12.7.14

A borboleta de Hochstetter

2013 foi um ano de novidades para a flora açoriana, que tem desde então um capítulo mais bem arrumado. Recapitulemos. No início de Dezembro do ano passado ficámos a saber que uma equipa de botânicos encontrou, num único local do Pico da Esperança, na ilha de São Jorge, uma nova orquídea do género Platanthera que é endémica do território. Ao procurarem uma designação apropriada para esta nova planta, consultaram os exemplares de Platanthera colhidos em 1838 por Karl Hochstetter e depositados no herbário da Universidade de Tubinga. Nesse ano, inicialmente com o pai e depois sozinho, Karl percorreu algumas ilhas do arquipélago (não se sabe exacatamente quais) em visita de exploração botânica. No herbário havia afinal material recolhido de três espécies de orquídeas, distintas sobretudo no tamanho e morfologia das flores, mas na Flora Azorica, de 1844, Seubert só havia nomeado duas delas. Mas quais? Excelente pergunta cuja resposta pôs fim a um erro com quase dois séculos: Seubert havia nomeado as menos frequentes, faltando uma designação válida para a mais comum, que existe em todas as ilhas e em populações numerosas.

Resolvido o imbróglio, eis as três espécies de Platanthera endémicas dos Açores que agora se conhecem:

* Platanthera pollostantha, a que tem as flores menores e é a mais abundante, pontuando todas as ilhas açorianas.

* Platanthera micrantha, de flores um pouco maiores, com o labelo revirado para cima a tapar o centro da flor. Há registo da sua presença em seis das nove ilhas (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e Terceira).

* Platanthera azorica, de flores grandes, com o labelo vertical e igualando em tamanho as sépalas laterais. Só são conhecidas populações na zona central de São Jorge. É essa a espécie recém-(re)descoberta.



Platanthera azorica Schltr.

Para ver esta "nova" orquídea, estivemos em São Jorge no início de Junho. No dia seguinte à chegada, preparámo-nos para a subida ao Pico da Esperança, um monte de respeito que se ergue a uns mil metros de altitude, mas o nevoeiro espesso, a chuva miudinha e o vento forte (que, em 1999, terão contribuído para um acidente com um avião da Sata, que colidiu com a montanha) fizeram-nos desistir da ideia. Sem preocupações, afinal tínhamos mais seis dias para repetir a tentativa. No retorno à parte mais baixa da ilha, com sol e gado a passearem animados pelos prados, fomos parando para ver de perto os taludes elevados de beira de estrada, lugares muitas vezes favorecidos por flora admirável. Num deles, a cerca de 650 metros de altitude, detectámos uma planta que procurávamos: a salsa-das-nuvens. E, a meio do talude, eis outra surpresa: vários pés de P. azorica. O que nos leva a ter esperança de que a famosa orquídea talvez esteja mais disseminada pela ilha do que os registos actuais fazem crer.

A lista de polinizadores destas orquídeas é mal conhecida. Mas, sendo adeptas obstinadas da auto-fecundação, não é de admirar que haja poucos híbridos entre elas. É quase certo, porém, que há insectos a visitá-las: algumas fotos mostram pólen disperso, como se espalhado por algum insecto a bater asas; além disso, a P. micrantha é bastante perfumada. E as fotos seguintes mostram um exemplar de P. azorica (ou coisa parecida) bastante robusto e em que as pétalas superiores das flores não formam o tradicional capuz, variações morfológicas que sugerem estarmos em presença de um híbrido ou então de uma planta com desenvolvimento anómalo.



Quando, dias depois, o tempo amainou (enfim, o verbo talvez seja excessivo; digamos que o nevoeiro e o vento ainda por lá se mantinham, mas já não chovia) e pudemos subir ao Pico da Esperança, já conhecíamos a orquídea, mas ali o núcleo delas que se deixa adivinhar entre a névoa é muito maior. Vimos umas duzentas plantas, em plena floração, rodeadas de centenas de exemplares de P. pollostantha e uma dúzia de pés de Euphrasia grandiflora. Esta Euphrasia, de flores maiores do que as da ilha das Flores, ainda só exibia folhas. Um bom motivo para voltarmos a São Jorge.

