Carris - Serra do Gerês



Um lençol com este amarelo, que no fim do Verão, com os frutos, se pinta de laranja e que o gado evita porque lhe faz mal, é o que qualquer prado deseja. Com os seus 20 cm de altura, um leque de folhas achatadas, flores estreladas com cerca de 15 mm de diâmetro e enfeitadas com estames lanosos e anteras ruivas, o Narthecium ossifragum é uma planta sedutora. Para ela, e muitas criaturas e histórias, uma fotografia é sempre um testemunho incompleto.


Narthecium ossifragum (L.) Huds.

O bog asphodel é companhia vivaz de caminhantes nas montanhas do norte e oeste europeu, regiões onde encontra solo ácido guarnecido de rochas encharcadas (o que talvez justifique o epíteto latino ossifragum). Em Portugal continental restringe-se ao norte, onde chove mais entre Junho e Setembro: é que, além de apreciar água a refrescar-lhe a base de folhas, a polinização desta herbácea rizomatosa está a cargo das gotas de chuva. Os frutos cor-de-raposa foram usados em Saffron Walden, Essex, como corante e substituto do açafrão quando, no século XVIII, o Crocus sativus quase desapareceu de Inglaterra.

O género Narthecium, com umas sete espécies de regiões temperadas do hemisfério norte (três europeias), tem andado em bolandas. Rejeitado pela família Melanthiaceae, foi adoptado pela Liliaceae mas, desde 2003, o ADN obriga-a a pertencer a uma família mais pequena, a Nartheciaceae, onde divide o protagonismo com outros cinco géneros.

06/09/2010

Água, sal & sol


Ponte sobre o rio Cávado - EN 308-4


Foz do Cávado

Cumprido mais um mês de Agosto, um relativo sossego terá regressado à foz do Cávado. É um rio que agrega muitas das paisagens marcantes do norte de Portugal. No Gerês vemo-lo desgraciosamente inchado por duas grandes barragens: a da Paradela e a da Caniçada. É lá que os aceleras de estrada se mudam para a água e dão asas à sua compulsão velocista com redobrado estrépito. Antes de chegar às barragens, porém, ou depois de escapar delas, o Cávado é um fio de água límpida saltitando de rocha em rocha com muitas árvores a servir-lhe de escolta. Junto à ponte sobre o rio logo acima da Paradela reúnem-se tantas e tão diversas plantas higrófilas (como esta) que não conheço local mais indicado para uma aula de botânica ao ar livre.

No estuário do Cávado há muito que ficou para trás o torturado relevo do Gerês. Em vez de cortar a direito para a foz, o rio ensaia uma curva para entrar no mar segundo uma trajectória quase tangencial à linha da costa. É na restinga que acompanha o rio nas suas centenas de metros finais, e também no sapal que se estende pela margem esquerda entre os núcleos urbanos de Fão e Esposende, que se encontra a justificação para se ter incluído esta área no Parque Natural do Litoral Norte (PNLN). Mas a ocupação desregrada de caminhos, dunas e pinhais pelos veraneantes, juntando-se à construção caótica que avassalou a zona (torres de Ofir e não só), torna inverosímil que este seja um espaço protegido.

Que há valores naturais a proteger, não se duvida. Porém essa protecção não surge magicamente com o decreto que cria uma área protegida. É preciso impor regras e vigiar o seu cumprimento, tarefas em que o PNLN é manifestamente omisso.


Armeria maritima Willd.

Uma das preciosidades do sapal (ou juncal) do Cávado, também presente na foz do vizinho rio Neiva, é a Armeria maritima, que florece vistosamente na Primavera e se dá bem em águas salobras. Em Portugal há muitas espécies de Armeria, mas aquelas que preferem zonas costeiras (como a A. welwitschii) estão concentradas no centro e sul do território. Pelo litoral norte ficamos só com a A. maritima e a mais discreta A. pubigera, que no nosso país são exclusivas do Douro Litoral e do Minho.

