17.3.14

Redonda vezes quatro




Galium rotundifolium L.

Não é sintoma de chauvinismo, e muito menos conversa de operador turístico, reconhecer que às vezes o que é só nosso é melhor do que aquilo que partilhamos com muitos outros países. Na maioria dos casos, essa supremacia é puramente fortuita e não fizemos nada para a merecer. Além disso, e como sucede com quase tudo do que tratamos no blogue, o assunto interessa a tão pouca gente que não será com ele que se fortalecerá o depauperado orgulho nacional. Falando das plantas do género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw e nós não chamamos nada, as mais arrumadinhas, simétricas e elegantes que encontramos no nosso país distinguem-se por ter quatro folhas em cada nó, cada uma delas com três veios longitudinais bem vincados. É esse o figurino tanto do Galium broterianum como do Galium rotundifolium, que aqui trazemos hoje. O primeiro é frequentador assíduo de margens de cursos de água no interior norte e centro do país; o segundo, que mora no mesmo território mas prefere matas caducifólias, é muito menos comum. O primeiro tem uma inflorescência abundante e vistosa, composta por dezenas de pequeninas flores brancas; o segundo tem uma inflorescência rala, como se tivesse sido podado fora de época por um jardineiro inconsciente. Finalmente, o primeiro é só nosso ou quase (tratando-se de um endemismo ibérico, somos obrigados a partilhá-lo com os espanhóis), enquanto o segundo tem uma distribuição vastíssima, que vai desde a Península Ibérica e o Mediterrâneo até à Escandinávia e ao sudoeste da Ásia. Por uma vez, temos em abundância o que é melhor e mais bonito, e que os outros não têm, embora, por compulsão coleccionista, não abdiquemos de ter igualmente, mas em quantidades moderadas, o produto de menor qualidade que os outros também têm.

O G. rotundifolium é uma planta perene, estolhosa, capaz por isso de revestir largos metros quadrados de terreno no sub-bosque de carvalhais ou de soutos. Tem folhas arredondadas (daí o epíteto atribuído por Lineu) com cerca de 1,5 cm de comprimento e pecíolo muito curto, e caules de 30 ou 40 cm de altura encimados por inflorescências esparsas, corimbiformes, compostas por flores brancas com 3 a 4 mm de diâmetro. Floresce de Junho a Julho. A quem quiser vê-lo de perto aconselha-se uma visita ao Souto do Concelho, em Manteigas, ou à Mata da Margaraça, na serra do Açor, local onde as fotos foram obtidas e que justifica muitas visitas pelas razões aqui detalhadas.

14.3.14

Novas do sul





Jonopsidium acaule (Desf.) Rchb.



São Martinho do Porto

Longe vai o tempo em que os portugueses trocaram couves por eucaliptos com os australianos. Agora sabemos que a família Brassicaceae, fácil de identificar pelas flores de quatro pétalas dispostas em cruz, não é um mero ajuntamento de nabiças e saramagos. E tem sido uma agradável surpresa descobrir que abriga vários endemismos lusitanos. O endemismo português desta família que hoje aqui comparece, e de que só conhecemos registos no litoral a sul de São Martinho do Porto, é uma planta anual de porte diminuto (1,5 a 6 cm), muito mais baixinha do que a sua congénere, um endemismo da Península Ibérica, Jonopsidium abulense (Pau) Rothm.. Mas quando está em flor (ou seja, agora), notam-se bem os tapetes que forma em solo arenoso, aproveitando clareiras de zimbrais ou de pinhais. As pétalas rosa-lilás quase não se separam, e as folhas redondas, lembrando colheres minúsculas, arrumam-se em rosetas no centro das quais sobressaem os racimos de flores. Está formalmente protegida como espécie prioritária através da Directiva Habitats e da Convenção de Berna.

A presença desta planta em Portugal foi primeiro assinalada, em 1798, pelo botânico francês René Louiche Desfontaines (1750-1833), estudioso da flora do norte de África. Chamou-lhe, na sua Flora Atlantica (1798–1799), Cochlearia acaulis. Pouco tempo depois, Brotero regista-a também: primeiro como Cochlearia pusilla na Phytographia Lusitaniae Selectior, de 1800; e quatro anos depois, na Flora Lusitanica, chamando-lhe Cochlearia olyssiponensis. Tem, de facto, alguma semelhança com a Cochlearia danica L., que conhecemos de paragens mais nortenhas, o que, contudo, não explica cabalmente o nome de cocleária-menor que o povo alegadamente lhe daria.

