31/01/2021

Hortelã dos pinhais

Agrupar espécies num mesmo género antes de dispormos de estudos genéticos deve ter sido tarefa complexa e nem sempre rigorosa. Limitando-se a interpretar detalhes da morfologia das folhas, caules ou flores, o erro era quase inevitável. Foi, todavia, assim que funcionou durante séculos a etiquetagem das plantas, nascendo géneros novos sempre que a comparação era inconclusiva ou os botânicos não se entendiam sobre a autoria dos táxons. A arrumação recente, mais bem fundamentada, confirma, porém, que fiar-se nas parecenças é um bom ponto de partida.

Bystropogon canariensis (L.) L'Hér.


O género Bystropogon é exclusivo das ilhas Canárias e da Madeira, com algumas características que fazem lembrar os géneros Origanum (do orégão) e Thymus (do tomilho). São arbustos pequenos, de talos com secção quadrada e folhas simples, perenes, pubescentes e aromáticas (cheiram a hortelã), geralmente ovadas e com margens crenadas. As flores são tubos minúsculos com quatro estames, lobados como é usual na família Lamiaceae, agrupadas em vistosas panículas ramificadas que lembram nuvens pequeninas de flores brancas, rosadas ou violáceas. Os exemplares das fotos, de B. canariensis, habitam em Tenerife, no extenso pinhal de Pinus canariensis que, entre os 1000 e os 2000 metros de altitude, envolve a estrada ligando San Cristóbal de La Laguna à montanha do Teide.

Pinus canariensis C. Sm. ex DC. — Boca del Valle, Tenerife
No total, há registo de cinco espécies endémicas de Bystropogon no arquipélago das Canárias (B. canariensis, B. origanifolius, B. odoratissimus, B. plumosus e B. wildpretii) e duas na ilha da Madeira (B. maderensis e B. punctatus). Distinguem-se pela penugem, pelos dentes nos cálices, pela coloração das corolas, pela textura mais ou menos coriácea das folhas e, sobretudo, pelas preferências de habitat: as espécies da Madeira, bastante raras, vivem em taludes rochosos com humidade, mais frequentes no interior sombrio da laurissilva; as das Canárias, pelo contrário, apreciam solos secos e boa exposição ao sol. A floração é mais ou menos simultânea, com as espécies das Canárias ligeiramente adiantadas, decerto para evitar o calor excessivo do Verão.

O termo L'Hér. é a abreviatura padrão usada para indicar o botânico francês Charles Louis L'Héritier (1746 – 1800), a quem se deve a primeira distinção clara entre os géneros Geranium, Pelargonium e Erodium.

25/01/2021

Pendulina de flores douradas



Com uma altitude máxima de 1956 metros, a Grã-Canária é a terceira mais alta das ilhas Canárias, suplantada por Tenerife (3718 m) e La Palma (2426 m). Ser a terceira de sete não é grande título de glória, mas desde que haja precipícios de respeito, com miradouros estrategicamente colocados para potenciar a vertigem e o assombro, não é por ter mil metros a menos que uma ilha fica diminuída. Com um contorno aproximadamente circular e o ponto mais elevado quase coincidindo com o centro, a Grã-Canária, ainda que de formato achatado, teria tudo para ser um cone perfeito. Acontece que a natureza, essa caprichosa escultora, não se conformou ao ideal geométrico, e em vez das vertentes lisas descaindo placidamente para a costa temos vales escarpados, picos fora do seu lugar, desníveis repentinos e estradas que são um susto. Uma estrada a não perder pelos aficionados de emoções fortes é a GC-606, que liga o Roque Nublo, a uns 1400 m de altitude, à barragem de Parralillo, situada 1100 m abaixo: são 12 Km de via estreitíssima, com curvas apertadas e sem visiblidade, sempre à beira do abismo.

