22/05/2018

Antes que a chuva caia


Draba dedeana Boiss. & Reut.


Um artigo na revista inglesa The Alpine Journal, em que o sr. John Ormsby descreve a cadeia de montanhas dos Picos da Europa entre Santander e Oviedo, chamou a atenção do sr. Edmond Boissier, de Genebra. No decurso do mês de Junho de 1878, concebeu ele o projecto de visitar essa parte de Espanha e de lá passar para Portugal, país que nunca visitara, regressando pela serra de Gredos, uma alta cadeia montanhosa entre Portugal e Madrid. Propôs a viagem a dois dos seus amigos botânicos. Um favor desses nunca se recusa. (...)
Passando outra vez na mesma linha, mas de dia, chama-nos a atenção a estação de Pancorbo. As falésias verticais de rocha calcária que ali existem junto à via férrea merecem ser cuidadosamente exploradas. É lá que está assinalada a Draba mawii Hook f., ilustrada no Curtis's Botanical Magazine, vol. XXXI (1875), estampa 6186, descoberta em 1875 pelo inglês sr. Maw. A figura mostra as folhas lanceoladas e densamente ciliadas da planta, assim como as flores brancas com cálices nitidamente bordejados de vermelho. (...) Em nossa opinião, essa Draba mawii é a mesma espécie que a Draba dedeana, descrita mais de trinta anos antes nas Additions au voyage dans le midi de l'Éspagne, pág. 718. A Draba dedeana foi conservada no herbário de Faucher (adquirido por Boissier), tendo sido colhida por um senhor Dédé, botânico, a quem foi dedicada. Posteriormente, a mesma espécie foi colhida por Boissier e Reuter acima de Reinosa no Pico Cordel, em 1858, por Leresche, em 30 de Julho de 1862, nas montanhas mais a oeste no limite da parte superior da bacia do Ebro, e por fim, abundantemente, por Boissier, Leresche e Levier, em Julho de 1878 e 1879, nos Picos da Europa. A indicação petalis flavis dada por Boissier (loc. cit.) é um erro, pois a planta decididamente dá flores de uma linda brancura. O exemplar de Dédé estava velho, o que poderá explicar o erro sobre a cor das flores.

A rocha calcária, pela sua menor dureza, presta-se a ser moldada pelas forças da natureza em formas muito mais caprichosas e acidentadas do que o granito. Mas esse trabalho de escultor decorre numa escala temporal que não é a nossa. Tudo o que é rocha nos parece eterno, e as abruptas paisagens cantábricas exploradas no último quartel do século XIX pelo botânico Edmond Boissier e pelos seus companheiros não são muito diferentes daquelas que podemos ver na segunda década do século XXI. É certo que há estradas e estâncias de esqui que nos permitem sem esforço chegar a muitos cumes, mas o recorte dessas montanhas não foi desfigurado por uma invasão de ventoinhas. E, nos interstícios das mesmas imperturbáveis rochas, parecem morar, indiferentes ao passar dos anos, as mesmas plantas que os nosso antecessores viram e catalogaram. Como esta Draba dedeana que Boissier, por a ter descrito a partir de material em más condições colhido por outrem, julgou ter flores amarelas como a Draba aizoides.

Talvez os aficionados de rock gardens prefiram a versão amarela à versão branca, mas os completistas hão-de querer tê-las das duas cores. Ambas têm uma folhagem muito característica, formando almofadinhas compactas eriçadas de pêlos. Nos cumes tempestuosos onde é costume acoitarem-se, é raro as flores poderem exibir a sua simetria perfeita sem que uma chuva desatada venha despenteá-las. As fotos que ilustram o texto foram tiradas no Picon del Fraile, quando as nuvens negríssimas ultimavam os preparativos para o granizo que iria desabar minutos depois. Vida bem diferente, rodeada de confortos burgueses, levam as plantas que migraram para jardins situados às vezes noutros continentes.

Sem os bons ofícios do comércio hortícola, a Draba dedeana, uma pequena planta vivaz com hastes até 8 cm de altura, nunca poderia ser vista fora da Península Ibérica, onde cresce nas montanhas do norte e do leste, sempre em rochas calcárias, e floresce de Março a Maio.

