30/01/2018

Madressilva dos ossos



Lonicera xylosteum L.


Ensina o Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners que xylosteum deriva das palavras gregas xylos, que significa madeira, e osteon, que significa osso. Quereria Lineu dizer que esta madressilva tinha ossos de madeira? Estaríamos então perante nova amostra do pioneirismo do pai da taxonomia, pois o boneco Pinóquio só foi criado por Gepeto cem anos mais tarde. Confessamos, no entanto, que a expressão "ossos de madeira" nos parece uma redundância quando aplicada a árvores ou arbustos. Afinal, se admitirmos, num rasgo de fantasia, que tais criaturas vegetais são providas de ossos, de que outro material poderiam eles ser feitos? Talvez invertendo a ordem das palavras, traduzindo xylosteum por "madeira de osso" em vez de "ossos de madeira", a coisa fique mais inteligível. Terá este arbusto uma madeira especialmente resistente, rija como os ossos? É que, ao contrário das madressilvas espontâneas em Portugal, a Lonicera xylosteum, que fotografámos na Cantábria, não é uma trepadeira, mantendo-se de espinha erguida sem o apoio de muletas. Não é esta porém, nem na Europa nem na Península Ibérica, a única madressilva de porte erecto, como Lineu, que deu nome a três outras espécies arbustivas do género (Lonicera alpigena, L. pyrenaica e L. nigra), não poderia deixar de saber. Põe-se então a hipótese de a Lonicera xylosteum ser, das quatro madressilvas arbustivas baptizadas por Lineu, aquela cuja madeira é a mais dura de roer. O que infelizmente não é verdade, pois os seus caules são ocos e os da L. nigra, por exemplo, são maciços. Ainda que se possa alegar que os ossos, apesar de rijos, também costumam ser ocos, isso é já muito rebuscado e leva-nos, por ora, a desisitir de entender Lineu.

As madressilvas dão flores muito perfumadas, atraem multidões de insectos e, por altura da frutificação, são avidamente visitadas pelos pássaros. Jardineiro que lhes dê espaço no seu jardim transforma-se de imediato num amigo da natureza. Apesar de o tamanho modesto das suas flores poder desencorajar o cultivo, a Lonicera xylosteum partilha de todas as boas qualidades das suas congéneres, com a vantagem de o seu hábito de crescimento se prestar à formação de sebes. É um arbusto que atinge 1 a 1,5 metros de altura, e cuja floração e frutificação decorrem entre Maio e Agosto. Nativo de grande parte da Europa, vive em clareiras de bosques caducifólios húmidos, sobre substratos básicos, em zonas de montanha.

24/01/2018

Flor sem maquilhagem

É raro que, vendo uma flor bonita ou tocando numa folha macia, não tentemos cheirá-las para guardar esse dado na memória. Curiosamente, não é fácil descrever um aroma (ora tente dizer como é o da laranja), embora seja trivial reconhecê-lo quando está presente. Acontece o mesmo com muitos dos ingredientes deste mundo, sejam eles cores, texturas ou sons, para os quais há nomes em muitas línguas mas que não conseguimos definir com exactidão. Não são abstracções, como os números ou os electrões, mas também não nos parecem tão reais como o dia ou a chuva. Por isso, muitas vezes falamos do amarelo-limão, do verde-alface ou do preto-andorinha, e com uma palavra extra a cor ganha forma ou sabor, e uma outra existência.


Saxifraga paniculata Rydb.


As flores cor-de-pérola que hoje vos mostramos, na ponta de hastes florais de uns 30 cm, são de uma das espécies mais charmosas do género Saxifraga. Nem é tanto pelas panículas de flores, bem menos maquilhadas que as da S. spathularis; é que as folhas de margens debruadas a branco-de-sal parecem ter dentinhos, num arranjo sorridente em roseta que parece feito por florista inspirada. Esta espécie é perene, e ocorre na América do Norte, Gronelândia e montanhas do centro e sul da Europa, em geral acima dos 1000 m. Os exemplares da foto são do Parque Natural Saja-Besaya, na Cantábria.

