14/06/2020

Trevo do inferno



Lotus eriophthalmus Webb [= Dorycnium eriophthalmum (Webb) Webb & Berthel.]


Esbarrar na parede é muitas vezes a sina de quem procura explicação para os nomes das plantas. Vejamos o Dorycnium: ensina a Flora Iberica que o nome vem, por via latina, do grego Dorýknion, e terá sido dado na antiguidade a um pequeno arbusto de folhas prateadas a que hoje chamamos Convolvulus cneorum, e também, sem qualquer semelhança ou relação com este, à peçonhenta figueira-do-inferno (Datura stramonium). Estes dois exemplos bastam para comprovar que o termo em si é desprovido de significado, podendo ajustar-se, como um pronto-a-vestir versátil, a qualquer planta que careça de nome. O francês Tournefort (1656–1708), antecessor de Lineu, chamou Dorycnium a um género de plantas leguminosas, e o inglês Philip Miller (1691-1771), outro dos pioneiros da moderna taxonomia, acolheu a sugestão, umas décadas mais tarde, no seu The Gardeners Dictionary. Curiosamente, o nome foi também usado por Lineu, mas como epíteto específico: Lotus dorycnium foi como ele chamou ao Dorycnium pentaphyllum. De facto, muitas das espécies posteriormente conhecidas como Dorycnium (incluindo as três que são espontâneas em Portugal) foram por Lineu incluídas no género Lotus.

Os Lotus costumam ser herbáceas mais ou menos rasteiras, enquanto que os Dorycnium atingem porte arbustivo e têm geralmente caules lenhosos. Mas a flora da Madeira e das Canárias ensina-nos que bastam uns poucos milénios de evolução para que se dê o salto entre o pequeno e o grande, e entre o herbáceo e o lenhoso. Se ignorarmos o tamanho e atendermos à morfologia das folhas e das flores, a diferença entre Dorycnium e Lotus não é muito convincente. Pior ainda: a variação dentro do género Dorycnium é de tal ordem que certas espécies assemelham-se mais a alguns Lotus do que às suas supostas congéneres.

Chegados ao século XXI, os estudos moleculares vieram dar razão a Lineu, com vários artigos a sustentar que o género Dorycnium deveria ser absorvido pelo género Lotus. A maioria das espécies transferidas foi integrar uma mesma secção do género Lotus, apropriadamente chamada Dorycnium, mas entre as que ficaram noutras secções estão as três que são endémicas das ilhas Canárias. Isso significa que essas espécies (incluindo a das fotos) estão evolutivamente mais próximas de alguns Lotus convencionais (como o L. creticus e o L. azoricus) do que das suas ex-congéneres europeias (como o D. pentaphyllum). Assim, mesmo que houvesse razões para manter Dorycnium como género indpendente, as espécies das Canárias teriam que ser arrumadas noutra gaveta.

Os três “Dorycnium” canários são arbustos que podem alcançar os dois metros de altura, todos muito semelhantes, distinguindo-se pela coloração das flores e pela pilosidade (ou ausência dela) nos cálices. O “Dorycniumeriophthalmum, que ocorre em cinco ilhas (El Hierro, La Palma, Grã-Canária, Tenerife e La Gomera), é, ainda que escasso, o mais comum dos três; fotografámo-lo no Barranco do Inferno, em Tenerife. Os outros são Dorycniumspectabile, de flores rosadas, endémico de Tenerife, e Dorycniumbroussonetii, com flores de cor creme como as do D. eriophthalmum mas de cálice hirsuto, que é endémico de Tenerife e da Grã-Canária; ambos estão em perigo de extinção.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

31/05/2020

Bombardeira ou maçã-de-Sodoma


Calotropis procera (Aiton) W. T. Aiton


Por qualquer bitola que se use, a Calotropis procera é uma planta bem sucedida: as flores, que surgem durante quase todo o ano, parecem de cera e têm uma coloração atraente, convencendo não poucos admiradores a cultivá-la nos seus jardins; os frutos estão recheados de uma fibra plumosa que, à semelhança da sumaúma, pode usar-se para encher almofadas; em tempo de guerra, o látex exumado pelo caule fornece veneno para derrotar inimigos. A somar a estas qualidades, é uma planta que sabe cuidar de si, tendo feito a melhor aposta para acautelar o futuro: própria de zonas áridas ou semi-áridas, com exigências ecológicas mínimas, não são a falta de chuva ou a expansão dos desertos que poderão apoquentá-la. A sua área de distribuição, que já era vasta, estendendo-se da África tropical à Índia, tem-se alargado exponencialmente com a sua chegada à América e à Austrália.

