05/04/2017

Leitugas ao vento

Aos lusitanos, habituados a manter as costas protegidas pelo resto da Península Ibérica, incomodam à vez vários ventos, sejam os de oeste, salpicados de água e maresia, os vindos de Espanha, secos e tórridos no Verão, as ventanias densas de areia do norte de África ou as aragens frias que sopram da Galiza. Na meia idade, basta que uma leve brisa de algum destes quadrantes nos desarranje o penteado para nos doerem os ossos. Anos depois, nenhuma gelosia se entreabrirá sem que soe o alerta de arrepios fatais. Com uma tal experiência e sabedoria eólicas, somos os primeiros a dar razão a muitas plantas que se recusam a colonizar parte da costa da Madeira, ou às que, resignadas a suportar os inevitáveis rigores climáticos a meio do Atlântico, ali mudam de forma e de feitio.

Poderá ter sido a necessidade de adaptação a vários habitats severos a origem de tantos endemismos da ilha da Madeira no género Sonchus. Os que hoje aqui se mostram florescem no Outono e Inverno, por isso em Dezembro encontrámos ainda flores viçosas. Apresentam poucas semelhanças com as espécies deste género que conhecemos na Península Ibérica, sem espinhos, penugem ou folhagem rugosa.


Sonchus ustulatus Lowe subsp. ustulatus



Sonchus ustulatus Lowe subsp. maderensis Aldridge


Estas são herbáceas perenes com uma só haste floral em cuja ponta balança uma cimeira de inflorescências amarelas. O aspecto mais bonito é, porém, a folhagem em roseta, tendo uma delas folhas carnudas e penatissectas, de lobos lanceolados e dentados, e a outra lobos laterais ovados ou rômbicos, por vezes sobrepostos, e de margens quase inteiras. Vivem em locais rochosos da costa: o S. ustulatus subsp. maderensis, descrito em 1976 e que também ocorre em Porto Santo e Desertas, precisa da humidade da costa norte da ilha da Madeira; o S. ustulatus subsp. ustulatus, que Lowe nomeou em 1831, prefere nichos secos e soalheiros da costa sul.

Sem abrigo que lhes valha, não se estranha o porte rasteiro de ambos, nenhum se elevando além dos 50 cm. Ficam, claro, muito aquém dos 2 metros de altura que pode atingir o S. pinnnatus (outro endemismo da ilha da Madeira, que ocorre em escarpas de montanha) ou dos 4 metros a que ascende o S. fruticosus (mais um endemismo, comum em ravinas e recantos húmidos de laurissilva no interior da ilha). Apresentam, parece-nos, algumas semelhanças com Sonchus da costa do norte de África, como o S. masguindalii ou o S. pustulatus, este de rochedos calcários costeiros de que se conhecem também populações em Almería, Espanha.

28/03/2017

Madeira Fern Fest (6)


Polypodium macaronesicum A. E. Bobrov subsp. macaronesicum


Com a sua forma simples e simétrica, que poderia ter sido rabiscada por uma criança, os polipódios são dos fetos mais comuns e mais simpáticos. Gostam da humidade e do tempo fresco, e por isso as suas folhas secam e desaparecem lá por meados de Abril, regressando com as chuvas de Outono. O seu calendário é o oposto do das árvores de folha caduca onde costumam empoleirar-se, com o admirável resultado de fornecerem a cabeleira postiça exactamente quando as árvores precisam dela. Além de enfeitarem a nudez das árvores, também são vistos em muros e em telhados. Às vezes descem até ao chão e despontam à sombra das árvores, outras vezes instalam-se em depressões dunares, com a maresia suprindo aquele grau de humidade que lhes é indispensável.