8.7.14

Serapião queimou o bico



Serapias cordigera subsp. azorica (Schltr.) Soó. [sinónimo: Serapias atlantica D. Rückbr. & U. Rückbr.]

Quem visita o arquipélago açoriano na Primavera ou no Verão não demora a reparar que, embora seja invulgar o dia em que não chove, as temperaturas máxima e mínima diferem pouco e são amenas, rondando frequentemente os 21ºC. É o clima ideal para quem aprecia passeios pelo campo ou pela praia, embora nos primeiros se deva acautelar contra nevoeiros densos e repentinos, e, optando pela beira-mar, tenha de se resignar a uma areia escura feita dos grãos grossos em que o mar vai desfazendo a pedra vulcânica. Nestas ilhas de paisagem paradisíaca, a estabilidade do clima parece ser um traço distintivo na sua curta história geológica: ao contrário de outras ilhas da Macaronésia, os Açores não parecem ter sofrido transições climáticas abruptas, nem períodos de aridez a entremear outros de dilúvio que, noutras paragens, são responsáveis pela diversificação da flora. As plantas que lá se instalaram tiveram apenas de fazer um esforço inicial de adaptação aos novos polinizadores, ao novo solo e à nova ecologia. Se os endemismos açorianos são escassos, isso talvez se deva em parte às extinções locais que a intervenção humana tem vindo a provocar.

No que respeita à flora, as ilhas são (estranhamente, aliás) muito semelhantes. As excepções são poucas, e algumas em vias de desaparecer, seja pela voracidade dos inúmeros coelhos, seja pela agilidade das cabras ou pelo incentivo mal gerido dado à pastorícia. Mas os relógios das ilhas não são idênticos. Na ilha de Santa Maria, mais seca e mais próxima do continente, o início de Junho é já tarde para ver orquídeas, e nesse mês do ano passado não conseguimos ver nenhuma Serapias em flor. Pelo contrário, no grupo central do arquipélago, é em Junho que elas estão no auge da floração; e é em São Jorge que é mais fácil fotografá-las. Não temos dúvidas em reconhecer nas flores das fotos, pelo labelo vermelho escuro e grande, o parentesco desta Serapias com a europeia Serapias cordigera. Contudo (e parecendo desse modo seguir uma regra a que as outras orquídeas açorianas também obedecem), as flores desta Serapias são muito menores do que as da prima continental; e, na ilha do Pico, as flores tendem a surgir, com elevada percentagem, em versões rosadas ou brancas. Por isso, alguns botânicos propõem que se autonomize como espécie (sugerindo o nome Serapias atlantica), enquanto outros optam cautelosamente por uma diferenciação ao nível de subespécie (adoptando a designação Serapias cordigera subsp. azorica).

Não é surpresa que nos Açores haja poucas espécies de orquídeas e cada vez menos efectivos de algumas delas. Afinal, a grande maioria destas plantas prefere solos calcários, e esse tipo de substrato não existe nos Açores. Além disso, as ilhas estão bastante longe do continente europeu ou do americano, e a colonização das ilhas por plantas e animais não terá sido aventura fácil. Ainda assim, das cinco orquídeas conhecidas nas ilhas açorianas, quatro são consideradas endémicas. A mais frequente é, sem dúvida, a Platanthera pollosthanta, talvez por ser menos exigente quanto a fungos e microrrizas. A das fotos, pelo contrário, que ocorre em todas as ilhas com excepção das do grupo oriental, está ameaçada em todas elas pelo uso intensivo dos prados pelo gado, e talvez à beira da extinção em São Jorge. Nesta ilha, resta-lhe o bordo magro dos matos, uns pastos minguados sem acesso fácil para vacas e alguns taludes elevados de estrada.


