23/05/2011

Carvalhinha rosada


Teucrium chamaedrys L.

A natureza não foi avara connosco quando se fizeram as partilhas do género Teucrium. Das trezentas espécies registadas em todo o mundo, a parte de leão coube à região mediterrânica; umas sessenta espécies escolheram viver na Península Ibérica, e dessas há quinze que são espontâneas em Portugal. A pequenez do nosso território não faria augurar tamanha benesse, e quinze é um número jeitoso. Mais do que isso e as espécies atropelam-se umas às outras, sem delimitações claras tanto morfológicas como geográficas. Está perfeitamente ao nosso alcance conhecer quinze espécies e tratá-las pelo nome próprio; sessenta é já um exagero e uma dor de cabeça. Coitados dos espanhóis.

Comecemos por fazer a revisão da matéria dada. O primeiro Teucrium que enfeitou estas páginas foi o mato-branco (T. fruticans). Trata-se de um arbusto ornamental muito popular nos separadores das auto-estradas, e que também é espontâneo no centro e sul do país. Depois, a urgência em escoar as fotos do arquivo levou-nos a juntar neste postal duas plantas de ecologia bem diversa: o T. scorodonia frequenta os bosques caducifólios do norte do país, enquanto que o T. polium prefere as encostas calcárias e soalheiras do centro-oeste.

Com o Teucrium chamaedrys regressamos ao calcário e à Serra dos Candeeiros, e também às plantas com potencial para uso em jardins. A nosso ver, pela folhagem brilhante e penugenta, e pelas flores rosadas a constrastar com o tom escuro dos cálices, este é o mais bonito dos quatro. Tão vistoso é que até o povo parece ter reparado nele: carvalhinha ou erva-carvalha são os nomes vernáculos pelos quais é conhecido, por certo motivados (como aliás o epíteto chamaedrys) pela semelhança das suas folhas com as dos carvalhos.

Semelhança que não se estende aos outros aspectos da planta, a começar pela envergadura. A carvalhinha é uma planta rasteira, com tufos de hastes que não ultrapassam os 30 cm de comprimento. As flores, que começam a aparecer por esta altura e se devem aguentar pelo menos até Julho, medem cerca de 1,5 cm.

O Teucrium chamaedrys ocorre em quase toda a Europa, e ainda no suoeste da Ásia e no norte de África. Em Portugal parece confinado às Beiras e à Estremadura.

20/05/2011

Lamparina-de-cuco



Silene laeta (Aiton) Godr.

Silenus foi aio, ou tutor, de Baco e uma divindade alegre ligada à floresta. As representações que dele a arte nos tem deixado enaltecem-lhe a jovialidade, o carácter satírico e o humor mordaz. Simboliza, na música (neste quadro, é a figura à esquerda), a sabedoria do que é espontâneo, criado de improviso, em contraste com o que é planeado e se elabora meticulosamente. Mas estes poderes concedidos pelo vinho têm um custo e, em todas as imagens, Silenus surge, rodeado de gente embebida de igual folia, como um herói burlesco, sem elegância, cambaleante e barrigudo. E é este detalhe físico que o cálice das silenes evoca.

Pelo contrário, a S. laeta, com flores quase sempre solitárias, de pétalas com cerca de 7 mm e cor delida, prefere a água. Habita solos turfosos, terrenos alagadiços, margens de lagoas de água doce e marismas, florescendo entre Maio e Julho. Talvez por isso o cálice seja menos pançudo - tanto que a julgámos um cravo e já esteve no género Lychnis - e a planta dure pouco, não mais que um ano.

É uma planta glabra e cespitosa, com folhas lanceoladas que terminam numa ponta curta e aguçada. Nativa da região mediterrânica e do sudoeste da zona eurosiberiana, ocorre na metade oeste da Península Ibérica e, por cá, de norte a sul perto do litoral.

19/05/2011

Cilada taxonómica


Scilla ramburei Boiss.