Porém, a designação da planta que prevalece hoje é a atribuída, em 1829, pelo botânico e ornitólogo alemão Heinrich Gottlieb Ludwig Reichenbach (1793-1879), num dos dez volumes da sua obra Iconographia botanica s. plantae criticae (1823-32). Reichenbach observou a planta em Alcântara no dia 28 de Fevereiro de 1828. Propôs então para ela o nome genérico Jonopsidium, uma união elegante entre o prefixo grego ion, violeta, e opsis, semelhante. Sendo assim, pensará o leitor, deveria ser Ionopsidium. Pois claro, e é mesmo esse o nome usado na Flora Europaea e, consequentemente, por Amaral Franco na Nova Flora de Portugal. Será, todavia, um duplo engano (dos que não somam cem anos de perdão) escrever com I uma designação cujo autor escolheu iniciar com um J.

10.3.14

Junco dos três bicos


Triglochin maritimum L.

Além de certos grupos humanos, como sejam os estrangeiros em busca de emprego, também há plantas que não podem instalar-se na Suíça. O preço a pagar pelos helvéticos para terem os Alpes e o edelweiss é muito alto, e inclui a necessidade de pedirem licença aos países vizinhos para ver o mar. E depois de o verem e de molharem os pés nas ondas regressam a casa resignados, pois o decreto divino é irrevogável (no sentido que a palavra tinha até Julho de 2013): o mar não vai à Suíça, nem a Suíça vai ao mar. Com o resultado de que esse país fica inteiramente desprovido daquela flora terrestre de vocação marinha que vive em dunas, estuários e sapais.

Embora tenham um aspecto monótono, e o solo lodoso, periodicamente inundado, não convide a passeios a pé, a verdade é que os sapais nos estuários dos rios, onde a água doce e a salgada se defrontam numa fronteira instável, são um refúgio de plantas fascinantes: há limónios, varas-de-ouro, ásteres, salicórnias, espergulárias e uma grande variedade de juncos. A que se junta este Triglochin maritimum, na aparência uma mistura de junco com tanchagem mas que não é nenhuma das duas coisas. O nome científico Triglochin, que Lineu atribuiu a esta planta, provém do grego e significa "com três pontas", por cada um dos seus frutos ser em regra composto por três peças. O junco-dos-três-bicos, chamemos-lhe assim, é uma planta perene, rizomatosa, com hastes até 65 cm de altura, que floresce de Fevereiro a Setembro. Distribui-se pela América do Norte e por grande parte da Europa e da Ásia; no norte de África só há registo dela na Tunísia. A sua presença europeia é desequilibrada em favor do norte: é comum ao longo da costa atlântica desde a Rússia até à Galiza, e também nas ilhas britânicas e na Islândia, mas rareia no Mediterrâneo. Em Portugal é por certo mais vulgar do que os escassos registos no portal Flora-On fazem crer. Encontrámos uma boa população no pequeno sapal na foz do Tornada, em Salir do Porto.


Salir do Porto: foz do rio Tornada

4.3.14

Fuscata




Silene fuscata Link ex Brot.

Quando os serviços de meteorologia conspiram com a protecção civil e os telejornais para manter os portugueses fechados em casa, merecem generosa recompensa todos aqueles que, à revelia dos alertas amarelos, vermelhos ou laranja, cometem a temeridade de um passeio ao ar livre. Assim foi com a saída de campo da AOSP ao Horst de Cantanhede, num sábado de Fevereiro em que os profetas das intempéries & borrascas asseveravam com voz tremebunda que o céu cairia sobre as nossas cabeças. Manteve-se porém o dito quase sempre de um azul límpido, e só no final do tarde umas nuvens preguiçosas responderam à convocatória fazendo cair um aguaceiro displicente. À farta colheita (visual e fotográfica) de orquídeas que é de esperar nestas ocasiões, com destaque para a mini-fusca, única que estava em flor, veio adicionar-se a surpresa de uma abundantíssima população de lírios-roxos, uns poucos deles, por cortesia, já adiantados na floração. Na orla deste afloramento calcícola, onde os bosques de pinheiro-manso e mato mediterrânico dão lugar a vinhas e campos de cultivo, algumas ervitas precoces levavam à cena uma ante-estreia da Primavera. Entre elas, tão modesta que quase a confundíamos com congéneres suas bem mais comuns, uma Silene que nunca tínhamos visto, fuscata de seu nome e muito apropriada para servir de contraponto à mini-fusca.

