14/10/2018

Alecrim do mar

Apesar do turismo intenso na ilha durante todo o ano, a flora do litoral de Tenerife superou as nossas expectativas. Claro que ajuda à conservação da biodiversidade que as falésias à beira mar sejam íngremes, com ladeiras pedregosas e escorregadias, onde a aridez e o vento desaconselham as visitas e evitam o pisoteio. E que seja precisamente esse habitat, que nos parece tão inóspito, o que algumas das espécies mais bonitas preferem.


Campylanthus salsoloides (L.f.) Roth


O alecrim-do-mar (em espanhol, romero marino) é um endemismo das ilhas Canárias, presente em quase todas elas mas quase sempre em núcleos escassos. Há registo de duas variedades, uma de flores violeta-carmim (a mais frequente) e outra bastante rara de flores brancas, ambas com a base das pétalas claras e o interior do tubo amarelo. É um arbusto perene e lenhoso (diz-se que dos seus troncos secos se faziam outrora cachimbos), ramificado desde a base, com folhas cilíndricas e carnudas a lembrar as de algumas espécies do género Salsola. As suas flores agrupam-se em arranjos terminais, e o seu formato sugeriu a A. W. Roth (em 1821) o nome do género: Campylanthus provém dos termos gregos kampylos (encurvado) e anthos (flor), aludindo à curvatura do tubo floral (que se nota na 3ª foto) e às pétalas ligeiramente recurvadas para trás. Cerca de quarenta anos antes, o filho de Lineu designara esta espécie como Eranthemum salsoloides, de que se preservou o epíteto específico aquando da mudança de género.

Vimos estes exemplares em Dezembro de 2017, há muito passada a época oficial de floração desse ano (que, segundo as Floras, se prolonga de Janeiro a Julho). Mais um mês, e as inflorescências do ano seguinte mostrar-se-iam assim mais vistosas.

06/10/2018

Violeta de Anaga



Viola anagae Gilli


Anaga, no extremo oriental de Tenerife, feita de relevos abruptos e acidentados, cortada por (poucas) estradas todas em curvas e contra-curvas, suspensas em encostas vertiginosas, esconde uma floresta laurissilva que, embora menos húmida e luxuriante do que a da Madeira, não lhe fica nada atrás em riqueza botânica. É um mundo à parte que parece ter-se juntado por acidente à mesma ilha onde pontifca a paisagem lunar da montanha do Teide. Seguimos de carro pela crista arborizada, a 900 metros de altitude, com a floresta derramando-se pelas encostas, e acessível por caminhos partindo dos vários lugares onde era possível estacionar. Nesta latitude subtropical, mesmo em Dezembro havia flores na berma de estrada que nos obrigaram a sucessivas paragens: uma misteriosa Pericallis, um gerânio gigante, os sinos alaranjados da Canarina. Chegámos por fim ao ponto onde tinha início o trilho quase secreto (só o encontrámos à segunda tentativa) que, entre loureiros e urzes, e pontuado pelo nosso bem conhecido feto-do-botão e por algumas orquídeas temporãs, nos conduziria ao almejado pico Chinobre.

O nosso objectivo era encontrar a Viola anagae, uma violeta endémica de Tenerife que só existe nos bosques desta ponta da ilha. Ao longo do trilho, assim como no exacto lugar onde deixámos o carro, avistámos tapetes de folhas que pertenciam indubitavelmente a alguma violeta — mas, sendo eles tão extensos e numerosos, supusemos tratar-se de coisa banal como a Viola riviniana, comum em toda a Europa e igualmente presente nas Canárias. Mas as folhas anormalmente grandes e coriáceas, com as margens peculiarmente serradas, acabaram por despertar suspeitas que, alcançado o pico Chinobre, se converteram em certezas: aquilo era mesmo a Viola anagae, e ali no pico (mas não antes) havia meia dúzia de flores a comprová-lo. Aprendemos a lição: um endemismo muito restrito (a área total de distribuição da Viola anagae é talvez inferior a 3 km2) pode afinal ser abundante nos poucos nichos onde se acolhe.