A A. maritima tem uma distribuição global muito ampla, abrangendo a América, a Europa e a Ásia. Na Europa ocorre não só em toda a costa atlântica desde o norte de Portugal, mas também na Grã-Bretanha, Itália e Balcãs.

04/09/2010

Espiral de Verão



Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich. [Lagoa da Vela, Quiaios]

Muito se tem escrito sobre O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. É um road-movie que nos destapa: leva-nos os olhos por esse Portugal dentro, o Portugal que não é a West Coast of Europe da promoção, mas um país antioceânico, de minúsculas enseadas fluviais, uma paisagem pétrea, indiscernível, incessante, com florestas e matas ameaçadas, como se, de alguma maneira, elas (e não nós) se tivessem tornado ocorrências lesivas. É um filme que nos leva pelos cabelos a ver Portugal: um país a que se acede pela camioneta da carreira, ainda de ritos, de ofícios manuais, de jornais de província, de feiras, cabisbaixas ou não, e datas para assinalar... Um país arcaico, onde o desassossego da condição humana se exprime no tom estático e impávido que têm os autos ou que teve, um dia, o teatro grego.

José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus e Outros Textos (Assírio & Alvim, 2010)

03/09/2010

Loura e nórdica


Chrysosplenium oppositifolium L. - albufeira da Paradela

É às montanhas do norte, de regime atlântico, que se deve a presença em Portugal de algumas especialidades botânicas europeias. A saxífraga-dourada entra no nosso território pelo Gerês e vai saltando de pico em pico até à Serra da Estrela. É uma planta rasteira, com folhas opostas de não mais que 3 cm de diâmetro, que reveste muros e taludes próximos de fontes ou regatos, em orlas de bosques caducifólios. Floresce cedo, entre Março e Maio, aproveitando a luz que as árvores despidas de folhagem vão deixando passar. As flores diminutas (4 mm), de sépalas amarelas, surgem agrupadas em corimbos na extremidade de hastes que se erguem a uns 20 cm de altura (foto da direita).

Ainda que a Chrysosplenium oppositifolium não pertença ao género Saxifraga, integra a mesma família, e daí o nome saxífraga-dourada que adaptámos do inglês Golden saxifrage. A sua distribuição é europeia, virada a oeste e empurrada para norte: desde a Grã-Bretanha até à Noruega e até ao norte da Península Ibérica. Inexistente no Mediterrâneo, faz ainda assim uma incursão ao norte de Itália. Há uma espécie aparentada, a Chrysosplenium artenifolium, que está ausente de Portugal embora ocorra nos Pirenéus espanhóis. Partilha o gosto pelos mesmos habitats e tem uma distribuição global ainda mais vasta que a C. opositifolium, distinguindo-se desta, como sugere o epíteto específico, pela forma e disposição das folhas.

O género Chrysosplenium é formado por certa de sessenta espécies, quase todas oriundas das regiões temperadas ou frias do hemisfério norte; duas espécies sul-americanas são a excepção à regra.

02/09/2010

Saudades para a Dona Genciana



Gentiana pneumonanthe L.

Espero pelo verão como quem espera por uma outra vida, diz Ruy Belo. Pelo contrário, para as lagoas de Ponte de Lima, os dias quentes do nosso repouso e novas errâncias são um ensaio da morte. Desde que em 1995 drenaram os canais de escoamento de água - para responder às queixas de quem lavra ou pasta nos campos próximos, que se encharcavam no Inverno - as lagoas quase desaparecem no período estival. Como se deveria ter previsto, a vegetação que era usual encontrar com os pés na água, alguma de natureza excepcional, vive (se é que ainda vive) dias aflitos. Por exemplo, os folhetos de informação relatam que já se registou a presença na lagoa do Mimoso de exemplares do género Utricularia; mas com a lagoa seca, tal como a vimos, a planta dificilmente sobrevive.

