31.1.14

Flor do sabão




Salsola kali L.

Às plantas não chegou ainda o aviso de que o excesso de sal é maligno. A das fotos, embora também ocorra em meios não salgados, aprecia dunas embrionárias e mesmo areais junto à espuma do mar, vive coberta de sal e bebe muita água, da salgada, que guarda nas folhas cilíndricas e suculentas. Somos tentados a comentar que é por isso que esta herbácea é anual: tem uma vida curta em consequência do consumo desregrado de sal. Mas não é bem assim: ela tem vizinhas igualmente gulosas de sal que são perenes. Notem, porém, que as folhas têm uma ponta aguçada que lhe serve para se proteger de predadores, de que não sabe fugir, mas também para reduzir as perdas de humidade; além disso, os caules são penugentos, e esses apêndices fornecem zonas de sombra pequenas mas calmantes aos caules da planta. O aspecto geral dela é o de uma erva ramosa de cor verde-alface, com muitos espinhos, esticando-se até quase um metro a partir de uma moita basal. Os talos são estriados de vermelho, como os cálices das silenes de beira-mar, o que constitui talvez mais uma protecção das queimaduras do sol, como se supõe suceder com a pele das zebras.

É relativamente comum nos areais da costa atlântica, mar Báltico e mar do Norte, mas parece estar em regressão por não resistir ao pisoteio e ao uso intenso das praias na sua época de floração, de Julho a Outubro. As flores são minúsculas, nascendo em geral solitárias na base das folhas. Têm cinco pétalas amareladas e duas brácteas espessas e espinhosas a protegê-las de quem as queira comer. Desde tempos medievais e até ao século XIX, a barrilha foi não só abundante como muito útil a uma vasta indústria na Península Ibérica: das suas cinzas extraía-se carbonato de sódio com que se fazia soda e, com esta, vidro, sabão e lixívia, por um processo artesanal zelosamente mantido em segredo para salvaguardar os lucros obtidos com a exportação destes produtos. O nome latim salsola refere-se ao seu apetite pelo sal; kali deriva da palavra árabe, al-qali, para a soda.

28.1.14

Polipódio gigante



Phlebodium aureum (L.) J. Sm. [sinónimo: Polypodium aureum L.]

Na faixa litoral do país, que é onde faz a sua vida uma percentagem cada vez maior de portugueses, a geada, o granizo e a neve são fenómenos pouco frequentes. Daí que a queda de granizo em Lisboa seja notícia de destaque em todos os telejornais nacionais, para grande enfado e encolher de ombros de quem vive no interior. Mas o efeito temperador da proximidade do oceano, além de nos privar de um Inverno branco como vemos nos filmes, também possibilita o cultivo em jardins de plantas tropicais que não foram feitas para suportar temperaturas baixas. Não que isso suscite grande entusiasmo aos portugueses, dado o fraco interesse que eles revelam pela jardinagem. Quem visite o Jardim Botânico do Porto, porém, gostará talvez de saber que certas plantas que lá vegetam estão provavelmente no limite das suas capacidades de sobrevivência, dificilmente podendo ser cultivadas ao ar livre a uma latitude superior ou num clima mais continental.

Uma delas é esta versão agigantada do polipódio, um feto rizomatoso que por cá é muito comum, até nas cidades, empoleirado em árvores, muros e telhados. Se o nosso modesto polipódio (de que em Portugal existem três espécies muito semelhantes) já fornece abundante cabeleira suplementar às árvores, não as deixando ficar carecas no Inverno, imaginem o efeito que ele teria se as suas folhas, em vez de uns 20 a 30 cm de comprimento, medissem mais de um metro. São essas as dimensões do tropicalíssimo Phlebodium aureum (já se chamou Polypodium aureum), um feto que, na sua região de origem (costa leste das Américas desde a Florida até ao Paraguai, incluindo Caraíbas), também tem o costume de subir às árvores. No Botânico, por falta de árvores capazes de o acolher, essa vocação para as alturas está ainda por cumprir, e ele deixa-se ficar rente ao chão, algo tolhido pelo frio ocasional.

Ensinam os manuais que este polipódio-gigante se mantém sempre verde em condições de boa humidade, com folhas que podem persistir durante dois anos. É, contudo, capaz de tolerar alguma secura, optando nesse caso por largar as folhas. O nome genérico Phlebodium, proveniente do grego phlebos (= nervuras, veias), refere-se à densa venação das folhas, que forma um reticulado bem distintivo (visível na terceira foto). Já o epíteto aureum é justificado pelo castanho dourado das escamas que revestem o rizoma, e que podem ser vistas nesta foto.

