25/07/2020

Amarelo boreal

Na nossa última visita aos Pirenéus, em Agosto de 2019, agendámos um dia para passear no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com intenção de conhecer, em particular, o edelweiss (Leontopodium alpinum, planta que inspirou a canção homónima do filme The Sound of Music). Permitindo um número limitado de visitantes por dia, era preciso comprar previamente um bilhete e disputar depois lugar num autocarro oficial, único veículo autorizado a circular nos meses de Verão na estrada até ao vale de Ordesa. Às 7 horas da manhã, já a fila para estes demorados preliminares era longa e desencorajadora. Desistimos para não perder o dia na espera, e seguimos para a aldeia de Chisagüés, em direcção à fonte de Petramula. De novo, as medidas de conservação deste espaço natural exigiam o pagamento de uma entrada (comprada na vila de Bielsa), mas desta vez poderíamos circular no nosso carro, desde que ele tivesse tracção às quatro rodas porque a estrada era de piso acidentado, íngreme, estreita e sem protecções laterais. Informados previamente desta exigência, seguimos por vários quilómetros num todo-o-terreno, envoltos em pó mas seguros, quase sem companhia de outros veículos.



Em pleno Verão, a floração de quase todas as plantas deste lugar, que vivem meio ano cobertas de neve, já tinha terminado. Mas acima dos 2000 metros ainda havia flores.


Saxifraga aizoides L.




Todas as saxífragas de que há registo em território nacional dão flores brancas, ainda que algumas das espécies apresentem as cinco pétalas pintalgadas de amarelo ou rosa. Mas em Espanha, e nas regiões mais frias da Europa, ocorrem espécies de Saxifraga com corolas de outras cores. A espécie que hoje vos mostramos é perene, cespitosa, de folhagem densa e marcescente (não se desprende da planta mesmo depois de seca, servindo-lhe certamente de agasalho). Em geral de baixa estatura (cerca de 15 cm), floresce em corimbos de tom amarelo, laranja ou púrpura, por vezes com as pétalas pintalgadas. Curiosamente, as outras partes da flor parecem sintonizadas com a corola: pétalas mais escuras são acompanhadas por um cálice em tom verde mais intenso, e por estames e carpelos também escurecidos. Dir-se-ía que as flores têm dez pétalas, mas só possuem cinco do mesmo tamanho das sépalas. No centro de cada flor, pode notar-se (na 5.ª foto, ali onde está a formiga) um apetitoso anel com néctar a rodear a base da coluna de carpelos. As cápsulas com numerosas sementes abrem quando a neve regressa, ligeiramente e só num dos topos, para garantir (dizem os especialistas) que a libertação de sementes só se faça quando haja algum vento e uma superfície escorregadia de neve, aumentando assim a distância a que as sementes são dispersadas.

A Saxifraga aizoides forma tapetes em taludes bem irrigados, em margens de arroios ou fissuras de rochas, e é abundante em solos calcários nas montanhas mais altas da Europa. O epíteto aizoides indica que Lineu, em 1753, encontrou parecenças entre esta planta e as do género Aizoon.

19/07/2020

Bandeiras brancas


Thalictrum tuberosum L.


No final de Maio, as bermas de estradas na Cantábria enchem-se de flores brancas em hastes longilíneas que se agitam ao menor sopro de vento. São bandeiras que nos intimam a parar e às quais obedecemos de bom grado. A morfologia das flores, lembrando a das anémonas e das clematites, situa claramente a planta na família Ranunculaceae, mas é com alguma surpresa que, inspeccionando-lhe as folhas tripinadas, concluímos que ela pertence ao género Thalictrum. Uma consulta rápida aos manuais desvenda-lhe a identidade: Thalictrum tuberosum.

Em Portugal estão assinaladas como espontâneas duas espécies de Thalictrum, mas só uma delas, T. speciosissimum, é vista com regularidade. A semelhança das suas folhas com as do T. tuberosum é flagrante, mas as flores parecem ser de outro planeta. À primeira vista, dir-se-ia que as flores do T. tuberosum têm todas as componentes tradicionais (pétalas, estames, carpelos...), enquanto que as inflorescências do T. speciosissimum são nuvens de algodão-doce que, vistas mais de perto, parecem ser compostas apenas por uma confusão de estames.

