25/07/2017

O voo do Corvo



Informações inúteis

Como ir. De avião pela SATA, ou de barco desde as Flores usando a lancha Ariel ou um semi-rígido. Os horários da SATA são flexíveis: o passageiro deve chegar com a antecedência regulamentar ao aeroporto, mas a transportadora exerce invariavelmente o seu direito de anunciar atrasos de última hora. No entanto, os atrasos das diversas ligações costumam encaixar na perfeição uns com os outros. Se uma das escalas for nas Flores, então nos melhores dias pode ser brindado com a mais paradoxal das surpresas, que é a chegada ao destino antes da hora da partida. Como é possível? O voo entre as Flores e o Corvo (ou vice-versa) dura cinco minutos; e, se já tiverem embarcado todos os passageiros, não há motivo para o avião não descolar de imediato. No nosso caso, com um total de seis passageiros que, para equilibrar o peso, se sentaram todos na parte de trás do avião, mais o comissário de bordo na outra ponta a despachar as instruções de segurança, levantámos voo oito minutos antes da hora marcada. Das ligações por mar, quem quiser ver golfinhos e saltar como eles sobre as ondas, com grandes borrifos de água salgada, deve escolher os fogosos semi-rígidos. Para os menos arrojados, recomenda-se a lancha Ariel da Atlânticoline, que costuma cancelar as ligações quando o mar está agitado e, nas festas das Flores ou do Corvo (ininterruptas em Julho e Agosto), só tem lugar para os previdentes que compram passagem com semanas ou meses de antecedência.

Onde comer. Quem faz turismo gastronómico não tem no Corvo um destino de eleição. Entre as nossas duas visitas à ilha, a primeira em Junho de 2016 e a segunda em Julho de 2017, há contudo novidades substanciais a reportar. Em 2016 havia dois restaurantes: o Caldeirão, junto ao aeroporto, e o Traineira, junto ao porto; ou, em rigor, já que distam 250 metros um do outro, os dois junto ao aeroporto mas o segundo mais encostado ao porto. Tendo jurado nunca servir peixe fresco aos clientes, pois quase tudo o que é pescado na ilha é vendido para o continente ou para as outras ilhas, tinham ainda assim pratos aceitáveis, com o Caldeirão esmerando-se um pouco mais e o Traineira monopolizando a clientela operária (há sempre no Corvo dezenas de trabalhadores vindos para obras do Governo regional). O duopólio permitia-nos diversificar as refeições, almoçando no Traineira e jantando no Caldeirão, ou almoçando no Caldeirão e jantando no Traineira. Nos dias em que algum deles fechava, íamos duas vezes ao que estivesse aberto, aproveitando a segunda ocasião para degustar o outro prato do dia. Se dispensássemos o luxo sibarita de uma segunda refeição completa no mesmo dia, podíamos ir ao BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo, um must da noite corvina) para nos regalarmos com uma tosta mista (podia ser francesinha, se quiséssemos) regada com um néctar de pêssego ou de laranja (apesar de ter muitas e variadas bebidas alcoólicas, o BBC trata com igual afabilidade os que preferem bebidas não inebriantes). Por último, havia a opção ascética de, com pão, fruta e outros géneros adquiridos no comércio local (uma mercearia, duas lojas generalistas e uma padaria), improvisar um jantar ligeiro na sala de estar do hotel. De 2016 para 2017, BBC, mercearia, lojas e padaria (aberta só de manhã de segunda a sábado) mantiveram-se iguais a si próprias, mas um dos restaurantes deixou de funcionar como tal. Era isso mesmo que esperávamos, pois em 2016 soubéramos que os então concessionários do Caldeirão se iriam embora no final do Verão. Afinal o Caldeirão reabriu com nova gerência, e foi o Traineira que deixou de ser restaurante por ter perdido a cozinheira. Mantém-se aberto, mas servindo apenas sopas, sandes e bebidas. À porta, onde dizia Horário do restaurante diz agora Horário do; as horas de abertura e os dias de descanso são os mesmos. Esta oferta depauperada ainda mais se reduziu no fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, quando todos os estabelecimentos de comes-e-bebes estiveram fechados: o Caldeirão o dia todo, o Traineira e o BBC a partir do meio da tarde. O motivo eram as festas da ilha, onde algumas barracas vendiam refeições: para garantir a afluência de clientes, toda a ilha se pôs de acordo em não lhes deixar alternativa. Mas a canja de galinha e a morcela com inhame até estavam boas.

