05/01/2011

Fusquinha


Ophrys fusca Link

     Nomes vulgares: moscardo-maior, moscardo-fusco 
     Distribuição global: sul da Europa e norte de África, em matos, pastagens e clareiras de bosques
     Distribuição em Portugal: centro e sul do território 
     Época de floração: Janeiro a Maio 
     Data e local das fotos: Serra dos Candeeiros, Março de 2009

04/01/2011

Erva de Sampaio


Verbascum litigiosum Samp.

Já aqui mostrámos círios como este, e o aspecto destas plantas, especialmente na época de floração, não deixa dúvidas quanto à identificação do género. Mas o Verbascum litigiosum é uma espécie que merece destaque: trata-se de um endemismo lusitano, dos areais marítimos do centro e sudoeste português (do Algarve à Serra da Boa Viagem), embora haja quem considere que ele se restringe à faixa costeira entre Leiria e Cascais, nascendo a discórdia da sua semelhança com o Verbascum thapsus L..

Essa parecença - no hábito de candelabro, nas folhas espatuladas, na penugem densa e amarelada e na ausência de manchas púrpura na garganta das flores - levou mesmo a que o V. litigiosum fosse tido como subespécie do V. thapsus. No V. litigiosum, porém, os filamentos dos cinco estames (no centro da flor) são glabros e as anteras (grãos de arroz castanhos no topo) estão dispostas transversalmente. Detalhes que, segundo os entendidos, bastam para lhe dar autonomia como espécie, sem contudo lhe alterar o epíteto (que significa controverso, duvidoso).

Todo este trabalho de destrinça pode, todavia, ter sido em vão. É que, de vulnerável nos anos noventa, o verbasco-de-folhas-grossas, que é bienal, passou a ter o estatuto de espécie ameaçada - e o risco de desaparecer deve ser elevado, a julgar pelos vários decretos-lei que o protegem. Apesar disso, persistem o pisoteio e a erosão das dunas e arribas onde habita, além da extracção de inertes a que a expansão urbana e turística perversamente obrigam.

Este exemplar é da praia de Quiaios. As folhas aveludadas basais são alternadas, com penugem nas duas faces e pecíolo longo; as caulinares, que abraçam o caule, escondendo-o, são sésseis e mais pequenas. Na parte terminal da haste dispõem-se, entre Abril e Maio (em Junho, quando foi fotografada, já eram raras as espigas cobertas de flores amarelas), as flores em fascículos, destacando-se em geral uma flor maior ao centro. Em cada flor, o cálice de sépalas lanosas, acuminadas e com cerca de 7 mm de comprimento, é fendido quase até à base, deixando entrever pétalas grandes de interior glabro. A cápsula avantajada de sementes mal cabe no que resta do cálice.

Chamou-se Verbascum lusitanicum ou V. crassifolium, mas o nome actualmente aceite foi-lhe atribuído em 1913 por Gonçalo Sampaio (1865-1937), botânico em cujo herbário encontramos uma amostra da flora que por cá vai tristemente rareando.

03/01/2011

Memórias de um feto



Pteris vittata L.

FÉTOS, E LYCOPODIOS. Lindissima planta vivaz que a moda tem entroduzido para adorno das sallas, pela elegância e colorido de sua rica folhagem - a maior parte são entroduzidas dos paizes tropicaes, e carecem de resguardo nos nossos invernos. (in Catálogo n.º 1 - Estabelecimento de Horticultura de José Marques Loureiro, 1865)

Por que será que num jardim, lugar de eleição do exotismo vegetal, as plantas exóticas que se propagam sozinhas, ocupando recantos inesperados, nunca são bem vistas? Talvez seja efeito da moda, fraqueza a que a jardinagem pode ser tão susceptível como o pronto-a-vestir. Houve um tempo em que aquele arbusto, vendido em todos os hortos e viveiros, era uma peça de ostentação de que qualquer jardim se orgulharia. Agora, porém, há outras novidades holandesas que reclamam a sua vez nos canteiros, e ao velho e ultrapassado arbusto resta ser transformado em lenha. Nessas condições, é algo irritante que ele tenha criado descendência, proliferando caoticamente no jardim e fora dele. É como uma senhora ter envergado ao sair de casa um tailleur de corte impecável e descobrir-se de repente no meio da rua com o xaile da avó pelos ombros.

