14/08/2018

A confusão dos dentes-de-leão



Hieracium amplexicaule L.


Antes que o nomadismo (ainda que virtual) nos arraste para outras paragens, não ficaria completo este breve regresso ao Gerês se não nos detivéssemos num dente-de-leão. Nem só de caviar vive o homem, e um aspirante a botânico não pode atentar apenas nas plantas prestigiadas por uma aura de beleza ou raridade. Numa abordagem imediata, avessa a subtilezas, diríamos que os dentes-de-leão nada têm de raro. Quanto à beleza, depende de quem vê, pois há gostos para tudo. Se eles vivem em relvados urbanos, despontam entre as rachas dos passeios, proliferam em terrenos baldios e em jardins mal amanhados, e conseguem ainda aparecer em bosques, prados e praias, não parece que tenham a sobrevivência ameaçada.

Acontece que, nessa designação imprecisa de dentes-de-leão, cabem coisas muito diversas: a saber, todas as (inúmeras) asteráceas de capítulos amarelos em que estes são compostos apenas por florículos ligulados — não havendo, como nas margaridas (outro nome demasiado abrangente), uma diferença clara entre os florículos que formam o disco central e aqueles que dão as "pétalas". Os dentes-de-leão mais frequentes em ambientes ruderais pertencem aos géneros Taraxacum, Leontodon, Hypochaeris, Sonchus e Crepis. Mesmo dentro destes géneros mal-afamados há espécies que frequentam ambientes mais selectos (como o Crepis lampsanoides, que aparece em carvalhais) e outras que, tendo-se desenvolvido em habitats peculiares, alcançaram inegável prestígio: no género Leontodon há três formosos endemismos açorianos; e, na Madeira e nas Canárias, os Sonchus cresceram e multiplicaram-se até ficarem irreconhecíveis, com muitas espécies transformando-se em árvores.

O dente-de-leão que fotografámos entre as rochas, no estradão dos Carris, pertence ao género Hieracium, famoso pela sua dificuldade. É um género em que os não-especialistas se devem abster de dar palpites sobre a identificação das espécies. Certezas? Só aquelas que a alegre inconsciência permite, e por isso apenas ao alcance dos principiantes mais absolutos.

Bem prega Frei Tomás, pois afinal as fotos vêm etiquetadas como sendo do Hieracium amplexicaule. Se o escriba não tem certezas, arroga-se pelo menos o direito de mandar palpites. Como desculpá-lo? Das cerca de seiscentas espécies de Hieracium que se admite ocorrerem na Península Ibérica, os especialistas identificaram umas 26 principais que por sucessivos cruzamentos terão dado origem a todas as outras. Cada espécie principal estaria assim rodeada por uma constelação de espécies secundárias semelhantes em cuja progenitura esteve envolvida. Entre as espécies principais, o Hieracium amplexicaule é distintivo por ser densamente glanduloso em todas as suas partes (o que o torna muito pegajoso), e por ter as folhas superiores abraçando o caule (é esse o significado de amplexicaule). A espécie vive em zonas pedregosas de montanha, descrição que encaixa sem favor no habitat ocupado pela planta geresiana, ajudando a reforçar o palpite. As dimensões também parecem correctas, atingindo o H. amplexicaule uns 40 cm de altura máxima (ou, excepcionalmente, até 55 cm).

Assim, se a planta do Gerês não for H. amplexicaule, será pelo menos filha ou neta dessa espécie — ou talvez filha e neta, pois vergonha é coisa que as plantas desconhecem. Está em flor em meados de Junho. Também a vimos, ou ingenuamente a julgámos ver, no topo da serra do Marão, florescendo aí umas semanas mais tarde.

31/07/2018

Um funcho cabeludo


Ferulago capillaris (Link ex Spreng.) Cout.



As piscinas do rio Homem, de água límpida escoando-se devagar entre grandes blocos rochosos, são um poiso favorito para quem no Verão demanda o Gerês em busca de frescura. Há que pagar (por duas vezes) um euro de portagem e fazer a pé os 700 metros desde a Portela do Homem, onde deixamos o carro, até à ponte sobre o rio, onde nos debruçamos para a foto obrigatória. O acesso às piscinas faz-se logo ali. Se o fôlego e o calçado o permitirem (andar de chinelos num caminho pedregoso e esburacado não é boa ideia), podemos subir umas centenas de metros pelo estradão dos Carris e alcançar uma piscina longe das multidões.