Custa revelar esta contabilidade que nos desfavorece, mas há que reconhecê-lo: em Espanha há mais de sessenta espécies de Saxifraga, género que parece apreciar o frio em fissuras e rochedos de montanha. Em Portugal continental, só nove espécies se adaptaram ao nosso clima mais ameno, algumas delas em populações escassas. Temos, porém, o galardão de possuir uma espécie endémica, a S. cintrana.

Talvez este ano voltemos ao norte de Espanha para ver a magnífica S. longifolia e rever a única que conhecemos com flores cor-de-rosa.

16/01/2018

Viagens com musgos


Huperzia selago (L.) Bernh. ex Schrank & Mart.


Por ser parecida com um ramo de abeto (fir) e no seu primivitismo lembrar um musgo, os anglo-saxónicos chamam fir clubmoss a esta planta. Se a comparação com o abeto é apropriada e inocente, pois ninguém vai confundir estas hastes atarracadas, de 5 a 20 cm de altura, com um árvore de grande porte (nem com um rebento, pois as árvores não crescem curvadas), já o chamar-lhe musgo pode induzir em erro. Há de facto musgos, como o Polytrichum comune, com aspecto vagamente semelhante, mas a H. selago é uma planta vascular e não um musgo. Situa-se, é verdade, na base da árvore evolutiva, e tem por isso o privilégio de encabeçar a listagem da flora de muitos dos países dos quais é nativa. Na Europa continental, onde é a única espécie do seu género, essa primazia é incontestada, mas na Ásia e na América já tem que disputar o seu lugar com numerosas congéneres. Preferindo climas frios e lugares húmidos, é mais abundante no norte da Europa do que no sul, onde se refugia em áreas montanhosas e, às vezes, aproveita o aconchego da neve a mais de 2000 metros de altitude. Está presente nas principais cadeias montanhosas ibéricas, mas Portugal fica fora do seu mapa de distribuição. O que não é grande motivo de queixa, pois Madeira e Açores acolhem duas espécies endémicas do género, Huperzia dentata e Huperzia suberecta, e a segunda delas só se diferencia da H. selago pela (pouco) maior envergadura e por caracteres microscópicos como a ornamentação dos esporos.

Uma característica em que a Huperzia é mais primitiva do que outras licopodeáceas é que a sua parte fértil não se distingue claramente da parte estéril: os esporângios estão aninhados nas axilas das folhas terminais das hastes (3.ª foto), folhas essas idênticas na forma e no tamanho às que estão situadas mais abaixo. Em géneros mais evoluídos, como Lycopodium e Diphasiastrum, os esporângios aparecem agrupados em espigas terminais perfeitamente destacadas (exemplos: 1, 2). Mesmo o licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), que na Europa leva a medalha de prata em primitivismo, apresenta uma diferenciação, embora menos óbvia, entre a parte da planta que produz os esporângios (que é a porção engrossada e terminal das hastes erectas — foto aqui) e a parte estéril (caules rastejantes e metade inferior das hastes erectas). Também considerado primitivo é o tipo de crescimento dicotómico da Huperzia, com as hastes sempre ascendentes bifurcando-se sucessivamente.

Encontrámos a Huperzia selago a uns modestos 1300 m de altitude, algures na cordilheira cantábrica. Nos meses de Inverno o branco dos afloramentos calcários é reforçado pelo branco da neve, e nenhuma outra cor é permitida na paisagem. Era isso que nos diziam um frio e um vento cortantes, atípicos do mês de Maio que atravessávamos. Só para confirmação, as nuvens negríssimas não tardaram em largar uma forte carga de granizo, obrigando-nos a abreviar a excursão.

