20/09/2010

Traço amarelo contínuo




Ononis ramosissima L.

Os portugueses mantêm uma relação distante com o código da estrada: sabem que existe, mas preferem ignorar o que diz. Quando o código balbuceia alguma tímida proibição, mandam-no cantar para outra freguesia - isto se chegarem a ouvir-lhe o canto. É provável até que, ouvindo-o, não o saibam interpretar. Tais portugueses (refiro-me aos outros, não a mim nem a si, estimado leitor) teriam dificuldade em captar o trocadilho que dá título ao texto. Impõe-se, pois, uma breve explicação. Aquelas linhas amarelas que existem em algumas ruas junto aos passeios não indicam (ao contrário do que a prática geral dos automobilistas e a complacência da polícia fazem crer) estacionamento livre e gratuito. Muito pelo contrário, assinalam locais onde é proibido estacionar. Se o traço for descontínuo, pode-se parar mas não estacionar; se for contínuo, não é sequer permitido parar.

Que pensar então da linha amarela tendencialmente contínua que enfeita a estrada atlântica entra a Praia da Vieira e São Pedro de Moel? Por exceder a espessura regulamentar, talvez ela traduza uma proibição ainda mais severa do que a da simples paragem. Mas é difícil, a um amador de botânica, acatar uma ordem dessas sem antes averiguar da índole claramente vegetal de tão vistosa marca rodoviária. Lá se aproveitou um aceiro para encostar o carro e toca a recolher amostras fotográficas para posterior análise em laboratório caseiro. E houve tempo também para confirmar que esta é, em muitos sentidos (olfactivo, visual, táctil e - se contarmos com as camarinhas - gustativo), uma das melhores estradas do país.

Efectuadas as análises, ficámos a saber que o traço amarelo da estrada atlântica é produzido pelas flores de uma planta, Ononis ramosissima, que é a versão em tamanho grande de uma herbácea dunar que nos visitou a semana passada. Trata-se de um arbusto muito ramificado, com uns 60 cm de altura, que floresce com abundância de Abril a Junho e, de forma mais esparsa, também no resto do ano. Normalmente está confinado a falésias e dunas costeiras, mas nesta região do centro do país aparece a algumas centenas de metros do mar. Além de ser nativo de Portugal, o Ononis ramosissima ocorre de ambos os lados da bacia mediterrânica, de Espanha à Grécia e de Marrocos a Israel.

19/09/2010

Os jardins também são património


[Clique no cartaz para ver melhor (ficheiro pdf)]

18/09/2010

A Flowering Tree


Halleria lucida L. [Tree Fuchsia]

Words (of W. H. Auden) You like Ben. But does Ben like you?
Music (of Benjamin Britten) Like us? No! He loves us!
Words It's never, "Do I mean that still?"
Music No.
Words Never, "Was I being sincere?"
Music The idea.
Words Look. I have to come clean. We, the poems, the stuff he's written... we are sometimes hated.
Music Hated? But he wrote you.
Words We embarrass him. We embarrass him so much several of my collegues never even made it into the Collected Poems.
Music No!
Words Excluded. Purged.
Music Purged?
Words Never spoken of again. There was Spain, a perfectly good poem cut out completely. Another one, September 1, 1939, he had 'second thoughts' about. And you can't do that, you see. It makes the rest of the oeuvre very nervous... I mean, who's going to be next?
Music Dear me. I don't like the sound of this. Still let's look on the bright side: people only listen to the music; nobody listen to the words.
Words That's what Wystan says. (...)
In the opera house words themselves go for nothing. An operatic audience doesn't listen to the words and only hears maybe one in five. But that's not the point. The librettist's function comes earlier because what the librettist, the writer of words, has paradoxically to do is deliver the music. The librettist is a midwife.

Alan Bennett, The Habit of Art (Faber and Faber, 2009)

17/09/2010

As unhas na praia


Ononis diffusa Ten.

Esta planta gosta tanto de espolinhar-se na praia que as suas hastes viscosas ficam quase camufladas de areia. Mas, como nas brincadeiras infantis, a cabeça de fora (ou, neste caso, a flor) permite detectá-la sem dificuldade. Ainda que seja de pequeno tamanho (cerca de 15 mm), a corola rosada é suficientemente contrastante com o amarelo pálido do areal para não passar despercebida. E as flores, que são seguro de vida para uma planta anual, não têm o menor interesse em esconder-se: é preciso que as abelhas as vejam e façam o seu serviço, ou a espécie desaparece.