O vale do rio Homem é muito verde, mas os carvalhos, azevinhos, bétulas, pereiras-silvestres, medronheiros e tramazeiras vão-se fazendo esparsos à medida que subimos, até que predominam os matos de giesta, urze e carqueja. As rochas por onde o rio se espreguiça dão abrigo a uma vegetação herbácea e arbustiva rica em raridades: Amelanchier ovalis, Narthecium ossifragum, Vincetoxicum hirundinaria e, não menos importante, uma umbelífera, Ferulago capillaris, a que os mais distraídos chamarão funcho. Confusão compreensível atendendo às flores amarelas e às folhas muito recortadas, mas rapidamente desmentida pelo olfacto: o Ferulago capillaris não tem cheiro digno de nota. (Antes usar o olfacto do que o paladar: mordiscar uma planta que desconhecemos pode fazer mal à saúde.) Os olhos também podem contribuir para desfazer o equívoco: o funcho propriamente dito (Foeniculum vulgare) é uma planta esguia e desgrenhada, com umbelas muito mais ralas. O Ferulago capillaris, capaz de ultrapassar 1,5 m de altura, tem uma haste robusta e erecta, ramificada apenas na parte superior, que é encimada por várias umbelas, a principal das quais formada por 20 a 40 raios, cada um deles sustentando cerca de dezena e meia de flores.

Tão fácil de ver no vale superior do rio Homem, é uma surpresa aprendermos que este robusto pseudo-funcho talvez não ocorra em nenhum outro ponto do Gerês e que, fora do Parque Nacional, só se sabe dele em meia dúzia de lugares em Trás-os-Montes e na Beira Alta. Endémico da Península Ibérica, o Ferulago capillaris não abunda nem em Portugal nem em Espanha: no país vizinho é mais frequente na serra de Gredos, parte de cadeia montanhosa que tem o seu limite oeste na serra da Estrela. Do género Ferulago conhecem-se mais três espécies na Península Ibérica, todas elas endémicas: F. brachyloba, F. granatensis e F. ternatifolia. A crer nos mapas de distribuição no portal Anthos, são todas de distribuição muito restrita.

24/07/2018

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.


Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)

17/07/2018

Estrelas do Homem


Aster sedifolius L. [sinónimo: Galatella sedifolia (L.) Greuter]


Aprendemos os caminhos do Gerês seguindo uma estrela. Ou tentando segui-la, pois nunca a víamos: as nossas excursões eram diurnas e, em qualquer caso, a estrela que procurávamos era da terra e não do céu. Entre 2010 e 2015, quando o Verão decaía para o Outono, percorremos, quase sempre sozinhos mas uma ou outra vez guiados por caminheiros experientes, o limite oriental da serra do Gerês nas cercanias de Pitões das Júnias. Cruzámos o rio Beredo e o vale da ribeira do Forno, ascendemos aos cotos da Fonte Fria, passámos por muitos dos lugares onde cabras e lobos jogam às escondidas. O encanto agreste da paisagem era temperado pelo receio de nos perdermos, pois a vida na cidade não nos prepara para estes descaminhos tantas vezes camuflados pela vegetação, sem pontos de referência reconhecíveis.

Deixámo-nos dessas aventuras, frustrados por a estrela nunca se nos mostrar, até que soubemos que ela se acolhia na vertente ocidental da serra do Gerês, de acesso bem mais simples. Em 2017, na segunda quinzena de Setembro, subimos o pedregoso vale do rio Homem, então reduzido a uma sucessão de piscinas ligadas por um fio de água, e saltámos para a outra margem no ponto assinalado. Num mato dominado pela carqueja, com pequenos carvalhos assomando aqui e ali, lá se escondia uma vintena de pés de Aster sedifolius: era essa a estrela que procurávamos há sete anos. O ano quente e seco quase nos estragava o momento, pois a floração, que deveria estar no início, mostrava-se praticamente terminada.

