Feto-azevinho



Cyrtomium falcatum (L. fil.) C. Presl
Os americanos chamam Japanese holly fern a este feto. É bom prevenir os falantes de inglês técnico que aquele holly não significa sagrado, não vão eles deduzir que o feto seria usado no Japão em cerimónias budistas. Acontece que a consoante dobrada faz alguma diferença: holly (azevinho) não é o mesmo que holy (sagrado). Quando houver na língua inglesa um acordo ortográfico para abolir consoantes mudas deixaremos de distinguir a árvore do conceito espiritual. Confusão essa que talvez agrade a lexicólogos visionários (da estirpe daqueles que em português uniformizaram a escrita de palavras homófonas como pêlo e pelo) e aos adeptos da New Age.
São os folíolos do Cyrtomium falcatum, coriáceos, pontiagudos e de margens onduladas, que fazem lembrar o azevinho. E os esporângios agrupados em formações orbiculares, cor-de-tijolo, salpicando o verso das frondes num arranjo semi-natalício, são talvez mais um sinal da vocação do feto-azevinho para herdar as funções festivas tradicionalmente atribuídas à árvore das bagas vermelhas.
E onde poderá o leitor colher um punhado destes fetos para enfeitar a sua sala de estar? Afinal a planta é originária do extremo Oriente, que não fica logo aí ao virar da esquina. Mas o comércio hortícola encarregou-se de a espalhar pelo mundo, e em muitos países da América e da Europa ela não se deixou confinar aos jardins. Vi-a em Angra, no Jardim Duque da Terceira, não apenas em canteiros bem arranjados mas noutros lugares onde os jardineiros certamente não a quiseram plantar. E, no passeio a pé pelo Monte Brasil, reencontrei-a à sombra das densas matas de Pittosporum undulatum. Sendo a árvore-do-incenso uma das mais problemáticas espécies infestantes nos Açores, não é motivo para alarme que o feto-azevinho lhe faça companhia: o que havia para estragar há muito que está estragado. E o feto, capaz como é de atingir um metro de envergadura, é vistoso e faz boa figura entre o monótono arvoredo.














