Organismos com essa capacidade para ampliar o seu território, sejam eles plantas ou bichos, não costumam ser bem vistos. São invasores que tiram espaço às espécies nativas, alterando os habitats de forma às vezes irreversível. É esse o efeito da bombardeira (nome para a Calotropis procera no Brasil) na caatinga do Nordeste brasileiro, um ecossistema já muito diminuído e adulterado por desmatações, queimadas e, mais recentemente, por grandes obras públicas como a construção dos canais de transvase do rio São Francisco. A capacidade de que a planta dá provas para colonizar áreas degradadas é assombrosa: numa faixa de desmatação de dezenas de quilómetros de comprimento por cem a duzentos metros de largura, aberta para fazer passar um dos canais de transvase e depois abandonada, estimou-se, em artigo datado de 2013, uma média de 12 exemplares da planta por cada quadrado de 5 metros de lado, incluindo 8 já adultas (produzindo flores e frutos). No mínimo, isso dá um milhão de exemplares. E o domínio da bombardeira era absoluto: nas parcelas de amostragem só foram detectadas três outras espécies de plantas, cada uma delas com apenas um exemplar. De facto, a bombardeira possui mecanismos eficazes para inibir o crescimento de outras plantas e assim formar povoamentos mono-específicos. Essa mesma capacidade (a que os biólogos chamam alelopatia) é exuberantemente demonstrada em Portugal pela mimosa (Acacia dealbata) nos terrenos por ela invadidos.

Esclareça-se que as nossas fotos foram tiradas na Grã-Canária, onde a Calotropis procera, talvez por aí se encontrar tão perto da sua área de distribuição natural (que inclui Marrocos, Argélia e Egipto), tem um comportamento incomparavelmente mais comedido, que de modo nenhum se pode qualificar de invasor (é possível que em Fuertventura, a mais árida das ilhas Canárias, a história seja outra). Só encontrámos exemplares isolados, e apenas em dois ou três locais. Devemos até reconhecer que ficámos contentes com o encontro, porque a achámos bonita e nunca a tínhamos visto. Francisco Clamote, que a viu e fotografou na Índia, fala-nos aqui sobre ela.

26/05/2020

Sinos da neve

Numa visita à estância de esqui de Lunada, na Cantábria, no fim de Maio de 2018, tivemos oportunidade de ver plantas que se apressam a florir logo que a neve começa a derreter. São, em geral, herbáceas perenes, de pequeno porte, com folhas espessas de formato arredondado para captarem toda a luz disponível, e com pé longo para não ficarem rentes ao solo onde correriam o risco de se estragarem com o excesso de humidade. Esperam ter as flores fáceis de localizar, no que ajuda ter uma haste floral erecta e alta, e estar prontas para atrair a também recém-nascida, e decerto esfomeada, geração de polinizadores que ainda aprende a interpretar o mundo. Apesar de os dias já serem um pouco mais quentes no fim da Primavera, nesse ano havia ainda muita neve a uns 1350 m de altitude, e eram poucas as horas do dia sem nuvens a ensombrá-las. É talvez difícil detectar flores nestas condições, sobretudo se elas forem minúsculas e pouco coloridas. Mas as da Soldanella (cujas hastes não excedem os 12 cm de altura) jogam pelo seguro: são vistosas pela cor e pelo formato das pétalas.