Há que reconhecer, no entanto, que episódios destes só são possíveis onde a jardinagem é levada mais a sério do que em Portugal. Por cá, e sobretudo na jardinagem pública, não há modas, mas apenas um alastrar do esquecimento. As plantas não são retiradas para darem lugar às últimas novidades: simplesmente desaparecem e são esquecidas. Nos canteiros renovam-se trimestralmente as plantas sazonais, sempre as mesmas ano após ano, e quanto a novidades estamos conversados.

O Pteris vittata, um feto que desponta ocasionalmente nos velhos muros dos jardins do Palácio e das ruas circundantes, é uma relíquia da época em que a jardinagem portuense era coisa séria. Foi um tempo que atingiu o seu auge com José Marques Loureiro (1830­-1898) e que teve o seu fim simbolicamente assinalado pela demolição do Palácio de Cristal em 1951. Um feto que não é espontâneo em Portugal (embora o seja nalguns países da Europa mediterrânica, incluindo o sul de Espanha), que não é vendido em nenhum garden center, que não é cultivado em nenhum jardim - um tal feto só pode ter surgido naqueles muros vindo de outra época. Uma época em que a curiosidade pelas plantas e o desejo de experimentar moldavam tanto a jardinagem pública como a privada.

E ele só se aguentou estes anos todos porque é prolífero e de esporulação precoce. Cada indivíduo tem três ou quatro meses de esperança de vida antes de os jardineiros o arrancarem do muro: nesse curto prazo, tem que garantir a perpetuação da espécie. O exemplar acima fotografado, por exemplo, já não existe. Se o tivessem deixado crescer, as suas frondes poderiam ter atingido um metro de comprimento; assim, ficaram-se pelos 20 ou 30 centímetros.

Os dois sinais particulares que permitem identificar facilmente o Pteris vittata estão bem patentes nas fotos: o folíolo terminal muito mais comprido do que os restantes, e os esporângios dispostos linearmente e protegidos pelas margens dobradas. Esta última característica é partilhada pelos demais fetos do género Pteris, de que há 250 espécies mas apenas três europeias.

31/12/2010

Passagem


Amieiros e freixos - rio Ferreira, Valongo

Atravessavam uma floresta. Sem feras, que ali não as havia, um ou outro lobo, talvez, javalis. Nenhum tigre lhes saltaria às costas. E no entanto, avançando na penumbra lançada pelas copas fechadas, entre as colunatas dos troncos, todos aqueles homens valentes sentiam-se perpassar por uma ponta de estremecimento, cada qual levando seu próprio tigre no peito.

Marina Colasanti, Um homem, frente e verso ( 23 histórias de um viajante, Global Ed., 2005)

30/12/2010

Alface enganadora



Rhagadiolus edulis Gaertn.

Convém recapitular o bê-á-bá com alguma regularidade, não vá ele apagar-se-nos por falta de uso. As asteráceas, que incluem os malmequeres, os cardos e os girassóis, são a mais numerosa família de plantas à face da Terra, totalizando cerca de 23.000 espécies. Apesar de serem tantas e tão variadas, muita gente nunca lhes viu as flores - pois tal proeza, em geral, requer a ajuda de uma pinça e de uma lupa. Aquilo que um leigo toma por flor é na verdade um agregado de minúsculas flores, carinhosamente chamadas florículos. O arranjo mais popular e mais característico é o das margaridas, com os florículos tubulares a formarem o disco central da inflorescência, e os florículos externos dotados de línguas a fazerem as vezes das pétalas. Dentro deste modelo básico há depois as variações, com algumas plantas a optarem por ter mais florículos de um tipo ou de outro. Os cardos, por exemplo (ver aqui e aqui), têm só florículos tubulares e dispensam as "pétalas". No outro extremo estão aquelas plantas, como a chicória e a Scorzonera, que apenas dispõem de florículos ligulados. Constituem elas a tribo Cichorieae da subfamília Cichorioideae, e é nesta divisão das asteráceas que se integram as alfaces, tanto as verdadeiras como as de enganar.

