23/11/2010

Ás-de-pérolas



Asperula aristata L. fil.

Já aqui vimos cimeiras de flores com corola em funil e quatro pétalas como estas, no topo de múltiplos caules pubescentes e escabrosos (ásperos como línguas de gato) de secção quadrada, mas em amarelo, como as vulgares estrelas. A julgar por outras espécies de Asperula, estas também exalam um aroma que lembra a erva acabada de segar, mas não o pudemos confirmar porque as que encontrámos - num talude pedregoso e calcário de montanha - tinham corolas de não mais de 2 mm de diâmetro e os narizes disponíveis não eram de borboleta. A bula informa que a fragrância se deve à presença de um composto químico - usado em perfumes, charutos, bebidas alcoólicas alemãs e como aditivo alimentar, até ser banido - que, apesar de cheirar bem, desencoraja eventuais degustadores da planta por ser um redutor natural do apetite. Lamentavelmente é substância tóxica, ou a floração entre Maio e Junho abençoaria as dietas pré-veraneantes.

As folhas são sésseis, lanceoladas, de margens levemente revolutas, simples mas em verticilos de 4; as basais têm umas barbichas filiformes, as aristas, que dão o nome à espécie. As belles étoiles ocorrem no sul da Europa e no norte de África.

Só falta dar a boa notícia da publicação, pela Assírio & Alvim, da 2.ª edição do guia de campo Flores da Arrábida, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos. Segundo os autores, esta é a subespécie scabra, distinção que só será útil se se descobrirem indivíduos da outra subespécie, a A. aristata subsp. oreophila, que talvez ocorra a este dos Pirenéus mas tão rara é que a sua existência é duvidosa.

22/11/2010

Uma casa na árvore

Um erro comum nos percursos marcados em espaços naturais portugueses é o de supor que todos nós temos um interesse absorvente pela etnografia - ou, trocando por miúdos, que adoramos ver povo. E assim nos fazem deambular por aldeias (a)típicas e quase nos enfiam em casa de gente que não tem feitio para servir de atracção turística. Compreendo muito bem que alguns se sintam incomodados por ver chegar forasteiros tão abelhudos, e tomem medidas para os manter à distância. Em Paredes de Coura, por exemplo, um dos trilhos na paisagem protegida de Corno de Bico, o do Alto dos Morrões, passa por duas aldeias, Giesteira e Túmio, e proporciona uma vista desafogada para várias salas de estar, cozinhas e pátios de gente que, como nós, tem direito à privacidade. O resultado é que, na vizinhança dessas aldeias, principalmente em Giesteira, os indicadores do percurso foram metodicamente sabotados, chegando a ser colocadas cancelas a barrar o caminho. O percurso ainda se consegue adivinhar se for feito no sentido anti-horário (ao contrário do que é recomendado), mas no sentido oposto os caminhantes depressa perdem todas as referências. Quando, já perto de completarmos o circuito, deparámos com um portão e uma corda a travar-nos a passagem, fomos perguntar a um sujeito que trabalhava num campo se era mesmo aquele o caminho para Giesteira. A resposta foi estranhíssima: temos muito gosto em vos ver por aqui. Em vez de responder à pergunta, ele quis atenuar (ou, quem sabe, sublinhar) o repúdio pela nossa presença que transparecia de tão inesperados obstáculos. O homem pode ter sido sincero ou hipócrita, mas é certo que alguém ali (talvez ele mesmo) não gosta de nós.


Vila da Serreta - ilha Terceira

Os percursos que pude fazer na Terceira não sofrem desse pecado. Atravessam áreas de genuíno interesse paisagístico e natural e não insistem em desviar-nos para a Casa do Povo ou para a igreja. O trilho que vai da Serreta à Lagoinha, por exemplo, começa já fora do núcleo urbano da vila. Mas eu gostei da Serreta, onde me demorei a fazer horas para a camioneta de volta, apesar de a povoação pouco mais ser do que o casario baixo ao longo da estrada, com uma ou outra canada cortando em direcção ao mar. Aqui deixo pois duas fotos em que os únicos habitantes a botar figura são duas galinhas, captadas à distância para não se lhes reconhecerem as feições.


Hymenophyllum tunbrigense (L.) Sm.

Retomando o inventário das plantas que vivem na floresta húmida açoriana, falemos agora de epífitas. Tal como os espigos-de-cedro, andam às cavalitas das árvores, mas, ao contrário destes, não são plantas parasitas, pois fabricam honestamente o seu próprio sustento. Uma das epífitas mais comuns, tanto em juníperos como em loureiros ou até mesmo em criptomérias, é este feto de frondes semi-transparentes que gosta da companhia dos musgos. A semelhança do Hymenophyllum tunbrigense com o Trichomanes speciosum é notória, e de facto os dois fetos pertencem à mesma família botânica; mas as frondes do primeiro são mais pequenas (6 cm contra 15 a 20 cm) e têm as margens dentadas (clique nas fotos para ampliar). Além disso, o Hymenophyllum vive nas árvores e o Trichomanes prefere agarrar-se às rochas.