Soldanella alpina L.
Todos nós conhecemos outras espécies com pétalas fimbriadas, ou corolas com franja,  embora só recentemente nos tenhamos questionado sobre o eventual benefício de florir com tais enfeites. Não demorámos, porém, a descobrir que já houve botânicos a investigarem esta questão. Num estudo a propósito das flores do género Trichosanthes (da mesma família que produz as abóboras, as melancias, os melões ou os pepinos), os autores propõem algumas respostas. Conjecturaram que este formato das flores estaria relacionado com a acção dos polinizadores, embora a origem e função da subdivisão das pétalas pudesse variar com as espécies. Compararam então espécies do mesmo género, umas com flores fimbriadas e outras não, de várias regiões com habitats distintos, e concluíram que os polinizadores noctívagos são especialmente atraídos para flores com orlas franjadas. O recorte das pétalas decerto aumenta o contraste entre as suas margens e a escuridão envolvente, e a área (ou a impressão dela) exposta ao polinizador. Quando este perfil se combina com uma tonalidade adequada, um aroma sedutor e o ondear das tirinhas ao vento, a visibilidade da flor e o sucesso da polinização estão garantidos. Talvez a confirmar a conjectura, a adaptação a polinizadores diurnos em algumas espécies levou à perda do carácter fimbriado das corolas.

O género Soldanella abriga umas 10 espécies cuja distribuição se restringe às montanhas da Europa. Em todas elas, as flores têm um hábito pendente, mais ainda se chove, protegendo desse modo o interior da flor. Pode ver aqui os frutos da S. alpina, e ainda imagens de mais três espécies.

16/05/2020

Tomateiro nocturno


Solanum vespertilio subsp. doramae Marrero Rodr. & Gonzalez-Martin



Os frutos deste arbusto espinhento, que terá cerca de dois metros de altura, são pequenos tomates lustrosos, com uns dois centímetros de diâmetro, que, quando maduros, ganharão uma cor entre o vermelho e o laranja. Embora tais frutos não sejam verdadeiros tomates, e até é provável que sejam tóxicos e impróprios para consumo humano, a semelhança é indesmentível. Além do mais, o tomateiro genuíno pertence ao mesmo género botânico, Solanum, em que este endemismo das ilhas Canárias se inclui. Para lembrar que também no reino vegetal há famílias e relações de parentesco, não fica mal chamar tomateiro a todas as plantas do género Solanum, desde que não interpretemos tal liberdade como um convite para levar tudo à boca. À família Solanaceae, convém recordá-lo, pertencem algumas das plantas mais venenosas do planeta, como a Atropa belladona. E mesmo a erva-moira ou tomateiro-negro (Solanum nigrum), herbácea ruderal muito comum no nosso país, é capaz de provocar fortes dores de barriga a quem lhe comer os frutos.

O carácter nocturno do Solanum vespertilio é atestado pelo epíteto, que significa morcego em latim. Se nos valermos do cliché poético que associa a noite à morte, este tomateiro é também nocturno no sentido de ter estado no limiar da extinção. Ocorrendo apenas em Tenerife e na Grã-Canária, e extremamente raro em ambas, pequenas diferenças morfológicas levaram a que se distinguissem duas subespécies, cada qual em sua ilha. A subespécie doramae, da Grã-Canária (nas fotos), estava reduzida, em 2009, a uma única população natural, composta por apenas três exemplares adultos e sem sinais de estabelecimento de plantas jovens. Confinada a um pequeno nicho no barranco de Azuaje, no norte da ilha, a quase extinção da planta ter-se-á devido à herbivoria, hoje controlada, e à expansão da vegetação exótica. Embora este tomateiro floresça e frutifique normalmente, produzindo sementes viáveis, o habitat em que se havia refugiado apresentava-se degradado e era-lhe pouco favorável.