Embora a distinção entre eles possa ser subtil, há em Portugal continental três espécies de Polypodium. Não têm todos a mesma fenologia, e de facto o desaparecimento estival é mais característico do P. cambricum, que surge a baixas altitudes de norte a sul do país, mas com particular incidência na metade oeste. O P. vulgare, característico de bosques em zonas montanhosas e restrito ao norte e centro, pode manter-se viçoso durante quase todo o ano. A diferença entre os dois é notória: o P. cambricum tem as folhas bastante largas, enquanto que o P. vulgare as tem estreitas. Mas a terceira espécie vem dificultar as coisas: o P. interjectum é, em quase tudo, a média aritmética dos outros dois, e não é surpresa saber que resultou deles por hibridação e poliploidia.

Se rumarmos aos Açores ou à Madeira, mudam as árvores e mudam os muros, mas os polipódios não mudam assim tanto. A julgar pelas fotos que ilustram este texto, as duas primeiras tiradas no Porto Santo e as restantes na Madeira, o polipódio dessas ilhas assemelha-se muito, até na dessecação estival, ao P. cambricum do continente. O mesmo sucede nos Açores, como se pode ajuizar pelas fotos nesta página. Há contudo diferenças morfológicas, algumas delas microscópicas, entre os polipódios insulares e os continentais, motivo para em 1964 os polipódios macaronésios terem sido emancipados numa espécie autónoma. Estudos moleculares posteriores confirmaram a separação, estabelecendo ainda que o o P. cambricum e o P. macaronesicum pertencem à mesma linhagem, diferenciando-se por umas tantas mutações genéticas.

O nome Macaronésia sugere uma uniformidade de clima e de vegetação que anda longe de ser real. O polipódio ocorre nos Açores, Madeira e Canárias, mas será o mesmo nos três arquipélagos? Nos Açores as suas folhas têm uma textura mais coriácea, e as tentativas de hibridação (realizadas em 1996 pelo botânico R. Neuroth) do polipódio açoriano com o P. macaronesicum da Madeira e das Canárias, e com o P. cambricum do continente, falharam todas (por contraste, os dois últimos hibridaram sem dificuldade). Isso justificou a opção de alguns autores, que consideraram o polipódio açoriano como pertencente a uma terceira espécie, endémica do arquipélago.

Um artigo de 2014 de Fred Rumsey et al., intitulado Taxonomic uncertainty and a continental conundrum: Polypodium macaronesicum reassessed, veio pôr ordem no assunto. Os autores descrevem a genealogia do polipódio insular e, depois de um estudo exaustivo, reconhecem nele duas estirpes, uma na Madeira e nas Canárias, a outra nos Açores. As diferenças genéticas e morfológicas são suficientes para distinguir duas subespécies, mas não duas espécies, e por isso o P. azoricum é despromovido a P. macaronesicum subsp. azoricum. Em todo o caso, pertencendo o P. macaronesicum à mesma linha evolutiva do P. cambricum, e existindo nas ilhas uma maior diversidade genética nessa linhagem do que no continente europeu, os autores sublinham que não é de descartar a hipótese (que só outro estudo poderá confirmar ou desmentir) de o P. cambricum descender da variante insular, em vez de se verificar a hipótese contrária (e aliás mais plausível).

21/03/2017

Farrobo & ensaião

Se houvesse que escolher uma planta frequente na Madeira para constar de um postal turístico no lugar das próteas sul-africanas que se vendem em lojas de souvenirs no aeroporto, poderíamos escolher uma das duas espécies de Aeonium que são endémicas do arquipélago da Madeira. De facto, não parece haver fissura de rocha, escarpa ou ravina, do litoral até às maiores altitudes, que não acolha uma dessas plantas; e, no Verão, as suas inflorescências amplas, ramosas e cheias de flores com pétalas amarelo-douradas são um regalo para quem visita a ilha.



Aeonium glutinosum (Aiton) Webb & Berthel.