O Hymenophyllum tunbrigense é espontâneo na Macaronésia, na Europa ocidental e na América do Norte. Nos Açores aparece ainda uma espécie gémea, o H. wilsonii, com frondes mais curtas e menos divididas, que partilha os mesmos habitats aéreos mas tem uma distribuição mais escassa.


Sticta canariensis (Ach.) Bory ex Delise

As mesmas árvores que serviam de morada ao feto enfeitavam-se com outros adereços de índole vegetal. O mais vistoso era este líquen foliforme que julgamos ser a Sticta canariensis. É uma espécie de lugares húmidos e protegidos que habita troncos musgosos mas também aparece em rochas e pode mesmo descer até ao solo. Está presente em quatro das ilhas açorianas (São Miguel, Terceira, Pico e Flores) e, mais globalmente, na Macaronésia e na Europa. Se nos arquipélagos atlânticos a sua sobrevivência não suscita preocupações, já o mesmo não se passa no continente europeu, onde a espécie é considerada vulnerável ou mesmo em perigo de extinção.

A Sticta canariensis tem a peculiaridade de existir sob duas formas muito diferentes, que no entanto pertencem à mesma espécie por serem associações simbióticas do mesmo fungo. Quando o fungo se associa a uma alga verde, temos o morfotipo retratado na foto. Quando ele se associa a uma cianobactéria (também chamada alga azul), o resultado é este morfotipo com talos acastanhados e rugosos, mais comum no norte da Europa.

21/11/2010

Palestra: Flores & fetos de Valongo


Gentiana pneumonanthe L. / Simethis planifolia (L.) Gren.

Data e hora: 4 de Dezembro (sábado), às 16h00
Local: sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, Porto

Leitores regulares do blogue ou visitantes ocasionais, estão todos convidados para uma palestra onde daremos a conhecer, com muitas fotos, a flora espontânea das serras de Valongo. Entre árvores, arbustos, flores e fetos, serão cerca de 60 as espécies ilustradas. Muitas são escassas na área metropolitana do Porto, e algumas há que são raridades absolutas em Portugal continental ou mesmo na Europa. Este património único, desconhecido de muitos, está ameaçado pela degradação ambiental que tem sofrido esse território nas últimas décadas.

A sede da Campo Aberto estará aberta a partir das 15h00 para quem queira conversar ou, aproveitando o embalo da quadra festiva, comprar livros, artesanato ou produtos do comércio justo.

Depois da palestra haverá lanche, rifas, um leilão, tudo isso em benefício da Campo Aberto (associação reconhecida de utilidade pública), que não tem subsídios e necessita do apoio financeiro de sócios e amigos.

20/11/2010

Pelo Jardim Botânico de Lisboa


Os que acham que em Portugal, governado como é por ambientalistas pertinazes, há árvores e jardins a mais, faltando, isso sim, centros comerciais, hotéis, teatros e edifícios em geral, vão por certo alegrar-se com o que a Universidade de Lisboa e a Câmara da capital se preparam para fazer ao Jardim Botânico.

Os outros talvez devam assinar esta petição.

19/11/2010

Fraga de Brazalite



Terça-feira, 22 de Novembro ? Nevoeiro espesso. Luzes acesas o dia inteiro. Carta de um leitor a queixar-se que a catarata de trezentos e vinte e sete metros que existia no rio Unhais junto de Pampilhosa da Serra, e ainda é mencionada no meu guia de Portugal, desapareceu engolida pela Barragem de Santa Luzia.

Espera-me a aborrecida tarefa de lhe escrever a explicar que mesmo numa «edição totalmente revista» há sempre erros e lacunas. Por outro lado, que diabo, um país é um organismo vivo e nele as cataratas desaparecem, as igrejas desabam, as estradas mudam de sítio... Mas mesmo assim, lapsos desses estragam-me o dia.


J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado (Quetzal, 2010)

18/11/2010

Espigos-de-cedro



Arceuthobium azoricum Wiens & F. G. Hawksworth

Tal como sucede com todas as coníferas, os cedros-do-monte (que não são cedros, mas sim juníperos) não dão flores. Causa assim certa estranheza que no verde de algumas copas sobressaiam manchas douradas. Serão folhas amarelecidas pelo Outono, mesmo sendo estas árvores de folhagem perene? Ou será que alguma doença as atacou? Em certo sentido, elas foram vítimas de um ataque, mas é melhor inspeccionarmos o fenómeno de perto. Rapidamente concluímos que o amarelo não pertence aos juníperos, mas sim a umas plantas quase alienígenas que a eles se agarraram. Além de não terem folhas que se vejam, as suas hastes parecem formadas por peças cilíndricas arbitrariamente encaixadas umas nas outras, com as peças terminais rematadas por flores sumárias. O défice de clorofila denunciado pela cor amarela e a posição comprometedora em que se encontram não permitem dúvidas sobre a índole parasita destas plantas.