O Aster sedifolius é uma planta esguia, de 60 a 90 cm de altura, com caules simples ou ramificados apenas na parte superior, folhas lineares algo carnudas (é isso que sugere o epíteto sedifolius), e vistosos capítulos florais lilazes e amarelos. De acordo com os manuais com os quais desta vez estava em desacordo, a sua floração é outonal e prolonga-se até Outubro ou Novembro. Distribuída pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à ex-Jugoslávia, mas ausente da Grécia, aparece de norte a sul da Península mas é mais frequente ao longo da costa mediterrânica. Em Portugal só tem sido avistada, e pouco, na serra do Gerês.

Quando a encontrámos, já sabíamos que a estrela tinha deixado de o ser. O populoso género Aster tem vindo a ser metodicamente desmembrado, e as três espécies consideradas nativas de Portugal foram varridas para outros géneros: o Aster tripolium, que é frequente em sapais e estuários, chama-se agora Tripolium pannonicum; e os raríssimos Aster sedifolius e A. aragonensis (este um endemismo ibérico) integram agora o género Galatella. Apesar de essa separação ter sido ditada sobretudo por razões filogenéticas, ela também se parece justificar por razões morfológicas — é essa a conclusão dos autores de um detalhado estudo publicado em 2015 com o título Taxonomic status of Aster, Galatella and Tripolium (Asteraceae) in view of anatomical and micro-morphological evidence.

11/07/2018

Altas campainhas


Campanula patula L.


Campânula é um nome de origem latina para um sino (campa) pequeno, a que alude a designação das herbáceas do género Campanula, tendo elas flores com pétalas mais ou menos reviradas e unidas pela base em tubo, o que dá à corola a forma de uma... campânula. As flores da C. herminii, endemismo ibérico de que por cá só há registos na serra da Estrela, são talvez a versão campaniforme mais perfeita. O nome vernáculo destas plantas, de flores roxas, cor-de-rosa ou brancas, adopta para algumas espécies o diminutivo campa + inha, ou sininho, ainda que tal denominação também se use, sob risco de confusão, para outros géneros. Na obra De historia stirpium commentarii insignes (1542), o botânico alemão Leonhart Fuchs terá registado oficialmente, talvez pela primeira vez, o termo campanula para designar precisamente uma planta (que Fuchs desenha com muito rigor, algo inusitado para a época) das que Lineu, em 1753, viria a incluir no género a que chamou Campanula.

Mas por que razão a forma destas flores se designa campânula? O dicionário Houaiss não arrisca mais do que uma menção à palavra latina campaña, explicando que era usada nos anos 560-600 para designar uma balança romana; algum tempo depois este vocábulo já soava a campanula, e ainda no século VI passou a designar também um sino (com ou sem badalo). A utilização em botânica, segundo Houaiss, data do século VIII. Voltemos, porém, à Flora Ibérica, que oferece uma explicação mais detalhada: um vaso Campana seria um tipo de recipiente em forma de cone invertido e oco, feito em bronze de grande qualidade na região (italiana, supomos) de Campania.

Curiosamente, o termo sino (do latim signum), referindo-se aos instrumentos em geral feitos em bronze que davam o sinal da hora de oração, de escalas de serviço a bordo de navios, de fecho de tabernas e de recolha a casa, apropriou-se no século passado do papel atribuído à palavra campânula para designar uma certa forma. Referimo-nos à moda das calças boca-de-sino, ponto alto do vestuário dos anos 70 e ícone do estilo «hippie». Deveriam afinal ter-se chamado calças boca-de-campânula.

A campânula hoje na montra é uma versão alta da C. lusitanica, de flores tão patentes e vistosas que Lineu lhe chamou patula.

03/07/2018

Ervas de Santa Maria


Tapete de Rostraria azorica na Praia Formosa, em Santa Maria
Com uma área de 97 km2, Santa Maria é a terceira menor ilha dos Açores, avantajando-se apenas ao Corvo e à Graciosa. É por isso surpreendente que, de todo o arquipélago, seja ela que detém o maior número de plantas endémicas exclusivas. São três as plantas que ocorrem em Santa Maria e em mais lado nenhum: Aichryson santamariensis, Euphorbia stygiana subsp. santamariae e Rostraria azorica. Apesar de ser oito vezes maior, São Miguel sai-se mal desta disputa, ficando-se por um único endemismo exclusivo: Leontodon rigens. De resto, os bons ofícios do vento e das aves e a proximidade entre as ilhas fizeram rarear no arquipélago o fenómeno da exclusividade: há ainda, no Pico, o duvidoso caso da Silene uniflora subsp. cratericola, e é tudo. As coisas seriam diferentes se as Flores e o Corvo, tão distantes do resto do arquipélago, contassem como uma ilha só, pois nada menos que quatro espécies exclusivas são partilhadas por essas duas ilhas.