A Viola anagae é uma planta rizomatosa, de longos caules rastejantes e folhagem perene, com flores pequenas (1,5 a 2 cm de diâmetro) mas de coloração distintiva. Não é a mais vistosa do seu género nas Canárias, mas dificilmente se confunde com qualquer outra Viola nativa do arquipélago. Sendo tão fácil de encontrar na laurissilva de Anaga, e sendo a flora canarina tão intensamente estudada pelo menos desde o século XIX, é um mistério que a espécie só em 1979 tenha sido reconhecida. Quem dela publicou a primeira descrição foi o botânico austríaco Alexander Gilli (1904-2007).

29/09/2018

Marcetella, menino ou menina?

Subíamos nós a pé por uma estrada íngreme que liga Los Silos a Tierra del Trigo, em Tenerife, quando avistámos na berma um arbusto elegante e ramoso, de folhas glaucas e pinadas, dispostas em rosetas muito vistosas. Parecia enfeitado com espigas pendentes de flores diminutas e sésseis, cabeludas mas sem pétalas, protegidas por sépalas em tom verde escuro com matizes rubros. Viam-se também cachos de frutos que nos lembraram sâmaras de ulmeiro ou de Sanguisorba. A embelezar o conjunto notava-se uma curiosa penugem avermelhada nos talos superiores.



Marcetella moquiniana (Webb & Berthel.) Svent.
Depois de amplamente registado em foto, reiniciámos a caminhada, mas estacámos de imediato: ali estava outro arbusto semelhante, mas não igual: a folhagem não era tão azulada, as sépalas eram bastante mais reviradas e a cor dominante era o verde-amarelado; além disso, parecia dar frutos diferentes. Mas os frutos não eram frutos (eram flores ainda em botão) e tratava-se afinal da versão masculina do arbusto anterior — que, confirmámos depois, é de facto de uma espécie dióica.



O nome do género é uma homenagem do botânico sueco Eric S. Sventenius ao Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal (1875-1964), estudioso da montanha de Montserrat, na Catalunha, que em 1903 iniciou um herbário exaustivo da flora desta região. A colaboração frutuosa entre Marcet e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius, entre outros, trouxe à lembrança o contributo notável que resultou da cooperação científica entre o Padre Miranda Lopes, de Vimioso, e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho. O epíteto moquiniana refere-se ao naturalista francês Christian Horace Benedict Alfred Moquin-Tandon (1804–1863), que foi director do Jardim Botânico de Toulouse e, posteriormente, do Jardin des Plantes, e também co-autor de uma História Natural das Ilhas Canárias (1835–1844).

Marcetella, da família Rosaceae, é um género exclusivo da Macaronésia, com duas espécies conhecidas: a M. moquiniana das ilhas Gran Canaria, Tenerife e La Gomera; e uma espécie endémica na Madeira, M. maderensis (Bornm.) Svent., designação ainda provisória pois alguns estudos sugerem ser ela mais próxima do género Sanguisorba. Na nossa visita à Madeira não vimos nenhum exemplar dessa segunda Marcetella, que se afigura ser ainda mais rara do que a sua irmã das Canárias. Habita escarpas rochosas expostas do litoral e interior da Madeira, desde a Câmara de Lobos até ao Pico do Cedro, sem subir além dos 700 metros de altitude. Locais a explorar numa próxima visita ao arquipélago.

18/09/2018

Douradinha dourada



Ceterach aureum (Cav.) Buch [sinónimo: Asplenium aureum Cav.]


Apesar de ele ser mais prateado do que dourado, douradinha é o nome que em Portugal se dá ao Ceterach officinarum, um feto que aparece de norte a sul do país e é particularmente abundante em rochas e paredes calcárias. A Madeira tem a sua própria versão do feto em formato avantajado: leva o nome de Ceterach lolegnamense e vive na vertente sul da ilha, sobre velhos muros ladeando as íngremes estradas em redor do Funchal. Já aqui lhe dedicámos desenvolvida reportagem; demos então conta de que ele vivia separado dos seus presumíveis pais, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, ambos endémicos das Canárias. De uma espécie gerada por hibridação e poliploidia, espera-se que reúna os cromossomas dos dois progenitores. Sendo o C. aureum um tetraplóide e o C. octoploideum um octoplóide, deveria o Ceterach lolegnamense ser dodecaplóide, mas afinal fez a coisa por metade e ficou-se como hexaplóide. As leis da genética condenavam-no à esterilidade, mas os seus gametófitos praticam a apomixia — ou seja, dispensam a fecundação para produzir novas plantas — e desse modo a espécie logrou perpetuar-se.