Em rigor, o Arceuthobium azoricum (ou espigos-de-cedro, como lhe chamam nos Açores) não é inteiramente parasita, uma vez que possui alguma clorofila; por isso se diz hemiparasita. Mas, como a sua concentração de clorofila é cerca de um décimo daquela que se encontra na folhagem verde de uma planta normal, ela é muito pouco eficiente na fotossíntese. Se quiséssemos ser picuinhas, diríamos que hemiparasita, ao indicar um grau de dependência do hospedeiro da ordem dos 50% (o prefixo grego hemi significa metade), é uma qualificação enganadora; tal dependência, medida na importância para a sua dieta dos nutrientes subtraídos à vítima, andará acima dos 90%, e por isso é indiscutível que parasita representa uma aproximação mais satisfatória.

Os espigos-de-cedro recusam-se, naturalmente, a parasitar outras plantas que não os cedros-do-monte. Como tal hospedeiro só existe nos Açores, também o hóspede está impossibilitado de se aventurar fora das ilhas. De facto, o Arceuthobium azoricum só ocorre nas maiores populações de Juniperus brevifolia no grupo central do arquipélago; e, em geral, coloniza poucas árvores em cada população. Encontrá-lo é prova de que chegámos a um sítio especial.

Erik Sjögren, no seu livro Plants & flowers of the Azores (Os Montanheiros, 2001; edição trilingue), afirma que as árvores infectadas pelos espigos parecem nada sofrer com o ataque. Talvez essa inocuidade se deva à razão elementar de que o agressor nunca poderia sobreviver à morte da vítima. Num ecossistema tão circunscrito como é o de uma pequena ilha, uma relação parasitária mais nociva teria há muito terminado com a extinção de ambas as espécies. Mas num continente como a América do Norte um tal equilíbrio já não é essencial. Aí, entre as quase 40 espécies de Arceuthobium, há uma que em poucos anos é mortífera para os espruces (Picea mariana, P. glauca, etc.) onde se costuma alojar: trata-se do A. pusillum, conhecido como dwarf mistletoe (ou visco-anão). Curiosamente, é uma planta quase invisível, pois as suas hastes, que em geral não são ramificadas, não ultrapassam os 2 cm de comprimento. As árvores atacadas desenvolvem uma copa irregular, com a folhagem concentrada em tufos: nesta página, por exemplo, pode ver-se uma árvore morta e outra a que já pouca vida resta.

17/11/2010

Alho-dos-ursos



Allium ursinum L.

     Nomes vulgares: ramsons ou broad-leaved garlic (em inglês), ail des ours (em francês)
     Distribuição global: quase toda a Europa
     Distribuição em Portugal: só na Serra da Nogueira 
     Época de floração: Abril a Junho 
     Data e local das fotos: Inglaterra, Maio de 2009

16/11/2010

Viúva alegre


Knautia nevadensis (Szabó) Szabó

No Verão, entre outras andanças, procurámos no Gerês esta herbácea que é um quase-endemismo ibérico (o quase é culpa da França). Os capítulos florais, onde se nota um gradiente de tamanho nas flores, sendo as periféricas maiores (para quê?), parecem os do género Scabiosa - e o nome vernáculo luso é, enganadoramente, escabiosa de bosque -, mas as corolas tubulares na foto têm quatro pétalas desiguais. Depois de descer um acesso acidentado ao vale do rio Beredo, a cerca de mil metros de altitude, parando - demasiadas vezes, reclamou o fotógrafo - para admirar orquídeas, encontrámos uma dúzia de pés em flor num bosque de carvalhos-negrais. Um regalo, de frescor e formosura.

Das oitenta espécies do género Knautia, nativas da região mediterrânica e Europa, apenas nove ocorrem na Península Ibérica, e só duas se conhecem em Portugal: diz a Flora Ibérica que, além da K. nevadensis, também temos a K. subscaposa Boiss. & Reut., igualmente perene e apreciadora de prados, a que chamamos saudade-brava, talvez por raramente se conseguir avistar. Os que, pelo contrário, são abonados com populações vastas deste género, que exibe um inquieto polimorfismo e ampla hibridação interespecífica, vêem-se à nora para acertar com a identificação das suas numerosas espécies. Quem dera.

Vamos às medidas, que as fotos não permitem adivinhar. Cada inflorescência, redonda e plana, mede cerca de 7 cm de diâmetro e é sustentada por um anel de uma dezena de brácteas; a corola, de garganta penugenta, não ultrapassa os 2 cm e é agasalhada por um cálice de oito ou mais sépalas estreitas e lanosas; ao centro reúnem-se quatro estames e um estilete longo com um estigma bilobado. As flores são, em geral, hermafroditas, havendo contudo inflorescências só femininas. A planta é alta, com caules de até um metro (mas as que vimos eram mais pequenas), folhas basais em roseta, as superiores opostas e sésseis. O fruto é um aquénio com um pára-quedas no topo que é o ex-cálice.