24.1.14

Grisandra mas amarela



Diplotaxis catholica (L.) DC.

A família botânica das crucíferas - que inclui couves, nabos e rabanetes, só para citar alguns exemplos mais proeminentes - parece ter sido criada com o declarado propósito de contribuir para a alimentação humana. Claro que esta impressão é relativizada quando tomamos consciência de que, das cerca de 3500 espécies de crucíferas em todo o mundo, distribuídas por uns 350 géneros, só uma percentagem ínfima é cultivada como alimento. Das 150 espécies, mais coisa menos coisa, que são espontâneas em Portugal, apenas umas 10, como o saramago, o agrião, a eruca ou as diversas mostardas, é que terão algum préstimo alimentar. Sucede que certas plantas da família, tirando proveito da sua semelhança com outras que nos são úteis, se habituaram a frequentar quintais e outros campos de cultivo, não destoando mesmo nada, à época da floração, das suas irmãs prontas a ser colhidas para a sopa. É nesta categoria de impostoras que se inclui a Diplotaxis catholica, herbácea anual popularmente conhecida como grisandra que só não é um endemismo ibérico por culpa da já costumeira interferência marroquina. Talvez o misterioso epíteto catholica se refira à universalidade das suas preferências ecológicas, comum aliás às de muitas plantas ruderais: qualquer sítio onde não a queiram, ou qualquer lugar degradado ou pisoteado, lhe servem de habitação. Ainda que em Portugal ela tenha marcada predilecção pela metade sul do país.

A grisandra é uma planta de aspecto delicado, ramificada apenas na base, com hastes que não ultrapassam os 80 cm de altura e folhas pinatipartidas quase todas basais, figurino que se repete em inúmeras outras crucíferas. A Diplotaxis catholica é especialmente confundível com a Brassica barrelieri, que é vulgar no interior norte do país. O modo mais seguro de identificar a D. catholica é notar os dois cornichos em cada botão floral: pode vislumbrá-los aí em cima na quarta foto, mas para não lhe restarem dúvidas o melhor é espreitar aqui.

21.1.14

Lírio de má fama



Iris foetidissima L.

Os lírios são, em geral, plantas perenes de cores vistosas e matizes surpreendentes, alguns de haste floral com meio metro de altura, e, por isso, há muito cultivados como ornamentais. A sua presença é assídua em jardins, adornos religiosos, pinturas, florilégios. Mas este não: o tom baço, um pouco sujo e trigueiro, da mistura de violeta e amarelo com que as flores se perdem entre a folhagem dá-lhe quando muito um lugar secundário nos canteiros, apesar das brilhantes bagas cor-de-coral que as cápsulas exibem no Outono e Inverno - e que, pouco apreciadas pelos pássaros, justificam o nome inglês scarlet berry iris.

Há alguns lírios famosos desde tempos medievais, outros usados em perfumaria, outros ainda tidos como indicados para cemitérios. Mas este não: estima o recato de uma mata sombria de sobreiros, azinheiras ou carvalhos, ou uma sebe discreta, ou o coberto de um olival; e, diz-se, as folhas, se esmagadas, exalam um odor forte e desagradável, como quem avisa o beliscador para não repetir tal impertinência.

Alguns dos lírios que aqui mostrámos têm uma barbicha (ou uma reprodução imperfeita dela) no centro das tépalas descaídas, que parece uma fita de veludo de cor arrojada, com que por certo julgam encorajar mais abelhas a visitá-los e dar maior conforto aos polinizadores. Mas este não: é um lírio sem barba, exibindo apenas uma venação nas tépalas cuja configuração lembra uma grande asa de insecto ou o interior de uma vasta orelha. O nome Iris alude à deusa grega do arco-íris, aquela que carrega consigo alegremente mensagens entre o céu e a terra. Nessa comunicação colorida, atmosférica e sem fios, há pelo menos um lírio que não participa.

17.1.14

Giesta das foices



Genista falcata Brot.

Regressamos aos tojos-que-afinal-não-são com uma espécie que, graças ao fraco talento do nosso povo para as minúcias da morfologia botânica, recebe igualmente o nome vernáculo de tojo-gadanho. Trata-se de um dos raros casos em que a contrafacção é preferível ao artigo original: estas leguminosas do género Genista, se bem que armadas de espinhos afiados, não têm a agressividade dos verdadeiros tojos, e de um modo geral comportam-se de modo menos expansionista, raramente formando matagais puros. No capítulo da beleza, a troca fica ela por ela: ganham as Genistas na folhagem e no aspecto menos desgrenhado, mas perdem na floração, que é menos abundante e duradoura do que no género Ulex.