Transportes. Na ilha há três ou quatro táxis; todos acorrem de pronto à chamada e fazem a volta à ilha cobrando 10 euros por pessoa. Quem for poupado e não quiser deslocar-se a pé facilmente arranja boleia numa carrinha de caixa aberta. Apesar de serem muitos os carros no Corvo, a ponto de os habitantes se terem desabituado de andar a pé mesmo em distâncias curtíssimas, não é possível alugar carros na ilha.



Agora a sério

Os parágrafos anteriores são o nosso contributo para moderar a afluência turística ao Corvo. Há lugares que foram feitos para o silêncio e combinam mal com multidões. Mas quem nos leu até aqui, e esteja disposto a despojar-se de alguns dos seus hábitos de vida urbana, merece saber que o Corvo é um lugar extraordinário. Não para visitar a correr, como fazem os que chegam de barco por umas horas, sobem de táxi à grande cratera, tiram umas fotos e já está, mas para ficar alguns dias, dando tempo a que os sentidos se ajustem e se possa entender como uma ilha de 6 Km de comprimento por 4 Km de largura, com 430 habitantes, também é um mundo. As refeições não serão um luxo, mas o alojamento não tem que ser espartano. O Hotel Comodoro (ou Guest House Comodoro), único da ilha, é mais acolhedor, confortável e asseado do que muitos hotéis cheios de estrelas. Não tendo a ilha, com excepção da fábrica de queijos, indústria que se veja ou uma economia de serviços, cada habitante cumpre muitos papéis: um taxista é também pescador e cultiva os seus legumes no quintal; muitos têm afazeres diurnos mas ao fim da tarde sobem às pastagens para ordenhar as vacas; e o dono do hotel pode ser presidente da câmara.

E quanto à natureza? Numa paisagem dominada por pastagens, de onde a manta arbórea original há muito foi extirpada, a maioria das árvores e arbustos refugiam-se em sebes ou em linhas de água temporárias. Os bosques de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que cobrem grandes extensões da vizinha ilha das Flores estão quase totalmente ausentes do Corvo, sobrando, como últimas amostras significativas, um povoamento de algumas centenas de árvores adultas no Morro da Fonte e um outro, de menor expressão, no troço final do ribeiro da Cancela do Pico, perto do farol. Contudo, são frequentes pela ilha os exemplares isolados de cedro-de-mato, alguns de provecta idade. Ao contrário do que sucede nas restantes ilhas, a conteira (Hedychium gardnerianum) não é um problema no Corvo e parece, aliás, ter sido completamente eliminada. O galardão de infestante mais nociva ficou para a hortênsia (Hydrangea macrophylla), que invade ribeiros de forma sufocante e ameaça ocupar de alto a baixo as vertentes do Caldeirão, lugar onde se concentra um número apreciável de endemismos botânicos. Apesar disso, o Caldeirão do Corvo é, sem favor, a mais fotogénica cratera vulcânica do arquipélago e, mesmo com o pastoreio intensivo de gado bovino, guarda habitats preciosos tanto no bordo como nas lagoas e turfeiras que lhe preenchem o fundo. Dado que o coberto vegetal ralo não representa obstáculo à nossa passagem, é fácil descer ao fundo, vencendo um desnível de 150 metros, e caminhar em redor das lagoas, com a necessária cautela não vão os pés afundar-se no terreno pantanoso. As muitas vacas que vamos cumprimentando são pacíficas e estão habituadas às visitas. Estas lagoas têm boas populações de Isoetes azorica, um raríssimo feto aquático que é também um endemismo açoriano, e que no início de Julho, tendo já largado os esporos, deixa ver as suas folhas como longos cabelos verdes e flutuantes. Outras raridades aquáticas igualmente discretas que aqui se fazem comuns são a Littorella uniflora e a Elatine hexandra, acompanhadas por Eleocharis palustris, Potamogeton polygonifolius e Juncus effusus. Nas valas que escoam a água das encostas para as lagoas aparecem grandes fetos (Osmunda regalis, Woodwardia radicans), escoltados aqui e ali por indivíduos dispersos de Vaccinium cylindraceum, Juniperus brevifolia e Ilex perado subsp. azorica.