Dir-se-ia que a vida espalmada numa rocha é arriscada, sujeita a ventanias, tempestades e deslizes, mas estas suculentas superaram há muito estes perigos. O género Aeonium parece mesmo apreciar este tipo de habitats nas ilhas Canárias (onde há mais de vinte e cinco espécies), em Marrocos e na parte leste de África. São plantas de base lenhosa mas de caule curto que, no caso do A. glandulosum (dito ensaião de pasta) só se vê se, com algum esforço, levantarmos a roseta de folhas colada à rocha. Ao espreitarmos, notamos ainda como as folhas são penugentas e de margens ciliadas, e como exalam um agradável aroma a bálsamo. O A. glutinosum (a que também chamam farrobo) é subarbustivo e muito viscoso, podendo o conjunto roseta & inflorescência chegar a um metro de altura.



A disposição das folhas, imbricadas como telhas de um telhado (ou um saião da Nazaré), ajuda a evitar que demasiada água se acumule no centro das rosetas de onde emerge a panícula de flores. Pelo contrário, em situação de seca extrema, algumas espécies conseguem fechar a roseta de folhas, preservando desse modo alguma humidade. As duas espécies madeirenses são bienais ou perenes, mas cada planta floresce uma só vez, restando então a roseta de folhas que se vai bronzeando ao sol forte, tingindo-se por vezes de um tom de lava incandescente.


Aeonium glandulosum (Aiton) Webb & Berthel.

14/03/2017

Madeira Fern Fest (5)



Ceterach lolegnamense Gibby & Lovis [= Asplenium lolegnamense (Gibby & Lovis) Viane]


Passeando pelas íngremes estradas em redor do Funchal, o naturalista amador encontra aqui e ali, aninhado nas fendas dos muros, um feto que lembra irresistivelmente um seu velho conhecido. Pergunta-se então se a douradinha, que no continente enfeita calcários e xistos, também terá cruzado o oceano para se instalar no basalto das ilhas. Só se o tiver feito na Madeira, pois, se bem se lembra, nos Açores ela nunca foi vista. Mas a verdade é que nem na Madeira ela conseguiu poiso. A douradinha-da-Madeira (nas fotos) é aparentada com a continental (é neta desta), mas não é a mesma coisa, distinguindo-se tanto pelo número cromossómico (hexaplóide a primeira, tetraplóide a segunda), como, à vista desarmada, pela maior envergandura das frondes e pelas pinas mais compridas, amiúde quase triangulares. Se os soros estiverem maduros, podemos notar, revirando as folhas, que no Ceterach lolegnamense (a espécie madeirense) eles se dispõem ordenadamente em duas fiadas paralelas, uma em cada metade da pina (3.ª foto em cima e última foto nesta página), enquanto que no Ceterach officinarum a arrumação é menos simétrica (fotos aqui).

Pouca necessidade haverá, no terreno, de pôr em prática estes ensinamentos: na Madeira só ocorre o Ceterach lolegnamense, que aliás é endémico da ilha, no continente só há Ceterach officinarum, e assim nenhuma confusão é possível. Mas se um descende do outro, não terão eles, há uns tantos milhões de anos, coexistido em algum lugar do planeta? Provavelmente sim, e a resposta passa pelo arquipélago das Canárias. Essas ilhas espanholas 450 Km a sul da Madeira dispõem de várias versões da douradinha, entre elas as duas espécies, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, cujo cruzamento terá dado origem ao Ceterach lolegnamense.

O Ceterach aureum, como aqui se pode ver, apresenta, quando bem desenvolvido, frondes bastante mais largas do que as do Ceterach officinarum. Já o também canarino Ceterach octoploideum é, na prática, indistinguível a olho nu do C. officinarum. A combinação dos dois levou a que o Ceterach lolegnamense assumisse características intermédias. Depois de gerado, não logrou sobreviver na sua ilha natal, migrando contudo para norte através de esporos trazidos pelo vento ou agarrados às patas de alguma ave. Fintou a esterilidade que persegue todos os híbridos recorrendo à apomixia, o que significa que os gametófitos do C. lolegnamense não precisam de ser fecundados para originarem um novo indivíduo.

