14.4.15

Decifrar os lábios



Cheilanthes maderensis Lowe

São motivo de justificado espanto o zelo e a perspicácia com que os botânicos, esses mexeriqueiros, investigam a vida amorosa dos fetos. Um leigo até apostaria que o assunto é vazio, já que (julga ele saber) é pelas flores que as plantas se amam e se reproduzem, e os fetos nem flores têm. Mas também algum historiador ingénuo poderia pensar que, por força do celibato, nada haveria a contar da vida carnal do clero católico, e afinal foram muitos os filhos de pais incógnitos gerados no silêncio dos mosteiros e das casas paroquiais.

A promiscuidade vegetal tem aspectos interessantes, em particular entre as pteridófitas. Quando se cruzam duas espécies distintas, o mais provável é que o híbrido resultante seja estéril, já que os cromossomas do "pai" e da "mãe" são incompatíveis e não conseguem formar pares perfeitos. Um modo de fintar a esterilidade é, em vez de tentar o emparelhamento, duplicar o número cromossómico, juntando todos os cromossomas dos dois progenitores. O filhote dessa relação é chamado de poliplóide (triplóide, tetraplóide, pentaplóide e assim por diante, dependendo de quantas cadeias de cromossomas herdou); e, tal como sucede com os híbridos, exibe caracteres morfológicos intermédios entre as duas espécies. Trata-se, contudo, de uma nova espécie, capaz de se multiplicar por reprodução sexuada. Ainda que muito raramente um acasalamento interespecífico resulte em poliploidia, calcula-se que ela seja responsável por mais de metade das espécies vegetais existentes à face da Terra. O mecanismo darwinista de evolução e adaptação graduais não é pois o único a actuar na diferenciação das espécies.

Das cinco espécies de Cheilanthes existentes na Península Ibérica (e em Portugal), duas delas (C. hispanica e C. maderensis) são diplóides, significando isto que se situam na base da árvore genealógica. Destas duas e dos seus parceiros de ocasião descendem as restantes três espécies, todas elas tetraplóides: C. guanchica, C. acrostica e C. tinaei. O facto de os poliplóides guardarem a informação genética completa dos seus antepassados imediatos permite identificá-los mesmo em casos de paradeiro incerto. Assim, o que hoje aqui trazemos é o retrato de uma família algo disfuncional, em que se vêem a mãe (C. maderensis, em cima) e o filho (C. guanchica, em baixo) mas falta o pai (C. pulchella), que ultimamente só tem sido visto nas ilhas Canárias. Se a genética fornece provas inequívocas deste parentesco, aquilo que nos é dado observar (com a ajuda da lupa ou de fotos muito ampliadas) torna-o ainda mais plausível: tanto na forma das pínulas como na dos pseudo-indúsios (que no C. maderensis são fragmentados e no C. pulchella revestem continuamente as margens), o C. guanchica é a média aritmética perfeita dos seus progenitores.

Todos os Cheilanthes gostam de lugares secos, vivendo em fendas de rochas ou de muros com maior ou menor exposição solar. Não sendo o apreço pelo sol ou o grau de secura do habitat um dado fiável para diferenciar as espécies, é porém útil saber que o C. acrostica prefere rochas calcárias (sendo por isso o único dos cinco que ocorre nos afloramentos calcários do Centro Oeste, desde Sicó até à Arrábida), que o C. guanchica também gosta de substratos básicos, e que os restantes três se refugiam em rochas siliciosas ou (no caso do C. hispanica) em quartzitos. Sendo o C. hispanica de fácil identificação pela cor ferruginosa do verso das frondes, resta-nos o problema real de distinguir o C. maderensis do C. tinaei. Além do que está explicado nesta página, é de assinalar a presença de pêlos glandulares só no C. tinaei, e de algumas páleas (ou pequenas escamas) ao longo da ráquis do C. maderensis (3.ª foto acima).

O regresso do C. guanchica aqui ao escaparate justifica-se não só para compor este retrato de família, mas também para celebrar o nosso reencontro, na serra do Monchique (Algarve), com um feto que antes apenas víramos na ilha do Pico (Açores).




Cheilanthes guanchica Bolle (fotografado em Monchique, Algarve)

11.4.15

Sementes que cantam


Ilha de Tavira: comboio da praia do Barril

Planeámos uma visita à ilha de Tavira em pleno Inverno para a conhecer sem o rebuliço da época balnear e ali ver algumas das plantas do areal que preferem florir durante a época fria. Chegados ao aldeamento de Pedras d'el Rei, cruzámos uma ponte estreita e bastante curvada, e embarcámos num vagão com bancos de escola primária, puxado por uma máquina a vapor de brinquedo, que nos levou, sem ruído nem pressa (a distância era curta: apenas 1 Km), até à praia do Barril. Apeados perto do mar, deparámo-nos com várias casas de apoio a veraneantes e com uma longa fiada de casuarinas (Allocasuarina torulosa) - árvores essas que, sem dúvida, garantem abençoada frescura nos meses quentes, mas não condizem com a paisagem que esperávamos encontrar num habitat prioritário do Parque Natural da ria Formosa.

Durante a viagem de comboio notámos, entre a vegetação predominantemente rasteira, uns arbustos de ramagem ondulante pejada de flores brancas.




Retama monosperma (L.) Boiss.

Reconhecêmo-los porque já havíamos visto no Alentejo um arbusto aparentado (Retama sphaerocarpa) que dá flores amarelas durante a Primavera-Verão, e cujos frutos, que têm a casca dura e a semente solta (raramente é mais do que uma) a chocalhar lá dentro, soam como minúsculas cabaças de percussão.