Isoetes azorica Milde



Myosotis azorica H. C. Watson
Por muito interessante que fosse o fundo do Caldeirão, era no seu bordo que devíamos procurar o tesouro que o mau tempo de Junho de 2016 não nos permitiu alcançar, obrigando ao nosso regresso um ano mais tarde. Conforme comprovativo fotográfico acima, a persistência foi recompensada. Sem batota e sem ajuda, seis anos depois de iniciarmos a busca na ilha das Flores, encontrámos finalmente a Myosotis azorica na natureza. Todos os nossos encontros anteriores com este endemismo das Flores e do Corvo, devorado até à beira da extinção por cabras assilvestradas, tinham sido com plantas cultivadas. Desta vez, vimos umas trinta plantas em flor, duas que pudemos tocar e as restantes em lugares vertiginosamente inacessíveis. Por perto residiam outros dois endemismos destas ilhas, a Veronica dabneyi e a Euphrasia azorica, a segunda muito abundante no bordo da Caldeirão.


Festuca francoi à esquerda e Deschampsia foliosa à direita
Nem só de plantas floridas vive o ecossistema hiper-húmido e quase sempre ventoso do Caldeirão. Mesmo no bordo há muitas zonas turfosas, dominadas por Sphagum, e nos afloramentos rochosos várias gramíneas endémicas abanam as espigas ao vento. As dominantes são a Festuca francoi e, de menor tamanho e com folhas mais curtas, a Deschampsia foliosa. Vê-las lado a lado, como na foto em cima, é a melhor maneira de aprender a distingui-las.


Deschampsia foliosa Hack.

18/07/2017

Novos embudes


Oenanthe lachenalii C. C. Gmel.



Quando os ribeiros emagrecem por falta de chuva é que os embudes engordam. Embude é nome vernáculo para uma das umbelíferas mais comuns em Portugal continental, a Oenanthe crocata, omnipresente em pequenos, médios e grandes cursos de água, e aventurando-se até em lugares de onde a humidade há muito se evaporou. Talvez a sua abundância se deva não apenas à grande produção de sementes mas também à toxicidade que os herbívoros, com um instinto desconcertante, aprenderam a evitar. Contudo, outros embudes do nosso território, como esta Oenanthe lachenalii, não souberam usar o veneno como arma de expansão, pelo que a sua escassez se explicaria por uma frutificação menos prolífera ou por uma menor versatilidade ecológica. A desfavor da segunda hipótese joga o facto de a O. lachenalii nada se importar com a salinidade da água, dando-se igualmente bem em água doce ou nas águas salobras de rias e estuários. A preferência por substratos arenosos acaba por limitar as suas escolhas de habitat, mas, apesar de esparsamente distribuída pelo país, não está de modo nenhum confinada ao litoral, como se vê pelo mapa de distribuição no portal Flora-On. Um dos nomes populares que a imaginação dos botânicos lhe atribuiu, bruco-de-Salvaterra, dá conta da sua existência nas margens alagadiços do Tejo, o que o dito mapa corrobora, embora obrigue a planta a saltar o rio de Salvaterra (na margem sul) para a Azambuja (na margem norte). Deverá o povo corrigir-lhe o nome para bruco-da-Azambuja? As plantas das fotos vivem não em Portugal mas na lagoa costeira de Vixán, um dos poucos lugares da Galiza onde a espécie está assinalada. Não sendo os galegos menos conhecedores da distribuição das raridades botânicas do que os portugueses, é de supor que lhe chamem bruco-de-Vixán.