Engano que, na verdade, não seria trágico. As alfaces querem-se para comer; e se, confundindo o Rhagadiolus edulis com uma alface silvestre (género Lactuca), o juntássemos a uma salada, pouco ou nada perderíamos com a troca. O epíteto edulis é garantia de palatibilidade, e só é pena que as plantas espontâneas não tragam placa identificativa para tirarmos mais proveito de tal informação. Na falta de placas, ainda se pouparia um bom dinheiro em hortaliças se ao latinório juntássemos um conhecimento mínimo de morfologia vegetal. Em vez de limparmos os jardins de "ervas daninhas", arrancaríamos as mesmas plantas para nos servirem de refeição. A tribo Cichorieae é aliás altamente comestível: além da alface, tanto a chicória como o banalíssimo dente-de-leão (género Taraxacum) têm grande vocação saladeira.

Sobre o Rhagadiolus edulis, discreto como é, pouco há a dizer. É uma herbácea anual com uns 50 cm de altura que ocorre de norte a sul do país em terrenos cultivados ou incultos e em bermas de caminhos. Globalmente, é espontânea em todos os países da bacia mediterrânica, da Península Ibérica à Turquia e de Israel a Marrocos.

29/12/2010

Raiz com dedos


Dactylorhiza caramulensis (Vermeulen) Tyteca [sinónimo: Dactylorhiza maculata subsp. caramulensis Verm.]

     Nomes vulgares: heath spotted orchid, orchis tacheté 
     Distribuição global: Portugal, Espanha e França - em orlas de bosques, margens de regatos e prados húmidos
     Distribuição em Portugal: metade norte do território (Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes) 
     Época de floração: Maio a Julho 
     Data e local das fotos: Serra da Lousã, Junho de 2010

28/12/2010

Amarelo na pedra



Ranunculus bupleuroides Brot.

As plantas não aquáticas do género Ranunculus são fáceis de identificar pelo amarelo por vezes envernizado das pétalas que rodeiam um festivo centro de estames. Tanto assim que, sem querer, as relegamos em benefício de espécies que nos propõem desafios mais intrincados. Contudo, por nos depararmos frequentemente com as de porte rasteiro e folhas finamente divididas, este exemplar de talos que chegam aos 60 cm de altura e folhas elípticas recebeu atenção adicional. Ainda bem, como lerão.

Trata-se de um quase-endemismo português, do norte e centro do país, ocorrendo ainda esparsamente na Galiza perto da fronteira. E só abunda em ambientes secos de montanha com solo rico em sílica. É erva tenra mas vivaz, com folhas basais longas (~ 8 cm) e largas (~ 2 cm), de nervuras paralelas e margens inteiras, e com pecíolo fino que pode atingir três vezes o comprimento da lâmina; as folhas caulinares são sésseis. Floresce entre Março e Junho, e as cinco ou mais pétalas são de um matiz de amarelo invulgarmente claro. Como é usual no género, os frutos são aglomerados globosos de aquénios, cada um com um bico.

Ranunculus significa, em latim, rã pequena, que associamos a lugares alagados, o habitat preferido por muitas espécies deste género. Já aqui explicámos a origem do epíteto bupleurum; o sufixo oides alude à semelhança das folhas com as deste género.

27/12/2010

Feto-azevinho



Cyrtomium falcatum (L. fil.) C. Presl

Os americanos chamam Japanese holly fern a este feto. É bom prevenir os falantes de inglês técnico que aquele holly não significa sagrado, não vão eles deduzir que o feto seria usado no Japão em cerimónias budistas. Acontece que a consoante dobrada faz alguma diferença: holly (azevinho) não é o mesmo que holy (sagrado). Quando houver na língua inglesa um acordo ortográfico para abolir consoantes mudas deixaremos de distinguir a árvore do conceito espiritual. Confusão essa que talvez agrade a lexicólogos visionários (da estirpe daqueles que em português uniformizaram a escrita de palavras homófonas como pêlo e pelo) e aos adeptos da New Age.

São os folíolos do Cyrtomium falcatum, coriáceos, pontiagudos e de margens onduladas, que fazem lembrar o azevinho. E os esporângios agrupados em formações orbiculares, cor-de-tijolo, salpicando o verso das frondes num arranjo semi-natalício, são talvez mais um sinal da vocação do feto-azevinho para herdar as funções festivas tradicionalmente atribuídas à árvore das bagas vermelhas.

