08/10/2010

Cavalgar rente ao chão




Centaurium scilloides (L. fil.) Samp.

Voltamos às plantas que homenageiam os homens enxertados em cavalos ou vice-versa. O Centarium scilloides foge decididamente ao figurino dos seus congéneres, tanto que, se não fossem as flores, nem desconfiaríamos da sua filiação. Em lugar de se apresentar erecto, o C. scilloides é rastejante, só erguendo o pescoço para hastear as flores. As folhas, em vez de serem sésseis e abraçarem o caule, exibem um breve pecíolo e têm formato arredondado. E, incluída num género quase todo ele formado por plantas anuais ou bienais, a planta tem ainda a originalidade de ser vivaz. Assim, embora a sua parte aérea desapareça durante o Inverno, a subterrânea continua viva, pronta para fazer emergir novo caule quando chegar a Primavera.

Ainda que esteja referenciado em quatro países (França, Grã-Bretanha, Espanha e Portugal, incluindo o arquipélago dos Açores), o centauro-rasteiro não é de modo nenhum vulgar: na Grã-Bretanha surge apenas ao longo da costa oeste do País de Gales; na Península Ibérica concentra-se no norte, embora também haja notícia dele em Cádiz; e em Portugal continental parece ocorrer apenas em alguns pontos do Minho (serras do Soajo e da Peneda, Ponte de Lima, Paredes de Coura...). A sua vulnerabilidade garante-lhe a duvidosa honra de estar incluído no livro vermelho da flora ameaçada da Cantábria.

Conhecem-se duas formas da espécie, mas não tão diferentes, na opinião dos botânicos, que se justifique uma separação taxonómica: as plantas açorianas têm flores brancas (confirme aqui), em contraste com as flores cor-de-rosa das plantas continentais.

As fotos que ilustram o texto foram obtidas em duas ocasiões entre Julho e Agosto, a primeira no Parque Natural das Dunas de Corrubedo (Corunha, Galiza), a segunda na estrada que liga o Soajo à Peneda. Nessa área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, muito perto do Mezio, predominam as plantações florestais de pinheiros e cedros-brancos (Chamaecyparis lawsoniana). Há quem proclame sobranceiramente (leia-se a discussão aqui havida) que o valor conservacionista de zonas como essa é nulo, e que os incêndios que as têm devastado não trazem prejuízo sério ao nosso único Parque Nacional. Que os taludes das estradas por entre esses pinhais alberguem das poucas populações portuguesas de uma espécie globalmente escassa não é coisa que pese em tais argumentos: a ignorância é a melhor garantia de uma consciência tranquila.

07/10/2010

Urze do mar



Frankenia laevis L.

Regressemos à praia para sacudirmos a melancolia que sobreveio à recente combinação de chuva e vento. Uma vez que a semana se iniciou com tanto sucesso à volta do queijo - os comentários foram tantos que houve que recolocar a contagem em zero -, continuaremos a degustar o pitéu.

Esta planta de flores de seda cresce como uma avenida cortada por um labirinto de ruas transversais onde se apinha a folhagem. Identifica-se pelas margens revolutas das folhas (lembram sovelas) que são simples, inteiras, opostas, lanceoladas, com cerca de 3 mm de comprimento e ligeiramente penugentas, semelhantes às da urze mas polvilhadas de sal: vistas da face inferior, lembram pães de trigo com queijo fresco - e pan y quesillo é um dos nomes com que os espanhóis a brindaram. Tolera tão bem os excessos de sal que o usa como creme protector dos raios solares, cobrindo as folhas com uma crosta que depois a humidade da noite facilmente desfaz. Ou ela não se apoquenta com a tensão alta nos vasos seivosos, ou então acha, como o poeta Manuel António Pina, que a saúde é um estado precário que não augura nada de bom.*

De base lenhosa, esta herbácea perene forma matinhos rasteiros que, no Verão, se adornam de flores - solitárias ou, mais raramente, em inflorescências - com pétalas de uns 5 mm de diâmetro e ápices dentados como caudas de andorinha. O povo, atento, não perdeu a oportunidade de lhe atribuir outro nome a propósito, flor-de-golondrina. Por contraste com espéces de folhas ásperas, esta, de textura mais macia, é laevis. Encontrámos neste fim-de-semana, numa praia da ilha Terceira, exemplares da anual F. pulverulenta L.; no sábado poderão aqui compará-la com a F. laevis.