A O. lachenalii distingue-se sem dificuldade da O. crocata por ser uma planta de menor porte (é raro ultrapassar os 80 cm de altura), por ter uma umbela mais compacta, e por apresentar folhas de lóbulos mais estreitos e compridos. Há porém duas outras espécies em Portugal (e em grande parte da Europa) com idênticas preferências de habitat que com ela se podem confundir: trata-se da Oenanthe fistulosa (que tem as folhas muito menos recortadas — veja-se aqui) e da Oenanthe globulosa (com inflorescências ainda mais compactas e menor número de frutos em cada umbélula — confira-se aqui). Encontrar qualquer uma das três espécies é um feito só ao alcance de quem esteja disposto a calçar galochas e não receie chafurdar em terrenos lodosos.

12/07/2017

Cantábria em Porto Santo

A ilha de Porto Santo, parte de uma cadeia montanhosa submarina muito antiga, terá emergido há uns 8 milhões de anos. Relativamente plana (o Pico do Facho com 516 metros é o local mais elevado) e de clima muito seco, tem habitats que parecem pedaços de deserto. Entretanto, terá sido colonizada por espécies que se lançaram à descoberta a partir do que são hoje a Europa e a África. Traçar a história da migração destas plantas não é talvez tema de investigação que receba grande incentivo financeiro, e não conhecemos informação científica publicada sobre ela. Mas no caso particular da Saxifraga portosanctana, os botânicos Webb e Press, quando sobre ela escreveram em 1987, sugeriram que descenderia de alguma saxifraga europeia, notando as semelhanças na morfologia das flores e das folhas com a Saxifraga cuneata e com a Saxifraga trifurcata. Estas espécies ocorrem em rochedos calcários das montanhas do norte de Espanha e, em Maio, fomos visitar uma delas à Cantábria.



Saxifraga trifurcata Schrad.


Comparando as flores e as folhas da S. portosanctana com as da S. trifurcata, acredita-se que uma é um esboço da outra, que não é fortuita a parecença entre as rosetas basais, o verde da folhagem, os segmentos em garfo das folhas coriáceas, as inflorescências erectas, as pétalas brancas imbrincadas e longas.

As praias de areia fininha de origem calcária de Porto Santo poderão ter sido uma tentação para o parente europeu, mas as mudanças de latitude e clima obrigaram-no a adaptações drásticas. Nas montanhas das Astúrias, a planta, que é perene, está sujeita a geadas, chuva impenitente e meio ano de neve, tirando proveito de todo o calor solar que por sorte lhe caiba e não tolerando a sombra.



Com este perfil, não se esperaria que os exemplares migrados conseguissem sobreviver meses seguidos sob sol intenso. Refugiaram-se, portanto, nos locais da ilha mais frescos e sombrios, sobretudo em fissuras de penhascos permanentemente velados por neblina dos pontos mais altos da ilha. Tiveram ainda de abdicar da ementa puramente calcária que apreciavam na Europa, mas mantiveram a preferência por solos pobres e secos. E cumprem, como o seu antepassado, a tradição de florir entre Maio e Julho. Como muitos emigrantes, é através destes pequenos detalhes que se sentem próximos das suas origens.

04/07/2017

Regresso ao fojo das surpresas



Dryopteris guanchica Gibby & Jermy


Tal como muita gente, este feto tem os seus progenitores na Madeira, mas abandonou a ilha natal para tentar a vida no continente. Só que o fez muito antes de as ilhas atlânticas serem habitadas, e até antes de existir a espécie humana. Um estudo genético permitiu concluir que a Dryopteris guanchica, que existe apenas na Península Ibérica (Galiza, noroeste de Portugal e serra de Sintra) e nas Canárias (Tenerife, La Gomera e El Hierro), é uma espécie tetraplóide que resultou do cruzamento de duas espécies diplóides, a D. aemula (presente nos Açores, Madeira e Canárias e no extremo norte de Espanha, mas não em Portugal continental) e a D. maderensis (exclusivamente madeirense). O acasalamento ter-se-á dado na Madeira, a menos que a D. maderensis tenha tido, noutras eras, uma distribuição mais ampla. Não é impossível, por exemplo, que tenha existido em La Gomera, a única das ilhas Canárias onde hoje se encontram tanto a D. aemula como a D. guanchica. Certo é que a D. guanchica, tenha ela o seu berço na Madeira ou nas Canárias, conseguiu instalar-se no norte da Península Ibérica partindo de ilhas que, geograficamente, são mais africanas do que europeias.