O erro de um especialista pode levar ao registo de uma nova espécie que é de facto indistinguível de outra já anteriormente baptizada. O erro de um amador, por contraste, só confirma a inépcia do sapateiro que quer subir acima da chinela. Amador e especialista têm portanto que adoptar comportamentos distintos: o primeiro só arrisca uma opinião depois de muito ponderar; o segundo esbanja opiniões e faz currículo com elas.

É por causa desta profusão de opiniões desencontradas que alguns géneros botânicos se transformam num campo minado para quem gosta de certezas. Que as cilas (género Scilla) são uma verdadeira cilada para o naturalista amador sabíamos nós há muito tempo. Até hoje conseguimos evitá-la, mas estas fotos esperaram já um ano para sair do baú. Ou erramos, ou não falamos mais de cilas. Erremos, pois.

A cila-de-uma-folha é de tal modo comum em bosques e matagais no início da Primavera que por vezes nem lhe prestamos atenção. Com esse alheamento perdemos a oportunidade de detectar variações interessantes. Algumas cilas também primaveris mas com o escapo floral mais espigado têm não uma, mas cinco ou seis folhas. São sem dúvida de uma espécie diferente, mas que espécie será essa? Talvez Scilla ramburei - pelo menos assim julgamos das plantas aí em cima, fotografadas nas margens do rio Ferreira, em Valongo.

Acontece que, no norte de Portugal e na Galiza, foram registadas pelo menos seis espécies de Scilla com caracteres morfológicos semelhantes: S. ramburei, S. verna, S. beirana, S. odorata, S. merinoi e S. paui. A delimitação entre as diversas espécies é controversa, e já houve quem apontasse que alguns destes nomes são na verdade sinónimos. Tanto quanto pudemos entender, S. beirana e S. ramburei designam a mesma espécie, que inclui plantas geralmente mais encorpadas do que a S. verna e a S. odorata. Mas mesmo esse traço distintivo não é seguro, pois uma mesma planta crescendo em solos ricos e húmidos desenvolve-se melhor do que em lugares áridos.

A Scilla é pois um género a carecer de urgente clarificação, tarefa que talvez a Flora Ibérica venha a cumprir. Mas as incertezas taxonómicas não nos devem impedir de admirar tais plantas.

Adenda 1. Sobre a taxonomia e morfologia do género Scilla e de outros géneros aparentados (Hyacinthoides e Ornithogalum), leia-se o extenso e educativo comentário que o Prof. Rubim Almeida, da Faculdade de Ciências do Porto, teve a amabilidade de deixar neste outro post.

Adenda 2. As fotos que originalmente acompanhavam este texto correspondiam a outra espécie que não a Scilla ramburei, e por isso foram substituídas.

18/05/2011

Estrela donzela


Ornithogalum broteroi M. Laínz

Nomes vulgares: donzelas; leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: pastagens e prados, clareiras de matos e bosques abertos não muito longe da costa em altitudes até 1300 m; ocorre no oeste da Península Ibérica e ainda no norte de África
Distribuição em Portugal: do Minho ao Algarve, principalmente no litoral
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos:
Abril de 2011, Alfena, Valongo, entre matos e eucaliptais recém-ardidos
Informações adicionais: as flores do Ornithogalum broteroi são muito semelhantes às do O. concinnum: em ambas estão ausentes as faixas verde no verso das pétalas. No entanto, o Ornithogalum broteroi tem uma espiga mais curta, com menos flores, e cada planta dá uma única folha

17/05/2011

Voto em branco


Anacamptis pyramidalis (L.) Rich.

