21/10/2010

Capuzes negros



Biarum arundanum Boiss. & Reuter

Poderá julgar-se que o fotógrafo se esqueceu de incluir na imagem algum pedaço desta planta, mas, de facto, a inflorescência brota directamente do solo sem a companhia das folhas (que, em qualquer caso, parecem relva). Por isso, apesar de ser vivaz e tuberosa, de ter um espadiz comprido (até 30 cm) e de a bráctea que o envolve se notar à distância pela tonalidade púrpura da face interior, não é fácil descobrir este bi-arum no meio do tapete de herbáceas, o que talvez justifique o carácter raro que lhe atribuem.

O leitor fará o favor de recordar aqui o esquema sagaz de polinização que caracteriza estes jarros. Os frutos, brancos quando maduros, parecem herdar o carácter relutante aos olhares alheios que a foto revela, e as suas sementes são pardas e assemelham-se a pedras. Alguns botânicos arriscam justificar este disfarce com a opção de evitar a dispersão de sementes, pouco especializada e entregue a formigas, em ambiente inóspito ou pouco promissor. Enfim, ali junto à planta-mãe há fartura de carinho e se se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente.

O género Biarum contém cerca de 23 espécies que preferem solo rochoso e pobre em regiões com verões secos do Médio Oriente, Norte de África e Europa, havendo cinco espécies europeias. O B. arundanum ocorre em Espanha, Portugal e Marrocos. Não é clara a origem da designação genérica Biarum. Pensámos que pudesse resultar da presença de uma dupla voluta de flores estéreis a separar as flores masculinas das femininas (presente no B. arundanum mas não em todas as espécies deste género), mas esta morfologia também se encontra em algumas espécies do género Arum. O termo arundanum talvez derive do latim arundo (cana, flauta), nome que também se atribui à palheta de alguns instrumentos de sopro.

20/10/2010

O mar nos rochedos


Silene uniflora Roth

Quem assobia à beira-mar deve encher o peito para que o seu silvo se sobreponha ao ruído incessante das ondas. Talvez seja essa a explicação por assim dizer científica para os cálices insuflados da Silene uniflora, mesmo que o nome vulgar assobios só no idioma luso se aplique a estas plantas. E, além da fraca ciência, vem-nos à mente a consabida verdade de que para conhecermos bem a nossa terra só temos de ir embora e voltar. Vimos pela primeira vez esta planta na Galiza, já Agosto se abeirava do seu termo. No fim-de-semana seguinte, em ida ocasional a Lavadores, lá estava a Silene nos grandes rochedos que se amontoam entre o paredão, o mar e o rio. Mas ela, que nem uma flor nos deixou ver, tinha boas razões para se mostrar amuada connosco. Sempre ali esteve à nossa espera, em muito maior quantidade do que nas praias galegas, e nós ignorámo-la até hoje. Acordámos as pazes com a promessa de fazermos em 2011 uma sessão fotográfica que a mostre em toda a sua glória.

Até lá, remedeiam as plantitas que, com grande embaraço nosso, fotografámos numa praia de nudistas em O Grove. Sob o olhar desconfiado de veraneantes já prontos a entregar-nos às autoridades sob a acusão de voyeurismo, apontámos resolutamente a objectiva para o chão, e só a erguemos já com a tampa no lugar. Ninguém dará crédito ao nosso alegado interesse botânico se repetirmos a incursão, a menos que enverguemos os mesmos trajes sumaríssimos que são de lei em tais paragens. Antes ficarmos por Lavadores.

A Silene uniflora, especialista em rochas e falésias marítimas, é uma planta glabra, de folhas verde-azuladas e semi-carnudas, que floresce de Abril a Agosto e ocorre no litoral europeu desde a Itália até aos países nórdicos; em Portugal continental só aparece, e pouco, no norte e no centro, mas em compensação é uma presença comum em quase todas as ilhas açorianas (as excepções são Santa Maria e Graciosa).

19/10/2010

Colar de roscas



Illecebrum verticillatum L.

Parece um Sedum, por causa do hábito rastejante e do formato das flores, mas esta herbácea anual está, de facto, próxima do género Paronychia. Há cerca de vinte espécies de Illecebrum - designação que deriva do latim illecebrosus, que significa atraente, encantador - mas só uma europeia, que ocorre em todas as províncias portuguesas e também em parte do Mediterrâneo, norte de África e Macaronésia.

Reconhece-se facilmente entre as muitas plantas que se abeiram da água pelos ramos quadrangulares avermelhados, que se estendem até 60 cm de comprimento enquanto se enraízam pelos nós, ao longo dos quais nascem volutas de flores e folhas (em rigor, não são verticilos, mas o dicionário pode emendar a mão para esta planta merecer o epíteto verticillatum), num arranjo que justifica a elegante designação coral necklace.

As folhas são opostas, inteiras e obovais (lembram metades de ovo cozido?), com aproximadamente 3 mm de comprimento; as flores são menores, dispõem-se em grupos de 4 a 6 e têm sépalas brancas (ou rosadas) e esponjosas, cada uma com uma cerda na ponta (será por isso que o povo lhe chama aranhão?), que persistem no fruto.

