23/03/2011

Arroz na calçada



Sedum anglicum Huds.

Nome vulgar: English stonecrop
Ecologia e distribuição: rochas, muros e terrenos arenosos, em altitudes de 0 a 2700 metros, na Europa ocidental
Distribuição em Portugal: Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes
Época de floração: Junho a Agosto (mas no litoral pode começar muito mais cedo)
Data e local das fotos: Março de 2011, rua da Restauração, Porto

22/03/2011

Narciso do Mondego


Narcissus scaberulus Henriq.

Damos nomes às coisas para encarcerá-las no tempo. Assim fazemos com os recém-nascidos. Assim os escritores dão títulos a seus livros: para que não se percam numa série infindável. Para que não desapareçam de nossos olhos. Para que nunca se repitam. Essa é a soberba humana - sempre repetida. Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (L&PM Editores, 2008)

Pelas fotos, estas flores quase não se distinguem das que mostramos hoje, mas, ao vivo, foi fácil verificar que as últimas são mais pequenas. Além disso, a comparação entre as folhas erectas dos exemplares que vimos, na serra dos Candeeiros, do N. calcicola

– espécie descoberta por Francisco A. Mendonça em 1926 e por ele descrita no ano seguinte no Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie (Paris)

e as prostradas, mais estreitas e de margens ásperas (escabras) do N. scaberulus

– baptizado, em 1888, no Boletim da Sociedade Broteriana, por Júlio Henriques (1838-1928), botânico que foi director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e fundador da Sociedade Broteriana –

ainda mais justificam a diferenciação taxonómica entre eles, apoiada aliás pela separação geográfica e pela caracterização do solo dos respectivos habitats. Na Nova Flora de Portugal (1994), de J. Amaral Franco e M. Luz da Rocha Afonso, estes dois narcisos da secção Jonquillae são apresentados como espécies distintas. Na Flora Ibérica, a proposta segue o conselho de A. Fernandes (em 1926, no Boletim da Sociedade Broteriana) e distingue duas subespécies: N. scaberulus subsp. calcicola, que ocorre nas serras calcárias do centro e sul de Portugal, e também em Espanha; e N. scaberulus subsp. scaberulus, endemismo português, que vive em solos graníticos na zona central da bacia do Mondego, um pequeno paraíso que, sem a ajuda da Luísa e do Joaquim, não teríamos descoberto.

O leitor certamente reparou que as tépalas do N. cyclamineus se recurvam para trás. Note agora que, no N. scaberulus subsp. scaberulus, elas formam um colar isabelino, quase perpendicular à taça. Para a semana, à mesma hora, poderá ver o penteado que falta, um narciso com as tépalas em franja sobre a corola.

21/03/2011

Lábios ao sol



Cheilanthes tinaei Tod.

Só na presença da água é que os fetos se conseguem reproduzir. Os gametófitos, nome que é dado às plantinhas efémeras nascidas dos esporos, expelem os anterozóides que têm de rabiar na água até encontrarem o orifício certo para a fecundação. Seria de supor que essa dependência da água se reflectisse no estilo de vida, e que todos os fetos preferissem viver em lugares encharcados ou pelo menos húmidos. Na verdade não é assim, como mostra o feto-labial (cheilos significa lábio em grego) que apresentamos hoje. Habitando fissuras de rochas xistosas ou graníticas fortemente expostas ao sol, o seu habitat de eleição não poderia ser mais inóspito. À semelhança dos nossos antepassados, que raramente tomavam banho e não consideravam a água como bebida, este feto de pequeno tamanho (frondes até 15 cm) pode suportar o orvalho ou uma chuva ocasional, mas prefere manter-se enxuto.

Mal grado a sua hidrofobia, o Cheilanthes tinaei tem uma indisfarçável paixão pelo Douro, em especial pela margem norte, mais soalheira e convidativa. Não é passeio que se recomende sem reservas, por envolver uma actividade proibida e potencialmente perigosa, mas quem inspeccionar os taludes rochosos em qualquer ponto da linha do Douro desde a Régua até ao Pocinho (e mesmo depois, já sem comboio, até Barca d'Alva) não deixará de encontrar um bom número destes fetos, agrupados em inconfundíveis tufos. E a parte final do curso do Douro, que a via férrea já não acompanha, não escapou a este discreto namoro. Até no Porto o feto encontrou refúgio de onde pode espreitar o rio em segurança: vemo-lo na rua da Restauração na companhia do Sedum hirsutum e reencontramo-lo, umas centenas de metros adiante, na ladeira da rua D. Pedro V. O contingente citadino é porém escasso, e observá-lo exige olho vivo e alguma persistência - embora não tanta como a que é necessária para descobrir a língua-cervina no território do Grande Porto.