Uma estrada assim, onde qualquer desatenção pode ser a última, não é a mais indicada para botanizar enquanto se conduz. Também não é fácil encontrar onde encostar o carro sem atrapalhar o trânsito — ainda que este seja apenas hipotético, já que ninguém no seu inteiro juízo passa duas vezes por uma estrada destas. A solução sensata é mesmo largar o carro e percorrer a estrada a pé. Os taludes das estradas de montanha, aqui como em todas as ilhas Canárias, são ricos em endemismos botânicos, e proporcionam uma cómoda introdução à flora do arquipélago.

Chrysoprenanthes pendula (Sch. Bip.) Bramwell [= Sonchus pendulus (Sch. Bip.) Sennikov]


Já quase chegados à barragem de Parralillo, e devidamente surpreendidos por vermos acumulada tanta água numa ilha onde nunca chove, foi-nos enfim possível estacionar o carro e atentar nas plantas dos taludes, que aqui são altos, quase nus, formados por grandes e variegados blocos rochosos. Uma das poucas plantas frequentes neste habitat era uma asterácea de base lenhosa e hábito pendente, de pequenos capítulos amarelos e grandes folhas com pedúnculo longo e lobos agudos, triangulares. Aparentada com os dentes-de-leão, a Chrysoprenanthes pendula é endémica da Grã-Canária — e, pese embora a sua semelhança com as espécies arbustivas do género Sonchus tão frequentes nas Canárias (eis um exemplo de Lanzarote), é planta que não se confunde com nenhuma outra. Tanto assim é que a sua posição taxonómica tem sido instável e ainda hoje não é consensual. Primeiramente descrita em 1849 como Prenanthes pendula pelo alemão Karl Bipontinus Schultz (1805-1867), em 2003 o britânico David Bramwell transferiu-a para um novo género mono-específico, Chrysoprenanthes. Mas antes disso, em 1999, já os russos Alexander Sennikov e Irene Illarionova a haviam arrumado no género Sonchus, sublinhando a sua proximidade com as espécies desse género incluídas na secção Atalanthus (que vários autores consideram como género independente). Os estudos moleculares do sul-coreano Seung-Chul Kim e da sua equipa (ver artigo) vieram desempatar a contenda, ao revelarem que o género Sonchus, para ser monofilético (i.e., para ser formado por todos os descendentes de um único antepassado comum), deve absorver uns tantos géneros até aqui autónomos (como Aetheorhiza) — e, nesse quadro, Chrysoprenanthes e outros géneros canarinos como Sventenia e Lactucosonchus têm de abdicar da sua autonomia.

Tão interessante como a questão taxonómica é a diversidade de origens dos botânicos que, ao longo destes dois séculos, a têm investigado: há (entre outras nacionalidades) alemães, suecos, britânicos, russos e sul-coreanos — todos eles unidos pela ciência botânica (mesmo exprimindo sobre ela opiniões divergentes) e pela pulsão de fugir ao frio das suas diversas pátrias visitando (em trabalho de campo, claro) estas ilhas abençoadas por uma eterna Primavera.

20/01/2021

Comunicando por aromas

Há uns anos, a revista Scientific American deu conta da morte quase em simultâneo de centenas de antílopes no sul de África. A época do ano ia extremamamente seca e quente no local, e a fome foi a primeira causa a ser ponderada — logo excluída, porém, ao saber-se que os animais tinham morrido envenenados. Como? Comeram folhas de acácia, a fonte usual de alimento para os antílopes. Mas então o que se passou?