Apesar de os manuais asseverarem que a Ononis diffusa ocorre em todo o litoral português (e, mais geralmente, em toda a costa ibérica desde Cantábria até Valência), a verdade é que pouco se vê; nós só a encontrámos no concelho de Esposende, já perto da foz do Neiva. As plantas dunares vivem encurraladas entre duas ameaças: o mar que vai roendo a costa e o homem que a vai ocupando desvairadamente. E ainda há o pisoteio dos veraneantes e o assédio de invasoras como as acácias e os chorões. Muitas espécies sobrevivem a estas contingências, e algumas até têm melhorado de vida com a moda (excelente) de instalar passadiços nas dunas. Mas a O. diffusa parece fazer parte do grupo das perdedoras - que inclui, por exemplo, a Honckenia peploides, em sério risco de se extinguir em Portugal.

O género Ononis poderia confundir-se com outras leguminosas como o trevo (Trifolium) e a a luzerna (Medicago) se não fossem as flores comparativamente grandes, com estandarte bem maior do que a quilha (ler aqui uma explicação destes termos), agrupadas em pequeno número. As folhas imparipinadas, com três a nove folíolos, também apresentam margens com recorte característico. O género, que inclui arbustos, herbáceas perenes e plantas anuais, conta com umas 75 espécies, a maioria delas europeias, com nada menos que 43 presentes na Península Ibérica. Ocupa habitats variados: dunas, falésias, lugares pedregosos, matos rasteiros e prados.

16/09/2010

Dois passarinhos na mão


Kickxia cirrhosa (L.) Fritsch

Desconfiámos da folhagem porque parecia um cirro pouco abonado que tivesse despencado das nuvens e onde mal se distinguiam, como é usual nestas formações estratosféricas, uns pingos violeta. Quando fotografados, revelaram-se linárias minúsculas, com esporõezinhos a preceito. Não, não, disseram pouco depois os livros em casa: isso já lá vai, foram linárias entre 1789 e 1897. Com atenção, mesmo sem avaliar diferenças mais intrincadas, teríamos percebido porquê: estas flores são solitárias e as linárias nascem em inflorescências, em geral terminais ou axilares. Paciência, aprendamos então.

É uma herbácea anual de ramos delgados e pubescentes. As flores, de Primavera, medem cerca de 7 mm desde o lábio superior à ponta do esporão. Repare o leitor que as folhas são sagitadas e algumas têm gavinhas - ou cirros - que as podem erguer até 90 cm. Aprecia solos arenosos mas temporariamente encharcados, mais ainda se perto do mar, como as margens da Lagoa da Vela, em Quiaios. Segundo a Flora Ibérica, é nativa da região mediterrânica ocidental, Açores, Canárias, metade sul da Península Ibérica e ilhas Baleares. O nome do género homenageia um boticário e naturalista de Bruxelas, Jean Kickx (1775-1831), autor de uma obra sobre a flora dessa região.


Kickxia spuria (L.) Dumort.

Quando, semanas depois, encontrámos estes pardais amarelos de papo lilás - igualmente axilares mas comparativamente gigantes com os seus 15 mm de comprimento -, ouviu-se um sorridente «são quíquecias!». Também é uma planta anual, mas prefere solos cultivados e argilosos. A lã nas folhas pareceu suficiente para um casaco XS mas ao tocá-la, tão fofinha, revelou-se desagradavelmente pegajosa. O hábito rastejante e preguiçoso foi louvado pelo fotógrafo e é comum à espécie K. elatine, que difere desta essencialmente no esporão que não é curvo. Por falar nisso, spuria não deriva do inglês spur (espora) mas do latim spurius (que originou espúrio), por isso o povo sábio lhe chama linária-bastarda. Partilha o território com a K. cirrhosa, mas estende-se a quase toda a Península Ibérica, Mediterrâneo, sul e oeste da Europa e sudoeste da Ásia.

15/09/2010

À sombra do viaduto


Melilotus albus Medik.

Cada grande descoberta traz consigo muitas pequenas descobertas. E essa lei não é só válida na investigação científica, mas também em actividades prosaicas como a de andar à procura de plantas raras. Em busca do pinheiro-baboso revirámos Valongo de alto a baixo, visitando lugares que de outro modo nunca teríamos conhecido - e que, valha a verdade, andam longe da beleza impoluta que faz a atracção dos espaços naturais. No meio dos intermináveis eucaliptais há porém resquícios da vegetação que outrora cobriu estas serras: são como metais preciosos esquecidos num armazém de ferro-velho. Um estreito regato, agora seco, alimenta um prado húmido de uns poucos metros quadrados à margem de um caminho: tanto basta para que se reúnam em assembleia plantas tão interessantes como o Hypericum elodes, o Cirsium filipendulum, a Anagallis tenella, a Gentiana pneumonanthe, a Wahlenbergia hederacea e vários Myosotis. E nem mesmo o monte de entulho que sobrou da construção do viaduto pode ser ignorado. Afinal, um dos últimos avistamentos do Drosophyllum lusitanicum por terras de Valongo deu-se num desses habitats artificiais criados pelo desmazelo humano.