São Jorge: estrada do Topo

Há ainda, felizmente, uns raros refúgios como o desta última foto. Isso, e cientistas estrangeiros preocupados com a sobrevivência da flora açoriana.


São Jorge: cimo da Fajã dos Vimes

5.7.14

Salsa das nuvens

São Jorge é a ilha açoriana com formato mais peculiar, lembrando um charuto apagado que alguém atirou quase intacto às águas do Atlântico. Desenvolvendo-se em linha recta, com 54 Km de comprimento e 7 de largura máxima, mais estreita nas pontas, é uma ilha onde o mar está sempre à vista (desde que o nevoeiro o permita) mas as distâncias por estrada são consideráveis. As duas extensas linhas de costa, em regra recortadas de forma abrupta, são separadas por uma cordilheira central banhada quase em permanência por chuva e nevoeiro e sacudida por ventos impenitentes. Em Velas, sede do principal concelho da ilha, o casario desce até junto do mar, e o mesmo acontece na Calheta, mas a maioria dos povoados situam-se no topo das falésias, a uns 300 ou 400 metros de altitude, amiúde com sucursais desabitadas lá em baixo, em fajãs às quais se chega por íngremes estradas em ziguezague.

A sucessão de picos que forma a espinha dorsal da ilha tem o seu ponto culminante no Pico da Esperança, com uma altitude máxima de 1053 metros. Quem quiser observar muitas das preciosidades da flora endémica açoriana deve reservar várias horas para percorrer os 9 Km do estradão que, começando no Pico do Pedro e terminando no Pico Pinheiro, liga uma dezena dessas elevações, entre elas o Pico da Esperança. O ideal seria fazer o passeio a pé, mas esse feito, embora não apresente dificuldades, é pouco agradável de cometer com o agressivo cocktail de nevoeiro, frio, chuva e vento que costuma prevalecer no local. Mas, como as raridades botânicas se acumulam em profusão mesmo nas bermas do estradão, não é o nevoeiro cerrado que nos impede de vê-las e fotografá-las. No que ele é intransigente é em vedar-nos as anunciadas vistas de perder o fôlego, incluindo (asseveram aqueles cuja função é vender paisagens aos turistas) todas as ilhas vizinhas e mais aquelas que o não são.


São Jorge: Fajã dos Cubres; o Pico visto da Ponta dos Rosais

Compreende-se pois que sejamos forçados a escolher imagens de outros locais da ilha para ilustrarmos o texto. O nevoeiro, como nos ensinaram os álbuns do Asterix, é igual e branco em todas as latitudes. Contudo, se não se distingue pela fotogenia, o nevoeiro do Pico da Esperança vale pela persistência, e é graças a ele que plantas como o Ranunculus cortusifolius e o Chaerophyllum azoricum proliferam de modo assombroso. À falta de um nome comum, chamamos salsa-das-nuvens a este último, mas a escolha é algo desajustada, pois as folhas de quase um metro de comprimento só serviriam para temperar a refeição de um ciclope vegetariano. Certo é que o C. azoricum, um endemismo açoriano que ocorre apenas em São Jorge, São Miguel, Pico e Flores, e que em geral é tido por raro e ameaçado, aqui forra quase continuamente largas extensões da encosta.




Chaerophyllum azoricum Trel.

Já antes assinalámos o fenómeno do gigantismo que atingiu várias das estirpes vegetais que se instalaram nas ilhas, descendentes de plantas que no continente nunca se destacaram pela envergadura. A comparação entre este colosso açoriano e o débil e continental Chaerophyllum temulum não podia ser mais eloquente.

Planta perene ou bienal, florescendo de Maio a Julho, o C. azoricum reconhece-se facilmente pelas folhas imparipinadas, com folíolos grandes, de margens irregularmente serradas. A disposição das flores em umbelas terminais é típica da família das umbelíferas, que inclui espécies comestíveis como a salsa e a cenoura, e outras muito venenosas como o Oenanthe crocata. Em São Jorge, embora se dê melhor nos picos enevoados, o C. azoricum também aparece esporadicamente a menores altitudes.