Como sempre, há quem ganhe com a desventura dos outros. A bela Gentiana pneumonanthe gosta precisamente destes relvados moderadamente húmidos com solo ácido; e, apesar de as fotos serem de exemplares da serra do Gerês, vimos há poucos dias muitos mais nos terrenos incultos adjacentes às lagoas. Esta herbácea vivaz rizomatosa tem folhas lineares opostas, de cerca de 3 cm de comprimento, que abraçam um caule de altura variável: as plantas do Gerês são baixinhas, as de Ponte de Lima ultrapassam frequentemente os 60 cm. As pétalas, de uns 5 cm, pintalgadas de dourado e plicadas, formam um tubo azul com cinco faixas verdes no exterior; rodeiam cinco estames e um estilete curto com néctar na base. Está na lista de plantas vulneráveis em vários habitats, alguns da Península Ibérica. Num projecto alemão que selecciona uma flor por ano para incentivar o apreço pelas plantas silvestres, o cálice-da-aurora foi a primeira a ser escolhida.

A maioria das cerca de quatrocentas espécies do género Gentiana distribuem-se pelas regiões temperadas da Europa, América e Ásia, preferindo prados de montanha se lhes calha viver em zona mais quente. Em Portugal, além da nortenha G. pneumonanthe, ocorre a G. lutea L., natural do centro e sul da Europa. Se esta genciana esguia de flores amarelas já existiu em todo o território aqui referenciado (o que parece improvável), agora só a podemos admirar na serra da Estrela; e tem já destaque garantido no livro vermelho das plantas ameaçadas, quando ele for publicado. Parte da culpa cabe ao rei Gentius da Ilíria, região dos Balcãs actualmente dividida por vários países (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro e Sérvia), a quem se atribui a descoberta de virtudes medicinais nas raízes da G. lutea, ainda hoje utilizadas para aromatizar e tonificar bebidas.

01/09/2010

Patinhar em seco



Lythrum portula (L.) D. A. Webb

O que há de mais notável nesta planta glabra e rasteira - habitante de terrenos lamacentos ou de águas baixas e estagnadas - é o contraste entre ela e as suas irmãs. Quem iria adivinhar que a patinha (Lythrum portula), a salgueirinha (L. salicaria) e a erva-sapa (L. junceum) pertencem todas ao mesmo género botânico? Como pode uma ervita prostrada ter algum parentesco com uma planta altaneira e erecta que frequentemente atinge metro e meio de altura? E há ainda a questão das flores: as da L. salicaria são vistosas, de pétalas rosadas; as da L. portula, resguardadas nas axilas das folhas, são minúsculas e, na maioria dos casos, nem pétalas têm (quando as têm, elas são igualmente cor-de-rosa). Algumas medidas ajudam à comparação: as folhas da L. portula têm cerca de 1 cm de comprimento, e as flores, tal como os frutos (visíveis nas fotos), não ultrapassam os 2 mm. A planta é anual, e os seus caules, que costumam enraizar-se nos nós, são muito ramificados, formando um entrelaçado confuso.

O Lythrum portula tem uma ampla distribuição europeia, e só está ausente da Islândia. Em Portugal, e apesar do optimismo de alguns, não é assim tão fácil encontrá-la. Na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, contudo, é uma presença comum em terrenos turfosos nos arredores de Pitões das Júnias; e também é possível vê-la na Área Protegida das Lagoas, em Ponte de Lima.

31/08/2010

Baboso e voraz



Drosophyllum lusitanicum (L.) Link

A arte da era vitoriana prezava o horror romanceado, criando um cenário de arquitectura gótica, decadente como o fim do século XIX, onde o fascínio pelo terror se nutriu até de plantas carnívoras, criaturas que possuem movimento e matam animais - que, na imaginação adubada pela literatura de Stevenson, Wilde, Dickens ou Poe, podem ser inocentes criancinhas. O interesse de Charles Darwin por esta família de plantas é consentâneo com este deslumbramento pelo bizarro que o levou a investigar os mecanismos de atracção, captura e digestão de presas, em particular da erva-pinheira-orvalhada.