A população de D. lusitanicum que por fim encontrámos não tinha entulho nem outros lixos por perto, o que talvez seja consolador. Mas a visita ao entulho à sombra do viaduto também nos trouxe algumas recompensas. Foi lá que vimos esta leguminosa alta (1 a 2 metros de altura), com longas espigas de minúsculas flores brancas, a que os ingleses chamam trevo-doce. E não há como escondê-lo: o Melilotus albus sentia-se em casa, pois é de lugares degradados pela acção do homem que ele gosta. (As plantas com tais gostos depravados designam-se eufemisticamente por ruderais.)

Apesar disso, o Melilotus albus, que é espontâneo em grande parte da Europa, é uma planta com boa reputação: é muito melífera; cultiva-se para forragem; e, sobretudo depois de seca, exala um perfume a relva acabada de cortar.

14/09/2010

Morrião dos brejos



Anagallis tenella (L.) L.


Submersos pelas crises que nos tolhem o passo, pouco se tem discutido o facto de o sol ser uma estrela anã, que tem brilhado intensamente e por isso consumido hidrogénio com apetite voraz, não tardando o dia, que então se confundirá com a noite, em que só restará um carvãozinho frio. Acabarão finalmente os incêndios no nosso sistema planetário, é certo, mas alguns seres lamentarão este destino, como a herbácea da foto e as suas irmãs cujas flores temerosas só abrem se o sol as aquece.

Não há semelhança notória entre as manas e até Lineu hesitou: começou por chamar-lhe Lysimachia tenella e só depois emendou a mão para Anagallis (daí o (L.) L. no nome científico, que o leitor já estava a apontar no seu caderninho de erros deles). De qualquer modo, as flores são também de Primavera-Verão, miniaturais (cerca de 10 mm de diâmetro) e as folhas opostas, glabras e carnudas revelam alguma parecença com as dos outros morriões. Contudo, a planta da foto, que é perene e natural do oeste europeu, região mediterrânica e Macaronésia, é mais delicada (tenella) e precisa de solo bastante encharcado. Por isso rasteja, enquanto enraíza os ramos pelos nós, acedendo a mais água sem nunca se expor ao risco de apodrecer com a humidade excessiva.

Mas, ainda antes do sol, talvez se extinga por descuido de quem gere áreas (des)protegidas - apesar de, pelo menos nos Açores, constar da lista da flora vascular de conservação prioritária.

13/09/2010

A margem esquecida do rio


Bidens frondosa L.

Uma das mais aguerridas polémicas que se desenrolaram neste plácido blogue teve como pretexto a Bidens pillosa, congénere sul-americana da planta que hoje sobe ao palco. As questões que exaltaram (moderamente) os ânimos foram estas: pode uma planta daninha, causadora em todo o mundo de grandes prejuízos nas colheitas, ser apreciada pela sua beleza? É legítimo o «romantismo floral» servir-se de tão maléfico vegetal para ilustrar a espantosa diversidade de meios que as plantas usam para se disseminarem? A resposta requer alguma capacidade de diferenciação. É possível, por exemplo, reconhecer que alguém foi um grande escritor sem esquecer que foi também um grande patife. Podemos ler e apreciar a prosa de um autor sem querermos ser governados pelas suas ideias. Do mesmo modo, há plantas de que podemos admirar a beleza ou o engenho mas que preferíamos, por muitas e boas razões, não ver por perto. Um bom exemplo é o jacinto-de-água, que é ao mesmo tempo uma terrível praga e uma criação admirável da natureza.

A Bidens tripartita, não comungando da índole expansionista da sua prima americana, tem pouco a ver com esta discussão. De facto, apesar de ocorrer em todo o continente europeu, tem exigências ecológicas particulares (lugares húmidos e algo nitrificados) que fazem dela uma presença esparsa. Em Portugal, por exemplo, só se encontra na metade norte do país, especialmente no noroeste, nas margens de um ou outro rio; e, como tem floração tardia (de Agosto a Outubro), passa ainda mais despercebida. O exemplar das fotos morava junto ao poluído rio Vizela, num pedaço esquecido de margem contíguo ao Parque das Termas.

As fotos mostram cabalmente o aspecto da Bidens tripartita, em particular as suas folhas tripartidas e as longas brácteas que rodeiam a inflorescência. Falta informar, contudo, que esta planta anual atinge uma envergadura considerável: nada menos que um metro de altura.

Errata. A Bidens tripartita, ao contrário do que supúnhamos, é actualmente muito pouco comum em Portugal, parecendo ter sido expulsa dos seus habitats de eleição por uma impostora que muito se assemelha a ela e tem a mesma época de floração. A Bidens frondosa, assim se chama a intrusa, tem origem norte-americana e chegou a Portugal ainda no século XIX. A verdadeira Bidens tripartita, que nunca vimos, tem folhas com pecíolo curto e alado (i.e., dotado de duas membranas laterais).