Nenhuma destas impressões está correcta. As flores brancas que vicejam aí em cima não têm pétalas, mas sim sépalas, que em flores mais convencionais costumam ser verdes e constituir o cálice. E as mesmas peças que formam estas flores reaparecem no T. speciosissimum, que contudo tem sépalas e carpelos de muito menor tamanho, ocultos pela exuberância dos estames.

Embora partindo das mesmas componentes básicas, arquitecturas florais tão distintas sugerem que a polinização não se processa do mesmo modo nas duas espécies. As sépalas petalóides do T. tuberosum cumprem a óbvia função de atrair polinizadores, mas o T. speciosissimum, que quase reduziu as sépalas à invisiblidade, não parece interessado em jogos de sedução. Será que o segundo dispensa os serviços dos insectos e confia a polinização ao vento?

A grande variabilidade das flores dentro do género Thalictrum torna esse género ideal para estudar as adaptações às diferentes formas de polinização. Um estudo comparativo, publicado em 2018, de 81 espécies americanas, europeias e asiáticas concluiu que 36 delas são predominantemente anemófilas (polinizadas pelo vento) e as restantes entomófilas (polinizadas por insectos), havendo algumas (poucas) espécies que recorrem a ambos os tipos de polinização. Sem grande surpresa, as do segundo grupo têm floração bastante mais vistosa que as do primeiro. Além do mais, as espécies anemófilas são amiúde dióicas (com flores masculinas e femininas em indivíduos separados), fenómeno esse não reportado em espécies entomófilas.

O T. speciosissimum, exclusivo da Península Ibérica, não foi incluído no estudo, mas presume-se que tenha comportamento igual ao do T. flavum, que é a sua versão no resto da Europa. Ao contrário do que fomos levados a supor, essas espécies parecem ser sobretudo polinizadas por insectos. Contudo, os autores do artigo colocam o T. flavum numa clade evolutiva onde a maioria das espécies (sete em dez) são polinizadas pelo vento, e em que o antepassado comum mais próximo terá tido essa mesma característica. Ou seja, o T. flavum recuperou a faculdade de ser polinizado por insectos que tinha sido perdida por um seu antepassado. Acreditando que a anemofilia é mais "avançada" do que a entomofilia, não é descabido falar de uma regressão evolutiva. (Quando uma característica ancestral perdida é recuperada, a expressão usada é reversão evolutiva, que em si mesma não contém qualquer juízo de valor sobre a maior ou menor "modernidade" dessa característica.)

De um modo geral, as espécies do género Thalictrum nada têm para oferecer aos insectos. Algumas espécies usam o perfume ou as sépalas vistosas para atrair esses obreiros voadores, mas as flores não produzem néctar e não há recompensa pelo trabalho feito. Se os insectos desaparecerem ou ficarem mais espertos, é ao vento que o futuro pertence.

11/07/2020

Malmequeres carecas



Toda a gente aprende desde criança a reconhecer a flor do malmequer, e dessa aprendizagem inicial deriva muita da ignorância botânica que nos acompanhará pela vida fora. São dois os erros na expressão flor do malmequer: aquilo que nos parece ser uma só flor é de facto um capítulo, ou seja, um aglomerado de minúsculas flores (ou florículos); e malmequeres há muitos e muito diversos, sendo às dezenas as espécies que em Portugal assim podem ser chamadas. Se abstrairmos do tipo de inflorescência, não há qualquer afinidade entre o acetinado e elegante Phalacrocarpum oppositifolium, que encontramos nas serras do norte e centro, e a rasteira Bellis perennis, que coloniza relvados urbanos. Como podemos achar que os conhecemos se, para nós, ambos forem apenas malmequeres?

Cada uma das "pétalas" que enfeitam os capítulos dos malmequeres é na verdade uma lígula, apêndice vistoso dos florículos que bordejam o disco floral e que desse modo se distinguem dos florículos tubulares centrais. As lígulas não servem senão para atrair insectos polinizadores; e, se outros engodos houver (olfactivos, por exemplo), a planta pode dispensá-las por completo. Um malmequer sem "pétalas" não é uma aberração, nem um sinal de que alguém, por maldoso desfastio, resolveu arrancá-las uma a uma. Aconteceu simplesmente que, no processo evolutivo que originou essa espécie, as lígulas a certa altura se perderam por não terem utilidade, tal como nós começámos a perder a cauda quando os primatas nossos antepassados desceram das árvores.

