1.7.14

A vida dos salgueiros em flor



Salix salviifolia Brot. subsp. salviifolia

Os salgueiros, a quem cabe a missão de sublinhar a verde o curso azul dos rios, têm pressa de deitar folha nova para mais cabalmente cumprirem a sua tarefa. Por uma questão de eficiência e de optimização de recursos (onde é que já ouvimos tais palavras?), aproveitam a mesma ocasião para florir. Como a Primavera é ainda notícia longínqua, há pouca gente a notar-lhes as flores, que indivualmente não são muito vistosas mas dão à árvore o aspecto de ter sido salpicada com pó amarelo. Quando chega a época de dispersar as sementes, elas vêm envoltas numa penugem branca para mais facilmente serem transportadas pelo vento. Os choupos, que são aparentados com os salgueiros, cumprem igual calendário. Muita gente, ao ver esse "algodão" esvoaçante, ou essa falsa neve que nunca se desfaz em água, julga tratar-se de pólen; e, incomodada, atribui a choupos e salgueiros a culpa de tosses e alergias causadas pelo verdadeiro mas invisível pólen que outras plantas libertam na mesma altura.

Tanto salgueiros como choupos são dióicos: é esse o termo botânico para descrever o facto de haver indivíduos dos dois sexos, fenómeno que é a regra entre os animais mas anda longe de o ser entre as plantas. Nas imagens em cima podem ver-se as inflorescências masculinas (fotos 1 e 5) e femininas (fotos 3 e 4), umas e outras com as flores reduzidas ao essencial: as masculinas só têm estames, as femininas só carpelos. São as plantas com flores femininas, e só elas, que produzem o tal algodão de (injustificada) má fama.

A espécie de salgueiro que hoje nos ocupa, de seu nome Salix salviifolia, é endémica da metade oeste da Península Ibérica. Embora menos abundante do que a borrazeira-preta (Salix atrocinerea), a borrazeira-branca - como é conhecida entre nós - encontra-se distribuída de norte a sul do país. Com o seu pequeno porte, que raramente atinge seis metros, é mais propriamente um arbusto de que uma árvore. Apresenta folhas acinzentadas, penugentas e rugosas, de não mais que 10 cm de comprimento, e amentilhos que não excedem os 7 cm. Prefere instalar-se junto a rios ou ribeiros com grande variação sazonal do volume da água, ou até junto a cursos de água temporários. Se comparada com a borrazeira-preta, a sua menor versatilidade ecológica significa que a borrazeira-branca, apesar de não ser propriamente rara, tem vindo a perder grande parte do habitat com a construção de barragens. A imagem abaixo, que mostra uma galeria de borrazeiras-brancas no ponto onde o rio Tinhela se junta ao rio Tua, dá um exemplo das perdas irremediáveis que serão causadas pela construção da barragem de Foz Tua. Parece, contudo, que nada disso é importante, pois mesmo com uma paisagem destruída o Douro continuará a ser "património mundial".


confluência do rio Tinhela com o rio Tua

28.6.14

Colheres de sésamo




Sesamoides spathulifolia (Revelière ex Boreau) Rothm.

Porque era ainda Abril quando a vimos no topo das falésias de Cascais, as fotos não mostram as sementes desta planta. São redondas e comprimidas lateralmente como as do gergelim (Sesamum indicum L.), e sugeriram a Lineu o nome científico do género. As folhas caulinares coriáceas e em forma de colher (espatuladas) são a marca distintiva da espécie das fotos, que na Península Ibérica só ocorre, ao que se sabe, na costa portuguesa a sul do cabo da Roca (mas também existe na Córsega e na Sardenha). É perene e tem hábito prostrado, talvez para se resguardar da parcela generosa de vento que mora na praia do Abano.

Há mais duas espécies de Sesamoides em Portugal continental (Sesamoides purpurascens (L.) G. López, frequente em quase todo o país; e Sesamoides suffruticosa (Lange) Kuntze, mais rara), de ecologia um pouco diferente. As três assemelham-se nas inflorescências e têm em comum flores que exigem um laborioso exercício de identificação. Antes de o resolver connosco, aproveite, caro leitor, o excepcional detalhe fotográfico com que a Flora-on documenta esta herbácea.