A retama (vassoura em espanhol) que vimos na praia do Barril, e de que se conhecem numerosas populações em dunas secundárias ou em pinhais costeiros do litoral centro e sul do país, é hoje em dia mais fácil de avistar porque tem sido utilizada na revegetação dos taludes e separadores das auto-estradas. Junto ao mar, ela sabe proteger-se do vento e da maresia: os talos novos são penugentos e as flores também se agasalham com basto pêlo; além disso, os galhos sem espinhos são maleáveis e abanam sem quebrar (por isso, fazem-se com eles vassouras afamadas). Nas estradas terá de resistir aos herbicidas e às roçadelas frequentes que por certo deformarão o porte de tamargueira que lhe é característico.

O género Retama, que já se chamou Lygos (termo grego que alude aos talos flexíveis) e talvez venha a integrar-se no género Genista, abriga apenas duas espécies espontâneas na Península Ibérica. A de flores brancas é conhecida como piorno-branco e (quem sabe, também entre os ingleses que frequentam o Algarve) como bridal veil broom.

6.4.15

Pequenas, amarelas e breves



Linaria munbyana Boiss. & Reut.

Do Algarve a Marrocos ou à Argélia é um pequeno salto, que as plantas deram muito antes do homem e das divisões geopolíticas por ele criadas. Embora discreta e pouco vista, quem sabe se por culpa da floração precoce, a linária de hoje fornece mais um exemplo desses laços transmediterrânicos. Completada a primeira dezena da nossa série de plantas algarvias, verificamos que, com excepção dos dois endemismos vicentinos, todas elas marcam presença tanto a norte como a sul do mar Mediterrâneo. E a Linaria munbyana faz ainda parte, com a Aristolochia baetica e a Phlomis purpurea, do clube mais selecto das plantas que são exclusivas dos quatro países mais ocidentais da bacia mediterrânica: Espanha, Portugal, Marrocos e Argélia. É tentador perguntar se essas plantas euro-africanas são mais de cá ou de lá: tiveram origem na Península Ibérica e daqui passaram para o norte de África, ou foi ao contrário? Talvez a pergunta seja irrespondível ou mesmo disparatada, pois os mares e os continentes não tiveram sempre a configuração que hoje apresentam. Mas, no que toca ao seu reconhecimento taxonómico, a Linaria munbyana é mais magrebina do que ibérica, pois foi a partir de exemplares colhidos na Argélia, perto da cidade costeira de Orã, que o suiço Pierre Edmond Boissier (1810-1885) e o francês Georges François Reuter (1805-1872) primeiramente descreveram a espécie na obra Pugillus plantarum novarum Africae borealis Hispaniaeque australis (Genebra, 1852) - título que em português dá Um punhado de novas plantas do norte de África e do sul do Espanha. O nome que lhe atribuíram, dedicado a Giles Munby (1813–1876), botânico inglês formado em Edimburgo e em Paris, dá testemunho da crescente presença europeia num país que tinha sido anexado pela França em 1830: Munby viveu e trabalhou na Argélia de 1839 a 1860, enriquecendo o conhecimento da flora local com centenas de novas espécies.

As fotos não enganam, e esta é uma daquelas linárias que só admitem viver nas dunas da beira-mar. Do Tejo para norte esse grupo parece ter um único representante, mas se descermos pela costa alentejana a diversidade vai aumentando, e são pelo menos quatro as linárias dunares que enfeitam a costa algarvia. De todas elas, a Linaria munbyana - atingindo 2 a 6 cm de altura, com flores de 1 cm ou menos de diâmetro, e floração de Fevereiro a Março - é certamente a menos vistosa e a que menos vezes é observada. Como planta anual que é, tem a sorte de cumprir todo o seu breve ciclo de vida antes de as praias onde vive serem tomadas de assalto pelos veraneantes. A sua fortuna pode, contudo, oscilar bastante, com as populações a variarem de uns anos para os outros entre muitas centenas e poucas dezenas de indivíduos. A acreditar no que pudemos ver, 2015 terá sido um bom ano para ela.

2.4.15

O lince e a sequóia

Imagine-se que, depois de toda a comoção e efervescência mediática com o retorno do lince-ibérico a Portugal, é chegado o momento de soltar na natureza os primeiros linces criados em cativeiro. Com muitos jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, políticos e biólogos a postos para a ocasião, eis que os bichos que saem das jaulas de transporte, algo sobressaltados por tanta gente à sua volta, são simples gatos domésticos e não os desejados linces. Contudo, não se ouve qualquer reparo. Talvez apenas ao ministro pareça que alguma coisa nas orelhas dos felinos agora postos em liberdade (e que rapidamente desaparecem de vista) não bate certo com as fotos que consultou à socapa na Internet antes de vir para a cerimónia. O ministro, porém, acha prudente calar-se: não lhe cabe pôr em dúvida a competência dos técnicos especializados que ajudaram a criar os alegados linces, e que agora se quedam emocionados vendo-os ir à sua vida. Quanto aos jornalistas, estão ali para propagar a boa nova e não para fazer perguntas impertinentes. E assim acontece: televisões, redes sociais, imprensa escrita - toda a comunicação social, mostrando imagens dos gatinhos, garante que os linces estão de volta a Portugal. Como de costume, há um ou outro São Tomé empedernido que duvida até do que vê, mas felizmente ninguém leva a sério esses poucos incréus que tentam refutar a notícia chamando a atenção para o pormenor das orelhas.