11/09/2010

Desaparecida


Epipactis palustris (L.) Crantz


Epipactis palustris var. ochroleuca

Desde a chegada do doutor Haselmayer até à sua partida, o egrégio senhor conde e o seu respeitável hóspede costumavam passar o tempo todo juntos, sem comerem, sem tocarem nas cobertas da cama, a falar constantemente da Lua, com um fervor misterioso que eu não conseguia entender. A sua exaltação atingia o auge quando a lua cheia calhava justamente no dia 21 de Julho: de noite, iam ao pequeno charco pantanoso do castelo e passavam horas e horas de olhos fixos na água, contemplando a imagem argêntea do disco celeste. Uma noite, ao passar casualmente pelo local, cheguei mesmo a ver os dois senhores a lançarem à água uns pedaços esbranquiçados - muito provavelmente, miolo de pão - e quando o doutor Haselmayer se apercebeu, disse prontamente:
- Estamos só a dar de comer à Lua... oh, perdão, queria dizer ao... ao cisne.
Mas a perder de vista não havia um cisne que fosse. Nem um peixe.

O que ouvi, por acaso, nessa noite pareceu-me estar ligado por um laço misterioso à cena a que assistira, pelo que se me gravou na memória, palavra por palavra, e logo o transcrevi fielmente.
- (...) Seria um mal assim tão grande?
- Mal? Inconcebível! Tremendo! - vociferou o conde com a sua voz estridente. Pensai um pouco: o homem dotado da capacidade de propagar a civilização no cosmos! Como pensais que seria a Lua passadas duas semanas, meu caro? Em cada cratera haveria um velódromo e, a toda a volta, terrenos de decantação das águas de esgoto. Se é que, antes disso, não se imiscuiu a chamada arte dramática, e o solo não se tornou árido, eliminando para sempre qualquer possibilidade de vegetação. Gostaríeis porventura que os planetas estivessem ligados telefonicamente de acordo com a hora das cotações da Bolsa, e que as estrelas duplas da Via láctea fossem obrigadas a exibir certificados oficiais de casamento? Não, não, meu caro, por mais algum tempo o universo pode muito bem ir vivendo na rotina do costume.

Gustav Meyrink, Die Vier Mondbruder [Os quatro irmãos da Lua] (A Biblioteca de Babel, textos seleccionados por Jorge Luis Borges, Ed. Presença, 2007)

10/09/2010

Dos rios que correm no Oeste


Darmera peltata (Torr. ex Benth.) Voss

Também eu, que visitei os EUA uma única vez, trago comigo uma América mental em nada enriquecida ou modificada por tão breve estadia. Trago até várias: a América dos filmes (quem pode hoje escapar dela?) e a América dos livros para rapazes que li na transição para a adolescência. São duas Américas incomunicantes: uma está cristalizada, a outra renova-se a cada ida ao cinema. A América dos filmes confunde-se com o mundo inteiro, mas a que me ficou das leituras desordenadas só a mim pertence.

Que livros eram esses? Lembro-me das biografias dos heróis do Oeste (Davy Crockett, Buffalo Bill, Kit Carson) e sobretudo de um livro com o título A caminho de Ohio. Sei hoje que o estado de Ohio não é propriamente no extremo oeste do continente americano, mas a história da família que venceu dificuldades inconcebíveis para chegar à terra prometida (paisagens verdejantes, rios banhando solos generosos) ficou-me a simbolizar a saga dos pioneiros que atravessam continentes. Quem deixasse para trás o Atlântico só alcançando a costa do Pacífico poderia fugir ao deserto: era assim a minha geografia do Novo Mundo. E não guardei os livros que sustentaram tal tresleitura. Se calhar eram maus livros, tal como eu era mau leitor. Registo que a autora de A caminho de Ohio (que na língua original se chamou By wagon and flatboat e teve a primeira edição em 1938), apesar de usar o nome sonante de Enid La Monte Meadowcroft, foi muito maltratada pela posteridade. Não há edições correntes dos seus livros e nem sequer a Wikipedia a conhece.

Como hoje tais livros ingénuos já não me fazem viajar, recorro às plantas. Para despoletar o efeito alucinogénio (muito moderado, é certo) basta vê-las e conhecer-lhes a história. A Darmera peltata, por exemplo, é originária de uma faixa que se estende do norte da Califónia ao sul do Oregon, onde vegeta nas margens de riachos de montanha. Quantas vezes os heróis do Oeste (ou os vilões por eles perseguidos) não pernoitaram com as suas montadas (no Oeste não há cavalos, só montadas) junto a um desses riachos floridos? Infelizmente os digests biográficos para crianças ou adolescentes não se detinham em descrições do mundo natural. Só agora, já adulto, é que a imagem fica completa.