Aprecia pastos húmidos ou margens de lagos, e floresce oficialmente entre Fevereiro e Setembro, embora a tenhamos visto florida neste fim de semana no Minho.

18/10/2010

Assobio agudo


Silene acutifolia Link ex Rohrb.

A Península Ibérica é rica em assobios. Não nos referimos àqueles sonoros de incitar ou vaiar os artistas em palco (embora desses também não haja poucos), mas às plantas do género Silene. Segundo os eruditos da Flora Ibérica, são cerca de 70 as espécies nativas; há ainda duas ou três introduzidas e outras tantas já extintas. E desta vez não nos podemos queixar de uma partilha mal feita, pois a Portugal couberam várias dezenas de espécies, algumas delas confinadas ao lado de cá da fronteira.

Até agora só prestámos atenção a espécies de Silene que vivem à beira-rio ou à beira-mar; ou que, grosso modo, ocupam a faixa mais ocidental do nosso território. (Clique na etiqueta Caryophyllaceae aí em baixo para ver mais silenes.) No intuito de repor o equilíbrio e mostrar a versatilidade destas plantas, trazemos hoje uma espécie de montanha, que se encontra em fissuras de rochas graníticas ou noutros lugares abertos acima dos 700 metros de altitude. A Silene acutifolia é uma planta peluda, ramificada, com folhas pontiagudas dispostas aos pares, capaz de atingir uns 35 cm de altura. As flores, que surgem entre Maio e Agosto, têm uns 18 mm de diâmetro, apresentam cálice arroxeado e pétalas rosadas, e reúnem-se em grupos de não mais que três na extremidade dos galhos.

Não fosse a sua presença no sul da Galiza, a S. acutifolia seria um exclusivo das montanhas do norte e centro de Portugal. Assim sendo, ficamos com um endemismo luso-galaico, o que até pode ter significado geo-político. Apesar de a termos fotografado na Serra do Gerês, ela não nos pareceu abundante por lá. Na Serra da Aboboreira (Amarante) encontrámos populações bem mais numerosas.

16/10/2010

Erva-gateira



Nepeta tuberosa L.

Fancy what a game of chess would be if all the chessmen had passions and intellects, more or less small and cunning; if you were not only uncertain about your adversary's men, but a little uncertain also about your own; if your Knight could shuffle himself on to a new square on the sly; if your Bishop, in disgust at your Castling, could wheedle your Pawns out of their places; and if your Pawns, hating you because they are Pawns, could make away from their appointed posts that you might get checkmate on a sudden. You might be the longest-headed of deductive reasoners, and yet you might be beaten by your own Pawns. You would be especially likely to be beaten, if you depended arrogantly on your mathematical imagination, and regarded your passionate pieces with contempt.

Yet this imaginary chess is easy compared with the game a man has to play against his fellow-men with other fellow-men for his instruments.


George Eliot, Felix Holt, the Radical (1866)

15/10/2010

Granito em flor


Antirrhinum graniticum Rothm.

Mesmo que o vento e a chuva se façam arredios, o tempo das flores já passou. Não de todas elas, porque há sempre as que chegam tarde e as outras que não respeitam qualquer calendário. Mas passou o colorido que as flores irradiavam à sua volta: as poucas que sobram esbatem-se nos tons outonais da paisagem.

Mostrar agora estas bocas-de-lobo parece assim ser um exercício de nostalgia, uma recusa em aceitar a sucessão natural das estações. E, na verdade, uma das fotos aí em cima foi tirada em fins de Maio, num talude duriense que já nos deu assunto para vários postais. Contudo, a foto da direita é de Outubro de 2009: foi há um ano, na estação de Foz Tua, muito perto dos carris de bitola estreita, que vimos este Antirrhinum graniticum em flor. A planta tinha instruções muito claras para florir o mais tardar em Agosto e entrar em hibernação logo depois de frutificar. Mas, governando-se talvez pelos horários das automotoras da linha do Tua, terá ficado desorientada quando elas deixaram de circular.

Das seis ou sete espécies de bocas-de-lobo que ocorrem em Portugal, a mais conhecida é decerto o A. linkianum (sinónimo: A. majus subsp. linkianum), muito comum em todo o litoral desde Ovar até à Costa Vicentina. O A. graniticum até poderá ter uma distribuição mais ampla (está presente em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Alentejo e no Algarve), mas como prefere o interior do país não dá tanto nas vistas. A sua escolha de habitat está explícita no epíteto graniticum: fendas de rocha, taludes, muros, terrenos pedregosos. É uma planta vivaz, ramificada, com hastes de até um metro de altura e folhas glandulosas de cerca de 6 cm de comprimento, que floresce de Abril a Julho ou quando muito bem lhe apetece.

