
Narcissus scaberulus Henriq.
Damos nomes às coisas para encarcerá-las no tempo. Assim fazemos com os recém-nascidos. Assim os escritores dão títulos a seus livros: para que não se percam numa série infindável. Para que não desapareçam de nossos olhos. Para que nunca se repitam. Essa é a soberba humana - sempre repetida. Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (L&PM Editores, 2008)
Pelas fotos, estas
flores quase não se distinguem das que mostramos hoje, mas, ao vivo, foi fácil verificar que as últimas são mais pequenas. Além disso, a comparação entre as folhas erectas dos exemplares que vimos, na serra dos Candeeiros, do
N. calcicola
– espécie descoberta por Francisco A. Mendonça em 1926 e por ele descrita no ano seguinte no
Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie (Paris) –
e as prostradas, mais estreitas e de margens ásperas (escabras) do
N. scaberulus
– baptizado, em 1888, no
Boletim da Sociedade Broteriana, por Júlio Henriques (1838-1928), botânico que foi director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e fundador da Sociedade Broteriana –
ainda mais justificam a diferenciação taxonómica entre eles, apoiada aliás pela separação geográfica e pela caracterização do solo dos respectivos habitats. Na
Nova Flora de Portugal (1994), de J. Amaral Franco e M. Luz da Rocha Afonso, estes dois narcisos da secção
Jonquillae são apresentados como espécies distintas. Na
Flora Ibérica, a proposta segue o conselho de A. Fernandes (em 1926, no
Boletim da Sociedade Broteriana) e distingue duas subespécies:
N. scaberulus subsp.
calcicola, que ocorre nas serras calcárias do centro e sul de Portugal, e também em Espanha; e
N. scaberulus subsp.
scaberulus, endemismo português, que vive em solos graníticos na zona central da bacia do Mondego, um pequeno paraíso que, sem a ajuda da
Luísa e do Joaquim, não teríamos descoberto.
O leitor certamente reparou que as tépalas do
N. cyclamineus se recurvam para trás. Note agora que, no
N. scaberulus subsp.
scaberulus, elas formam um colar isabelino, quase perpendicular à taça. Para a semana, à mesma hora, poderá ver o penteado que falta, um narciso com as tépalas em franja sobre a corola.