Na nossa visita a Tenerife apenas se nos mostrou um dos progenitores do feto madeirense, precisamente o Ceterach aureum, que é o maior dos dois e em tamanho excede claramente o C. lolegnamense. A ecologia do feto canarino é assaz diferente da dos seus congéneres, procurando ele lugares abrigados e húmidos, muitas vezes em ambiente florestal. É um tipo de habitat que é bem menos frequente nas Canárias do que na Madeira ou nos Açores, e daí que o Ceterach aureum, ou douradinha dourada, não seja fácil de encontrar. Vimo-lo apenas no barranco de Añavingo, vicejando na frescura possível de um fim de ano cálido.

O tamanho não nos deixou dúvidas quanto à identidade do feto, mas o caso mudaria de figura se tivéssemos deparado com um feto mais débil. Estando nós mal equipados para contar cromossomas, e de um modo geral para executar tarefas microscópicas, ver-nos-íamos em maus lençóis para distinguir o C. officinarum do C. octoploideum, sendo certo que ambos ocorrem nas Canárias. De facto, e como se conta no artigo (de 2006) Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta), já há muito se haviam detectado nas Canárias duas formas do Caterach, tidas as duas como variedades do C. aureum, e sendo a forma mais pequena chamada de C. aureum var. parvifolium. Essa variedade parvifolium seria octoplóide, e a variedade nominal tetraplóide. O estudo dos autores do artigo revelou porém que muitos dos exemplares atribuíveis à variedade parvifolium eram na verdade tetraplóides, e correspondiam, tanto morfológica como geneticamente, ao exacto Ceterach officinarum do continente europeu. Pior ainda: verificou-se que o holótipo da variedade parvifolium era um exemplar de Ceterach officinarum, o que automaticamente fazia com que C. aureum var. parvifolium e C. officinarum fossem sinónimos. Assim, esse estudo, além de estabelecer a existência de três formas de Ceterach nas Canárias, revelou que uma delas (a forma pequena octoplóide) não dispunha ainda de nome válido, e daí terem-na os autores baptizado como C. octoploideum.


11/09/2018

Uma alface na estrada do Teno



Astydamia latifolia (L. f.) Baill.


Na mitologia grega, Astydamia é uma ninfa, filha do deus Oceanus. Nome escolhido pelo botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle e sem dúvida apropriado à planta que hoje vos mostramos (primeiramente descrita como Crithmum latifolium por Lineu filho), pois ela aprecia precisamente lugares rochosos salpicados de mar. Conhecida como espécie endémica do noroeste de África e ilhas Canárias, foi depois encontrada também nas Selvagens, as ilhas do arquipélago da Madeira mais próximas de África. Da família Apiaceae, a mesma do aipo, funcho, coentros e cenouras, esta herbácea é robusta, de folhas suculentas e talos lenhosos, e tolera grandes concentrações de sal e maresia. As flores são pequeninas, de pétalas amarelas com pontas recurvadas e sépalas com textura de papel que caem antes de as flores desabrocharem. Estas são hermafroditas mas apresentam algum dimorfismo, dispondo-se em geral no bordo da umbela as mais vistosas e funcionalmente masculinas. O fruto é um invólucro com uma tampinha, da cor da cortiça quando maduro.

A Astydamia latifolia é frequente na região costeira de Tenerife, e fomos conhecê-la num sábado morno de Dezembro. Sem o prevermos, começámos o passeio junto a uma cancela provisória bem guardada por um agente da autoridade. Informou-nos, em tom de proprietário, que aos sábados e domingos se vedava aquele percurso ao trânsito automóvel até ao fim da tarde. Creio que nunca nos soube tão bem largar ali o carro e percorrer a pé vários quilómetros sem que o bulício de viaturas se intrometesse com a nossa caminhada. Acedia-se à ponta da ilha onde é fácil fotografar a alface-do-mar por uma longa estrada sempre a subir, seguida de um túnel que desembocava numa outra via mais estreita mas igualmente extensa, ladeada por taludes abruptos até ao mar. No túnel, só alumiado quando o trânsito circula, ouviam-se ruídos que o medo logo associou a morcegos ou vingativos adamastores. Mas eram pássaros, osguinhas e borboletas, e à saída esperava-nos um habitat onde gastámos sem pressa várias horas. Levará meses até que consigamos revelar-vos todas as plantas extraordinárias que por lá observámos.