A espécie foi descrita a partir de indivíduos de Sierra Nevada, na Andaluzia. O nome do género homenageia, desde 1907, um dos irmãos Christian (1654-1716) ou Christoff Knaut (1638-1694), ambos médicos e botânicos alemães, contemporâneos e da mesma cidade de G. F. Handel (1685-1759). A dúvida obriga a que se mencionem sempre os dois manos, o que, se não for justo, é providencial.

15/11/2010

Da Serreta à Lagoinha


Juniperus brevifolia (Seub.) Antoine

Na véspera do passeio ao Monte Assombrado já eu ensaiara uma incursão às nuvens. Bastou-me apanhar às 10h30, à frente do Jardim Duque da Terceira, a carreira n.º 1, Angra-Biscoitos, e apear-me na Serreta uns 45 minutos mais tarde. Usar as camionetas de passageiros é a segunda melhor forma de conhecer o litoral da ilha; a melhor é ir a pé; a pior é alugar um carro. É que a velocidade é inimiga da fruição, e as paragens a que os transportes públicos são obrigados dão tempo para nos impregnarmos da paisagem. A pé ainda teríamos mais tempo, tanto que não caberia num dia só e poderíamos nem chegar às nuvens.

Um dos percursos pedestres recém-marcados na Terceira vai da vila da Serreta até à Lagoinha, um pequeno lago perfeitamente circular ao fundo de uma das muitas caldeiras vulcânicas que existem na metade ocidental da ilha. Medido a partir da estrada, o percurso terá, com ida e volta, uns 8 km de extensão, partindo de uma altitude de 240 metros e atingindo no bordo da cratera um máximo de 800 metros. Com excepção da extenuante subida final para a Lagoinha, a maior parte do percurso é feito em declives suaves. As marcações, importantíssimas para quem não conhece o terreno e em locais onde a vegetação é muito cerrada, estavam todas bem visíveis.

É acima dos 500 metros que o carácter da vegetação muda por completo: a certa altura avançamos por um estradão onde de um lado vemos criptomérias e do outro juníperos. Tomamos um desvio, deixando para trás a plantação florestal e embrenhando-nos na floresta das ilhas tal como ela era antes da ocupação humana. Acreditamos que esta relíquia é para preservar e que o estradão marca uma fronteira que já não será devassada.

O Juniperus brevifolia, que os açorianos conhecem como cedro-do-mato, é uma conífera de até 12 metros de altura, de copa larga e tronco retorcido, endémica do arquipélago e apenas ausente da Graciosa. É a árvore mais numerosa e mais característica da floresta húmida dos Açores, dando abrigo a um riquíssimo mosaico de plantas raras ou endémicas. Cortado em grande escala pela sua madeira de alta qualidade, só nas ilhas do Pico, Faial, Terceira e Flores persistem populações abundantes de cedro-do-mato; contudo, a consciência gradual do valor destas raras manchas florestais parece ter conseguido travar a sua destruição. E, se outros benefícios ambientais não trouxe a monocultura da criptoméria, pelo menos fornece madeira e alivia a pressão sobre a floresta autóctone.



Lagoinha da Serreta

Das plantas que se podem observar pelo caminho, empoleiradas nos juníperos ou à sua sombra, se contará noutras ocasiões. Agora quero só falar da Lagoinha num dia em que as nuvens optaram por reter a carga aquífera em forma de névoa, gentileza que agradeço apesar de com isso não ter ficado muito mais enxuto. Disseram-me que lá de cima, nos dias bons, se avistam a Graciosa e São Jorge, mas há aqui um equívoco na adjectivação. Os dias bons são aqueles em que as árvores parecem flutuar no vácuo, em que o mundo parece ter no máximo uns cinquenta metros de diâmetro e vai sendo criado e apagado à medida que avançamos. Quando desci para a margem do lago, fechou-se atrás de mim a cortina de juníperos por onde acabara de romper: encontrava-me como que numa grande câmara circular pendurada a toda a volta com grandes reposteiros verdes. Por momentos achei que nunca redescobriria a saída, e não me importei nada com isso.

12/11/2010

Floresta de nuvens


Morro Assombrado - ilha Terceira

What are here called the Gods might almost alternatively be called the Day-Dreams. To compare them to dreams is not to deny that dreams can come true. To compare them to traveller's tales is not to deny that they may be true tales, or at least truthful tales. In truth they are the sort of tales the traveller tells to himself. All this mythological business belongs to the poetical part of men. It seems strangely forgotten nowadays that a myth is a work of imagination and therefore a work of art. It needs a poet to make it.

The point of the puzzle is this: that all this vagueness and variation arise from the fact that the whole thing began in fancy and in dreaming; and that there are no rules of architecture for a castle in the clouds. The crux and crisis is that man found it natural to worship; even natural to worship unnatural things. The posture of the idol might be stiff and strange; but the gesture of the worshipper was generous and beautiful. He not only felt freer when he bent; he actually felt taller when he bowed. We therefore feel throughout the whole of paganism a curious double feeling of trust and distrust. There seems a disproportion between the priest and the altar or between the altar and the god. The priest seems more solemn and almost more sacred than the god.