I crossed one swell of living turf after another, looking for a place to sit down and draw. Do not, for heaven's sake, imagine I was going to sketch from Nature. I was going to draw devils and seraphim, and blind old gods that men worshipped before the dawn of right, and saints in robes of angry crimson, and seas of strange green, and all the sacred or monstrous symbols that look so well in bright colors on brown paper. They are much better worth drawing than Nature; also they are much easier to draw. When a cow came slouching by in the field next to me, a mere artist might have drawn it; but I always get wrong in the hind legs of quadrupeds. So I drew the soul of a cow; which I saw there plainly walking before me in the sunlight; and the soul was all purple and silver, and had seven horns and the mystery that belongs to all beasts. (...)

But as I sat scrawling these silly figures on the brown paper, it began to dawn on me, to my great disgust, that I had left one chalk, and that a most exquisite and essential chalk, behind. I searched all my pockets, but I could not find any white chalk. Now, those who are acquainted with all the philosophy (nay, religion) which is typified in the art of drawing on brown paper, know that white is positive and essential. I cannot avoid remarking here upon a moral significance. One of the wise and awful truths which this brown-paper art reveals, is this, that white is a color. It is not a mere absence of color; it is a shining and affirmative thing, as fierce as red, as definite as black. When, so to speak, your pencil grows red-hot, it draws roses; when it grows white-hot, it draws stars. (...)

Virtue is not the absence of vices or the avoidance of moral dangers; virtue is a vivid and separate thing, like pain or a particular smell. Mercy does not mean not being cruel, or sparing people revenge or punishment; it means a plain and positive thing like the sun, which one has either seen or not seen.

G. K. Chesterton, A Piece of Chalk (de Tremendous Trifles, 1909)

16/05/2011

Um dois três dedos



Saxifraga tridactylites L.

Quem tem como passatempo observar plantas sabe que, em certos lugares, nenhum metro quadrado de terreno pode ser ignorado. A serra dos Candeeiros, coberta em grande parte por solos pedregosos e esqueléticos, impróprios para qualquer cultivo, é singularmente fértil em raridades botânicas. Muitas delas são de tal modo miniaturais que só com sorte ou muita paciência é que o olho consegue detectá-las. Para nós a Saxifraga tridactyles (ou saxífraga-dos-três-dedos, numa alusão à forma que as folhas por vezes tomam) foi um caso de pura sorte: nunca a procurámos, mas tê-la visto provocou-nos um entusiasmo inversamente proporcional ao seu tamanho (em geral inferior a 10 cm).

Que seja rara é uma especificidade portuguesa, pois no resto da Europa (e também da Ásia e do norte de África) ela não é assim tão incomum. É uma planta que chega aqui de visita (e em Portugal só está referenciada em Trás-os-Montes e na Estremadura) para, na sua pequenez, nos dar notícias do vasto mundo além-fronteiras. Visita porém efémera: planta anual, a S. tridactyles floresce entre Março e Junho, frutifica e depois desaparece. Para que o leitor a reconheça caso se cruze com ela, saiba que as flores têm de 2 a 3 mm de diâmetro e que as folhas caulinares, maiorzinhas do que as da base, podem chegar a 1 cm de comprimento. Se lhe quiser tocar, cautelosamente, com os dedos notará que a planta é viscosa e coberta por uma leve penugem.

13/05/2011

Maios-pequenos



Gynandriris sisyrinchium (L.) Parl.

As palavras depõem / contra o coração, / que não quer dizer nada / nem ouvir nada. (...) / Como me calarei? Sem que palavras?
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999)

Os lírios, alguns exclusivamente ibéricos, já estão na forja e não tardarão a vir aqui exibir-se. Mas é preciso gastar a Primavera com parcimónia, por isso antes vamos conhecer este quase-lírio que floresce entre Abril e Maio e cujas flores duram apenas meio dia.

Dir-se-á que algumas fotos, ainda que esmeradas, a ilustrar um texto técnico não chegam para tanto. Realmente é mais elucidativo e entusiasmante encontrar as plantas (no limite sul da serra dos Candeeiros), medir-lhes o porte (não mais que 20 cm de altura), verificar a forma das folhas (em espada, com estrias), reconhecer o azul de lírio (por vezes pálido, quase cinzento) das flores e dar conta da mancha branca e amarela com que elas (que têm apenas 3 cm de diâmetro) sobressaem no campo. Contudo, a linguagem é complacente com a ciência, e poucas palavras bastarão para que o leitor consiga, quando a vir, reconhecer esta planta.