04/09/2018

Lábios pulcros


Cheilanthes pulchella Willd.


Noutras eras geológicas, há seis ou sete milhões de anos, este feto terá existido na Europa e no norte de África, mas foi expulso pela clima progressivamente mais árido e frio da última etapa do Mioceno, com o mar Mediterrâneo secando quase por completo e convertendo-se num deserto salobro. Refugiou-se nas Canárias, onde ficou a salvo das glaciações que atingiram o continente europeu, e onde hoje está presente em cinco das sete ilhas: Grã-Canária, Tenerife, El Hierro, La Palma e La Gomera. Com base num único exemplar de herbário de origem duvidosa, colhido em 1810 talvez na província galega de Orense, várias vezes se alegou a sua existência na Península Ibérica, mas esse improvável encontro (erro de atribuição ou canto do cisne?) nunca se repetiu. A sua presença na Madeira, que seria menos estranha, também está minada por dúvidas, e por isso é apropriado considerar o Cheilanthes pulchella como um endemismo canário, pese embora a sua presumível origem noutras paragens. Antes de migrar para as Canárias terá produzido descendência, desse modo perpetuando os seus genes no continente europeu: juntamente com o C. maderensis, é um dos progenitores do C. guanchica, um feto que em Portugal continental ocorre apenas na serra de Mochique.

O epíteto pulchella pode, em português refinado, traduzir-se por pulcro, e é forçoso admitir que este Cheilanthes pulchella suplanta em beleza qualquer um dos seus cinco congéneres em territónio nacional. As suas folhas têm um desenho mais elaborado, executado por uma mão mais firme, sem as rugosidades e hesitações que maculam as outras espécies. São também maiores, amiúde com porte erecto e crescendo a descoberto, tendo assim melhores oportunidades para se mostrarem do que as que se escondem em fendas de rochas.

O Cheilanthes pulchella dá-se bem com a secura, mas não tolera o frio. Nas Canárias vive sobre rochas vulcânicas, em lugares onde a chuva quase nunca cai; as brisas que pela manhã sopram do mar parecem trazer-lhe humidade que baste. Em Tenerife, nas bermas da estrada que sobe para a montanha do Teide, começa a ver-se a uns mil metros de altitude, num solo caótico formado por calhaus e fragmentos de rocha que dir-se-ia terem sido passados numa trituradora. O coberto arbóreo, que se diria impossível em tal substrato e em tais condições de secura, é composto exclusivamente por pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis). Ao Cheilanthes pulchella juntam-se alguns raros arbustos e outros dois fetos xerófilos, Notholaena marantaea subsp. subcordata e Cosentinia vellea, na tarefa ingrata de pincelar de verde esta paisagem em tons de castanho e cinzento.

28/08/2018

Canarina

Apesar de persistir alguma controvérsia, os estudos geológicos parecem confirmar que algumas das ilhas Canárias se originaram em vulcões no Atlântico, não tendo sido nunca parte do continente africano. Mas Lanzarote e Fuerteventura, pelo menos, terão sido território do norte de África. Certo é que são todas ilhas muito antigas, onde se refugiaram espécies que foram frequentes há milhões de anos na região que hoje margina o mar Mediterrâneo ou no norte de África, e que actualmente só se encontram nos bosques de laurissilva dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias. Nestas ilhas, ficaram a salvo dos períodos glaciares e outras mudanças climáticas drásticas a norte, e da secura e aridez que se foi instalando a sul. Segundo David e Zoe Bramwell, autores da obra Flores Silvestres de las Islas Canarias, algumas das espécies endémicas destas ilhas têm actualmente os seus parentes mais próximos no sul de Espanha e em Portugal (entre eles contam-se Laurus nobilis, Prunus lusitanica e Convolvulus fernandesii) ou, não sendo endémicas, têm populações residuais na Península Ibérica (exemplos: Myrica faia e Woodwardia radicans); e outras endémicas insulares pouco diferem de espécies que ocorrem em florestas e montanhas africanas. Talvez a planta que agora vos mostramos seja uma dessas relíquias da flora que outrora verdejaram na região hoje ocupada pelo deserto do Sáara.