09/01/2018

Globos azulibrancos

Por razões misteriosas, aprendemos tão bem e estamos tão habituados a reconhecer formas tridimensionais que, quando as vemos fotografadas, julgamos detectar volumes e sombras em imagens que, sendo planas, não os possuem. O centro que interpreta o que vemos é perfeito para ser enganado. Este logro, que é afinal um acerto, é uma das razões do sucesso da fotografia. Por vezes, nem temos dúvidas de que uma foto é mais nítida e completa do que a realidade. E todavia, sem referenciais, as fotos podem ser maus testemunhos. Nas que lhe mostramos hoje, o ponto de apoio é dado pelas flores. São de igual tamanho e aspecto em ambas as plantas, por isso pode deduzir-se destes retratos que a folhas da primeira são muito maiores do que as da segunda. Além disso, uma das plantas é lenhosa e vive colada à rocha exposta de calcário, enquanto a outra, em rochedo próximo mas recatada numa fissura, é herbácea e exibe pecíolos longos e hastes florais proeminentes, na extremidade das quais oscilam sedutores capítulos de florinhas azuis.



Globularia nudicaulis L.




Globularia repens Lam.


É um enigma que espécies distintas do mesmo género coexistam independentes num mesmo habitat. Mas a crer em algumas simulações de jogos, não é garantido que, florescendo ao mesmo tempo e a poucos metros de distância uma da outra, sejam rivais na atracção de polinizadores. O mais certo é que tenham uma estratégia solidária no uso dos bens que o habitat oferece, vencendo em grupo em vez de cada uma arriscar perder individualmente.

Espanha conta com nove espécies de Globularia, algumas de regiões com invernos muito frios (como estas que vimos na Cantábria), ou que preferem taludes rochosos expostos ao sol e à secura ou que, pelo contrário, dão primazia à proximidade de cursos de água. Com preferências tão variadas, dir-se-ia ser um género de distribuição vasta. Por cá, porém, só há registo de duas espécies, e são ambas raras.

02/01/2018

Na senda do urso



"Trilho do urso" seria a tradução correcta de "senda del oso". Como fazem todos aqueles com uma relação difícil com línguas estrangeiras, fiamo-nos nos falsos amigos e optamos pela tradução fonética. Dizendo que estivemos "na senda do urso", damo-nos ares de intrépidos exploradores da vida selvagem, sugerindo que andámos deliberadamente no rasto do bicho.

Na verdade não foi bem assim. A "senda del oso", nas Astúrias, é um percurso ciclável, recomendado para toda a família (humana, não ursina), que decorre em grande parte numa antiga linha férrea mineira. Tal como quem visita as Terras do Lince não espera dar de caras com o felino, pois ele já lá não está e se estivesse não era para se mostrar, também quem percorre o "trilho do urso" sabe que, havendo embora ursos nas Astúrias, eles preferem trilhos mais recatados, longe da nossa vista. É pois esse o percurso ideal para quem, visitando as Astúrias, queira ter a garantia de que para ele os ursos continuarão a ser apenas aquelas criaturas fofas dos programas de David Attenborough.

Se não foi para ver ursos, ou se foi até, usando de maior franqueza, para não ver ursos, que temos nós para contar ao internauta apaixonado pela natureza à distância de um clique? Ouvimos um restolhar na folhagem que bem poderia ser um esquilo, mas deve ter trepado ligeiro por alguma árvore (uma faia, pois só havia faias) e não chegámos a vê-lo. As faias e as plantas em geral não são esquivas como os animais, nem enganadoras como as paisagens (que nos puxam adiante mas nunca conseguimos alcançar, como a linha do horizonte ou o lado de lá do arco-íris.) Falemos então de uma das plantas que vimos nos mil metros da "senda del oso" que percorremos desde o desfiladeiro de Teverga.

Phyteuma spicatum L.