15/05/2018

Ervilhas quadradas

Tantas plantas, tão sábias e tão silenciosas! Desde o início, parecem sobreviver sem apelar a sons, embora não saibamos se o nosso ruído as beneficia, as desgosta, ou se nem reparam nele. Experimentamos esse mundo surdo e mudo em que a flora vegeta quando passeamos em locais onde não se ouvem passarinhos ou rãs, nem o quebrar de folhas sob os pés, nem o embate da chuva no chão. Um sossego, retemperador para os desgastados pela agitação da cidade, dirão; mas a proximidade do vazio é pouco agradável, e o nada no escuro causa mesmo algum receio. Todavia, se alguma vez as plantas adquirirem voz que oiçamos, com as árvores animadas em longas conversas nas noites de Verão, as herbáceas a cavaquearem diariamente e as flores a sussurrarem entre si sem descanso, teremos de abandonar o planeta para local mais sereno.


Tetragonolobus maritimus (L.) Roth


Até lá, conversemos sobre ervilhas quadradas. O termo ervilha tanto designa a semente polposa de algumas fabáceas (tal qual as que se usam no arroz-de-ervilhas), como se refere à vagem que as contém. Este invólucro das sementes é espalmado no feijão-verde mas não no caso da planta das fotos. O fruto dela tem secção transversal que parece um anel com quatro apêndices exteriores. O arranjo resulta da presença de quatro asas salientes nas duas faces da vagem, que, como é usual nestes frutos, se abre ao longo de duas costuras para libertar as sementes. Essas asas formam os quatro ângulos a que alude o nome tetragonolobus; a configuração final sugeriu uma curiosa designação vernácula para este género de plantas, dente-de-dragão. Não havia ainda frutos do T. maritimus para fotografar, mas pode verificar este pormenor morfológico nas imagens do Tetragonolobus conjugatus ou do Tetragonolobus purpureus, duas espécies que ocorrem em Portugal continental. Ou, em alternativa, analisar os diagramas elucidativos da Flora Ibérica.

O T. maritimus é espécie perene, de folhas glaucas e exuberantes flores amarelas com o dorso do estandarte pintalgado de vermelho. Nativa da Europa, norte de Africa e Ásia, floresce no Verão e, diz a Flora Ibérica, aprecia prados húmidos em pleno sol. Os exemplares que vimos em Soncillo, na província de Burgos (Cantábria), cobriam luxuriantes o (de resto deselegante) talude do caminho que acompanha uma das margens do ribeiro Saúl.

08/05/2018

Sanguinho das escarpas

Rhamnus alpina L.
Chamamos sanguinho, indiferenciadamente, aos arbustos e árvores dos géneros Rhamnus e Frangula: os primeiros são arbustivos, os segundos esforçam-se por ser árvores e têm no sanguinho açoriano (Frangula azorica) o seu mais formoso representante. Estes dois géneros da família Rhamnaceae têm flores pouco vistosas, esverdeadas, de quatro ou cinco lóbulos (quatro no Rhamnus, cinco na Frangula), mas os cachos de frutos (que são pequenas drupas vermelhas ou negras) são bonitos de se ver. Apesar destas fortes semelhanças, não é apenas o tamanho que distingue a Rhamnus da Frangula: a diferença mais importante é sexual, pois uma é dióica e outra hermafrodita. Trocando por miúdos, em cada espécie de Rhamnus há indivíduos masculinos e femininos, cabendo aos insectos polinizadores a tarefa de transportar o pólen fecundante de uns para outros; já na Frangula as flores são todas do mesmo tipo, com orgãos funcionais masculinos e femininos (foto), e cada indivíduo é capaz de produzir sozinho sementes viáveis. O indivíduo de Rhamnus alpina acima retratado é masculino: cada flor tem quatro estames salientes, mas não dispõe de estigma nem de ovário.

O sanguinho-dos-Alpes (como passaremos a chamar à Rhamnus alpina) é um arbusto que, para se resguardar do frio, se fez mais rasteiro do que os congéneres que lhe conhecemos em Portugal (lista aqui). Diz a Flora Iberica que pode atingir um máximo de 5 metros de altura, mas os exemplares que vimos pouco ultrapassavam os 50 cm; e, com os seus ramos tortuosos, pareciam moldar-se à escarpa em busca de protecção. As folhas, bem maiores do que é habitual no género, são arredondadas, lustrosas e de margens crenadas, e têm a venação bem marcada.