Se um tal episódio de ignorância e credulidade colectivas é manifestamente improvável quando se trata de animais (embora seja comum a confusão entre lobos e cães assilvestrados), já o mesmo não sucede com as árvores. De facto, a história que a Câmara do Porto engendrou à volta do abate e substituição da sequóia-gigante do Jardim do Carregal teve um desfecho não menos burlesco do que a história imaginária do lince-que-afinal-era-gato. Nem sequer faltaram jornalistas para amplificar o dislate. Jornalistas que, quando para ele alertados, responderam com o silêncio que as pessoas de bem reservam aos interlocutores inconvenientes.

A Câmara Municipal do Porto (CMP) não trata as árvores com especial carinho, sendo bem mais lesta a abatê-las (por razões que nem sempre se entendem) do que a substituí-las. As tílias que há três ou quatro anos foram cortadas à frente dos jardins do Palácio de Cristal nunca foram substituídas. Pelo contrário, encheram-se as caldeiras com paralelipípedos. Noutros locais da cidade onde se fez o mesmo (e foram muitos) usou-se cimento ou alcatrão, mas o resultado foi idêntico: desapareceram não só a árvore mas o próprio lugar da árvore. E o modo como a CMP lida com as suas árvores em nada se alterou com a mudança do poder político.

Mas houve uma coisa que mudou. Se ao vereador faltam força política, competência ou vontade para melhorar os serviços sob a sua tutela, já lhe sobra argúcia para entender que, muito mais do que fazer as coisas bem, importa noticiá-las bem. Entre nós, o desvelo encenado pela árvore ou pela natureza, mesmo sendo oco (coisa que nenhum jornalista se dá ao trabalho de averiguar), garante sempre boa imprensa. Em vez de se plantarem as árvores que fazem falta nas ruas que a CMP se encarregou de despir, o vereador determina que será plantada uma só árvore, mas essa árvore e os eventos criados a propósito dela hão-de ser notícia do maior destaque.

E as coisas pareciam correr a preceito. A morte da sequóia-gigante (Sequioadendron giganteum) do Jardim do Carregal e a sua longamente anunciada substituição renderam, só no jornal Público, nada menos que quatro notícias ao longo de 15 meses (1, 2, 3, 4). Era o vereador a lamentar a perda de uma árvore classificada (coisa que ela nunca foi), era a promessa de que seria substituída por outra da mesma espécie, era o painel com a foto da falecida em contra-luz, era a colaboração dos alunos de Belas Artes.

O leitor por certo já adivinhou o desfecho da história. No meio de tanta festa e animação cultural à volta da árvore, ninguém se lembrou de olhar para ela com olhos de ver. No lugar da anunciada Sequoiadendron giganteum (sequóia-gigante), o que mora no Jardim do Carregal desde 19 de Março é mais um exemplar de Sequoia sempervirens (sequóia-sempre-verde). A segunda destas espécies, ao contrário da primeira, é frequente nos jardins do Porto e de outras cidades portuguesas. No próprio Jardim do Carregal há mais uns vinte exemplares de sequóia-sempre-verde, alguns deles a meia dúzia de metros do exemplar agora plantado.

As duas sequóias têm folhagens muito diferentes, e não é preciso ser-se um fino conhecedor de árvores para as distinguir. Isso mesmo é ilustrado pelas fotos que se seguem, tiradas esta semana nos jardins do Carregal e da Cordoaria (é no último que vegeta uma das duas únicas sequóias-gigantes do Porto; a outra está no Parque de Serralves).


Sequoia sempervirens (D. Don) Endl. - plantada em 19 de Março de 2015 no Jardim do Carregal



Sequoiadendron giganteum (Lindl.) J. Buchholz - fotografada no Jardim da Cordoaria

31.3.15

Candeias de veludo



Phlomis purpurea L.

Há algum tempo comprámos uma lupa pequena para levar no bolso durante os nossos passeios pelo campo. Veio numa caixinha que se desdobra e, desse modo, nos permite segurar a lupa sem tocar no vidro. É frequente usá-la, por exemplo, para identificar as espécies de Cheilanthes, cuja destrinça é tarefa delicada. Bem, esse é o uso sério da lupa. Nos intervalos, ela deixa-nos entrever um mundo de coisas minúsculas que não sabíamos que existiam e que raramente investigamos.

Veja-se, por exemplo, o aspecto sedoso da planta das fotos. Quando tocamos e espiamos à lupa o veludo que recobre quase totalmente as folhas, os caules e os capuchos das flores, notamos que ele é feito de pêlos estrelados e rijos. Esta herbácea alta, de floração primaveril, habita essencialmente o sul do país (Algarve, Baixo Alentejo e Beira Litoral; e, mais geralmente, é nativa do terço sul da Península Ibérica e do noroeste de África), onde as temperaturas são amenas quase todo o ano. Não se exclui, porém, a necessidade de algum agasalho das flores nos dias mais frios e sobretudo de muita sombra que refresque no Verão. E, à semelhança das pesadas roupas de quem vive no deserto, um indumento denso é um mecanismo hábil para controlar a temperatura e a perda de água por evaporação.

Mas será só por isso que tantas plantas são hirsutas e têm pêlos aparentemente tão agressivos? Decerto uma camada desta penugem também garante protecção das partes mais frágeis e vitais da planta (folhas e flores, hastes das inflorescências) contra insectos que, se tentam andar sobre ela ou dar-lhe uma dentada, tropeçam na malha de pêlos, ficam de patas presas, picam-se, escorregam em glândulas com goma tóxica ou têm de mastigar uma lã crespa e espinhosa. Alguns insectos acabam por aprender a lidar com estes entraves, e há os que sabem caminhar na planta devagar e em segurança, ou os que têm tromba longa para debicar a planta sem terem de penetrar até à seiva pelo arame farpado. E não será apenas para afastar perigos que as plantas se cobrem de pêlos: quando já há frutos, os pêlos estão também mais secos e fácilmente se agarram a quem passa, garantindo desse modo uma dispersão mais eficiente para novos habitats.

Em Fevereiro, é muito improvável que a marioila esteja em flor. Contudo, no Barrocal algarvio, em orlas de matos ou lugares soalheiros com solo básico, as populações desta Phlomis são tantas e tão abundantes que a probabilidade de encontrar pelo menos uma haste florida é já significativa. E cá está ela: as fotos mostram as folhas decussadas de nervuras salientes; os andares de cerca de oito flores em cada verticilastro a rodear o caule (de que a penugem esconde a secção quadrada); o cálice de brácteas imbrincadas; o lábio superior da flor (com cerca de 13 mm) protegendo a entrada; e o lábio inferior largo e quase horizontal, a oferecer uma pista de aterragem confortável aos polinizadores.

O nome da planta, do grego chama, alude ao aspecto das hastes florais que lembram as torcidas das lamparinas (acesas, diríamos, no caso da Phlomis lychnitis). Não sabemos se, de facto, terá tido este uso, como alega a Flora Ibérica, mas alguns estudos recentes de cientistas espanhóis confirmam a relevância de um outro uso tradicional da Phlomis purpurea: ela contém substâncias com efeito anti-inflamatório bastante eficiente contra problemas intestinais. Bom seria que um tal benefício não se ficasse pelas cobaias de laboratório.

28.3.15

Estrela do mar



Asteriscus maritimus (L.) Less.

As falésias do Barlavento algarvio, vistas de cima como só aos pássaros é dado ver, aparecem entre Abril e Maio delineadas com o traço amarelo-vivo das estrelas-do-mar em floração. Pelo menos é assim que nós, que não somos pássaros, as imaginamos; mesmo que o fôssemos, a nossa rota migratória teria cruzado demasiado cedo os céus do Algarve. São tantas as estrelas-do-mar que em qualquer altura do ano há sempre alguma flor que desrespeita o calendário. E não o faz por engano, mas sim obedecendo à prática comercial em que se dá a ler de graça o primeiro capítulo de uma obra, e quem quiser saber a continuação que compre o livro. Aqui trata-se igualmente de capítulos, pois é esse o nome técnico das inflorescências dos malmequeres e demais asteráceas. Vimos inúmeras plantas sem capítulos, vimos capítulos já secos da temporada anterior, e vimos, nas arribas do cabo de São Vicente, com o coração aos pulos, o primeiro, segundo e terceiro capítulos da grande saga de centenas de milhares de capítulos que se prepara para a Primavera de 2015. Fôssemos nós mais abonados de tempo, o engodo teria funcionado na perfeição e o regresso estaria marcado para breve. Ao contrário do que muitas vezes sucede com os livros, não nos sentiríamos enganados, pois o desenvolvimento da história não iria trair, muito pelo contrário, o fulgor dos capítulos preliminares.

Não sendo a zoologia o nosso assunto habitual, o leitor terá notado que não usamos estrela-do-mar para designar um bicho marinho, mas sim a planta que aparece ilustrada nas fotos. Dado ser pequeno o risco de confusão, não é inédito animais e plantas terem iguais nomes vernáculos: um exemplo é dado pelas anémonas, que tanto podem ser do mar como do bosque. A tradução à letra do nome latino Asteriscus maritimus seria estrelinha-do-mar, mas preferimos dispensar o diminutivo. Certo é que este Asteriscus merece designação mais bonita do que o pampilho-marítimo registado em certas obras de referência, e que o nome estrella de mar é já usado em castelhano e em catalão.

Endémica da metade oeste da bacia mediterrânica, a estrela-do-mar é uma planta perene, de base lenhosa, formando as almofadas típicas das plantas que crescem em lugares muito castigados pelo vento, como são as arribas onde costuma fixar-se. A reacção ao ambiente agreste não a levou, contudo, a armar-se de espinhos como fez a sua colega vicentina, igualmente almofadada mas imprópria para nela recostarmos a cabeça. As suas folhas, agrupadas em atraentes rosetas, têm um aspecto acetinado, e os capítulos, que são de um amarelo vivo e surgem em grande profusão, têm cerca de 4 cm de diâmetro.

Homenagem merecida foi a que Chris Thorogood e Simon Hiscock prestaram à estrela-do-mar ao colocá-la na capa do seu livro Field Guide to the Wild Flowers of the Algarve (Kew Publishing, 2014). É uma escolha muito atraente, predispondo-nos de imediato a gostar de um livro que, não sendo isento de defeitos (algumas omissões sérias, meia dúzia de erros de identificação, fraca discriminação entre autóctones e exóticas), está bem ilustrado e bem escrito, com verbetes justos que realmente permitem reconhecer as espécies descritas.


Costa algarvia perto de Ferragudo

24.3.15

Espinhos de São Vicente



Apesar de o sudoeste alentejano e a costa vicentina pertencerem à rede de áreas nacionais protegidas e nela ocuparem um lugar de destaque, não conhecemos nenhum guia português das plantas dessa região com chaves esclarecedoras para quem queira identificar o que observa (o livro 200 Plantas do SW Alentejano & Costa Vicentina, publicado em Dezembro de 2014, é apenas uma listagem muito incompleta e pouco criteriosa da flora da região). Há, porém, um Field guide to the wild flowers of the Algarve, elaborado por dois botânicos da Universidade de Bristol e publicado em 2014 pelos Royal Botanical Gardens, de Kew. É uma obra em inglês que dedica idêntica atenção a endemismos vicentinos ou da Península Ibérica (como o Narcissus gaditanus, que descreve como semelhante ao N. bulbocodium), a plantas que encontramos quase em qualquer esquina (como a Scabiosa atropurpurea, que aliás ilustra a página do título) ou a plantas exóticas invasoras. Contém ainda alguns erros fotográficos, mas é a ajuda que temos em papel. Se o leitor é dos que se faz sempre acompanhar por um computador com ligação à internet, tem uma opção melhor: (a) abra o Flora-On e assinale na coluna da direita o atalho de pesquisa geográfica; (b) o país aparece-lhe então em três modelos, e pode escolher o que indica as áreas da Rede Natura 2000; (c) se seleccionar a da costa vicentina, receberá informação detalhada, com imagens, sobre quase toda a flora dessa região.

A estrada que liga Sagres ao cabo de S. Vicente termina nas falésias, amarelas do material margoso compactado, meio calcário meio arenoso, que as compõe. Perto do farol a inclinação é muito acentuada, mas permite uma descida de alguns metros que nem todos os visitantes arriscam. Logo no topo podem ver-se umas almofadas densas com flores brancas de quilha (cerca de 10 mm) e estandarte (perto de 15 mm), folhas compostas cuja ráquis termina num espinho, de faces penugentas e tom verde-cinza - e nem é preciso um guia da flora para sabermos que se trata da estranha leguminosa de que, em Portugal, só há registos na Península de Sagres.



Astragalus tragacantha L.

Este Astragalus ocorre em França (e o holótipo é de Marselha, antiga Massilia, por isso já se chamou Astragalus massiliensis) e nuns poucos habitats junto ao Mediterrâneo e no nordeste de Espanha. Quanto a designações vernáculas, a Flora Ibérica regista em português a expressão alquitira-do-Algarve (ou alcatira, cuja origem os dicionários atribuem ao árabe al-kathirá), e em catalão o malicioso cuxins de monja. O epíteto específico, tragacanthus, é o nome latino dado às leguminosas com espinhos que produzem uma goma designada por adraganta ou tragacanta.

21.3.15

Um segredo do Barrocal



Globularia alypum L.

A menos que sejam reforçadas por obstáculos naturais difíceis de transpor, por exemplo rios de grosso caudal como o Douro ou cadeias montanhosas como os Pirenéus, as linhas de fronteira não têm grande significado para as plantas. Excepto talvez para aquelas do género Globularia, que revelam inexplicável relutância em cruzar a fronteira luso-espanhola. São nove as espécies assinaladas na Península Ibérica, mas só duas delas mantêm, e com fraco empenho, pequenas delegações em território português. A primeira é a Globularia vulgaris, que existe em dois ou três locais da serra de Aire, sempre em bermas de estrada, talvez à espera de boleia que a leve daqui para fora, e reaparece escassamente no lado português do Douro internacional, contemplando saudosa a margem oposta do rio que nunca deveria ter atravessado. A segunda é a Globularia alypum, abundante na costa mediterrânica espanhola mas limitada no nosso país a uma única e muito pequena população no Barrocal algarvio. Essas 20 ou 30 plantas ao cimo de uma encosta seca revestida por tomilhos vários foram descobertas em 1995 por Carlos Pinto Gomes, fazendo então a Globularia alypum a sua entrada oficial na flora portuguesa. A notícia, porém, não foi a tempo de ser incluída na Flora Ibérica, apesar de o vol. XIV, onde consta o capítulo sobre o género Globularia, ter visto o prelo seis ou sete anos mais tarde, em Dezembro de 2001. Agora que a vimos e fotografámos, coisa que nunca teríamos conseguido sem a amabilíssima ajuda do André Carapeto (que sobre a planta escreveu este informativo texto), acreditamos que a G. alypum, mesmo que não consiga ou não queira expandir-se no Algarve, está segura num recanto que parece a salvo de perturbações, pois não é sítio de passagem para ninguém nem é propício ao pastoreio.

Se se assemelham nos capítulos florais de um azul intenso, cada um deles reunindo dezenas de minúsculas flores, já no aspecto geral as duas globulárias portuguesas não podiam ser mais contrastantes: a G. vulgaris é uma herbácea que durante boa parte do ano fica reduzida a uma roseta de folhas basais; a G. alypum é uma planta lenhosa muito ramificada que pode atingir um metro de altura, com folhagem perene que facilmente se confunde com a do Osyris lanceolata, arbusto hemiparasita comum no Algarve. Contudo, mesmo na ausência de flores ou de frutos (os do Osyris lanceolata são drupas avermelhadas), os dois arbustos podem diferenciar-se pelo porte (o O. lanceolata é mais avantajado) e pelo facto de a G. alypum apresentar os ramos claramente estriados.

Falando de flores, eram poucas as que havia para admirar nos pés de G. alypum que pudemos observar, e de facto já sabíamos pelo André que a floração se concentrava no período de Dezembro a Janeiro. Mas, a acreditar no testemunho da Flora Ibérica, nos outros países onde a espécie se distribui as flores podem acontecer-lhe em qualquer altura do ano.

17.3.15

O ajardinamento da ria Formosa



A ria Formosa é um sapal salgado (não uma ria) bastante extenso, com inúmeros canais, salinas, ribeiras e praias, e um cordão dunar notável. Para além de ser bafejada por uma flora extraordinária, é um habitat preferido por tantas aves que se justifica plenamente um compromisso internacional de conservação. Como sabemos, por cá um tal programa de protecção significa que se aceita que é uma área protegida se isso não impedir a fruição do lugar, e consequente licença de construção de casario que se abeire de zonas sensíveis. Esse avanço sobre os areais e a pressão do turismo no Algarve talvez venham a arruinar este ecossistema que, em teoria, todos gostaríamos de preservar.

Na maré baixa, os sedimentos do fundo da zona lagunar indiciam alguma poluição, que o cheiro parece confirmar. Na ria Formosa conjugam-se as influências do oceano Atlântico e do Mediterrâneo, e isso nota-se pelos exemplares de flora mediterrânica e atlântica que ali coabitam. Em Abril, cobre-se do amarelo da elegante parasita Cistanche phelypaea, que em Fevereiro vimos a despontar. Nessa altura, as cores dominantes eram o glauco da Halimione portulacoides, o castanho-ferroso do Arthrocnemum macrostachyum e o verde-cinza dos inúmeros arbustos de Limoniastrum, que revestem as partes mais altas do sapal e começavam então a florir.



Limoniastrum monopetalum (L.) Boiss.

Esta Plumbaginaceae de folha perene é nativa de sapais e estuários da região mediterrânica, mas há quem assevere, sem todavia o provar, que é planta introduzida na ria Formosa: não sendo afinal assim tão formosa, a ria terá talvez sido ajardinada; nessa intervenção de que a história não guarda lembrança estaria a origem de algumas das plantas que agora lá vegetam; em particular, a lavanda-do-mar, de reconhecido valor ornamental, teria ali sido introduzida por ter um período de floração longo, por formar populações densas e, quem sabe, por poder actuar como despoluente. Custa a crer, mas é esta, por exemplo, a opinião da Flora Ibérica. Pelo contrário, no vol. 2 (publicado em 1984) da Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, e em obras mais recentes sobre a flora portuguesa (como o Guia de Campo - as árvores e os arbustos de Portugal continental, edição de 2007 do Público e da LPN) dá-se como certo que é nativa em Portugal. Parece, contudo, que a voz dos botânicos portugueses sobre a flora nacional é demasiado tímida. No portal Flora-On só há registos da presença desta planta na costa sul do Algarve, mas o Guia da LPN indica que também ocorre na costa Vicentina e no estuário do Sado.

Depois de admirarmos as espigas com brácteas coriáceas e flores de corola rosa-violeta, tubular e assalveada, pudemos reparar como é que estes quase-arbustos enfrentam a subida das marés: garantem que as inflorescências e os raminhos novos nascem no topo da folhagem e, como nós, arregaçam as folhas, deixando vulneráveis apenas as raízes e os talos na base. As folhas são alternadas, de um verde azulado, com uma bainha que lembra uma argola na junção ao caule, e têm as faces salpicadas de pedrinhas brancas. Julgámos tratar-se de cristais de sal, mas não é só isso: através dessas glândulas, e por um processo enzimático ainda não inteiramente entendido, a planta elimina outros excessos e toxinas que absorve em ambientes contaminados.

Não vimos frutos, mas são umas pêras pequenas e alongadas, de pé frágil, tolerantes ao sal do mar que os dissemina.

14.3.15

Cabo das cruzes

Diplotaxis vicentina (Welw. ex Samp.) Rothm.

Esta é a época do ano em que os campos cultivados ou em pousio se enchem de crucíferas floridas em vários tons de amarelo. Assim chamadas pelas quatro pétalas formando uma cruz, as plantas desta família incluem couves, nabiças, rabanetes, mostardas, agriões e inúmeras outras espontâneas que, sendo mais ou menos comestíveis, raramente são aproveitadas como tal. Uma das mais aguerridas na tarefa sazonal de pintar de amarelo vivo a paisagem é a mostarda-branca (Sinapis alba) que o nosso vizinho mostrou há dias. Outra de flores mais pálidas é o saramago (Raphanus raphanistrum), que compensa a falta de garridismo com a omnipresença desregrada.

Seria forçado afirmar que a planta das fotos, com as suas flores de um amarelo sulforoso, sobressai entre as suas congéneres pela beleza ou pela peculiar morfologia. É uma crucífera perfeitamente normal, de porte modesto (20 a 50 cm de altura), de flores fotogénicas como é de esperar na família a que pertence, com o vermelho ténue das sépalas subtilmente avivado por um toque de Photoshop. Os frutos, de 2 a 3 cm de comprimento e dotados de longos pedúnculos, têm a forma que é comum entre as crucíferas, e chamam-se silíquas - a silíqua é um fruto estreito e comprido que se diferencia da vagem (fruto típico das leguminosas) por ter as sementes dispostas em duas fiadas (nas vagens elas dispõem-se numa fiada só). As folhas, exclusivamente basais, são pinatipartidas, com o segmento terminal bem maior do que os restantes. Quase glabra na sua parte superior, a planta é contudo hirsuta na base, apresentando aí o caule e o pecíolo das folhas revestidos por grandes pêlos brancos (foto 3).

Não sendo pois candidata ao título de Miss Planta, nem sequer a um dos vários títulos de consolação que são atribuídos às perdedoras, o que faz da Diplotaxis vicentina um caso especial é, como sugere o nome, o tratar-se de um endemismo do cabo de São Vicente e arredores, estendendo-se o seu território pelo menos até Vila Nova de Milfontes, na costa alentejana. Apesar de serem poucos os registos no portal Flora On (quatro até hoje), asseveram fontes fidedignas que a espécie é abundante entre os matos rasteiros à volta do farol de São Vicente. Não é por termos visto apenas uma planta que iremos desmentir tais fontes, pois no início de Fevereiro a época oficial de floração, que decorre de Março a Junho, ainda vinha longe, e esse exemplar solitário representou um prémio inesperado.

Certos autores, entre eles o revisor do género Diplotaxis na Flora Ibérica, têm considerado que este endemismo vicentino não é uma espécie independente, mas antes uma subespécie da Diplotaxis siifolia, que se distribui pelo sul da Península Ibérica e pelo norte de África (Árgélia e Marrocos). Face às notórias diferenças que as duas espécies exibem, tal subordinação parece-nos algo arbitrária. A D. siifolia é uma planta quase inteiramente glabra, sem pêlos evidentes na parte inferior, e as suas folhas, em vez de formarem uma roseta basal como sucede na D. vicentina, estão bem distribuídas pelo caule acima.

10.3.15

Cenoura com sal



Daucus halophilus Brot.

As cenouras do nosso dia-a-dia não são mais do que as raízes tuberosas de uma umbelífera de flores brancas, Daucus carota, que é espontânea e abundante em Portugal continental e nos arquipélagos atlânticos. Valha a verdade que a cenoura-dos-quintais (Daucus carota subsp. sativus) é de uma estirpe seleccionada, com raízes maiores e sabor menos amargo do que a cenoura silvestre, mas pode ser tentador experimentar a custo zero as plantas mais ou menos comestíveis que crescem livremente pelos campos. O risco de uma identificação errada é porém sério, pois não são poucas as umbelíferas mortalmente venenosas aparentadas com a cenoura (eis dois exemplos).

Mesmo a cenoura silvestre está sujeita a variações importantes, justificando a divisão do Daucus carota num sem-número de subespécies. Habitualmente é uma planta alta, capaz de ultrapassar um metro de altura, com caules rugosos, folhas duas a três vezes divididas e de textura fina, brácteas pinatissectas com segmentos lineares, e raios da umbela que se enrolam sobre si mesmos aquando da frutificação. No género Daucus os frutos são peculiares, com costelas longitudinais armadas de espinhos eriçados (foto aqui). Entre as umbelíferas espontâneas da nossa flora, só as dos géneros Torilis e Pseudorlaya, que em geral são muito mais débeis, produzem frutos com arquitectura semelhante.

Fotografada ainda as flores mal despontavam, a filiação da planta acima exposta ao género Daucus não é controversa, mas o seu estatuto taxonómico tem suscitado opiniões divergentes. Adoptar uma opinião ou outra não é coisa de somenos, já que a planta em causa é endémica da faixa litoral portuguesa desde a Ericeira (na Estremadura) até Faro, com o seu contingente mais numeroso albergando-se nas arribas do cabo de São Vicente. Trata-se de decidir se o que temos na costa vicentina é uma espécie endémica, claramente distinta das demais espécies de Daucus, ou apenas mais uma das quinze subespécies de Daucus carota listadas na flora europeia, algumas delas de diferenciação problemática. Uma decisão dessas não é neutra, e tem consequências na protecção legal, por enquanto inexistente, de que a planta poderá ou não vir a beneficiar.

Quando Brotero descreveu a planta, no tomo 2 (de 1827) do seu Phytographia Lusitaniae Selectior (texto integral disponível aqui), baptizando-a com um nome (halophilus) que reflecte a sua predilecção pelo ar salgado da beira-mar, não teve dúvidas em distingui-la das suas congéneres pelas hastes simples e atarracadas, pelas brácteas com lóbulos largos em vez de lineares, pela ornamentação dos frutos. João do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, manteve este Daucus como espécie autónoma, mencionando ainda, como pormenor distintivo, a textura algo suculenta das suas folhas. Por essa época, contudo, já a unanimidade havia sido quebrada: em 1935, em nota publicada no Boletim da Sociedade Broteriana, Gonçalo Sampaio despromovera o D. halophilus à condição de variedade do D. hispanicus (o qual, por sua vez, é tido hoje como uma subespécie do D. carota). Antonio José Pujadas Salvá, autor do capítulo sobre o género Daucus incluído no vol. X da Flora Ibérica (publicado em 2003), aproveitou a deixa de Sampaio, embora tenha desagravado o castigo: o D. halophilus, segundo ele, é uma subespécie do Daucus carota, ainda que aos olhos inocentes de um leigo as duas plantas se pareçam uma com a outra bastante menos do que um cavalo com um burro.

Como a Checklist da Flora de Portugal segue de modo mais ou menos automático as opções da Flora Ibérica, nos últimos anos tem prevalecido entre nós (e também no portal Flora On) o critério de Pujadas, apesar das reservas que Carlos Aguiar e Jorge Capelo, dois dos responsáveis da Checklist, sobre ele exprimiram.

7.3.15

Viola vicentina



Viola arborescens L.

Nos canteiros que enfeitam algumas ruas e jardins do Porto é frequente colocarem violetas de folhagem compacta, flores grandes, dobradas (tanto que nem se nota a simetria bilateral das cinco pétalas), de coloração variada (roxas, vários tons de azul, amarelas, brancas e até bicolores ou tricolores) e bonitas riscas na pétala inferior. Formam tapetes a cuja formosura poucos ficam indiferentes - vejam-se as várias designações comuns das violas: amor-perfeito (pansy, pensée, pensamiento), violeta, benesse-das-beiras, benefes (violeta de bosc). São cultivares obtidos em hortos (quase sempre estrangeiros) por hibridação entre espécies de Viola mais apreciadas, em particular a perfumada V. odorata, as que têm ampla reputação como medicinais, ou as que se utilizam em culinária ou para aromatizar licores. Os funcionários das câmaras que cuidam do ajardinamento público mudam-nas amiúde, simulando desse modo o efeito do pastoreio nos prados e a renovação dos bosques que as violas apreciam.