A Silene fuscata é uma pequena planta anual, de não mais que 50 cm de altura (em regra bastante menos), com caules pubescentes e viscosos, quase sempre simples, e flores agrupadas em cimeiras corimbiformes. Frequenta campos e pastagens, preferindo substratos calcários ou margosos. Embora tenha uma distribuição ampla de ambos os lados do Mediterrâneo, e em Portugal e até na Península Ibérica seja de ocorrência muito esporádica, a espécie foi baptizada pelo botânico alemão Johann Heinrich Friedrich Link a partir de exemplares colhidos durante a visita de estudo que, na companhia de Hoffmannsegg, fez ao nosso país entre 1797 e 1799. A sua primeira descrição, publicada por Félix Brotero, apareceu em 1804 no segundo volume da Flora Lusitanica.

Por uma feliz coincidência, esta planta tão pouco vista e de existência tão efémera foi igualmente observada, com poucos dias de intervalo mas uns 160 Km a sul, pelo nosso colega de lides botânicas Francisco Clamote.

1.3.14

Mini fusca


Ophrys pintoi M. R. Lowe & D. Tyteca

As flores das orquídeas do género Ophrys, sem néctar ou outra recompensa para os polinizadores, apostaram em certo momento da sua evolução na mimetização de insectos, aproveitando-se do pequeno lapso de tempo entre o fim da hibernação dos insectos-macho e o das fêmeas para atraírem os primeiros e, através de falsas cópulas, lhes entregarem pólen ou receberem o que eles trazem de outras flores. Para além da aparência enganosa, com zonas no labelo que, quando brilham ao sol, parecem asas, as flores produzem feromonas quimicamente muito semelhantes às exaladas pelos insectos-fêmea, e distribuem de modo adequado o veludo e a penugem no labelo para que a semelhança táctil seja perfeita. Algumas orquídeas dependem inteiramente do sucesso deste mecanismo para produzirem sementes, e por isso o ardil tem de ser exímio: há que garantir que a planta se destaca na profusão de sinais químicos e visuais da natureza, como um canto de soprano rompendo a massa instrumental de uma orquestra. O resultado é uma especialização tão hábil das flores que raramente este emparelhamento entre a morfologia da flor e um insecto envolve espécies distintas. Mas acontece. O mesmo insecto pode visitar flores de diferentes espécies, e da troca de pólen nascerem híbridos. Isso não é de todo mau se as mudanças na morfologia continuam a ser apreciadas pelo polinizador, e até pode constituir uma vantagem: se o insecto burlado jura a patas juntas que não volta àquela flor, no ano seguinte visita ingenuamente o híbrido, e assim se perpetua o logro; ou então surge outro insecto que se adapta melhor à nova morfologia da flor e que, substituindo o polinizador original, aumenta as oportunidades de disseminação da planta.

Quando isto sucede, é natural que as alterações genéticas se tornem estáveis e se formem orquídeas que se distinguem claramente dos progenitores. É então legítimo propor que, na taxonomia, elas se tornem espécies independentes. Foi o que fizeram os autores deste artigo (Michael R. Lowe & Daniel Tyteca, Two new Ophrys species from Portugal, J. Eur. Orch.44 (1): 207 – 229. 2012) relativamente a duas formas de Ophrys do centro do país que à primeira vista pareceriam ser de incluir em Ophrys fusca (espécie altamente polimorfa) mas que exibiam características muito distintas. Uma delas, a que aparece nas fotos, assemelha-se a uma versão anã da O. fusca; a outra é alta, mais profusa na floração, e prevê-se que tenha um polinizador distinto. Para a primeira, Lowe e Tyteca propuseram a designação Ophrys pintoi, homenageando o botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992); à segunda chamaram Ophrys lenae, aludindo o epíteto específico ao rio Lena, da serra dos Candeeiros, onde foi colhido o holótipo da nova espécie.