Vegetando a altitudes que variam dos 250 aos 2600 m, de preferência em substratos calcários, o sanguinho-dos-Alpes distribui-se pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à Itália, e no norte de África tem presença pontual nas montanhas do Atlas (Argélia e Marrocos).

03/05/2018

Cruzes de Maio


Pritzelago alpina subsp. auerswaldii (Willk.) Greuter & Burdet


Em Maio, a 1100 metros de altitude, num vale cantábrico aninhado entre picos vertiginosos, já as plantas nos prados se podem dedicar à tarefa de florir agora que a neve derreteu. As apressadinhas, como a Hepatica nobilis, fazem-no tão prontamente que por esta altura são já poucas as flores que não se converteram em frutos. Outras mais avantajadas precisam de tempo para espigar antes de se enfeitarem: é o caso da Gentiana lutea – que, vendo-se por aqui aos milhares, só há-de mostrar o amarelo das flores a quem tenha a paciência de voltar no mês seguinte.

Na orla do prado, entre pequenos blocos de pedra calcária, brilham de brancura umas flores modestas que valem pelo conjunto. Pertencem elas a uma crucífera de caules sinuosos, de 10 a 25 cm de altura, com folhas basais pinatissectas que lembram muito as de uma outra crucífera dos calcários, a efémera e diminuta Hornungia petraea. De facto, embora a planta cantábrica seja tradicionalmente incluída no género mono-específico Pritzelago, alguns autores entenderam recentemente mudá-la para Hornungia, ficando ela a chamar-se Hornungia alpina subsp. auerswaldii. Do ponto de vista morfológico, essa opção parece justificar-se, pois também os frutos de uma e de outra são bastante semelhantes (confirme aqui e aqui). Há apenas o óbice de a (ex-)Pritzelago ser uma planta perene, quando todas as restantes espécies de Hornungia são anuais.

De entre as diversas versões de Pritzelago alpina (ou Hornungia alpina), a subespécie auerswaldii é distintiva por ser mais alta do que as outras (20 a 25 cm contra um máximo de 15 cm) e por possuir três ou mais folhas caulinares em cada haste (as restantes subespécies só costumam ter folhas basais). Algumas fontes indicam que a subsp. auerswaldii existe em França, mas é provável, segundo outras fontes, que essa informação esteja errada (em França, confirmadamente, ocorrem a subsp. alpina e a subsp. brevicaulis), o que faria da planta um endemismo ibérico. Está confinada ao norte da Península, e é particularmente frequente na cordilheira cantábrica, rareando nos Pirenéus, onde é substituída pela subsp. alpina. Aprendemos, com alguma surpresa, que ela faz parte da flora portuguesa: colhida pela primeira vez em 1971, em Vinhais, tem sido vista ocasionalmente por lá desde essa data; e, segundo Carlos Aguiar, "é um dos melhores exemplos de relíquias würmianas em Portugal". (E aqui damos licença ao leitor para ir espreitar à Wikipédia.)

24/04/2018

A avidez dos burros


Onobrychis viciifolia Scop.


Há quem veja em cada flor precoce um anúncio da Primavera e um motivo de regozijo. Aos olhos inocentes desses panteístas, as plantas que florescem normalmente no Inverno, como os narcisos ou as camélias, cometem um erro de calendário com o único intuito de nos encher de alegria. Quem pratique essa admiração ingénua pelas obras da natureza há-de embevecer-se ao contemplar, em Janeiro ou Fevereiro, as margens de um rio pintadas do amarelo das mimosas em flor, ou um prado brilhando com o amarelo pálido das azedas (Oxalis pes-caprae). O equívoco, nesse caso, é duplo: tão exuberante floração não é sinal de Primavera, mas sim de Inverno, que é a estação em que tais flores aparecem; e essas invasoras em flor não são uma amostra da força regeneradora da natureza, mas sim uma prova dolorosa do estado de degradação a que nós, humanos, reduzimos essa mesma natureza.

Mesmo nesta coisa de flores silvestres, há pois que aprender a desconfiar dos efeitos fáceis. Podemos, num primeiro instante, admirar os campos revestidos de flores todas iguais, mas depois convém saber de onde elas vieram, se deveriam estar ali, e se a sua presença massiva não significa afinal uma perda de biodiversidade. Em Maio do ano passado, entre Reinosa e Fontibre, na Cantábria, tivemos oportunidade de pôr à prova estes ensinamentos. A planta que tentou seduzir-nos pelo vermelho artificioso das suas flores pintava muitos quilómetros de berma de estrada. Resistindo estoicamente a tão desbragado assédio, parámos para uma sessão fotográfica que serviria de base ao posterior auto de identificação. Lavrou-se de seguida (quase um ano depois) a competente nota de culpa, que se transcreve abaixo.