Assinale-se que há duas outras espécies de Cheilanthes, também presentes na bacia do Douro, que facilmente se confundem com o Cheilanthes tinaei: trata-se do C. hispanica e do C. maderensis. O C. maderensis costuma exibir um porte mais erecto, além de ter pínulas mais alongadas; o C. hispanica, por seu turno, distingue-se do C. tinaei (que é quase glabro) pela pilosidade cor de ferrugem no verso das frondes.

18/03/2011

Violeta pequena


Jonopsidium abulense (Pau) Rothm.
[Gr. ion, violeta; opsis, aspecto; idion, sufixo diminutivo]

Era a pessoa mais infeliz do universo se não tivesse ressurreição da carne. Mas porque tem, mesmo ficando velha e torta como tou ficando, eu saio assobiando e pulando num pé só, de tanta satisfação. Corpo é fora de série. Veja se estou errada: eu amo a Deus, em espírito, é com meu corpo, porque quem levita é ele, é ele quem fica extático na montanha sagrada e recebe os estigmas e as tábuas da lei. (...) No livro da Bíblia, logo na primeira página, está escrito: «Deus fez o homem e o fez macho e fêmea» e isto quer dizer que somos iguaizinhos no valor. A boa diferença é só pra obrigação e amenidades. E olha, num tempo de escravidão como era aquele tinha que ser muito inspirado mesmo pra escrever uma coisa bacana dessas. Quase dois mil anos, e muita gente por aí não entendeu. Porém concordo: tem que ser muito homem pra entender.

Adélia Prado, Solte os cachorros (Cotovia, 2003)

17/03/2011

Erva da raiva

Alyssum loiseleurii P. Fourn.

Sou uma pessoa pouco informada acerca de doenças. Se não me protegesse pela ignorância voluntária, iria em imaginação desenvolver os sintomas mais preocupantes. Na adolescência, quando não tinha ainda plena consciência desse meu pendor hipocondríaco, foram muitas as vezes em que me supus atingido por doenças implacáveis, que em poucos dias iriam desfigurar-me, prostrar-me em delírio comatoso ou reduzir o meu cérebro a farinha. Quando os dias passavam sem que a doença registasse progressos, acabava por acreditar que o auto-diagnóstico fora precipitado. Estóico por natureza, só uma vez revelei aos meus pais a doença que estaria prestes a fulminar-me: tratava-se da raiva. Se o socorro viesse prontamente, ainda poderia salvar-me.

O médico nosso vizinho riu-se quando lhe contei como teria sido infectado: durante uma brincadeira, fui mordido de raspão pela nossa cadela labrador, a Diana. A raiva, disse-nos ele, há muitos anos que em Portugal não era detectada em animais domésticos. Foi remédio santo: os sintomas incipientes desvaneceram-se num ápice. Optei contudo por não confessar que a verdadeira causa da minha maladie imaginaire tinha sido o conto O Morgado de Pedra-Má de José Rodrigues Miguéis (incluído em Léah e Outras Histórias - 1958), em que o protagonista sofre morte horrível após ter sido mordido por um cão raivoso. O livro - uma bonita edição da Estampa, editora que agora se dedica ao esoterismo - ainda tem lugar de honra nas estantes cá de casa, mas prefiro não reler o conto.

O contraponto das doenças inexistentes são os remédios ou mezinhas que só funcionam na imaginação. Alyssum vem do grego, e indica que a planta assim nomeada seria útil para curar a raiva. O que, como hoje sabemos, é absurdo, pois antes de Pasteur quem fosse infectado pela doença tinha a morte como certa. Como a Alyssum loiseleurii e as suas congéneres não têm, ao que sei, qualquer virtude medicinal, o melhor é esquecer as doenças e falar da planta.