Pinheiros-mansos (Pinus pinea L.) no Horst de Cantanhede

Vimos muitos exemplares de O. pintoi no Horst de Cantanhede, durante uma saída de campo organizada pela AOSP (Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal). Ali o solo é branco de tanto calcário, margoso e escorregadio, a entremear rochas com belos fósseis do Jurássico. O horst é um pedaço longo de terra, do Zambujal até Lemede, que se ergueu quando apertada por duas placas da crosta da Terra que chocaram, provocando um desfasamento do chão. A fauna e a flora deste raro ecossistema, e a sua importância geológica e paleontológica, justificam e exigem dos responsáveis um programa de conservação exemplar.

25.2.14

Ervas da luz


Luzula lactea (Link) E.Meyer

Conta-se que o nome Luzula, estabelecido pelo botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle (1778-1841) para acolher umas tantas espécies que Lineu arrumara no género Juncus, provém do italiano erba lucciola, que significa erva-pirilampo. Parece estranho aplicar-se tal nome a umas ervitas de flores discretas, muitas vezes escuras ou mesmo negras, mas a história é rebuscada: o que brilha, ainda por cima à luz da lua, é a penugem branca das folhas ao ser aspergida pelo orvalho nocturno. Quando chega o dia e se extingue o mistério das estrelas, também a Luzula, qual verdadeiro pirilampo, se remete ao mais baço anonimato.

Só que, sabendo que os admiradores de plantas e de flores não têm em geral o hábito de se dedicar a tais contemplações pela noite fora, nem todas as luzulas se conformam com o apagamento diurno. Para complementar a vermelhíssima e açoriana L. purpureo-splendens, eis outra Luzula, desta vez continental e ibérica, que resolveu singularizar-se pela cor da floração, optando por um branco leitoso, de um leite já algo coalhado. As inflorescências, erguidas no topo de hastes com 30 a 70 cm de altura, são compostas por uns tantos glomérulos, cada um deles formado por 10 a 20 flores.

A Luzula lactea, que floresce no Verão em solos ácidos e pedregosos de montanha, e é especialmente abundante em zonas recém-queimadas, é um endemismo ibérico restrito ao centro e ao noroeste da península. Várias obras de referência (entre elas a Nova Flora de Portugal de Franco & Rocha Afonso) sustentam que a espécie também ocorre na ilha do Pico, nos Açores, mas tal informação não é corroborada por nenhuma listagem recente da flora açoriana.

22.2.14

A florir de Janeiro a Dezembro


Calamintha nepeta (L.) Savi

De acordo com um código internacional, a nomenclatura botânica segue regras estritas ao nomear novas plantas para que se atribua o mérito aos seus primeiros descobridores, se garanta que as novas designações estejam correctas e se acautele a compatibilidade com as denominações das outras espécies já conhecidas. Até 2011, sempre que era descrita uma nova planta, os autores da descoberta tinham de propor um nome e, para validar a descoberta, inciar o seu relato em revista científica da especialidade (destinada a dormir em volumes de capa dura no silêncio das bibliotecas) por um parágrafo em latim com os traços gerais da planta e do seu habitat. Agora, um tal resumo pode ser escrito em latim ou inglês, mas não noutras línguas, e a revista pode não ter existência em papel mas apenas on-line, embora os nomes sugeridos tenham ainda de ser latinizados. Talvez a alguns agradasse se, no próximo congresso mundial de botânicos em que se discutirá este código, a realizar na China em 2017, este último reduto do latim fosse desfeiteado e se enterrasse de vez uma língua morta.

O género Calamintha foi proposto em 1754 pelo botânico escocês Philip Miller (1691-1771), e talvez queira dizer «menta formosa», do grego kalos e minthe. Um ano antes, Lineu deu à planta das fotos o nome Melissa nepeta, mas, numa arrumação taxonómica de 1798, o botânico italiano Gaetano Savi (1769-1844) mudou-a para o género Calamintha. Quanto aos nomes comuns, por cá é conhecida como erva-das-azeitonas (por se usar/ter usado para curtir azeitonas), e também por nêveda, palavra que, dizem os dicionários, tem origem no latim nepeta (que, crê-se, se refere à povoação italiana Nepi). Em espanhol, tanto é erva-dos-pastores como erva-pastora, e este último nome é o que julgamos que lhe assenta melhor: com uma distribuição ampla, seja em taludes, orlas de bosques ou olivais, prados ou sítios nitrificados, é frequente depararmos com este pequeno arbusto aromático, viloso, perene e em flor quase todo o ano, a acompanhar-nos como uma cabrinha a pastorear todos os recantos verdinhos.