Culpa afinal moderada, e com várias circunstâncias atenuantes. A Onobrychis viciifolia, planta perene de uns 70 cm de altura, é talvez exótica na Península Ibérica, mas não há certeza disso. É uma daquelas plantas que durante séculos foram cultivadas para forragem e das quais não se sabe a origem exacta, admitindo-se que seja nativa da bacia mediterrânica, daquela região onde a Europa se vai confundindo com a Ásia. Ao contrário do que sugere o nome científico, a planta não era consumida só por burros: gado de todos os tamanhos e feitios considerava-a um pitéu delicioso. Não foi por os bichos se queixarem dela que a planta deixou de ser cultivada em meados do século XX, mas por se ter dado preferência a outras leguminosas forrageiras (sobretudo trevos e luzernas) de maior produtividade. Como podemos levar a mal que uma planta apátrida, mas certamente europeia de origem, se tenha naturalizado, a uma escala afinal modesta, naqueles países europeus onde foi um importante recurso agrícola? Assim sendo, já estamos autorizados a declará-la bonita e a sentirmo-nos felizes quando a vemos florir numa berma de estrada.

18/04/2018

Assembleias de montanha


Iberis carnosa Willd.


O nome Iberis refere-se à Península Ibérica, que nos séculos XVIII e XIX serviu de «Amazónia» para muitos exploradores europeus de botânica. E, ainda que haja Iberis noutras regiões, cerca de dois terços das espécies conhecidas ocorrem na Península Ibérica. A lista das espécies deste género de que há registo em Portugal é mais modesta, apenas quatro, mas dela consta uma subespécie endémica, cujas populações se situam no litoral e quasi-litoral (locais perto da costa, por vezes elevados, mas não à beira-mar) do centro do país.

A designação comum em português, assembleias, alude com precisão aos corimbos de flores reunidas a formar uma superfície quase plana. Em inglês chamam-lhes candytuft, algo a soar como ramalhete-de-Candia, sendo Candia um nome antigo para uma região na ilha de Creta. As Iberis são da família Brassicacea, a da couve (Brassica oleracea), cujos membros têm em comum dois pormenores que ajudam a identificá-los: as quatro pétalas em cruz (por isso Brassicacea = Cruciferae) e as sementes em silíquas longas ou achatadas, que no género Iberis são redondas como bolachas.

As assembleias que conhecemos melhor são costeiras, apreciando o solo arenoso e a ausência de sombra. Protegem-se do vento, do excesso de sal e da areia abrasiva com folhas carnudas e porte rasteiro. Na montanha são outros os receios, mas as plantas não descartam estas características vantajosas, acrescentando alguma penugem como agasalho aos talos e à folhagem. A espécie que hoje vos mostramos, e que vimos em fissuras de rocha no Picon del Fraile (Cantábria), é de montanha, entre os 800 e os 1500m de altitude. Sendo perene, passa o Inverno debaixo de neve, mantendo-se baixinha (não mais de 10cm de altura) enquanto floresce no Verão, pois (como experimentámos) nestes picos o frio e a ventania raramente arredam pé. É espontânea na bacia mediterrânica e em Espanha.

10/04/2018

O que há de mais manso



Carduncellus mitissimus (L.) DC.


A esta planta de flores rentes ao chão, incapaz de esticar o pescoço, falta-lhe tamanho para ser um cardo a sério. Será esta a explicação para um nome genérico (Carduncellus) que, segundo alguns, significa "pequeno cardo"? Acontece que tal nome não foi inventado para ela: Lineu, que foi quem primeiro a baptizou, chamou-lhe Carthamus mitissimus, nome ainda hoje preferido por vários autores; e o género Carduncellus inclui plantas de tamanho respeitável, como o bonito cardo-azul que encontramos no centro e sul de Portugal. Terá sido pois por feliz coincidência que este cardo sem dúvida pequeno veio a chamar-se Carduncellus. De facto esse nome foi originalmente dado, tanto por Lineu como por um seu antecessor quinhentista, a uma planta igualmente atarracada, parente próxima da que hoje aqui mostramos, de seu nome Carduncellus monspeliensium (ou Carthamus carduncellus).