Em geral, as plantas apreciam que os seus frutos sejam consumidos pelos animais que, juntando o útil ao agradável, ajudam na dispersão das sementes. Já no que toca às flores, folhas, talos ou raízes, as plantas fazem o que podem para os salvaguardar: protegem-nos com espinhos, brácteas robustas, glândulas urticantes, odores desagradáveis, e até veneno. Fabricar estas armas custa muita energia, e por isso muitas plantas possuem mecanismos que lhes permitem activar ou acelerar estes procedimentos para não estarem sempre com eles ligados. E a família das leguminosas é especialmente ágil a mobilizar esta estratégia defensiva, capaz de conspirar contra os predadores. Durante estios secos e prolongados, quase despidas de folhagem e com parcas condições de sobrevivência, estas plantas receiam pela vida. E a primeira a que os bichos famintos se encostam com o dente aguçado emite de imediato um sinal de alarme (um odor) a avisar as plantas vizinhas da proximidade de herbívoros. Estas, numa reacção cuja rapidez nos surpreende em seres tão imóveis e tranquilos, tratam de produzir mais toxinas e, em menos de meia hora, as suas folhas, antes inofensivas, transformam-se em pratos de veneno mortal. Decerto, ao fim de muitas gerações, os antílopes aprenderão a evitar estas folhas tóxicas em tempos de seca extrema. Mas com as alterações do clima a ocorrerem tão depressa, é real o risco de muitas espécies não terem tempo para aprender.

Anagyris foetida L.


Este arbusto de pequeno porte, folhas compostas e lindas flores amarelas (com pintas no estandarte) que vimos perto da fonte Benémola, no Algarve, também é tóxico. O povo espanhol, avisado, chama-se leño hediondo, altramuz del diablo e collar de bruja. É frequente na região mediterrânica, surgindo em matos, baldios e bermas de caminhos, e outrora ter-se-á usado para tornar mais mortíferas as pontas das lanças. Nas Canárias ocorre uma espécie de morfologia muito semelhante, a Anagyris latifolia, um endemismo destas ilhas com folhas grandes que pode atingir os 5 metros de altura.

10/01/2021

Cardos do sol



Nos Pirenéus, acima da cintura florestal mas abaixo dos picos onde a neve persiste quase todo o ano, estendem-se pantagens nuas em colinas suavemente modeladas. É o paraíso das cabras, vacas e ovelhas, as primeiras muitas vezes sem dono e sem controlo, as outras obrigadas a fornecer-nos alimento e agasalho em troca da boa vida que levam. Todas são infatigáveis a dar ao dente para manter os campos cortados à escovinha. Haverá plantas floridas que sobrevivam a perseguição tão tenaz e sejam capazes de romper a lisura uniforme das pastagens? A pergunta, canhestramente retórica, tem um óbvio sim como resposta. Há plantas em que mesmo os ruminantes mais determinados aprenderam a não tocar, por serem venenosas, ou de sabor desagradável, ou por os espinhos tornarem a mastigação penosa. Entre as peçonhentas ou amargosas mais conhecidas contam-se os acónitos, as abróteas e os lírios. O lírio-de-folhas-largas (Iris latifolia), infelizmente já sem flores quando em Agosto visitámos Plana Canal nos Pirenéus aragoneses, brotava aos milhares pelas pastagens, convivendo pacificamente com a indiferença do gado. E a variedade espinhenta da comida-a-evitar estava bem representada pelos cardos, alguns de envergadura considerável, outros rasteiros e dourados como sóis infantis colados no chão.

Carlina acanthifolia All.


O cardo-do-sol, cuja designação oficial é Carlina acanthifolia, é de tal modo evocador do astro-rei que é costume, nas várias cadeias montanhosas europeias onde ocorre, pregá-lo em portas e janelas para repelir maus-olhados. E mesmo depois de seco ele é útil nas previsões meteorológicas: se o tempo ameaça chuva, as brácteas petalóides que envolvem a inflorescência recolhem-se; se o dia promete sol, elas mostram-se distendidas. Por isso, além de ser chamado erva-das-bruxas (yerba de broxas) em Aragão, este cardo é em França conhecido, entre outras coisas, como chardon baromètre, e em inglês houve quem propusesse chamar-lhe weather thistle.

Planta bienal ou perene, desprovida de caule, a Carlina acanthifolia produz em cada ano, durante o Verão, um único capítulo com uns 15 cm de diâmetro, composto por florículos tubulares amarelos e guarnecido por brácteas douradas, que surge aninhado no centro de uma perfeita roseta de folhas espinhentas. É espontânea em grande parte da Europa, sempre em zonas montanhosas, desde a Polónia até à Península Ibérica. É frequente nos Pirenéus, mas no resto de Espanha aparece apenas, e escassamente, em algumas serras do sudeste.