1.7.14

A vida dos salgueiros em flor



Salix salviifolia Brot. subsp. salviifolia

Os salgueiros, a quem cabe a missão de sublinhar a verde o curso azul dos rios, têm pressa de deitar folha nova para mais cabalmente cumprirem a sua tarefa. Por uma questão de eficiência e de optimização de recursos (onde é que já ouvimos tais palavras?), aproveitam a mesma ocasião para florir. Como a Primavera é ainda notícia longínqua, há pouca gente a notar-lhes as flores, que indivualmente não são muito vistosas mas dão à árvore o aspecto de ter sido salpicada com pó amarelo. Quando chega a época de dispersar as sementes, elas vêm envoltas numa penugem branca para mais facilmente serem transportadas pelo vento. Os choupos, que são aparentados com os salgueiros, cumprem igual calendário. Muita gente, ao ver esse "algodão" esvoaçante, ou essa falsa neve que nunca se desfaz em água, julga tratar-se de pólen; e, incomodada, atribui a choupos e salgueiros a culpa de tosses e alergias causadas pelo verdadeiro mas invisível pólen que outras plantas libertam na mesma altura.

Tanto salgueiros como choupos são dióicos: é esse o termo botânico para descrever o facto de haver indivíduos dos dois sexos, fenómeno que é a regra entre os animais mas anda longe de o ser entre as plantas. Nas imagens em cima podem ver-se as inflorescências masculinas (fotos 1 e 5) e femininas (fotos 3 e 4), umas e outras com as flores reduzidas ao essencial: as masculinas só têm estames, as femininas só carpelos. São as plantas com flores femininas, e só elas, que produzem o tal algodão de (injustificada) má fama.

A espécie de salgueiro que hoje nos ocupa, de seu nome Salix salviifolia, é endémica da metade oeste da Península Ibérica. Embora menos abundante do que a borrazeira-preta (Salix atrocinerea), a borrazeira-branca - como é conhecida entre nós - encontra-se distribuída de norte a sul do país. Com o seu pequeno porte, que raramente atinge seis metros, é mais propriamente um arbusto de que uma árvore. Apresenta folhas acinzentadas, penugentas e rugosas, de não mais que 10 cm de comprimento, e amentilhos que não excedem os 7 cm. Prefere instalar-se junto a rios ou ribeiros com grande variação sazonal do volume da água, ou até junto a cursos de água temporários. Se comparada com a borrazeira-preta, a sua menor versatilidade ecológica significa que a borrazeira-branca, apesar de não ser propriamente rara, tem vindo a perder grande parte do habitat com a construção de barragens. A imagem abaixo, que mostra uma galeria de borrazeiras-brancas no ponto onde o rio Tinhela se junta ao rio Tua, dá um exemplo das perdas irremediáveis que serão causadas pela construção da barragem de Foz Tua. Parece, contudo, que nada disso é importante, pois mesmo com uma paisagem destruída o Douro continuará a ser "património mundial".


confluência do rio Tinhela com o rio Tua

28.6.14

Colheres de sésamo




Sesamoides spathulifolia (Revelière ex Boreau) Rothm.

Porque era ainda Abril quando a vimos no topo das falésias de Cascais, as fotos não mostram as sementes desta planta. São redondas e comprimidas lateralmente como as do gergelim (Sesamum indicum L.), e sugeriram a Lineu o nome científico do género. As folhas caulinares coriáceas e em forma de colher (espatuladas) são a marca distintiva da espécie das fotos, que na Península Ibérica só ocorre, ao que se sabe, na costa portuguesa a sul do cabo da Roca (mas também existe na Córsega e na Sardenha). É perene e tem hábito prostrado, talvez para se resguardar da parcela generosa de vento que mora na praia do Abano.