A inflorescência é uma espiga com as flores posicionadas como se fossem discos patentes. Mas, e esse é o primeiro detalhe surpreendente, as flores não são simétricas. Têm um cálice de brácteas, cada uma delas de formato aproximadamente triangular, que protege um anel de pétalas brancas tão divididas que, sendo apenas cinco, parecem muitas mais: as duas superiores (que apontam para o topo da espiga) são laciniadas; as duas laterais também apresentam fendas, mas são menores; e finalmente há uma pétala inferior, quase solitária, que é inteira. Atentemos agora no anel alaranjado de 10 a 14 estruturas arredondadas, como duplos feijões: parece até que a flor já frutificou. De facto, são os estames, a componente masculina da flor, guardiã do pólen. As 5 a 7 bolinhas laranja-esverdeadas no centro do arranjo são os carpelos, que compõem a parte feminina da flor.

O fruto condiz em estranheza com a flor.

24.6.14

Destino trocado

Ranunculus paludosus Poir.

Desconfiamos do bom senso dos taxonomistas quando um ranúnculo como este, com vincada predilecção por lugares secos sobre solos pobres, arenosos ou pedregosos, recebe o epíteto de paludosus, indicador de preferências ecológicas exactamente opostas àquelas que a planta manifesta. Em nosso socorro, vem a Flora Ibérica esclarecer que o botânico francês Jean Poiret (1755-1834), autor da combinação, não quis usar de ironia ao escolher o nome Ranunculus paludosus: as plantas por ele descritas viviam mesmo em prados húmidos, e distinguem-se de outras que hoje recebem o mesmo nome por terem hastes mais ramificadas e mais robustas. É provável, segundo a mesma fonte, que esse amalgamento tenha que ser revisto, e que o "Ranunculus paludosus" de habitats secos venha a integrar uma espécie autónoma.

As plantas que vimos na Quinta das Carvalhas, no Douro, ocupando a berma de um caminho soalheiro e pouco frequentado, não ultrapassariam os 10 cm de altura. Tratando-se de um género em que a distinção entre espécies é por vezes problemática, convém notar, para uma identicação segura, o formato heterogéneo das folhas basais, que são todas longamente pecioladas mas variam de cordiformes a profundamente divididas (foto 4); e também (ver foto 3) a densa indumentação na haste e o cálice formado por sépalas patentes (ou seja, encostadas às pétalas e não reviradas para baixo, como sucede por exemplo no R. trilobus e no R. bulbosus).

Distribuído por toda a região mediterrânica, este Ranunculus paludosus de terrenos áridos só não faz o pleno das províncias portuguesas porque o Minho, culpado de excesso de pluviosidade, fica de fora. Como sucede com a maioria dos seus congéneres (contam-se mais de trinta só em Portugal), tem uma floração temporã, com início em Fevereiro, e esconde-se logo que o calor ameaça apertar. O Verão não é tempo de ranúnculos e são outras as flores a hastear a bandeira amarela.

21.6.14

Assobio taludo



Silene coutinhoi Rothm. & P. Silva

Entre alguns académicos há ainda o hábito saudável, e económico, de pensar com quadro e giz. Se depois precisam de levar esses rabiscos para casa, há os que, para não terem de os refazer, simplesmente fotografam o quadro como quem tira fotocópia de um rascunho. Nesse sentido, a máquina fotográfica acrescentou, ao seu papel de repositório de histórias das férias, a tarefa de apoiar a memória no trabalho. Contudo, a fotografia continua a ter a missão mais exigente de planificar fielmente objectos tridimensionais. E, para quem não gosta de viajar ou não pode fazê-lo, é útil que os fotógrafos, sejam eles vaidosos ou prestáveis, publiquem as suas obras.

A foto não tem o valor do original mas, se a técnica for apurada, é um excelente sucedâneo. Além disso, a versão digital do mundo facilmente se arquiva, já sem o antigo problema do gasto de rolos, e permite frequentemente esclarecer detalhes que nos escaparam ao vivo. Sem o registo de som ou de cheiros, a fotografia não dispensa, porém, que se cheirem as flores ou se ouça o piar da passarada. E, sobretudo, exige um referencial para que quem só conhece a imagem possa ter uma ideia aproximada do tamanho do que foi fotografado. Vejamos o exemplo desta Silene. Ao leitor parece-lhe uma planta baixa ou alta? A maioria das silenes que conhecemos são herbáceas pequenas, de flores que só são vistosas pela cor das pétalas ou porque a inflorescência é densa. Esta tem pétalas que mal se distinguem pelo tom amarelo pálido, a inflorescência é lassa e a planta tem um ar esquelético. Mas tem base lenhosa, é perene e é gigante, quando a comparamos com outras espécies do mesmo género - e este é um detalhe que não se adivinha pelas fotos.