A Genista falcata, que prefere matos abertos e orlas de carvalhais e tem a distinção de ser um endemismo da metade oeste da Península Ibérica, distingue-se sem dificuldade da G. triacanthos (que é glabra) pelas suas folhas simples, elípticas ou ovadas, peludas nas margens, e pela pilosidade evidente dos seus raminhos jovens. Em ambas as espécies, as flores dispõem-se em racimos terminais, mas as da G. falcata são maiores (14 mm de diâmetro contra 7 ou 8 na G. triacanthos) e surgem agrupadas em menor número. Para quem as vir já frutificadas tudo se torna simples: as vagens da G. triacanthos são quase circulares, enquanto que as da G. falcata (ver nesta página) são alongadas, com uma curvatura terminal lembrando uma foice.

Na verdade, tudo isto foi explicado há mais de 210 anos, com grande rigor e riqueza de detalhes, por Félix de Avelar Brotero (1744-1828), que publicou em 1800, no seu Phytographia Lusitaniae Selectior, e a partir de exemplares encontrados nos arredores de Coimbra, a primeira descrição das duas espécies. Mesmo tendo fracas luzes de latim, o leitor só ganhará em consultar, no portal da Biblioteca Digital de Botânica da Universidade de Coimbra, esta obra do grande precursor das ciências botânicas em Portugal.

14.1.14

Bela-luz



Thymus mastichina L.

Os tomilhos, como o dos temperos (Thymus vulgaris), são plantas perenes de folhas muito aromáticas, o que ajuda a reconhecê-los até quando cozinhados. Não que seja hoje frequente vê-los a temperar carnes ou molhos: as ervas aromáticas, condimentos que apuram o sabor e permitem poupar sal, têm-se reduzido a mero enfeite - como no tradicional, e outrora delicioso, arroz-de-carqueja em que, agora, esta só é apresentada ao arroz quando ele está pronto a ser servido - ou a um motivo para encarecer as refeições se preparadas por cozinheiros que ainda as sabem utilizar. Há quem pague por esse regalo, mas, sendo o tomilho pouco exigente em mimos e preferindo terrenos secos e soalheiros, cada um de nós pode tê-lo à mão num vaso para colher umas folhinhas sempre que apropriadas ao repasto.

Não é, porém, o tomilho de fama culinária que hoje está na montra. Na Península Ibérica há quase quarenta espécies de Thymus, alguns endémicos, cabendo a Portugal uma honrosa quota-parte: há registo nacional de onze dessas espécies, e três desses endemismos de facto só ocorrem no sul do nosso país. Se juntarmos os híbridos, chegaremos à centena, nem todos fáceis de destrinçar. Mas o Thymus mastichina, popularmente conhecido por sal-puro, só se confunde com o T. albicans, ou tomilho-alvadio, e apenas quando algum deles não está em flor. É que, apesar de ambos terem inflorescências que parecem bolas de algodão espetadas em palitos, como algumas guloseimas infantis, as flores do primeiro têm cálices com dentes maiores, como podem notar nesta ampliação.

O T. mastichina é um endemismo peninsular do qual, segundo a Flora Ibérica, se distinguem duas subespécies: uma que tem os capítulos florais menores e de que só se conhecem populações no sudoeste da Península (T. mastichina subsp. donyanae); e outra, a típica, de distribuição ampla na Península Ibérica (T. mastichina subsp. mastichina, a das fotos), que neste momento está a hibernar, com folhas mais pequenas e densamente penugentas, que lhe dão um aspecto acinzentado; na Primavera, porém, voltará a ser erva glabra e verdinha.

11.1.14

Os três espinhos de Brotero


Genista triacanthos Brot.

As rochas de Montedor, que preenchem 1 Km da faixa costeira no concelho de Viana, são o nosso poiso favorito em todo o litoral minhoto. Há areais antes e depois, mas ali os veraneantes não encontram lugar macio onde estender as toalhas. As enormes rochas são varridas por ondas que por estes dias nem sequer respeitam os pescadores à linha. Nos interstícios mais a salvo dos salpicos das ondas desponta toda a vegetação característica das falésias costeiras, condimentada por algumas especialidades: armérias (Armeria pubigera), funcho-marítimo (Crithmum maritimum), Silene uniflora, Cochlearia danica, Romulea clusiana, Asplenium marinum e Ophioglossum lusitanicum. O feto-dos-carvalhos (Davallia canariensis) liberta-se da árvore que lhe ná nome e poleiro para descer intrepidamente até ao mar, e aqui e ali despontam as flores cor-de-rosa de um raro centáureo (Centaurium portensis). Mas a maior singularidade de Montedor é o denso mato rasteiro de tojo e urze que reveste a suave encosta entre as falésias e o pinhal. É como se alguma inexplicável deslocação da crosta terrestre tivesse arrastado um pedaço das montanhas do norte para a beira-mar. Com essa migração, os festivos amarelo e roxo da floração primaveril têm uma oportunidade única de contracenar com o azul marinho, a diversidade vegetal sai enriquecida com o encontro de dois mundos, e as daninhas acácias que dominam outros ponto da costa têm fraca oportunidade de se expandir enquanto a manta de tojo se mantiver com poucos rasgões.