Em 2009, o Governo das Canárias deu início a um programa de recuperação da espécie que envolveu restauração do habitat, que agora é área de protecção total com acesso condicionado, e reprodução por sementes, em viveiro, para posterior reintrodução na natureza. Este socorro in extremis terá dado bons resultados, pois uma das novas populações então criadas, na reserva natural de Los Tilos de Moya, está hoje firmemente estabelecida. A reserva, de acesso livro para visitantes, alberga uma das últimas amostras de laurissilva da ilha, e num curto percurso circular pode apreciar-se, à sombra dos "tilos" (= Ocotea foetens; em português til, plural tiles), uma boa amostra da flora das Canárias, incluindo as orquídeas Gennaria diphylla e Habenaria tridactylites. O Solanum vespertillo aparece na encosta mais soalheira, quando as lauráceas dão lugar a um mato xerófilo de urzes e tabaibas, entremeadas com muitas serralhas gigantes (Sonchus sp.), romaninhos (Lavandula sp.) e suculentas arbustivas do género Aeonium. Proliferam também, infelizmente, invasoras como Oxalis pes-caprae e Ageratina adenophora.

Ainda que a sua silhueta não seja um modelo de elegância, o Solanum vespertilio dá flores de fazer inveja às mais finas plantas de jardim. São flores grandes, de um bonito contraste entre o amarelo dos estames e o lilás das pétalas, sendo estas bordejadas por um friso ondulado que se diria cerzido por mão de costureira, coisa que não se vê em nenhuma outra espécie do género.

10/05/2020

Dama fina & companhia

Crê-se que o povoamento vegetal das ilhas Canárias seja quase tão antigo quanto a sua formação geológica. As plantas mais exigentes tardaram a instalar-se por não haver, de início, solo estável e propício. No decurso de centenas de milhares de anos, porém, grande parte da flora continental passou a ter representantes insulares. As espécies recém-chegadas encontraram nas ilhas um habitat sem competição, embora inóspito, e um clima ameno e sem grandes variações que lhes permitiu crescer ao longo de todo o ano e ter períodos de floração alongados. Talvez por isso, são várias as espécies herbáceas do continente que têm versões arbustivas nas Canárias. Além disso, a diversidade ecológica, sobretudo nas ilhas com estratos de maior altitude, permitiu que muitas plantas, de espécies entretanto extintas noutras regiões do norte de África, da região mediterrânica e do centro da Europa, ali se mantivessem, em zonas áridas, em matos ou em bosques de laurissilva.



Algumas das espécies pouco variaram desde a sua chegada às Canárias. Colonizaram locais vastos, isolados e livres de concorrência, e actualmente os géneros correspondentes contam com um número reduzido de espécies -- como aconteceu com o género Ceropegia. Outros, porém, evoluiram para se adaptarem aos nichos disponíveis, e a selecção natural induziu a criação de variantes cada vez mais diferenciadas e eficazes a sobreviver. É o caso das dezenas de espécies endémicas nas Canárias dos géneros Aeonium, Echium e Sideritis.

O leitor atento decerto associará estes meios de disseminação de plantas a outros seres vivos do planeta, incluindo vírus. Estes, enquanto conseguem propagar-se sem esforço, mantêm o essencial das suas características genéticas pois não há razão para mudar o que é bem sucedido. Mas quando os hospedeiros rareiam, a forte pressão selectiva dá vantagem a estirpes mais agressivas, ou então o vírus desaparece. É neste cenário de incerteza que assenta a estratégia de confinamento que nos tem sido imposta.


Parolinia filifolia G. Kunkel


As plantas que hoje vos mostramos, ambas de um género endémico das Canárias de que apenas se conhecem sete espécies, têm uma morfologia invulgar na família Brassicaceae, a que pertencem couves, nabos e goivos, mas que em Portugal só contém herbáceas. As duas espécies de Parolinia, uma (em cima) que vimos no Barranco de Siberio, na metade oeste da Grã-Canaria, e outra (em baixo) no Barranco de Guaydeque, a leste, são arbustos ramificados, lenhosos, de talos acinzentados por causa do revestimento com pêlos estrelados, folhas carnudas mas estreitas, e flores de pétalas com margens onduladas. Distinguem-se bem pelos frutos, que em Dezembro ainda não se viam -- umas vagens longas com meia dúzia de sementes e enfeitadas por dois apêndices terminais. Na Grã-Canaria há mais duas espécies endémicas do género Parolinia, a P. ornata no sudoeste da ilha, e a P. glabriuscula, que é glabra e de que só há registo no noroeste da ilha. Este género abriga ainda a P. intermedia, endemismo do sudoeste de Tenerife; a P. schizogynoides, endemismo de La Gomera; e a raríssima P. aridanae, de matos xerófilos de suculentas em La Palma, que planeávamos conhecer este ano em Maio.