As cinco espécies de Alyssum que ocorrem em Portugal, e das quais nunca me calhou encontrar nenhuma, revelam acentuada predilecção pelas serras transmontanas; mas a Alyssum loiseleurii, inexistente em território português, trocou as montanhas pela beira-mar, frequentando as dunas do sudoeste de França e do norte da Península Ibérica. É uma planta perene, de base algo lenhosa, cujas hastes prostradas, revestidas por folhas de um verde prateado, não vão além dos 20 cm de comprimento. Pode ver-se em flor em Julho e Agosto nalgumas praias menos pisoteadas da costa galega - por exemplo em Corrubedo e em O Grove. As suas populações são poucas e escassas, e a sua sobrevivência está ameaçada pela cada vez mais intensa ocupação humana do litoral.

16/03/2011

Seis semanas e meia

Arabidopsis thaliana (L.) Heynh.

Nomes vulgares: arabeta, erva-estrelada, thale cress
Ecologia e distribuição: rochas, terrenos incultos e habitats ruderais na Europa, Ásia e norte de África
Distribuição em Portugal: todo o território continental e ilha Terceira
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos: Fevereiro de 2011, vale do Douro, Régua
Informações adicionais: planta anual com um brevíssimo ciclo de vida (pode germinar, florir e dar semente em apenas seis semanas) e um genoma muito curto, a arabeta é usada desde o início do séc.XX para investigação em biologia vegetal e (mais recentemente) em genética

15/03/2011

Dama da noite



Hesperis laciniata All.

Esperar não é necessariamente ficar à espera – é viver enquanto não acontece uma coisa que, afinal, queremos menos do que viver apenas. Miguel Esteves Cardoso, Ainda ontem (Público, 18/II/2011)

Conhecíamos a Ota de uma curta visita, há uns anos, à Base Aérea. No Inverno de 2010, tornou-se-nos clara a premência de nova visita, esta de cariz não militar. Houve, contudo, que aguardar até que retornasse o tempo preferido para a floração das crucíferas, período em que consultámos obsessivamente o calendário para não falhar a data.

Fomos à procura dela em Fevereiro numa cascalheira calcária no vale da ribeira da Ota. Após meia hora de marcha estradeira, ladeados por arbustos e árvores que formam um bosquete cerrado mas que parece recente, e outro tanto por um corredor estreito atapetado de musgos, fetos e cogumelos vermelhos, estacámos numa encosta de pedrinhas angulosas brancas. Tropeçámos (literalmente) pela ladeira até um canto assombrado, e lá estavam as flores de cor violácea, pétalas longas (uns 3 cm) onduladas e uma fragância fugidia que se torna mais intensa ao entardecer – capricho que a designação grega hespera celebra. A população é pequena, embora tenhamos notado a presença de vários pés novos, com quase 30 cm de altura, ainda só com as folhas, que são alternadas, lanceoladas e de margens dentadas (daí a designação latina laciniata), com 5 a 15 cm de comprimento.

A juliana é uma herbácea bienal ou perene, mas de vida curta, nativa da metade sul da Península Ibérica, sul da Europa e Marrocos. É a única espécie (das cerca de 150) do género Hesperis que ocorre, e raramente, em Portugal, e não há registo da presença da subespécie de flores amarelas manchadas de ametista. Espanha foi bafejada com outra espécie, a H. matronalis (em duas subespécies, a subsp. candida, autóctone e de flores brancas, e a subsp. matronalis, naturalizada, com pétalas púrpura), planta de maior porte, inflorescências mais densas e folhas pecioladas não lobadas.

14/03/2011

Semana das cruzes



Alliaria petiolata (M. Bieb.) Cavara & Grande

Não é nossa intenção iniciar celebrações pascais com seis semanas de antecedência, mas quem assim quiser interpretar este novo ciclo temático pode fazê-lo sem pedir licença. Com os anos a correrem vertiginosamente, todas as datas se atropelam no calendário. Seria por isso fútil esperarmos pelo dia certo: é quando nos lembramos, e pode ser antes ou depois.

A bem do rigor, esclarecemos contudo que as cruzes da semana nada têm a ver com a de Cristo. Acontece que resolvemos montar uma exposição (que será completada na sexta-feira, e depois ficará a vogar no ciberespaço até à eternidade) de plantas crucíferas, que recebem esse nome por as suas flores terem as quatro pétalas dispostas em cruz. Acumulámos muitas crucíferas no arquivo; agora que tantas delas estão em flor, é boa altura para lhes dar vazão.