Do género Gynandriris, que já foi Iris e é essencialmente sul-africano, há duas espécies na Europa e só esta, a que algum povo chama pé-de-burrico, ocorre em Portugal. Da região mediterrânica, oeste da Ásia e metade sul da Península Ibérica, a Gynandriris sisyrinchium aprecia terrenos incultos, arribas no litoral e prados secos de montanha. As flores abrem ao fim da tarde para que, durante a noite, o contraste entre o azul e o branco ainda frescos atraia polinizadores que também optam pela lide nocturna, e a flor possa, de manhã, dar por encerrado o horário de expediente.

Como nos lírios, cada flor tem três pétalas exteriores descaídas - de base estreita, parte terminal reflexa e sem penugem - e três outras interiores (os estandartes) erectas e mais delgadas. Mas, apesar de unidas na base, não formam o tubo característico dos lírios; além disso, cada haste parece feita de papel de embrulho e tem duas a cinco flores, enquanto que as dos lírios são em geral solitárias. Há ainda diferenças no bolbo, mas dessas não guardámos registo porque não os havia desenterrados.

Gynandriris deriva de gyne, feminino e andros, masculino, em alusão à união dos estames com o pistilo numa só coluna, permitindo, caso Maio venha frio, que a flor não abra e opte pela auto-polinização.

12/05/2011

Ansarina dançarina



Linaria saxatilis (L.) Chaz.

Dançarinas são todas as plantas herbáceas que o vento, esse inimigo dos fotógrafos, não pára de agitar. Não havendo pachorra para esperar uma pausa entre dois compassos, a solução é usar o flash para paralisar a frenética dança. Fica uma foto sem sombras e sem relevo, um mundo a duas dimensões arrepiado de luz, mas a planta fotografada ganha em nitidez o que perde em artificialidade. O vento soprava desatado no dia em que encontrámos esta ansarina num caminho rural em Paredes de Coura, e daí que, das três imagens acima, só uma tenha sido captada com luz natural.

Como indica o epíteto científico, a Linaria saxatilis gosta de rochas, mas também se contenta com o granito de um muro velho. É uma planta perene, pubescente, que faz brotar um grande número de hastes erectas ou prostradas, por vezes ramificadas, cada uma delas até 50 cm, rematadas por cachos de pequenas flores (até 18 mm de comprimento). Tem um período de floração longo, que vai de Maio a Agosto. Endemismo do centro e oeste da Península Ibérica que tanto se dá em substratos ácidos como básicos, em Portugal a sua ocorrência está registada em todas as províncias a norte do Tejo. Porém, sendo planta geralmente escassa, só no extremo norte do país se parece fazer menos esquiva.

11/05/2011

Contando estrelas


Ornithogalum concinnum (Salisb.) P. Cout.

Nomes vulgares: donzelas, leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: endemismo peninsular, ocorre no noroeste da Península Ibérica e ainda no Cabo da Roca e no litoral de Alcácer do Sal; prefere clareiras de mastos e de bosques, sobre solos silícios, em altitudes dos 200 aos 2000 m
Distribuição em Portugal: principalmente Minho, Trás-os-Montes e Beiras
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos:
Abril de 2010, São Salvador do Mundo (Douro); Maio de 2009, margens do rio Tua
Observação: note que os botões florais desta espécie não exibem as faixas verdes que se podem ver tanto no O. narbonense como no O. orthophyllum

10/05/2011

Orquídea siamesa


Aceras anthropophorum (L.) W. T. Aiton

'I see nobody on the road,' said Alice.