We know the meaning of all the myths. We know the last secret revealed to the perfect initiate. And it is not the voice of a priest or a prophet saying 'These things are.' It is the voice of a dreamer and an idealist crying, 'Why cannot these things be?'


G.K. Chesterton, Man and Mythologies (The Everlasting Man, 1925)

11/11/2010

Os fetos e as fendas


Trichomanes speciosum Willd. - ilha Terceira

No dia da chegada, para dissipar a sonolência pós-prandial, fui ao princípio da tarde revisitar o Monte Brasil, onde não punha os pés há quatro anos. O Monte Brasil, para quem não sabe, é uma protuberância vulcânica fartamente arborizada sobranceira à cidade de Angra do Heroísmo e ligada ao resto da ilha por um istmo. A vegetação, dominada por exóticas como a árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum) e a criptoméria, não é entusiasmante, embora se registe a presença ocasional da faia-das-ilhas (Myrica faya) e, nas vertentes expostas ao mar, da urze açoriana (Erica azorica). Os grandes atractivos do Monte Brasil são porém de outra ordem. Há as velhas paredes da Fortaleza de São João Baptista, ainda hoje ocupada por um contingente militar, ressumando o verde que é a pátina dos séculos. E há, sobretudo, a vista para o casario de Angra empilhado nas ruas que descem para a baía. Gostaria de poder dizer que a realidade se confundiu com a memória, mas a paisagem estava ferida por um rasgão impossível de ignorar. No limite leste da baía, a falésia foi esventrada quase até ao fundo para lá se enfiar um edifício medonho, de fachada oblíqua e varandas a toda a largura. Dizem que ali funcionará o próximo grande hotel da ilha Terceira - mas, com as obras ainda por concluir, o edifício é desde já um borrão inimaginável no até agora intocado recorte urbano de Angra.

No Monte Brasil, a novidade é que foi inaugurado um desses percursos com marcas amarelas e vermelhas para os caminhantes não se perderem. Seguindo-o, reencontrei as beladonas (Amaryllis belladonna) e passei por locais que já conhecia e por outros que só agora desvendei, como a carreira de tiro rodeada por quatro cumes onde há muito não são disparadas balas. Já de volta a Angra, aconteceu-me deparar, à porta do Museu Vulcanológico, numa rua debruçada sobre a baía, com um aviso anunciando passeios pedestres; um deles, com destino ao Morro Assombrado, estava marcado para daí a dois dias. Como poderia recusar tal convite do acaso? Entrei no edifício - que, além de museu, é sede da associação Os Montanheiros - e fiquei a saber que o passeio era gratuito mas exigente. Aconselhavam-se galochas, vestes impermeáveis, boa resistência física e imunidade a vertigens. Em troca os participantes ficariam a conhecer lugares inacessíveis ao comum dos turistas: trilhos que mal se percebem em densas matas de loureiros e juníperos; desfiladeiros estreitíssimos forrados de alto a baixo por multidões de fetos; descidas impossíveis e escaladas não menos temerárias; e tudo banhado numa humidade intensa que se condensa em charcos, turfeiras e escorrências.

Mas quando soube do passeio, ali na sede dos Montanheiros, em conversa numa sala ocupada com modelos em relevo de várias ilhas açorianas, ainda essas impressões não tinham ganho corpo. O Morro Assombrado era só mais um dos inúmeros picos que no mapa tridimensional da Terceira apareciam assinalados por bandeirolas. Preocupado com as galochas e o impermeável - não dispunha nem duma coisa nem doutra -, não prestei grande atenção ao acervo exemplar do museu: pedras e fósseis, borboletas, imagens da fauna e da flora açorianas, descrições de grutas, etc. Acabei depois por comprar numa loja agrícola umas galochas (brancas) que afinal não usei. Não apenas por vergonha de atravessar o átrio do hotel com elas calçadas, mas porque as solas não tinham a aderência que o percurso acidentado recomendava. Antes meter o pé na poça do que despencar-me numa ravina.

O interior da metade oeste da ilha Terceira é ocupado por uma sucessão de picos, com o de Santa Bárbara, a 1023 metros, a assinalar o ponto mais alto. As povoações ficam todas na costa, a agricultura e a criação de gado só mordiscaram as faldas mais suaves das serras, e mesmo as plantações florestais de criptomérias foram travadas pelos acidentes do terreno. O resultado é que a floresta endémica das ilhas açorianas, dominada pelo cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), foi aqui preservada numa extensão que, no resto do arquipélago, só encontra paralelo no Pico e no Faial. É uma floresta cheia de sortilégios, quase sempre encoberta pela névoa, em que as árvores rejeitam a nudez dos troncos e ostentam longos véus de musgos, fetos e líquenes; chamam-lhe a floresta das nuvens, e quem quiser conhecê-la (muitos açorianos não a conhecem) terá que se juntar aos Montanheiros.