Parolinia platypetala G. Kunkel

01/05/2020

Goivo das alturas



Erysimum scoparium (Brouss. ex Willd.) Wettst.


O pico do Teide, visto à distância, aparenta ser um deserto pedregoso; mas, como já aqui explicámos a propósito da violeta, do taginaste vermelho e de outras coisas mais, essa impressão é desmentida por plantas de vocação alpina que vão pintalgando as encostas de cores variadas. À lista acrescentamos hoje uma crucífera a que podemos chamar goivo-do-Teide, já que goivo é o nome habitualmente dado às espécies do género Erysimum.

A Macaronésia está moderamente bem servida no que a goivos diz respeito, com três dos quatro arquipélagos (só os Açores ficam de fora) detendo cada um deles a sua quota-parte de espécies endémicas de Erysimum. Há duas no arquipélago da Madeira (E. arbuscula no Porto Santo e E. maderense na ilha da Madeira), duas nas Canárias (E. scoparium, presente em Tenerife e La Palma, e E. albescens, na Grã-Canária), uma que ocorre nesses dois arquipélagos (E. bicolor, abaixo retratado), e finalmente uma em Cabo Verde (E. caboverdeanum, na ilha do Fogo).

Com a autoridade de quem já apreciou a maioria destes goivos no seu habitat, achamo-nos capazes de sobre eles emitir juízos de valor mais ou menos taxativos. A medalha de ouro de mérito ornamental continua bem entregue ao porto-santense E. arbuscula, mas a medalha de prata vai, com inteira justiça, para o tenerifenho E. scoparium, que combina uma folhagem glauca e sedosa com hastes erectas floridas de branco e lilás. O terceiro lugar do pódio mantém-se em disputa, não sendo de excluir atribuí-lo ao E. bicolor, que no auge da floração faz melhor figura do que aquela que deixam supor as imagens aí em baixo (obtidas em Dezembro na Grã-Canária).

Tanto no goivo-do-Teide como no goivo-da-serra (nome dado na Madeira ao E. bicolor) as flores nascem brancas e vão gradualmente mudando para lilás. Desabrocham à medida que a haste se desenvolve, fazendo com que em cima estejam sempre as flores brancas. O goivo-da-serra tem contudo um aspecto mais difuso, mais ramificado, com hastes menos erectas e inflorescência mais lassa. A folhagem é verde (não glauca), pouco ou nada tomentosa, e as folhas, além de mais largas e compridas, têm as margens esparsamente dentadas.

O porte elegante do goivo-do-Teide é ainda reforçado por ter como cenário de fundo o pico mais alto do Atlântico. Porque é ao longe que a montanha melhor se vê, não lhe faz falta subir ao cume, 3700 metros acima do nível do mar. Florir a 2700 metros de altitude, como nós o vimos no topo da Montanha Branca, já é um feito invejável.


Erysimum bicolor (Hornem.) DC.

25/04/2020

Rainha do monte verde

Em algumas obras de literatura é possível reconhecer as pessoas reais que inspiraram as personagens, ainda que os grandes romancistas fabriquem criaturas de complexidade, e relevância para a nossa memória, que em geral superam as figuras que lhes servem de modelo. Foi assim em Alice's adventures in wonderland, de Lewis Carroll, em que a Alice da narrativa parece muito mais graciosa, criativa, bem-falante e bafejada pela sorte do que a pálida Alice real. E é também o caso das histórias que são autobiografias ficcionadas, em que o escritor é a verdadeira fonte do relato, como em A escola do paraíso, de José Rodrigues Miguéis, Ernestina, de J. Rentes de Carvalho, ou Nó cego, de Carlos Vale Ferraz. E, a propósito, decerto o leitor sabe a quem aludia a frase "E diz o inteligente que acabaram as canções", de um poema de Ary dos Santos musicado antes do 25 de Abril. A planta que vos mostramos hoje pareceu-nos, quando a encontrámos na laurissilva de Anaga, em Tenerife, uma versão ficcionada das herbáceas do género Blackstonia.