14/10/2010

Lançado na boa vida


A Lanzada (O Grove, Pontevedra, Galiza)

O Complexo Intermareal Umia-O Grove começou num istmo arenoso e longo (cerca de 3 quilómetros) que liga o continente à Península de O Grove. Dessa união nasceu a sudoeste (à direita na foto) uma das praias mais famosas da Galiza e, do outro lado, uma enseada, dita de O Bao, onde desagua o rio Umia (e outros de menor caudal) que, associada à Ria de Arousa (à esquerda), constitui um dos ecossistemas dunares mais importantes do noroeste da Península. Declarada Zona de Especial Protecção dos Valores Naturais, da Rede Natura 2000, é um refúgio de milhares de aves e de endemismos botânicos galaicos e ibéricos, acarinhados sob rígidas normas de conservação.

O processo de colmatação do areal faz com que a enseada seja pouco profunda e, na maré baixa, pouco alagada; com isso, a acumulação dos sedimentos deixados pelos rios acabou por gerar um sapal. Aqui e nas dunas adjacentes instalaram-se mais de cem espécies de plantas que apreciam regiões abertas à beira-mar e este habitat misto, de água doce e salgada - em particular, muitas espécies da família Chenopodiaceae. E, claro, as respectivas parasitas, como a Cistanche phelypaea, cuja presença se começa a notar no areal no fim do Inverno mas só floresce na Primavera.


Cistanche phelypaea (L.) Coutinho

Em Portugal há habitats semelhantes a este, como a Ria Formosa: uma enseada de mar protegida pelas penínsulas de Faro e Cacela, cinco ilhas e inúmeras ilhotas, e que abrange uma área de cerca de 18 mil hectares onde desaguam dois rios e alguns ribeiros. Como a Lanzada, está formalmente protegida (é Parque Natural, estatuto atribuído por decreto-lei de 1987, e Zona de Protecção Especial por directiva europeia) e pertence à gloriosa lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional; mas a pressão urbanística e do turismo ameaçam o compromisso português de preservar este sistema ecológico. Entre Março e Junho, antes de os veraneantes invadirem as praias algarvias, pode-se admirar o hermoso manto amarelo que a floração desta Cistanche proporciona.

É uma planta perene que suga água e nutrientes às raízes lenhosas de que se avizinha: as folhas, sem clorofila, são triangulares, basais e imbricadas, e cumprem a função de haustórios, penetrando, como cunhas, nas raízes dos hospedeiros. A espiga densa de flores chega aos 50 cm de altura e cada flor tem uma bráctea, um cálice em sino e uma corola tubular com cerca de 5 cm feita por cinco lóbulos amarelos revirados e duas protuberâncias na garganta.

Ocorre no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral e Estremadura, e é nativa do sudoeste da Europa, Norte de África, Canárias, Cabo Verde, parte do Mediterrâneo e sudoeste da Ásia. Foi nomeada por vários botânicos (Lineu em 1753 chamou-lhe Lathraea phelypaea; foi depois Phelypaea lusitanica e mais tarde Orobanche compacta) mas a designação actualmente aceite foi-lhe dada por Antonio Xavier Pereira Coutinho em 1913. O epíteto específico homenageia o político Louis Phelypeaux, patrono da ciência e, em especial, do botânico Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708). O género Cistanche (nome que talvez indique a acção parasita sobre plantas do género Cistus) inclui 16 espécies de África, Ásia, Mediterrâneo e sul da Europa.

Os botânicos procuram ainda confirmação da existência na Península Ibérica de outra espécie, a C. violacea (Desf.) Hoffmanns. & Link., de menores dimensões, natural de regiões áridas ou semi-áridas do norte de África e de que se conhecem descrições em herbários espanhóis.

13/10/2010

Deixem passar o Sr. Presidente


Marsilea azorica Launert & Paiva

Nota prévia (Novembro de 2011). O texto que se segue foi escrito um ano antes de se descobrir que a Marsilea azorica é afinal uma espécie exótica de origem australiana, de seu verdadeiro nome Marsilea hirsuta. Mais informações aqui.

Para este raríssimo feto açoriano, ao que se conta, quase foi fatal a presidência aberta de Mário Soares no arquipélago entre Maio e Junho de 1989. Ressalve-se, porém, que o então Presidente da República não teve culpa no sucedido. As regras de bem receber impunham que as estradas por onde desfilasse a comitiva presidencial estivessem um primor, com bermas rapadas à escovinha e as inevitáveis hortênsias para enfeitar. E não é que a Marsilea azorica, com tantas ilhas aonde se acolher, e nelas tantas lagoas debruadas de sossego, elege para sua única residência a vizinhança de uma das principais estradas da ilha Terceira? As plantas mais afoitas desapareceram para nunca mais serem vistas. Sobraram, num charco temporário já fora do alcance da máquina zero, umas quantas plantas que desde então têm levado uma existência mais ou menos tranquila. Foi colocada uma paliçada ao longo da estrada para impedir o pisoteio, e falta só completar igual protecção do lado oposto, não vá algum rebanho mais incauto confundir este trevo-de-quatro-folhas com a sua dieta habitual.