O género Frankenia abriga sete espécies espontâneas na Península Ibérica, três presentes em Portugal das quais uma (F. boissieri Reut. ex Boiss.) só ocorre no Algarve. O homenageado, Johan Frankenius (1590-1661), foi professor e naturalista em Uppsala, autor, em 1633, de Speculum Botanicum, uma das primeiras listagens das plantas suecas.

*Por Outras Palavras & mais crónicas de jornal (Modo de Ler, 2010)

06/10/2010

Erva queijeira


Galium verum L. Galium belizianum Ortega Oliv., Devesa & T. Rodr.

Num certo sentido, não é estranho que haja tantas ervas leiteiras. Afinal, o leite que bebemos depois de desmamados não é mais do que pasto transformado por interposta vaca. Agora que matutamos no assunto, ocorre-nos aliás que grande parte do que comemos são ervas. Para nos pouparmos à monotonia (pois a espécie humana depressa se entediaria de uma dieta fixa), recorremos a vários processos, naturais ou artificiais, para que essas ervas, antes de nos serem servidas à mesa, tomem diferentes aspectos e sabores. Mas não nos iludamos: carne, leite, salada - é tudo pasto.

Foi o nome científico da erva-queijeira (ou erva-coalheira) que suscitou esta conversa. Galium vem da palavra grega gala, que significa leite; e a mesma secreção aparece em Ornithogalum e em Polygala. A relação destas duas plantas com o leite - para além da circunstância atrás referida de tudo ter a ver com tudo - ou é de índole metafórica, ou radica numa crença não comprovada sobre as virtudes nutricionais do vegetal em causa. No que ao Galium diz respeito, porém, essa relação é íntima e directa, e é reconhecível nos nomes com que o povo o baptizou. É mesmo verdade que as inflorescências do Galium verum, e de outras plantas suas congéneres, foram e são usadas para coalhar o leite na produção artesanal de queijo. Não sabemos se o Galium presta melhor serviço do que os diversos cardos que igualmente se empregam nessa tarefa, mas é sem dúvida uma planta mais elegante.

Interessante também é os ingleses chamarem bedstraw às plantas do género Galium. Com a costumeira prolixidade da nossa língua, as duas sílabas do vocábulo inglês convertem-se em algo como palha-para-colchões. Ao que parece, estas plantas cheiram a palha; e, uma vez secas, têm usos semelhantes - com a vantagem de afugentarem as pulgas se forem usadas para forrar o leito. O Galium verum, talvez por ser mais bonito do que os seus irmãos (é o único que dá flores amarelas), é conhecido como lady's bedstraw. Não é qualquer um que faz a cama às senhoras.

05/10/2010

Jardim República



Atractylis gummifera L.

Lisboa 1914. Quando se rumoreja na cidade que os inimigos das árvores planeiam um morticínio, ninguém quer acreditar. É certo que alguns jornais começam a bravatear, numa linguagem medonha, contra os promotores de iniciativas tão pacíficas como a Festa da Árvore e a recém-constituída Associação Protectora da Árvore que começou por adoptar o nome ainda mais provocador de Associação do Culto da Árvore. Até um poeta de fama, o finíssimo António Correia de Oliveira, ousa lançar um livro com o herético título de A Alma das Árvores. É de mais. O cântaro extravasa. «Feiticeiros pagãos» e «idólatras dos deuses vegetais» são alguns dos muitos epítetos com que a imprensa conservadora nomeia os excomungados naturalistas. Um dos periódicos chega a consignar um «veemente protesto contra o abuso que se está fazendo da liberdade de consciência, forçando milhares e milhares de crianças a enfileirarem numa festa mais do que pagã.» (…) Apesar disso, os programas festivos continuam a decorrer com ações de sensibilização nas escolas, concursos juvenis para a inventariação dos exemplares históricos em cada concelho, oferta de vasos com plantas, visitas de estudo a parques, jardins e, sobretudo, «cerimónias» de plantação de árvores por jovens. (…) Ocorrem, entretanto, num fim de tarde, terríveis acontecimentos. Finda a interpretação do hino, os presentes rompem em vivas à República. E muitos-muitos aplausos. Depois, no momento em que um dos dirigentes da Associação Protectora da Árvore inicia uma preleção sobre o problema da desarborização alarmante que não cessa de estropiar as serras do interior, é interrompido por uma turba danada que força a entrada no Jardim Botânico e investe aos gritos de «abaixo os livre-pensadores, morram os hereges! Morra a República! Morra, morra!»