'I only wish I had such eyes,' the King remarked in a fretful tone. 'To be able to see Nobody! And at that distance too! Why, it's as much as I can do to see real people, by this light!'

Lewis Carroll, The Lion and the Unicorn (Through the Looking-glass and What Alice Found There, 1871)

09/05/2011

Entre a serra e o mar


Romulea bulbocodium (L.) Sebastiani & Mauri


Romulea clusiana (Lange) Nyman

É sem dúvida um sentimento pouco original, mas ter o mar pela frente a perder-se no horizonte é uma boa ocasião para reflectir sobre a vaidade humana. Não a vaidade de conquistar distâncias e países, mas a de deixar obra que fique para a posteridade associada a um nome. No domínio da botânica, a grandeza de um autor afere-se pelo número de espécies novas que deixa registadas. Daí que seja grande a tentação de declarar que esta ou aquela variante de uma certa planta tem características suficientemente estáveis para ser guindada à categoria de espécie. Contudo, mesmo que tais propostas passem o crivo da avaliação pelos pares e apareçam em revistas científicas credíveis, não é certo que as novas espécies venham para ficar. Revisões posteriores publicadas em obras de referência como a Flora Ibérica acabam com muitas delas. E os estudos genéticos agora em voga têm provocado uma extinção em massa, não de espécies, mas de nomes de espécies.

João do Amaral Franco, autor da Nova Flora de Portugal, tinha uma fixação por armérias que o levou a (re)baptizar dezena e meia de espécies ou subespécies. De todo esse afã nomenclatural, a Flora Ibérica só aproveita um nome: Armeria beirana. Tudo o resto é diluído numa confusão de sinónimos. Nos rochedos da Boa Nova, onde os demais só viram a Armeria pubigera, Franco, que não reconheceu essa espécie, encontrou duas outras, que diferenciou pelo tamanho: A. langeana e A. parvula.

As romúleas fornecem um exemplo adicional, menos intricado, de nomes em perigo de abolição. As duas espécies acima fotografadas são, em princípio, fáceis de destrinçar, e há até livros que o fazem com grande clareza. A menos comum das duas, Romulea clusiana, fotografada na Boa Nova, é um endemismo ibérico exclusivo de locais costeiros: aparece na Galiza, no norte de Portugal e em Gibraltar. A Romulea bulbocodium prefere lugares mais elevados e está muito disseminada tanto em Portugal como em Espanha. As flores de uma e de outra são diferentes: só as da R. bulbocodium têm brácteas verdes e uma faixa central verde-amarelada no verso das três pétalas externas (que na verdade são sépalas). Mas há especificações do manual a que as plantas por vezes se recusam a obedecer: por exemplo, a mancha amarela na base das pétalas/sépalas deveria ser exclusiva da R. clusiana, mas os exemplares acima afixados de Romulea bulbocodium (da serra dos Candeeiros) não querem saber disso. Parece ser este um daqueles casos em que as duas espécies, tal como são descritas nos livros, representam apenas os extremos de um intervalo de variação contínuo. A R. clusiana estaria assim condenada a desaparecer como espécie independente, não fosse a Flora Ibérica, por uma vez patriótica, fazer finca-pé deste endemismo ibérico. O capítulo ainda está em rascunho, mas oxalá o autor não mude de ideias na versão definitiva.

Então é assim a Ciência? - pergunta o leitor confundido. Uma espécie existe se alguns especialistas influentes estiverem de acordo em que ela existe, mesmo que outros especialistas não menos conceituados pensem de outro modo? Ao que isto nos levaria.

07/05/2011

Notícias da cervina


Choupos (Populus nigra L.) nas margens do rio Gonde em Avanca / Asplenium scolopendrium L.