Das três plantas endémicas de Santa Maria, a Rostraria azorica é decerto a menos conspícua: em Maio e em Junho, o Aichryson santamariensis enfeita profusamente as estradas da ilha com o amarelo radioso das suas flores; a Euphorbia, misteriosa no seu bosque, seduz-nos pela folhagem e pelos seus ramos serpenteantes; mas a R. azorica, uma gramínea anual reduzida a um caule e um penacho, com uns 10 a 15 cm de altura máxima, parece ter a modéstia como única qualidade.


Rostraria azorica S. Hend.


De um modo geral, as plantas não têm qualquer interesse em seduzir-nos, mas alguns dos engodos visuais ou olfactivos por elas usados para atrair insectos e outros polinizadores podem também apelar aos nossos sentidos. Contudo, as gramíneas, apesar de serem plantas evoluídas, confiam no vento para a polinização e dispersão das sementes — e, por dispensarem toda a ajuda de terceiros, não entram em jogos de sedução. O que não quer dizer que um sentido estético mais refinado não seja capaz de encontrar uma beleza de tipo austero em certas gramíneas, merecedoras por isso de um protagonismo em jardinagem que ultrapasse o utilitarismo dos relvados. E, falando das gramíneas endémicas açorianas, é inegável o dramatismo cénico que o bracel-da-rocha (Festuca petraea) empresta às falésias negras das ilhas.

À escala a que o nossos olhos costumam funcionar, a R. azorica tem tudo para passar despercebida, confundindo-se com uma multidão de outras ervitas insignificantes. É nos detalhes das inflorescências que as gramíneas marcam pontos, valendo-se de uma simetria e regularidade inigualadas por plantas mais vistosas (exemplos: 1, 2). Aí a R. azorica é tão fotogénica como as melhores, e mostra suficiente personalidade para que possamos reconhecê-la entre as suas (quase) iguais. O género a que pertence, Rostraria, inclui cerca de uma dezena de espécies anuais típicas de lugares áridos, todas bastante semelhantes, distribuídas pela bacia mediterrânica e pelo Médio Oriente. Nos Açores ocorre uma segunda espécie, também presente em Portugal continental e em grande parte da Europa, que é a R. cristata (foto em baixo). A Rostraria de Santa Maria distingue-se bem desta por ser uma planta mais hirsuta, por ter a panícula mais estreita e alongada, e por as lemas (brácteas que protegem os florículos) terem aristas muito mais compridas.

O que há de mais notável na Rostraria azorica é ela ser endémica de uma ilha só. As sementes das gramíneas deixam-se transportar pelo vento a grandes distâncias, e os 80 km que separam Santa Maria de São Miguel não deveriam ser obstáculo de grande monta. Várias são as gramíneas endémicas presentes em todas as ilhas do arquipélago (Festuca petraea, Holcus rigidus, Gaudinia coarctata) ou em pelo menos oito ou sete delas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa). Não seria inesperado se se descobrisse que a R. azorica aparece noutras ilhas — mas antes de alguém se lançar na procura terá que saber reconhecer a planta, e lembrar-se de que ela só está visível por um período curto, entre Abril e Maio. O carácter efémero e discreto desta gramínea, afinal frequente nas zonas costeiras de Santa Maria, ajuda a explicar que só em 2003 tenha sido publicada a descrição formal da nova espécie (S. Henderson & H. Schäfer, Synopsis of the genus Rostraria (Poaceae) in the Azores, Bot. Journal of the Linnean Society, 141-1), embora já em 1969 a sua existência tivesse sido notada pelo botânico C. E. Hubbard.


Rostraria cristata (L.) Tzvelev

27/06/2018

Tabuleiro de xadrez


Fritillaria pyrenaica L.