Descrita apenas em 1977, por Mary Gibby e A. C. Jermy, a partir de exemplares colhidos em La Gomera e em Tenerife, a Dryopteris guanchica deve o seu epíteto aos Guanches, antigos habitantes das Canárias subjugados pela colonização espanhola. Até então tinha sido confundida com a D. dilatata, um feto europeu, típico de bosques sombrios, cuja presença nas Canárias é duvidosa. Logo após ter sido descrita a nova espécie, uma revisão de espécimes depositados no herbário de Coimbra permitiu concluir que a D. guanchica já havia sido encontrada em Portugal, na serra de Sintra, em 1839. Em Maio de 1976, Gibby e Jermy, numa visita à serra, confirmaram que ela ainda lá vicejava na companhia da D. dilatata. Pouco depois, foi descoberta no norte de Espanha e no noroeste de Portugal, de modo que em 1982 Franco & Rocha Afonso, no livro Distribuição de Pteridófitos e Gimnospérmicas em Portugal, puderam dar um panorama quase completo da sua presença no nosso país. Os maiores contingentes vivem nas serras xistosas à volta do Porto e em especial nos fojos de Valongo, onde beneficiam de um ensombramento e de uma frescura impossíveis de encontrar nos vastos eucaliptais em redor, e engrossam uma notável colecção de fetos reliquiais que inclui a Culcita macrocarpa e o Trichomanes speciosum.

A história ensina-nos que destrinçar a D. guanchica da D. dilatata não é tarefa para principiantes, e em Portugal, onde as duas coexistem e ocupam habitats semelhantes (embora a primeira seja muito mais rara), é preciso especial cautela. As chaves dicotómicas costumam exagerar pequenas diferenças, postulando uma separação nítida quando às vezes existe uma continuidade de caracteres. Em todo o caso, as pinas basais da D. guanchica, em que as duas pínulas viradas para baixo mais próximas da ráquis são muito maiores do que as que estão viradas para cima (ver penúltima foto), são claramente mais assimétricas do que as da D. dilatata. Outras diferenças são menos óbvias: a D. guanchica é em geral mais pequena, tem as pínulas ligeiramente pecíoladas, e os dentes das pínulas são salientes, meio curvados para a frente (o efeito é visível na 3.ª foto desta página).

28/06/2017

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.


Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.

20/06/2017

Na pista da Pistorinia


Pistorinia hispanica (L.) DC.


Às vezes dá ideia que a fronteira luso-espanhola foi desenhada com o único intuito de nos espoliar de plantas interessantes. O roubo de Olivença, empurrando a linha fronteiriça uns quilómetros para oeste, foi tavez planeado para que alguma planta até então também nossa deixasse de existir em território português. Infelizmente, estão por estudar as motivações botânicas nas disputas territoriais entre estados vizinhos. Numa época de fronteiras abertas, em que as maiores diferenças entre cá e lá são as matrículas dos automóves e a dificuldade em encontrar um restaurante que nos sirva sopa, não é este um tema de pesquisa que atraia muitos eruditos. Podemos sem dificuldade visitar essas plantas que nos foram negadas, mas ainda dói pensar que não são nossas. Nessa partilha tão desigual, há géneros botânicos (como Sempervivum, Androsace e Petrocoptis) bastamente representadas na Península (cada um com pelo menos meia dúzia de espécies) que estão tristemente ausentes da flora portuguesa.