Até 1989, ano em que os botânicos Mary Gibby e J.D. Lovis publicaram no n.º 13 da Fern Gazette um artigo sobre o Ceterach madeirense, pensou-se que ele era idêntico ao C. aureum, tido então como o único do seu género nas ilhas Canárias. Sabe-se hoje que afinal existem lá três: aos endémicos canarinos C. aureum e C. octoploideum soma-se, para ajudar à confusão, o verdadeiro C. officinarum. A história, cheia de reviravoltas, suspense e algum sexo, é contada num artigo de 2006 com o título Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta).

08/03/2017

Outros modos de ser gilbardeira

As directivas europeias, em boa hora aprovadas, sobre preservação de habitats naturais e respectivas fauna e flora silvestres, obrigam a União Europeia a um genuíno esforço de protecção, valendo-se de uma rede de sítios classificados e de um conjunto de leis de conservação abrangentes e com prazos curtos para implementação nos países membros. Contudo, o carácter global de tais medidas nem sempre está afinado com as ameaças e vulnerabilidades de cada território europeu em particular. Um exemplo deste desajuste é a ausência na lista de espécies ameaçadas, e nos vários anexos das Directivas Habitats, do Centaurium chloodes, de que, em anos recentes, só há registo em Portugal de uma população. Pelo contrário, incluem o Ruscus aculeatus (igualmente presente na lista vermelha da IUCN) que em Portugal tem uma distribuição ampla, ainda que sejam escassos os bosques de carvalhos, sobreiros ou azinheiras que se supõe serem (também) da sua predilecção.


Ruscus streptophyllus Yeo


Falemos, porém, de Ruscus, um género de origem mediterrânica que exibe uma notável adaptação a ambientes onde o risco de seca é elevado. Em vez de folhas, um luxo a que as plantas de regiões áridas não podem aspirar, a gilbardeira tem apenas uma boa ideia do que é uma folha. Baseada nesse conceito, modifica os talos, achatando-os, e obtém algo que realiza a fotossíntese como uma vulgar folha verde e se parece tanto com ela que um incauto nem desconfia do truque. Claro que uma tal mentirinha haveria de ser descoberta mais tarde ou mais cedo, e são as flores as delatoras. Apesar de serem inconspícuas, nascendo uma de cada vez e durando poucos dias, certo é que as flores brotam no meio da face inferior ou superior destas falsas folhas (ditas cladódios), revelando que se trata afinal de uma haste (ou pecíolo) a fingir de folha.

Das sete espécies do género, Ruscus aculeatus é a única nativa de Portugal continental. É um arbusto perene e, em geral, dióico, que exibe talos erectos, muito ramificados e lenhosos, e cladódios rijos, com um espinho no ápice. No Inverno, enfeita-se com chamativas bagas vermelhas como o azevinho. Tem virtudes medicinais (que, em algumas regiões europeias quase o deixaram à beira da extinção, o que explica a sua inclusão do Anexo V da Directiva Habitats) e talento ornamental que baste (que lhe tem valido lugar em muitos jardins).

Em alguns matos com sombra e solo calcário de Espanha ocorre outra espécie de Ruscus também de distribuição mediterrânica, R. hypophyllum, que, apesar do epíteto específico, nem sempre tem as inflorescências na face inferior do cladódio. Não é tão ramificado como a gilbardeira, os cladódios são maiores e mais flácidos, sem o bico aguçado na ponta, as inflorescências mais floridas e as flores com um pedicelo muito mais longo que faz com que as bagas pareçam cerejas. O seu carácter monóico está ainda em discussão entre os especialistas.

Na ilha da Madeira há registo de outra espécie, talvez com um progenitor comum aos Ruscus europeus, o R. streptophyllus. É um endemismo raro que vive em locais rochosos, sombrios e húmidos da laurissilva. Tal como no R. hypophyllum, os cladódios são grandes com pedúnculos longos e arqueados, e dispõem-se quase horizontalmente nos caules pendentes. Não é um arbusto ramificado, as flores nascem sempre na face inferior dos cladódios, e é fielmente monóica. É a única espécie do género Ruscus que tem verdadeiras folhas, embora apenas nas plantas recém-nascidas.