Se há herbáceas fáceis de identificar quando em flor são as do género Fritillaria. É que as flores, com o perianto campanulado formado por seis tépalas de cor púrpura com uma banda amarela na face externa e um padrão axadrezado na face interna, são inconfundíveis. Então por que há cinco espécies ibéricas? O que afinal as distingue? A chave da Flora Ibérica indica que se reconhecem sobretudo pelas folhas (mais ou menos lanceoladas, fininhas ou nem tanto, mas as diferenças contam-se em escassos milímetros) e pela forma dos nectários (informação a que jamais acederemos para não destruir as flores). Ajuda também estar atento à ecologia, pois algumas espécies preferem clareiras de matos na montanha, outras têm predilecção por fendas de rochas calcárias, e há as que se dão bem em dunas costeiras. Talvez aqui o anseio por endemismos torne este estudo mais complicado do que seria desejável, e explique por que razão a descrição na Flora Ibérica não está de acordo com a taxonomia adoptada pela Nova Flora de Portugal de Franco e Rocha Afonso, nem com os registos de observação destas espécies em Portugal. Por exemplo, a espécie Fritillaria nervosa Willd. (descrita em 1809 por Carl Ludwig Willdenow), que conhecemos das serras do Gerês, Açor e Estrela, surge na lista de plantas elaborada pelos Royal Botanic Kew Gardens e Missouri Botanical Garden como sinónimo de Fritillaria pyrenaica. É, porém, designada na Flora Ibérica como Fritillaria caballeroi, a partir de uma publicação de F. M. Vásquez em 2009. Para a lista dos Kew Gardens, contudo, a F. caballeroi é sinónimo de F. lusitanica... Havendo tempo, os botânicos ibéricos arrumarão melhor este género.

Para terminarmos, falta só chamar a sua atenção para um pormenor curioso nestas herbáceas vivazes. As flores são em geral solitárias e pendentes, mas na frutificação a haste floral torna-se erecta e a cápsula com as sementes nasce no topo dela. Deve ser um esforço considerável para a planta ter de levantar a corola da flor murcha para que o fruto se coloque nessa posição cimeira. Mas decerto é vantajoso para atrair polinizadores e proteger a flor que ela se incline para baixo, e mais eficiente para a disseminação das sementes que o fruto se localize inteiramente exposto ao vento. Ao abrir, solta inúmeras sementes minúsculas com asinhas alaranjadas.

19/06/2018

O trovisco-macho mais raro da Europa



Euphorbia stygiana subsp. santamariae H. Schaef.


A ilha açoriana de Santa Maria tem duas caras para mostrar aos visitantes. Na metade oeste, onde ficam o aeroporto, o porto de mar e, junto a ele, a principal povoação da ilha (apropriadamente chamada Vila do Porto), domina o amarelo das pastagens secas. Na metade leste, empinam-se os montes que captam o nevoeiro e a chuva, e a cor dominante passa a ser o mesmo verde a que nos habituámos nas outras ilhas do arquipélago. Somos levados a pensar que meia ilha de verdura não chega para compensar a aridez da outra metade, e que os cursos de água, se os houver, deverão ser raros e efémeros. Só que nada disso é verdade. Por um capricho da geologia, Santa Maria tem, na sua metade leste, muitas ribeiras permanentes; e algumas das que desaguam na metade oeste, nascidas na cadeia montanhosa do centro da ilha, também levam água todo o ano. Ilhas muito mais húmidas e verdes como o Pico e o Faial são também muito mais porosas, dispondo apenas de ribeiras temporárias, de regime torrencial.

Em Santa Maria, no vale encaixado de uma dessas ribeiras milagrosas, esconde-se, quase sufocada pela proliferação do incenso e da conteira, uma eufórbia arbórea (ou, na designação popular, um trovisco-macho) que é única no mundo. A população de poucas dezenas, todas no mesmo local, tem vindo a diminuir de forma alarmante, com os deslizamentos de terras provocando a perda de exemplares adultos e o cerco das invasoras impedindo que vinguem os exemplares jovens. O momento, porém, é de esperança, pois, em colaboração com os serviços do Parque Natural de Santa Maria, o Jardim do Botânico do Faial, que já salvou o não-me-esqueças e o teixo açoriano do limiar da extinção, comprometeu-se a intervir rapidamente.