E onde poderá o leitor colher um punhado destes fetos para enfeitar a sua sala de estar? Afinal a planta é originária do extremo Oriente, que não fica logo aí ao virar da esquina. Mas o comércio hortícola encarregou-se de a espalhar pelo mundo, e em muitos países da América e da Europa ela não se deixou confinar aos jardins. Vi-a em Angra, no Jardim Duque da Terceira, não apenas em canteiros bem arranjados mas noutros lugares onde os jardineiros certamente não a quiseram plantar. E, no passeio a pé pelo Monte Brasil, reencontrei-a à sombra das densas matas de Pittosporum undulatum. Sendo a árvore-do-incenso uma das mais problemáticas espécies infestantes nos Açores, não é motivo para alarme que o feto-azevinho lhe faça companhia: o que havia para estragar há muito que está estragado. E o feto, capaz como é de atingir um metro de envergadura, é vistoso e faz boa figura entre o monótono arvoredo.

24/12/2010

Meninos ao léu


Orchis italica Poiret (forma albina)

O Natal é tempo de paz, tempo de amor, tempo de lamentar a existência de pessoas como eu. Não admira que seja uma época que toda a gente aprecia. No dia que assinala o nascimento do salvador, o cardeal-patriarca não resistiu a lembrar que há quem não tenha salvação possível. Acaba por ser uma observação animadora. Se alguma coisa pode transtornar quem mereceu um lugar no paraíso é o facto de haver fila para entrar. Pois bem, eu serei menos um a obstruir os portões do céu: na homilia da missa de 25 de Dezembro, D. José Policarpo saudou os judeus e todos os que acreditam num Deus único - mas, ostensivamente, não me saudou a mim, que sou ateu. Os judeus acreditam tanto como eu que o menino cujo aniversário se celebrava é o filho de Deus. No entanto, receberam uma saudação. Para mim, nem um caridoso aceno de cabeça.

O ateísmo tem sido, para mim e para tantos outros incréus, a luz que me tem conduzido na vida. Às vezes fraquejo, em momentos de obscuridade e de dúvida, mas, mesmo sendo incapaz de provar a inexistência de Deus, tenho conseguido manter a fé - uma fé íntima fundada numa peregrinação que tem a grandeza e a humildade da longa caminhada da vida - em que Ele não exista. Todos os dias busco a não-existência do Senhor com renovada crença, ciente de que a Sua inexistência é misteriosa demais para que eu a tenha inventado.

É certo que o mesmo D. José Policarpo já havia dito que o ateísmo era o maior drama da humanidade - acima da fome, da guerra e do próprio time-sharing. Fê-lo, porém, em data menos misericordiosa. Sonegar saudações no Natal é particularmente cruel. O anátema mais duro é o que é lançado no tempo do perdão. Estou habituado a receber anátemas e garanto aos menos experientes que os anátemas natalícios são os que aleijam mais. Em todo o caso, no fundo eu sei bem que não sou digno de ser saudado. Acreditar que Deus existe é uma convicção profunda, mas acreditar que não existe, curiosamente, não o é. Alguém, munido de um aparelho próprio, mediu a profundidade das convicções e deliberou que as do crente são mais fundas que as do ateu. Quando alguém diz acreditar em Deus, está a exprimir legitimamente a sua fé; quando um ateu ousa afirmar que não acredita, está a agredir as convicções dos crentes. Ser crente é merecedor de respeito, ser ateu é um crime contra a humanidade. Ainda assim, esperava ter sido saudado. Eu não acredito em Cristo, mas sempre acreditei nos cristãos. É a primeira vez que vejo um deles recusar ao menos uma saudação a um pecador.

Ricardo Araújo Pereira, Paz e amor para todos menos para mim (Visão, 30/XII/2009)

23/12/2010

Não-me-esqueças-das-orelhas



Myosotis welwitschii Boiss. & Reuter

Os miosótis são uma pedra no sapato do botânico amador, e mesmo um embaraço para profissionais. Há muitas espécies que ocupam habitats semelhantes e que, a olho nu, mal se distinguem. Quando os encontramos à beira de um rio ou de um regato, talvez fosse mais sensato ficarmo-nos pela contemplação, em vez de os fotografarmos para posterior identificação. É que a beleza não deveria ser sinónimo de impaciência e de frustração, e os miosótis não são responsáveis pela nossa mania de dar nome a tudo.

O problema é que, se não os pomos aqui no escaparate, parece que lhes ignoramos a existência. Mais vale arriscarmos um erro de etiquetagem do que sermos acusados de um tal desdém. Assim, baseando-nos nas descrições da Flora Ibérica, e atendendendo ao carácter moderadamente hirsuto da planta e às flores azul-pálido com centro amarelo, julgamos estar na presença do Myosotis welwitschii; se não fossem os pêlos, também poderia tratar-se do Myosotis laxa subsp. caespitosa, pois ambos frequentam lugares húmidos ou encharcados. Contudo, a nossa planta exibia um porte semi-prostrado, quando, de acordo com as descrições dessas espécies, deveria apresentar-se erecta. Com a incerteza por companhia, avancemos ainda assim.

O epíteto welwitschii é-nos especialmente grato, pois o botânico que por ele é homenageado, Friedrich Martin Josef Welwitsch (1806-1872), manteve particular ligação a Portugal e a Angola, como já aqui se mencionou a propósito de uma arméria que também leva o seu nome. Foi Welwitsch quem descobriu, no deserto de Namibe, a extraordinária planta que hoje se chama Welwitschia mirabilis.

Com um ciclo de vida anual ou bienal, o M. welwitschii tem hastes ramificadas de uns 60 cm de comprimento. Planta acidófila, encontra-se por quase todo o país em pastagens húmidas e margens de regatos, ou junto a fontes e a escorrências.

22/12/2010

Folhas-de-azeda


Polygonum lapathifolium L.

     Nomes vulgares: erva-pessegueira, mal-casada
     Distribuição global: subcosmopolita
     Distribuição em Portugal: quase todo o território continental, em relvados húmidos e leitos de rios
     Época de floração: Junho a Novembro 
     Data e local das fotos: rio Ferreira, Valongo, Setembro de 2010

21/12/2010

Goivo duriense



Erysimum linifolium (Pourr. ex Pers.) J. Gay

As obras de remodelação urbana que viraram o Porto do avesso em 2001 também devastaram sombras e jardins. Na avenida de Montevideu, à beira-mar, substituíram os goivos perfumados (Erysimum cheiri (L.) Crantz) por conchas, um adorno deplorável e monocromático de duvidoso benefício para os metrosíderos. Das valvas, cujo calcário os goiveiros teriam agradecido, não resta sequer o pó escuro em que se transformaram nos primeiros anos de exposição. E as flores não regressaram, nem há, como antes, aroma para temperar a maresia. Foi por isso duplamente agradável verificar que a classificação do Douro como património mundial ainda não varreu dos taludes os goivos silvestres.

O E. linifolium é um endemismo ibérico, retringindo-se ao norte de Portugal e ao centro de Espanha (em Portugal apenas ocorrem três goivos espontâneos, e só este no Douro). É uma planta perene de base lenhosa, caules altos e folhas lineares (3-12 cm), de margens inteiras e cor verde-cinza; contudo, as populações de areais costeiros exibem adaptações naturais a este habitat, como caules curtos, flores maiores e frutos mais pequenos. As flores de quatro pétalas lilases em cruz (2 cm), num conjunto saciforme com anteras verdes, dispõem-se em racimos corimbosos, exibindo-se entre Março e Julho, com um pico em Abril. A polinização está entregue a abelhas e o fruto é uma vagem estreita com muitas sementes.

A enciclopédia da Royal Horticultural Society dá conta de cultivares do E. linifolium, alguns de flores duplas, bicolores ou da cor da lua, todos eles desconhecidos nos jardins da sua pátria de origem. Não são flores-de-parede, como lhes chamam os ingleses, mas herbáceas de canteiro - rodriguinho que foi por aqui esconjurado.

20/12/2010

Ao mar pleno


Asplenium marinum L.

Há vários bons livros que tratam da aventura das plantas; ou, se quisermos ser precisos, da aventura do homem em busca das plantas e também das plantas que viajaram pela mão do homem. Ainda nenhum, que eu saiba, falou da vida aventurosa das plantas sem nela imiscuir o «factor antrópico». Enfim, terá havido tratados científicos ou livros de divulgação, mas o que falta é um romance da vida vegetal em que os heróis sejam plantas e não pessoas.

Porque, muito antes de a espécie humana existir à face da Terra, já as plantas eram grandes viajantes. Continuaram a sê-lo na infância da humanidade, quando nós estávamos limitados a curtas e laboriosas deslocações. Hoje elas viajam sobretudo à nossa custa, e com isso o equilíbrio dos ecossistemas ficou em risco. Mas as plantas que são nativas de locais muito distantes uns dos outros nunca precisaram de boleia nossa. Uma delas é este feto, que ocorre em rochas do litoral oeste europeu e que, muitos milhares de anos antes dos navegadores portugueses, descobriu por si próprio o caminho (marítimo ou aéreo) para os Açores. Fui-lhe levar notícias dos primos continentais que conheci em visitas às falésias da nossa costa. O habitat açoriano é o mesmo, só a rocha mudou de cinzento para negro. Mas consta que nas ilhas o feto pode subir as encostas expostas ao mar até uma altitude de 500 metros.