Abundante em fendas descomunais como a que se vê na foto acima, o Trichomanes speciosum é um pequeno feto (até 20 cm) notável pelas suas frondes brilhantes e translúcidas, que só se dá em lugares abrigados e permanentemente húmidos. Vive nos arquipélagos atlânticos dos Açores, Madeira e Canárias, e também, em núcleos esparsos e muito reduzidos, no limite oeste do continente europeu (Irlanda, Reino Unido, Bretanha, Península Ibérica). Terá sido dos fetos europeus que mais sofreram com as depredações de coleccionadores inconscientes.


Trichomanes speciosum Willd. - Valongo

Em Portugal continental, o Trichomanes speciosum é dado como extinto em Sintra, e hoje só subsiste uma população refugiada num dos fojos das serras de Valongo. Os fojos são grandes buracos escavados na ossatura da serra, que terão servido, no tempo dos romanos, para aceder às minas de ouro. Quando as serras foram eucaliptizadas, houve plantas (como este outro feto) que só nos fojos puderam continuar a existir. E lá estava, ao fundo do buraco a que chegámos com infinita precaução, e algo acabrunhada pela secura estival, uma população apesar de tudo promissora de Trichomanes speciosum. Se as deixarmos em paz, as plantas agarram-se à vida com uma tenacidade assombrosa.

10/11/2010

Alho três


Allium pallens L. [sinónimo: Allium paniculatum L.]

     Nome vulgar: alho-silvestre
     Distribuição global: sul da Europa, bacia do Mediterrâneo, Madeira e Canárias
     Distribuição em Portugal: presente no litoral e interior de norte a sul do país  
     Época de floração: Junho a Agosto 
     Data das fotos: Julho de 2008 / Junho de 2010

09/11/2010

Raios-rosa



Radiola linoides Roth

Já aqui vos revelámos que encontrámos, e escondemos, um pradinho húmido de solo ácido num recanto de Valongo que parece açoriano, tão modesto que nele só cabem plantas pequeninas e poucos pés de cada uma. A da foto, delicada e de estatura exígua (cada flor tem uns 2 mm de diâmetro), não tem nome comum em português. Quererá o leitor propor algum que lhe assente bem? Lineu chamou-lhe, em 1753, Linum radiola, mas A. W. Roth (1757-1834) entendeu, em 1788, que deveria autonomizá-la, e ela é hoje a única espécie do género Radiola; mais tarde, houve ainda quem propusesse as designações Millegrana radiola ou Radiola multiflora, mas prefere-se hoje a opção de Roth.

Esta herbácea anual, rara e em risco de desaparecer em vários habitats da Europa e Macaronésia, é da família Linaceae, a da planta do linho (Linum usitatissimum L., de cujo talo alto se retiram as fibras para fabricar o tecido), mas tem caules tão baixos (~ 5 cm) e ramificados que nem para um escarpim se aproveitam. As folhas, de uns 2 mm de comprimento, são sésseis, elípticas e opostas, com um só veio central. As flores desabotoam em inflorescências terminais ralas entre Maio e Agosto; têm pétalas brancas e sépalas, de igual tamanho, tridentadas no ápice e raiadas de cor-de-rosa.

Radiola deriva de radius - e assinalam-se hoje os cento e quinze anos da descoberta da radiação electromagnética, que Wilhelm Roentgen cautelosamente nomeou com a letra que serve de incógnita em matemática.

08/11/2010

O que nós pisamos



Mollugo verticillata L.

Os paralelepípedos da rua são um habitat florístico muito mais interessante do que os tapetes de asfalto, embora, pela trepidação que provocam, agradem menos aos condutores. Era bom, aliás, que eles evitassem tais ruas e nos deixassem esquadrinhar as pedras sossegadamente. E não sou o único a queixar-me da presença indesejável dos automóveis. O Xico, um gato preto de pontas brancas, é obrigado a ir para o meio da rua abocanhar os pedaços de comida que uma vizinha bem intencionada, mas de fraco arremesso, lhe atira da janela. Engole um pedaço de frango e lá tem que se recolher ao passeio para deixar passar um carro. Mais uma tentativa, mais um carro que se aproxima. Já um gato não pode comer em paz, nem eu posso botanizar sem sobressaltos.

Por sorte, há vias com paralelepípedos onde os carros não circulam, e uma delas, nos jardins do Palácio de Cristal, até me fica perto de casa. Além do mais, as plantas que lá ocorrem são uma amostra representativa das que frequentam vias mais perigosas: beldroegas (Portulaca oleracea), maleiteiras (Chamaesyce maculata) e esta Mollugo verticillata, planta de origem sul-americana a que os brasileiros chamam cabelo-de-guia ou capim-tapete. Sendo capaz de sobreviver nos interstícios das pedras e de resistir ao frequente pisoteio, a M. verticillata não pode ser muito vistosa nem ter porte avantajado; e, de facto, é uma planta rasteira, muito ramificada, com caules finos de uns 20 cm de comprimento, folhas de 1 a 3 cm agrupadas em saiotes (ou verticilos), e flores branco-esverdeados com 5 mm de diâmetro. Tem um ciclo de vida anual muito breve; mas, como é prolífera, as gerações vão-se sucedendo umas às outras na estação favorável, que aqui na Europa se estende de Junho a Outubro.