Na vizinhança deste Ruscus madeirense, e tão rara como ele, pode encontrar-se uma trepadeira (da Madeira e Canárias) que pode atingir os sete metros e cujas falsas folhas lembram as dos Ruscus. A Semele androgyna, que Lineu designou Ruscus androgyna, distingue-se deles porque as suas flores nascem nas margens dos cladódios.

Semele androgyna (L.) Kunth

28/02/2017

Madeira Fern Fest (4)


Notholaena marantae subsp. subcordata (Sw.) C. Presl


Abandonando por momentos os ambientes húmidos do interior da ilha, descemos à soalheira costa sul da Madeira. Embora o senso comum associe os fetos à presença da água, a verdade é que, na Madeira como em toda a parte, também os há em lugares secos, aproveitando as bolsas de solo nos interstícios das rochas ou de velhos muros de basalto. Esses fetos xerófitos, com uma apetência quase suicida pela luz solar, têm porém uma fraqueza, que é o de se encarquilharem todos na estação seca. Mostram-se de peito feito para enfrentar o sol, mas encolhem-se quando o sol escalda. O seu seguro de vida é a capacidade de reverdecerem com o regresso da humidade: as folhas amarfanhadas, na aparência totalmente secas, têm uma capacidade de regeneração de fazer inveja a Cristo ressuscitado. (Veja-se nesta página a extraordinária recuperação de uma douradinha — Asplenium ceterach — em apenas 24 horas.)

Graças a essa vulnerabilidade que é sobretudo uma forma de defesa, os fetos xerófitos no continente só costumam observar-se em boas condições na metade mais fresca do ano. Na Madeira, apesar de situada mais a sul, o efeito temperador do oceano faz com que a estação quente não seja tão extremada. E as plantas que vivem frente ao mar, como o feto que hoje apresentamos, beneficiam diariamente de um suplemento de humidade trazido pela neblina. Para quem sobrevive com tão pouca água, essa condensação pode bastar para que as folhas (ou boa parte delas) se mantenham verdes mesmo no Verão. Apesar de o termos fotografado em Dezembro, é provável que este feto não estivesse menos fotogénico no pico de Agosto.

A Notholaena marantae distribui-se por todos os países do sul da Europa, no norte de África fica-se por Marrocos, e alcança ainda a Turquia, os Himalaias e o Iémen. Também ocorre no arquipélago das Canárias e na ilha da Madeira, mas sob uma forma peculiar (subespécie subcordata), que se distingue da forma continental (subsp. marantae) pelo maior tamanho das frondes, e pelo maior número de pinas e de pínulas em cada pina. (Nas fotos acima, em especial na terceira, o leitor pode verificar que as pinas têm amiúde 9 ou 10 pares de pínulas, enquanto que na N. marantae do continente — veja aqui ou aqui — têm no máximo 5 ou 6.) De resto, ambas as subespécies têm a face inferior das pinas revestidas por escamas arruivadas e a face superior lustrosa, como que envernizada. Quanto ao tamanho, as frondes da subsp. subcordata podem chegar aos 45 cm de comprimento, mas as da subespécie marantae não ultrapassam os 35 cm.

Outra coisa em que as duas subespécies divergem é na ecologia. No continente não existem as rochas basálticas, ou os muros do mesmo material, onde se acolhe o feto madeirense. Mesmo que existissem, é improvável que servissem de morada à N. marantae subsp. marantae, reconhecidamente picuinhas na escolha de habitat: em Portugal (e, com raras excepções, ao longo de toda a sua distribuição europeia) só lhe servem os afloramentos ultrabásicos, o que limita a sua presença por cá a uns escassos lugares em Trás-os-Montes. Em contraste, como na ilha o que não falta é basalto, a N. marantae subsp. subcordata dispõe na Madeira de inúmeros possíveis habitats. É fácil de encontrar na costa sudoeste, nos muros ladeando as veredas íngremes que eram a única ligação entre os povoados antes de se rasgarem as modernas estradas.

