20/02/2020

Parasita graciosa

Orobanche gratiosa (Webb) Linding. [= Phelipanche gratiosa (Webb) Carlón & al.]
Para quem vive de rendimentos bem ou mal adquiridos, uma vida de sol e praia nas Canárias parece a materialização de um sonho. A chuva é um fenómeno quase desconhecido, a temperatura amena nunca exige um agasalho extra, e os dias, mesmo quando são curtos, nunca são demasiado curtos. É nestas ilhas que entendemos que uma vida sem horários nem compromissos é que é a verdadeira vida, e como é violenta e contranatura a simples ideia de trabalhar.

Há só a chatice de o mundo deixar de funcionar se o ócio passar a ser o modo de vida de toda a gente. Mesmo numa ilha vocacionada para o veraneio a tempo inteiro é preciso que alguém limpe o quarto, ponha o pequeno-almoço na mesa, mantenha restaurantes e supermercados abertos e, de um modo geral, torne possível a existência civilizada e higiénica a que julgamos ter direito. Para cada cigarra ociosa, quantas infatigáveis formigas cirandam à sua volta?

Fica assim estabelecido que as Canárias são ilhas ideais para o dolce far niente, desde que tal ocupação seja apenas o privilégio de poucos. Se procurarmos um paralelo no mundo vegetal, encontramos, nas mesmas ilhas, certas plantas que nada fazem pelo seu próprio sustento, preferindo alimentar-se à custa de outras. Chamam-se elas plantas parasitas — um adjectivo que, pela sua rudeza, evitamos aplicar às relações humanas. Dentro dessa categoria, o género Orobanche é o mais populoso do arquipélago, contando com doze espécies, três das quais endémicas. À mesma família pertence a formosa parasita amarela que encontrámos nas dunas de Lanzarote.

Uma das espécies endémicas é a Orobanche gratiosa. Adaptando o nome vernáculo que por cá costumamos dar às espécies do género, poderíamos talvez chamar-lhe erva-toira-graciosa. Contudo, isso seria um erro: o epíteto gratiosa não se refere à presumível beleza da planta mas sim à sua ocorrência na Graciosa, a mais pequena ilha habitada do arquipélago canário. O nome correcto da planta (que ocorre também em Lanzarote, Fuerteventura e Grã-Canária) seria pois erva-toira-da-Graciosa.

A Orobanche gratiosa vive em solos arenosos costeiros, aparecendo também em locais pedregosos a baixa altitude. Apresenta hastes ramificadas, de 15 a 30 cm de altura (por vezes mais), e as flores são de um tom lilás muito pálido (a O. ramosa, espécie aparentada que tembém ocorre nas Canárias, tem flores mais escuras). A sua época de floração oficial estende-se de Dezembro a Março, mas por altura da nossa visita, no final de Dezembro, ela permanecia invisível no seu habitat dunar usual. O único exemplar que avistámos morava, talvez por engano, no Barranco de Tenegüime, a uns 4 km da linha de costa e à vertiginosa altitude de 150 metros, o que é de todo desaconselhável para a saúde da planta.

15/02/2020

Flores de madeira


Ceropegia fusca Bolle


Há pouco mais de dois anos, uma revisão do género Ceropegia, nomeado por Lineu em 1753 e que abrigava cerca de 220 espécies, reuniu sob essa designação mais de 700 espécies, nativas da África, Ásia, Austrália e Canárias. Uma arrumação na mesma gaveta em tão grande escala soa-nos inusitada numa época em que os estudos genéticos apontam mais frequentemente para a independência, e decerto muitos descritores de taxónes não apreciaram o almagamento. Para os que se apegam aos detalhes, como coleccionadores ávidos, algumas destas espécies não parecem sequer próximas, quanto mais primas. Ora veja o leitor estas imagens para formar a sua opinião: F1, F2, F3, F4, F5, F6, F7, F8, F9, F10. Vasta informação sobre a morfologia destas plantas é aduzida pelos autores da proposta de unificação num só género, embora dividido em várias secções, e pode ser lida aqui.