Aquando de uma anterior visita ao norte de Espanha, apresentámos aqui uma espécie de Phyteuma, género da família das campânulas que tem zero representantes na flora portuguesa, cinco na peninsular e mais de vinte na europeia. As flores, agrupadas em espigas ou capítulos, têm uma forma muito característica, com as pétalas soldadas na ponta formando um tubo alongado; quando ainda fechadas, fazem lembrar um cacho de bananas. Phyteuma hemisphaericum, que vimos antes, é uma planta alpina, de estatura baixa e folhas lineares, que espera pelo degelo para surgir em fissuras de rochas e em prados. Phyteuma spicatum, por contraste, é uma planta alta (até 1 m de altura), com folhas basais largas, que vive a altitudes moderadas na orla de bosques caducifólios húmidos. Tanto no trilho do urso como nos vários pontos na berma da estrada onde depois a encontrámos, só a vimos de flores azuis, mas ela também dá flores brancas, que aliás são preponderantes nas populações extra-peninsulares. É estimada como ornamental, e são poucos os países da Europa onde ela não ocorre: Portugal, Irlanda, Grécia e (só para confundir o retrato) Bélgica.

19/12/2017

A prímula mais alta


Primula elatior (L.) Hill


As convulsões que têm afligido Espanha, ameaçando a sua integridade, são o resultado inevitável das más partilhas feitas pelos primeiros reis ibéricos. Na senda da deriva independentista da Catalunha, veio há semanas a público uma proposta do parlamento andaluz de se criar uma Grande Andaluzia, agregando-se à província com esse nome os demais «países andaluzes»: Múrcia, Algarve e Alentejo. Portugal não deve ficar mudo e quedo face a estas pulsões expansionistas que ameaçam reduzi-lo e retalhá-lo. Sim, deve afirmar desde já a vontade firme de anexar a Andaluzia — ou, em versão diplomática, a calorosa disposição de acolher a Andaluzia e as suas gentes, se elas enveradarem por uma trajectória secessionista face a Madrid. Mas não deve ficar por aqui. Que a Galiza não faça parte de Portugal é um erro crasso denunciado há muitos séculos por patriotas portugueses e galegos. Este é o momento de agir: Portugal cumpre o seu destino histórico e, ao mesmo tempo, remedeia a sua vergonhosa penúria em espécies do género Primula.

Os números são de uma triste eloquência: temos uma única espécie, Primula acaulis, quando, sem contar híbridos nem subespécies, em Espanha há oito, na Europa 33, e na China e Himalaias mais de 300. Unindo-nos à Galiza passaríamos a ter três. Sem ser bom, ajudaria a atenuar a injustiça. A mais alta das prímulas (é isso que garante, com algum exagero, o epíteto específico), Primula elatior, faria parte do enxoval, acompanhada pela Primula veris (se o seu latim anda tremido, saiba que aquele veris não significa que esta prímula seja mais verdadeira que as outras, mas sim que floresce na Primavera, como aliás fazem quase todas). Ficaríamos ainda privados desta jóia, mas ganharíamos alento para novas conquistas.

A P. elatior, que encontrámos nas Astúrias e na Cantábria, é mais frequente no norte de Espanha, ao longo dos Pirenéus e da cordilheira cantábrica; no resto da Península, só aparece na serra Nevada e, muito esporadicamente, em algumas serras do Sistema Central ibérico (Gredos e Guadarrama). As suas flores são pálidas como as da P. acaulis e surgem agrupadas na extremidade de hastes erectas como na P. veris; as suas folhas muito rugosas, reunidas em roseta basal, são também uma média entre as folhas das duas outras espécies. É natural que se levante a suspeita: será a P. elatior, não uma verdadeira espécie, mas um híbrido da P. verna com a P. acaulis? A resposta é negativa, pois o híbrido entre as duas ocorre naturalmente, acompanhado pelos seus progenitores, em grande parte da Europa; e, como podemos confirmar nesta página, não tem a cara da P. elatior, embora faça lembrar. As flores são mais pequenas, exibem manchas escuras na base das pétalas, e não estão todas viradas para o mesmo lado como sucede na P. elatior; além disso, os cálices são claramente diferentes (compare com a 3.ª foto acima) e as hastes florais mais curtas.