Há mais duas espécies de Sesamoides em Portugal continental (Sesamoides purpurascens (L.) G. López, frequente em quase todo o país; e Sesamoides suffruticosa (Lange) Kuntze, mais rara), de ecologia um pouco diferente. As três assemelham-se nas inflorescências e têm em comum flores que exigem um laborioso exercício de identificação. Antes de o resolver connosco, aproveite, caro leitor, o excepcional detalhe fotográfico com que a Flora-on documenta esta herbácea.

A inflorescência é uma espiga com as flores posicionadas como se fossem discos patentes. Mas, e esse é o primeiro detalhe surpreendente, as flores não são simétricas. Têm um cálice de brácteas, cada uma delas de formato aproximadamente triangular, que protege um anel de pétalas brancas tão divididas que, sendo apenas cinco, parecem muitas mais: as duas superiores (que apontam para o topo da espiga) são laciniadas; as duas laterais também apresentam fendas, mas são menores; e finalmente há uma pétala inferior, quase solitária, que é inteira. Atentemos agora no anel alaranjado de 10 a 14 estruturas arredondadas, como duplos feijões: parece até que a flor já frutificou. De facto, são os estames, a componente masculina da flor, guardiã do pólen. As 5 a 7 bolinhas laranja-esverdeadas no centro do arranjo são os carpelos, que compõem a parte feminina da flor.

O fruto condiz em estranheza com a flor.

24.6.14

Destino trocado

Ranunculus paludosus Poir.

Desconfiamos do bom senso dos taxonomistas quando um ranúnculo como este, com vincada predilecção por lugares secos sobre solos pobres, arenosos ou pedregosos, recebe o epíteto de paludosus, indicador de preferências ecológicas exactamente opostas àquelas que a planta manifesta. Em nosso socorro, vem a Flora Ibérica esclarecer que o botânico francês Jean Poiret (1755-1834), autor da combinação, não quis usar de ironia ao escolher o nome Ranunculus paludosus: as plantas por ele descritas viviam mesmo em prados húmidos, e distinguem-se de outras que hoje recebem o mesmo nome por terem hastes mais ramificadas e mais robustas. É provável, segundo a mesma fonte, que esse amalgamento tenha que ser revisto, e que o "Ranunculus paludosus" de habitats secos venha a integrar uma espécie autónoma.

As plantas que vimos na Quinta das Carvalhas, no Douro, ocupando a berma de um caminho soalheiro e pouco frequentado, não ultrapassariam os 10 cm de altura. Tratando-se de um género em que a distinção entre espécies é por vezes problemática, convém notar, para uma identicação segura, o formato heterogéneo das folhas basais, que são todas longamente pecioladas mas variam de cordiformes a profundamente divididas (foto 4); e também (ver foto 3) a densa indumentação na haste e o cálice formado por sépalas patentes (ou seja, encostadas às pétalas e não reviradas para baixo, como sucede por exemplo no R. trilobus e no R. bulbosus).

Distribuído por toda a região mediterrânica, este Ranunculus paludosus de terrenos áridos só não faz o pleno das províncias portuguesas porque o Minho, culpado de excesso de pluviosidade, fica de fora. Como sucede com a maioria dos seus congéneres (contam-se mais de trinta só em Portugal), tem uma floração temporã, com início em Fevereiro, e esconde-se logo que o calor ameaça apertar. O Verão não é tempo de ranúnculos e são outras as flores a hastear a bandeira amarela.

21.6.14

Assobio taludo



Silene coutinhoi Rothm. & P. Silva

Entre alguns académicos há ainda o hábito saudável, e económico, de pensar com quadro e giz. Se depois precisam de levar esses rabiscos para casa, há os que, para não terem de os refazer, simplesmente fotografam o quadro como quem tira fotocópia de um rascunho. Nesse sentido, a máquina fotográfica acrescentou, ao seu papel de repositório de histórias das férias, a tarefa de apoiar a memória no trabalho. Contudo, a fotografia continua a ter a missão mais exigente de planificar fielmente objectos tridimensionais. E, para quem não gosta de viajar ou não pode fazê-lo, é útil que os fotógrafos, sejam eles vaidosos ou prestáveis, publiquem as suas obras.