Como já antes aqui mostrámos plantas da mesma família, o leitor deverá complementar as novidades da semana com as lições antigas a que pode aceder clicando na etiqueta Cruciferae. Não havendo mal nenhum em recapitular, lembramos que a nossa culinária não seria o que é sem essas utilíssimas plantas. É inimaginável confeccionar uma honesta sopa caseira sem pencas, repolhos, rabanetes ou nabos. (Há a canja, a sopa alentejana e as sopas de peixe ou de marisco - mas nada disso preenche os requisitos de uma verdadeira sopa.) E a esta lista de maravilhas devemos ainda acrescentar o agrião e as diversas mostardas.

Além das plantas cultivadas nas hortas, e algumas outras que ascenderam à categoria de ornamentais, há em Portugal muitas crucíferas espontâneas - cerca de 150 espécies - que para nós não têm outra utilidade senão a de existir. Algumas são grandes e vistosas, outras destacam-se pela abundância, muitas são efémeras e discretas. As duas crucíferas desta sessão inaugural, ambas de flores brancas (e o branco vai ser a cor dominante da semana), definem o intervalo em que as outras se vão encaixar: a Alliaria petiolata, planta bienal, é grande, capaz de atingir um metro e vinte de altura, enquanto que a Cardamine hirsuta é uma planta anual que em regra não sobe acima dos dez ou quinze centímetros.

No vernáculo, a Alliaria petiolata é tratada como erva-alheira: as suas folhas, quando esmagadas, cheiram a alho. Por esse motivo, e também porque as suas sementes podem ser usadas para produzir mostarda, os ingleses chamam-lhe garlic mustard. É uma planta comum em grande parte da Europa, que floresce de Março a Julho e prefere lugares sombrios como bosques ou sebes. Em Portugal, onde não é muito vulgar, concentra-se na metade norte. Conhecemo-la das margens do Tâmega, em Amarante, e de vários outros rios transmontanos.


Cardamine hirsuta L.

Se o leitor cultivar um pedaço de terra, ou guardar na varanda alguns vasos ou floreiras, então reúne todas as condições para observar ao vivo a Cardamine hirsuta - que, em português, é conhecida como agrião-menor ou agrião-de-canário. Por ser amarga, esta plantinha não se recomenda para condimento; e, não se podendo considerar decorativa, ninguém a cultivará de sua livre vontade. Trata-se pois de uma planta que depende de si própria para sobreviver, e não se tem dado nada mal com isso. A sua curta existência decorre de Fevereiro a Maio: são quatro meses para florir, frutificar e lançar as sementes para a geração do ano seguinte.

12/03/2011

2.ª Exposição de Orquídeas da Cidade do Porto

dias 19 e 20 de Março das 10h às 18h
antigo Conservatório de Música do Porto
(à rua da Maternidade)


11/03/2011

Vida ao lado



Narcissus papyraceus Ker Gawl.

Primeiro num vaso, depois em outro, e logo em latas e canteiros de caixotes, o homem plantou bulbos e ficou à espera das flores.

Mas antes das flores ou de qualquer germinar, ervas daninhas começaram a despontar na plantação. Atento, o homem arrancou uma por uma, sacudindo bem as raízes para poupar a terra preciosa. E mais regou, sabendo que as flores logo chegariam.

Despontaram as primeiras flores prenunciando jacintos e narcisos, e já as daninhas se multiplicavam, ameaçando sufocar a brotação delicada. Novamente o homem foi obrigado a intervir, arrancando impiedosamente as invasoras.

Até a chegada daqueles dias mais amenos em que, uma por uma, as flores começaram a se abrir, encharcando o ar de perfume, colorindo os canteiros de matizes. Aproximou-se o homem com seu canivete e, escolhendo as mais bonitas, degolou-lhes o caule, empunhando o buquê que levaria para enfeitar alguma casa. Não teve tempo de fazê-lo. Antes que deixasse o jardim, as flores o arrancaram, daninho.

Marina Colasanti, Com a chegada da Primavera (Contos de amor rasgados, Ed. Record, 2010)

10/03/2011

Etapa Terceira



Lotus creticus L.