Sem que se perceba logo o motivo da desordem, os intrusos precipitam-se para a área onde haviam sido plantadas as frágeis árvores. Crianças e adultos assistem com olhos de medo à sanha dos espezinhadores. Os amigos das árvores ripostam com energia, porém são neutralizados em pouco tempo pelas longas naifas e varapaus da matula irada. (…) Os salteadores descem em tropel a encosta que dá acesso ao arboreto. De machados em punho vão destroçando aqueles seres vegetais que não conseguem opor resistência. Em escassos minutos devastam largas dezenas de plantas. Não se via tamanha violência desde que, sete anos antes, em vésperas da ditadura de João Franco, a Polícia entrou de rompante na Escola Polytechnica, ali mesmo ao lado. (...)

O bando retira-se, deixando o Jardim Botânico transformado num caos de maldade.


Pedro Foyos (Editorial Hespéria, 2010)

04/10/2010

Hércules e o centauro


Centaurium maritimum (L.) Fritsch

A mitologia grega, além de mostrar os deuses movidos por paixões tão caprichosas e irracionais como as que afligem os humanos, oferece-nos, para cada uma das suas narrativas, um emaranhado de versões contraditórias. Dá ideia que o Olimpo não dispunha de porta-vozes nem de centrais de comunicação para propagar versões oficiais que depois os repórteres da época (poetas, dramaturgos, filósofos) se encarregassem de difundir. Assim, cada um usava as fontes que conseguisse reunir; e, na falta de testemunhas oculares dos acontecimentos, inventava.

Assim aconteceu com Quíron, o mais distinto dos centauros: versado em astrologia e reputado curandeiro e naturalista, teve Aquiles e Asclépio entre os seus discípulos. A controvérsia gira à volta da sua morte. Segundo alguns, ela terá resultado de uma flecha envenenada desferida por Hércules. Segundo outros, Quíron, como todos os da sua espécie, era imortal, e não morreu com a seta, mas sim em consequência de um acordo depois firmado com Zeus: Quíron terá oferecido a sua vida em troca da salvação de Prometeu, o mesmo que ensinou os homens a usar o fogo e estava a ser comido vivo por uma águia. Reforçando esta segunda versão, conta-se ainda que Quíron recorreu aos seus amplos conhecimentos de plantas medicinais para se curar da ferida que Hércules lhe causara. Outros contrapõem que Quíron, para sua grande frustração, foi incapaz de se curar a si próprio - e quem sabe se não foram o desgosto e o incómodo, mais do que o altruísmo, que o levaram a sacrificar a vida.

Para efeitos taxonómicos, devemos aceitar que Quíron se auto-medicou com sucesso, e que a planta de que se socorreu é precisamente aquela a que hoje, em sua homenagem, chamamos Centaurium. O mundo e a arte de curar deram entretanto muitas voltas, os centauros e outras criaturas imortais desapareceram da face da Terra, e já ninguém é susceptível ao efeito placebo de uma ervinha desacompanhada de receita médica. Ainda assim, o Centaurium foi tradicionalmente usado, mesmo em Portugal, para preparar infusões que, por serem amargas como o fel, eram obrigadas pela lei das compensações a ter alguma virtude terapêutica. O nome popular da espécie mais comum em Portugal, C. erythraea, é justamente fel-da-terra.

Apesar de essas plantas, inexplicavelmente, quase não serem cultivadas em jardins, o fel-da-terra não é o único Centaurium ao alcance da nossa admiração: das cerca de vinte espécies do género, a maioria delas europeias, pelo menos nove são espontâneas em Portugal. Em geral são herbáceas anuais ou bienais, com flores cor-de-rosa (ou, mais raramente, amarelas ou brancas) dotadas de longos cálices tubulares, e folhas sésseis dispostas aos pares. Ficam-se pelos 20 a 40 cm de altura, florescem na Primavera, e gostam de lugares soalheiros como dunas, prados ou falésias.

O C. maritimum, que encontrámos em Vagos e na foz do Cávado, é especial por ter flores amarelas. O C. tenuiflorum, por sua vez, foi fotografado junto à pequena lagoa de Alvados. Distingue-se facilmente do C. erythraea pelas flores de menor tamanho e de um cor-de-rosa mais intenso.


Centaurium tenuiflorum (Hoffmanns. & Link) Fritsch

01/10/2010

O ritmo das formas


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia

.....CALIBAN
.....The isle is full of noises,
.....Sounds, and sweet airs, that give delight and hurt not.
.....Sometimes a thousand twangling instruments
.....Will hum about mine ears, and sometime voices
.....That if I then had waked after long sleep
.....Will make me sleep again; and then in dreaming
.....The clouds methought would open and show riches
.....Ready to drop upon me, that when I waked
.....I cried to dream again.

  .....W. Shakespeare (The Tempest)

Azedo e avantajado



Oxalis latifolia Kunth

As campeãs do darwinismo são aquelas plantas que se dão tão bem na luta pela vida que abafam toda a concorrência. Mas nós, em vez de promovermos cerimónias de consagração dessas atletas do mundo vegetal, suspiramos de impotência e de desgosto quando deparamos com elas. Preenchem a paisagem até à saturação e deixamos de ter olhos para lhes admirar a hipotética beleza. Veja-se por exemplo o omnipresente trevo-azedo (Oxalis pes-caprae): na primeira metade de cada ano, com início logo em Janeiro, não há terreno baldio ou jardim desmazelado que esteja a salvo da invasão amarela. Nós até gostamos do amarelo, mas não deste particular amarelo que oblitera todas as demais tonalidades - e que, uma vez instalado, é dificílimo de erradicar. Os perigosos herbicidas, em vez de o beliscarem, até lhe dão uma ajuda: matam as outras plantas e deixam-no sozinho em campo. As raízes produzem bolbilhos de onde saem novos rebentos, e portanto o único modo de debelar uma infestação é remover as plantas por completo.

É preciso, pois, algum esforço de distanciação para apreciar as plantas do género Oxalis. É um género populoso: das cerca de 900 espécies (ou 500, segundo outras fontes), ocorrerão umas vinte na Europa, e desse número só duas, O. corniculata e O. acetocella, são autóctones; as restantes foram introduzidas pelo comércio hortícola e encontram-se naturalizadas. Reconheça-se, contudo, e embora de modo nenhum se recomende o seu cultivo, que nem todas se propagam de modo tão aguerrido como o O. pes-caprae. Depois de já termos mostrado o O. purpurea, sul-africano de origem tal como o O. pes-caprae, trazemos hoje uma planta sul-americana, ficando assim representados no blogue os dois maiores produtores mundiais de espécies de Oxalis.

Que os Oxalis sejam apelidados de trevos - ainda que nada tenham a ver com as leguminosas do género Trifolium - explica-se pelo arranjo das folhas, compostas por três folíolos de recorte mais ou menos cordiforme. São plantas semi-comestíveis: o seu travo azedo deve-se ao ácido oxálico, que é tóxico (prejudicial ao fígado e inibidor da digestão) se consumido em grandes quantidades. Há registo de mortes em rebanhos esfomeados que foram pastar em campos infestados por O. pes-caprae.

O Oxalis latifolia distingue-se pela coloração das flores e principalmente - como aliás assinala o epíteto científico - pelo tamanho das folhas, com os folíolos a atingirem os 10 cm de diâmetro. Floresce de Maio a Setembro e é de ocorrência esporádica em Portugal, onde, à semelhança de quase todos os seus congéneres por cá imigrados, raramente produz sementes e se propaga sobretudo por meios vegetativos. Encontrámos um exemplar solitário debaixo do mesmo viaduto que deu abrigo ao Melilotus albus.

30/09/2010

O chão da lagoa



Lindernia dubia (L.) Pennell

A Lagoa do Mimoso, que integra a Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e, com São Pedro de Arcos, o Sítio ‘Rio Lima’ de Interesse Comunitário, transforma-se no Verão num pedaço de lua. A gestão deste sistema lacustre tem de manter «a harmonia entre o homem e a natureza» e por isso, dizem, é preciso escoar as lagoas para que, no Inverno, os terrenos agrícolas vizinhos não se encharquem em demasia. Seja, suspiramos.

Para cobrir a nudez, enquanto não chove, vale-se de plantas solidárias, algumas alóctones. A Lindernia dubia é uma herbácea anual com cerca de 30 cm de altura, natural da costa oeste americana, do Canadá ao Chile, e introduzida na Península Ibérica. Aprecia margens de ribeiros e terrenos temporariamente alagados com escassa vegetação permanente. Lineu chamou-lhe Gratiola dubia (do latim gratia, agradável), pela semelhança (duvidosa) com as plantas do género Gratiola, mas o naturalista italiano Carlo Allioni (1728-1804) emancipou-a num género que homenageia o botânico alemão Franz Balthasar von Lindern (1682-1755). Manteve o epíteto dubia, como quem pede desculpa pela ousadia, que só foi aceite em 1935. Hoje há já quem proponha uma família nova, Linderniaceae, para alojar as mais de sessenta espécies do género Lindernia.