Para além da vocação marinheira, o que melhor distingue o Asplenium marinum de outros congéneres seus é a textura coriácea das frondes, que atingem uns 30 cm de comprimento e surgem agrupadas em tufos. As minhocas na face inferior das pínulas (foto acima) são os esporângios, num arranjo linear típico do género Asplenium. Mais minhoca menos minhoca, o feto pode ser admirado o ano inteiro por quem o souber procurar - seja no Continente ou nos Açores.

17/12/2010

Vale do rio Beredo


Betula alba L.

No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos.

Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.

Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.

Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que o diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos, como a de Éolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.

Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem, por visão, todos os montes; e tem, por posição, todos os vales. O sol que doura os píncaros dourá-los-á para ele mais
[que] para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o constituem de prisão.

Com estas reflexões me consolo, pois que me não posso consolar com a vida. E o símbolo funde-se-me com a realidade quando, transeunte de corpo e alma por estas ruas baixas que vão dar ao Tejo, vejo os altos claros da cidade esplender, como a glória alheia, das luzes várias de um sol que já nem está no poente.


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

16/12/2010

No meio é que está


Spergularia media (L.) K. Presl

É estranho que desta planta, talvez a maior do seu género na Península Ibérica, se diga que tem tamanho médio. Ou pelo menos assim se deve ler o epíteto científico media. Tratando-se de uma planta perene, entouceirada, de base lenhosa, capaz de ultrapassar os 60 cm de altura, faz figura de gigante face às herbáceas rasteiras suas congéneres (como a Spergularia rubra). Incongruências destas explicam-se geralmente pela migração entre géneros, e neste caso é isso mesmo que sucede. No seu Species Plantarum, em 1762, Lineu baptizou a planta como Arenaria media - e, no contexto do género Arenaria, o epíteto media não era inapropriado. Como é regra nestas coisas, o epíteto teve de manter-se quando, por mão do botânico checo Carl Presl (1794–1852), a planta se mudou para o género Spergularia.

A história, na verdade, é um pouco mais complicada. Há quem conteste que a planta descrita por Lineu seja aquela que hoje conhecemos como Spergularia media. Se assim for, a prioridade na descrição da planta não caberá a Lineu, mas sim ao italiano Carlo Allioni (1728-1804), que lhe chamou Arenaria maritima. O nome válido hoje em dia seria então Spergularia maritima (All.) Chiov.

Deixemos esta confusão para os entendidos e debrucemo-nos sobre a planta em si. Foi algo difícil fotografar-lhe as flores, não pela sua pequenez (uns 1,3 cm de diâmetro), mas pelo horário preguiçoso do expediente: antes do almoço, só uma se apresentara ao serviço. Depois da refeição havia mais flores abertas, mas o fotógrafo já não trazia equipamento. A flor solitária é porém suficiente para lhe vermos as pétalas brancas debruadas de rosa. Também podemos ver, ao lado dela, o fruto já aberto com as sementes castanhas a espreitar. As folhas são carnudas e lineares, de ponta aguçada, e têm 4 a 5 cm de comprimento.

A Spergularia media é uma planta subcosmopolita que gosta de sapais costeiros mas também frequenta algumas zonas no interior. É possível encontrá-la à beira-mar na companhia de uma congénere sua, a S. marina (L.) Griseb., que tem um porte mais compacto e folhas cilíndricas mais gordas e mais curtas.

15/12/2010

Das ervas e dos passarinhos


Polygonum aviculare L.

     Nomes vulgares: erva-dos-passarinhos, sempre-noiva
     Distribuição global: cosmopolita; em prados, bermas de caminhos e terrenos perturbados
     Distribuição em Portugal: continente e ilhas - quase todo o território 
     Época de floração: Abril a Setembro 
     Data e local das fotos: Ponte de Lima, Agosto de 2010

14/12/2010

Bastarda & falsa



Melittis melissophyllum L.