A outra metade do nome científico, o epíteto mitissimus, é um aumentativo de mitis, que significa "suave" ou "manso". Lineu, cansado de picar os dedos ao manusear as amostras botânicas que recebia, quis mostrar-se grato pela mansidão deste cardo sem espinhos.

O cardinho-mansíssimo vive em prados calcários nas zonas montanhosas do extremo norte da Península Ibérica e do sudoeste de França — ou, mais resumidamente, na cordilheira cantábrica e nos Pirenéus — e floresce entre Maio e Junho. Faz lembrar, no aspecto geral, a Jurinea humilis que temos nas serras do Açor e da Estrela, mas distingue-se claramente dela pelas brácteas involucrais. Mais semelhante nos detalhes, até porque integra o mesmo género botânico, é o espinhento e nem sempre anão Carduncellus cuatrecasasii, encontrado pela primeira vez em Portugal no ano de 2011.

04/04/2018

Narciso amarelo-limão


Narcissus bulbocodium subsp. citrinus (Baker) Voss [sinónimo: Narcissus gigas (Haw.) Steud.]
Referindo-se, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

E traduzi (omitindo a tradução exacta de primrose, pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada.» O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela.» Mas, de repente, pensou. «Há uma diferença», acrescentou. «Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só.» E depois disse: «O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.»

Álvaro de Campos
Obras de Fernando Pessoa, Lello & Irmão — Editores, Porto, 1986

27/03/2018

Super-chícharo das altas montanhas



Lathyrus laevigatus subsp. occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Breistr.
[sinónimo: Lathyrus occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Fritsch nom. illeg.]


As altas montanhas onde vive o super-chícharo são os Alpes, os Pirenéus e a cordilheira cantábrica. Não é nos cumes gelados que ele encontra o seu lugar, mas no aconchego reconfortante dos bosques das encostas e do sopé dos montes: segundo a Flora Iberica, a sua zona de conforto altitudinal situa-se entre os 400 e os 2100 metros. E foi a uns 1000 metros de altitude, numa estrada sinuosa ensombrada por faias (Fagus sylvatica), que o aviso laranja dos seus cachos de flores nos obrigou a uma paragem de emergência.

O nome super-chícharo que atribuímos a este Lathyrus justifica-se pelo espanto de boca aberta que ele nos provocou. Só uma demorada consulta dos manuais nos permitiu enquadrá-lo num género ao qual nunca suporíamos que pertencesse. As espécies de Lathyrus em Portugal (confira aqui), ainda que muito variadas, não têm flores desta cor, nem dispostas em espigas como velas acesas. As folhas compostas pinadas, desprovidas de gavinhas, são tão grandes que fazem lembrar as das glicínias (Wisteria sinensis). E os caules erectos e robustos não são guarnecidos pelas membranas laterais que caracterizam muitos dos nossos chícharos (exemplos: 1, 2).

Tratando-se de planta tão vistosa, quem viva em climas temperados mas frescos pode até encomendar sementes para com ela ajardinar o bosque nas traseiras de casa. A fama e do proveito não a livram contudo da controvérsia taxonómica, havendo quem a subordine, como subespécie, a Lathyrus laevigatus, e outros que a promovem a espécie autónoma, sob o nome de Lathyrus occidentalis. A primeira opção parece mais razoável, porque as diferenças entre a subsp. occidentalis (de que aqui tratamos) e a subsp. laevigatus (que ocorre na Europa do Leste e na Rússia ocidental) são de pouca monta, resumindo-se à indumentação (a primeira é algo pubescente, a segunda quase glabra), à largura dos folíolos (os da segunda são um pouco mais largos) e ao comprimento dos dentes do cálice. A Flora Iberica alinhou pelos autonomistas, mas o nome que escolheu padece de ilegalidade: Karl Fritsch, ao chamar em 1895 Lathyrus occidentalis a esta planta, repetiu um nome que tinha sido usado em 1838 por Thomas Nuttall para designar uma espécie completamente diferente (tida hoje como sinónimo de Lathyrus palustris L.). Quando um mesmo nome é usado para coisas diferentes, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (ICBN) impõe que só é aceite o uso validado pela publicação mais antiga. Resumindo: para poder apresentar-se como espécie independente, falta a este super-chícharo um nome válido à luz do ICBN.