Que lhe parece? Notou concerteza semelhanças: as flores tubulares ciliadas de pé curto, com um topo formando um chapéu de bispo, um guarda-chuva, uma lanterna ou uma gaiola; os talos suculentos, enroscados em jeito de trepadeira; e as folhas grandes e verdinhas, nascendo em pares opostos. Mas há também muitos pormenores diferentes nas flores, sejam cores ou penachos que, dizem os estudiosos, são consequência de ajustes com os polinizadores — em geral uma grande diversidade de moscas que, atraídas por aromas e tons, ficam momentaneamente enjauladas nas flores e as polinizam enquanto buscam uma saída (como descrito aqui).

Contudo, as espécies de Ceropegia endémicas das Canárias (a Ceropegia dichotoma em Tenerife, La Palma, El Hierro e La Gomera; e a Ceropegia fusca, acima ilustrada, em Tenerife e Grã-Canária) não encaixam bem neste formato. Não são trepadeiras e investiram mais nos talos cilíndricos, engrossando-os em rolos erectos e fazendo-os nascer directamente do solo até cerca de 1 metro de altura; e reduziram as folhas a apêndices sésseis, finos, caducos, de 2-5 cm de comprimento e margens revolutas, que surgem no inverno. Supõe-se que sejam o resultado da adaptação ao habitat que colonizaram nessas ilhas: seco, rochoso, de solo ralo, e com exposição prolongada ao sol e ao calor.

05/02/2020

Giroflando por Lanzarote


Matthiola bolleana Webb ex Christ


Entre as lengalengas ou cantigas infantis que todos os portugueses de tenra idade foram ensinados a trautear avulta o Jardim da Celeste. Que nos conste, é só aí que aparecem giroflé e a sua variante giroflá, palavras que não têm qualquer uso ou significado em português corrente, embora alguns dicionários apontem girofle (sem acento) como sinónimo de cravo-da-Índia. Não seria inadequado que numa cantiga sobre um jardim as palavras desconhecidas designassem plantas, mas é só num idioma que agora as crianças não aprendem, o francês, que se revela toda a verdade sobre o giroflé. Envolve prévia operação de mudança de género, o que daria ao assunto sobeja relevância em contexto educativo. Transmudado para giroflée, palavra feminina que deve pronunciar-se carregando bem no erre, é nome de umas tantas plantas crucíferas de flores cor-de-rosa, amarelas, brancas ou vermelhas, plantas essas que por cá conhecemos como goivos. O verbo giroflar, neologismo que faz aqui a sua estreia pública, descreve pois o acto de observar goivos, por nós praticado com regularidade durante uma visita a Lanzarote.

A Matthiola bolleana, ou goivo-das-Canárias, é frequente em Lanzarote (também em La Graciosa) e, mais ainda, no sul de Fuerteventura, em dunas ou zonas pedregosas a baixa altitude. É rara nas restantes ilhas do arquipélago, e está ausente de El Hierro e de La Gomera. Trata-se de uma pequena planta perene, de 10 a 30 cm de altura, ramificada desde a base, com folhas geralmente inteiras, lineares e obtusas. As flores perfumadas, dispostas em hastes que pouco excedem o comprimento das folhas, são quase sésseis, com pétalas de uns 15 mm de comprimento, onduladas, de cor rosa-violeta mas brancas na base. Tem evidentes semelhanças com a espécie mediterrânica Matthiola fruticulosa, mas as diferenças (na forma das folhas, na coloração das pétalas, no porte geral) não são menos óbvias, e por isso é algo exagerado despromover a M. bolleana, como fazem certos autores, a simples variedade da M. fruticulosa.

À Matthiola bolleana estão associados importantes pioneiros novecentistas no estudo da flora canarina. Quem a baptizou foi o inglês Philip Barker-Webb (1793-1854), autor, com o francês Sabino Berthelot (1794-1880), de uma monumental L'Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em nove volumes entre 1836 e 1844. Em nenhum desses volumes, porém, se menciona a M. bolleana, cuja primeira descrição só veria o prelo em 1887 por mão do suíço Konrad H. Christ (1833–1933), que realizou um estudo dos escritos não publicados de Webb. O epíteto refere-se ao naturalista alemão Carl August Bolle (1821-1909), que colheu a planta na península de Jandía, em Fuerteventura, aquando da sua primeira visita às Canárias, em 1852. Ao mesmo Carl Bolle se devem dezenas de descrições de novas espécies da flora do arquipélago, em especial das ilhas menos estudadas até então: Lanzarote, Fuerteventura, El Hierro e La Gomera.