Ao contrário do que as aparências sugerem, o Primeiro Grande Concurso Dias com Árvores tem registado um êxito retumbante. Apesar de ele decorrer até final do ano e de o primeiro semestre ainda estar longe de terminar, é com gosto que anunciamos desde já o primeiro vencedor. Rui Soares, professor, morador em Avanca (Estarreja), apaixonado por fetos e um grande conhecedor do património natural da sua região, indicou-nos não uma nem duas, mas sim quatro grandes populações de língua-cervina distribuídas por Avanca e Válega, nos concelhos de Estarreja e Ovar. O feito de Rui Soares foi já devidamente recompensado com a entrega de dois livros (a que juntámos um terceiro de bónus).

É verdade que o regulamento do concurso exclui esses concelhos, mas Ovar fica aqui mesmo ao lado, e até hoje não se anunciou ninguém que tenha descoberto a cervina em Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo. Não desista o leitor de procurar, pois ainda há lugar para mais nove premiados.

A língua-cervina vive em lugares húmidos e com sombra quase permanente: como ilustra a imagem abaixo, as paredes de poços e outros lugares artificializados são o seu refúgio de eleição.

06/05/2011

Como as irlandesas


Neotinea maculata (Desf.) Stearn

Até há pouco tempo, o género Neotinea referia-se a apenas uma espécie, a N. maculata. Estudos recentes trouxeram à sua companhia mais cinco espécies do género Orchis (incluindo a famosa O. ustulata), que têm um ciclo anual semelhante. A N. maculata distribui-se pela região mediterrânica e atlântica, incluindo as ilhas Canárias e a Madeira, mas é uma espécie de hábitos mediterrânicos, adaptada a invernos amenos seguidos de verões quentes e secos. Por isso, alguns estranham que existam populações na Irlanda, de clima oceânico e muito chuvoso. Mérito do vento, talvez, e do tamanho diminuto das sementes, cerca de 1400 por cada cápsula.

A inflorescência nesta espécie tem 15 a 20 flores pequeninas que lembram homenzinhos com capacetes de tamanho desproporcionado a apontar numa mesma direcção. O labelo é trilobado, em posição ligeiramente levantada: o lóbulo central é uma fita com entalhes na margem, os laterais parecem bracinhos minúsculos e estreitos. O esporão é curto mas contém néctar, e a flor rescende levemente a baunilha. Opta frequentemente pela auto-polinização, por vezes mesmo antes de as flores desabrocharem, formando colónias de plantas idênticas; mas há registo de polinização por insectos de muito pequeno porte e ainda de reprodução vegetativa.

Por cá, a N. maculata é relativamente comum. Já a vimos em lugares soalheiros com solo calcário e arenoso, mas também em bosques sombrios, na base de carvalhos, ou em pastos de substrato ácido. Na variedade típica, as flores são cor-de-rosa e as folhas – que nascem em Outubro e se mantêm à superfície durante o Inverno – têm linhas paralelas de pintas que também podem ocorrer na haste, nas brácteas e no ovário, justificando amplamente o epíteto específico. Na variedade alba, que é rara por cá mas a mais frequente na Irlanda, as sépalas (que formam o capuz que esconde as pétalas esverdeadas) são pálidas, de cor creme com matizes verdes, e as folhas não são manchadas. Está também listada a variedade luteola, com flores amarelas, mas é muito rara e, dizem, está extinta na Irlanda.

O nome do género é fonte de controvérsia. Para alguns, deriva do grego neo (novo) e de tinea, em homenagem ao botânico siciliano Vicenzo Tineo (1791-1856). Outros sugerem explicação mais requintada e inverosímil: tinea aludiria à semelhança com as ervas africanas do género Tinnea, assim chamadas para render preito à exploradora holandesa Henrietta Tinne e às suas filhas.

05/05/2011

Erva vitaminada



Cochlearia danica L.

As mesmas rochas que se enfeitam de armérias aparecem recobertas, nos interstícios onde se aloja uma nesga de solo, pelo tapete verde compacto de uma planta rasteira. É o aspecto singular das suas pequenas folhas (1 cm de diâmetro), semelhantes à da hera, que nos prende a atenção; as flores, diminutas e quase todas avaramente fechadas, denunciam que estamos perante uma crucífera. Será planta exótica? Pelo sim pelo não é melhor recolher amostras fotográficas para posterior análise caseira. E eis o resultado do estudo: trata-se da Cochlearia danica, uma planta anual ou bienal da costa atlântica europeia que é também nativa de Portugal. País onde, a acreditar na Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco, ela se restringe aos arredores do Porto, a Peniche e às Berlengas. Segundo a Flora Ibérica, porém, a planta ocorre igualmente no Minho e no Algarve. As duas obras de referência, concordando em que a espécie só se dá no litoral, divergem ainda quanto à sua ecologia: rochedos marítimos para Franco, sítios húmidos e terrenos salobros para a Flora Ibérica.

O que as fotos não mostram é que as folhas basais, em contraste com as do caule, são cordiformes e têm um longo pecíolo, num conjunto que faz lembrar uma colher e, por via da palavra latina cochleare, justifica o nome científico. Quanto a nomes comuns, e para não destoar do que acontece até com plantas vulgaríssimas, não está registado nenhum em português. Em inglês temos o scurvygrass, aplicado a todas as espécies do género, que recorda como a planta é rica em vitamina C e por isso indicada para prevenir o escorbuto.

O género Cochlearia reúne umas trinta espécies anuais ou perenes, todas do hemisfério norte e, em geral, tolerantes da salinidade marítima. Na Península Ibérica assinalam-se oito espécies, mas só duas delas (C. danica e C. glastifolia) chegam a Portugal.

04/05/2011

Há mais estrelas no chão


Ornithogalum orthophyllum subsp. baeticum (Boiss.) Zahar.

Nome vulgar: leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: ocorre na Península Ibérica, Argélia e Marrocos, em pastagens secas, clareiras de bosques e terrenos pedregosos, desde o nível do mar até aos 1600 m de altitude
Distribuição em Portugal: grande parte do território continental (mais frequente no sul e no centro oeste)
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: Maio de 2009 e Março de 2011, Serra dos Candeeiros
Informações adicionais: distingue-se do O. narbonense por ser mais rasteiro, por ter a inflorescência em umbela, e não em espiga, e por as suas flores terem pétalas mais brancas

03/05/2011

Descoberta das Arabis



Arabis verna (L.) R. Br.

Apreciávamos uma população de Paeonia officinalis subsp. microcarpa em flor na Serra de Aire, quando reparámos numa herbácea baixinha (nenhum pé tinha mais de 30 cm de altura) com flores azul-violeta de cerca de 6 mm de diâmetro e base amarela, a espreitar na beira de um caminho que cruza um lugar pedregoso e sombrio pontuado por orquídeas. Mau sítio para vegetar, pensámos, enquanto nos encolhíamos na estrada de terra para um jipe-todo-o-terreno passar a toda a brida, assim sujeita ao pisoteio, tem os dias contados, resmungámos. Registada a foto da roseta de folhas basais com margens serradas e das quatro pétalas em cruz, arriscámos, pela semelhança com a Arabis sadina, que seria um exemplar do mesmo género. E é, mas tem uma história para contar.

Apesar de pouco sobrar para descobrir no mundo, velho e muito respigado, esta população de Arabis verna foi identificada por António Flor como uma nova espécie para a flora de Portugal. Não se trata de um endemismo português; é uma planta nativa da região mediterrânica e até vulgar no sul de Espanha. Mas esta é uma das duas únicas populações conhecidas no nosso país (a outra, segundo este documento, mora na Rocha da Pena, em Loulé). Contudo, essas descobertas (a de A. Flor está assinalada no livro Plantas a Proteger no Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, edição do ICN a partir de um documento interno de 1997) não foram devidamente divulgadas, não constam da maioria dos registos da flora ibérica ou europeia e cada um dos descobridores, no Barrocal algarvio e no PNSAC, parece ignorar a descoberta do outro, pois cada um deles anuncia a respectiva população de Arabis verna como a primeira e única em Portugal.