Além desta exótica, que aliás não é assim tão comum em Portugal (a Flora Ibérica indica que ela apenas está naturalizada no Douro Litoral e no Minho), a família Molluginaceae inclui duas espécies espontâneas da flora portuguesa, também elas pequenas herbáceas anuais: Mollugo cerviana e Glinus lotoides. A primeira, que frequenta margens de rios e terrenos arenosos ou pedregosos, está presente nas bacias do Douro e do Tejo, e distingue-se da M. verticillata pela folhagem estreita, quase linear. A Glinus lotoides, por seu turno, tem folhas arredondadas e uma aparência lanuda que contrasta com o carácter glabro das duas Mollugo; aparece em areias junto a cursos de água, e em Portugal está restrita à metade sul.

05/11/2010

Cravo ferrado na rocha



Dianthus langeanus Willk.

Os cravos que enfeitaram as portas abertas de Abril eram plantas domesticadas, das que se vendem nas floristas e nos centros de jardinagem. Talvez estivesse mais de acordo com o espírito libertário que marcou essa época celebrá-la com cravos silvestres (desde que, como é óbvio, não andássemos a colhê-los desregradamente). Dá-se até o caso de Portugal - e, mais geralmente, a Península Ibérica - abrigar uma grande diversidade de cravos espontâneos, a ponto de os botânicos que se propõem destrinçar as várias espécies se sentirem confundidos. A Flora Ibérica enumera 28 espécies peninsulares do género Dianthus; mas, se contarmos subespécies e híbridos, este número sobe para 47. E, conforme se admite nessa mesma obra, é frequente encontrarem-se exemplares que não se deixam arrumar claramente em nenhuma das 47 gavetas. A opinião dos estudiosos é que os cravinhos estão em plena evolução, e que as tentativas de sistematização taxonómica são prematuras. Quem sabe se não bastará esperar uns breves milhares de anos (uma ninharia, afinal) para que as espécies estabilizem as suas características e se diferenciem de modo mais nítido? Porém o homem, esse animal impaciente, quer ver tudo classificado sem demora.

Esta conversa parece desculpa de mau pagador, para minimizar os estragos que o tremoceiro misterioso nos terá causado à reputação. Lembrando que os profissionais também por vezes chegam a um beco sem saída quando se trata de identificar uma planta, fica desculpada a inépcia dos amadores. Mas nem tudo se equivale: embora a distinção entre certas espécies de Lupinus nos pareça algo confusa, com diferentes autoridades a emitirem opiniões divergentes, o grau de complexidade do género Dianthus é incomparavelmente maior. A verdade é que basta um mistério pequenino para nos baralhar a escassa erudição.

O Dianthus langeanus permite-nos fazer boa figura: no lugar onde o encontrámos - serra do Gerês, ao longo da linha fronteiriça da Portela de Pitões - não há notícia de nenhum outro cravinho que com ele se possa confundir. O D. lusitanus, que é comum de norte a sul na metade oriental do nosso território, e também ocorre (embora escassamente) no nosso Parque Nacional, é (como aqui se pode constatar) bem diferente do D. langeanus, tanto no hábito como na folhagem e na coloração da flor. Um carácter distintivo deste último, que é um endemismo das áreas secas e montanhosas do noroeste peninsular, florescendo de Junho a Agosto, é precisamente o tom violáceo ou acastanhado do cálice das flores.

O epíteto langeanus remete para o botânico dinamarquês Johan Martin Christian Lange (1818–1898), co-autor, com o alemão Heinrich Moritz Willkomm (1821–1895), de uma flora de Espanha com o título Prodromus Florae Hispanicae, organizada em três volumes aparecidos em fascículos entre 1861 e 1880. A primeira descrição do D. langeanus, feita por Willkomm, só foi publicada em 1878, no penúltimo fascículo do derradeiro volume dessa monumental obra.

04/11/2010

Sinos da lava


Azorina vidalii (H.C. Watson) Feer

A vidália é a única espécie do género Azorina, e ocorre exclusivamente nos Açores - em todas as ilhas, sabe-se hoje, depois de descobertos dois nichos na Graciosa -, estando o maior número de populações naturais nas ilhas do Pico, Flores, S. Jorge e Corvo. Mas esta espécie está em perigo de desaparecer. É certo que vive em lugares de risco (arribas, reentrâncias rochosas de falésias, praias de calhau rolado e escoadas de lava), exposta a derrocadas e vendavais; contudo, a maior ameaça vem-lhe da pressão urbanística, da perturbação turística nestas áreas sensíveis e do avanço da flora exótica. Problemas que Portugal tem a obrigação de resolver como signatário da Convenção de Berna e da Directiva Habitats, que atribuem prioridade a esta planta nas acções de conservação. Pela profusão de planfletos distribuídos pelo Ministério do Ambiente, neste ano internacional da biodiversidade, apenas listando as plantas ameaçadas - sem qualquer indicação de programas de protecção ou sequer indício de que o assunto tenha algum destaque na agenda política - dir-se-ia que se julga meritória a mera presença de tantas plantas quase extintas e que isso nos confere um estatuto especial que naturalmente o resto do mundo inveja e que, por isso, convém manter.