A Marsilea azorica, com um habitat global de poucas dezenas de metros quadrados, é certamente uma das plantas mais raras e vulneráveis do planeta. Mas, como deve ter ficado claro, encontrá-la não exige grandes dotes de explorador: todos os terceirenses que valorizam o património natural da ilha sabem onde ela vive. Em 1989 poucos sabiam, e o resultado foi quase catastrófico. Ficou a lição de que o secretismo e o desconhecimento geral não são o melhor modo de preservar espécies em perigo. A população de M. azorica é vigorosa e, salvo algum desastre imponderável, há-de manter-se indefinidamente no seu charco.

O reconhecimento deste endemismo terceirense é recente: o nome científico só foi registado em 1983 por Georg Oskar Edmund Launert e Jorge Paiva. Talvez até então se pensasse que as plantas açorianas pertenceriam a alguma das outras 64 espécies de Marsilea. De facto, as diferenças entre a M. azorica e a europeia M. quadrifolia não são fáceis de detectar a olho nu. E, pelo menos em Portugal, a M. quadrifolia corre muito maior risco de extinção do que a sua congénere açoriana. De nada lhe valeu ter sido uma das oito espécies seleccionadas pelo Plano Nacional de Conservação da Flora em Perigo, lançado pelo ICN em 2002. No único local conhecido de ocorrência da espécie no nosso país - foz do rio Corgo, na Régua -, não foram detectadas quaisquer plantas entre 2003 e 2005. Só em 2006 se encontraram meia dúzia de exemplares, e como o projecto deveria terminar no final desse ano já nada se fez: o ICN, afinal, apenas conseguiu ministrar a extrema-unção à M. quadrifolia. É muito provável que a espécie já não exista em Portugal: em busca dela andámos este Verão no Corgo e no Douro com água pelos joelhos e nada encontrámos.

A um olhar distraído a Marsilea pode confundir-se com o Oxalis, mas basta contar até quatro para desfazer a confusão. O Oxalis é uma angiospérmica - ou seja, uma planta que dá flor -, enquanto que a Marsilea é um feto, reproduzindo-se por esporos. É verdade que, com as suas frondes compostas por quatro lâminas, é um feto peculiar. Por exemplo, é difícil saber quantas plantas aparecem na foto em baixo: pode ser uma só, podem ser muitas. Tal como várias outras plantas adaptadas à vida aquática, a Marsilea tem caules rastejantes (ou, mais propriamente, rizomas) de onde saem os pecíolos de 12 a 15 cm com as folhas nas extremidades. Quando há água, as folhas, que não têm mais que 3,5 cm de diâmetro, flutuam à superfície; quando, no Verão, a água recua, as hastes mantêm-se erectas. Trata-se assim de uma planta anfíbia, que muda de veste conforme a estação do ano.


Marsilea azorica Launert & Paiva

12/10/2010

Tranças de Outono

Spiranthes spiralis (L.) Chevall.

Esta é a orquídea mais tardia do ano, a única de floração outonal no continente, que aprecia prados abertos, com pouca humidade e solo pobre, e dunas soalheiras à beira-mar. Das mais formosas, para vincar a elegância, as flores são levemente perfumadas, peludinhas e dispostas em hélice de passo curto - dizemos nós, os admiradores. Mas tem de haver outras vantagens, para a planta, nesta estrutura helicoidal, que o nome latino da espécie sublinha repetindo a informação do grego spiranthes (de speira, torcido, e anthos, flor).

De facto, são várias as peculiaridades que se complementam para beneficiar o processo de polinização desta orquídea. Cada flor é um sino estreito de sépalas (como braços) e pétalas (mais curtas) brancas, com um labelo amarelo-esverdeado (que distingue pela cor esta espécie da S. aestivalis (Poir.) Rich.) na base do qual estão duas tacinhas de néctar e uma protuberância em forquilha (o rostelo, com uma gota de cola) que dificulta a auto-polinização mas que cede amavelmente os sacos de pólen ao insecto que lhe tocar. Além disso, apesar de pequeninas (cerca de 7 mm), as flores das lady's tresses são em geral polinizadas por abelhas que, ao acederem ao doce, roçam inevitavelmente nos sacos de pólen e assim o libertam. Contudo, as flores na parte superior da haste são mais jovens e ainda não são férteis quando as da base já estão receptivas. O arranjo no suporte recurvo adequa-se, por isso, ao esvoaçar usual dos insectos, que começam a visita à inflorescência pela base, não sobem a direito e no topo só recolhem pólen. Um dia depois de entregar o pólen a um visitante, a flor abre-se e o rostelo endireita-se, deixando livre o acesso ao estigma que está agora pegajoso: o próximo insecto a inspeccioná-la deixará ali o pólen que transportar. O intervalo de 24 horas e o movimento da abelha da base para o topo asseguram que este pólen vem de outra inflorescência, promovendo-se assim a polinização cruzada.

Cada flor produz cerca de 850 sementes, um valor baixo entre as orquídeas, mas a planta também se propaga vegetativamente através de rebentos laterais. Os exemplares mais altos que encontrámos tinham cerca de 15 cm de altura, mas o talo de flores pode chegar aos 30 cm. Uma das fotos mostra uma roseta basal de folhas ovais ao lado da espiga florida: são as folhas da próxima estação, que se manterão à superfície até à Primavera de 2011, desaparecendo em Junho, uns quatro meses antes de surgirem as novas flores.

O género Spiranthes contém dezenas de espécies (o desacordo entre taxonomistas situa o número algures entre 45 e 300) da Ásia, Austrália e América, a maioria da América do Norte e Central. Na Europa só há quatro, e dessas apenas duas, e raras, sobram para Portugal.

11/10/2010

Dos telhados às dunas


Sedum album L.

Há dias um vizinho nosso mandou consertar o muro que separa o jardim dele de uma casa contígua, abandonada, que há muito ameaça desmoronar-se. Quem pagou a obra foi o proprietário da dita casa - que já tem ideia, logo que venham tempos melhores, do uso que lhe vai dar. Alguma cautela se faz porém necessária: com a sua fachada lisa de que apenas sobressai uma varanda de ferro forjado, a casa não parecer ser património de grande valor; contudo, aparece no PDM do Porto como imóvel de interesse municipal. Mesmo que o restauro se resuma ao fachadismo em voga, ali não poderá erguer-se prédio de muitos andares. O tempo, entretanto, não brinca em serviço: o travejamento do tecto vai caindo de podre, quebram-se as telhas, as paredes interiores reduzem-se a escombros. E talvez as obras de consolidação do muro tenham, paradoxalmente, agravado o equilíbrio periclitante do edifício, pois quem as executou começou por arrancar a vegetação que revestia o telhado. A hera agora erradicada substituía as telhas em falta e, agarrando-se às traves e às pedras, tecia com os seus caules uma espécie de rede de sustentação; quem sabe se a última que mantinha de pé a débil estrutura. Aquela casa ainda vai ser notícia nos jornais.

E nem só à hera se resumia a vida vegetal que se acolhera ao telhado e ao muro. Não havia Primavera em que os alfinetes (Centranthus ruber) se esquecessem de montar a sua multicolorida banca de flores. Menos vistosos, adivinhavam-se os umbigos-de-vénus, a cimbalária e os diversos arrozes. É possível que tudo isto regresse, mas vai levar o seu tempo, e é preciso que a casa não caia nem seja sujeita a limpezas periódicas.

Quem alguma vez tenha reparado na tenacidade com que os Sedum colonizam os lugares mais inóspitos (rochas, telhados, muros e até o asfalto das auto-estradas) não pode deixar de os admirar. São plantas suculentas que têm por vocação estender mantos de flores em lugares onde a vida parece não ser possível. Algumas espécies, com notável espírito de sacrifício, recusam todo o alojamento mais aconchegante: qualquer vestígio de solo as afugenta. Outras estão abertas ao compromisso, admitindo ocupar habitats variados. O Sedum album, por exemplo, além de ser visto nos tradicionais telhados e muros, frequenta ainda as dunas da nossa costa. Não que as areias marítimas sejam lugares de vida fácil - mas pelo menos lá este Sedum tem a companhia de numerosas outras plantas.

09/10/2010

Flor-de-sal


Porto Martins - ilha Terceira [em primeiro plano: Myrica faya Aiton e Ficus carica L.]


Frankenia pulverulenta L.

Ao amanhecer, quando vindo do mar começava a soprar leve vento, subia o rapaz no alto daquele prédio, e empinava a pipa amarela. Batendo o tênue corpo de papel contra as varetas, serpenteando a cauda, lá ficava ela no azul até que o final da tarde engolia a brisa, halitando então a terra sobre o mar, e descendo o rapaz para a noite.

Assim, repetia-se o fato todos os dias. Menos naquele em que, por doença ou sono, o rapaz não apareceu no alto do terraço. E a brisa da manhã começou a soprar. Mas não estando a âncora amarela presa ao céu, o edifício lentamente estremeceu, ondulou, aos poucos abandonado seus alicerces para deixar-se levar pelo vento.

Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (Ed. Record, 2010)

08/10/2010

Cavalgar rente ao chão




Centaurium scilloides (L. fil.) Samp.

Voltamos às plantas que homenageiam os homens enxertados em cavalos ou vice-versa. O Centarium scilloides foge decididamente ao figurino dos seus congéneres, tanto que, se não fossem as flores, nem desconfiaríamos da sua filiação. Em lugar de se apresentar erecto, o C. scilloides é rastejante, só erguendo o pescoço para hastear as flores. As folhas, em vez de serem sésseis e abraçarem o caule, exibem um breve pecíolo e têm formato arredondado. E, incluída num género quase todo ele formado por plantas anuais ou bienais, a planta tem ainda a originalidade de ser vivaz. Assim, embora a sua parte aérea desapareça durante o Inverno, a subterrânea continua viva, pronta para fazer emergir novo caule quando chegar a Primavera.

Ainda que esteja referenciado em quatro países (França, Grã-Bretanha, Espanha e Portugal, incluindo o arquipélago dos Açores), o centauro-rasteiro não é de modo nenhum vulgar: na Grã-Bretanha surge apenas ao longo da costa oeste do País de Gales; na Península Ibérica concentra-se no norte, embora também haja notícia dele em Cádiz; e em Portugal continental parece ocorrer apenas em alguns pontos do Minho (serras do Soajo e da Peneda, Ponte de Lima, Paredes de Coura...). A sua vulnerabilidade garante-lhe a duvidosa honra de estar incluído no livro vermelho da flora ameaçada da Cantábria.