A foto não tem o valor do original mas, se a técnica for apurada, é um excelente sucedâneo. Além disso, a versão digital do mundo facilmente se arquiva, já sem o antigo problema do gasto de rolos, e permite frequentemente esclarecer detalhes que nos escaparam ao vivo. Sem o registo de som ou de cheiros, a fotografia não dispensa, porém, que se cheirem as flores ou se ouça o piar da passarada. E, sobretudo, exige um referencial para que quem só conhece a imagem possa ter uma ideia aproximada do tamanho do que foi fotografado. Vejamos o exemplo desta Silene. Ao leitor parece-lhe uma planta baixa ou alta? A maioria das silenes que conhecemos são herbáceas pequenas, de flores que só são vistosas pela cor das pétalas ou porque a inflorescência é densa. Esta tem pétalas que mal se distinguem pelo tom amarelo pálido, a inflorescência é lassa e a planta tem um ar esquelético. Mas tem base lenhosa, é perene e é gigante, quando a comparamos com outras espécies do mesmo género - e este é um detalhe que não se adivinha pelas fotos.

Foi precisamente por ter quase um metro de altura que reparámos nestes exemplares à beira de uma estrada entre Mogadouro e Alfândega-da-Fé. Lembrou-nos a S. mellifera e a S. nutans, mas a ecologia que as Floras lhe atribuem (sítios secos e matos frescos com solo ácido) diferencia-a bem da primeira (que prefere substratos calcários), e a posição das flores, erguidas como trombetas, afastam-na da segunda, cujas corolas tubulares apontam para o chão (como indica o epíteto nutans).

Trata-se de um endemismo da Península Ibérica de que, por cá, só parece haver registos recentes no nordeste, embora a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, assegure que também ocorre no centro e na serra de Monchique. O nome específico, atribuído em 1943 pelos botânicos Werner Hugo Paul Rothmaler e António Rodrigo Pinto da Silva, homenageia o botânico António Xavier Pereira Coutinho.

16.6.14

Pérolas na areia



Sagina nodosa (L.) Fenzl

Eis uma planta que, distribuindo-se pelos três continentes do hemisfério norte (incluindo a Gronelândia), tem toda a vantagem em ser conhecida pela designação inglesa knotted pearlwort. Não respeitando ela fronteiras políticas ou divisões geográficas, é o inglês, como língua franca da globalização, que melhor se ajusta ao seu estilo de vida. Se insistíssemos em ser patriotas, haveria o inconveniente de nem a Sagina nodosa nem nenhuma das outras espécies do género (há sete em Portugal) terem algum nome comum na nossa língua, como aliás também não têm em castelhano ou em qualquer outra língua ibérica. De um modo geral, essas lacunas do nosso idioma dever-se-ão à reconhecida falta de apreço que sempre tivemos pelas coisas espontâneas da natureza. Os povos urbanizados do norte da Europa puderam, muito antes de nós, desenvolver uma apreciação estética do mundo natural só ao alcance de quem não cultiva batatas para sobreviver.

Neste caso, porém, a ausência de nome comum em português pode desculpar-se com a raridade da planta em território nacional. Confinada às depressões húmidas em areias litorais a norte do Mondego, ela nunca foi abundante, e hoje em dia, com a rarefacção de tais habitats, sê-lo-á ainda menos. Só a conhecemos de Mira, onde é habitual encontrá-la junto às muitas lagoas e charcos que pontuam os pinhais. Apesar de a Flora Ibérica e outras obras de referência indicarem um período de floração tardio, de Junho a Setembro, em Mira ela adopta a atitude pragmática de florir a partir do início de Maio, logo que os charcos começam a secar e antes que a estiagem se torne demasiado severa. A planta é pequena e débil, com não mais que 10 cm de altura e hastes muito finas e ramificadas, mas as flores, com cerca de 1 cm de diâmetro, são suficientemente vistosas para se destacarem contra o amarelo pálido da areia.