Desta espécie, Darwin recebeu, em 1869, exemplares enviados por um amador de botânica portuense, William Tait, e colhidos na serra de Santa Justa. Darwin teria hoje - como nós, apesar do GPS - dificuldade em a encontrar pois, em Valongo, restam poucas populações, todas isoladas e com escasso número de indivíduos. Além da invasão de eucaliptos e acácias, que roubam sol e modificam o carácter do solo, e do uso distinto que a população local faz da terra, persiste a circulação endemoninhada de jovens motorizados, levantando nuvens sufocantes de pó, que atropelam ou asfixiam as plantas à beira dos estradões - justamente os locais abertos e ensolarados que ali sobram e onde a Drosophyllum poderia germinar. Em Portugal há outras paragens, a sul do Mondego e quase sempre perto da costa (a excepção é a serra de São Mamede, perto de Portalegre), onde esta carnívora é mais abundante, e talvez por isso ela não conste, como deveria, de nenhuma lista de plantas ameaçadas nem de nenhum programa de conservação da biodiversidade. Mas o número de exemplares registados no país é suficientemente baixo para que a D. lusitanicum seja considerada rara e em perigo de extinção na terra lusa.

Esta planta é tradicionalmente incluída na família da Drosera e, de facto, o mais notório em ambas é a cobertura das folhas por glândulas pedunculadas com gotas de líquido doce, brilhante e avermelhado. São estruturas cuja função essencial é atrair os insectos, agarrá-los e enviar ao resto da planta a boa notícia. Embora também possam segregar enzimas digestivas, na Drosophyllum esse papel é atribuído prioritariamente a outras glândulas, sésseis e verdes, que salpicam a superfície das folhas. Para segurança da planta e economia de meios, estas glândulas com formato de crateras só trabalham se comandadas pelas outras-tipo-cogumelo; e, depois de feita a digestão do bicho, cabe-lhes absorver as componentes nutritivas relevantes.

Contudo, recentemente alguns botânicos repararam em outras diferenças, na morfologia e no comportamento, entre os géneros Drosera e Drosophyllum. As folhas da Drosophyllum são perfumadas (como o mel), lineares, circinadas e - ao contrário das da Drosera que se fecham para os tentáculos matarem e digerirem rapidamente o animal - não se movem quando a presa lhes toca. Ironicamente, o movimento continua a pertencer à presa: depois de receber as primeiras gotas de cola, o insecto ainda não imobilizado, mas aflito e mais pesado, desce ao longo da folha, levando pelo caminho novas camadas de visco, podendo progredir até à base da planta, onde várias folhas, agrupadas em densa roseta, participam do banquete. Além disso, é a única planta carnívora que exige lugares secos, em pinhais ou rochedos. Resultado: os cientistas fecharam-se no laboratório e descobriram que, geneticamente, a Drosophyllum não é, como se julgava, parente próxima da Drosera. Propõem agora que o slobbering pine seja a única espécie do único género da família Drosophyllaceae.

O dewy pine forma um caule lenhoso e, com a idade, pode atingir ou ultrapassar os 60 cm de altura, mas os onze exemplares que vimos não iriam além dos 20 ou 30 cm (sem contar com as hastes florais). Não chegámos a tempo de fotografar a flor do mal; mas sabemos que desabrocha entre Março e Julho e que é amarela, com pétalas de cerca de 3 cm de diâmetro e cálice onde também há glândulas assassinas. As cápsulas estavam cheias de sementes escuras, com formato de pêra e casca rugosa que, esperemos, serão espalhadas pelo vento e não roubadas para venda na internet.