A Flora Ibérica menciona duas subespécies desta herbácea, C. nepeta subps. nepeta e C. nepeta subsp. sylvatica (cujas folhas exibem margens com um recorte mais fundo), de que só a primeira, que é nativa do centro e sul da Europa, noroeste de África e ilhas Canárias, está assinalada em Portugal. Na Península Ibérica ocorrem mais duas espécies de Calamintha, ambas muito raras.

18.2.14

Esplendor púrpura



Luzula purpureo-splendens Seub.

Quem no início de Junho visitar a zona central da ilha das Flores, não deixará de notar, assomando entre os almafadões de Sphagnum um pouco acima da altura do joelho, uma profusão de inflorescências vermelhas encimando esguias hastes. Se a névoa for tão espessa que não deixe sequer adivinhar as lagoas, a impressão é de estarmos mergulhados numa grande taça de morangos com chantilly. Bom, talvez essa imagem só ocorra a quem seja dotado da visão privilegiada dos míopes, e em todo o caso é uma absurda quantidade de chantilly para tão diminutos "morangos". Se alguém tiver uma comparação mais sugestiva para essa substância envolvente, leitosa, semi-opaca, esparsamente pontilhada de vermelho, então esteja à vontade para reescrever o texto.

O vermelho-púrpura da Luzula purpureo-splendens vem não só das tépalas das flores mas também das brácteas na base das inflorescências. À medida que as flores se desenvolvem, as tépalas abrem e deixam ver o branco luminoso dos estigmas e das anteras. Quando os frutos estão formados, o vermelho converte-se em castanho. Chegando Agosto, já as sementes foram disseminadas e não sobram vestígios da haste floral. A parte visível da planta reduz-se agora a um tufo de folhas compridas e brilhantes, com margens ciliadas.

O saragasso, nome pelo qual é conhecido no arquipélago, é um endemismo açoriano que só não ocorre nas duas ilhas menos húmidas, Graciosa e Santa Maria. Dá provas, apesar disso, de alguma versatilidade ecológica, pois nas Flores está presente desde os sítios mais encharcados da parte alta da ilha até às pastagens comparativamente secas próximas do litoral. Quando, porém, nessa ilha tão vertiginosamente escarpada, temos o mar quase debaixo dos pés, a queda ainda pode ser superior a 300 metros. Como nesta imagem da descida para a Fajã Grande, em que um velho cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) tem a rodeá-lo à direita um molho de saragassos, e à esquerda um tufo de fetos-pente (Blechnum spicant).

15.2.14

Menta de burro



Marrubium vulgare L.

Nome comum: marroio-branco; estranha-se que sendo uma planta aromática, muito penugenta, com folhas enrugadas e de pé longo que parecem orelhas de cachorro Basset Hound, o nome comum não revele que o povo tenha reparado nisso; em espanhol, chamam-lhe pelusilla, malva de sapo; em inglês, é conhecida como white horehound
Ecologia: espécie ruderal, é frequente em lugares áridos, terrenos incultos, bermas de caminhos e pastagens
Distribuição global: natural da Europa e norte de África, foi amplamente cultivada e assilvestrou-se em muitos outros sítios
Distribuição em Portugal: todas as províncias, com excepção do Minho
Época de floração: Fevereiro a Novembro
Data e local das fotos: Março/Maio de 2013, junto à estação abandonada de Almendra, na linha do Douro
Informações adicionais: O epíteto vulgare assenta-lhe bem: é quase cosmopolita, com uma estratégia esperta de disseminação pois os frutos têm ganchos para se agarrarem ao pêlo dos animais. Além disso, é planta perene, algo lenhosa na base. As hastes florais, de secção quase quadrada, atingem os 80 cm e nelas as flores, de corola branca e brácteas iguais a folhas, agrupam-se em verticilos densos. A floração pode durar alguns meses mas, em geral, apenas parte das flores em cada patamar estão desabotoadas (perdendo-se, claro, com tal racionamento algum efeito cénico). Cada flor é bilabiada, sendo o lábio superior bifendido (mais duas orelhinhas) e o inferior com três lóbulos pouco fundos. A polinização costuma estar a cargo de abelhas. Várias fontes indicam que esta herbácea foi usada medicinalmente para aliviar a tosse e problemas respiratórios; na Flora Ibérica acrescenta-se que ela era tida como bom remédio para os diabetes. Na Península Ibérica ocorrem mais duas espécies do género, M. alysson e M. supinum, das cerca de 40 que são naturais da Europa e Ásia; a maioria delas é nativa da Turquia, onde aliás se continuam a descobrir novos endemismos deste género.