Foi precisamente por ter quase um metro de altura que reparámos nestes exemplares à beira de uma estrada entre Mogadouro e Alfândega-da-Fé. Lembrou-nos a S. mellifera e a S. nutans, mas a ecologia que as Floras lhe atribuem (sítios secos e matos frescos com solo ácido) diferencia-a bem da primeira (que prefere substratos calcários), e a posição das flores, erguidas como trombetas, afastam-na da segunda, cujas corolas tubulares apontam para o chão (como indica o epíteto nutans).

Trata-se de um endemismo da Península Ibérica de que, por cá, só parece haver registos recentes no nordeste, embora a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, assegure que também ocorre no centro e na serra de Monchique. O nome específico, atribuído em 1943 pelos botânicos Werner Hugo Paul Rothmaler e António Rodrigo Pinto da Silva, homenageia o botânico António Xavier Pereira Coutinho.

16.6.14

Pérolas na areia



Sagina nodosa (L.) Fenzl

Eis uma planta que, distribuindo-se pelos três continentes do hemisfério norte (incluindo a Gronelândia), tem toda a vantagem em ser conhecida pela designação inglesa knotted pearlwort. Não respeitando ela fronteiras políticas ou divisões geográficas, é o inglês, como língua franca da globalização, que melhor se ajusta ao seu estilo de vida. Se insistíssemos em ser patriotas, haveria o inconveniente de nem a Sagina nodosa nem nenhuma das outras espécies do género (há sete em Portugal) terem algum nome comum na nossa língua, como aliás também não têm em castelhano ou em qualquer outra língua ibérica. De um modo geral, essas lacunas do nosso idioma dever-se-ão à reconhecida falta de apreço que sempre tivemos pelas coisas espontâneas da natureza. Os povos urbanizados do norte da Europa puderam, muito antes de nós, desenvolver uma apreciação estética do mundo natural só ao alcance de quem não cultiva batatas para sobreviver.

Neste caso, porém, a ausência de nome comum em português pode desculpar-se com a raridade da planta em território nacional. Confinada às depressões húmidas em areias litorais a norte do Mondego, ela nunca foi abundante, e hoje em dia, com a rarefacção de tais habitats, sê-lo-á ainda menos. Só a conhecemos de Mira, onde é habitual encontrá-la junto às muitas lagoas e charcos que pontuam os pinhais. Apesar de a Flora Ibérica e outras obras de referência indicarem um período de floração tardio, de Junho a Setembro, em Mira ela adopta a atitude pragmática de florir a partir do início de Maio, logo que os charcos começam a secar e antes que a estiagem se torne demasiado severa. A planta é pequena e débil, com não mais que 10 cm de altura e hastes muito finas e ramificadas, mas as flores, com cerca de 1 cm de diâmetro, são suficientemente vistosas para se destacarem contra o amarelo pálido da areia.

O nome pearlwort, ou erva-das-pérolas, aplica-se a todas as espécies do género Sagina, e talvez se explique pela forma quase esférica dos botões florais. Já o epíteto nodosa, que deu knotted em inglês, refere-se aos verticilos de folhas curtas (não observáveis nos exemplares acima fotografados) que formam nós muito conspícuos ao longo dos caules. A erva-nodosa-das-pérolas destaca-se ainda entre as suas congéneres porque as flores têm pétalas bem visíveis, em geral duas a três vezes maiores do que as sépalas. A regra no género Sagina, como se pode confirmar nesta página, é que as pétalas sejam insignificantes ou mesmo inexistentes.

7.6.14

Espelho nosso


Legousia scabra (Lowe) Gamisans

Estima-se que em Portugal, continente e ilhas, ocorram cerca de 4 mil espécies de plantas, algumas exóticas. Embora este número seja actualizado de vez em quando, para incluir as novidades e, sobretudo, para se adaptar às frequentes revisões taxonómicas, certo é que estamos ainda longe de as ter visto todas. Mas há que reconhecer que a apresentação de plantas que aqui fazemos tem os dias contados e, como aconselharia o nosso estimado Carlos Silva, teremos de passar às borboletas.