A Darmera peltata é peculiar por as inflorescências - em hastes que podem superar 1 m de altura - surgirem desacompanhadas da folhagem. As folhas, que aparecem só no Verão e têm cerca de 60 cm de comprimento, são lobadas e ligam-se aos pecíolos pelo centro da face inferior. Esse arranjo, que faz lembrar um guarda-chuva e aliás explica o epíteto peltata, justifica que um dos nomes comuns da espécie seja umbrella plant.

09/09/2010

Elegância no parque de estacionamento


Linaria elegans Cav.

Há tempos, propusémos que os postes e muros feios das cidades, construções recentes mas descascadas ou invadidas por grafitos, recebessem mantos de plantas viçosas que escondessem a deselegância e a inconveniência. Não é só pela mão de Patrick Blanc que as plantas sobem pelas paredes. A mesma solução serve para os desertos de cimento que encimam ou bordejam os sumptuosos parques de estacionamento - quase sempre vazios - que, por obra do progresso, usurparam algumas belas praças do país. Para a escolha das espécies vegetais, aqui deixamos uma sugestão.

Há cerca de 150 espécies no género Linaria, distribuídas pela Europa temperada, Norte de África e centro-oeste da Ásia, sendo a maioria natural da Península Ibérica, com uma orgulhosa percentagem lusa. O que, ponderemos, não é surpresa. Estas plantas anuais não exigem, em geral, demasiados nutrientes do solo; por exemplo, a da foto, natural do norte de Portugal e Espanha, prospera em torrões secos, ácidos e pobres. Enfim, como sempre, há caprichos e algumas populações estão em declínio, seja por falta de argila, de xisto ou de calcário. Contudo, a grande maioria parece beneficiar da existência de lugares abertos, rochosos, soalheiros e sem competidores. Ora, clareiras nos matos e pastos carecas em bosques são algumas das nossas especialidades a que a rotineira e incendiária limpeza florestal de Verão garantem perenidade.

Dando argumentos à afamada arquitectura citadina dos lajedos sem rodriguinhos, que não nega aos automóveis a justa primazia, algumas plantas vão mais longe no seu apreço pelos nossos rituais de apropriação do mundo, despontando nas fendas do macadame que reveste os lugares de estacionamento. Encontrámos estes exemplares de Linaria elegans num desses espaços de piso britado para dezenas de viaturas em Pitões das Júnias, uma aldeia situada a 1200 metros de altitude e dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

As variações morfológicas no género Linaria tornam árdua a tarefa de identificar as espécies, muitas vezes bem sucedida apenas na presença de flores e sementes maduras. Não porém neste caso. As flores, cujo cálice é formado por cinco sépalas desiguais esbranquiçadas ou tingidas de cor malva, têm o formato típico das linárias (corola de pétalas unidas num tubo com dois lábios, o superior de duas pétalas, de entrada protegida por uma bossa no lábio inferior e que termina num esporão longo (~14 mm) recheado de néctar), mas as pétalas superiores são notórias e lembram as orelhinhas alçadas de um burro. [Apesar de tudo, esta herbácea prefere a ruralidade genuína.] A haste floral é penugenta e a planta tem folhas de dois tipos: as dos ramos férteis são lineares e alternas, as dos estéreis são lanceoladas, dispondo-se as basais em verticilos de 4 ou 5.

Se não podemos sombrear com árvores os tectos despovoados dos parques subterrâneos - as raízes poderiam corroer a solidez da construção -, por que não revesti-los com uma colecção de linárias portuguesas, que condescendem em mostrar-se ao olhar rasteiro de quem vê o mundo pela janela do carro?

08/09/2010

Do Havai para Valongo

Lycopodiella cernua (L.) Pic. Serm.

O escocês Arthur Conan Doyle (1859–1930) não foi só autor de Sherlock Holmes. A certa altura até se cansou de registar os casos do eminente detective e quis livrar-se dele atirando-o por uma ravina abaixo; depois, já se sabe, teve de ressuscitá-lo, explicando de forma canhestra que ele afinal não caíra no precipício. Conan Doyle queria ser reconhecido como escritor sério, ou pelo menos não ficar amarrado a um único personagem. Escreveu vários contos sem Sherlock Holmes, romances históricos à maneira de Walter Scott (escocês), e outros de aventuras que nada ficam a dever aos de Robert Louis Stevenson (também escocês).

The Lost World, livro que Conan Doyle publicou em 1912, narra uma aventura na América do Sul. Mais ou menos no local onde Brasília seria construída, ou talvez uns milhares de quilómetros a noroeste (as indicações geográficas são imprecisas), uma expedição liderada pelo tempestuoso Professor Challenger descobre, num planalto quase inacessível, formas de vida que se julgavam extintas há milhões de anos - incluindo, claro está, todos os dinossauros que viriam a ganhar fama no Jurassic Park, mas também hominídeos (o tal missing link muito discutido na imprensa da época) e uma curiosa variedade de plantas.