Saturno, deus do tempo e das eras, governou o cosmos sob o terror de uma profecia: a de que um dos seus filhos o haveria de destronar. Convencido de que seria capaz de a impedir, planeou devorá-los ainda crianças, menosprezando a fúria materna. Por isso, não se apercebeu de que, ao engolir o mais novinho, comeu um disfarce. E Júpiter cresceu escondido numa gruta, cuidado por ninfas dedicadas e festivas, até estar pronto para a vingança - que cumpriu enquanto venceu uma guerra contra os titãs comandados por Atlas (este, por castigo, carrega até hoje o céu aos ombros). Foi Melissa, a ninfa do mel e das abelhas, que alimentou Júpiter na infância; quando ele se tornou Senhor do Universo, presenteou a sua protectora com uma cornucópia.

Pelo nome, esta herbácea é duplamente melada: melittis é uma variante de melissa, palavra que deriva do grego meli, mel. Muito aromática, não tem contudo as virtudes, quanto à fragância a limão e ao uso terapêutico, da erva-cidreira (Melissa officinalis L.), o que os ingleses sublinham com um descortês bastard balm. Ainda bem, porque a falsa-erva-cidreira é perigosa. Quando seca, rescende a cumarina (um misto de canela e erva fresca, o odor das flores e frutos do castanheiro-da-Índia, Aesculus hippocastanum L.), uma substância tóxica que ajuda a planta a defender-se dos predadores e que, apesar de proibida como aromatizante de alimentos, ainda é usada em cosméticos.

O género Melittis é mono-específico. Vimos este espécime à beira da estrada, junto a um dos muitos regatos que serpenteiam pelo Gerês. E são os prados húmidos e os bosques de sombra da Europa e da Ásia, exceptuando os das regiões frias, que esta planta aprecia; na Península Ibérica, segundo os entendidos, só ocorre no terço norte.

É rizomatosa, logo perene, mas de folhagem caduca. O caule pode chegar aos 90 cm, é penugento e de secção quadrada. As folhas são ovadas mas com um ápice acentuado. As flores são axilares, poucas por cada verticilo, em regra viradas todas para um mesmo lado. O cálice é verde e dentado; a corola com cerca de 4 mm é um tubo largo de cor creme e manchas púrpura no lóbulo inferior e na garganta; o lóbulo superior forma um capuz curto que não esconde os estames.

13/12/2010

Avenkga


Adiantum capillus-veneris L.

Aprendi o que é a sucessão ecológica muito antes de saber o nome do fenómeno. Na varanda da nossa casa, fechada com uma marquise de alumínio na boa tradição suburbana, a minha mãe mantinha uma colecção de plantas envasadas que eu me incumbia de regar com uma assiduidade letal. A falar verdade, a dita colecção, mesmo no seu apogeu, nunca foi muito variada: lembro-me dos cactos, das begónias e da avenca. E lembro-me, também, como definhavam os cactos e as begónias - sei hoje que por culpa minha - e como os luxuriantes pés de avenca acabavam por invadir todos os vasos. No habitat húmido hiper-saturado que eu criava só uma planta especialmente adaptada poderia sobreviver. Às outras plantas cumpria apenas preparar o terreno (sem elas não se teriam comprado os vasos) para o triunfo final da avenca.

Não sei se essa avenca ornamental era a mesma que por aí cresce espontânea. Talvez não fosse, pois as floristas tinham o seu brio e, tal como hoje ainda acontece, preferiam vender produtos importados. Mas as avencas são todas bonitas, seja num muro ou num vaso, e a avenca europeia até pediu o nome emprestado à deusa do amor: capillus-veneris significa exactamente cabelos-de-Vénus. Os cabelos são as hastes finas e negras, longamente pendentes, de onde saem os folíolos (ou pínulas) de um verde brilhante. Tudo isto em miniatura para treinar e gratificar a observação paciente.

Os aficionadas dos fetos têm o costume desagradável de lhes levantar as frondes para os espreitar do avesso, como se fossem médicos a sondar as intimidades de um paciente. Acontece que os esporângios costumam estar na face inferior das folhas, e o modo como se dispõem é importante para a identificação correcta da espécie. Uma característica do Adiantum capillus-veneris, que ajuda a diferenciá-lo das avencas exóticas, é que os esporângios estão protegidos por uma dobra na margem das pínulas, visível na terceira foto lá em cima. Ressalve-se, contudo, que só algumas pínulas, e só em certos períodos do ano, é que exibem tais dobras e produzem tais esporângios.