Façamos, porém, uma pausa. Se bastasse aos botânicos catalogar as plantas que vêem, sem ter em conta a multiplicidade de lugares onde podem ser encontradas e, consequentemente, desvalorizando as associações entre elas e a necessidade de programar a sua conservação de um modo compatível com o nosso uso do território, a botânica seria uma ciência com fim à vista. Terminada a listagem, bastaria manter um serviço eficiente de secretariado para pôr em dia as perdas e ganhos da biodiversidade, mais aquelas que estes. Ora o que lemos nas Floras mostra que o trabalho dos botânicos (e, mais geralmente, dos biólogos) não é tarefa miúda ou sequer à beira da conclusão. Além de ser essencial conhecer as plantas em detalhe, um saber que nos dias de hoje exige informação genética e domínio de aspectos teóricos sofisticados, é preciso ter um plano geral das suas escolhas de habitat, que ignoram as linhas de fronteira que traçamos nos mapas, e responder pela coexistência de animais e plantas, num programa global de sobrevivência. Francamente, cuidar de um mundo tão estragado, constantemente sujeito a perturbações, é tarefa de valentes. Estranha-se que quem tem poder de decidir sobre o nosso ambiente não estime a valia destes cientistas e não se guie por eles.

Para os amadores, que se passeiam pelo campo quando lhes apetece, e que amuam se não encontram as raridades que querem observar, um trabalho bem sucedido de conservação das plantas é um passaporte para inúmeros passeios e lições, de botânica e, às vezes, grego ou latim. A planta das fotos, uma herbácea esguia mas de média estatura que vimos nos calcários de Santo Adrião, em Vimioso, dá disso testemunho (pode ver aqui um mapa das populações de que há registo em Portugal). O nome do género homenageia Bénigne Legouz de Gerland (1695-1774), político francês e entusiasta pelas ciências e pelas artes, que deu a Dijon um centro de História Natural, um jardim botânico e uma escola de Belas-Artes; o epíteto latino scabra refere-se à aspereza do caule da planta. Em inglês, a espécie Legousia hybrida é conhecida como espelho-de-Vénus.

Quando o sol aquece, as flores da Legousia abrem completamente, formando um prato, e exibem um azul quase púrpura; caso contrário, reduzem-se a uma campânula meio fechada de cor azul pálida. Dias seguidos de chuva e nevoeiro em Maio podem levar as flores a não desabotoar de todo, restando-lhes a auto-polinização. Por isso, são bem-vindos os dias soalheiros que, diz a ciência das nuvens, se avizinham.


Minas de Santo Adrião, Vimioso

3.6.14

Palha azul



Galium glaucum L. subsp. australe Franco

No tempo em que os rios não tinham o seu percurso seccionado por muralhas de betão, usava-se a expressão «leito de cheia» para designar aquelas zonas que só ficavam submersas quando o caudal engrossava. Essas oscilações de nível acompanhavam o correr das estações, fazendo com que a mesma paisagem assumisse ao longo dos meses roupagens muito variadas. Agora, junto às grandes barragens, há uma única mudança, brutal e estática, no nível das águas: a montante, estende-se um imenso lago eutrofizado; a jusante, escoa-se um fio de água que mantém a custo um rio moribundo. E é assim de Janeiro a Dezembro.

A vegetação de leito de cheio, que tão ameaçada está em Portugal com a artificialização dos rios, é muito especializada, e em geral nem gosta de molhar os pés, preferindo em cada ano esperar que as águas desçam para cumprir o seu ciclo vital. É justo questionar tão dúbia preferência: para quê estar tão perto de um rio se, para a sobrevivência da planta, é necessário que ele recue? A resposta é de índole quase filosófica: por muito precário e improvável que seja um nicho ecológico, a natureza não o pode desperdiçar, e há sempre uma planta adaptada a viver nele.

A jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, a redução do caudal do Douro é quase permanente, apenas contrariada nas épocas de muita chuva, quando o rio, alimentado por descargas sucessivas, revive glórias antigas e ameaça inundar a baixa da cidade. Mas esses episódios são esporádicos e de curta duração. A vegetação ribeirinha mudou definitivamente, dominada agora por um salgueiral exuberante que ocupa até as ilhotas surgidas com o emagrecimento do rio. Debruçamo-nos no paredão e, como botânicos amadores incorrigíveis, invade-nos a vontade de observar de perto essas manchas verdes. Como podemos descer até elas? Alugamos um barco na Régua? Saltamos um portão com avisos de perigo e de proibição de passagem a pessoas estranhas ao serviço? Dois pescadores à linha que não parecem estar ao serviço da EDP respondem-nos quando de longe os interrogamos aos gritos. Sim, há uma passagem debaixo da estrada por um ribeiro entubado que agora está seco. O acesso, escondido entre silvas, mal se vê, e o túnel, baixo e com 20 a 30 metros de comprimento, é de uma escuridão absoluta. No final, para rematar, há um lanço de escadas estreito e íngreme. Completamos a travessia não sem alguma palpitação e suores frios, à mistura com os suores quentes próprios do dia escaldante. Estamos nas rochas na margem esquerda do Douro, a uma centena de metros da barragem. Das surpresas botânicas que nos aguardam merecem realce a rara Petrohagia saxifraga e este azul Galium glaucum, não assim tão raro mas aqui talvez no limite oeste da sua distribuição em Portugal e, a uma altitude de 60 m, bem fora do intervalo de 345-730 m prescrito pela Flora Ibérica.

O género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw por algumas espécies terem servido para enchimento de colchões, é dos mais diversificados da flora portuguesa. As 21 espécies listadas para o nosso país incluem plantas anuais, outras perenes, umas rastejantes e minúsculas, outras erectas que podem ultrapassar 1 metro de altura. Caracterizam-se pelas folhas verticiladas, em grupos de quatro ou mais, e pelas pequenas flores brancas (às vezes amarelas), de quatro pétalas, dispostas em cachos terminais ou axilares. Com os seus quase 80 cm de altura,o G. glaucum está no grupo dos mais taludos do género, e pela floração profusa, visível de Maio a Julho, é certamente dos mais atraentes. É uma planta perene que frequenta lugares pedregosos e ácidos, não necessariamente perto de algum rio. A subespécie australe, que já foi espécie autónoma sob o nome de Galium teres, é endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica.

31.5.14

O que os burros comem



Onobrychis humilis (L.) G. López

É consensual a apreciação pelas muitas formas, perfumes e cores das flores. Mas nem todas as flores são igualmente vistosas - vejam-se as das gramíneas, dos carvalhos ou dos pinheiros - e há mesmo algumas sem pétalas. Em geral, as flores mais sofisticadas e pigmentadas são de espécies que competem arduamente por polinizadores para assegurarem uma fertilização cruzada, oferecendo-lhes néctar e atraindo-os com aromas tentadores e matizes subtis nas pétalas. À luz dos argumentos evolucionistas, isto significa que estes atractivos deram a estas plantas benefícios e vantagens na disseminação e, por isso, esses traços se tornaram permanentes na espécie. Essa competição entre flores, é, crê-se, um dos motivos para a espantosa variedade morfológica que elas hoje exibem.

Contudo, ainda há plantas sem flores (como os fetos), e outras em que as flores se reduzem a um ovário onde se forma a semente, em geral nu ou com pouca protecção, e/ou a um estame com pólen para o fertilizar (como na Ginkgo biloba). Na verdade, isto é o essencial de uma flor e, antes de os insectos surgirem na Terra, não era preciso mais. Mas, por regra, não convém à planta ser fecundada pelo pólen dos seus próprios estames, pois um tal procedimento não favorece a diversidade, tão útil num mundo em mudança. Com a chegada dos insectos, não era só o vento que transportava pólen de umas flores para outras: as plantas que, por algum detalhe, garantiam mais visitas de polinizadores, não só obtinham sementes mais vigorosas e descendência mais numerosa, como conseguiam que esse detalhe passasse às gerações seguintes, perpetuando o sucesso.

Mas de que cor eram as primeiras pétalas? Se as flores mais primitivas não tinham pétalas (componente da flor com a tarefa de atrair, pela cor, brilho e desenho, o polinizador), como surgiram? Os cientistas acreditam que as estruturas reprodutivas da flor (ovário e estame) nasceram como folhas com função reprodutiva. Verdes ou amareladas, portanto, a julgar pela cor que vemos hoje na maioria das folhas, dos estames e do pólen. E admitem como plausível que as pétalas tenham evoluído a partir de estames modificados, que se destacaram da coluna central da flor e que, enquanto perdiam a função reprodutiva, se alargavam e achatavam para tornarem a flor maior e, por isso, mais facilmente detectável. Assim sendo, parece razoável supor que as primeiras pétalas fossem esverdeadas ou amarelas, o que talvez justifique que uma grande parte das flores mais simples (com simetria radial e pétalas dispostas em prato ou taça, adaptadas a qualquer polinizador) sejam desta cor. Aos poucos, por pressão adaptativa aos polinizadores ou ao ambiente, a flor foi-se vestindo para maior protecção (com brácteas, sépalas ou capuzes a guardar a estrutura reprodutiva dos predadores), foi ganhando formas ajustadas a certos insectos (como os esporões compridos que só as "trombas" alongadas de certas borboletas conseguem sugar) e foi adoptando outras cores (rosa, vermelho, púrpura, roxo, violeta, azul, ou o branco nacarado para as flores polinizadas pelas borboletas nocturnas). Pormenores que actuam como sinais para os polinizadores, avisando-os de que aquelas flores têm mais néctar ou é mais fácil recolhê-lo.