O imenso planalto onde a vida pré-histórica se refugiou é de formato oval e está delimitado, a todo o perímetro, por uma ravina de uns 100 metros de altura, inclinada para dentro. É como um estádio descomunal desprovido de acessos por lapso do arquitecto. O isolamento em relação ao exterior terá protegido os dinossauros das convulsões que ditaram a sua extinção no resto da planeta.

A vida vegetal do enclave é uma miscelânea de épocas e de latitudes. As mesmas condições que salvaguardaram os dinossauros permitiram a sobrevivência das plantas suas contemporâneas; e há também plantas modernas cuja presença não carece de grandes explicações, pois as sementes têm os seus próprios meios de vencer barreiras geográficas. Suscita estranheza que o autor fale de carvalhos e faias, árvores que julgamos ser europeias, mas há árvores dos mesmos géneros (Quercus e Fagus) originárias do continente americano, pelo menos da metade norte. Damos o devido desconto e deixamo-nos embalar na aventura. As plantas primevas incluem ginkgos (confere, pois diferentes espécies desta árvore espalharam-se pelo mundo no período jurássico), fetos e equisetáceas. E poderiam incluir licopodiáceas como a planta que hoje aqui trazemos, mas admite-se que Conan Doyle não tenha sido exaustivo: ele quis afinal escrever um romance de aventuras e não um tratado de botânica.

Tanto as equisetáceas como as licopodiáceas são das plantas terrestres mais primitivas que se conhecem. Surgiram no período devónico (de 415 a 360 milhões de anos atrás), foram das primeiras a terem raízes e folhas reconhecíveis, e delas se formaram as florestas que primeiro revestiram os continentes. E eram florestas a sério, pois essas famílias botânicas incluíam árvores de grande porte, apesar de hoje, da mesma linhagem, só restarem plantas herbáceas.

A presença da Lycopodiella cernua - uma planta prostrada e muito ramificada com caules que atingem os 50 cm de comprimento - no vale do rio Ferreira, em Valongo, é ainda mais misteriosa do que a dos carvalhos e faias no mundo perdido de Conan Doyle. Não por se tratar de uma relíquia pré-histórica que se acreditava extinta e só sobreviveu em Valongo: de facto, a planta tem uma distribuição cosmopolita e é mesmo abundante em certos habitats. Mas são habitats tropicais ou temperados húmidos: Havai, América e Ásia tropicais, Macaronésia. Na Europa, a Lycopodiella cernua só ocorre em Valongo... e na Sicília. Assevera a Flora Ibérica que se trata de populações naturalizadas. Serão mesmo? Quem iria dar-se ao trabalho de importar, e logo para um vale quase desabitado em Valongo, uma planta tão pouco vistosa?

Seja qual for a explicação para a sua presença nas margens do rio Ferreira, o que é certo é que a Lycopodiella cernua é uma das plantas mais raras e ameaçadas de toda a flora portuguesa.

07/09/2010

Abrótea dos pântanos


Represa na vizinhança dos Carris - Serra do Gerês



Um lençol com este amarelo, que no fim do Verão, com os frutos, se pinta de laranja e que o gado evita porque lhe faz mal, é o que qualquer prado deseja. Com os seus 20 cm de altura, um leque de folhas achatadas, flores estreladas com cerca de 15 mm de diâmetro e enfeitadas com estames lanosos e anteras ruivas, o Narthecium ossifragum é uma planta sedutora. Para ela, e muitas criaturas e histórias, uma fotografia é sempre um testemunho incompleto.


Narthecium ossifragum (L.) Huds.

O bog asphodel é companhia vivaz de caminhantes nas montanhas do norte e oeste europeu, regiões onde encontra solo ácido guarnecido de rochas encharcadas (o que talvez justifique o epíteto latino ossifragum). Em Portugal continental restringe-se ao norte, onde chove mais entre Junho e Setembro: é que, além de apreciar água a refrescar-lhe a base de folhas, a polinização desta herbácea rizomatosa está a cargo das gotas de chuva. Os frutos cor-de-raposa foram usados em Saffron Walden, Essex, como corante e substituto do açafrão quando, no século XVIII, o Crocus sativus quase desapareceu de Inglaterra.

O género Narthecium, com umas sete espécies de regiões temperadas do hemisfério norte (três europeias), tem andado em bolandas. Rejeitado pela família Melanthiaceae, foi adoptado pela Liliaceae mas, desde 2003, o ADN obriga-a a pertencer a uma família mais pequena, a Nartheciaceae, onde divide o protagonismo com outros cinco géneros.