21/03/2018

O capuchinho púrpura


Orchis purpurea Huds.


Lady orchid é a designação inglesa para a orquídea acima ilustrada. O nome alude ao formato de cada flor, a lembrar uma figura humana em miniatura, com um capuz de cor púrpura que contrasta com o tom esbranquiçado pintalgado de rosa do labelo; este divide-se em vários lóbulos para formar os braços e a saia da lady, com um subtil rebordo violeta. Desta espécie não há registo em Portugal, mas estes detalhes morfológicos são comuns a outras espécies que por cá existem, com destaque para a Man orchid (Aceras anthropophorum; em português chamamos-lhe rapazinhos), a Naked man orchid (a flor-dos-macaquinhos, de nome científico Orchis italica) e a Burnt orchid (Orchis ustulata), as duas primeiras frequentes no nosso país e a terceira (fotos em baixo) muito rara.


Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]
A Lady é escultural e alta (pode atingir 1 metro de altura), com uma inflorescência fácil de detectar por causa do tom vermelho-arroxeado dos botões por abrir no topo, das dezenas de flores na haste e do aroma a baunilha ou amêndoa. Trata-se de uma planta de bosque que pede solo calcário bem drenado. É usual encontrá-la refastelada nos tapetes de folhas de árvores caducas, até empoleirada em raízes mais grossas destas árvores. Não recusa margens soalheiras de floresta se protegidas do vento, mas, não surpreendentemente, as flores de plantas em zonas mais sujeitas a sol intenso ou a intempéries tendem a ser mais pequenas, mais escuras e com os labelos pintalgados de castanho.

A distribuição da O. purpurea causa-nos alguma inveja. Ocorre em boa parte da Europa, com algumas populações no norte de África e Ásia, e em Espanha é comum no nordeste, sendo rara no centro e sul. Entre a germinação e a primeira floração de cada uma destas plantas podem passar  8 a 10 anos, vivendo ela depois mais uns 10, tendo florido apenas uma meia dúzia de vezes neste período. O declínio desta espécie em alguns habitats é preocupante, seja pela destruição dos bosques, pela má gestão da floresta, ou pelo repasto de coelhos, cervos e javalis que, entre Janeiro e Fevereiro não resistem às folhas muito verdes e longas desta orquídea, entre Abril e Junho se banqueteiam com as flores e, porque o Inverno está a chegar, ainda reservam barriga para os suculentos tubérculos.

13/03/2018

Goivo cantábrico


Matthiola perennis Conti


As línguas vernáculas, por serem incapazes de abarcar a riqueza do mundo natural, chamam pelo mesmo nome coisas que são marcadamente diferentes. Essa simplificação é também um empobrecimento: sob a imprecisa designação de "mosca" ou "malmequer" escondem-se diversíssimos insectos e flores que se calhar mereciam o benefício da nossa curiosidade. Em menor escala, passa-se o mesmo com "goivo", nome que pode ser dado a umas tantas crucíferas de flores vistosas dos géneros Erysimum, Matthiola ou Malcolmia. O goivo mais famoso, Erysimum cheiri, é de origem hortícola e teve grande voga (mesmo em Portugal) no tempo em que havia flores nos jardins. Em quase todo o nosso litoral aparece o goivo-das-areias ou goiveiro-da-praia (Malcolmia littorea), que floresce alegremente de Janeiro a Dezembro. Os goivos mais felpudos, como aquele que está hoje no escaparate, pertencem ao género Matthiola, que inclui plantas bem nossas conhecidas: a Matthiola sinuata, a que com justiça chamaríamos também goivo-da-praia; a Matthiola maderensis ou goivo-da-rocha, vistoso endemismo do arquipélago da Madeira; e a Matthiola incana, um goivo de jardim com cultivares de muitas cores que está naturalizado em várias ilhas açorianas.

A Matthiola perennis, planta cespitosa com hastes até 30 cm de altura, é um endemismo da cordilheira cantábrica que vive em rochas calcárias e floresce entre Maio e Agosto. As pétalas cor-de-rosa, compridas e retorcidas fazem lembrar as da Matthiola fruticulosa que conhecemos do Douro internacional e de outros raros lugares em Trás-os-Montes. Mas há diferenças entre as duas que se detectam a olho nu: a Matthiola perennis tem hastes simples e desprovidas de folhas; a Matthiola fruticulosa tem-nas ramificadas e com folhas, dando à planta o aspecto de um mini-arbusto (é esse o significado do epíteto fruticulosa). Há ainda diferenças menos óbvias nas folhas, nos frutos e até no tamanho das sementes, com as da Matthiola perennis a terem o dobro do comprimento e da largura.