Assim como outros fetos, a avenca é ideal para um botânico sedentário que, no Inverno, não queira chafurdar por caminhos enlameados. Qualquer muro de pedra antiga num recanto esquecido da cidade é um possível habitat.


Adiantum capillus-veneris L. / Ginkgo biloba L.

Apesar do amarelo outonal e da desproporção dos tamanhos, as fotos explicam cabalmente por que razão os anglo-saxónicos tratam o ginkgo e a avenca pelo mesmo nome: o feto é o maidenhair fern, a árvore a maidenhair tree. (Por que se terá Vénus convertido em donzela (maiden) na passagem do latim para o vernáculo? Parece obra de vitorianos receosos de explicar coisas inconvenientes às criancinhas.) As folhas, de facto, parecem ter sido desenhadas pelo mesmo artista gráfico; ou então Deus, por cansaço criativo, repetiu formas na esperança de que ninguém notasse o auto-plágio.

A semelhança foliar entre a avenca e o ginkgo aparece num episódio que mereceria figurar no Livro Verde do Imperialismo e do Preconceito, se a obra existisse. O nome científico Ginkgo, que adopta a designação japonesa da árvore, foi oficializado por Lineu em 1771. Mais tarde, em 1797, o botânico inglês James Edward Smith, fundador da Linnean Society londrina, considerou que o nome oriental era bárbaro e inapropriado - apesar de a árvore ser ela própria oriental -, e propôs que em vez dele se usasse Salisburia adiantifolia. O epíteto significava, está bom de ver, com folhas de adiantum, mas o Salisburia era uma homenagem de J. E. Smith ao seu amigo Richard Salisbury. Contra todas as regras da precedência taxonómica, o nome espúrio teve uma voga de pelo menos um século, e não apenas em Inglaterra. Em Portugal, mesmo depois do ultimato britânico de 1890, o Jornal de Horticultura Prática continuava, obsequiosamente, a falar da Salisburia adiantifolia.

(Imperialistas são os que podem ditar regras; os outros, quando muito, são aprendizes.)

10/12/2010

Leituga pernalta


Tolpis azorica (Nutt.) P. Silva

A inexistência de genuínos nomes populares para boa parte da nossa flora espontânea, até da mais vulgar, atesta que o nosso povo nunca quis saber muito de plantas. Os Açores, como pedaço de Portugal ancorado no Atlântico, não poderiam ser excepção a essa característica indiferença dos portugueses pelo mundo natural. Só assim se entende que uma planta tão vistosa e encorpada como a Tolpis azorica, que além do mais é um endemismo açoriano, não tenha recebido qualquer nome vernáculo. Para remediar a omissão, propomos o nome leituga-peralta: é que a planta tem base lenhosa e pode atingir um metro de altura, ao passo que a leituga comum (Tolpis barbata) é uma herbácea rasteira. A leituga-pernalta também se singulariza pelas grandes folhas de margens dentadas e pelo tamanho das inflorescências, que têm cerca de 5 cm de diâmetro.

Que a planta continental tenha dimensões liliputianas face à sua congénere insular dever-se-á a um clima de humidade intensa, quase de estufa, que favorece crescimentos anormais. O fenómeno é visível mesmo em árvores ornamentais como as araucárias, que nos Açores crescem mais e mais depressa do que as que moram nos jardins do continente. Lugares há, como as Furnas de São Miguel, em que a vida vegetal parece acelerada por motores em permanente combustão.

Regressemos à Tolpis azorica para acrescentar uns breves dados biográficos. Tendo ela embora reputação de rara, no trilho Serreta-Lagoinha é fácil encontrá-la, em núcleos dispersos, a altitudes relativamente baixas - ainda que os manuais asseverem que ela só aparece acima dos 600 metros. Outra discrepância entre as nossas observações e o que os livros ensinam é a época de floração, que não se restringe ao período prescrito (Maio-Julho), mas se prolonga, pelo menos, até ao início de Outubro.

09/12/2010

Águas perdidas



Polygonum amphibium L.

     Nomes vulgares: polígono-anfíbio, water knotweed
     Distribuição global: Eurásia e América do Norte; naturalizado noutros continentes
     Distribuição em Portugal: embora raro, parece ocorrer em quase todas as províncias
     Época de floração: Junho a Setembro 
     Data e local das fotos: lagoa A Bodeira, O Grove (Pontevedra, Galiza), Agosto de 2010