Nos mesmos habitats, e com uma distribuição em larga medida sobreposta, ocorre uma versão lunar do cardo-do-sol. Trata-se da Carlina acaulis, com capítulos menores, às vezes mais do que um por planta, formados por florículos brancos tingidos de púrpura e rodeados por brácteas prateadas. O epíteto acaulis diz-nos que este cardo não desenvolve caule, o que nem sempre é verdade. Menos vistosa e de folhagem mais agressiva do que a sua congénere amarela, a C. acaulis tem os mesmos usos meterológicos e goza de alguma reputação medicinal, ainda que dúbia. Diz a (muito incerta) lenda que a raiz da planta terá sido usada por Carlos Magno para combater a peste bubónica que dizimava as suas tropas, e que o próprio nome Carlina seria uma homenagem ao imperador inspirada por esse episódio.

Carlina acaulis L.

05/01/2021

Tamujo continental

O Pico da Melriça, no concelho de Vila de Rei, em Castelo Branco, é um monte com cerca de 600 metros de altura, no topo do qual se ergue um marco geodésico. Assinala o centro geográfico de Portugal continental, uma aproximação do centro geométrico do país, obtida supondo-se que Portugal continental é uma região homogénea e plana, ainda que não exactamente um rectângulo. Igualmente interessante é o centro demográfico do país, que em geral varia com o tempo pois a distribuição da população pelo nosso território não é fixa. O centro demográfico de Portugal encontrava-se, em 1864, a cerca de 17 km a leste de Coimbra. Com a emigração das décadas de 60 e 70 do século XX, o êxodo das regiões rurais do interior e a maior concentração de população no litoral, o ponto que representa este centro moveu-se, de acordo com os recenseamentos mais recentes, para sul e para oeste, estando agora mais perto de Lisboa.



Esta movimentação da população portuguesa tem tido, naturalmente, impacto na natureza. Parece certo que no interior do país muitas espécies ganharam novo fôlego com a ausência de gente, embora a construção de barragens, o desvio de caudais por causa de novas estradas e a ruderalização de leitos de cheia com edifícios ou eucaliptos continuem a ser ameaças reais à biodiversidade nesses locais agora despovoados. Entre as vítimas desta errância populacional está a vegetação ripícola. Onde a incidência demográfica se intensifica, a vegetação ribeirinha vai perdendo o seu espaço, e não será surpresa que a área de distribuição de alguns dos arbustos que bordejam cursos de água retroceda para leste tão decididamente quanto o centro demográfico avança para oeste.

Flueggea tinctoria (L.) G. L. Webster


A destruição dos habitats ribeirinhos mais perto do litoral pode estar a confinar o tamujo, que prefere solos arenosos e bem drenados, ao interior centro da Península Ibérica. Este arbusto espinhoso, e muito ramificado, é um endemismo ibérico de que em Portugal só há registo nas bacias do Alto Douro, Alto Tejo e Guadiana. Fica-se portanto por uma faixa estreita a leste do país, com núcleos bastante dispersos, como se pode notar neste mapa.

O tamujo pode atingir os 2 metros de altura, é dióico e tem folhagem caduca. Os ramos finos cheios de espinhos são avermelhados, por isso fáceis de detectar no Inverno. As flores, que nascem na Primavera, são minúsculas e têm um tom geral esverdeado; não usam pétalas, mas agasalham-se com brácteas nas axilas das folhas. O género Flueggea tem representantes na Ásia, em África e na América do Sul, além da espécie ibérica. O nome homenageia o botânico alemão J. Fluegge e o seu vasto trabalho sobre gramíneas (plantas a que poucos dão a devida atenção).