Ixanthus viscosus (Sm.) Griseb.


Altaneira, de flores exageradamente grandes (como as da B. grandiflora) agrupadas em inflorescências terminais que parecem enxertadas no caule de outra planta, exibia brácteas soldadas duas a duas a abraçar o caule como é característico das Blackstonias. Seria uma caricatura perfeita destas não fossem as folhas de genciana, que sugeriam ser outro o género em causa, embora da mesma família botânica.

O género Ixanthus é endémico do arquipélago das Canárias e mono-específico: a única espécie conhecida é I. viscosus, que ocorre também na Grã-Canária, La Gomera, El Hierro e La Palma. Trata-se de uma herbácea perene, de base algo lenhosa, com cerca de 1 metro de altura e folhas muito pegajosas; e que, dizem, é conhecida como reina del monte. O monte a que aqui se alude é em geral denso, húmido e sombrio, por isso com menor competição entre herbáceas, mas ideal para plantas exclusivas destas ilhas como a Canarina canariensis, o Geranium reuteri, o Isoplexis canariensis e este Ixanthus de fantasia.

17/04/2020

Salsichas verdes



Euphorbia aphylla Brouss. ex Willd.


No aspecto geral, a Euphorbia aphylla, endémica de Tenerife, Grã-Canária e La Gomera, é um compromisso pela negativa entre as tabaibas (como a E. balsamifera e a E. atropupurea), que não têm espinhos, e os cardónes (E. canariensis), que não têm folhas. Sem espinhos nem folhas, é formada apenas pela ramagem verde, uma frágil construção de peças cilíndricas, lembrando salsichas, pacientemente articuladas. Na ponta dos raminhos jovens, mais curtos, surgem de Março a Julho as inflorescências sésseis, de um amarelo esverdeado, que pouco sobressaem do conjunto. É um arbusto delicado e rasteiro, de não mais que 80 cm de altura, adaptado a ambientes áridos, que vive em zonas rochosas perto do mar. Em Tenerife aparece sobretudo na zona do Teno, no noroeste da ilha; e na Grã-Canária é por vezes abundante ao longo das costa norte.

A Euphorbia aphylla não surgiu de geração espontânea, e espalhadas pelo continente africano há numerosas outras espécies que se lhe assemelham. Em períodos de estiagem, quase todas elas praticam um tipo de metabolismo, primeiramente identificado na família Crassulaceae, em que a planta limita as perdas de humidade fechando os estómatos durante o dia. De entre essas espécies, a Euphorbia tirucalli, abaixo ilustrada, é a que tem a distribuição mais ampla, abrangendo toda a África oriental desde a Etiópa até à África do Sul. Introduzida a amplamente cultivada na Ásia tropical e na América do Sul, é conhecida no Brasil como avelós.

Em contraste com a Euphorbia aphylla, a E. tirucalli é uma árvore que logra alcançar os sete ou oito metros de altura. Dotada de crescimento rápido, só num estádio prematuro de desenvolvimento se pode confundir com a sua irmã canarina. Às vezes o seu crescimento é tão exuberante que o tronco acaba por soçobrar ao peso da copa, e a queda de ramos é frequente. Daí que quem a cultive seja tentado a podá-la assiduamente, operação que exige as maiores cautelas, já que o látex, perigosamente cáustico, é exsudado à mais pequena lesão.

A Euphorbia aphylla, fazendo jus ao epíteto, é totalmente incapaz de produzir folhas, mas a E. tirucalli ainda vai fazendo uns ensaios tímidos e prontamente abortados. De um desses ensaios dá testemunho a última foto aí em baixo (tirada, como as outras duas, num jardim da ilha do Porto Santo): as folhas são esses apêndices vermelhos que parecem orelhas; caem sem que ninguém as puxe, e sem que se perceba que utilidade tiveram.


Euphorbia tirucalli L.