Não é que não haja por cá violetas autóctones que se pudessem usar para ornamentar tais torrões: afinal, das cerca de seiscentas espécies da região de clima temperado no mundo, a Península Ibérica tem registo de 29 e em Portugal continental contam-se umas 12. Mas, de facto, as nossas violetas mais bonitas são exigentes quanto a solo, temperatura e humidade, e boa parte delas forma plantas quase rasteiras, pouco resistentes à poluição das cidades, com flores tão pequenas que parecem nascer directamente do chão.

A violeta das fotos é das mais raras que ocorrem em terras lusas e tem características peculiares: é quase um arbusto e a floração decorre essencialmente no Inverno. Como habitat, exige um mato ralo no litoral com substrato calcário ou areias de natureza básica. Dir-se-ia que não é pedir muito, mas, apesar de nativa da região mediterrânica ocidental, em Portugal restringe-se à península de Sagres. É fácil detectá-la na berma da estrada que conduz ao Cabo de São Vicente, mas estranhamente é quase só aí que ela ocorre. Em vez das folhas cordiformes que encontramos nas espécies mais vulgares, as da V. arborescens lembram (em ponto grande) as da V. kitaibeliana. As flores são de um roxo pálido, ou quase brancas, com estrias de cor lilás.

Um último reparo: as violetas de ter por casa que se vendem nas floristas, ditas violetas-africanas, não pertencem ao género Viola: são variedades de Saintpaulia ionantha, espécie de herbáceas perenes com folhas peludinhas, nativas das regiões elevadas de África.


Ponta de Sagres vista do cabo de São Vicente

3.3.15

Liana das trombetas




Aristolochia baetica L.

Dizer que o Algarve não é só praia é como dizer que Las Vegas não é só jogo: ambas as afirmações estão correctas (em Las Vegas há também um deserto, e grande), mas não deixam de ser protocolares, tocadas pela cautela diplomática de quem receia ofender; ainda que trivialmente verdadeiras, são pouco sinceras. Fazer de lagarto ao sol não é actividade que nos atraia, e por isso visitar o Algarve no Verão está fora de causa. Visitá-lo no Inverno, numa pausa de uma semana entre dois períodos escolares, acaba por ser uma boa opção para (usando a gíria dos operadores turísticos) "descobrir o outro Algarve", afinal o único que nos interessa. Foi preciso este blogue completar dez anos para quebrarmos o enguiço e descermos em visita de exploração botânica ao extremo sul de Portugal. Na primeira quinzena de Fevereiro são mais as promessas do que as flores; mas, conforme atestarão este fascículo e os seguintes, não regressámos a casa de mãos a abanar.

Para reforçar o constraste entre o Algarve que buscávamos e o Algarve dos veraneantes, nem sequer espreitámos o mar no primeiro dia da estadia. Tomámos uma estrada apontando para nordeste, cheia de curvas, rodeada por sobreiros, e dirigimo-nos a Alcoutim, com paragem em dois ou três pontos para calcorrear as margens da ribeira da Foupana, afluente do Guadiana. Aqui os solos são ácidos, e a vegetação da serra, dominada por estevas, é mais pobre que a dos afloramentos calcários em redor de Loulé. Ainda assim, há amendoeiras em flor em pomares abandondados, rosetas de Cynara algarbiensis a muitos meses de florir, campos de linárias roxas que se adiantaram no calendário; e, entre as rochas junto à ribeira, festejamos o nosso primeiro encontro com a versão silvestre do tão comum loendro (Nerium oleander), o arbusto das auto-estradas.

Outra estreia feliz foi o nosso encontro com a liana-das-trombetas (como passaremos a chamar à Aristolochia baetica), uma trepadeira que reputávamos rara mas, percebêmo-lo depois, é comum na metade oriental do Algarve. Contudo, e por muito que ao vigésimo reencontro a emoção estivesse atenuada, esta planta lenhosa, de hastes longas, finas e enroladiças, com as suas extraordinárias flores trombeteiras cor de vinho, é de facto o ícone mais forte de toda a flora algarvia. Ainda que haja notícias vagas e remotas de incursões suas no Alentejo, só no Algarve é que no nosso país ela se vê facilmente, sublinhando uma vocação mediterrânica que é confirmada pela distribuição global da espécie, nativa apenas do sul da Península Ibérica e do norte de África (Argélia e Marrocos).

Para os infelizes que nunca viram a planta, alguns dados e medidas podem ajudar: as folhas, que são persistentes, têm uns 4 cm de comprimento, e as flores, bem maiores do que é comum no género, podem chegar aos 7 cm; a floração é sobretudo hibernal. Nas fotos em cima, vemos a Aristolochia baetica enredando-se num pilriteiro despido de folhagem: como trepadeira versátil que é, qualquer apoio, vegetal ou não, lhe serve, e também a observámos subindo por muros ou tacteando paredes de casas abandonadas.

À semelhança dos fradinhos e dos jarros (que pertencem porém a outra família botânica, bem afastada daquela que inclui a Aristolochia), também as flores da liana-das-trombetas são auto-incompatíveis: só quando o estigma de uma flor deixa de estar receptivo ao pólen é que as anteras dessa mesma flor libertam o pólen que, transportado por algum insecto, terá necessariamente de fecundar uma flor diferente. O esquema é complicado, envolvendo engodo olfactivo (os insectos são atraídos por cheiros putrefactos) e o aprisionamento durante largas horas dos ingénuos polinizadores, enquanto a flor opera a transição da fase feminina para a masculina.



ribeira da Foupana