As flores deste morrião têm um cálice de cinco sépalas e uma corola tubular de cerca de 1 cm de comprimento, branca com cambiantes azuis. O fruto é uma cápsula com sementes amarelas, como denuncia a designação vernácula yellowseed false pimpernel.

29/09/2010

Unha-gata rilha-boi



Ononis pusilla L.

Se alguém quiser explicações para um título tão arrevesado - um arranjo dir-se-ia arbitrário de sílabas disparadas como balas -, fique sabendo que a culpa é do povo, como pode comprovar correndo os olhos pela última coluna desta página. O mesmo povo, supõe-se, que inventou, para deseducação das criancinhas, cantigas malvadas como Atirei com o pau ao gato (pena não te ter caído o pau na cabeça) ou surrealistas como as Pombinhas da Catrina (a propósito: a Quinta Nova fica no Douro, um pouco acima da barragem de Bagaúste; só falta descobrir o Pombal de São João).

Ainda que nos pudéssemos dar por satisfeitos com designações vernáculas tão variadas e pitorescas para o género Ononis, não resistimos à tentação de aumentar a lista: à unha-gata, ao rilha-boi e à joina-dos-matos-ou-das-areias propomos que se acrescente o pára-grades. Traduzido do inglês restharrow, o nome descreve o que (reza a lenda) sucedia quando certo utensílio agrícola, chamado grade, esbarrava com algum Ononis arbustivo na sua lida de lavrar o campo. Ao que parece, a planta era tão emaranhada e robusta que interrompia o curso da tarefa. O nome agora proposto vale por um tratado de etnografia: remete-nos nostalgicamente para a agricultura não mecanizada do passado, que nunca conhecemos, e ressuscita um instrumento de que nunca tínhamos ouvido falar.

Para concluir um breve apanhado que teve já dois fascículos, mostramos hoje mais duas espécies de pára-grades, uma de flores amarelas e outra de flores cor-de-rosa. Ao contrário do que as fotos possam sugerir, a primeira delas (O. pusilla), com o seu hábito rastejante e flores com cerca de 8 mm de diâmetro, é em tudo mais pequena do que a outra (O. spinosa), que tem hastes erectas (até 70 cm de altura) e flores que rondam os 15 mm. E a presença de espinhos, bem visíveis nas fotos aí em baixo, é uma característica que distingue a O. spinosa de todas as suas congéneres peninsulares.

Ambas as plantas são semi-arbustivas com base lenhosa, nativas de grande parte da Europa e do norte de África, com a O. spinosa, mais disseminada, a marcar ainda presença no Médio Oriente. Também em Portugal a O. spinosa, ocorrendo em todas as províncias, é mais comum do que a sua prima amarela, que, por preferir substratos calcários, está confinada ao centro do país (Beira Litoral, Estremadura e Ribatejo) e ao nordeste transmontano.


Ononis spinosa L.

28/09/2010

Por quem os montes ardem





Succisa pinnatifida Lange

Funes não só se lembrava de cada folha de cada árvore de cada monte, como também de cada uma das vezes que a tinha notado ou imaginado. (...) Suspeito, no entanto, de que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos.

Jorge Luis Borges, Funes el memorioso (Ficciones, 1944, trad. José Colaço Barreiros, Ed. Teorema)

Logo que soubemos que uma espécie do género Succisa já foi abundante em Valongo mas que agora está à beira da extinção, apressámo-nos a ir à serra despedir-nos dela. Tínhamos lido que uma das ameaças a esta planta é a vizinhança de espécies mais competitivas. Além disso, é exigente quanto às características do solo - xistoso, mas não de qualquer composição -, e não parece ter uma estratégia que a sustente em habitats degradados. Por isso, as populações conhecidas deste endemismo galaico-português estão em grave declínio, e ele consta da lista vermelha da flora vascular ameaçada (em Espanha; Portugal não tem tal lista), estando sob protecção de várias directivas ambientais (espanholas, pois as entidades portuguesas desconhecem o problema).