29/01/2020

Folhas de cinza

Ao contrário de alguns animais, as plantas adoptam épocas precisas de procriação. As que são perenes repetem, ano após ano, no mesmo mês, o ciclo de floração e gestação de sementes; as anuais, por sua vez, parecem ter inscrito nos seus genes um mecanismo de relógio, cujo funcionamento transmitem aos descendentes e que os desperta para florir mais ou menos nas mesmas datas dos progenitores. Há, claro, excepções a esta programação: plantas cujo período de floração é tão longo que parecem estar sempre em flor; ou plantas que só florescem uma vez na vida, para logo morrerem. Mas a maioria das espécies botânicas parece ter aprendido que manter uma rotina tem algumas vantagens, uma vez que a parceria com os polinizadores exige sintonia e fidelidade mútua, e o clima adequado à floração também costuma recorrer na mesma época do ano.



Contudo, este hábito de confiar nos outros, sejam polinizadores ou o ambiente, tão favorável às plantas em habitats estáveis, pode ser-lhes muito prejudicial em locais desassossegados. Não supreende, por isso, que algumas plantas de vez em quando desrespeitem a tradição, lançando flores quando deveriam já estar a hibernar. É um desatino para os guias de campo que indicam os meses usuais de floração, mas é também a sorte grande para quem quer fotografar plantas. Foi o caso deste lindo gerânio de folhas cinzentas, com flores brancas adornadas com veios e anteras de cor púrpura, que vimos em Agosto no planalto de La Larry, nos Pirenéus aragoneses.


Geranium cinereum Cav.


A sua época de floração não costuma ultrapassar o meio do Verão, mas conseguimos vê-lo ainda em flor neste pasto rochoso de montanha, acima dos 1600 metros, onde, sob um sol inclemente, vacas, cavalos e muitos turistas aproveitavam os arroios e as cachoeiras, e marmotas engraçadas assomavam vigilantes dos seus túneis (fresquinhos, supomos), empertigadas como cachorros em pé. O Geranium cinereum é nativo dos Pirenéus, e foi descrito pelo botânico espanhol Antonio José Cavanilles (1745-1804), a quem foi dedicado um narciso.

22/01/2020

Fonte seca


Asplenium fontanum (L.) Bernh.


Os erros em nomes botânicos têm uma história ilustre que remonta pelo menos a Lineu. O pai da taxonomia botânica baptizou plantas de todo o mundo, originárias de lugares que, nesse tempo de viagens demoradas, nunca pôde visitar. Recebidas as amostras, tratava de lhes dar nome tendo em conta as indicações de quem as enviava. Uma troca de etiquetas, a tresleitura de algum apontamento menos legível, o equívoco de se tomarem por nativas plantas cultivadas — tudo isso, em diferentes ocasiões, levou por exemplo a que plantas europeias assumissem identidade sul-americana ou vice-versa. São muito conhecidos os casos da Scilla peruviana, que não é do Peru mas sim de Portugal e Espanha, e do Cupressus lusitanica, de origem mexicana mas descrito (pelo inglês Philip Miller) a partir de exemplares cultivados em Portugal na mata do Buçaco.

Menos conhecidos são os nomes que dão uma ideia errada do hábito ou ecologia da planta. Um exemplo do primeiro tipo é dado pela Genista florida, que anda longe de ser a espécie do seu género com floração mais abundante. Para ilustrar o segundo tipo de erro, convocámos um feto a que Lineu chamou Polypodium fontanum e que, como mandam as regras da nomenclatura botânica, manteve o epíteto específico ao ser transferido para o género Asplenium. Uma tradução possível do nome seria feto-das-fontes; mas, embora haja muitos fetos que gostam de fontes ou de paredes ressumantes, o Asplenium fontanum decididamente não é um deles.