Um malmequer careca pode assim representar um estádio evolutivo mais avançado do que um malmequer convencional, embora para usos ornamentais possamos preferir o segundo. Mas na natureza nenhuma planta evoluiu com o fito de ser agradável aos nossos olhos ou de ficar bonita nos nossos jardins. Se bem que as santolinas, apesar de carecas, sejam muito favorecidas em jardinagem.


Santolina semidentata Hoffmanns. & Link


As santolinas são arbustos compactos, de um verde acinzentado e de folhas lineares mais ou menos carnudas, que na Primavera ou início do Verão fazem brotar inúmeras hastes esguias, cada uma delas encimada por um único capítulo. À sua popularidade em jardinagem não será alheia a antiga reputação medicinal e os possíveis usos em perfumaria. Em Portugal são reconhecidas três espécies espontâneas, todas de aspecto geral semelhante, distinguíveis por minudências da folhagem ou, mais preguiçosamente, pela distribuição geográfica. A que ocorre em Trás-os-Montes, nos afloramentos ultrabásicos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, é a Santolina semidentata (fotos em cima), endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica. Vimo-la, no início de um mês de Junho, a cobrir toda uma ladeira entre um pinhal e uma estrada, e daí ter-nos ficado a ideia de que a planta não é rara. De facto, o estudo de campo no âmbito do projecto da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF) concluiu que a espécie não está ameaçada e atribuiu-lhe o estatuto de pouco preocupante. É daquelas plantas felizes que aprenderam a conviver com o homem e conseguem instalar-se em habitats (moderadamente) degradados.

Na situação oposta está o segundo malmequer careca que hoje apresentamos: segundo a LVF, o Anthemis canescens (fotos em baixo) está "em perigo", significando isto que em Portugal tem vindo a desaparecer e é hoje em dia muito escasso. Apesar de ocorrer em Trás-os-Montes, na Beira Interior e na Estremadura, o efectivo populacional da espécie no nosso país dificilmente atinge a casa dos milhares. No único local onde a vimos, no limite norte do concelho de Bragança, apenas detectámos três exemplares, só um deles em floração.

Embora os capítulos e as hastes compridíssimas lembrem as santolinas, a folhagem do Anthemis canescens rapidamente desfaz a confusão: não há qualquer parecença entre as folhas compostas bipinadas que vemos na 2.º foto abaixo e as folhas simples de uma santolina (exemplo).

E a confusão nem teria chegado a existir se o Anthemis canescens nos tivesse aparecido na sua versão não careca. É que os capítulos tanto se podem apresentar com lígulas como sem elas, e noutros países europeus onde a planta ocorre (ela distribui-se pela Europa mediterrânica desde a Península Ibérica até ao Cáucaso) até é mais frequente a versão ligulada. Talvez a espécie esteja em processo de descartar as lígulas e, nesse aspecto, as plantas portuguesas estejam na vanguarda. Só que as vanguardas também se podem extinguir.


Anthemis canescens Brot.

05/07/2020

Correjola imperial

Reconhecer um objecto, ou uma imagem dele, é uma virtude que aprendemos cedo a dominar. Em criança, não hesitamos entre um gato ou um cão, ainda que ambos se possam inicialmente confundir na mente infantil com um triciclo. À medida que o mundo se agiganta e o cérebro de aprimora, a lista de objectos desconhecidos vai-se reduzindo. Conseguimos identificar a maioria instantaneamente, e até os substituimos por entradas num catálogo abstracto, um vocabulário, o que facilita o armazenamento na memória de toda essa informação. Descrito assim, parece fácil criar um algoritmo computacional que permita a uma máquina bem informada repetir este procedimento, segmentando a imagem para destacar elementos do fundo e reconhecer automaticamente o que nela é essencial. Mas não. Na busca de imagens nos motores de pesquisa da internet, o que em regra se procura é uma palavra, ou várias, no texto de apoio às imagens. O que parece batota. Ainda que alguns destes mecanismos consigam seleccionar imagens parecidas com outras, comparando por exemplo a gama de cores que exibem, decerto tais tentativas podem ingenuamente reunir aviões e pássaros numa mesma classe.