Descoberta por Hanno Schaefer em 2001, e por ele descrita em 2002 na sua tese de doutoramento (intitulada Chorology and Diversity of the Azorean Flora), esta eufórbia foi então baptizada como Euphorbia stygiana subsp. santamariae. Segundo Schaefer, a diferença mais marcante é que os exemplares de Santa Maria são árvores capazes de atingir os dez metros de altura, enquanto que a E. stygiana das outras ilhas (ver fotos aqui) é um arbusto não excedendo os cinco metros. Esta dicotomia não é muito convincente, pois a subsp. stygiana às vezes também é uma árvore e no Pico há exemplares gigantescos. Mas todo o cepticismo foi varrido pelo espanto quando nos vimos perante o trovisco-macho de Santa Maria. O tipo de crescimento é muito diferente, as folhas são mais baças e com o veio central menos marcado, e as inflorescências cobertas de penugem, com os nectários alaranjados, não poderiam contrastar mais com as do trovisco-macho das outras ilhas (ver fotos aqui). E estas discrepâncias morfológicas tão óbvias são, segundo soubemos, corroboradas por diferenças genéticas. Assim, é provável que o trovisco-macho de Santa Maria represente uma espécie autónoma, não se justificando a sua subordinação, como subespécie, à E. stygiana do resto do arquipélago. De resto, a julgar pela aparência, a Euphorbia santamariae (como algum dia se há-de chamar) está mais próxima da madeirense E. mellifera do que da E. stygiana propriamente dita — e pode, de facto, ser o elo de ligação entre as duas espécies, funcionando Santa Maria (a ilha açoriana mais antiga, e a mais próxima da Madeira) como primeira etapa na rota migratória da Madeira para os Açores.

Se a singularidade deste trovisco-macho tivesse tido o devido reconhecimento taxonómico, talvez a operação de salvamento que agora se prepara in extremis pudesse ter sido levada a cabo, com maior probabilidade de sucesso, há uma dúzia de anos. Haveria por certo o risco de o frenesim mediático (com títulos como "A eufórbia mais rara da Europa é dos Açores") poder atrair coleccionadores sem escrúpulos, depauperando ainda mais uma população escassíssima. Mas é muito mais sério o risco de uma morte silenciosa.

12/06/2018

Presas na neve


Androsace cantabrica (Losa & P. Monts.) Kress


Na nossa terceira visita ao pico onde nascem rios que desaguam em três mares, optámos por uma data intermédia às das visitas anteriores, que tinham sido em Maio e Julho. Desse modo esperávamos conhecer todas as plantas que, à vista da estância de esqui do Alto Campoo, florescem desde a Primavera até ao início do Verão. Só que a metereologia trocou as voltas ao calendário: chegando três semanas mais tarde do que em 2017, a muita neve que faltava derreter, impedindo o trânsito de veículos e de caminhantes, sugeria, em vez disso, que chegáramos um mês mais cedo. A estância encerrara já a temporada, mas alguns esquiadores ainda ensaiavam umas descidas trôpegas. O cenário bonito da neve cobrindo os picos, com uns caóticos rasgões negros quebrando aqui e ali a uniformidade do branco, significava que os nossos planos tinham saído furados e não havia onde apresentar reclamação. Todas as plantas com que tínhamos combinado encontro estavam prisioneiras da neve, e nenhuma pôde comparecer. Como na lenga-lenga infantil, apetecia-nos implorar ao "sol que és tão forte" para derreter a neve e libertar as plantinhas. Mas a força do sol estava atenuada pelas nuvens carregadas de chuva que se interpunham entre ele e nós; e, mesmo que toda a neve se fosse, as plantas têm os seus vagares e nós não poderíamos ficar à espera.

Estas fotos de Maio de 2017 documentam dois dos reencontros que não tivemos em 2018. São duas espécies perenes de Androsace, uma com a floração bem adiantada e a outra acabando de abrir a primeira flor. A de flores cor-de-rosa, A. cantabrica, desautorizava a Flora Iberica (F.I.) de forma escandalosa, uma vez que essa douta publicação só lhe permitia florir a partir de Julho. A A. vitaliana, de flores amarelas, desobedecia no sentido oposto, pois a F.I. dava-lhe licença para florir já a partir de Abril.