06/09/2010

Água, sal & sol


Ponte sobre o rio Cávado - EN 308-4


Foz do Cávado

Cumprido mais um mês de Agosto, um relativo sossego terá regressado à foz do Cávado. É um rio que agrega muitas das paisagens marcantes do norte de Portugal. No Gerês vemo-lo desgraciosamente inchado por duas grandes barragens: a da Paradela e a da Caniçada. É lá que os aceleras de estrada se mudam para a água e dão asas à sua compulsão velocista com redobrado estrépito. Antes de chegar às barragens, porém, ou depois de escapar delas, o Cávado é um fio de água límpida saltitando de rocha em rocha com muitas árvores a servir-lhe de escolta. Junto à ponte sobre o rio logo acima da Paradela reúnem-se tantas e tão diversas plantas higrófilas (como esta) que não conheço local mais indicado para uma aula de botânica ao ar livre.

No estuário do Cávado há muito que ficou para trás o torturado relevo do Gerês. Em vez de cortar a direito para a foz, o rio ensaia uma curva para entrar no mar segundo uma trajectória quase tangencial à linha da costa. É na restinga que acompanha o rio nas suas centenas de metros finais, e também no sapal que se estende pela margem esquerda entre os núcleos urbanos de Fão e Esposende, que se encontra a justificação para se ter incluído esta área no Parque Natural do Litoral Norte (PNLN). Mas a ocupação desregrada de caminhos, dunas e pinhais pelos veraneantes, juntando-se à construção caótica que avassalou a zona (torres de Ofir e não só), torna inverosímil que este seja um espaço protegido.

Que há valores naturais a proteger, não se duvida. Porém essa protecção não surge magicamente com o decreto que cria uma área protegida. É preciso impor regras e vigiar o seu cumprimento, tarefas em que o PNLN é manifestamente omisso.


Armeria maritima Willd.

Uma das preciosidades do sapal (ou juncal) do Cávado, também presente na foz do vizinho rio Neiva, é a Armeria maritima, que florece vistosamente na Primavera e se dá bem em águas salobras. Em Portugal há muitas espécies de Armeria, mas aquelas que preferem zonas costeiras (como a A. welwitschii) estão concentradas no centro e sul do território. Pelo litoral norte ficamos só com a A. maritima e a mais discreta A. pubigera, que no nosso país são exclusivas do Douro Litoral e do Minho.

A A. maritima tem uma distribuição global muito ampla, abrangendo a América, a Europa e a Ásia. Na Europa ocorre não só em toda a costa atlântica desde o norte de Portugal, mas também na Grã-Bretanha, Itália e Balcãs.

04/09/2010

Espiral de Verão



Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich. [Lagoa da Vela, Quiaios]

Muito se tem escrito sobre O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. É um road-movie que nos destapa: leva-nos os olhos por esse Portugal dentro, o Portugal que não é a West Coast of Europe da promoção, mas um país antioceânico, de minúsculas enseadas fluviais, uma paisagem pétrea, indiscernível, incessante, com florestas e matas ameaçadas, como se, de alguma maneira, elas (e não nós) se tivessem tornado ocorrências lesivas. É um filme que nos leva pelos cabelos a ver Portugal: um país a que se acede pela camioneta da carreira, ainda de ritos, de ofícios manuais, de jornais de província, de feiras, cabisbaixas ou não, e datas para assinalar... Um país arcaico, onde o desassossego da condição humana se exprime no tom estático e impávido que têm os autos ou que teve, um dia, o teatro grego.

José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus e Outros Textos (Assírio & Alvim, 2010)

03/09/2010

Loura e nórdica


Chrysosplenium oppositifolium L. - albufeira da Paradela

É às montanhas do norte, de regime atlântico, que se deve a presença em Portugal de algumas especialidades botânicas europeias. A saxífraga-dourada entra no nosso território pelo Gerês e vai saltando de pico em pico até à Serra da Estrela. É uma planta rasteira, com folhas opostas de não mais que 3 cm de diâmetro, que reveste muros e taludes próximos de fontes ou regatos, em orlas de bosques caducifólios. Floresce cedo, entre Março e Maio, aproveitando a luz que as árvores despidas de folhagem vão deixando passar. As flores diminutas (4 mm), de sépalas amarelas, surgem agrupadas em corimbos na extremidade de hastes que se erguem a uns 20 cm de altura (foto da direita).

Ainda que a Chrysosplenium oppositifolium não pertença ao género Saxifraga, integra a mesma família, e daí o nome saxífraga-dourada que adaptámos do inglês Golden saxifrage. A sua distribuição é europeia, virada a oeste e empurrada para norte: desde a Grã-Bretanha até à Noruega e até ao norte da Península Ibérica. Inexistente no Mediterrâneo, faz ainda assim uma incursão ao norte de Itália. Há uma espécie aparentada, a Chrysosplenium artenifolium, que está ausente de Portugal embora ocorra nos Pirenéus espanhóis. Partilha o gosto pelos mesmos habitats e tem uma distribuição global ainda mais vasta que a C. opositifolium, distinguindo-se desta, como sugere o epíteto específico, pela forma e disposição das folhas.