Conhecem-se duas formas da espécie, mas não tão diferentes, na opinião dos botânicos, que se justifique uma separação taxonómica: as plantas açorianas têm flores brancas (confirme aqui), em contraste com as flores cor-de-rosa das plantas continentais.

As fotos que ilustram o texto foram obtidas em duas ocasiões entre Julho e Agosto, a primeira no Parque Natural das Dunas de Corrubedo (Corunha, Galiza), a segunda na estrada que liga o Soajo à Peneda. Nessa área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, muito perto do Mezio, predominam as plantações florestais de pinheiros e cedros-brancos (Chamaecyparis lawsoniana). Há quem proclame sobranceiramente (leia-se a discussão aqui havida) que o valor conservacionista de zonas como essa é nulo, e que os incêndios que as têm devastado não trazem prejuízo sério ao nosso único Parque Nacional. Que os taludes das estradas por entre esses pinhais alberguem das poucas populações portuguesas de uma espécie globalmente escassa não é coisa que pese em tais argumentos: a ignorância é a melhor garantia de uma consciência tranquila.

07/10/2010

Urze do mar



Frankenia laevis L.

Regressemos à praia para sacudirmos a melancolia que sobreveio à recente combinação de chuva e vento. Uma vez que a semana se iniciou com tanto sucesso à volta do queijo - os comentários foram tantos que houve que recolocar a contagem em zero -, continuaremos a degustar o pitéu.

Esta planta de flores de seda cresce como uma avenida cortada por um labirinto de ruas transversais onde se apinha a folhagem. Identifica-se pelas margens revolutas das folhas (lembram sovelas) que são simples, inteiras, opostas, lanceoladas, com cerca de 3 mm de comprimento e ligeiramente penugentas, semelhantes às da urze mas polvilhadas de sal: vistas da face inferior, lembram pães de trigo com queijo fresco - e pan y quesillo é um dos nomes com que os espanhóis a brindaram. Tolera tão bem os excessos de sal que o usa como creme protector dos raios solares, cobrindo as folhas com uma crosta que depois a humidade da noite facilmente desfaz. Ou ela não se apoquenta com a tensão alta nos vasos seivosos, ou então acha, como o poeta Manuel António Pina, que a saúde é um estado precário que não augura nada de bom.*

De base lenhosa, esta herbácea perene forma matinhos rasteiros que, no Verão, se adornam de flores - solitárias ou, mais raramente, em inflorescências - com pétalas de uns 5 mm de diâmetro e ápices dentados como caudas de andorinha. O povo, atento, não perdeu a oportunidade de lhe atribuir outro nome a propósito, flor-de-golondrina. Por contraste com espéces de folhas ásperas, esta, de textura mais macia, é laevis. Encontrámos neste fim-de-semana, numa praia da ilha Terceira, exemplares da anual F. pulverulenta L.; no sábado poderão aqui compará-la com a F. laevis.

O género Frankenia abriga sete espécies espontâneas na Península Ibérica, três presentes em Portugal das quais uma (F. boissieri Reut. ex Boiss.) só ocorre no Algarve. O homenageado, Johan Frankenius (1590-1661), foi professor e naturalista em Uppsala, autor, em 1633, de Speculum Botanicum, uma das primeiras listagens das plantas suecas.

*Por Outras Palavras & mais crónicas de jornal (Modo de Ler, 2010)

06/10/2010

Erva queijeira


Galium verum L. Galium belizianum Ortega Oliv., Devesa & T. Rodr.

Num certo sentido, não é estranho que haja tantas ervas leiteiras. Afinal, o leite que bebemos depois de desmamados não é mais do que pasto transformado por interposta vaca. Agora que matutamos no assunto, ocorre-nos aliás que grande parte do que comemos são ervas. Para nos pouparmos à monotonia (pois a espécie humana depressa se entediaria de uma dieta fixa), recorremos a vários processos, naturais ou artificiais, para que essas ervas, antes de nos serem servidas à mesa, tomem diferentes aspectos e sabores. Mas não nos iludamos: carne, leite, salada - é tudo pasto.

Foi o nome científico da erva-queijeira (ou erva-coalheira) que suscitou esta conversa. Galium vem da palavra grega gala, que significa leite; e a mesma secreção aparece em Ornithogalum e em Polygala. A relação destas duas plantas com o leite - para além da circunstância atrás referida de tudo ter a ver com tudo - ou é de índole metafórica, ou radica numa crença não comprovada sobre as virtudes nutricionais do vegetal em causa. No que ao Galium diz respeito, porém, essa relação é íntima e directa, e é reconhecível nos nomes com que o povo o baptizou. É mesmo verdade que as inflorescências do Galium verum, e de outras plantas suas congéneres, foram e são usadas para coalhar o leite na produção artesanal de queijo. Não sabemos se o Galium presta melhor serviço do que os diversos cardos que igualmente se empregam nessa tarefa, mas é sem dúvida uma planta mais elegante.