Esta bonita planta rasteira, de textura acetinada e com folhas de um verde prateado, enfeitada aqui e ali com cachos de flores amarelas, é nos Açores uma raridade tão grande como o trevo-de-quatro-folhas. Ao contrário da Marsilea azorica, porém, o Lotus creticus não é um endemismo açoriano - querendo isto dizer que, embora possa ser nativo do arquipélago, ocorre espontaneamente noutros locais do planeta. De facto, ainda que não seja nada comum, o Lotus creticus aparece na costa continental portuguesa do Minho ao Algarve, daí navegando pelo Mediterrâneo até Itália e ao norte de África. Mas quem quiser vê-lo nos Açores (e nós nunca o vimos senão lá) terá que fazer uma etapa na Terceira e, uma vez na ilha, dirigir-se ao preciso local onde ele tem a sua morada. Que consiste nuns poucos metros quadrados de areal cor-de-cinza em Porto Martins, não muito longe das rochas onde se alojam a vidália e o meimendro-branco.

Talvez para compensar a escassez populacional, o cornichão-das-areias açoriano nunca faz férias: mantém-se com folhas e mais ou menos florido durante o ano inteiro. E esse, cumpre-nos afirmá-lo categoricamente, deveria ser o verdadeiro espírito insular. Só por imitação dos costumes continentais é que nos Açores se fala em Primavera-Verão-Outono-Inverno, quando na verdade o clima é praticamente constante ao longo do ano. Existem as quatro estações, mas sucedem-se umas às outras no mesmo dia, seja qual for a data do calendário. Por isso nos parece disparatado que as plantas endémicas do território, as tais que só há mesmo lá, insistam em ter uma época de floração, frustrando os visitantes que chegam na altura errada.

O nome cornichão-das-areias não faz jus à beleza da planta. Chamar-lhe-íamos lótus-prateado (à imitação do catalão lot de platja), não fosse o caso de o nome vulgar lótus ter sido roubado pelas conhecidas plantas aquáticas. Em inglês há quem o trate por Southern bird's-foot trefoil. O bird's-foot refere-se à disposição das vagens (que são rectilíneas e têm uns 3 cm de comprimento), mas o trefoil é um duplo equívoco: a planta não é um trevo (género Trifolium) e as suas folhas têm cinco folíolos em vez de três.

09/03/2011

Arroz picante


Sedum acre L.

Nomes vulgares: uva-de-cão, wall pepper, biting stonecrop
Ecologia e distribuição: areias, fissuras de rochas e terrenos incultos desde o nível do mar até altitudes superiores a 2000 metros, no norte de África, Europa e Anatólia
Distribuição em Portugal: metade norte do país (Beira Alta, Beira Litoral, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes)
Época de floração: Abril a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2010, restinga do Cávado (Fão, Esposende)

08/03/2011

Festival amarelo de Paredes de Coura



Narcissus cyclamineus DC.

A festa anual de música (alternativa, dizem eles) em Paredes de Coura não alegra só os que, nos cálidos verões, se extasiam com baterias tonitruantes e potentes bels de guitarra. O público hedonista, sem o saber, mantém parte daquele local arejado de relva e de outras plantas competidoras e, ao conformar-se à proibição de aceder a algumas áreas sensíveis, permite que, entre Fevereiro e Março, decorra um outro festival: o do narciso-de-trombeta, a que os locais que o conhecem - surpreendentemente não todos os habitantes da vila - chamam martelinhos.

É uma planta bolbosa que pode atingir trinta centímetros de altura, com folhas basais lineares, erectas e acanaladas. As flores solitárias, no cabecear típico do género, nascem protegidas por uma bráctea esbranquiçada e longa que cobre o botão antes de ele abrir; e que logo murcha para que as seis tépalas se revirem para trás sem esforço (justificando assim o epíteto) e cubram maternalmente o ovário. A corola é um tubo quase cilíndrico de um a dois centímetros de comprimento com remate crenado. Ainda não havia frutos; esperam-se muitas cápsulas de sementes angulosas e escuras.