E vieram as margaridas, em que as flores exteriores dos capítulos são estéreis e funcionam como chamarizes para benefício de toda a inflorescência - o que relembra os estames estéreis que se transformaram em pétalas com a única tarefa de tornarem a flor mais atraente. Apareceram depois flores com várias cores ou com um padrão variegado como o que se vê nas fotos, em que as pintas ou riscas (por vezes em relevo) guiam o polinizador até ao néctar. Este, colocado em posição estratégica, obriga o insecto guloso a polvilhar-se de pólen ou a deixar no estigma o pólen que traz de outra flor. E, claro, mais recentemente surgiram as formas sedutoras das orquídeas, cujas versões monocromáticas, tão apreciadas, são, em certo sentido, um retrocesso.

Consta que o Onobrychis deve o seu nome a uma associação com os jericos, mas não pudemos confirmar essa informação. O hábito prostrado é, por certo, o único modo de se defender da ventania atlântica que sopra pelas falésias de Cascais onde a avistámos.

27.5.14

Pascoinhas de bolso



Coronilla repanda (Poir.) Guss. subsp. dura (Cav.) Cout.

Os verdadeiros sem-terra são os que vivem nas cidades empilhados em apartamentos. A pulsão inata de cultivar uma flor ou fazer germinar uma semente só a podem realizar em jardins fragmentários, reduzidos aos vasos na varanda ou às floreiras na janela. Cabem ainda, espalhadas pelas divisões da casa, aquelas produções postiças dos viveiros holandeses que não sobrevivem ao ar livre e pouco ou nada lembram as plantas silvestres suas antepassadas. Tudo somado, a terra de que os espoliados urbanitas dispõem para cultivar as suas pobres e adulteradas amostras de natureza não ultrapassará, mesmo nos melhores casos, as duas dezenas de litros. A miniaturização praticada pelos adeptos do bonsai é a reacção possível de quem, impedido pelas circunstâncias de ter um jardim cheio de árvores, resolve encolhê-las para que elas caibam no seu apartamento.

Às vezes a própria natureza, lançando várias versões do mesmo produto em diferentes tamanhos, tenta dar uma ajuda àqueles jardineiros sem espaço para exercerem a sua vocação. Talvez assim se explique a existência destas pascoinhas em versão de bolso, embora a receita não tenha sido das mais bem sucedidas. As verdadeiras pascoinhas (Coronilla glauca) são arbustos de mais de um metro de altura, de floração intensa e perfumada, e que em Portugal aparecem sobretudo na faixa litoral entre Coimbra e Setúbal. Os afortunados com espaço para cultivá-las podem mesmo encomendar sementes; os outros, a quem só sobra um pequeno vaso num canto da varanda, poderão tentar a versão herbácea, ilustrada nas fotos. A planta cabe no apartamento mais acanhado: é esguia, não ultrapassa os 40 cm, em geral fica-se por bem menos. Não exige grandes mimos, e não morre se nos esquecermos de a regar. Um ponto fraco é as flores serem minúsculas, escassas e pouco vistosas. Pior ainda é tratar-se de uma planta anual: a sementeira terá que ser renovada todos os anos se ela própria, como aliás é de esperar em condições artificiais, não produzir sementes viáveis. Damos o braço a torcer e desistimos da ideia. Há coisas da natureza que, por muito pequenas que sejam, não nos cabem em casa.

A Coronilla repanda - que, à semelhança das suas congéneres, é uma planta glabra e azulada, com folhas compostas imparipinuladas - aparece em pastagens e em terrenos arenosos, e no nosso país está distribuída pelo interior norte e por toda a metade sul do território continental. A subespécie dura, que é a mais comum em Portugal, e que tem folíolos menores e mais arredondados do que os da subespécie repanda, só existe na Península Ibérica e em Marrocos.