21/02/2017

Estreleiras de São Lourenço

A ponta leste da ilha da Madeira é uma península estreita com cerca de 9 quilómetros de extensão, margens indentadas em arribas a pique, e um solo avermelhado que o vento forte, salpicado de maresia, se encarrega de erodir. Pela ausência de árvores, a paisagem desabrigada parece árida. Vencida, porém, a vereda que nos conduz ao topo, a partir da qual se descortina uma pequena enseada de areia escura (a Prainha), a impressão é mais animadora. Ao largo, avistam-se dois ilhéus, um deles classificado como reserva natural integral, onde esvoaçam cagarras e garajaus, nidificam muitas outras aves, e perto dos quais se podem observar, em dia de muita sorte, tartarugas, golfinhos e lobos-marinhos.



Isolado no extremo oriental da Madeira, e já sem os estragos dos piratas de outrora, este habitat mantém uma biodiversidade que vai rareando noutros pontos do litoral da ilha. A vegetação ali é rasteira, que a ventania não permite que se alteie o pescoço, mas este é um alfobre de plantas raras e muitos endemismos. O que lhe mostramos hoje pertence a um género de plantas subarbustivas (Argyranthemum) bafejado com várias espécies na Macaronésia, caracterizado por folhas em geral muito divididas e capítulos vistosos de lígulas brancas, amarelas ou cor-de-rosa. A subespécie das fotos, que só ocorre na Ponta de São Lourenço e nos dois ilhéus próximos, distingue-se pelas folhas suculentas quase inteiras, ou com lóbulos triangulares, que a protegem das agruras do clima. As estreleiras-de-São-Lourenço (se assim lhes podemos chamar) florescem na Primavera, no Verão... e também em Dezembro.


Argyranthemum pinnatifidum subsp. succulentum (Aiton) Webb & Berthel.

14/02/2017

Madeira Fern Fest (3)



Polystichum falcinellum (Sw.) C. Presl


Para orientar os aficionados, talvez devesse ser estabelecida uma hierarquia de endemismos que tomasse em conta a área de distribuição e o grau de originalidade. Distribuições restritas seriam valorizadas, mas seria factor de depreciação a existência de espécies muito semelhantes com distribuição mais ampla. Às vezes a semelhança é de tal ordem que o reconhecimento ou não de que certa variante configura uma espécie (ou subespécie) autónoma depende do critério subjectivo de especialistas. Um endemismo de primeiro grau, chamemos-lhe assim, deverá ter distribuição muito restrita (o ideal é existir numa ilha só) e não deve poder ser confundido com outra coisa qualquer por botânicos dignos desse nome. Pese embora a raridade da Arachniodes webbiana na Madeira, ela de facto também existe (mais cromossoma, menos cromossoma) no sudeste de África, o que a impede de atingir esse patamar. É ao Polystichum falcinellum, o feto-das-pequenas-foices (tradução literal de falcinellum), que cabe inaugurar o panteão dos endemismos de primeiro grau no Madeira Fern Fest.

A flora da Madeira inclui dois Polystichum endémicos; o outro é o P. drepanum, quase extinto na natureza, que não tivemos a fortuna de encontrar. A esses soma-se o P. setiferum, comum na Madeira e nos Açores e na metade norte do território continental. O encontro na Madeira da espécie europeia com o P. falcinellum deu origem a um híbrido natural muito raro, baptizado como Polystichum × maderense, assim se comprovando como a arrumação dos dois fetos no mesmo género botânico está correcta, apesar das visíveis diferenças entre eles. A mais óbvia é que as frondes do P. setiferum são duas vezes divididas (bipinatissectas), enquanto que as do P. falcinellum o são apenas uma vez. No entanto, as pínulas (divisões de segunda ordem) do P. setiferum têm a mesma aurícula basal que sobressai nas pinas do P. falcinellum (compare esta foto com a 2.ª e 4.ª fotos acima). Independentemente do grau de divisão das frondes, a aurícula e o formato falciforme das divisões de última ordem são marcas distintivas do género Polystichum, que também podem ser detectadas no P. lonchitis, uma espécie holártica que não ocorre em Portugal.