Este narciso é um endemismo do noroeste da Península Ibérica, tido como vulnerável no Catálogo Galego de Especies Ameazadas. Em Portugal, está legalmente protegido por decreto-lei depois que uma directiva europeia o descreveu em perigo de extinção. Restringe-se às terras de Coura, às serras do Caramulo e da Freita, e ao complexo Pias/Santa Justa/Castiçal em Valongo; em Espanha só ocorre na Galiza. Tirando as do concelho de Paredes de Coura, as populações são em geral pequenas, em nichos que se estão a degradar por pressão humana. Esta herbácea necessita de prados húmidos e margens de riachos com sombra, e estes estão a ser ocupados para aproveitamento agrícola porque os antigos lameiros, atravessados por regatos de água fresca, já rareiam.

Conta A. Fernandes, no Anuário da Sociedade Broteriana de 1953, que, num impulso de empreendedorismo como por vezes assalta os portugueses, quando este narciso foi primeiramente descoberto, em 1881, em Valongo, se iniciou uma colheita desenfreada de bolbos para venda. Logo depois foi considerado extinto. Embora ali reencontrado décadas mais tarde, a pequena população que dele subsiste no vale do rio Ferreira é segredo bem guardado.

Contudo, é possível encontrar em floristas narcisos semelhantes. Têm, cremos, proveniência honesta. Pelo formato peculiar, o N. cyclamineus foi escolhido como progenitor de vários híbridos de jardim que os criadores engrinaldaram com nomes de fantasia: Dove Wings, February Gold, Reggae ou Little Witch.

07/03/2011

Arroz à moda do Porto



Sedum hirsutum All.

Talvez seja bom começar com uma pergunta grandiloquente, e depois regressar de mansinho a um registo mais terra-a-terra. Aqui vai então (o orador clareou a garganta com um estrondoso pigarro enquanto a audiência adoptava uma atitude de respeitosa expectativa). Poderá um território transformado por séculos ou milénios de ocupação humana, onde cada época construiu as suas casas sobre os escombros das épocas precedentes, onde não ficou pedra por revirar nem sobrou pedaço de terra virgem, poderá, enfim, tal território guardar um resquício, por ínfimo que seja, da vegetação natural que o homem tão metodicamente extirpou?

Claro que não parecia ser a resposta com maior número de adeptos. Outros ousaram exprimir a opinião contrária. A pedido do orador, um dos minoritários resumiu a sua posição. Que a vegetação, já se sabe, é irreprimível, e há muitas velhas casas, lotes abandonados, quintais que já ninguém cultiva, onde as plantas crescem como mato. Não serão das mais valiosas - os botânicos classificam-nas como ruderais ou nitrófilas, próprias de lugares fortemente alterados pela acção do homem. Algumas até serão exóticas, escapadas de jardins entretanto desaparecidos. Mas entre elas muitas há que fazem parte daquilo que seria a flora espontânea da região. Não são árvores nem arbustos, mas sim herbáceas anuais ou de vida curta sempre à espreita de um nicho onde possam instalar-se.

O orador agradeceu a intervenção com um muito bem e retomou a palavra. O nosso amigo (disse ele) tem toda a razão, podemos até enumerar algumas plantas da flora portuguesa que são muito comuns por toda a cidade: a urtiga (Urtica dioica), a erva-mercúrio (Mercurialis ambigua), as fumárias, os gerânios, os polipódios, a erva-das-paredes (Parietaria judaica), o umbigo-de-Vénus (Umbilicus rupestris); e uma vez por outra até se vêem papoilas (Papaver rhoeas) a despontar do entulho. Dificilmente, porém, alguém ficará excitado ao deparar com essas plantinhas oportunistas, que parecem medrar com a desgraça alheia. O que lhes quero hoje mostrar pertence a uma categoria bem diferente.

Enquanto falava, o grupo ia descendo a rua da Restauração, desviando-se dos automóveis estacionados sobre o passeio e dos eléctricos que passavam vazios. Ultrapassada a Casa do Vinho Verde e um outro antigo prédio ladeado por um jardim em socalcos, seguia-se um muro baixo debruçado sobre uma viela, com as ruínas do Convento de Monchique destacando-se ao fundo sobre o azul do rio. Virando à esquerda para a viela, o grupo imobilizou-se à vista de um comprido prédio de dois andares que aparentava ter sido construído há 20 ou 30 anos. Assente uns metros abaixo, à face da rua onde a viela desembocava, ostentava na fachada os dizeres Bairro Ignez.