30/08/2010

Caldo de lentilhas



Callitriche stagnalis Scop. - Mindelo, Vila do Conde

As plantas que ocorrem em muitos países mas que, em cada um deles, ocupam apenas alguns raros nichos são causa de perplexidade. Pensemos por exemplo em plantas aquáticas como esta lentilha-de-água (Callitriche stagnalis): existe em toda a Europa, mas em Portugal a sua presença é escassa e pontual. Um ribeiro aqui, um lago acolá: de facto ela não surge na maioria dos locais onde poderia ter-se instalado. (Muito mais abundantes são as plantas do género Lemna, também chamadas lentilhas-de-água, que se distinguem da Callitriche por serem flutuantes e desprovidas de caule.) Como aparecem estas populações em lugares tão distantes uns dos outros? Dá vontade de imaginar que o grande dilúvio afinal não é um mito, e que houve um tempo em que as águas cobriam os continentes, salvando-se apenas os cumes mais altos. Quando o nível das águas desceu e Noé pôde finalmente pisar terra firme, as plantas de vocação aquática teriam ficado confinadas a uns poucos lagos e rios. A ideia é irresistível mas disparatada, até porque uma planta como a Callitriche stagnalis, precisando de se enraizar, não pode viver em águas profundas. Não é absurdo, porém, pensar que a acção humana, ao destruir muitos habitats propícios, terá levado a essa fragmentação das populações.

A Callitriche stagnalis, que prefere águas paradas ou de curso lento, é formada por caules esguios, de 10 a 100 cm de comprimento. À tona da água ficam só as pequeninas rosetas de folhas ovais. Embora sejam de difícil observação, por serem minúsculas e se esconderem na base das folhas, a planta também dá flores, ao que consta verdes e sem pétalas. Quando as águas baixam no Verão, é possível encontrar a planta nas margens lamacentas de ribeiros e charcos.

Para compensar o seu retrocesso na Europa (pelo menos em Portugal), a Callitriche stagnalis emigrou para os EUA, onde se deu tão bem que mereceu o estatuto de planta daninha. Haveria ainda a comentar o absurdo de a terem colocado na família Plantaginaceae (mais uma prova do desvario que aflige a ciência botânica), mas isso (recorrendo a uma expressão popular bem a propósito) seria chover no molhado.

28/08/2010

Lezíria


Lysichiton americanus Hultén & H. St. John

     São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto. 

Cantam o Norte e o Sul duma só vez. Cantam baixo, e parece Que na raiz humana dos seus pés Qualquer coisa apodrece.

Miguel Torga (Diário I, 1941)

27/08/2010

De égua para cavalo



Equisetum arvense L. - Sandwich Bay (Inglaterra) e lagoa de Mira (Portugal)

O rabo-de-cavalo (Equisetum arvense) surge como complemento natural do rabo-de-égua (Hippuris vulgaris). Mesmo que a analogia com o apêndice traseiro dos ditos animais seja meio forçada, não há dúvida de que as duas plantas são parecidas. Ambas parecem ser formadas por hastes verdes em que a folhagem se distribui ordenadamente por patamares. Mas as fotos mais acima suscitam estranheza, pois as hastes que aí se vêem não são verdes nem aparentam ter folhas. É legítimo perguntarmo-nos se as fotos de baixo são da mesma planta.

Vamos por partes. A semelhança entre o Equisetum e o Hippuris é puramente superficial. Como único sobrevivente da classe Equisetopsida, que foi abundante e variada no Paleozóico (entre 540 e 245 milhões de anos atrás), o género Equisetum, que inclui cerca de trinta espécies, é considerado um fóssil vivo. As plantas que o integram têm um método de reprodução primitivo, decalcado do dos fetos, que já antes aqui explicámos. Por contraste, o Hippuris é uma angiosperma - ou seja, uma planta moderna, com flor, coisa que só terá sido inventada há uns 140 milhões de anos.

E depois há a questão das folhas. Aquilo que no Equisetum nos parecem ser folhas são na verdade raminhos verdes, capazes de fotossíntese; e por vezes esses raminhos são eles próprios ramificados. As verdadeiras folhas são as escamas triangulares castanhas que vemos ao longo do caule.

Falta explicar o duplo aspecto que a planta assume nas fotos. O Equisetum arvense é peculiar por ter dois tipos de frondes (por analogia com os fetos, chamamos frondes às hastes da planta): as frondes verdes e ramificadas, que são estéreis, e as frondes de um tom entre o bege e o rosa, sem clorofila, que são rematadas por um cone onde se agrupam os esporos reprodutores. Essas frondes férteis surgem no dealbar da Primavera, e só mais tarde é que as outras despontam.