13/12/2017

Flores vorazes



Pinguicula grandiflora Lam.


As plantas do género Pinguicula vivem em geral em solos pobres, complementando a dieta com o que de nutritivo vá caindo nas suas folhas rígidas e suculentas. Alguns insectos, julgando ver gotas de água nas glândulas espalhadas na superfície das folhas, aproximam-se delas, descobrindo tarde de mais que a água é afinal uma cola que os aprisiona sem redenção. Uma vez agarrada a presa, as folhas recurvam as margens formando uma taça, e um segundo tipo de glândulas segrega enzimas que digerem o que a planta finalmente absorverá através de minúsculos orifícios. Neste processo, também as folhas se deterioram, mas a planta faz nascer outras sem demora. Para que os polinizadores não sejam comidos por engano, as flores são solitárias e surgem no topo de hastes altas com corolas bastante vistosas. Nunca fiando, as da P. grandiflora são também grandes, as maiores que já vimos neste género, ainda que parecidas com as da P. vulgaris.

Há um outro pormenor que só dissecando uma flor se conseguiria ver. Como já notou pelas fotos, a flor é tubular, com dois lóbulos e um esporão contendo umas gotinhas de néctar. Os estames com o pólen estão escondidos no tubo, e um estigma de duas faces cobre-os como uma tampa. O arranjo é tal que, se uma abelha quiser lamber o néctar ou recolher o pólen, terá de se roçar na face exterior do estigma (a única polinizável), deixando lá o pólen que trouxe de outra flor; pelo contrário, a face adjacente ao pólen não é receptiva, o que impede a auto-fecundação.

Morando habitualmente junto a fontes de água, estas plantas adaptaram-se sabiamente às vantagens (muitos insectos esvoaçantes e incautos por perto) e aos riscos inerentes a uma tal vizinhança. Por exemplo, as cápsulas que guardam as inúmeras sementes podem manter-se fechadas caso haja demasiada humidade no ambiente, o que poderia arruinar as sementes ou impedi-las de se dispersarem pelo vento. Além disso, em algumas espécies as sementes nascem com coletes salva-vidas que lhes permite flutuarem se tombarem na água.

Como todos os prodígios, não há muitas espécies de Pinguicula. Das cerca de oitenta conhecidas (quase todas da América Central e do Sul), só uma dúzia é nativa da Europa, delas ocorrendo nove na Península Ibérica e apenas duas em Portugal.

05/12/2017

Saponária dos assobios


Saponaria ocymoides L.


A grande vantagem de planearmos os passeios ao milímetro é podermo-nos desviar vários quilómetros da rota traçada. Se o improviso correr mal, se aquele desvio que por impulso fazemos afinal não se revelar compensador, podemos sempre retroceder e conformarmo-nos com o que estava previsto. O planeado é apenas a rede de segurança, um último recurso para que o passeio valha a pena. Mesmo nesta época dos satélites, do Google Earth e do GPS, os caminhos só se conhecem caminhando, e muitos vezes, quando pisamos o local que antevíramos nas imagens aéreas, percebemos que o melhor de dois caminhos é aquele que não tínhamos mapeado.

Em Maio, na nossa semana de vagabundagem pela cordilheira cantábrica, quisemos visitar a cascata de Las Pisas, em Soncillo, na província de Burgos. O trilho até lá, embrenhando-se por um bosque cerrado, era difícil de adivinhar pelas imagens aéreas, mas pareceu-nos que partiria de Villabascónes, um povoado com cinco ou seis casas convertido ao turismo de habitação. Erro nosso, como poderíamos ter verificado pelo mapa geográfico de Espanha (disponível aqui). Seguimos teimosamente o caminho errado, esperando que ele, dando-se conta do equívoco, guinasse à esquerda e se dirigisse para a cascata. Quando compreendemos que nunca chegaríamos a ela, já tínhamos sido seduzidos pelo ribeiro (arroyo Saúl, informa o mapa) que o caminho insistia em acompanhar, e tornara-se-nos tão impossível retroceder como a um marinheiro arrastado pelo canto da sereia. Havia faias, freixos, amieiros e... tílias, uma novidade para quem, como nós, só as conhecia domesticadas em jardins. Ervas-pombinhas (Aquilegia vulgaris) e madressilvas (Lonicera sp.) acrescentavam azul e amarelo à exuberância do verde; e, nos pontos onde o caminho se afastava do leito encaixado do ribeiro, deu-se o nosso feliz reencontro com o raríssimo (em Portugal) Aphyllanthes monspeliensis, que se empoleirava nos taludes soalheiros.

A certa altura o caminho cruzava um viaduto e desembocava numa estrada, seguindo o exemplo do ribeiro que, no mesmo ponto, desaguava num rio de caudal já respeitável (rio Nela, afluente do Ebro). Quebrara-se o feitiço e já podíamos inverter a marcha. Logo antes do viaduto, atrás do portão de uma casa decrépita, um cão triste ladrava para justificar a existência. Fingindo ir embora, esperámos que ele se calasse para ir, em bicos de pés, fotografar uma planta de flores cor-de-rosa, parecida com um assobio (assim chamamos nós às Silenes), que crescia num muro.

Dar nome à suposta Silene revelou-se intrincado, e o problema só se resolveu quando concluímos que não se tratava de uma Silene. Se fôssemos botânicos conscienciosos (mas nem botânicos somos), uma inspecção à lupa revelaria que a planta tinha apenas dois estigmas em cada flor, enquanto que as do género Silene têm três (ou raramente cinco) — fotos aqui e aqui. Sendo nós irremediavelmente descuidados, acabámos por nem registar esse detalhe crucial nas fotos. Como iríamos adivinhar estar em presença de uma prima da Saponaria officinalis? Uma planta peluda, de múltiplos caules decumbentes, agarrada a um muro, de flores diminutas: eis um retrato em tudo contrastante com o da erva-saboeira, que é glabra, tem caules erectos, flores e folhas grandes, e cresce em terrenos húmidos.

Em Espanha ocorrem cinco espécies de Saponaria, quatro delas ausentes de Portugal. Vendo-lhes as caras (espreite ao fundo desta página), concluímos que a Saponaria ocymoides, acima ilustrada, se integra bem no conjunto, e que quem mais destoa é a S. officinalis. A S. ocymoides ocorre em grande parte da Europa mediterrânica, desde os Balcãs até Espanha. É uma planta perene de 30 a 50 cm de altura, de base lenhosa nos exemplares mais idosos, que por vezes se apresenta com os caules muito emaranhados. O epíteto ocymoides refere-se à (hipotética) semelhança da planta com o manjericão (Ocimum basilicum).

28/11/2017

O verdadeiro sanguinho



Cornus sanguinea L.


A legislação portuguesa permite, a quem o deseje, alterar o seu nome, ainda que o processo exija uma justificação e não seja barato. As razões alegadas são as mais variadas, podendo simplesmente não se gostar do nome que se tem. Na taxonomia das plantas, a obrigação de se usar o nome válido mais antigo não permite tais brios. E, na verdade, mesmo que algumas designações nos soem estranhas, como a que Lineu escolheu para esta espécie, uma consulta ao dicionário revela que tais nomes são até apropriados. E, sendo frequentemente baseados em detalhes morfológicos, servem de etiquetas de memorização fácil e dão uma grande ajuda na identificação de plantas.

A designação Cornus sanguinea parece aludir a uma tragédia amorosa, recheada de traição e infidelidade, mas não se trata disso. Cornus também significa, em latim, cerejeira ou pilriteiro, ou os ramos jovens dessas e de outras árvores semelhantes. Com os das Cornus, tingidos de vermelho, faziam-se outrora varas ágeis e cestos afamados. Em português, o nome vernáculo atribuído a esta espécie é sanguinho-legítimo, para a distinguir de outros sanguinhos, como o sanguinho-de-água (Frangula alnus) ou o sanguinho-das-sebes (Rhamnus alaternus). Poderia chamar-se cornizo, digamos, por analogia com o termo espanhol cornejo, sendo então as bagas negras os cornizolos, mas não seria uma escolha popular portuguesa, para não falar da possível confusão com a cornalheira (Pistacia terebinthus). A palavra sanguinho, bizarro diminutivo para sangue criado para dar nome a uma cor (a da cornalina, um tom de vermelho claro que vemos nos ramos desta Cornus, e na folhagem antes de cair no Outono), parece ser especialmente estimada pelo nosso povo, que a usa amiúde. Em inglês chamam-lhe dogwood, em alusão a uma outra característica desta pequena árvore: a madeira do tronco é dura (como um osso), usada em cabos de ferramentas.

Esta é a única espécie de Cornus que ocorre espontaneamente na Península Ibérica. E, ao contrário de outras congéneres ornamentais de que já aqui falámos (C. florida, C. kousa, C. capitata...) com flores minúsculas esverdeadas agrupadas em inflorescências com brácteas vistosas, a C. sanguinea dá flores mais convencionais, com quatro pétalas brancas e estames salientes, reunidas em cimeiras achatadas. Os exemplares que conhecemos no nosso país (também a vimos, bem mais abundante, na Cantábria) moram em bosques ribeirinhos no concelho de Vinhais. Quase todos os actuais registos da espécie em Portugal são transmontanos, mas ela ainda vai aparecendo no baixo Mondego, em sebes que separam campos de cultivo.

21/11/2017

Erva de soldar ossos


Symphytum tuberosum L.


É pelos faiais da Cantábria que continuamos. Na primeira quinzena de Maio, as folhas ainda frescas das árvores deixam escoar breves farrapos de sol. As prímulas (Primula veris, Primula acaulis) e as hepáticas deram já por cumprida, com a produção de frutos, a lista de tarefas reprodutivas do ano; o alho-dos-ursos (Allium ursinum), o selo-de-Salomão e algumas orquídeas de bosque estão em plena azáfama de floração; e várias outras herbáceas se aprestam a iniciar a temporada. Neste último grupo se inclui o Symphytum tuberosum, a que chamaríamos consolda-menor caso existisse em Portugal. Não existindo, o nome foi usurpado por uma espécie muito diferente (Prunella vulgaris), embora o nome consolda-maior ainda seja, por lei, pertença do Symphytum officinale, igualmente ausente do nosso país. Ausente na natureza, entenda-se, pois ele terá sido, mesmo por cá, assiduamente cultivado graças a uma reputação medicinal que já vem da antiguidade.

Um dos usos terapêuticos do Symphytum está plasmado na própria palavra consolda. Acreditava-se que a ingestão de infusões com a planta ajudaria a sarar fracturas ósseas, fazendo com que os ossos partidos soldassem mais rapidamente. E o nome Symphytum, que provém do grego, significa, segundo a Flora Iberica, "fazer crescer juntamente", entendendo-se que nesse processo as partes fracturadas acabariam por fundir-se uma com a outra. Sabe-se hoje que estas plantas contêm de facto um tipo de molécula (alantoína) capaz de estimular o crescimento e reparação dos tecidos celulares, mas a sua toxicidade torna-as desaconselháveis para uso interno, já que podem causar sérios danos ao fígado. Para aplicação externa as contra-indicações não são tão assustadoras, e a planta poderá ser útil no tratamento de feridas cutâneas.

Nem todas as consoldas (ou melhor, nem todas as espécies de Symphytum) terão idênticas propriedades medicinais, e por isso de modo nenhum encorajamos o leitor à prática de medicina caseira pela colheita desta ou de outras plantas silvestres. Assinale-se, ainda assim, que o Symphytum tuberosum, embora menos afamado e muito menos cultivado do que o Symphytum officinale, também teve os seus usos na vertente solda ossos do herbalismo.