Este arrazoado vem a propósito do trabalho de investigação muito interessante que se tem vindo a desenvolver em matemática sobre reconhecimento de imagens, seja para conseguir ler pautas de música antigas e quase ilegíveis, seja para aperfeiçoar a focagem automática nas máquinas fotográficas, ou ainda para se identificarem plantas numa saída de campo. Não temos notícia de que um algoritmo de reconhecimento de plantas por imagens digitais esteja já em uso, mas seria realmente muito conveniente poder fotografar num prado uma planta em flor, e surgir de imediato no écran o nome científico dela. Na falta dessa ajuda, o que fazer? Vejamos um exemplo.



Telephium imperati L.


Nestas fotos estão imagens de uma planta que vimos em rochas calcárias na Cantábria. As flores redondas em cimeiras densas e a folhagem glauca e glabra, com talos de couve e hábito rastejante, lembram, em tamanho grande, as das espécies do género Corrigiola, não? Com este palpite, vamos a alguma Flora consultar a família deste género, que é a Caryophyllaceae, verificar se há alguma espécie parecida. Esta é uma tarefa de comparação que o cérebro humano faz em geral perfeitamente, e que em poucos minutos nos fornece o bilhete de identidade da planta fotografada:

Família: Caryophyllaceae
Subfamília: Paronychioideae
Tribo: Corrigioleae
Género: Telephium L.
Espécie: T. imperati L.

E ficamos a saber, através de um motor de pesquisa da internet buscando pela palavra Telephium, que é um género monoespecífico, e que a sua única espécie ocorre na região mediterrânica, na metade este da Península Ibérica e um pouco mais a leste. Uma nota adicional dá conta de que o nome actualmente aceite, proposto por Lineu em 1753, alude ao deus Telephus da mitologia grega, de quem se diz ter sido ferido por Aquiles na trágica história de Helena de Tróia, e depois curado por uma destas plantas.

27/06/2020

Muros de Villaescusa



Villaescusa de las Torres é uma aldeia de 22 habitantes, uma igreja e uma trintena de casas, situada na província de Palência, em Espanha, a três quilómetros da vila de Aguilar de Campoo. O rio Pisuerga, apesar do compasso de espera a que o obriga a albufeira de Aguilar, tem um caudal generoso à passagem pela vila e pela aldeia, criando uma serpenteante fita azul e verde que une a paisagem edificada às amplas extensões de campos cultivados. A uma altitude rondando os 900 metros, onde a neve cai quase todos os anos, não é lugar para refúgio do hipotético crocodilo que terá sido avistado, no início de Junho, uns 150 km a sul, na foz do Pisuerga em Valladolid. Por altura da nossa visita, há dois anos, ninguém suporia que este rio de margens tranquilas pudesse abrigar tão agressiva fauna exótica.

O planalto palentino, que faz a transição entre a monótona planura de Castela e a acidentada cordilheira cantábrica, é rasgado aqui e ali por afloramentos calcários de grandes dimensões. O próprio Pisuerga corre, em certos troços, apertado entre escarpadas paredes de rocha branca. Muros e casas de Villaescusa são feitos da mesma pedra, deixada ao natural ou caiada de branco ou bege. O calcário é a escolha de eleição para muitas plantas, garantindo uma diversidade florística muito superior à que é de regra noutros substratos. E, apesar de não faltarem em redor da aldeia habitats naturais em quantidade e qualidade, não são poucas as plantas que colonizam muros e telhados. Para aquelas que vivem nas bolsas de solo que se acumulam em fissuras de rochas, os muros tradicionais de pedra solta são até um habitat preferencial, por reproduzirem em versão concentrada as condições do habitat natural.



Saxifraga cuneata Willd.