O nome pearlwort, ou erva-das-pérolas, aplica-se a todas as espécies do género Sagina, e talvez se explique pela forma quase esférica dos botões florais. Já o epíteto nodosa, que deu knotted em inglês, refere-se aos verticilos de folhas curtas (não observáveis nos exemplares acima fotografados) que formam nós muito conspícuos ao longo dos caules. A erva-nodosa-das-pérolas destaca-se ainda entre as suas congéneres porque as flores têm pétalas bem visíveis, em geral duas a três vezes maiores do que as sépalas. A regra no género Sagina, como se pode confirmar nesta página, é que as pétalas sejam insignificantes ou mesmo inexistentes.

7.6.14

Espelho nosso


Legousia scabra (Lowe) Gamisans

Estima-se que em Portugal, continente e ilhas, ocorram cerca de 4 mil espécies de plantas, algumas exóticas. Embora este número seja actualizado de vez em quando, para incluir as novidades e, sobretudo, para se adaptar às frequentes revisões taxonómicas, certo é que estamos ainda longe de as ter visto todas. Mas há que reconhecer que a apresentação de plantas que aqui fazemos tem os dias contados e, como aconselharia o nosso estimado Carlos Silva, teremos de passar às borboletas.

Façamos, porém, uma pausa. Se bastasse aos botânicos catalogar as plantas que vêem, sem ter em conta a multiplicidade de lugares onde podem ser encontradas e, consequentemente, desvalorizando as associações entre elas e a necessidade de programar a sua conservação de um modo compatível com o nosso uso do território, a botânica seria uma ciência com fim à vista. Terminada a listagem, bastaria manter um serviço eficiente de secretariado para pôr em dia as perdas e ganhos da biodiversidade, mais aquelas que estes. Ora o que lemos nas Floras mostra que o trabalho dos botânicos (e, mais geralmente, dos biólogos) não é tarefa miúda ou sequer à beira da conclusão. Além de ser essencial conhecer as plantas em detalhe, um saber que nos dias de hoje exige informação genética e domínio de aspectos teóricos sofisticados, é preciso ter um plano geral das suas escolhas de habitat, que ignoram as linhas de fronteira que traçamos nos mapas, e responder pela coexistência de animais e plantas, num programa global de sobrevivência. Francamente, cuidar de um mundo tão estragado, constantemente sujeito a perturbações, é tarefa de valentes. Estranha-se que quem tem poder de decidir sobre o nosso ambiente não estime a valia destes cientistas e não se guie por eles.

Para os amadores, que se passeiam pelo campo quando lhes apetece, e que amuam se não encontram as raridades que querem observar, um trabalho bem sucedido de conservação das plantas é um passaporte para inúmeros passeios e lições, de botânica e, às vezes, grego ou latim. A planta das fotos, uma herbácea esguia mas de média estatura que vimos nos calcários de Santo Adrião, em Vimioso, dá disso testemunho (pode ver aqui um mapa das populações de que há registo em Portugal). O nome do género homenageia Bénigne Legouz de Gerland (1695-1774), político francês e entusiasta pelas ciências e pelas artes, que deu a Dijon um centro de História Natural, um jardim botânico e uma escola de Belas-Artes; o epíteto latino scabra refere-se à aspereza do caule da planta. Em inglês, a espécie Legousia hybrida é conhecida como espelho-de-Vénus.

Quando o sol aquece, as flores da Legousia abrem completamente, formando um prato, e exibem um azul quase púrpura; caso contrário, reduzem-se a uma campânula meio fechada de cor azul pálida. Dias seguidos de chuva e nevoeiro em Maio podem levar as flores a não desabotoar de todo, restando-lhes a auto-polinização. Por isso, são bem-vindos os dias soalheiros que, diz a ciência das nuvens, se avizinham.