Tão deficiente partilha de notícias de índole científica é preocupante e pode comprometer a sobrevivência desta raridade. Não só os endemismos, sobretudo os que ocorrem em área restrita ou estão em risco de perda de habitat, pedem medidas urgentes de conservação. Há plantas, como esta, que, apesar de abundantes noutros lugares do planeta, têm presença exígua no nosso território, cronicamente desinteressado pelo seu património natural e descuidado com a biodiversidade. Sem protecção, sabemos, ela é espécie vulnerável, talvez em risco de extinção.

Resta chamar a atenção do leitor para a base cordiforme das folhas caulinares - que são simples e exibem uns dentinhos no ápice - e para os frutos longos e estreitos, azulados enquanto não amadurecem, umas vagens erectas onde, dizem, as sementes escuras se acondicionam num só dos lados.

02/05/2011

Flora do farol




Armeria pubigera (Desf.) Boiss.

Há uma dúzia de anos, quando se urbanizaram os terrenos no litoral de Leça da Palmeira entre o tradicional núcleo da vila e a refinaria da Petrogal, a campanha publicitária incluía filmes de animação com imagens virtuais dos interiores e exteriores do futuro bairro. Sabe-se que a realidade encenada por promotores imobiliários é um paraíso asséptico só com gente loura, activa e sorridente, mas havia ainda outra mentira nesses filmes: nenhuma chaminé da refinaria maculava com os seus fumos e cheiros o horizonte limpo, onde apenas se recortavam, contra o azul do mar, o farol, a capela e casa de chá. Terá alguém comprado um T-muitos-duplex sem se dar conta da indesejável vizinhança até ser tarde de mais?

Antes da refinaria e da urbanização galopante, estes lugares entre a Boa Nova, o Cabo do Mundo e a Praia da Memória continham uma notável diversidade vegetal sustentada por vários ribeiros e charcos. Em resultado das drenagens e dos entubamentos, as plantas higrófilas de beira-mar desapareceram quase todas; sobreviveram e até prosperaram, apesar da invasão dos chorões, as plantas especializadas que ocupam o cordão dunar. E uma outra comunidade vegetal escapou quase incólume aos assaltos do progresso: a que se refugia nas rochas marítimas, nos interstícios dos grandes penedos graníticos que abundam na Boa Nova e explicam a construção do aviso aos navegantes. Sobre a flora do farol publicaremos três fascículos de que este é o primeiro. Em jeito de aperitivo, assinalamos que é nos rochedos da Boa Nova, mesmo por trás da casa de chá, que vive uma boa população de Asplenium marinum, um feto nada comum em Portugal.

A Armeria pubigera é uma versão miniatural (folhas mais curtas, inflorescências mais pequenas) da Armeria maritima, que aparece no estuário do Cávado e de outros rios nortenhos. Ocupam habitats distintos: a A. maritima prefere os terrenos lodosos dos sapais; a A. pubigera gosta da firmeza da rocha, embora na Galiza (ilha de Arousa) não desdenhe ocupar areais. E a Armeria maritima, distribuindo-se por todo o hemisfério norte, é muito mais viajada do que a sua irmã mais nova: a Armeria pubigera é um endemismo galaico-português, com o farol da Boa Nova a marcar o limite sul da sua distribuição.

Embora esse pormenor fique camuflado pelos tufos de folhas sempre-verdes, a Armeria pubigera tem uma base lenhosa e muito ramificada. Os seus galhos, de tão emaranhados e retorcidos, são aliás testemunho de uma vida longa a que o sopro salgado do mar só parece dar alento. São muitas as armérias da Boa Nova e têm-se multiplicado e florido imperturbavelmente ano após ano. Se o leitor visitar Leça nas próximas semanas, não deixe de ir espreitar os rochedos em flor.