Mais do que a Arenaria e o Alyssum, que só timidamente se aventuram em muros, é a Saxifraga cuneata que entre Maio e Junho enfeita com empenho as três ou quatro ruas de Villaescusa. Como o nome indica (Saxifraga significa partir pedra), estas plantas, de que há umas sessenta espécies só na Península Ibérica, sentem-se em casa em habitats pedregosos, algumas preferindo o calcário e outras o granito ou o xisto. Esta S. cuneata é irrepreensivelmente decorativa tanto nas folhas como na floração exuberante, mas talvez ao vê-la nos acometa uma impressão de déjà-vu. De facto, ela é quase igual à Saxifraga trifurcata, endémica das montanhas do norte de Espanha e também de peferências calcícolas. Não que seja problemático distingui-las: as folhas são claramente diferentes, mais recortadas as da S. trifurcata, que além do mais, ao contrário da S. cuneata, costuma apresentar hastes avermelhadas. Mas há um ar de família indisfarçável, e as duas saxífragas, juntamente com a S. portosanctana, formam uma tríade muito homogénea.

A Saxifraga cuneata vive na metade norte da Península Ibérica, com uma localização adicional em França perto da fronteira com Espanha. É especialmente frequente em Palência nos afloramentos calcários ao longo do curso superior do rio Pisuerga. Este ano o desconfinamento já vem tarde para quem queira admirar-lhe a floração.

20/06/2020

Ensaiões


Aeonium aureum (Hornem.) T. H. M. Mes [= Greenovia aurea (Hornem.) Webb & Berthel.]


It is a law of nature we overlook, that intellectual versatility is the compensation for change, danger and trouble. An animal perfectly in harmony with its environment is a perfect mechanism. Nature never appeals to intelligence until habit and instinct are useless. There is no intelligence where there is no change and no need of change.

H. G. Wells, The Time Machine, 1895


Aeonium spathulatum (Hornem.) Praeger

14/06/2020

Trevo do inferno



Lotus eriophthalmus Webb [= Dorycnium eriophthalmum (Webb) Webb & Berthel.]


Esbarrar na parede é muitas vezes a sina de quem procura explicação para os nomes das plantas. Vejamos o Dorycnium: ensina a Flora Iberica que o nome vem, por via latina, do grego Dorýknion, e terá sido dado na antiguidade a um pequeno arbusto de folhas prateadas a que hoje chamamos Convolvulus cneorum, e também, sem qualquer semelhança ou relação com este, à peçonhenta figueira-do-inferno (Datura stramonium). Estes dois exemplos bastam para comprovar que o termo em si é desprovido de significado, podendo ajustar-se, como um pronto-a-vestir versátil, a qualquer planta que careça de nome. O francês Tournefort (1656–1708), antecessor de Lineu, chamou Dorycnium a um género de plantas leguminosas, e o inglês Philip Miller (1691-1771), outro dos pioneiros da moderna taxonomia, acolheu a sugestão, umas décadas mais tarde, no seu The Gardeners Dictionary. Curiosamente, o nome foi também usado por Lineu, mas como epíteto específico: Lotus dorycnium foi como ele chamou ao Dorycnium pentaphyllum. De facto, muitas das espécies posteriormente conhecidas como Dorycnium (incluindo as três que são espontâneas em Portugal) foram por Lineu incluídas no género Lotus.

Os Lotus costumam ser herbáceas mais ou menos rasteiras, enquanto que os Dorycnium atingem porte arbustivo e têm geralmente caules lenhosos. Mas a flora da Madeira e das Canárias ensina-nos que bastam uns poucos milénios de evolução para que se dê o salto entre o pequeno e o grande, e entre o herbáceo e o lenhoso. Se ignorarmos o tamanho e atendermos à morfologia das folhas e das flores, a diferença entre Dorycnium e Lotus não é muito convincente. Pior ainda: a variação dentro do género Dorycnium é de tal ordem que certas espécies assemelham-se mais a alguns Lotus do que às suas supostas congéneres.

Chegados ao século XXI, os estudos moleculares vieram dar razão a Lineu, com vários artigos a sustentar que o género Dorycnium deveria ser absorvido pelo género Lotus. A maioria das espécies transferidas foi integrar uma mesma secção do género Lotus, apropriadamente chamada Dorycnium, mas entre as que ficaram noutras secções estão as três que são endémicas das ilhas Canárias. Isso significa que essas espécies (incluindo a das fotos) estão evolutivamente mais próximas de alguns Lotus convencionais (como o L. creticus e o L. azoricus) do que das suas ex-congéneres europeias (como o D. pentaphyllum). Assim, mesmo que houvesse razões para manter Dorycnium como género indpendente, as espécies das Canárias teriam que ser arrumadas noutra gaveta.