Com frondes estreitas de 10 a 15 cm de comprimento, dotadas de pecíolo curto e dispostas em tufos por vezes densos, e facilmente reconhecível pelo recorte das pínulas e pelo encurtamento muito acentuado das pinas inferiores, o Asplenium fontanum vive em fendas de rochas calcárias, por regra em sítios frescos onde a luz solar não incide directamente. Distribui-se por zonas montanhosas da Europa (Alpes, Pirenéus, maciço do Jura) e do norte de África (cordilheira do Atlas em Marrocos), a altitudes moderadas, maioritariamente entre os 500 e os 1500 metros, revelando especial predilecção pelos grandes vales cársicos. Fotografámo-lo no fabuloso vale de Añisclo, nos Pirenéus aragoneses, no talude de uma estrada que seria pecado não percorrer a pé.

15/01/2020

Águas salobras


Paul da Praia da Vitória, ilha Terceira
Que têm em comum a Praia da Vitória, na ilha Terceira, e a Fajã dos Cubres, em São Jorge, além de ambas se situarem em zonas costeiras do grupo central dos Açores? A primeira é uma cidadezinha aprumada, com ruas pedonais em calçada portuguesa preenchidas com lojas, cafetarias, bancos, restaurantes, pequenos hotéis, igrejas, jardins e um mercado, rematada por um passeio à beira-mar decorado com azulejos poéticos e com vista para um movimentado porto de recreio. A segunda, servida por uma única loja polivalente que faz de café-restaurante-mercearia, resume-se a uma dúzia de casas térreas ocupadas sazonalmente, de onde apenas sobressai a torre da igreja. Mesmo que tenhamos descido à fajã de automóvel e várias dezenas de turistas tenham feito igual, as impressionantes falésias revestidas de verde e a escala diminuta da presença humana dão uma medida da nossa fragilidade e induzem uma sensação de aventura e isolamento. A Praia da Vitória, por contraste, sugere uma vida de conforto burguês isenta de inquietações.


Lagoa da Fajã dos Cubres, ilha de São Jorge
Acontece que nas duas localidades existem lagoas de águas salobras, um tipo de habitat que de resto está quase ausente dos Açores e que serve de abrigo a uma interessante vida aquática. O Paul da Praia da Vitória, apesar de aparentemente separado do mar por extensos aterros, uma estrada e várias estruturas portuárias, ainda mistura água doce com salgada, pois a água das marés chega-lhe pelos fundos aproveitando a porosidade do terreno. Já a lagoa das Fajã dos Cubres está apenas a 50 metros do mar, sendo essa a largura, no ponto mais estreito, da língua de terra e detritos rochosos que lhe define o contorno. Embora o Paul da Praia esteja muito artificializado, nas suas margens ocorre uma das espécies nativas mais raras dos Açores, a ciperácea Bolboschoenus maritimus, que em todo o arquipélago só existe na Terceira e, nessa ilha, só na Praia da Vitória. E há no Paul pelo menos duas espécies vegetais em comum com a Fajã dos Cubres: o Juncus acutus, que forma grandes tufos de folhas agressivamente pontiagudas; e a Ruppia maritima, uma planta submersa de distribuição cosmopolita, semelhante a uma gramínea, que nos Açores só existe na Terceira e em São Jorge, precisamente nestes locais.


Ruppia maritima L.


Ao contrário do que pode sugerir o epíteto maritima, esta Ruppia não vive no mar, mas apenas em zonas costeiras tais como estuários, lagoas e salinas. É um habitat por natureza descontínuo e daí que a planta tenha uma distribuição muito fragmentada. No entanto, ela está espalhada por todos os continentes habitados, desde regiões de clima fresco até zonas tropicais, conjecturando-se que tenham sido as aves migratórias, ao comerem os peixes que engolem os frutos da planta, o principal veículo da sua disseminação. Planta de ciclo anual mas florescendo e frutificando ao longo de praticamente todo o ano, não parece ter dificuldade em manter largos contigentes nos locais onde está instalada. Na lagoa da Fajã dos Cubres forma extensas pradarias submersas, e de facto ela é aí a única planta que vive inteiramente na água. Uma observação atenta permite detectar os típicos caules articulados, mas para inspeccionar inflorescências e frutos é indispensável pescar algum exemplar (que depois deverá ser devolvido à água). Os frutos são pequenas drupas dotadas de pedúnculos muito longos (as fotos em baixo mostram uma inflorescência); noutras espécies do género como a Ruppia cirrhosa, mas não na R. maritima, esses pedúnculos costumam contorcer-se em espiral.

Os mamíferos que vivem no mar têm de vir à tona para respirar. Não é esse exactamente o caso da Ruppia, mas esta planta só consegue reproduzir-se porque literalmente cria bolhas de ar. Tais bolhas envolvem as anteras, transportando o pólen para a superfície. Em seguida o pedúnculo cresce, e com isso os estigmas assomam também à superfície para receberem o pólen. Noutros casos, em que a autogamia é prática corrente, a inflorescência prescinde da ascensão à superfície e tudo se passa na intimidade de uma bolha de ar que envolve anteras e estigma de uma mesma flor.

P.S. Para algumas importantes correcções a este texto, leia-se o comentário aqui deixado por Duarte Frade.


Ruppia maritima L.

08/01/2020

Chicória elegante

Durante alguns anos, entre Janeiro e Junho, visitámos com alguma regularidade o centro do país. Habituados à cidade, desconhecíamos algumas das serras da Estremadura, lugares privilegiados para a flora de solos calcários. Foi ali que começámos a interessar-nos pelas plantas de um modo menos informal, e foi também por lá que vimos pela primeira vez algumas das espécies herbáceas mais bonitas da flora nacional. Mas escapou-nos sempre a asterácea que hoje vos mostramos, planta perene que gosta de clareiras de matos e encostas muito secas com solo calcário e argiloso, e cuja distribuição em Portugal se restringe a um local no Ribatejo.


Catananche caerulea L.


Por cá, ela floresce entre Maio e Junho, mas encontrámo-la em flor, e em populações abundantes, durante uma visita em Agosto aos Pirenéus. Na imagem abaixo dos montes de Plana Canal, nos Pirenéus aragoneses, adivinha-se a estrada, denunciada por uma linha mais ou menos horizontal, em cuja berma vimos pela primeria vez a C. caerulea.



As inflorescências lembram as da chicória, mas o formoso invólucro de brácteas transparentes (veja a 2ª foto acima) distingue-as sem dificuldade.

No sudeste de Portugal ocorre outra espécie de Catananche, igualmente rara, a C. lutea, que nunca vimos mas que é frequente na região mediterrânica. É anual e parece mais exigente quanto ao tipo de habitat pois apenas são conhecidos registos da sua presença em afloramentos de rocha ígnea com solo básico, ocorrendo em populações pequenas. Isso é surpreendente tendo em conta que esta espécie tem um esquema de dispersão de sementes muito habilidoso. Senão vejamos.

Cada planta produz dois tipos de frutos (aquénios): uns subterrâneos, com origem em flores que nascem nas axilas das folhas da roseta basal entre Fevereiro e Abril, e que germinam no local onde a planta mãe morre; e outros aéreos, que estão prontos para serem disseminados pelo vento entre Abril-Maio e que resultam da polinização ou auto-fertilização das inflorescências aéreas (com hastes florais elevadas). Cada tipo de aquénio parece ter uma intenção distinta relativamente ao processo de disseminação desta espécie, diferenças que naturalmente obrigam a adaptações morfológicas. Segundo E. Ruiz de Clavijo, autor de um artigo que vale a pena ler na íntegra, os aquénios subterrâneos são uma reserva da planta pronta para germinar no solo, e fazem-no rapidamente. Asseguram que a espécie persiste no terreno onde a planta mãe foi bem sucedida. Os aéreos, cuja dispersão se faz pelo vento e se espera que viajem para longe, permitindo a colonização de novos habitats, têm um prazo de validade maior e o papus (o pára-quedas da semente) é mais bem desenvolvido.

Esta estratégia reprodutiva não é apanágio da C. lutea (veja-se por exemplo a Centaurea melitensis, cujos capítulos sésseis e rentes ao chão têm flores cleistogâmicas, ou a Emex spinosa). No caso da C. lutea, porém, os capítulos na base também abrem, e o processo é mais sofisticado pois há vários tipos de aquénios aéreos e subterrâneos, com diferenças subtis que dependem da posição da flor no capítulo.

Se o leitor tiver tempo, não deixe de espreitar imagens de outras espécies de Catananche do norte de África, decerto parentes e, quem sabe, origem do carácter polimorfo dos frutos da C. lutea.

28/12/2019

Cacto leiteiro



Euphorbia canariensis L.



aqui falámos de um cacto que afinal não era cacto. Sem sair das Canárias, o mesmo fenómeno de um cacto que o não é pode ser testemunhado, a uma escala muito mais impressionante, um pouco por todo o arquipélago, sobretudo em zonas áridas perto do mar. A Euphorbia canariensis, assim se chama esta planta cactóide, é capaz de atingir três a quatro metros de altura, e as suas hastes arqueadas, desprovidas de folhas mas não de espinhos, formam grandes aglomerados que fazem lembrar candelabros gigantes. Cada haste tem geralmente cinco faces (às vezes quatro ou seis), com o picotado dos espinhos sublinhando as arestas de alto a baixo. O disfarce de cacto só deixa de ser convincente quando a planta está em flor, o que acontece entre Abril e Julho. Como é regra das eufórbias, as inflorescências são compostas por ciátios, estruturas em que as flores masculinas (reduzidas a estames) rodeiam uma única flor feminina (reduzida ao pistilo). Os ciátios da Euphorbia canariensis, de uma cor entre o vermelho e o castanho, são sésseis (sem pedúnculo) e surgem no topo das hastes, em grupos de três, acompanhando os espinhos. De todo desaconselhável é o manuseio destas plantas sem protecção dos olhos e das mãos, já que o látex leitoso que elas produzem é cáustico e venenoso. Claramente elas não têm a vocação de aplacar a sede a quem se perca no deserto, mas ao que parece a água dos genuínos cactos dos desertos americanos, embora muito menos tóxica, também não é bebida recomendável.

Potenciando a confusão, nas Canárias a Euphorbia canariensis é conhecida como cardón, nome que na América Latina se dá também a várias espécies de grandes cactos como o Pachycereus pringlei e o Stenocereus stellatus. Os matos xerófilos em que a Euphorbia canariensis é preponderante chamam-se cardonales, e funcionam como o contraponto espinhento dos tabaibales, onde quem manda é a Euphorbia balsamifera, uma espécie arbustiva inerme. Quando as duas eufórbias convivem, o que até é frequente, estamos em presença de um cardonal-tabaibal.

O cardón, ou Euphorbia canariensis, tinha tudo para ser o símbolo vegetal das Canárias: exibe uma forma atraente e inconfundível, é endémico do arquipélago, e é suficientemente abundante para ser visto e admirado por todos quantos visitam essas ilhas. Por um capricho qualquer, está ausente de Lanzarote enquanto planta espontânea (embora apareça cultivado em jardins), e o facto de não fazer o pleno das ilhas terá inviabilizado a sua candidatura a esse posto honorífico. Quem ocupou o posto, por decreto-lei do Governo das Canárias datado de 1991, foi a palmeira Phoenix canariensis. Para o cardón sobrou um prémio de consolação: o decreto que oficializou os símbolos do arquipélago fez o mesmo para cada uma das ilhas, e a Euphorbia canariensis ficou a ser o símbolo vegetal da Grã-Canária. (As nossas fotos, contudo, foram tiradas no Puertito del Sauzal, na costa norte de Tenerife.)

21/12/2019

Genciana de meio palmo



Durante as duas ondas de calor que no fim da Primavera atingiram o centro de Espanha, a serra de Gredos penou de aridez. Com algumas excepções, os prados tipicamente verdes e floridos nas montanhas lembravam pastos de palha seca. A juntar a este cenário desolador, as margens dos riachos mais promissores estavam completamente pisoteadas pelo gado que, sequioso, derrubou cercas e foi beber onde ainda havia alguma água. A vegetação, com uma sabedoria não surpreendente, tratou de despachar a floração, e no incício de Agosto eram poucas as turfeiras com algo que merecesse uma visita. Foi preciso subir mais, até às gigantescas pistas de esqui a mais de 2000 metros de altura, desactivadas no Verão, para encontrar o que procurávamos.


Gentiana boryi Boiss.


Tal como as gencianas que ocorrem em Portugal (G. pneumonanthes, com mais populações no norte do país, e G. lutea, na serra da Estrela), esta espécie aprecia cervunais frescos de alta montanha, permanentemente húmidos e com solo ácido e rico. Por depender de um habitat ameaçado e ter uma distribuição restrita, está incluída, com o estatuto de vulnerável, na lista vermelha da flora de Espanha. De caules prostrados, não ultrapassa em geral os 10 cm de altura, mas forma, entre Julho e Setembro, vastos tapetes de flores minúsculas (a corola plissada tem pouco mais do que 1 cm de diâmetro) que nascem frequentemente aos pares, com um lindo tom de azul a contrastar com um atraente centro amarelo pintalgado.

Esta genciana é um endemismo espanhol cuja presença está registada na serra Nevada, na serra de Gredos e na Cantábria. O seu nome é mais uma homenagem ao naturalista francês Jean Baptiste Bory de Saint-Vincent (1778-1846).

12/12/2019

Um rio de verdade



O Verão é uma época difícil para quem gosta de rios, sobretudo quando a estiagem os reduz a uma sucessão de piscinas estagnadas. Perspectiva diferente terão aqueles que os procuram como local de diversão e de banhos mais ou menos refrescantes: dão o dia por bem passado se não lhes faltar sombra de árvores e ainda tiverem água para chapinhar. Apesar de não termos o hábito de mergulhar, preferimos rios vivos e com fartura de água; quando o caudal emagrece vamos à nossa vida e aguardamos tempos melhores.

Travámos conhecimento com o rio Mente num mês de Julho de há quatro anos, caminhando ao longo do troço que separa os concelhos de Chaves e de Vinhais. Cruzámo-lo a pé sem que a água nos subisse acima dos tornozelos, aproveitando, numa atitude de desrespeito, a fraqueza hídrica de que o rio então padecia. Do lado de Chaves a vegetação tinha sido desbastada para produzir uma praia fluvial ao gosto popular. Um avô com quem metemos conversa lamentou que do lado de Vinhais, com mato e ervas crescendo ao Deus dará, não se notasse igual brio.

Voltámos meia dúzia de vezes para conhecer o rio em épocas de maior pujança, preferindo sempre o abandono de Vinhais ao zelo flaviense. Há carreiros nas margens que são túneis entre as árvores, com acesso aqui e ali a pontos onde os ocasionais pescadores armam as suas canas de pesca. Não conhecemos em todo o país vegetação ribeirinha mais bem conservada. Ao cortejo das árvores habituais (amieiros, freixos, salgueiros, sanguinhos, cerejeiras, pilriteiros) juntam-se trepadeiras (Humulus lupulus, Clematis vitalba), fetos pequenos e grandes, e uma profusão de herbáceas raras (Agrimonia procera, Circaea lutetiana, Filipendula ulmaria, Glechoma hederacea, Potentilla sterilis, Thalictrum speciosissimum, etc.) em que a raridade maior é uma umbelífera de porte avantajado, amante da frescura e da sombra.



Pimpinella major (L.) Huds.


Distribuída por quase toda a Europa, só em 2006 a Pimpinella major fez a sua entrada oficial na flora portuguesa, com a publicação, na revista Silva Lusitana, de uma nota por Carlos Aguiar e João Domingues de Almeida dando conta da descoberta da planta no Parque Natural de Montesinho, nas margens do rio Tuela. Sem surpresa, ela acabou por ser encontrada noutros lugares, e em todo o caso já era conhecida a sua (escassa) presença no sudeste da Galiza, não longe da fronteira portuguesa. É de assinalar, porém, que o rio Mente é afluente do Rabaçal, e que este só às portas de Mirandela se junta ao Tuela para formar o Tua. É pois de supor que as populações de Pimpinella major do Mente e do Tuela tenham origens independentes, ainda que ambas se situem no Parque de Montesinho.

Se atendermos à ecologia, a planta é fácil de identificar pelas folhas pinatissectas de grande tamanho, às vezes ultrapassando os 40 cm de comprimento, cada uma delas com 5 a 9 segmentos mais ou menos rômbicos, e pelos caules fistulosos e claramente estriados. As demais umbelíferas de flores brancas e tamanho respeitável que vivem em bosques húmidos ou em margens de rios (exemplos: Angelica sylvestis, Heracleum sphondylium, Oenanthe crocata e Laserpitium eliasii) têm folhas bem diferentes, em geral (a excepção é o Heracleum sphondylium) com um número muito maior de divisões.