O Polystichum falcinellum — cujas folhas erectas e coriáceas, de uns 70 cm de comprimento máximo, se apresentam em tufos — vive em zonas elevadas no centro e norte da Madeira. Evita as zonas mais húmidas da laurissilva, mas pode aparecer em grandes quantidades no patamar superior da ilha, abrigado em urzais ou em plantações de pinheiros e de outras coníferas. Os exemplares que se prestaram à fotografia moravam na sombra espessa de uma mata de Pseudotsuga menziesii junto à acolhedora Casa de Abrigo do Poiso, a uns 1400 m de altitude. Faziam-se acompanhar pelo P. setiferum (mas não havia híbridos) e por uma sortida amostra de outros pteridófitos que incluía três espécies de Asplenium, duas de Dryopteris e ainda, omnipresente na ilha, a Davallia canariensis. É a Madeira a imitar o padrão já nosso conhecido nos Açores, em que as plantações florestais de coníferas (criptomérias, no caso açoriano), se outro interesse florístico não têm, são fértil terreno de busca para o entusiasta por fetos.

07/02/2017

Fajã dos goivos amarelos

A ilha da Madeira não tem praias de areais extensos, com areia fina e clara, como as do Porto Santo. Onde o bordo da ilha é acessível, há em geral umas pouco convidativas pedras roladas de cor cinza para deter os avanços do mar em dias de tempestade. No mais, as escarpas são a pique, sem escadinhas que sirvam a descida, e o chão é de terra e rocha perigosamente soltas. Contudo, se olharmos o fundo destas falésias com atenção, quase sempre se divisam campos de cultivo verdejantes, ramadas de vinha ou maracujá, além de casinhas minúsculas, gatos e abóboras. Em resumo: há por ali gente. Como conseguem vencer tais precipícios? A solução, nesta ilha onde as estradas percorrem muitos quilómetros em túneis, num sobe e desce enervante, mas raramente nos levam às fajãs, está num par de teleféricos.



Enquanto num deles descemos receosos, abanados pelo vento de Dezembro, o outro sobe calmamente, vazio ou com turistas animados a fotografar. Antes que o pânico nos domine, chegamos a terra e, já serenos e a rir do medo, ouvimos as ondas, aquecemos os pés e saboreamos o ar salgado. Estamos no litoral sul da Madeira, entre Cabo Girão e Câmara dos Lobos, num dos poucos lugares da ilha onde ainda existem populações do endemismo que lhe mostramos nas próximas fotos.



Erysimum maderense (L'Hér.) Polatschek


Pela semelhança com as três espécies do género Erysimum que conhecemos por cá (ainda que na Península Ibérica ocorram mais de vinte) e a de Porto Santo, não nos pareceu haver dúvida sobre a filiação destes arbustos nesse género, ainda que, ao contrário de outras espécies, nesta as flores não mudem de cor quando amadurecem. Mas isso é porque sabemos pouco. A abreviatura L'Hér. no nome científico refere-se ao francês Charles Louis L'Héritier (1746-1800) que, em 1788, chamou a esta espécie Cheiranthus tenuifolius. A designação actualmente aceite foi-lhe dada em 1976 pelo botânico austríaco Adolf Polatschek (nascido em 1932), um especialista na família Brassicaceae, em especial do centro e sul da Europa, Cabo Verde, Canárias e Madeira.

Junto ao mar, não há fiscal a controlar os bilhetes do teleférico, nem sequer um painel com horários. Vê-se apenas uma câmara de segurança que verifica se há passageiros à espera para subir, ou estes simplesmente accionam um botão para que a próxima viagem se inicie. Na subida, já não receámos sentar-nos voltados para o mar, a vê-lo afundar-se bordejado de pintinhas amarelas.