O tojo (género Ulex) não é planta que se deixe gostar à primeira, muitas vezes nem à enésima, mas em Montedor ele está indiscutivelmente no local certo. Se soubermos que, embora sempre espinhentos, há muitos e diferentes tojos, já lhes começamos a achar alguma graça. E aqui, com o mar à vista, acabamos por detectar, à mistura com o tojo normal, um outro «tojo» glabro, de flores mais pequenas e mais intensamente amarelas, com espinhos menos agressivos. Averiguado o caso, concluímos que não se trata propriamente de um tojo, mas sim de uma Genista, um género botânico diversificado que inclui plantas com muitos, poucos ou nenhuns espinhos. A Genista triacanthos (a que o povo, pouco dado a subtilezas botânicas, chama tojo-gatanho ou tojo-molar, nomes que também dá a certas espécies de Ulex) é, entre elas, das mais aculeadas, destacando-se pelos espinhos trifurcados (ver 3.ª foto) que justificam o epíteto escolhido por Brotero. Dignas de nota são ainda as folhas algo carnudas, formadas por 1 a 5 folíolos curtos e estreitos (uns 6 mm de comprimento por 1 ou 2 de largura). Nos verdadeiros tojos (género Ulex) não existem folhas reconhecíveis como tal, mas apenas filódios, que são mais espinhos a juntar aos muitos que a planta já tem.

A nortada que tantas vezes estraga os planos aos veraneantes também não deixa estes arbustos no litoral erguer muito a cabeça. Em Montedor a G. triacanthos não ultrapassará o joelho de um adulto, mas noutros pontos da sua distribuição pode chegar aos 2 metros de altura. Este quase endemismo ibérico, que fora da Península só surge do outro lado do estreito de Gibraltar, no norte de Marrocos, prefere substratos ácidos e, no nosso país, onde está assinalado em todas as províncias, é assíduo frequentador de urzais-tojais a maior ou menor altitude, aparecendo também no sub-bosque de carvalhais, sobreirais e outras matas de folhosas.


Montedor, Viana do Castelo

6.1.14

Regresso a Bemposta




Euphorbia serrata L.

As eufórbias espontâneas em Portugal, e que graças ao seu látex irritante são popularmente conhecidas como leiteiras ou maleiteiras, não se destacam, na sua maioria, pelas inflorescências vistosas. Muitas delas são pequenas ervas que surgem com alguma assiduidade, e por iniciativa própria, em jardins desmazelados e em campos de cultivos. Algumas, porém, como a Euphorbia characias, a E. oxyphylla e a E. stygiana, são decididamente ornamentais, muito embora no nosso país quase ninguém as use em jardinagem. De facto, a única eufórbia ornamental que por cá se encontra à venda em hortos com alguma regularidade é a mexicana E. pulcherrima, a popular poinsétia (ou estrela-de-Natal) que o comércio hortícola teve artes de transformar num dos ícones globais das festas natalícias. O vermelho intenso das suas flores poderia ter sido associado a muitas outras coisas (a vários clubes de futebol, a uma ideologia política), mas só o Natal padronizado pela influência anglo-saxónica ofereceria tamanhas possiblidades comerciais.

