08/11/2010

O que nós pisamos



Mollugo verticillata L.

Os paralelepípedos da rua são um habitat florístico muito mais interessante do que os tapetes de asfalto, embora, pela trepidação que provocam, agradem menos aos condutores. Era bom, aliás, que eles evitassem tais ruas e nos deixassem esquadrinhar as pedras sossegadamente. E não sou o único a queixar-me da presença indesejável dos automóveis. O Xico, um gato preto de pontas brancas, é obrigado a ir para o meio da rua abocanhar os pedaços de comida que uma vizinha bem intencionada, mas de fraco arremesso, lhe atira da janela. Engole um pedaço de frango e lá tem que se recolher ao passeio para deixar passar um carro. Mais uma tentativa, mais um carro que se aproxima. Já um gato não pode comer em paz, nem eu posso botanizar sem sobressaltos.

Por sorte, há vias com paralelepípedos onde os carros não circulam, e uma delas, nos jardins do Palácio de Cristal, até me fica perto de casa. Além do mais, as plantas que lá ocorrem são uma amostra representativa das que frequentam vias mais perigosas: beldroegas (Portulaca oleracea), maleiteiras (Chamaesyce maculata) e esta Mollugo verticillata, planta de origem sul-americana a que os brasileiros chamam cabelo-de-guia ou capim-tapete. Sendo capaz de sobreviver nos interstícios das pedras e de resistir ao frequente pisoteio, a M. verticillata não pode ser muito vistosa nem ter porte avantajado; e, de facto, é uma planta rasteira, muito ramificada, com caules finos de uns 20 cm de comprimento, folhas de 1 a 3 cm agrupadas em saiotes (ou verticilos), e flores branco-esverdeados com 5 mm de diâmetro. Tem um ciclo de vida anual muito breve; mas, como é prolífera, as gerações vão-se sucedendo umas às outras na estação favorável, que aqui na Europa se estende de Junho a Outubro.

Além desta exótica, que aliás não é assim tão comum em Portugal (a Flora Ibérica indica que ela apenas está naturalizada no Douro Litoral e no Minho), a família Molluginaceae inclui duas espécies espontâneas da flora portuguesa, também elas pequenas herbáceas anuais: Mollugo cerviana e Glinus lotoides. A primeira, que frequenta margens de rios e terrenos arenosos ou pedregosos, está presente nas bacias do Douro e do Tejo, e distingue-se da M. verticillata pela folhagem estreita, quase linear. A Glinus lotoides, por seu turno, tem folhas arredondadas e uma aparência lanuda que contrasta com o carácter glabro das duas Mollugo; aparece em areias junto a cursos de água, e em Portugal está restrita à metade sul.

05/11/2010

Cravo ferrado na rocha



Dianthus langeanus Willk.

Os cravos que enfeitaram as portas abertas de Abril eram plantas domesticadas, das que se vendem nas floristas e nos centros de jardinagem. Talvez estivesse mais de acordo com o espírito libertário que marcou essa época celebrá-la com cravos silvestres (desde que, como é óbvio, não andássemos a colhê-los desregradamente). Dá-se até o caso de Portugal - e, mais geralmente, a Península Ibérica - abrigar uma grande diversidade de cravos espontâneos, a ponto de os botânicos que se propõem destrinçar as várias espécies se sentirem confundidos. A Flora Ibérica enumera 28 espécies peninsulares do género Dianthus; mas, se contarmos subespécies e híbridos, este número sobe para 47. E, conforme se admite nessa mesma obra, é frequente encontrarem-se exemplares que não se deixam arrumar claramente em nenhuma das 47 gavetas. A opinião dos estudiosos é que os cravinhos estão em plena evolução, e que as tentativas de sistematização taxonómica são prematuras. Quem sabe se não bastará esperar uns breves milhares de anos (uma ninharia, afinal) para que as espécies estabilizem as suas características e se diferenciem de modo mais nítido? Porém o homem, esse animal impaciente, quer ver tudo classificado sem demora.