Interessante também é os ingleses chamarem bedstraw às plantas do género Galium. Com a costumeira prolixidade da nossa língua, as duas sílabas do vocábulo inglês convertem-se em algo como palha-para-colchões. Ao que parece, estas plantas cheiram a palha; e, uma vez secas, têm usos semelhantes - com a vantagem de afugentarem as pulgas se forem usadas para forrar o leito. O Galium verum, talvez por ser mais bonito do que os seus irmãos (é o único que dá flores amarelas), é conhecido como lady's bedstraw. Não é qualquer um que faz a cama às senhoras.

05/10/2010

Jardim República



Atractylis gummifera L.

Lisboa 1914. Quando se rumoreja na cidade que os inimigos das árvores planeiam um morticínio, ninguém quer acreditar. É certo que alguns jornais começam a bravatear, numa linguagem medonha, contra os promotores de iniciativas tão pacíficas como a Festa da Árvore e a recém-constituída Associação Protectora da Árvore que começou por adoptar o nome ainda mais provocador de Associação do Culto da Árvore. Até um poeta de fama, o finíssimo António Correia de Oliveira, ousa lançar um livro com o herético título de A Alma das Árvores. É de mais. O cântaro extravasa. «Feiticeiros pagãos» e «idólatras dos deuses vegetais» são alguns dos muitos epítetos com que a imprensa conservadora nomeia os excomungados naturalistas. Um dos periódicos chega a consignar um «veemente protesto contra o abuso que se está fazendo da liberdade de consciência, forçando milhares e milhares de crianças a enfileirarem numa festa mais do que pagã.» (…) Apesar disso, os programas festivos continuam a decorrer com ações de sensibilização nas escolas, concursos juvenis para a inventariação dos exemplares históricos em cada concelho, oferta de vasos com plantas, visitas de estudo a parques, jardins e, sobretudo, «cerimónias» de plantação de árvores por jovens. (…) Ocorrem, entretanto, num fim de tarde, terríveis acontecimentos. Finda a interpretação do hino, os presentes rompem em vivas à República. E muitos-muitos aplausos. Depois, no momento em que um dos dirigentes da Associação Protectora da Árvore inicia uma preleção sobre o problema da desarborização alarmante que não cessa de estropiar as serras do interior, é interrompido por uma turba danada que força a entrada no Jardim Botânico e investe aos gritos de «abaixo os livre-pensadores, morram os hereges! Morra a República! Morra, morra!»

Sem que se perceba logo o motivo da desordem, os intrusos precipitam-se para a área onde haviam sido plantadas as frágeis árvores. Crianças e adultos assistem com olhos de medo à sanha dos espezinhadores. Os amigos das árvores ripostam com energia, porém são neutralizados em pouco tempo pelas longas naifas e varapaus da matula irada. (…) Os salteadores descem em tropel a encosta que dá acesso ao arboreto. De machados em punho vão destroçando aqueles seres vegetais que não conseguem opor resistência. Em escassos minutos devastam largas dezenas de plantas. Não se via tamanha violência desde que, sete anos antes, em vésperas da ditadura de João Franco, a Polícia entrou de rompante na Escola Polytechnica, ali mesmo ao lado. (...)

O bando retira-se, deixando o Jardim Botânico transformado num caos de maldade.


Pedro Foyos (Editorial Hespéria, 2010)

04/10/2010

Hércules e o centauro


Centaurium maritimum (L.) Fritsch

A mitologia grega, além de mostrar os deuses movidos por paixões tão caprichosas e irracionais como as que afligem os humanos, oferece-nos, para cada uma das suas narrativas, um emaranhado de versões contraditórias. Dá ideia que o Olimpo não dispunha de porta-vozes nem de centrais de comunicação para propagar versões oficiais que depois os repórteres da época (poetas, dramaturgos, filósofos) se encarregassem de difundir. Assim, cada um usava as fontes que conseguisse reunir; e, na falta de testemunhas oculares dos acontecimentos, inventava.

Assim aconteceu com Quíron, o mais distinto dos centauros: versado em astrologia e reputado curandeiro e naturalista, teve Aquiles e Asclépio entre os seus discípulos. A controvérsia gira à volta da sua morte. Segundo alguns, ela terá resultado de uma flecha envenenada desferida por Hércules. Segundo outros, Quíron, como todos os da sua espécie, era imortal, e não morreu com a seta, mas sim em consequência de um acordo depois firmado com Zeus: Quíron terá oferecido a sua vida em troca da salvação de Prometeu, o mesmo que ensinou os homens a usar o fogo e estava a ser comido vivo por uma águia. Reforçando esta segunda versão, conta-se ainda que Quíron recorreu aos seus amplos conhecimentos de plantas medicinais para se curar da ferida que Hércules lhe causara. Outros contrapõem que Quíron, para sua grande frustração, foi incapaz de se curar a si próprio - e quem sabe se não foram o desgosto e o incómodo, mais do que o altruísmo, que o levaram a sacrificar a vida.