O género Chrysosplenium é formado por certa de sessenta espécies, quase todas oriundas das regiões temperadas ou frias do hemisfério norte; duas espécies sul-americanas são a excepção à regra.

02/09/2010

Saudades para a Dona Genciana



Gentiana pneumonanthe L.

Espero pelo verão como quem espera por uma outra vida, diz Ruy Belo. Pelo contrário, para as lagoas de Ponte de Lima, os dias quentes do nosso repouso e novas errâncias são um ensaio da morte. Desde que em 1995 drenaram os canais de escoamento de água - para responder às queixas de quem lavra ou pasta nos campos próximos, que se encharcavam no Inverno - as lagoas quase desaparecem no período estival. Como se deveria ter previsto, a vegetação que era usual encontrar com os pés na água, alguma de natureza excepcional, vive (se é que ainda vive) dias aflitos. Por exemplo, os folhetos de informação relatam que já se registou a presença na lagoa do Mimoso de exemplares do género Utricularia; mas com a lagoa seca, tal como a vimos, a planta dificilmente sobrevive.

Como sempre, há quem ganhe com a desventura dos outros. A bela Gentiana pneumonanthe gosta precisamente destes relvados moderadamente húmidos com solo ácido; e, apesar de as fotos serem de exemplares da serra do Gerês, vimos há poucos dias muitos mais nos terrenos incultos adjacentes às lagoas. Esta herbácea vivaz rizomatosa tem folhas lineares opostas, de cerca de 3 cm de comprimento, que abraçam um caule de altura variável: as plantas do Gerês são baixinhas, as de Ponte de Lima ultrapassam frequentemente os 60 cm. As pétalas, de uns 5 cm, pintalgadas de dourado e plicadas, formam um tubo azul com cinco faixas verdes no exterior; rodeiam cinco estames e um estilete curto com néctar na base. Está na lista de plantas vulneráveis em vários habitats, alguns da Península Ibérica. Num projecto alemão que selecciona uma flor por ano para incentivar o apreço pelas plantas silvestres, o cálice-da-aurora foi a primeira a ser escolhida.

A maioria das cerca de quatrocentas espécies do género Gentiana distribuem-se pelas regiões temperadas da Europa, América e Ásia, preferindo prados de montanha se lhes calha viver em zona mais quente. Em Portugal, além da nortenha G. pneumonanthe, ocorre a G. lutea L., natural do centro e sul da Europa. Se esta genciana esguia de flores amarelas já existiu em todo o território aqui referenciado (o que parece improvável), agora só a podemos admirar na serra da Estrela; e tem já destaque garantido no livro vermelho das plantas ameaçadas, quando ele for publicado. Parte da culpa cabe ao rei Gentius da Ilíria, região dos Balcãs actualmente dividida por vários países (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro e Sérvia), a quem se atribui a descoberta de virtudes medicinais nas raízes da G. lutea, ainda hoje utilizadas para aromatizar e tonificar bebidas.

01/09/2010

Patinhar em seco



Lythrum portula (L.) D. A. Webb

O que há de mais notável nesta planta glabra e rasteira - habitante de terrenos lamacentos ou de águas baixas e estagnadas - é o contraste entre ela e as suas irmãs. Quem iria adivinhar que a patinha (Lythrum portula), a salgueirinha (L. salicaria) e a erva-sapa (L. junceum) pertencem todas ao mesmo género botânico? Como pode uma ervita prostrada ter algum parentesco com uma planta altaneira e erecta que frequentemente atinge metro e meio de altura? E há ainda a questão das flores: as da L. salicaria são vistosas, de pétalas rosadas; as da L. portula, resguardadas nas axilas das folhas, são minúsculas e, na maioria dos casos, nem pétalas têm (quando as têm, elas são igualmente cor-de-rosa). Algumas medidas ajudam à comparação: as folhas da L. portula têm cerca de 1 cm de comprimento, e as flores, tal como os frutos (visíveis nas fotos), não ultrapassam os 2 mm. A planta é anual, e os seus caules, que costumam enraizar-se nos nós, são muito ramificados, formando um entrelaçado confuso.

O Lythrum portula tem uma ampla distribuição europeia, e só está ausente da Islândia. Em Portugal, e apesar do optimismo de alguns, não é assim tão fácil encontrá-la. Na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, contudo, é uma presença comum em terrenos turfosos nos arredores de Pitões das Júnias; e também é possível vê-la na Área Protegida das Lagoas, em Ponte de Lima.