Da família das prímulas, com numerosas flores pequeninas (3 a 4 mm de diâmetro) formando almofadinhas de um colorido atraente, as Androsace vivem em ambientes rupestres nas altas montanhas da Europa e da Ásia. Os Himalaias albergam o maior número de espécies, mas a Península Ibérica, com 15 espécies, várias delas endémicas, não tem razão de queixa. Uma das endémicas é a Androsace cantabrica, que está confinada às montanhas entre as províncias de Cantábria e Palência (Pico Três Mares e uns poucos cumes adjacentes). Verdade que, sem uma contagem de cromossomas ou a verificação (nem sempre conclusiva) de alguns miúdos detalhes, a A. cantabrica distingue-se mal de espécies próximas como a A. halleri. De modo que o leitor talvez não precise das quinze espécies ibéricas para inaugurar o seu rock garden: poderá conseguir o mesmo efeito com apenas umas sete ou oito.


Androsace vitaliana (L.) Lapeyr.

04/06/2018

Ouro branco

Ainda que, depois do Verão muito seco e dramático no ano passado, muitos tenham passado a apreciar mais a chuva, não deixa de ser um mistério que haja plantas terrestres que espontaneamente colonizem meios aquáticos. É que a sobrevivência em habitats palustres exige cuidados que podem ser ignorados em terra: é essencial que as folhas se mantenham a flutuar, para o que faz falta uma estrutura celular esburacada como a da cortiça, ou algum tipo de bóia; é imprescindível que as hastes florais sobressaiam na água para atrair os polinizadores sem os colocar em risco de se afogarem; os frutos têm de se dispersar na água sem apodrecer com a humidade excessiva; a planta tem de aprender a retirar nutrientes da água, uma sopa demasiado diluída; e há que saber aproveitar as interacções que o ambiente novo proporciona. Uma lista idêntica, a que se deve juntar a capacidade de hibernar debaixo de neve por largos meses, aplica-se às plantas vivazes que se adaptam a locais com invernos inclementes. Certo é que, depois de milhões de anos aflitos em ensaios e ajustes, com os pés molhados ou sob frio intenso, o planeta ganha novas espécies, e nós podemos hoje maravilhar-nos com as soluções engenhosas descobertas por elas neste processo.

A família Ranunculaceae, de que o género Ranunculus é o mais numeroso, é exemplar nesta adaptação a novos habitats, merecendo o prémio de uma distribuição invejável. Em Portugal, ocorrem espécies de berma de estrada, de turfeiras, de solos arenosos, de rochas expostas ao sol, de prados húmidos na montanha, de lagoas e charcos. Mas não há registo da espécie que está hoje na montra.


Ranunculus amplexicaulis L.


Com as informações genéticas a que os botânicos têm actualmente acesso, é possível identificar as alterações nos genes que acompanharam a transição do meio terrrestre para o aquático, ou do litoral para regiões acima dos mil metros. Curiosamente, no caso dos ranúnculos, essas mudanças não correspondem a alterações radicais nas flores. Estas são sempre do mesmo formato achatado, com pétalas ovadas amarelas brilhantes, ou brancas com um centro amarelo vistoso, por vezes raiadas por uns tons rosados. Mas a morfologia das folhas é bastante variada, o que até nem supreende: enquanto que a uma planta aquática interessam folhas fininhas, leves e muito recortadas, a uma espécie perene de montanha servem melhor folhas robustas, inteiras, penugentas e coriáceas.

O Ranunculus amplexicaulis, um quase endemismo ibérico de zonas montanhosas acima dos 1300 metros, tem folhas generosas que abraçam o caule e a haste floral para os agasalhar entre Maio e o início do Verão. A flor é por vezes solitária mas vistosa, com o centro amarelo protegido por alguma penugem. Vimos estes exemplares no Pico Tres Mares, na Cantábria, durante a primeira semana de Maio do ano passado. Neste início de Junho, o Pico tem ainda estradas cortadas pela neve, a maioria das plantas ainda não floriu, e poucos polinizadores estão ao serviço. Quem sabe, é apenas um atraso ocasional, como quando nos deixamos ficar mais meia hora no quentinho dos lençóis por sabermos do frio lá fora.