Canarina canariensis (L.) Vatke


Tal como acontece com a Azorina vidalii, espécie única do género Azorina e que só ocorre nos Açores, e do género Musschia, que existe somente na Madeira e Desertas e de que há registo de três espécies, também as ilhas Canárias têm a sua quota de campanuláceas endémicas. A Canarina canariensis é uma trepadeira glabra da floresta laurissilva, relativamente comum nos bosques frescos (mas raramente frios), húmidos e quase sempre enublados das partes altas destas ilhas. As flores, raiadas de vermelho e polinizadas por pássaros, têm cerca de 7 cm de comprimento. Os parentes em África apresentam semelhanças notórias: veja, por exemplo, aqui imagens da Canarina eminii, que se distingue essencialmente pela cor das flores da também africana Canarina abyssinica.

Como se tivesse memória dessa conexão africana, a C. canariensis floresce entre Novembro e Janeiro, enquanto na África meridional é Primavera ou se inicia o Verão. Hiberna entre Maio e Setembro, sobrevivendo das reservas de nutrientes que guardou em vigorosos tubérculos nas raízes, lançando anualmente um novo talo que pode atingir os 3 metros. O fruto é uma baga carnuda, escura quando madura, que é comestível e, asseguram, doce.

14/08/2018

A confusão dos dentes-de-leão



Hieracium amplexicaule L.


Antes que o nomadismo (ainda que virtual) nos arraste para outras paragens, não ficaria completo este breve regresso ao Gerês se não nos detivéssemos num dente-de-leão. Nem só de caviar vive o homem, e um aspirante a botânico não pode atentar apenas nas plantas prestigiadas por uma aura de beleza ou raridade. Numa abordagem imediata, avessa a subtilezas, diríamos que os dentes-de-leão nada têm de raro. Quanto à beleza, depende de quem vê, pois há gostos para tudo. Se eles vivem em relvados urbanos, despontam entre as rachas dos passeios, proliferam em terrenos baldios e em jardins mal amanhados, e conseguem ainda aparecer em bosques, prados e praias, não parece que tenham a sobrevivência ameaçada.

Acontece que, nessa designação imprecisa de dentes-de-leão, cabem coisas muito diversas: a saber, todas as (inúmeras) asteráceas de capítulos amarelos em que estes são compostos apenas por florículos ligulados — não havendo, como nas margaridas (outro nome demasiado abrangente), uma diferença clara entre os florículos que formam o disco central e aqueles que dão as "pétalas". Os dentes-de-leão mais frequentes em ambientes ruderais pertencem aos géneros Taraxacum, Leontodon, Hypochaeris, Sonchus e Crepis. Mesmo dentro destes géneros mal-afamados há espécies que frequentam ambientes mais selectos (como o Crepis lampsanoides, que aparece em carvalhais) e outras que, tendo-se desenvolvido em habitats peculiares, alcançaram inegável prestígio: no género Leontodon há três formosos endemismos açorianos; e, na Madeira e nas Canárias, os Sonchus cresceram e multiplicaram-se até ficarem irreconhecíveis, com muitas espécies transformando-se em árvores.

O dente-de-leão que fotografámos entre as rochas, no estradão dos Carris, pertence ao género Hieracium, famoso pela sua dificuldade. É um género em que os não-especialistas se devem abster de dar palpites sobre a identificação das espécies. Certezas? Só aquelas que a alegre inconsciência permite, e por isso apenas ao alcance dos principiantes mais absolutos.