Só que, e eis que se desmascara um segredo não muito bem guardado, as flores da poinsétia, como aliás sucede com a generalidade das eufórbias, são estruturas discretas e não especialmente apelativas. O vermelho vivo e natalício da estrela-de-Natal pertence às brácteas que rodeiam as inflorescências. Fenómeno idêntico se passa, aliás, com as também americanas buganvílias, que apresentam flores insignificantes protegidas por brácteas vistosas. E é instrutivo olharmos para uma eufórbia sem vocação comercial ou hortícola, como esta E. serrata, para entendermos o modo como a poinsétia se enfeita. Se, nas duas últimas fotos, o leitor imaginar as brácteas mais compridas e estreitas, vermelhas em vez de verdes, e as peças florais consideravelmente mais pequenas, terá uma ideia razoável da inflorescência da poinsétia. Nas inflorescências das eufórbias a peça fundamental é o ciátio, que é formado por uma única flor feminina composta por um ovário mais ou menos esférico e três estigmas, rodeadada por dez ou mais flores masculinas, cada uma delas reduzida a um único estame; o conjunto é rematado por um colar de 3 a 5 nectários, que na E. serrata são amarelados (ver 5.ª foto), na E. oxyphylla são vermelhos, e na E. characias castanhos. Cada inflorescência compõe-se de muitos ciátios dispostos aproximadamente em umbela, numa arquitectura de ramificações sucessivas.

A leiteira-serrada (um nome que, apesar de apropriado, certamente nunca andou nas bocas do povo) é uma planta perene, rizomatosa, multicaule, glabra e algo glauca que não ultrapassa os 60 cm de altura e se deixa facilmente identificar pelo serrilhado das folhas. Com ampla distribuição na metade oeste da bacia mediterrânica, tem apetências nitrófilas e ruderais e prefere substratos básicos. No nosso país, contudo, ela parece estar ausente dos maciços calcários do centro-oeste, e de facto só a encontrámos no Douro internacional, perto da barragem de Bemposta.

4.1.14

Acelgas




Beta maritima L.

O dicionário Houaiss regista nove entradas para a palavra beta, algumas delas com múltiplos significados. Em geral, o termo alude à noção de segundo. Em ciência, tanto designa a segunda estrela em grandeza numa constelação, como um segundo produto de uma reacção química, a segunda das três radiações por emissão de partículas das substâncias radioactivas, o número dois ou a segunda letra do alfabeto grego. Mas beta também pode ser uma lista sobre um fundo de cor diferente, seja ele de tecido, pelagem, plumagem, ou o contraste na coloração entre os lenhos de Verão e de Primavera de um tronco de madeira. E, mais localmente, beta também é o nome dado a um cabo com que se puxa a rede para terra depois da pesca de arrastão, e ainda a um tresmalho para a pesca de sargos e robalos; ou, em momentos de atrapalhação, azáfama ou grande pressa, a algum instrumento sem denominação própria.

Em botânica, Beta é o nome científico das acelgas, usado a partir da designação vernácula proveniente do celta bett, que quer dizer vermelho. Beta é o género que contém a beterraba (B. vulgaris), aquela raiz intumescida e adocicada, globosa ou fusiforme, vermelha-cor-de-vinho-tinto, branca ou amarela, com que se fazem sopas, saladas, sumos ou bolos coloridos, e que é fonte de grande percentagem do açúcar consumido no mundo. A espécie B. maritima, ou acelga-brava, comum no litoral, que se pendura em arribas ou se estira em dunas e sapais salgados, tem uma raiz grossa mas não tão carnuda. É nativa da oeste e sul da Europa, parte da Ásia, norte de África e Macaronésia.

As fotos mostram como as folhas desta espécie, que encontrámos nas areias marítimas e em praias de seixos de Viana do Castelo, são glabras, inteiras e alternadas, com a nervura central conspícua e, por vezes, tingida de vermelho ou rosa, tendo as basais um longo pecíolo. As flores, que nascem entre Abril e Outubro, são esverdeadas com um leve matiz púrpura e apresentam cinco tépalas encurvadas para dentro, desse modo formando uns capuzes onde se protegem os estames. Além disso, são hermafroditas, agrupando-se em inflorescências que parecem espigas. Se tivéssemos arrancado uma noz a algum dos pares que os frutos soldam à haste, poderíamos agora conferir que cada um contém uma semente alongada.

Por cá, ocorrem espontaneamente três espécies do género, mas a B. macrocarpa é rara e, até agora, só terá sido avistada no Algarve e Estremadura. Da B. maritima há registos em quase toda a faixa costeira, tirando Alentejo e Douro Litoral.


Areosa, Viana do Castelo

30.12.13

A cultura do milho no Baixo Vouga



Pilularia globulifera L.