A consolda-tuberosa (chamemos-lhe assim) é uma herbácea vivaz de porte modesto, atingindo não mais do que um metro de altura, presente como nativa em quase toda a Europa ocidental (Portugal e Irlanda são excepções), que vegeta em bosques caducifólios húmidos e em margens de cursos de água. Para não entristecermos por a natureza nos ter negado contemplá-la no nosso país, lembremos que por cá há plantas da mesma família, como o chupa-mel (género Cerinthe), também de flores tubulares, que num juízo imparcial a suplantam largamente em beleza.

15/11/2017

Dona Genciana & C.ª

A ideia generalizada de que as abelhas estão apenas interessadas no néctar das flores, que recebem como pagamento pelo serviço de levar o pólen de umas plantas para outras, deve-se por certo a alguma desatenção quanto ao comportamento destes insectos. Tanto as flores como as abelhas precisam de pólen. O néctar, feito essencialmente de açúcar e água, dá energia às abelhas na sua lide diária; mas elas, e sobretudo as crias, precisam também de proteínas, e o pólen é a melhor fonte desse alimento que conhecem. Isto significa que, embora para a reprodução das plantas convenha que a abelha deposite noutras flores o pólen que leva, ela desdobra-se em mil cuidados para levar todo o pólen que puder para casa. Surpreende-nos que este paradoxal acordo entre espécies se venha mantendo com sucesso.

Este conflito de interesses quanto ao uso do pólen levou naturalmente a adaptações tanto nas flores como nos insectos. Nas flores há inúmeros mecanismos que reduzem o desperdício de pólen, seja pelo formato dos grãos de pólen que nem todos os insectos conseguem agarrar, ou pela posição da corola onde o insecto aterra de modo a que o pólen se deposite numa parte mais segura da abelha, ou ainda pela presença de zonas translúcidas nos tubos florais que guiam alguns visitantes até aos nectários enquanto passam despercebidos a outros. Tudo afinado para não se comprometer a capacidade de atrair os insectos adequados, enquanto se repelem os meros ladrões de guloseimas. Por seu lado, as abelhas tornaram-se mais eficientes na colheita e transporte do pólen, e a evolução deu-lhes a possibilidade de aprenderem depressa e bem quais as flores mais recompensadoras, em comunidades em que se copiam livremente as abelhas mais espertas.


Gentiana angustifolia Vill.



Gentiana verna L.


As plantas do género Gentiana são em geral polinizadas por abelhas, embora em algumas espécies haja também borboletas a ajudar no processo de fecundação. A morfologia e o ciclo destas espécies fornecem amplos exemplos das adaptações que mencionámos. O caso da G. pneumonanthe, de corolas pintalgadas de dourado, é especial: em alguns habitats, estabeleceu uma interacção peculiar com duas outras espécies, uma borboleta azul (Maculinea alcon), que desposita os seus ovos nos tubos da flor, e uma formiga vermelha (Myrmica scabrinodis), em cujas colónias as larvas da borboleta caem, se alimentam e crescem, libertando assim a planta dessas criaturas vorazes.

A Península Ibérica abriga várias espécies do género Gentiana, algumas anuais, outras bianuais ou perenes, que parecem preferir regiões frias — as que, neste canto sudoeste da Europa, vão rareando. É na Ásia, sobretudo nas montanhas chinesas, que se concentra a maioria das cerca de 360 espécies conhecidas. Nas fotos acima, as primeiras flores, vistas em afloramentos calcários da Cantábria, são versões gigantes da G. pneumonanthe; as outras, do pico Tres Mares, com corolas de bordos largos e quase planos, são muito mais pequenas e rasteiras, mas nascem em tapetes vistosos de um azul intenso (com os centros assinalados a branco) onde as abelhas se banqueteiam felizes.