Esta conversa parece desculpa de mau pagador, para minimizar os estragos que o tremoceiro misterioso nos terá causado à reputação. Lembrando que os profissionais também por vezes chegam a um beco sem saída quando se trata de identificar uma planta, fica desculpada a inépcia dos amadores. Mas nem tudo se equivale: embora a distinção entre certas espécies de Lupinus nos pareça algo confusa, com diferentes autoridades a emitirem opiniões divergentes, o grau de complexidade do género Dianthus é incomparavelmente maior. A verdade é que basta um mistério pequenino para nos baralhar a escassa erudição.

O Dianthus langeanus permite-nos fazer boa figura: no lugar onde o encontrámos - serra do Gerês, ao longo da linha fronteiriça da Portela de Pitões - não há notícia de nenhum outro cravinho que com ele se possa confundir. O D. lusitanus, que é comum de norte a sul na metade oriental do nosso território, e também ocorre (embora escassamente) no nosso Parque Nacional, é (como aqui se pode constatar) bem diferente do D. langeanus, tanto no hábito como na folhagem e na coloração da flor. Um carácter distintivo deste último, que é um endemismo das áreas secas e montanhosas do noroeste peninsular, florescendo de Junho a Agosto, é precisamente o tom violáceo ou acastanhado do cálice das flores.

O epíteto langeanus remete para o botânico dinamarquês Johan Martin Christian Lange (1818–1898), co-autor, com o alemão Heinrich Moritz Willkomm (1821–1895), de uma flora de Espanha com o título Prodromus Florae Hispanicae, organizada em três volumes aparecidos em fascículos entre 1861 e 1880. A primeira descrição do D. langeanus, feita por Willkomm, só foi publicada em 1878, no penúltimo fascículo do derradeiro volume dessa monumental obra.

04/11/2010

Sinos da lava


Azorina vidalii (H.C. Watson) Feer

A vidália é a única espécie do género Azorina, e ocorre exclusivamente nos Açores - em todas as ilhas, sabe-se hoje, depois de descobertos dois nichos na Graciosa -, estando o maior número de populações naturais nas ilhas do Pico, Flores, S. Jorge e Corvo. Mas esta espécie está em perigo de desaparecer. É certo que vive em lugares de risco (arribas, reentrâncias rochosas de falésias, praias de calhau rolado e escoadas de lava), exposta a derrocadas e vendavais; contudo, a maior ameaça vem-lhe da pressão urbanística, da perturbação turística nestas áreas sensíveis e do avanço da flora exótica. Problemas que Portugal tem a obrigação de resolver como signatário da Convenção de Berna e da Directiva Habitats, que atribuem prioridade a esta planta nas acções de conservação. Pela profusão de planfletos distribuídos pelo Ministério do Ambiente, neste ano internacional da biodiversidade, apenas listando as plantas ameaçadas - sem qualquer indicação de programas de protecção ou sequer indício de que o assunto tenha algum destaque na agenda política - dir-se-ia que se julga meritória a mera presença de tantas plantas quase extintas e que isso nos confere um estatuto especial que naturalmente o resto do mundo inveja e que, por isso, convém manter.

Crê-se que a vidália foi primeiro identificada pelo botânico inglês Hewett Cottrell Watson (1804-1881), durante a expedição botânica de 1843 na costa da vila de Santa Cruz das Flores. Designou-a então Campanula vidalii, mas em 1890 o suíço Heinrich Feer (1857-1892) descortinou diferenças morfológicas suficientes para a emancipar no novo género Azorina. Nessa viagem, o navio foi comandado pelo oficial da marinha britânica Alexander Thomas Emeric Vidal, responsável pelo levantamento hidrográfico das ilhas açorianas, entre 1841 e 1845.

Na ilha Terceira, onde a vimos, há três populações nas zonas litorais baixas de Quatro Ribeiras, Porto Martins e Monte Brasil, num total de cerca de mil plantas. É um arbusto de crescimento lento cujo caule, que contém um látex branco, pode, segundo algumas fontes, atingir metro e meio de altura, embora as plantas que vimos se fiquem muito abaixo dessa marca. As folhas verde-acastanhadas, de margens ligeiramente dentadas, formam rosetas terminais vistosas. Mas foram as flores, campânulas de porcelana com cerca de 3 cm de diâmetro (e havia poucas porque a época já ia adiantada), que nos fizeram, em Porto Martins, no sudeste da ilha, andar num sino à chuva pela praia.

03/11/2010

O alho da semana


Allium ericetorum Thore

     Nome vulgar: chalotinhas-do-Gerês
     Distribuição global: sul da Europa, desde os Alpes ao norte da Península Ibérica
     Distribuição em Portugal: principalmente na serra do Gerês, mas também nas terras do Sado
     Época de floração: Julho a Setembro 
     Data das fotos: Agosto de 2010

02/11/2010

Sândalo-dos-Pirenéus


Thesium pyrenaicum Pourr.

     El cuento es muy sencillo
     usted nace
     contempla atribulado
     el rojo azul del cielo
     el pájaro que emigra
     el torpe escarabajo
     que su zapato aplastará
     valiente
     (...)
     usted aprende
     y usa lo aprendido
     para volverse lentamente sabio
     para saber que al fin el mundo es esto
     en su mejor momento una nostalgia
     en su peor momento un desamparo
     y siempre siempre
     un lío

     entonces
     usted muere.

     Mario Benedetti, Currículum

01/11/2010

O pequeno azul



Lupinus micranthus Guss. (ou talvez Lupinus pilosus L.)

Mesmo para quem não frequenta esplanadas à beira-mar, os tremoços evocam instantaneamente as tardes e noites de um Verão sem fim. O Verão, na verdade, só se reduz a três meses para quem, como nós, se deixa ficar sempre pelo mesmo hemisfério. Uns pulinhos até ao Sul em ocasiões estratégicas duplicam facilmente essa duração. Isto para não falar dos bronzeamentos artificiais, assunto que já tem pouco a ver com o consumo imoderado de tremoços.

Também para o naturalista os tremoços evocam os bons tempos que só regressam no próximo ano: é aquele período de Abril a Julho em que as plantas se acotovelam para nos prender a atenção. São tantas e tão variadas que algumas acabam imerecidamente por ser esquecidas. Mas há dois tremoceiros, o azul e o amarelo, que resolveram o problema inteligentemente, deslocando para as bermas das estradas (e até para os separadores das auto-estradas) contingentes de tal modo numerosos que mesmo os condutores mais apressados e mais indiferentes aos encantos da natureza são obrigados a vê-los.

Claro que o naturalista gourmet não se dá por saciado com as plantas que estão à vista de todos, e tem por força que ir à procura de raridades em sítios esconsos ou remotos. Assim é com o Lupinus que hoje aqui trazemos: não é mais bonito do que os outros, mas é um exclusivo nosso. O problema é arranjar-lhe nome. Se estivéssemos certos da sua origem espontânea, teríamos poucas dúvidas de que se trata do Lupinus micranthus, também conhecido como tremoceiro-peludo, que ocorre em solos cultivados ou arenosos do centro e sul de Portugal. Mas essa espécie tem preferência por solos ácidos (que supomos não existirem em Sicó) e a coloração da flor, tal como é descrita nos manuais, não condiz com o que fotografámos. Também poderia tratar-se do L. consentinii, que, sendo igualmente espontâneo no nosso país, já admite viver em solos básicos e tem flores com a coloração certa; contudo, como ele é muito menos hirsuto do que a nossa planta, essa hipótese terá que ser descartada. É pois de admitir que este Lupinus tenha origem no cultivo, apesar de o terreno onde o encontrámos há muito ter sido abandonado; e, nesse caso, talvez seja o L. pilosus, uma espécie mediterrânica originária da Grécia, Turquia e Israel que é cultivada ocasionalmente noutros países.

Enfim, um pequeno mistério azul que deixamos à consideração de quem goste de dar nome às coisas.

29/10/2010

Igual e diverso


Epilobium angustifolium L.

"That's all", said Humpty Dumpty. "Good-bye."
This was rather sudden, Alice thought: but, after such a
very strong hint that she ought to be going, she felt that it would hardly be civil to stay. So she got up, and held out her hand.
"Good-bye, till we meet again!" she said as cheerfully as she could.
"I shouldn't know you again if we
did meet," Humpty Dumpty replied in a discontented tone, giving her one of his fingers to shake: "You're so exactly like other people."
"The face is what one goes by, generally," Alice remarked in a thoughtful tone.
"That's just what I complain of," said Humpty Dumpty. "Your face is the same as everybody has - the two eyes, so -" (marking their places in the air with his thumb) "nose in the middle, mouth under. It's always the same. Now if you had the two eyes on the same side of the nose, for instance - or the mouth at the top - that would be
some help."
"It wouldn't look nice," Alice objected.
But Humpty Dumpty only shut his eyes, and said "Wait till you've tried."


Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There (1871)

28/10/2010

Lagoa dos limónios



Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

O Parque Natural das Dunas de Corrubedo e lagoas de Carregal e Vixán ocupa quase mil hectares do concelho galego da Ribeira, na província da Corunha. É lá que os aficcionados portugueses de orquídeas podem, entre Julho e Agosto, admirar a Epipactis palustris, espécie que até à primeira metade do século XX era abundante no litoral centro de Portugal (em especial na zona de Ílhavo) mas que desde então parece ter-se sumido do país. São porém muitos os motivos para visitar essa zona húmida noutras alturas do ano. No conjunto de habitats lá representados (sapal, prados arenosos húmidos, dunas, rochas costeiras, matos e bosques) vivem 247 espécies de plantas, algumas raras ou ausentes de Portugal, e o rodopio de aves residentes ou migratórias é um grande atractivo para ornitólogos amadores ou profissionais. O pessoal do centro de atendimento, ao contrário do que é regra em Portugal, conhece o património natural à sua guarda e sabe dar indicações úteis aos visitantes. E não tem só indicações para dar. A junta da Galiza fez publicar seis brochuras a cores, de 60 a 90 páginas cada, sobre os diversos aspectos do parque natural: guia das aves, guia dos répteis e anfíbios, dos coleópteros, da flora, dos orquídeas, dos percursos. São livrinhos com boas fotos e bons textos, de qualidade mais que aceitável para serem vendidos ao público, mas que são oferecidos a quem os solicite - e eu até preferia tê-los pago. E torna-se inevitável comparar a informação disponibilizada nesse parque natural galego com o que se passa, por exemplo, no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nas «portas» do PNPG, os funcionários que nos atendem - admito que com simpatia -, além de não saberem rigorosamente nada, só têm para venda, a 1 euro por unidade, uns folhetos sem qualquer informação útil. Um deles, sobre turfeiras, continha só generalidades que poderiam ter sido tiradas da Wikipedia, nada dizendo sobre a flora específica ou a localização das turfeiras do PNPG.

As fotos em cima mostram a lagoa de Carregal na maré vaza. Mais uma ou duas horas e o mar começaria a meandrar pelos canais que cruzam as dunas, enchendo de água salgada a extensa concavidade arenosa. Há zonas que ficam submersas e outras a que só chega um fio de água, distinção de que as duas espécies de Limonium que ali coexistem bem sabem tirar partido. O Limonium vulgare, de maior envergadura, gosta de locais encharcados: ocupa as margens da lagoa mas avança também para o seu interior. Para o L. binervosum, essas margens marcam uma linha que ele se recusa a ultrapassar, preferindo concentrar-se nos lugares onde a água nunca chega ou o faz só raramente.



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O L. binervosum tem folhas de 2 a 6 cm de comprimento dispostas em roseta basal, e hastes florais esparsamente ramificadas que podem chegar aos 45 cm de altura. As flores, que aparecem entre Julho e Setembro, são pequenas - até 7 mm de diâmetro - e não param quietas à menor brisa, boicotando seriamente o trabalho do fotógrafo. O efeito ornamental destas plantas em flor, quando reunidas em grande número, não fica aquém do da Armeria, outra planta da mesma família que frequenta habitats costeiros. Mas, vá-se lá saber porquê, pouca gente se lembra de gabar a beleza dos limónios.

A consulta dos manuais não esclareceu cabalmente se o Limonium binervosum ocorre ou não em Portugal. Entre a Nazaré e Peniche há muitos limónios, mas por ser comum a hibridação entre espécies é difícil distingui-los. O mais frequente parece ser o L. virgatum, que não anda longe de ser um sósia perfeito do L. binervosum. Para agravar a confusão, existe em rochedos e falésias da costa cantábrica da Galiza uma espécie muito semelhante, o L. dodartii, tão raro que se considera em perigo em extinção. Contudo, há quem defenda que L. dodartii e L. binervosum são sinónimos - e este último, a avaliar pela amostra na lagoa de Carregal, não é de modo nenhum escasso.

27/10/2010

Rosa d'alhos


Allium roseum L.

Floresce de Março a Junho, no centro e sul do país. Fotografado em Abril de 2009 na Serra dos Candeeiros.

26/10/2010

Minuete nas pedras


Curral da Carvalha das Éguas - serra do Gerês



Minuartia recurva (All.) Schinz et Thell.

Não sabemos se o naturalista e boticário catalão Juan Minuart (1693-1768), homenageado em 1907, alguma vez viu esta planta. Talvez só devêssemos designar as plantas com nomes de pessoas, ou vice-versa, quando garantido o encontro entre o nomeado e a musa.

Quando a encontrámos, em Junho, no caminho no Gerês que nos levou a uma orquídea rara, pensámos tratar-se de uma arenária (e, na verdade, a designação inicial, de 1785, foi Arenaria recurva All.), pelas flores brancas com centro verde e as folhas aciculares, um pouco curvas de um lado, com a nervura central saliente. Mas as pétalas desta Minuartia são espaçadas, permitindo ver as sépalas, e unguiculadas (repare na base de cada uma).

É uma herbácea perene baixinha, embora com ramos lenhosos, e bem adaptada a ambientes frios entre rochas de montanha. É nativa do sul da Europa (mas na Península Ibérica restrita à metade norte e, em Portugal, às serras do Gerês e da Estrela), Sudoeste da Ásia e, pulando os torrões intermédios, do sul da Irlanda. Floresce no Verão para que o seu encanto não se perca com a neve.

Tradicionalmente a estirpe do Gerês é arrumada na subespécie juressi, mas as semelhanças com a M. recurva subsp. condensata, da Sicília, têm retirado pertinência a esta distinção.

25/10/2010

Arroz cristalizado



Sedum pruinatum Brot.

Já é o segundo endemismo galaico-português que mostramos em poucos dias. É da história que no noroeste da Península Ibérica, em tempos medievais, se falava uma única língua, de que hoje nos chegam ecos na poesia trovadoresca que é reproduzida em manuais escolares. Uma divisão territorial arbitrária acabou por partir essa língua em duas; e, embora foneticamente distantes um do outro, os idiomas português e galego revelam bem na escrita os seus laços ancestrais. Com a liberalização das fronteiras intra-europeias, o norte de Portugal e a Galiza passaram a visitar-se mutuamente com maior assiduidade. Mesmo que a união política nunca chegue (e será mesmo necessário tal formalismo?), aprendemos, nestas incursões, que há uma continuidade geográfica e cultural muito mais forte do que qualquer fronteira. Até que um governo estúpido nos vem lembrar que as fronteiras afinal nunca foram abolidas, e que quem mora do outro lado deve ser tratado como estrangeiro. Quem venha da Galiza e queira usar a A28, uma ex-SCUT que liga o Porto a Caminha, não pode simplesmente pagar a portagem, pois na auto-estrada não há nenhum posto ou máquina onde o fazer. Terá que alugar um identificador electrónico por 27 euros, se conseguir encontrá-lo nalguma loja, e acrescentar a essa quantia um pré-pagamento de 50 euros. Em nenhum outro país do mundo se cobram portagens de tal modo exorbitantes, e com tamanho incómodo para os utentes. Embora isso nada signifique para quem nos desgoverna, o norte de Portugal e a Galiza voltaram a ficar longe um do outro.

O que nos vale é que as plantas não percebem nada de política nem viajam pelas auto-estradas. O Sedum pruinatum é mais português do que galego, visto que, do lado de lá, só ocorre no sul da província de Ourense, nas serras que prolongam o maciço montanhoso da Peneda-Gerês. Talvez essa escapadela para os montes galegos tenha sido a moeda de troca pela vinda das cabras montesas, também elas indiferentes ao significado dos marcos fronteiriços. Em todo o caso, a presença do Sedum pruinatum no país vizinho é tão escassa que a espécie está listada como vulnerável no Catálogo Galego de Especies Ameazadas.

No nosso país, o S. pruinatum, ainda que não seja abundante e esteja restrito à metade norte do território, não é difícil de encontrar. Vimo-lo em diferentes locais da serra do Gerês (no trilho dos Carris, em Pitões das Júnias, etc.) e também na serra do Açor. Na estrada para Piódão começa a florir em meados de Junho, dividindo com os cravos silvestres a tarefa de enfeitar os taludes pedregosos.

Última hora. Recessão atinge Dias com Árvores
As medidas de contenção orçamental que têm asfixiado o país obrigam-nos a refrear o ritmo das actualizações do blogue. Passaremos a estar fechados aos sábados e domingos, e às quartas-feiras publicaremos apenas uma entrada abreviada.

23/10/2010

Eufórbia cigana


Chamaesyce peplis (L.) Prokh.

.....Enfrentando difícil viagem, foi consultar o oráculo sagrado, embora sabendo que há anos mantinha-se mudo. "Comigo falará", pensou cheio de fé, prostrando-se no templo, sob o olhar vigilante dos sacerdotes.
.....Mas por mais que implorasse, o silêncio foi único eco à sua pergunta, nenhum som varando os vapores que envolviam o oráculo.
.....Pago o tributo, saiu na praça ensolarada. Uma nova alegria parecia explodir em cada canto, transbordando risos e brindes pelas ruas, escorrendo danças até o mercado. E ao indagar o porquê de tão súbita felicidade, soube que enfim, consultado por um estrangeiro, o oráculo havia falado.
.....Só ele, o estrangeiro, nada ouvira.

.....
Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (2010)

22/10/2010

A companhia das verónicas


Veronica micrantha Hoffmanns. & Link

Já faz tempo que aqui apresentámos o nosso primeiro par de verónicas; está na hora de fazermos desfilar o segundo. Para benefício do leitor menos cinéfilo, sempre explicamos que a propensão para mostrarmos as verónicas aos pares nos vem do filme La double vie de Véronique (1991) do polaco Krzysztof Kieslowski. Houve um tempo, hoje incrivelmente remoto, em que os filmes rotulados como imperdíveis pelos críticos do Público não estreavam só em Lisboa. Como quem exibe relíquias de um passado glorioso, gostamos de mostrar que vimos esses filmes. O caso em apreço é singularmente apropriado: tal como as duas moças do filme (uma polaca, a outra francesa), as nossas verónicas nunca se encontram a não ser no écran (do cinema ou deste computador à sua frente). No que às plantas diz respeito, aliás, o nosso frente a frente virtual nem sequer é inédito, pois duas das fotos que aparecem nesta página (adivinhe quais) são da V. micrantha e não da V. officinalis. Pode dizer-se que o reencontro aqui e agora das duas verónicas é o aprofundamento de uma amizade.

As verónicas de hoje são ambas perenes, atingem alturas respeitáveis (50 a 70 cm), têm preferência por lugares húmidos como prados ou carvalhais, e estão confinadas à metade norte do país; globalmente, a V. micrantha é um exclusivo ibérico, enquanto que a V. officinalis se distribui por boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte. Além disso, a segunda, muito abundante nos bosques do Gerês e do Marão, é bem mais fácil de encontrar por cá do que a primeira. A V. micrantha é de facto uma raridade, e só não está incluída no livro vermelho da flora ameaçada em Portugal porque esse importantíssimo livro não existe (existe porém em Espanha, e ela aparece lá listada como vulnerável). Há notícia dela na Mata da Margaraça, onde, após insistentes buscas, a vimos num único local; mas as fotos acima foram tiradas em Aveção do Cabo, no concelho de Vila Real.

Um pouco de latim ou de grego fica sempre bem para rematar a lição. Micrantha é palavra grega e significa flores pequenas - o que, sendo indiscutível, não parece ser atributo que singularize a V. micrantha entre as suas congéneres. De facto, as flores da V. officinalis têm tamanho semelhante: de 6 a 8 mm de diâmetro. O epíteto latino officinalis, por seu turno, é usado na designação científica de muitas plantas, e indica que, pelas suas reais ou imaginárias virtudes medicinais, o vegetal em causa até era vendido nas boticas (que em latim se chamavam officinæ). Os nomes populares da V. officinalis atestam esses antigos uso: chá-da-europa, verónica-das-boticas, verónica-das-farmácias.


Veronica officinalis L.

21/10/2010

Capuzes negros



Biarum arundanum Boiss. & Reuter

Poderá julgar-se que o fotógrafo se esqueceu de incluir na imagem algum pedaço desta planta, mas, de facto, a inflorescência brota directamente do solo sem a companhia das folhas (que, em qualquer caso, parecem relva). Por isso, apesar de ser vivaz e tuberosa, de ter um espadiz comprido (até 30 cm) e de a bráctea que o envolve se notar à distância pela tonalidade púrpura da face interior, não é fácil descobrir este bi-arum no meio do tapete de herbáceas, o que talvez justifique o carácter raro que lhe atribuem.

O leitor fará o favor de recordar aqui o esquema sagaz de polinização que caracteriza estes jarros. Os frutos, brancos quando maduros, parecem herdar o carácter relutante aos olhares alheios que a foto revela, e as suas sementes são pardas e assemelham-se a pedras. Alguns botânicos arriscam justificar este disfarce com a opção de evitar a dispersão de sementes, pouco especializada e entregue a formigas, em ambiente inóspito ou pouco promissor. Enfim, ali junto à planta-mãe há fartura de carinho e se se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente.

O género Biarum contém cerca de 23 espécies que preferem solo rochoso e pobre em regiões com verões secos do Médio Oriente, Norte de África e Europa, havendo cinco espécies europeias. O B. arundanum ocorre em Espanha, Portugal e Marrocos. Não é clara a origem da designação genérica Biarum. Pensámos que pudesse resultar da presença de uma dupla voluta de flores estéreis a separar as flores masculinas das femininas (presente no B. arundanum mas não em todas as espécies deste género), mas esta morfologia também se encontra em algumas espécies do género Arum. O termo arundanum talvez derive do latim arundo (cana, flauta), nome que também se atribui à palheta de alguns instrumentos de sopro.

20/10/2010

O mar nos rochedos


Silene uniflora Roth

Quem assobia à beira-mar deve encher o peito para que o seu silvo se sobreponha ao ruído incessante das ondas. Talvez seja essa a explicação por assim dizer científica para os cálices insuflados da Silene uniflora, mesmo que o nome vulgar assobios só no idioma luso se aplique a estas plantas. E, além da fraca ciência, vem-nos à mente a consabida verdade de que para conhecermos bem a nossa terra só temos de ir embora e voltar. Vimos pela primeira vez esta planta na Galiza, já Agosto se abeirava do seu termo. No fim-de-semana seguinte, em ida ocasional a Lavadores, lá estava a Silene nos grandes rochedos que se amontoam entre o paredão, o mar e o rio. Mas ela, que nem uma flor nos deixou ver, tinha boas razões para se mostrar amuada connosco. Sempre ali esteve à nossa espera, em muito maior quantidade do que nas praias galegas, e nós ignorámo-la até hoje. Acordámos as pazes com a promessa de fazermos em 2011 uma sessão fotográfica que a mostre em toda a sua glória.

Até lá, remedeiam as plantitas que, com grande embaraço nosso, fotografámos numa praia de nudistas em O Grove. Sob o olhar desconfiado de veraneantes já prontos a entregar-nos às autoridades sob a acusão de voyeurismo, apontámos resolutamente a objectiva para o chão, e só a erguemos já com a tampa no lugar. Ninguém dará crédito ao nosso alegado interesse botânico se repetirmos a incursão, a menos que enverguemos os mesmos trajes sumaríssimos que são de lei em tais paragens. Antes ficarmos por Lavadores.

A Silene uniflora, especialista em rochas e falésias marítimas, é uma planta glabra, de folhas verde-azuladas e semi-carnudas, que floresce de Abril a Agosto e ocorre no litoral europeu desde a Itália até aos países nórdicos; em Portugal continental só aparece, e pouco, no norte e no centro, mas em compensação é uma presença comum em quase todas as ilhas açorianas (as excepções são Santa Maria e Graciosa).

19/10/2010

Colar de roscas



Illecebrum verticillatum L.

Parece um Sedum, por causa do hábito rastejante e do formato das flores, mas esta herbácea anual está, de facto, próxima do género Paronychia. Há cerca de vinte espécies de Illecebrum - designação que deriva do latim illecebrosus, que significa atraente, encantador - mas só uma europeia, que ocorre em todas as províncias portuguesas e também em parte do Mediterrâneo, norte de África e Macaronésia.

Reconhece-se facilmente entre as muitas plantas que se abeiram da água pelos ramos quadrangulares avermelhados, que se estendem até 60 cm de comprimento enquanto se enraízam pelos nós, ao longo dos quais nascem volutas de flores e folhas (em rigor, não são verticilos, mas o dicionário pode emendar a mão para esta planta merecer o epíteto verticillatum), num arranjo que justifica a elegante designação coral necklace.

As folhas são opostas, inteiras e obovais (lembram metades de ovo cozido?), com aproximadamente 3 mm de comprimento; as flores são menores, dispõem-se em grupos de 4 a 6 e têm sépalas brancas (ou rosadas) e esponjosas, cada uma com uma cerda na ponta (será por isso que o povo lhe chama aranhão?), que persistem no fruto.

Aprecia pastos húmidos ou margens de lagos, e floresce oficialmente entre Fevereiro e Setembro, embora a tenhamos visto florida neste fim de semana no Minho.

18/10/2010

Assobio agudo


Silene acutifolia Link ex Rohrb.

A Península Ibérica é rica em assobios. Não nos referimos àqueles sonoros de incitar ou vaiar os artistas em palco (embora desses também não haja poucos), mas às plantas do género Silene. Segundo os eruditos da Flora Ibérica, são cerca de 70 as espécies nativas; há ainda duas ou três introduzidas e outras tantas já extintas. E desta vez não nos podemos queixar de uma partilha mal feita, pois a Portugal couberam várias dezenas de espécies, algumas delas confinadas ao lado de cá da fronteira.

Até agora só prestámos atenção a espécies de Silene que vivem à beira-rio ou à beira-mar; ou que, grosso modo, ocupam a faixa mais ocidental do nosso território. (Clique na etiqueta Caryophyllaceae aí em baixo para ver mais silenes.) No intuito de repor o equilíbrio e mostrar a versatilidade destas plantas, trazemos hoje uma espécie de montanha, que se encontra em fissuras de rochas graníticas ou noutros lugares abertos acima dos 700 metros de altitude. A Silene acutifolia é uma planta peluda, ramificada, com folhas pontiagudas dispostas aos pares, capaz de atingir uns 35 cm de altura. As flores, que surgem entre Maio e Agosto, têm uns 18 mm de diâmetro, apresentam cálice arroxeado e pétalas rosadas, e reúnem-se em grupos de não mais que três na extremidade dos galhos.

Não fosse a sua presença no sul da Galiza, a S. acutifolia seria um exclusivo das montanhas do norte e centro de Portugal. Assim sendo, ficamos com um endemismo luso-galaico, o que até pode ter significado geo-político. Apesar de a termos fotografado na Serra do Gerês, ela não nos pareceu abundante por lá. Na Serra da Aboboreira (Amarante) encontrámos populações bem mais numerosas.

16/10/2010

Erva-gateira



Nepeta tuberosa L.

Fancy what a game of chess would be if all the chessmen had passions and intellects, more or less small and cunning; if you were not only uncertain about your adversary's men, but a little uncertain also about your own; if your Knight could shuffle himself on to a new square on the sly; if your Bishop, in disgust at your Castling, could wheedle your Pawns out of their places; and if your Pawns, hating you because they are Pawns, could make away from their appointed posts that you might get checkmate on a sudden. You might be the longest-headed of deductive reasoners, and yet you might be beaten by your own Pawns. You would be especially likely to be beaten, if you depended arrogantly on your mathematical imagination, and regarded your passionate pieces with contempt.

Yet this imaginary chess is easy compared with the game a man has to play against his fellow-men with other fellow-men for his instruments.


George Eliot, Felix Holt, the Radical (1866)