Quinta das Carvalhas

Foi na Quinta das Carvalhas que vimos e fotografámos estas pascoinhas em miniatura. A quinta é uma das maiores da região demarcada do Douro, na margem sul do rio junto ao Pinhão, com grandes manchas de mato mediterrânico entremeando vinhas e olivais,  Com a desvairada guerra química que no Douro as brigadas herbicidas fazem à vegetação natural, a Quinta das Carvalhas é um lugar raro, funcionando como repositório da ameaçada riqueza botânica duriense. Por amável autorização do responsável da Quinta, percorremo-la demoradamente num dia soalheiro de Abril com o propósito de fazer um inventário das espécies vegetais espontâneas que nela ocorrem. Ficaram, contudo, largas parcelas por visitar; e, além de não conhecermos todas as plantas, muitas delas só iriam surgir mais tarde. A lista que compilámos (disponível aqui em pdf) está pois muita incompleta: o número de 134 espécies a que chegámos poderia sem grande dificuldade ser duplicado ou mesmo triplicado.

23.5.14

Grinaldas minhotas

Spiraea hypericifolia L. subsp. obovata (Waldst. & Kit. ex Willd.) H. Huber

Antes de visitarmos as margens do rio Minho em Melgaço, consultamos o horário das marés. É que, apesar de estar a uns 50 km da foz, estas variações do nível da água também lá se sentem. Nota-se que, depois de o volume de água começar a subir, o nível máximo é rapidamente atingido, mas é longo o intervalo que leva a baixar (impressões sobre a velocidade que ilustram um resultado matemático famoso). Sem este cuidado, resta-nos a arrelia de, uma vez iniciado o caminho, a água de repente nos dar pelos joelhos, ou, se tivermos já chegado à meta, termos de esperar, entre resmungos, que o chão enxugue para podermos regressar.

Programada a jornada para que ela se faça na maré baixa, seguimos pelo leito do rio a descoberto como quem marcha em terra seca. O destino é um rochedo cinzento e silencioso, rodeado de calhau rolado, que é uma ilha na maré cheia mas agora é acessível a pé enxuto. Neste recanto, sem relvados verdejantes nem arvoredo frondoso que dê colorido, pende-nos a atenção para as pequenas coisas. E foi entre inúmeros pés de Allium schmitzii, a rescender a alho como se estivéssemos numa cozinha em pleno vapor, e abundantes rebentos de Vincetoxicum nigrum já com botões de flores de cor castanho-púrpura, que atingimos o bordo da rocha e vimos, pendurado de uma das fendas, o pequeno arbusto das fotos. E, estando nós por certo em maré de sorte, também por ali floriam alguns exemplares de Allium scorzonerifolium.

A planta, com uns 80 cm de altura, lembrou-nos, até pelo perfume, as suas congéneres de jardim (Spiraea cantoniensis ou Spiraea japonica), frequentemente usadas em sebes. A ecologia da Spiraea minhota revela idêntica vocação: ela aprecia estar à margem, seja de rios ou de bosques, desde que haja bastantes rochas a que se agarrar. A outra população desta planta que agora conhecemos está também no norte, junto a um riacho farto que corre num bosque muito bem preservado e com sombra generosa. Este é um habitat escasso ou em declínio por cá, e talvez por isso os registos desta planta em Portugal sejam tão raros.

Nas imagens pode notar alguns detalhes da planta. Por exemplo, que os caules floríferos são arqueados, de modo que as cimeiras de flores parecem flutuar, enquanto os estéreis são erectos. E que as folhas, de textura coriácea, exibem por vezes uns graciosos dentinhos no ápice. As flores são pequeninas - as pétalas medem cerca de 3 mm de diâmetro, tanto quanto os estames; na última foto, a maioria dos estames ainda não se desenrolou e forma uma coroa engraçada no centro das flores.

20.5.14

Teoria dos três nervos


Moehringia trinervia (L.) Clairv.

As margens do rio Minho em Melgaço são a secção de perdidos e achados da flora portuguesa. Há uma ervita listada nas floras de Portugal que há anos ninguém vê e que se receia ter desaparecido do nosso país? Então vamos a Melgaço, expomos o nosso problema às águas do rio ou à folhagem rumorejante dos carvalhos, damos uma volta para espairecer, et voilá que sem aviso prévio a desejada se materializa à nossa frente. Aconteceu isso com a Nymphoides peltata, com o Thelypteris palustris, com a Inula salicina, com a erva-dos-três-nervos (nome inventado para a planta de hoje), e com várias outras que ainda havemos de contar. E a milagrosa eficiência do serviço público assim prestado à flora portuguesa não se deve por certo à presença sufocante da mal chamada e daninha erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis), que na verdade é uma máquina de guerra preparada para liquidar toda a concorrência.