Minas de Santo Adrião, Vimioso

3.6.14

Palha azul



Galium glaucum L. subsp. australe Franco

No tempo em que os rios não tinham o seu percurso seccionado por muralhas de betão, usava-se a expressão «leito de cheia» para designar aquelas zonas que só ficavam submersas quando o caudal engrossava. Essas oscilações de nível acompanhavam o correr das estações, fazendo com que a mesma paisagem assumisse ao longo dos meses roupagens muito variadas. Agora, junto às grandes barragens, há uma única mudança, brutal e estática, no nível das águas: a montante, estende-se um imenso lago eutrofizado; a jusante, escoa-se um fio de água que mantém a custo um rio moribundo. E é assim de Janeiro a Dezembro.

A vegetação de leito de cheio, que tão ameaçada está em Portugal com a artificialização dos rios, é muito especializada, e em geral nem gosta de molhar os pés, preferindo em cada ano esperar que as águas desçam para cumprir o seu ciclo vital. É justo questionar tão dúbia preferência: para quê estar tão perto de um rio se, para a sobrevivência da planta, é necessário que ele recue? A resposta é de índole quase filosófica: por muito precário e improvável que seja um nicho ecológico, a natureza não o pode desperdiçar, e há sempre uma planta adaptada a viver nele.

A jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, a redução do caudal do Douro é quase permanente, apenas contrariada nas épocas de muita chuva, quando o rio, alimentado por descargas sucessivas, revive glórias antigas e ameaça inundar a baixa da cidade. Mas esses episódios são esporádicos e de curta duração. A vegetação ribeirinha mudou definitivamente, dominada agora por um salgueiral exuberante que ocupa até as ilhotas surgidas com o emagrecimento do rio. Debruçamo-nos no paredão e, como botânicos amadores incorrigíveis, invade-nos a vontade de observar de perto essas manchas verdes. Como podemos descer até elas? Alugamos um barco na Régua? Saltamos um portão com avisos de perigo e de proibição de passagem a pessoas estranhas ao serviço? Dois pescadores à linha que não parecem estar ao serviço da EDP respondem-nos quando de longe os interrogamos aos gritos. Sim, há uma passagem debaixo da estrada por um ribeiro entubado que agora está seco. O acesso, escondido entre silvas, mal se vê, e o túnel, baixo e com 20 a 30 metros de comprimento, é de uma escuridão absoluta. No final, para rematar, há um lanço de escadas estreito e íngreme. Completamos a travessia não sem alguma palpitação e suores frios, à mistura com os suores quentes próprios do dia escaldante. Estamos nas rochas na margem esquerda do Douro, a uma centena de metros da barragem. Das surpresas botânicas que nos aguardam merecem realce a rara Petrohagia saxifraga e este azul Galium glaucum, não assim tão raro mas aqui talvez no limite oeste da sua distribuição em Portugal e, a uma altitude de 60 m, bem fora do intervalo de 345-730 m prescrito pela Flora Ibérica.

O género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw por algumas espécies terem servido para enchimento de colchões, é dos mais diversificados da flora portuguesa. As 21 espécies listadas para o nosso país incluem plantas anuais, outras perenes, umas rastejantes e minúsculas, outras erectas que podem ultrapassar 1 metro de altura. Caracterizam-se pelas folhas verticiladas, em grupos de quatro ou mais, e pelas pequenas flores brancas (às vezes amarelas), de quatro pétalas, dispostas em cachos terminais ou axilares. Com os seus quase 80 cm de altura,o G. glaucum está no grupo dos mais taludos do género, e pela floração profusa, visível de Maio a Julho, é certamente dos mais atraentes. É uma planta perene que frequenta lugares pedregosos e ácidos, não necessariamente perto de algum rio. A subespécie australe, que já foi espécie autónoma sob o nome de Galium teres, é endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica.