

Serra de Santa Bárbara, ilha Terceira
A minha primeira visita à Terceira foi em Outubro de 2001, para assistir ao concerto de Tommy Flanagan no AngraJazz. Já era tarde para cancelar a viagem quando, a bordo do avião de Lisboa para as Lajes, li no Público (então distribuído gratuitamente a todos os passageiros, e não apenas aos de classe executiva) que razões de saúde tinham forçado uma alteração de programa: em vez de Tommy Flanagan, pianista dos dedos mágicos, teríamos Cedar Walton, músico com longo e estimável currículo. Iria até ao fim do mundo para ouvir Flanagan, mas dificilmente iria à Terceira só para ouvir Walton. As razões de saúde eram graves: Flanagan morreu seis semanas depois, em 16 de Novembro de 2001. Em outubros de anos sucessivos, voltei muitas vezes à Terceira e ao AngraJazz, mesmo sabendo que Tommy Flanagan nunca lá iria tocar, mesmo quando o cartaz não era dos mais promissores. O festival de Jazz era tão só o pretexto para regressar às ruas de Angra, ao jardim Duque de Terceira, à visão da baía do alto do Monte Brasil, ao sossego da Praia da Vitória. Sim, comprava bilhete para todos os concertos, então realizados nos claustros do museu e com os espectadores sentados em esplanada que fingia ser o Village Vanguard, mas com maior tinir de copos, mais conversa e menos atenção aos artistas em palco (sobretudo quando algum infeliz contrabaixista se lançava num solo). A amplificação era ensurdecedora, e esgotante o formato de concertos duplos com arrastados intervalos: o entusiasmo pela música nem sempre me segurava até ao final do segundo concerto, para lá da uma da manhã.
Depois o AngraJazz transferiu-se para o novíssimo Centro Cultural e de Congressos. Melhorou o som, havia mesas mas também lugares nas bancadas para quem preferisse a música à conversa. Até que compreendi, sem menosprezar o festival, que a ilha me bastava como motivo para a viagem, e que, interessando-me por plantas, era estúpido visitá-la apenas no mês de Outubro. É verdade que é nessa altura que a paineira (Chorisia speciosa) do jardim dos Capitães Generais começa a florir, mas também no Porto há uma paineira, embora mais rala de flores. Angra sem Jazz, ou a Terceira sem música, é diurna e sem dores de cabeça, mais apropriada à meia idade que vai chegando.


Este ano, em Agosto, eu e a Maria visitámos a Terceira juntos pela primeira vez. Das minhas visitas anteriores, em grande parte confinadas à cidade de Angra, tinham sobrado pedaços substanciais da ilha por desbravar, e muito do que vimos agora era de igual modo novidade para ambos. Uma ilha tão pequena alberga mundos muito diversos: a faixa litoral, onde as povoações se alongam num casario baixo, quase contínuo; um segundo anel formado por pastagens e plantações de criptomérias; e o núcleo central de montes vulcânicos com um revestimento cerrado de floresta nativa. O visitante de hábitos mais sedentários raramente tem um vislumbre desse terceiro estrato da paisagem insular, e mesmo a maioria dos autóctones parece ignorá-lo. De todas as ilhas açorianas, é a Terceira que guarda a maior e mais bem preservada extensão da floresta de louro e cedro que existia antes da chegada dos portugueses ao arquipélago. A conversa enganadora da "natureza em estado puro" com que se vende o "destino Açores" aos turistas, ilustrada com fotos de hortênsias e lagoas de um azul Photoshop, poderia ter nesta ilha, muito mais do que em São Miguel, um significado genuíno. Mas nem a criação do Parque Natural da Terceira, agregando as mais valiosas áreas naturais da ilha, convence os operadores turísticos a renovarem o discurso.
Não que fosse desejável ter essas áreas invadidas por multidões. A quase inacessibilidade de algumas delas é que garantiu a sua preservação; o silêncio e o isolamento seriam feridos de morte com o rodopio contínuo de turistas. Haveria que restringir os percursos e condicionar a carga de visitantes - coisas que, em parte, já foram feitas, mas não suficientemente divulgadas. A floresta de nuvens da Terceira é tão emocionante e labiríntica como uma floresta tropical. Deveria ser cartaz da ilha, tanto como Angra-património-mundial, o Algar do Carvão e as marradas dos touros.
A caldeira de Santa Bárbara, uma imensa cratera com 13 Km de diâmetro, recheada, qual matriosca, com mini-crateras no seu interior, é talvez o mais valioso pedaço de natureza em todo o arquipélago açoriano, visitável só com autorização do Parque Natural da Terceira. Embora não existam barreiras intransponíveis para quem, clandestinamente, queira descer à caldeira, a verdade é que os trilhos se vêem mal, são cheios de bifurcações enganadoras, e há muitos buracos, ocultos pela vegetação ou por almofadões de Sphagnum (musgão), em que nos podemos magoar seriamente. O nevoeiro pode baixar sem aviso de um momento para o outro, confundindo qualquer senso de orientação. Tudo para concluir que o forasteiro, além de se munir da necessária autorização, deve ter a previdência e a humildade de recorrer aos serviços de um guia.
Foi o que fizemos: a guia por quem tivemos o privilégio de ser acompanhados não poderia ser mais conhecedora nem mais atenciosa. Mas na data aprazada, se não trovejou, o dia amanheceu chuvoso e nublado como nenhum outro durante a semana em que permanecemos na ilha. O estado de encharcamento geral, com as botas convertidas em esponjas, ditou que o passeio fosse algo abreviado. A maior parte da água que se nos agarrou ao corpo provinha não da chuva mas daquela que o nevoeiro fazia condensar nas árvores e arbustos pelos quais rompíamos. Toda a serra funciona como uma grande máquina de captação e armazenamento de água. O interior da caldeira é uma turfeira quase contínua, pontuada por lagoas de margens traiçoeiras. Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), reduzidos a arbustos ou árvores-anãs, têm os troncos mergulhados no mesmo Sphagnum que cobre as ravinas. Os musgos e os fetos epífitos (Hymenophyllum, Elaphoglossum semicylindricum) formam nas árvores um rendilhado profuso que não deixa sequer adivinhar a cor dos troncos. Tapetes amarelos de Tolpis azorica e de Leontodon filii proclamam, por entre a névoa, que nos Açores a Primavera acontece em Agosto. Três raridades botânicas fazem uma breve aparição: a Scabiosa nitens, a Pericallis malvifolia e o Ranunculus cortusifolius.


Angelica lignescens Reduron & Danton
E a Poderosa Angélica, magnífica como nunca a vimos nas outras ilhas, num contingente de várias centenas de exemplares, tem aqui finalmente o cenário que condiz com o seu porte. Foi para se debruçar vertiginosamente no bordo da caldeira que ela ergueu a descomunal cabeçorra, onde o adiantado da estação fizera já substituir as flores por frutos.