Espreitem com cuidado (recomendou o guia), ainda é um trambolhão respeitável. Estão a ver esses tufos de florinhas brancas agarradas ao muro? O feto é também um caso especial, mas deixemos isso para depois. A planta com essa flor branca, muito vistosa e geométrica (alguém trouxe lupa?), é de uma das 17 espécies de Sedum que existem em Portugal. São plantas carnudas, adaptadas a ambientes muito secos e depauperados, que colonizam rochas, muros e telhados, e chegam a refugiar-se nos separadores das auto-estradas. Em português é costume tratá-las por arroz, talvez porque as folhas miúdas pareçam bagas. Temos assim o arroz-dos-telhados, o arroz-dos-muros, o arroz-das-paredes. Só que há arrozes e arrozes. Este Sedum hirsutum, que tem as folhas e as sépalas cobertas por uma leve penugem, se houvesse justiça passaria a chamar-se arroz-à-moda-do-Porto. Estava eu muito longe de imaginar que ele pudesse ter sobrevivido às transformações da cidade e ao ar infecto que aqui se respira. Sem ser raro, nunca é abundante, e eu só costumava encontrá-lo nas rochas do Gerês e noutros lugares impolutos do norte do país.

Notem como a maior ou menor exposição solar faz toda a diferença. As plantas mais acima, viradas para sul, recebem sol o dia inteiro, e para elas o calendário de floração vai muito adiantado. Mais abaixo, por culpa do interposto Bairro Ignez, as flores vão ter que esperar uns meses. E estes fetos que não toleram sombra estão todos refugiados cá em cima.

(E com isso terminou a lição. Os que traziam máquina fotográfica debruçavam-se com algum perigo para captar uma macro das diminutas flores. Outros juntavam-se a conversar. Ao fim de algum tempo o grupo começou a dispersar-se, com pena de estas sessões de Botânica na cidade não acontecerem mais vezes.)


Convento de Monchique visto da rua da Restauração (Porto)

05/03/2011

XVI Exposição de Camélias do Porto



No próximo fim-de-semana, dias 12 e 13 de Março, terá lugar na Galeria do Palácio (Biblioteca Almeida Garrett, jardins do Palácio de Cristal) a tradicional Exposição de Camélias do Porto, agora na sua 16.ª edição. Trata-se de uma organização conjunta da Associação Portuguesa das Camélias e da Porto Lazer, E.M. O evento abre ao público às 14h30 de sábado, fechando nesse dia às 20h00. No dia seguinte, domingo, mantém-se aberto entre as 10h00 e as 18h00. (Além de admirar as flores em exposição, o visitante esclarecido não deixará de percorrer demoradamente os jardins, onde, a juntar às muitas que já existiam, foram em anos recentes plantadas dezenas de novas camélias.)

04/03/2011

O rubor do sargaço


Cistus sp. [variedada cultivada - Russel Square]

Coimbra, 2 de Fevereiro de 1958 – Enquanto via as imagens – uma arte insuspeitada trazida à tona do grande deserto africano –, ia-me consolando com a ideia de que nem a própria natureza comete crimes perfeitos. Engole uma civilização, fica-se a rir com um riso saariano, e tudo parece arrumado. Mas às tantas, o olho insubmisso dum grafito espreita por debaixo das areias, e pronto: a tramóia descobre-se, os entendidos cavam, e patenteiam à incredulidade dos jurados o esqueleto da vítima devorada.

E isto dá esperança, parecendo que não. A certeza de que não há facto soterrado sem claridade futura, de que aparece sempre um caco dos acontecimentos a desafiar a curiosidade dos vindoiros, embora melancólica, é consoladora. Mesmo póstuma, adiada para o dia do juízo, a verdade sabe bem.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

03/03/2011

Flores caídas


Piptanthus nepalensis (Hook.) D. Don [sinónimo: Piptanthus laburnifolius (D.Don) Stapf]

É sabido como o sistema de ensino tem vindo gradualmente a abandonar assuntos que, pela sua complexidade, podem causar lesões neuronais irreversíveis a quem por eles se aventure. A tendência nem sequer é recente. O escriba, nascido nos idos de sessenta, assume sem complexos ser já o produto de um ensino aligeirado. A prova? Nunca ninguém lhe tentou ensinar latim ou grego. Não é certo, porém, que algo lhe tivesse ficado vivo dessas línguas mortas se a elas tivesse sido exposto. Aprender é também esquecer, por falta de boa arrumação no sótão mental.