10.2.14

A cinza antes do fogo





Genista cinerascens Lange

Quando se discute a «limpeza» dos matos e o problema da acumulação de «combustível vegetal», é de giestas, tojos, urzes, estevas, sargaços e carqueja que se está a falar. Tais presumíveis culpados pela «catástrofe dos incêndios» nunca são chamados pelo nome, quem sabe se para evitar que a ânsia de serem notícia os leve a imolarem-se em fogos ainda mais destrutivos. Esse modo de amalgamar grande parte da riqueza florística das nossas serras num plural indiferenciado e pejorativo (os «matos») promove, na teoria e na prática, um desprezo pela biodiversidade que nenhuma acção de sensibilização ambiental consegue contrariar. Muita gente bem intencionada julga que plantar árvores é louvável em qualquer lugar e circunstância, não importando que com isso se destrua algum mato e uma ou outra ervita. Pode acontecer, porém, que aquilo que se perde tenha um valor conservacionista muito mais elevado do que a árvore que insistimos em plantar naquele ponto exacto. Um exemplo paradigmático foi a razia que levou a melhor população de narciso-trombeta (Narcissus pseudonarcissus) da serra de Arga, junto ao parque de merendas da Senhora do Minho, para se plantarem duas dúzias de bétulas.

As giestas ou piornos - assim são chamadas muitas leguminosas dos géneros Cytisus, Spartium, Genista e Retama - também podem ser motivo de entusiasmo para quem aprendeu a conhecê-las. Todas elas valem pelo amarelo exuberante da floração, a que se acrescenta um cheiro que vai do intensíssimo (e meio enjoativo) perfume do Cytisus striatus à delicada fragrância a limão da Genista florida. Algumas são raridades, sobrevivendo em nichos e em populações escassas, e não deveriam ser ignoradas nos planos de monitorização e conservação da natureza. É nesta última categoria que entra a Genista cinerascens, um bonito arbusto que o João Lourenço nos deu a conhecer, em Junho passado, no planalto de Montalegre. A sua área de distribuição em Portugal é algo incerta, o que em parte se deve à confusão com congéneres muito semelhantes. Assim, João do Amaral Franco, no vol. 1 (publicado em 1971) da Nova Flora de Portugal, não refere a ocorrência da espécie no nosso país, mas informa que a G. obtusiramea, que é similar embora exiba porte bem mais rasteiro, ocorre nas serras da Estrela e do Larouco. A Flora Ibérica (ver pdf) sustenta, pelo contrário, que por cá temos não a G. obtusiramea mas a G. cinerascens, embora a distribuição que atribui a esta última (Beira Alta, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes) seja insolitamente vasta. É porém indubitável que as plantas que observámos em Montalegre, com a serra do Larouco à vista, encaixam, não apenas pelo porte (algumas ultrapassavam 1 m de altura, quando a G. obtusiramea não excede os 40 cm) mas também pelos ramos floridos geralmente erectos, na descrição da G. cinerascens feita pela Flora Ibérica.

A G. cinerascens, cujo epíteto específico é explicado pela cor acinzentada dos ramos velhos, é um endemismo ibérico do centro e oeste da Península, que se distingue pelas folhas simples, sedosas em ambas as páginas, e sobretudo pela pilosidade do estandarte floral (observável com alguma dificuldade na última foto aí em cima). O perfume, tanto quanto recordamos, não é de desdenhar, mas não é comparável em doçura e requinte ao da Genista florida que lhe fazia companhia e de que os nossos narizes tiveram dificuldade em separar-se. Nada obstava à nossa permanência, pois as duas Genistas comungam uma índole pacífica que se traduz pela ausência de espinhos.

8.2.14

Chá do monte



Acinos alpinus (L.) Moench

Um passeio despreocupado pelo campo deixa-nos a impressão de que quase todas as nossas flores silvestres são amarelas ou azuis, ainda que por vezes se deixem pintalgar de outras cores ou assumam tons alaranjados, púrpura ou roxos. Há excepções, claro, o branco ou o vermelho também se usam, mas o amarelo e o azul parecem ser preferidos pelos polinizadores e são, por isso, dominantes. O que faz então cada planta para que as suas flores, que pela cor não se notabilizam entre as demais, sobressaiam no manto amarelo-azul? Investe em detalhes: manchas, descolorações ou desenhos junto de estames ou estigmas, que sugerem a presença de abundante néctar; o contraste entre matizes de azul ou amarelo, por vezes misturados com outras cores, que apontam o local exacto onde a aproximação da abelha à flor deve acontecer; e um sítio confortável e amplo para os polinizadores aterrarem, por vezes com uma penugem para amaciar a manobra (e entretanto facilitar o carregamento/descarregamento do pólen).