Bem prega Frei Tomás, pois afinal as fotos vêm etiquetadas como sendo do Hieracium amplexicaule. Se o escriba não tem certezas, arroga-se pelo menos o direito de mandar palpites. Como desculpá-lo? Das cerca de seiscentas espécies de Hieracium que se admite ocorrerem na Península Ibérica, os especialistas identificaram umas 26 principais que por sucessivos cruzamentos terão dado origem a todas as outras. Cada espécie principal estaria assim rodeada por uma constelação de espécies secundárias semelhantes em cuja progenitura esteve envolvida. Entre as espécies principais, o Hieracium amplexicaule é distintivo por ser densamente glanduloso em todas as suas partes (o que o torna muito pegajoso), e por ter as folhas superiores abraçando o caule (é esse o significado de amplexicaule). A espécie vive em zonas pedregosas de montanha, descrição que encaixa sem favor no habitat ocupado pela planta geresiana, ajudando a reforçar o palpite. As dimensões também parecem correctas, atingindo o H. amplexicaule uns 40 cm de altura máxima (ou, excepcionalmente, até 55 cm).

Assim, se a planta do Gerês não for H. amplexicaule, será pelo menos filha ou neta dessa espécie — ou talvez filha e neta, pois vergonha é coisa que as plantas desconhecem. Está em flor em meados de Junho. Também a vimos, ou ingenuamente a julgámos ver, no topo da serra do Marão, florescendo aí umas semanas mais tarde.

31/07/2018

Um funcho cabeludo


Ferulago capillaris (Link ex Spreng.) Cout.



As piscinas do rio Homem, de água límpida escoando-se devagar entre grandes blocos rochosos, são um poiso favorito para quem no Verão demanda o Gerês em busca de frescura. Há que pagar (por duas vezes) um euro de portagem e fazer a pé os 700 metros desde a Portela do Homem, onde deixamos o carro, até à ponte sobre o rio, onde nos debruçamos para a foto obrigatória. O acesso às piscinas faz-se logo ali. Se o fôlego e o calçado o permitirem (andar de chinelos num caminho pedregoso e esburacado não é boa ideia), podemos subir umas centenas de metros pelo estradão dos Carris e alcançar uma piscina longe das multidões.

O vale do rio Homem é muito verde, mas os carvalhos, azevinhos, bétulas, pereiras-silvestres, medronheiros e tramazeiras vão-se fazendo esparsos à medida que subimos, até que predominam os matos de giesta, urze e carqueja. As rochas por onde o rio se espreguiça dão abrigo a uma vegetação herbácea e arbustiva rica em raridades: Amelanchier ovalis, Narthecium ossifragum, Vincetoxicum hirundinaria e, não menos importante, uma umbelífera, Ferulago capillaris, a que os mais distraídos chamarão funcho. Confusão compreensível atendendo às flores amarelas e às folhas muito recortadas, mas rapidamente desmentida pelo olfacto: o Ferulago capillaris não tem cheiro digno de nota. (Antes usar o olfacto do que o paladar: mordiscar uma planta que desconhecemos pode fazer mal à saúde.) Os olhos também podem contribuir para desfazer o equívoco: o funcho propriamente dito (Foeniculum vulgare) é uma planta esguia e desgrenhada, com umbelas muito mais ralas. O Ferulago capillaris, capaz de ultrapassar 1,5 m de altura, tem uma haste robusta e erecta, ramificada apenas na parte superior, que é encimada por várias umbelas, a principal das quais formada por 20 a 40 raios, cada um deles sustentando cerca de dezena e meia de flores.

Tão fácil de ver no vale superior do rio Homem, é uma surpresa aprendermos que este robusto pseudo-funcho talvez não ocorra em nenhum outro ponto do Gerês e que, fora do Parque Nacional, só se sabe dele em meia dúzia de lugares em Trás-os-Montes e na Beira Alta. Endémico da Península Ibérica, o Ferulago capillaris não abunda nem em Portugal nem em Espanha: no país vizinho é mais frequente na serra de Gredos, parte de cadeia montanhosa que tem o seu limite oeste na serra da Estrela. Do género Ferulago conhecem-se mais três espécies na Península Ibérica, todas elas endémicas: F. brachyloba, F. granatensis e F. ternatifolia. A crer nos mapas de distribuição no portal Anthos, são todas de distribuição muito restrita.

24/07/2018

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.


Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)