Há plantas que, não tendo interesse económico para quem cultiva a terra, assumem preferências ecológicas que as fazem depender dos ciclos de sementeiras e colheitas, fazendo-se convidadas em lugares onde as práticas agrícolas reconstroem ou conservam os habitats a que elas se afeiçoaram. Algumas tornam-se infestantes indesejáveis, outras acrescentam cor e naturalidade a uma paisagem artificial, outras ainda são tão discretas que nem sequer damos pela sua presença. Os fetos da família das Marsileáceas, que engloba os géneros Marsilea e Pilularia, incluem-se nesta última categoria. Gostam de ficar submersos até ao início da Primavera; mas, para produzirem os esporocarpos que asseguram a sua propagação, exigem que o nível de água baixe, e de preferência se reduza a zero, à medida que o Verão se aproxima. Os campos onde o arroz é cultivado têm por hábito cumprir estes requisitos, e por isso a Pilularia globulifera, tanto em Portugal como noutros pontos da sua distribuição (que é exclusivamente europeia), costumava dar-se bem em arrozais. Se, porém, num país onde tanto arroz se come, o cultivo do cereal não está em risco, o mesmo não acontece com este minúsculo feto, certamente vulnerável a práticas agrícolas modernas como o uso de químicos e de maquinaria pesada.

Em Portugal há registos antigos da Pilularia globulifera no litoral português ente o Sado e o Cávado, com especial incidência no Baixo Vouga. É verdade que as suas frondes filiformes, com 5 a 10 cm de comprimento, se podem facilmente confundir com tufos de gramíneas, conquanto um observador mais atento note que as folhas mais jovens têm as pontas caracteristicamente enroladas; mas, nos locais onde ocorre, geralmente em lugares abertos sobre substratos ácidos, ela pode forrar vários metros quadrados de terreno, e não escapará ao olho atento dos especialistas. A menos que os botânicos portugueses se tenham desinteressado dela, é de recear que a quase ausência de observações da erva-das-pílulas (nome acabado de inventar, inspirado pelo inglês pillwort) nas últimas décadas signifique que ela está em vias de desaparecer do nosso país. Este «quase» que introduzimos na frase é mérito de Rui Soares: graças a ele, que encontrou a planta na orla de um campo de milho entre Cacia e Angeja, e teve a amabilidade de nos avisar, ainda não foi em 2013 que lhe foi passada a certidão de óbito.

Acontece que não é o milho a companhia ideal da erva-das-pílulas: ela sempre deixou claro que prefere o arroz, cultura que antes predominava nestes campos baixos e frequentemente inundados. A drenagem dos terrenos e a substituição das culturas significa de facto uma condenação a muito breve prazo. Talvez o reaparecimento da planta em 2013 seja apenas um último estertor, sem direito a encore nos anos vindouros. Por altura da nossa primeira visita, no início de Maio, alguns campos haviam já sido lavrados para a plantação do milho, mas aquele onde morava a Pilularia teria beneficiado de uma moratária por estar ainda muito encharcado. Quando, no fim de Junho, regressámos com intenção de fotografar os esporocarpos (as tais minúsculas pílulas, com 3 a 4 mm de diâmetro, que surgem junto ao rizoma e justificam o nome da planta), já o campo fora revolvido por tractores e o milho plantado em rigoroso alinhamento. Da Pilularia não sobrava nada.

Se estivéssemos num país onde a protecção da biodiversidade passasse do discurso à prática, esta (re)descoberta seria notícia de primeira página. Os organismos de protecção da natureza acorreriam alvoroçados, e ninguém consideraria descabido que o Estado ou alguma associação conservacionista financiassem o proprietário de um terreno de um ou dois hectares para assegurar a sobrevivência da espécie. Sendo as coisas como são, ninguém mexerá uma palha, muito menos uma espiga de milho, e o achado merecerá quando muito um parágrafo adicional no (eternamente adiado) Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

28.12.13

Candeias na serra


Serra de Arga com o estuário do Minho em fundo

Por se situar perto da costa, a serra de Arga tem um clima atlântico temperado e abriga vários nichos de flora notável. Contudo, o povoamento desta região minhota ditou a destruição de quase toda a floresta autóctone (onde por certo se incluíam carvalhos, bidoeiros, salgueiros, amieiros, freixos), mesmo a das galerias ripícolas, levando a preocupantes perdas de solo por erosão e escorrência. Mais recentemente, grande parte da paisagem uniformizou-se com resinosas, eucaliptos e acácias invasoras. Só junto a algumas aldeias - onde resistem pequenos bosques de antigos carvalhos cobertos de musgos e de cabrinhas (Davallia canariensis) - ou perto do topo da serra é que esta impressão desoladora é parcialmente redimida.