Crê-se que a vidália foi primeiro identificada pelo botânico inglês Hewett Cottrell Watson (1804-1881), durante a expedição botânica de 1843 na costa da vila de Santa Cruz das Flores. Designou-a então Campanula vidalii, mas em 1890 o suíço Heinrich Feer (1857-1892) descortinou diferenças morfológicas suficientes para a emancipar no novo género Azorina. Nessa viagem, o navio foi comandado pelo oficial da marinha britânica Alexander Thomas Emeric Vidal, responsável pelo levantamento hidrográfico das ilhas açorianas, entre 1841 e 1845.

Na ilha Terceira, onde a vimos, há três populações nas zonas litorais baixas de Quatro Ribeiras, Porto Martins e Monte Brasil, num total de cerca de mil plantas. É um arbusto de crescimento lento cujo caule, que contém um látex branco, pode, segundo algumas fontes, atingir metro e meio de altura, embora as plantas que vimos se fiquem muito abaixo dessa marca. As folhas verde-acastanhadas, de margens ligeiramente dentadas, formam rosetas terminais vistosas. Mas foram as flores, campânulas de porcelana com cerca de 3 cm de diâmetro (e havia poucas porque a época já ia adiantada), que nos fizeram, em Porto Martins, no sudeste da ilha, andar num sino à chuva pela praia.

03/11/2010

O alho da semana


Allium ericetorum Thore

     Nome vulgar: chalotinhas-do-Gerês
     Distribuição global: sul da Europa, desde os Alpes ao norte da Península Ibérica
     Distribuição em Portugal: principalmente na serra do Gerês, mas também nas terras do Sado
     Época de floração: Julho a Setembro 
     Data das fotos: Agosto de 2010

02/11/2010

Sândalo-dos-Pirenéus


Thesium pyrenaicum Pourr.

     El cuento es muy sencillo
     usted nace
     contempla atribulado
     el rojo azul del cielo
     el pájaro que emigra
     el torpe escarabajo
     que su zapato aplastará
     valiente
     (...)
     usted aprende
     y usa lo aprendido
     para volverse lentamente sabio
     para saber que al fin el mundo es esto
     en su mejor momento una nostalgia
     en su peor momento un desamparo
     y siempre siempre
     un lío

     entonces
     usted muere.

     Mario Benedetti, Currículum

01/11/2010

O pequeno azul



Lupinus micranthus Guss. (ou talvez Lupinus pilosus L.)

Mesmo para quem não frequenta esplanadas à beira-mar, os tremoços evocam instantaneamente as tardes e noites de um Verão sem fim. O Verão, na verdade, só se reduz a três meses para quem, como nós, se deixa ficar sempre pelo mesmo hemisfério. Uns pulinhos até ao Sul em ocasiões estratégicas duplicam facilmente essa duração. Isto para não falar dos bronzeamentos artificiais, assunto que já tem pouco a ver com o consumo imoderado de tremoços.

Também para o naturalista os tremoços evocam os bons tempos que só regressam no próximo ano: é aquele período de Abril a Julho em que as plantas se acotovelam para nos prender a atenção. São tantas e tão variadas que algumas acabam imerecidamente por ser esquecidas. Mas há dois tremoceiros, o azul e o amarelo, que resolveram o problema inteligentemente, deslocando para as bermas das estradas (e até para os separadores das auto-estradas) contingentes de tal modo numerosos que mesmo os condutores mais apressados e mais indiferentes aos encantos da natureza são obrigados a vê-los.

Claro que o naturalista gourmet não se dá por saciado com as plantas que estão à vista de todos, e tem por força que ir à procura de raridades em sítios esconsos ou remotos. Assim é com o Lupinus que hoje aqui trazemos: não é mais bonito do que os outros, mas é um exclusivo nosso. O problema é arranjar-lhe nome. Se estivéssemos certos da sua origem espontânea, teríamos poucas dúvidas de que se trata do Lupinus micranthus, também conhecido como tremoceiro-peludo, que ocorre em solos cultivados ou arenosos do centro e sul de Portugal. Mas essa espécie tem preferência por solos ácidos (que supomos não existirem em Sicó) e a coloração da flor, tal como é descrita nos manuais, não condiz com o que fotografámos. Também poderia tratar-se do L. consentinii, que, sendo igualmente espontâneo no nosso país, já admite viver em solos básicos e tem flores com a coloração certa; contudo, como ele é muito menos hirsuto do que a nossa planta, essa hipótese terá que ser descartada. É pois de admitir que este Lupinus tenha origem no cultivo, apesar de o terreno onde o encontrámos há muito ter sido abandonado; e, nesse caso, talvez seja o L. pilosus, uma espécie mediterrânica originária da Grécia, Turquia e Israel que é cultivada ocasionalmente noutros países.

Enfim, um pequeno mistério azul que deixamos à consideração de quem goste de dar nome às coisas.