Para efeitos taxonómicos, devemos aceitar que Quíron se auto-medicou com sucesso, e que a planta de que se socorreu é precisamente aquela a que hoje, em sua homenagem, chamamos Centaurium. O mundo e a arte de curar deram entretanto muitas voltas, os centauros e outras criaturas imortais desapareceram da face da Terra, e já ninguém é susceptível ao efeito placebo de uma ervinha desacompanhada de receita médica. Ainda assim, o Centaurium foi tradicionalmente usado, mesmo em Portugal, para preparar infusões que, por serem amargas como o fel, eram obrigadas pela lei das compensações a ter alguma virtude terapêutica. O nome popular da espécie mais comum em Portugal, C. erythraea, é justamente fel-da-terra.

Apesar de essas plantas, inexplicavelmente, quase não serem cultivadas em jardins, o fel-da-terra não é o único Centaurium ao alcance da nossa admiração: das cerca de vinte espécies do género, a maioria delas europeias, pelo menos nove são espontâneas em Portugal. Em geral são herbáceas anuais ou bienais, com flores cor-de-rosa (ou, mais raramente, amarelas ou brancas) dotadas de longos cálices tubulares, e folhas sésseis dispostas aos pares. Ficam-se pelos 20 a 40 cm de altura, florescem na Primavera, e gostam de lugares soalheiros como dunas, prados ou falésias.

O C. maritimum, que encontrámos em Vagos e na foz do Cávado, é especial por ter flores amarelas. O C. tenuiflorum, por sua vez, foi fotografado junto à pequena lagoa de Alvados. Distingue-se facilmente do C. erythraea pelas flores de menor tamanho e de um cor-de-rosa mais intenso.


Centaurium tenuiflorum (Hoffmanns. & Link) Fritsch

01/10/2010

O ritmo das formas


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia

.....CALIBAN
.....The isle is full of noises,
.....Sounds, and sweet airs, that give delight and hurt not.
.....Sometimes a thousand twangling instruments
.....Will hum about mine ears, and sometime voices
.....That if I then had waked after long sleep
.....Will make me sleep again; and then in dreaming
.....The clouds methought would open and show riches
.....Ready to drop upon me, that when I waked
.....I cried to dream again.

  .....W. Shakespeare (The Tempest)

Azedo e avantajado



Oxalis latifolia Kunth

As campeãs do darwinismo são aquelas plantas que se dão tão bem na luta pela vida que abafam toda a concorrência. Mas nós, em vez de promovermos cerimónias de consagração dessas atletas do mundo vegetal, suspiramos de impotência e de desgosto quando deparamos com elas. Preenchem a paisagem até à saturação e deixamos de ter olhos para lhes admirar a hipotética beleza. Veja-se por exemplo o omnipresente trevo-azedo (Oxalis pes-caprae): na primeira metade de cada ano, com início logo em Janeiro, não há terreno baldio ou jardim desmazelado que esteja a salvo da invasão amarela. Nós até gostamos do amarelo, mas não deste particular amarelo que oblitera todas as demais tonalidades - e que, uma vez instalado, é dificílimo de erradicar. Os perigosos herbicidas, em vez de o beliscarem, até lhe dão uma ajuda: matam as outras plantas e deixam-no sozinho em campo. As raízes produzem bolbilhos de onde saem novos rebentos, e portanto o único modo de debelar uma infestação é remover as plantas por completo.

É preciso, pois, algum esforço de distanciação para apreciar as plantas do género Oxalis. É um género populoso: das cerca de 900 espécies (ou 500, segundo outras fontes), ocorrerão umas vinte na Europa, e desse número só duas, O. corniculata e O. acetocella, são autóctones; as restantes foram introduzidas pelo comércio hortícola e encontram-se naturalizadas. Reconheça-se, contudo, e embora de modo nenhum se recomende o seu cultivo, que nem todas se propagam de modo tão aguerrido como o O. pes-caprae. Depois de já termos mostrado o O. purpurea, sul-africano de origem tal como o O. pes-caprae, trazemos hoje uma planta sul-americana, ficando assim representados no blogue os dois maiores produtores mundiais de espécies de Oxalis.

Que os Oxalis sejam apelidados de trevos - ainda que nada tenham a ver com as leguminosas do género Trifolium - explica-se pelo arranjo das folhas, compostas por três folíolos de recorte mais ou menos cordiforme. São plantas semi-comestíveis: o seu travo azedo deve-se ao ácido oxálico, que é tóxico (prejudicial ao fígado e inibidor da digestão) se consumido em grandes quantidades. Há registo de mortes em rebanhos esfomeados que foram pastar em campos infestados por O. pes-caprae.

O Oxalis latifolia distingue-se pela coloração das flores e principalmente - como aliás assinala o epíteto científico - pelo tamanho das folhas, com os folíolos a atingirem os 10 cm de diâmetro. Floresce de Maio a Setembro e é de ocorrência esporádica em Portugal, onde, à semelhança de quase todos os seus congéneres por cá imigrados, raramente produz sementes e se propaga sobretudo por meios vegetativos. Encontrámos um exemplar solitário debaixo do mesmo viaduto que deu abrigo ao Melilotus albus.