Os três “Dorycnium” canários são arbustos que podem alcançar os dois metros de altura, todos muito semelhantes, distinguindo-se pela coloração das flores e pela pilosidade (ou ausência dela) nos cálices. O “Dorycniumeriophthalmum, que ocorre em cinco ilhas (El Hierro, La Palma, Grã-Canária, Tenerife e La Gomera), é, ainda que escasso, o mais comum dos três; fotografámo-lo no Barranco do Inferno, em Tenerife. Os outros são Dorycniumspectabile, de flores rosadas, endémico de Tenerife, e Dorycniumbroussonetii, com flores de cor creme como as do D. eriophthalmum mas de cálice hirsuto, que é endémico de Tenerife e da Grã-Canária; ambos estão em perigo de extinção.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

31/05/2020

Bombardeira ou maçã-de-Sodoma


Calotropis procera (Aiton) W. T. Aiton


Por qualquer bitola que se use, a Calotropis procera é uma planta bem sucedida: as flores, que surgem durante quase todo o ano, parecem de cera e têm uma coloração atraente, convencendo não poucos admiradores a cultivá-la nos seus jardins; os frutos estão recheados de uma fibra plumosa que, à semelhança da sumaúma, pode usar-se para encher almofadas; em tempo de guerra, o látex exumado pelo caule fornece veneno para derrotar inimigos. A somar a estas qualidades, é uma planta que sabe cuidar de si, tendo feito a melhor aposta para acautelar o futuro: própria de zonas áridas ou semi-áridas, com exigências ecológicas mínimas, não são a falta de chuva ou a expansão dos desertos que poderão apoquentá-la. A sua área de distribuição, que já era vasta, estendendo-se da África tropical à Índia, tem-se alargado exponencialmente com a sua chegada à América e à Austrália.

Organismos com essa capacidade para ampliar o seu território, sejam eles plantas ou bichos, não costumam ser bem vistos. São invasores que tiram espaço às espécies nativas, alterando os habitats de forma às vezes irreversível. É esse o efeito da bombardeira (nome para a Calotropis procera no Brasil) na caatinga do Nordeste brasileiro, um ecossistema já muito diminuído e adulterado por desmatações, queimadas e, mais recentemente, por grandes obras públicas como a construção dos canais de transvase do rio São Francisco. A capacidade de que a planta dá provas para colonizar áreas degradadas é assombrosa: numa faixa de desmatação de dezenas de quilómetros de comprimento por cem a duzentos metros de largura, aberta para fazer passar um dos canais de transvase e depois abandonada, estimou-se, em artigo datado de 2013, uma média de 12 exemplares da planta por cada quadrado de 5 metros de lado, incluindo 8 já adultas (produzindo flores e frutos). No mínimo, isso dá um milhão de exemplares. E o domínio da bombardeira era absoluto: nas parcelas de amostragem só foram detectadas três outras espécies de plantas, cada uma delas com apenas um exemplar. De facto, a bombardeira possui mecanismos eficazes para inibir o crescimento de outras plantas e assim formar povoamentos mono-específicos. Essa mesma capacidade (a que os biólogos chamam alelopatia) é exuberantemente demonstrada em Portugal pela mimosa (Acacia dealbata) nos terrenos por ela invadidos.

Esclareça-se que as nossas fotos foram tiradas na Grã-Canária, onde a Calotropis procera, talvez por aí se encontrar tão perto da sua área de distribuição natural (que inclui Marrocos, Argélia e Egipto), tem um comportamento incomparavelmente mais comedido, que de modo nenhum se pode qualificar de invasor (é possível que em Fuertventura, a mais árida das ilhas Canárias, a história seja outra). Só encontrámos exemplares isolados, e apenas em dois ou três locais. Devemos até reconhecer que ficámos contentes com o encontro, porque a achámos bonita e nunca a tínhamos visto. Francisco Clamote, que a viu e fotografou na Índia, fala-nos aqui sobre ela.