A planta das fotos, de talos ramificados na base, por vezes lenhosos, e aromáticos, serve-se de todos estes cuidados e junta-lhes mais três. As flores aparecem em andares, entremeados por folhas/brácteas, e um tal arranjo em espiga, como um grande centro comercial, atrai mais polinizadores. Além disso, o lóbulo superior das corolas (que nascem no Verão) é um capuz que protege de um sol abrasador ou garante abrigo num dia de Julho chuvoso. E, em anos em que isso lhes pareça conveniente, algumas plantas de cada população só dão flores femininas, pequeninas mas em maior quantidade, assegurando desse modo uma mais abundante produção de sementes.

Este é um género da Europa e Norte de África de que na Península Ibérica ocorrem três espécies. Por cá só se conhece a A. alpinus, que é perene mas pouco comum: os registos dão conta da sua presença apenas na Beira Alta (onde a vimos, num souto na serra da Estrela onde também há uma população de orquídeas raras), na Beira Baixa e em Trás-os-Montes (na região de Bragança). Agradam-lhe clareiras de matos baixos ou orlas de bosques, solo pedregoso e altitudes entre os 500 e os 1900 metros.

3.2.14

Tremuras de um feto



Pteris tremula R. Br.

Enquanto imigrantes clandestinos, os fetos têm uma capacidade para passar incógnitos que as outras plantas só podem invejar. E não é por mérito próprio, mas sim pela dificuldade que nós, humanos, temos em distingui-los. Se, num país pouco dado à observação da vida natural, as plantas são, na maioria das vezes, um adereço a que não prestamos atenção, o caso agrava-se desmedidamente quando se trata de fetos, que têm o inconveniente de não florir e por isso quase nunca sobressaem pelo colorido vistoso. Mesmo entre pessoas que professam algum interesse por plantas, não é raro encontrar quem pense que os fetos são todos iguais, ou que no máximo deles haverá duas ou três espécies diferentes.

Os fetos são capazes de se adaptar aos ambientes mais diversos, e também de sobreviver à negligência e ao abandono. Quando o jardim de um palacete arruinado é invadido por silvas em renhida disputa com as demais plantas oportunistas, já sabemos que em poucos anos as flores requintadas e os arbustos exóticos que fizeram o orgulho de gerações de jardineiros se irão perder para sempre. Por vezes nem as árvores resistem ao assalto. Não é incomum, porém, que os fetos, também eles adquiridos a bom preço em algum horto (houve um tempo, há mais de um século, em que os fetos estiveram na moda), tenham artes de se empoleirar nalgum muro e daí procurar poiso menos ameaçado. Quando o matagal tiver sido obliterado pelo betão e convertido em condomínio fechado, já eles estarão a salvo noutras paragens.

É essa a história de vida do Pteris tremula, um feto originário da Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, enquanto imigrante na cidade do Porto. Já o vi em jardins decadentes, onde além dele só havia relva porque tudo o resto morrera sem ser substituído. Já o vi a colonizar muros velhos. Por duas ou três vezes tentou crescer nos jardins do Palácio de Cristal: a motosserra dos motojardineiros sempre lhe frustrou os intentos, mas desistir não é com ele. Sem se importar com o trânsito atroador da VCI, encontrou o seu refúgio mais seguro no canteiro de fetos do Jardim Botânico do Porto, e por lá se tem multiplicado livremente.

Dizem que, nos climas tropicais ou subtropicais onde teve berço, o feto-tremedor pode lançar frondes que chegam aos 2 metros de comprimento; mas, no nosso clima e nas condições algo precárias em que por cá é forçado a viver, elas atingem não mais que uns 70 cm. Tal como sucede com todos os outros fetos do género Pteris (entre eles o P. vittata e o macaronésio P. incompleta), o P. tremula ditingue-se pela disposição linear dos esporângios, protegidos pelas margens recurvadas das pínulas (4.ª foto).