A cerca de 820 metros de altitude não há vegetação arbórea. Cruzamo-nos com pastores e gado, e gastamos tardes a explorar extensas turfeiras e charnecas húmidas que, no Verão, se enchem de Pinguicula lusitanica, Drosera rotundifolia, D. intermedia, Gentiana pneumonanthe (e uma espécie rara de borboleta que depende desta planta para sobreviver), Serratula tinctoria, Erica ciliaris e Erica tetralix. Um pouco mais abaixo há córregos e ribeirinhos em cujas margens abundam anémonas (Anemone trifolia) e narcisos (Narcissus pseudonarcissus). Acrescente-se a este cenário bucólico vastos cervunais (onde é essencial manter o pastoreio), taludes de matos húmidos com preciosidades cuja conservação é prioritária (como Lycopodiella inundata) e zonas secas, expostas ao sol, com substratos siliciosos e a (noutras paragens) rara Succisa pinnatifida.




Armeria humilis (Link) Schult. subsp. odorata (Samp.) P. Silva

A Península Ibérica foi bafejada com muitas espécies endémicas de Armeria, algumas difíceis de destrinçar, uma tarefa que se complica a cada novo híbrido natural que se descobre. Se a chave dicotómica nas Floras nem sempre se ajusta às medidas da planta que observamos, pelo menos as descrições são minuciosas e por elas aprendemos inúmeros vocábulos novos (folhas dimorfas, múticas e rigídulas; brácteas imbrincadas e cuspidadas, as externas menores ou subiguais ao dobro das internas; praganas no cálice; escapos decumbente-incurvados...). As armérias são plantas vivazes, algumas lenhosas, em geral com uma roseta basal de folhas filiformes ou lanceoladas de onde saem um ou vários talos encimados por inflorescências arredondadas, formadas por flores de pétalas soldadas na base e protegidas por dois invólucros de brácteas que parecem feitas de papel pardo.

A Armeria humilis é um endemismo do noroeste da Península com porte rasteiro e gosto por fendas de rochas graníticas, solos arenosos e pastagens de montanha acima dos 800 metros. As duas subspécies registadas (A. humilis subsp. humilis, que ocorre nas serras do Gerês e Amarela e de que só conhecemos espécimes com flores brancas; e a A. humilis subsp. odorata, com populações nas serras de Arga, Laboreiro, Amarela e Cabreira, de pétalas pálido-rosadas ou lilases) diferem no tamanho e número de nervuras das folhas, na morfologia das brácteas involucrais e das aristas dos cálices, e até nos meses de floração, florindo a segunda mais cedo. Os dicionários informam que cada planta do género Armeria é conhecida em vernáculo português como raiz-divina ou maçacuca, uma palavra feita de maçã e cuco. Os espanhóis optaram por um singelo candeia.

23.12.13

A dança das orquídeas


Platanthera pollostantha R. M. Bateman & M. Moura / Erica azorica Hochst. (ilha de Santa Maria)

Na quarta-feira, dia 11 de Dezembro, deu-se na imprensa escrita portuguesa um fenómeno nunca visto: dois jornais (o Público e o Diário de Notícias) fizeram chamadas de primeira página com uma orquídea silvestre portuguesa. A notícia era a descoberta, por uma equipa de botânicos composta por dois britânicos (Richard Bateman e Paula Rudall, dos Kew Gardens) e uma portuguesa (Mónica Moura, da Universidade dos Açores), de uma nova espécie de orquídea nos Açores, a terceira do género Platanthera endémica do território. A nova orquídea, de que se encontraram apenas 250 exemplares em flor numa única ilha do arquipélago, a de São Jorge, foi de imediato alçada pelos seus descobridores à categoria da mais rara da sua família em toda a Europa. E foi essa distinção - que, muito mais do que um dúbio galardão, deve servir de alerta aos organismos regionais e nacionais de protecção da natureza - que fez convergir a atenção dos jornais. As fotos da raridade (uma haste singela armada com flores discretas, pequenas e verdes) terão provocado a perplexidade dos muitos leitores para quem as orquídeas são aquelas coisas vistosas e multicoloridas originárias dos trópicos. Haverá quem tenha aprendido alguma coisa lendo a notícia, mas outros, instalados no conforto de uma ignorância empedernida, quiseram partilhar connosco o seu vácuo mental, comentando assim a notícia no DN:

«Muita feia. Nem flor tem. A orquidea mais bonita é a Tailandesa.»

«Pois. Avancem já umas verbas prá protecção. Temos que deslocar uma equipa de vinte pessoas, mais o equipamento, o hotel e a alimentação para 6 meses (pelo menos). E, hã... as ajudas de custo, claro. Até fica barato, tendo em conta que vamos fazer mais quatro doutoramentos. Quanto à orquídea... [expressão de baixo calão].»

«Leiloa uma mudinha, algum colecionador vai querer pela raridade, apesar de na minha opinião não ser tão bonita assim. Com o dinheiro dá para investir na preservação da espécie.»