A Moehringia trinervia, cujo epíteto específico se refere às três nervuras longitudinais bem visíveis em cada folha, e que se distribui pela Europa, Ásia e norte de África, é uma planta anual, por vezes perene, com hastes ramificadas, erectas ou ascendentes, capazes de atingir os 40 cm de altura. As flores, que aparecem entre Abril e Julho, são pequenas, de 5 a 6 mm de diâmetro, e assemelham-se, pelas suas pétalas inteiras, às de outras cariofiláceas, em especial às do género Arenaria (nos géneros Cerastium e Stellaria, representados na nossa flora por numerosas espécies, as pétalas são fendidas na ponta).

Em Portugal a erva-dos-três-nervos parece restringir-se à metade norte do território continental. Além do Minho e Trás-os-Montes, há registos antigos da sua presença na Beira (Litoral, Alta e Baixa). Frequenta bosques sombrios e, de preferência, bem conservados, o que não é por certo o caso daquele em Melgaço onde a encontrámos. Talvez esteja ali apenas de passagem para a Galiza, antes de abandonar de vez o nosso país.

17.5.14

As coisas como elas são



Omphalodes kuzinskyanae Willk.

Ao olharmos o mar imenso, da falésia na zona costeira de Sintra, temos uma serra generosa pelas costas mas tememos pela pouca terra. Porém, nessa tarde, durante o passeio pela praia do Abano, a nossa atenção estava guardada para os recantos à sombra dos zimbros, atapetados de areia alaranjada entremeada por cascalho, à procura de flores como as do miosótis, mas brancas. É neste habitat delicado e em dunas pristinas à beira-mar, numa estreita faixa que se estende de Cascais até à Praia Grande, que vivem as únicas populações conhecidas deste endemismo português, que se julga ter existido em todo o litoral da Estremadura à Galiza.

Foi descrito a 18 Maio de 1889 por H. M. Willkomm que, pelo que lemos no Österreichische Botanische Zeitschrift desse ano, lhe atribuiu o epíteto kuzinskyanae em homenagem à esposa do botânico P. A. von Kuzinsky (o que nomeou a nossa Saxifraga cintrana). A Willkomm não passaram despercebidas as semelhanças entre esta planta, que é glauca, anual e floresce entre Abril e Maio, com a Omphalodes littoralis, endémica do litoral atlântico francês, e com a Omphalodes littoralis subsp. gallaecica, endemismo galego da província da Coruña; todavia, reparou também que a planta de Sintra tem hábito rasteiro, folhas de pontas mais arredondadas e margens não tão serrilhadas nem tão vincadamente dobradas para dentro, e que os pedúnculos das flores são mais curtos.

As três Omphalodes parecem, contudo, ter em comum um futuro incerto. Estão listadas em directivas de habitat, anexos nacionais e regionais, listas vermelhas ou na Convenção de Berna como muito vulneráveis, exigindo protecção máxima. Mas se, em Corrubedo, um guarda impedia o avanço dos turistas pela duna gigante onde em tempos poderá ter existido Omphalodes littoralis, noutros locais da costa atlântica mantém-se a extracção ilegal de areia, a limpeza descuidada das praias, a construção indevida de infraestruturas, o pisoteio e os desportos motorizados, que têm provocado uma alteração drástica do habitat, induzido flutuações perigosas no número de indivíduos das populações destas espécies, até ao seu desaparecimento em alguns nichos, e um declínio acentuado da área ocupada por estas plantas. Além disso, como a germinação das sementes precisa de temperaturas baixas, quem sabe se este mundo mais aquecido não as levará à extinção. Por cá, não havendo vigilância nem livro vermelho, os responsáveis pela natureza não têm razões para deixarem de estar tranquilos e sossegados.

Um detalhe curioso: na Nova Flora de Portugal, Amaral Franco descreve as flores da nossa Omphalodes como sendo de um azul pálido, raramente brancas. As plantas que vimos, e as que outros têm visto e fotografado, tinham todas corola branca, num tom nacarado que lembra claras em castelo, e o mesmo terá acontecido em 1889 com Willkomm, que as descreve como weisse Blumen.