Como dizia, no sábado fomos procurá-la. Queríamos um terreno devastado por um incêndio há não mais que dois anos. Nas serras de Valongo, que têm ardido muito e anualmente, há vertentes xistosas extensas de solo negro queimado que, em poucos anos, se cobrem de urze, carqueja, tojo, fetos e pequenos eucaliptos; nessa altura, cremos, esta Succisa desaparece vencida pela concorrência, mas logo a seguir ao incêndio tem alguma chance de ali se instalar. Era esse o nosso devaneio de manhã.

Ao início da tarde encontrámos um núcleo de cerca de cem exemplares, a maioria dos pés em flor, numa clareira à beira de um caminho com cerca de cinco metros de diâmetro e junto a um poste de electricidade. Um pouco adiante terá havido mais alguns porque avistámos um solitário no meio fio de um estradão recém-aberto - já se sabe que os azares acontecem, é uma desgraça mas ninguém teve má intenção, desculpem lá.

Os exemplares das fotos têm uns 60 cm de altura, revelando os vários tipos de folhas desta espécie e o voltear dos sucessivos nós das inflorescências, mas havia muitos só com a roseta basal. Nas fotos não se nota, mas a inflorescência é menor que a da S. pratensis; contudo, o estilete de cada flor é mais longo, embora pareça só se desenvolver quando já quase todos os estames perderam a antera, provavelmente para evitar a autopolinização (última foto).

Não se depreenda deste relato que afinal os incêndios são indispensáveis à conservação da biodiversidade. Antes da eucaliptização intensiva e dos fogos quase anuais, a Succisa não corria grandes riscos; só agora, com o equilíbrio natural quebrado, é que ela está em perigo. Sem uma acção inequívoca para a salvar, restar-nos-á reconstituir de modo intoleravelmente preciso, como Funes, os contínuos avanços da ruína.

27/09/2010

Sua Alteza à beira-rio



Osmunda regalis L.

O feto-real (Osmunda regalis), além de bonito de se ver, dá-nos um consolador testemunho de que no nosso país ainda nem tudo está perdido. Certificam os manuais que ele ocorre em todas as províncias portuguesas; e, pelo menos no norte, é muito abundante em margens de rios e ribeiras. Em Valongo encontramo-lo no vale do rio Ferreira e também no leito da ribeira de Tabãos, na freguesia de Alfena. É omnipresente nos diversos cursos de água que retalham a Área Protegida das Lagoas, em Ponte de Lima. E também dá um ar da sua graça a um dos recantos mais pitorescos da Quinta da Aveleda, não se acanhando em misturar-se com requintadas plantas exóticas. Eis, pois, uma planta que não parece estar de modo nenhum a regredir, e que muitos dos nossos rios ostentam como prova de vida e promessa de tempos melhores.

Acrescente-se, porém, que este vistoso feto não é um exclusivo português. Pelo contrário, tem uma distribuição cosmopolita, ocorrendo em regiões tropicais e temperadas de todos os continentes, com excepção da Oceânia. Acontece que, em grande parte da Europa, as drenagens de áreas húmidas para uso agrícola têm-no feito rarear. Ainda que fortuitamente, Portugal, por uma vez, distingue-se pela positiva.

O que as fotos não explicam é o porquê do nome feto-real. A realeza da planta, aliás, está consagrada nas designações em muitas línguas europeias e também no próprio nome científico. É que o feto-real é mesmo grande; ou king-size, como se diz em português moderno. As suas frondes bipinadas - que desaparecem no Inverno, ganhando previamente um bonito tom outonal - atingem os dois metros de comprimento. As extremidades das frondes férteis, densamente revestidas por esporângios, têm cor dourada ou castanha e fazem o efeito de um ramo de flores; daí os nomes felce florida (italiano) e helecho florecido (espanhol).

Consta ainda que as raízes fibrosas do feto-real são usadas como substrato para envasamento de orquídeas. Não das orquídeas silvestres que temos mostrado no blogue - essas são uma dádiva da natureza e não sobrevivem à domesticação -, mas sim das variedades tropicais que se vendem nas floristas.

25/09/2010

Tempo de sobreiros


Valeira, Douro

     "And what wood are you made of, my son?"
     It wasn't a question. I could tell.
     All the same I wish he hadn't asked it.

     Neil Curry (At Samos: A question)

24/09/2010

Não aconselhado a herbívoros



Tamus communis L.