É bom esclarecer, antes que alguém se deixe empolgar por tão luminosa ideia, que as orquídeas europeias não têm qualquer interesse para coleccionadores. Passam 11 meses em cada ano reduzidas a tubérculos subterrâneos, só se deixando ver na época de floração; e, como dependem de micorrizas para a sua subsistência, são incapazes de sobreviver num jardim ou noutro meio artificial, morrendo rapidamente quando transplantadas. Colher estas orquídeas com intenção de as cultivar em vaso é uma idiotice e uma destruição pura e simples. O único modo de conservar a «orquídea mais rara da Europa» é (como sucede com todas as suas irmãs açorianas ou continentais) cuidar do habitat onde ela escolheu morar.

Ainda não dissemos que nome tem a nova Platanthera açoriana, e de facto até temos medo de pronunciá-lo. O feliz anúncio da descoberta de uma nova orquídea endémica, e para mais uma que se distingue claramente (sobretudo no tamanho e morfologia das flores) das suas duas conterrâneas, vem embrulhado numa revolução taxonómica capaz de provocar uma balbúrdia épica. Assim, a nova espécie fica a chamar-se Platanthera azorica; a espécie que antes tinha esse nome chama-se agora Platanthera micrantha; e aquela que se chamava Platanthera micrantha foi agora rebaptizada como Platanthera pollostantha (ilustrada nas fotos; o epíteto significa «a menor das flores»). Resumindo: há uma nova espécie e um novo nome, mas este não foi atribuído àquela; e nenhuma das espécies anteriormente conhecidas manteve o nome que tinha.

Ninguém propõe tal dança de nomes por gosto ou simples recreação. Richard Bateman et al. tiveram o maior cuidado em explicar, no artigo em que relatam a descoberta (Systematic revision of Platanthera in the Azorean archipelago: not one but three species, including arguably Europe’s rarest orchid, publicado on-line em 10 de Dezembro de 2013), que a responsabilidade do imbróglio cabe ao há muito falecido Moritz August Seubert (1818-1878), autor da primeira Flora Azorica (1844). Seubert, que nunca pôs os pés nos Açores, baseou as suas descrições no material de herbário recolhido pelos Hochstetter pai e filho, que percorreram o arquipélago em 1838. Essas descrições são, de um modo geral, pouco minuciosas ou mesmo vagas. Seubert descreveu e ilustrou duas Platantheras (embora tenha usado o nome genérico Habenaria), a P. micrantha e a P. azorica, que posteriores estudiosos da flora insular sempre acreditaram ser as duas espécies que, até ao passado dia 9 de Dezembro, ostentavam esses nomes, e que ocorrem na maioria das ilhas açorianas. Em Junho de 2011, em visita a São Jorge, Mónica Moura descobriu uma população de Platantheras bem diferentes daquelas que já conhecia. Richard Bateman, botânico especializado em orquídeas, confirmou tratar-se de uma nova espécie. A história só não ficou por aí porque os cientistas insistiram em ver os espécimes (ou holótipos) em que Seubert baseou as suas descrições. Ao receberem o material de herbário (enviado da Universidade de Tubinga, na Alemanha), Bateman et al. constataram serem três e não duas as espécies de Platanthera de que Karl Hochstetter (o filho) havia recolhido amostras; que a espécie encontrada por Mónica Moura em São Jorge (e que Hochstetter, não tendo visitado São Jorge, terá colhido em alguma outra ilha) tinha servido de base à descrição da P. azorica por Seubert, mas há 173 anos que não era vista; que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. azorica tinha afinal servido de base à descrição da P. micrantha; e que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. micrantha (de longe a mais comum no arquipélago) não tinha servido de base a qualquer descrição publicada por Seubert, e por isso, face ao código internacional de nomenclatura botânica (ICBN), não dispunha de nome válido.

Queixam-se os autores de que foram os ditames desse mesmo inflexível ICBN que os obrigaram, com «grande relutância», a uma revisão taxonómica que por certo se revelará fértil em trapalhadas e equívocos. E é de fraca ajuda que, em 2011, seguindo o exemplo de vários autores que nunca viram as plantas na natureza, a IUCN, ao actualizar a sua lista de espécies em perigo, tenha decidido que as duas Platantheras até então conhecidas no território formavam afinal uma única espécie, a que chamou P. micrantha, correspondente à actual P. pollostantha. Por ironia, das três espécies que agora sabemos existirem nos Açores, a P. pollostantha é a única cuja sobrevivência não suscita preocupações.