O interesse pela botânica vai suprindo, de modo fragmentário, essa lacuna formativa. Conhecer o significado de três ou quatro dezenas de epítetos científicos já proporciona um vocabulário latino muito rudimentar e embrionário. Não permitirá manter grande conversa com algum dignitário do império romano, mas dará para trocar umas dicas com o seu jardineiro. E ao latim juntam-se uns pozinhos ainda mais rarefeitos de grego antigo, como bem ilustra a planta de hoje. A palavra anthos, que aparece no nome genérico Piptanthus e numa série de outros termos botânicos (por exemplo micranthus), significa flor em grego clássico; o verbo pipto, que fornece o prefixo, significa cair. O termo Piptanthus diz-nos pois que as flores deste arbusto têm o hábito de cair. E - pergunta o perplexo leitor - o que há de singular nisso? Não acontece o mesmo com todas as flores? É que estas, afiançam os tratados de botânica, caem mais completamente do que as que caem simplesmente. Tombam não só a colora e os estames como também o cálice, de modo que as jovens vagens nascem quase sempre sem esse colarinho na base (visível, por exemplo, nesta foto de uma outra leguminosa).

Fotografado em Gordon Square (Bloomsbury, Londres) no início de Maio, este arbusto parecia ter sido acabado de plantar no seu canteiro definitivo: muito pequeno ainda, mas já com fartura de flores e promessa de mais para vir, e com a tirinha de identificação dando conta de que era parte de uma encomenda de três. Quando crescer poderá ultrapassar os dois metros de altura. Dependendo das condições ambientais, tanto pode ser de folhagem caduca como persistente; o mais provável é que nos jardins europeus de climas mais amenos (em Portugal nunca o vimos) ele não se dispa no Inverno.

O género Piptanthus inclui três únicas espécies, todas originárias da China e dos países vizinhos. O Piptanthus nepalensis é nativo da região que se estende dos Himalaias (Nepal) até ao sudoeste da China.

02/03/2011

Prímula dentuça


Primula denticulata Sm.

Nome vulgar: drumstick primula
Ecologia e distrbuição: zonas montanhosas húmidas do Afeganistão ao sudeste do Tibete, e ainda da Birmânia e do sul da China
Época de floração: Abril a Agosto
Data e local das fotos: Gordon Square (Bloomsbury, Londres), Maio de 2010

01/03/2011

Revoada de luas



Lunaria annua L. (fotografada em Gordon Square, Bloomsbury, Londres)

Planta bienal, e por isso também designada Lunaria biennis Moench., esta crucífera tem folhagem caduca e opta ocasionalmente por um ciclo de vida anual, o que a denominação aceite (annua) assinala. É uma herbácea ramificada e alta, com vasto uso ornamental, o que facilitou a sua naturalização em recantos húmidos e sombrios longe do seu habitat natural, o sudeste da Europa e a região mediterrânica. As folhas ovado-cordiformes são largas e acuminadas, com margens serradas, sésseis as do topo, de pecíolo longo as basais para mais bem compor o ramalhete.

Os racimos vistosos de flores inodoras surgem na Primavera; o cálice tem sépalas de 1 cm a rodear quatro pétalas com cerca de 2 cm de diâmetro, violáceas ou brancas, dispostas em cruz como é típico na família Cruciferae. Mas são os frutos, enormes silíquas achatadas, com perfil arredondado e septos centrais acetinados, da cor do nácar, que persistem nos ramos depois que as sementes reniformes se disseminam, a razão maior da fama desta planta. A Lineu, lembraram eles a lua cheia. Para outros, são moedas de prata, a que a ironia popular juntou do-Papa ou de-Judas. Os ingleses chamam-lhe honesty talvez porque as vagens são translúcidas, permitindo entrever as sementes.

O género Lunaria agrupa umas oito espécies. Uma só delas, a L. rediviva L., é espontânea na Península Ibérica, distinguindo-se da L. annua por ser perene, por dar, no Verão, flores perfumadas de um roxo pálido, por ter todas as suas folhas pecioladas, e por preferir a montanha. Há registo dela em quase toda a Europa; em Portugal, segundo a Flora Ibérica, podemos encontrá-la, sempre acima dos 900 metros de altitude, no centro e sul - mas não conhecemos testemunho dessa presença.