Um dos nomes que em Portugal se dá a esta planta é arrebenta-boi: sem dúvida alarmante para qualquer criador de gado, e não menos para quem goste de se deliciar com frutos silvestres. Se até um bicho de corpulência bovina é vulnerável à ingestão de folhas e bagas da Tamus communis, que aconteceria aos pobres humanos que arriscassem a experiência? Ao que parece, nada de muito grave, pois houve quem tenha sobrevivido para contar. Segundo o livro Guia das Plantas de Galicia de Xosé Ramón García (Edicions Xerais de Galicia, 2008), as bagas (que são vermelhas, para avisar os incautos do perigo) provocam, se mastigadas, uma forte ardência na boca. Além disso, a mesma fonte informa que o rizoma da planta (semelhante a um nabo, com uns 20 cm de comprimento) teve outrora uso medicinal. Talvez o povo, na sua sabedoria elementar, tenha ponderado que o que não mata cura.

Embora pouco se repare nela, a norça-preta (ou uva-de-cão, ou baganha, ou tamo) tem uma distribuição muito ampla, ocorrendo em toda a Europa e ainda no norte de África e na Ásia ocidental. É uma trepadeira perene, com caules de não mais que cinco metros de extensão, que, sem a ajuda de gavinhas, se enrola em árvores e arbustos. Prefere lugares húmidos e sombrios, como sebes e bosques ribeirinhos. As folhas, de um verde brilhante, são grandes, atingindo os 15 cm de comprimento, mas as flores, que aparecem na Primavera em espigas emanadas das axilas das folhas, são esverdeadas e minúsculas, com cerca de 5 mm de diâmetro. De facto, a planta é dióica, com flores femininas e masculinas em indivíduos separados. A ignorância do fotógrafo explica que ele só tenha captado imagens de flores masculinas - que se distinguem, obviamente, pela presença dos estames e pela ausência do estigma. Acontece, porém, que é frequente as flores femininas (que o escriba nunca viu, mas são ainda mais pequenas do que as masculinas) munirem-se de estaminóides: coisas que parecem estames mas na realidade servem só para enganar os polinizadores.

23/09/2010

Uma erva dos diabos



Succisa pratensis Moench

As designações vernáculas devil's bit e mordedura del diablo aludem ao rizoma desta planta perene que parece mordiscado a toda a volta, circunstância que o bom humor popular atribuiu a dentadinhas gulosas do demo para também ele beneficiar do poder terapêutico deste vegetal. Como se o mafarrico precisasse de mezinhas e poções. O nome Succisa, que quer dizer cortada rente, também fala da mordedura, mas desta vez pela voz erudita do latim. O povo luso, mais propenso a episódios bíblicos edificantes, chama-lhe erva-de-S.José, e nas fotos da inflorescência podemos perceber porquê: os quatro estames proeminentes de cada flor formam, com as anteras inclinadas na ponta, estruturas que lembram martelinhos de carpinteiro.

O género Succisa abriga 3 espécies, uma endémica dos Camarões; na Península Ibérica ocorrem as outras duas, ambas de floração tardia, no Verão e Outono: a S. pratensis e a S. pinnatifida. A primeira, comum na Europa, Oeste e sudoeste da Ásia, noroeste africano e Macaronésia, pode atingir um metro de altura e tem folhas elípticas quase inteiras que podem, contudo, variar bastante a partir deste figurino. Os capítulos florais, de cerca de 2,5 cm de diâmetro, parecem de Compositae mas nestes há brácteas minúsculas entre as flores. Habita prados húmidos, juncais ou turfeiras. A segunda, do norte e noroeste de Península Ibérica, distingue-se da espécie anterior pelas incisões vincadas nos bordos das folhas e pelo estilete mais longo, do comprimento dos estames. Pede terrenos xistosos e é um quasi-endemismo português. O quase tem a ver com o facto de, em Espanha, só existir a sul da Galiza, como aqui se explica; e também porque, por cá, tem vindo a rarear, consequência da eucaliptização e degradação das vertentes xistosas, como tão claramente testemunha a Serra de Valongo.

As flores neste género, predominantemente azul-violeta, têm quatro pétalas, uma maior, unidas na base, e são hermafroditas ou femininas. Coisas do diabo.

22/09/2010

Pisar sem dar por ela



Ornithopus perpusillus L.