É assim motivo para moderado regozijo saber que a Pistorinia hispanica é também portuguesa, embora só saibamos dela na margem direita (a nossa) do Douro internacional, e em tão escasso número (vimos umas dez plantas em flor) que a sua futura permanência por cá é incerta. A sua preferência por margens arenosas de rios explica o seu gradual desaparecimento por perda de habitat. Em Portugal não há grande ou médio rio que esteja livre de barragens, e é pouco provável que a Pistorinia ainda exista, como reportava Franco na Nova Flora de Portugal, no Tejo ou no Sabor. Neste último, com o recente enchimento da barragem, as margens e as plantas que lá viviam foram afogadas numa extensão de 40 Km.

O número de espécies de Pistorinia é incerto: estão descritas umas seis, mas alguns nomes são tidos como sinónimos. Confirmadas (e documentadas com fotos nesta página) estão três espécies distribuídas entre a Península Ibérica e Marrocos; a que nos ocupa é um endemismo ibérico. Todas elas são plantas anuais carnudas, de porte erecto e baixa estatura (a P. hispanica não excede os 20 cm de altura), com flores tubulares dispostas em cimeiras. A decoração extravagante das "pétalas" — ou, mas precisamente, dos segmentos terminais em que a corola se divide — é a marca mais distintiva da Pistorinia hispanica: sobre um fundo rosa choque, traçam-se a vermelho três riscos paralelos, rematados por uma mancha também vermelha como se a flor pintasse as unhas.

13/06/2017

Olho de pássaro

Este ano retornámos à Cantábria, mas viajámos em Maio, dois meses mais cedo do que na visita anterior. Da nossa agenda constavam algumas das espécies de montanha que em Julho de 2015 já só tinham frutos para nos mostrar. Mas desenganámo-nos logo à chegada: é difícil acertar na melhor data para ver esta e aquela flor. Restarão, pois, sempre motivos para lá voltar.

Desta vez, em alguns locais a neve ainda não tinha derretido, e as plantas, cautelosas, aguardavam em folha até que o tempo aliviasse. Exemplo disso foi a Pulsatilla vernalis, que estava em flor, sim, mas teimosamente fechada. Pensámos nisso, mas não cedemos ao impulso de lhe forçar as pétalas; demos mais uma volta pelo Pico Tres Mares para lhe dar tempo de acordar, mas nem assim. Outra desilusão foi a Paris quadrifolia que, abrigada nas fissuras de rocha calcária do Picon del Fraile, tinha a haste floral a assomar mas parecia encolher-se para evitar a chuva fria que entretanto desabou sobre nós. Nos fantásticos bosques de faias, por outro lado, a pressa era outra. A maioria das herbáceas tem de florir enquanto há luz, antes que as folhosas tapem o solo com a sua sombra cerrada. Por isso, em muitos deles (mas não em todos, como vos contaremos), da Hepatica nobilis, da Anemone nemorosa, do Allium ursinum ou da Oxalis acetosela já só havia folhas. Contudo, nas turfeiras de alta montanha (acima dos 1300 metros), a natureza parecia regular-se pelo mesmo relógio que nós. E num terreno muito encharcado, entre inúmeros pés de martaguinho, lá estavam as flores que procurávamos, acabadas de fazer.

Primula farinosa L.


Esta é uma espécie perene que ocorre nas montanhas do norte e centro da Europa até ao Ártico, com plantas baixinhas (3-12 cm de altura, raramente mais) e muito atraentes. Nas flores em tom carmim destaca-se o centro amarelo, numa combinação que a alguns lembra um olho de pássaro. As folhas com formato de colher, unidas numa roseta basal, parecem polvilhadas de farinha (justificando o epíteto farinosa), mas são de facto revestidas a lã-de-prímula para agasalhar a haste floral erecta.

O género Primula parece especialmente bem adaptado a regiões frias, ocorrendo a maioria das 500 espécies em prados ou escarpas abrigadas dos Himalaias, ainda que haja também registo de algumas nas montanhas do norte de África. O nosso clima cálido não parece permitir, nem na serra da Estrela, grande variedade de prímulas, e o contingente por cá reduz-se à P. acaulis.

06/06/2017

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.


A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens — em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.