Sucede que o laborioso processo reprodutivo que tão bem funciona nos fetos parece claudicar nos rabos-de-cavalo. De facto, o Equisetum é dotado de extensos rizomas subterrâneos e, para se expandir, vale-se quase exclusivamente da reprodução vegetativa. Se for plantado num jardim pode facilmente converter-se em praga, mas tem grande dificuldade em expandir-se para locais novos. Em Portugal, onde o tipo de hábito ripícola que o favorece está em franca regressão, as populações espontâneas têm-se tornado cada vez mais raras.

26/08/2010

Pinga-morte



Pinguicula lusitanica L.

aqui apareceram plantas que aprisionam polinizadores para assegurar a sua colaboração, mas nenhuma delas os mata ou, se isso acontece por acidente, possui mecanismo que lhe permita beneficiar dos nutrientes das vítimas. Não são portanto insectívoras. Outras há que sabem matar predadores, ou que só consomem animais depois de estes terem sido processados por bactérias. Também estas não encaixam na classe das plantas carnívoras: essas têm de possuir meios para a captura, morte e consumo das presas, desenvolvendo-se à custa desse alimento. É certo que nem sempre a natureza se conforma ao espartilho da ciência, mas seria imprudente alterar sem motivo as definições que a erudição nos propõe.

Todas as plantas carnívoras conhecidas usam as folhas para caçar, mas diferem muito no tipo de armadilha. O estratagema mais simples parece ser o do género Pinguicula (o termo latino pinguis significa gorduroso, pegajoso). As folhas são como fitas com adesivo onde animais pequenos, sobretudo mosquitos atraídos pelo (para eles) irresistível aroma pestilento a fungo, se colam sem apelo. A superfície foliar tem glândulas que segregam gotas de um visco brilhante - o orvalho de que falámos há dias - e que são pedunculadas, embora sem o alcance dos tentáculos da Drosera, para impedir que a folha abafe com a mucilagem enquanto espera pela presa. Ao lado destas, notam-se outras glândulas sésseis (como crateras lunares vistas da Terra) que se mantêm secas até que um candidato a jantar toque na folha; nessa altura, largam um líquido rico em enzimas e ácidos digestivos que essencialmente afoga o animal e permite à folha digeri-lo externamente, assimilando apenas as componentes que lhe interessam.

Percebe-se agora a vantagem de as folhas da Pinguicula terem as margens reviradas para dentro, como uma taça de onde o conteúdo não se derrama. Em algumas espécies, os bordos podem até mover-se lentamente para formar um tubo em que todo o conteúdo fica de molho, e garantindo que toda a folha participa na digestão. Naturalmente, neste processo, as folhas desgastam-se, mas a planta substitui regularmente as que se estragam.

Para que os polinizadores não sejam vítimas deste ardil, a Pinguicula cria hastes altas de flores com cores vistosas, cálice brilhante - um candeeiro sempre aceso - e um esporão conspícuo cheio de néctar perfumado.

Há cerca de cem espécies de vivazes do género Pinguicula, situando-se a maior diversidade no sul do México. Em Portugal há registo de duas, a P. lusitanica e a P. vulgaris L. A primeira prefere solos húmidos em regiões costeiras e quentes do oeste europeu, Mediterrâneo e noroeste de África e perde a roseta basal no período de dormência. A flor tem 5 a 9 mm de comprimento e possui, na garganta, uma aba que dificulta a auto-polinização.

[Foi tarefa morosa localizar a planta porque, ao contrário do que talvez as fotos insinuem, ela é muito pequenina; além disso, quase todos os pés tinham a roseta de folhas escondida por musgo ou folhedo. Mas depois de detectarmos a primeira percebemos que era mais fácil avistar as flores, e encontrámos muitas mais no mesmo local.]

A Pinguicula vulgaris L., que deveria, pelo nome, ser comum, gosta de escorrências em rochas e dos invernos frios da América do Norte, Europa e Ásia. Aos portugueses, exímios na destruição da natureza, resta uma única população na Serra do Gerês (cujo paradeiro a equipa do Dias com Árvores ainda desconhece).