O nome científico desta leguminosa, Ornithopus, significa pé de pássaro em grego e deu origem à designação inglesa bird's foot. Alega-se, como justificação, que as suas vagens mais ou menos curvadas (como se podem ver na foto da esquerda) evocam essa parte da anatomia das aves. Para confirmar tal semelhança ao vivo, porém, só recorrendo a uma lupa, pois a planta é toda ela minúscula: as flores andam pelos 4 mm de diâmetro, e os frutos ficam-se pelos 2 cm. O mais provável é que a sua existência passe despercebida tanto a homens como a pássaros. Mas, ao contrário desses seres alados, nós andamos com os pés no chão e pisamos tudo o que se nos atravesse no caminho. Os pés-de-pássaro conhecem muito bem os pés do homem.

Em Portugal (e na Península Ibérica) ocorrem espontaneamente quatro espécies de Ornithopus, todas elas plantas anuais conhecidas popularmente como serradelas. Têm dimensões exíguas, apresentam folhas imparipinadas com muitos folíolos, dão flores amarelas, brancas ou rosadas, e são por vezes cultivadas como forragem. O O. perpusillus é especial por ser ainda de menor estatura que os seus congéneres (perpusillus significa aliás muito pequeno) e pela atraente coloração das suas flores: estandarte branco raiado de rosa, quilha amarela. A sua evidente vocação ornamental é frustrada pela pequenez: assim como há medidas mínimas para os modelos que desfilam na passerelle, também as há para as plantas que enfeitam jardins.

Embora prefira prados em lugares elevados (acima dos 800 m de altitude) e seja mais frequente em terras nortenhas, a serradela-miúda ocorre em grande parte do país: segundo a Flora Ibérica, só está ausente do Ribatejo e do Alto Alentejo. Quem quiser vê-la terá de a procurar no lugar certo (nós encontrámo-la no Marão e no Gerês, perto de Pitões das Júnias) e na altura certa (de Abril a Agosto, quando ela está em flor), e estar atento aonde põe os pés.

21/09/2010

Confraria das sombras


Neottia nidus-avis ( L. ) Rich.


Monotropa hypopitys L.

As duas linhas de fotos poderiam ser usadas num daqueles passatempos de jornal em que se pede ao leitor para descobrir diferenças, dos de dificuldade baixa se na segunda linha houvesse flores frescas. Na verdade, as flores da Monotropa não têm o capuz característico das orquídeas e, quando nascem, a haste apresenta-se inclinada, acabando depois por endireitar o pescoço enquanto elas murcham. Mas a confusão entre as duas é desculpável porque apreciam o mesmo tipo de habitat: bosques antigos, temperados, sombrios e húmidos, com caducifólias (especialmente faias ou castanheiros) e uma espessa manta de matéria vegetal em decomposição, propícia aos fungos de que ambas dependem. É que, por não terem folhas verdes, elas não têm capacidade de fotossintetizar.

Quem avista uma sem a outra ao lado repara no porte erecto, na cor acastanhada de cogumelo cozido, no caule com cerca de 20 cm de altura revestido por umas bainhas transparentes, no jeito parasita - e crê ter encontrado a orquídea, que é rara, consta de várias listas de plantas à beira da extinção e em Portugal só está referenciada em dois ou três locais. Quando a vimos, a dezena de exemplares parecia seguir uma linha recta, provavelmente uma raiz da árvore que os escondia da luz, e confirmar a propagação vegetativa que a beneficia nestes ambientes. Cada caule corresponde a um rizoma rodeado por um denso ninho de raízes (neottia e nidus-avis aludem ambos a esta morfologia); depois da floração, a parte aérea seca mas as raízes continuam a espalhar-se, e no ano seguinte fazem emergir novas plantas.

A Neottia nidus-avis é uma orquídea que ocorre na Europa, Norte de África, oeste asiático e Sibéria. Não engana os polinizadores, moscas atraídas pelo aroma a mel e que nela recolhem farto néctar, mas parece ludibriar os fungos. É através deles que retira carboidratos à árvore que, hospedeira dos fungos, é recompensada com minerais que estes lhe servem. Deste modo, a planta defende o seu bom nome (ladrão que rouba a ladrão...) e sai da classe das saprófitas uma vez que parasita fungos vivos. Sabe-se que protege alguns orgãos com uma substância fungicida, mas não é ainda claro o que ganha o fungo intermediário do negócio, embora estudos recentes indiquem que há transferência de carbono da orquídea para o fungo.

Cada flor tem ao centro seis pontos minúsculos sensíveis que, mal tocados pelo bicho, accionam o alarme que faz uma bisnaga de cola expelir uma gota e abrirem-se os sacos de pólen, que logo adere à cabeça do insecto. Na falta destes, autopoliniza-se, podendo mesmo fazê-lo enquanto subterrânea.