07/03/2018

Menina para sempre


Erinus alpinus L.


Siempreniña é o nome comum por que é conhecida em espanhol esta planta, cuja floração enfeita em Maio rochedos calcários por toda a Cantábria. Hesitámos na tradução. Talvez a designação vernácula pretenda aludir ao porte diminuto da planta (como referência, anote que os cálices destas flores têm 3 a 7 mm de altura e as corolas 6 a 12 mm de diâmetro), como se ela vivesse eternamente na infância. Mas ficámos a saber pela Flora Iberica que a planta parece aumentar de volume no período de frutificação, como se de uma gravidez se tratasse: a inflorescência, que é densa enquanto as flores estão aptas para a polinização, fica mais larga e lassa quando as flores amadurecem, talvez para acomodar melhor os frutos que aí vêm.

O género Erinus tem uma distribuição vasta pelas montanhas do sul da Europa e do norte de África, abrigando umas trinta espécies. Não há registo em Portugal da única espécie que ocorre na Península Ibérica, apesar dos inúmeros afloramentos calcários do país à disposição para ela colonizar. A falta de frio intenso nas nossas montanhas pode ser o entrave mais relevante à sua vinda para cá; na serra da Estrela ainda neva, mas não há lá o substrato básico que esta espécie prefere.

Guardemos destas fotos, ou destas outras um pormenor que ajuda a identificar este género: as corolas tubulares terminam em geral em cinco lóbulos, dois deles mais estreitos, juntos e erectos como duas orelhas de coelho. Dirá de imediato o leitor que, por exemplo, as flores das lobélias também têm estas características. Pois sim, mas as correspondentes «orelhas» são de esquilo, não acha?

27/02/2018

Valente Valéria


Valeriana pyrenaica L.


Como tudo aquilo que foge à sua escala, seja por defeito ou por excesso, a Valeriana pyrenaica suscita a nossa ingénua admiração. Neste caso impõe-se pela sua grandeza e robustez. Ultrapassando folgadamente um metro de altura, duplica a marca da mimosa e frágil Valeriana tuberosa; e, embora não seja muito mais alta do que a V. dioica, vê-las lado a lado seria como confrontar uma bailarina com um lutador de sumo. As folhas da Valeriana pyrenaica têm o formato cordiforme das folhas das tílias que enfeitam os nossos jardins, mas são muito maiores, com 20 cm de comprimento por outros tantos de largura. Os caules grossos, simples e erectos escondem um segredo que é também uma fragilidade: são ocos e não resistem a um encontrão. Só as inflorescências compactas destoam do excesso geral, parecendo ter sido compradas na mesma loja onde se abasteceram as outras espécies, e onde não havia em stock as inflorescências XL mais à medida desta cliente.

A maior Valeriana ibérica vive, como o seu nome indica, nos Pirenéus, mas também ao longo de toda a cordilheira cantábrica e nas montanhas da Galiza. Só não é exclusivamente peninsular porque passou os Pirenéus a salto para se instalar no sudoeste de França. Vive nas margens (ou por vezes no leito) de cursos de água mais ou menos torrenciais, em bosques de folhosas (faias ou carvalhos) ou de coníferas (abetos ou pinheiros), e floresce entre Maio e Julho. Acima vêmo-la num dos muitos ribeiros que, nascidos do degelo do Pico Tres Mares e dos cumes adjacentes, se lançam através do extenso faial do Parque Saja-Besaya, na Cantábria.

Dizem as obras de referência que a Valeriana foi assim chamada por valer aos doentes numa aflição. Mas quem merecia a estima de boticários e herbalistas pelas suas inúmeras virtudes era a Valeriana officinalis, e a maioria das espécies do género não comunga dessa vocação medicinal. Fica o leitor avisado de que, se deparar com a Valeriana pyrenaica numa visita aos Pirenéus ou à Cantábria, não vale a pena colher folhas ou qualquer outra parte da planta para uma infusão. Só conseguiria estragar a planta e talvez ganhar uma dor de barriga.