27/12/2020

Variações da cinerária

Pericallis webbii (Sch. Bip.) Bolle


Lá para Maio ou Junho, chegará a vez de as cinerárias-das-floristas efeitarem garridamente os poucos canteiros sazonais que sobram na cidade do Porto. Ainda há espaço para elas no jardim do Carregal, mas não será por muito mais tempo. Dezasseis anos depois de ter sido amputado para a construção de um túnel rodoviário, um novo túnel, desta vez para uma linha de metro, há-de ser pretexto para lhe cortar mais uma fatia. Entretanto, confiando que em 2021 ainda haverá flores, aprendamos algo mais sobre as impropriamente chamadas cinerárias.

O nome científico correcto desse popular malmequer ornamental, criado no século XVIII, em Inglaterra, por cruzamento de duas espécies originárias das Canárias, é Pericallis × hybrida. Antes de serem arrumadas num género próprio, endémico da Macaronésia (Canárias, Madeira e Açores), estas plantas insulares integravam o género Cineraria, hoje em dia restrito à África do Sul. Essa mudança não é recente. O nome Cineraria, que significa acinzentada e decerto se refere à cor da folhagem de algumas espécies, foi cunhado por Lineu em 1766 num dos tomos do seu Species Plantarum. Nenhuma das endémicas das ilhas foi baptizada por Lineu, mas logo em 1788 o francês Charles Louis l'Héritier (1746-1800) deu nome a várias delas — incluindo a Cineraria lanata e a Cineraria cruenta, progenitoras da cinerária-das-floristas — num opúsculo intitulado Sertum Anglicum, dedicado a novas plantas cultivadas no Horto Real de Kew, em Londres. O nome genérico Pericallis, que em grego significa muito bonita (e assenta melhor a estas plantas do que o cinzento evocado pelo nome Cineraria), foi publicado em 1836 pelo escocês David Don (1799–1841), bibliotecário da Linnean Society e professor de botânica no King's College em Londres. O nome teve aceitação geral, e ainda durante o século XIX quase todas as espécies insulares então conhecidas deste grupo de asteráceas foram transferidas para o novo género. Mas dois séculos não bastam para mudar hábitos arreigados, e a cinerária-das-floristas continuará a ser assim chamada ad eternum.

Desde há muito que preferimos plantas silvestres aos híbridos domesticados de comércio hortícola, mas a conversa que com elas mantemos no campo (ou, neste caso, nas ilhas) são mais proveitosas se lhes conhecermos a biografia. Assim, quando demos de caras com a Pericallis lanata (ex-Cineraria lanata) em Tenerife, pudemos falar-lhe dos jardins citadinos onde a sua descendente todos os anos vem passar uma temporada, e perguntar-lhe por que razão, morando ela e a P. cruenta na mesma ilha, não tinham optado por consumar o enlace amoroso em plena natureza, sem a alcovitice dos jardineiros.

Ou somos ainda incapazes de interpretar a linguagem das plantas, ou a P. lanata recusou-se a falar connosco. Apesar da desfeita, não deixamos de reconhecer que ela (fotos em baixo) é a mais mimosa e singular de todas as do seu género: é uma planta miniatural, rasteira, de base lenhosa, com folhagem miúda semelhante à da hera, e que adopta um hábito pendente quando cresce em taludes; os seus capítulos florais são solitários, em vez de agrupados em cachos como nas Pericallis mais convencionais (de que é exemplo a P. webbi, acima ilustrada, endémica da Grã-Canária). Endémica de Tenerife, a P. lanata é frequente na metade sul da ilha, quente e ensolarada, mas prefere escarpas sombrias ou o abrigo de arbustos mais xerófilos. A sua floração decorre de Março a Maio.

Pericallis lanata (L`Her.) B. Nord.

22/12/2020

Uvas com espinhos

Berberis vulgaris L.
  
As árvores, por exemplo, toleram bem o tédio:
praticamente nada acontece no reino vegetal de uma floresta,
e não é por essa razão que as exaltações guerreiras
se multiplicam. O homem
— disse o velho — deveria aprender a imitar
o ímpeto lento das árvores
que sem serem vistas e jamais parando, sobem sempre.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia — Canto VI (Editorial Caminho, 2010)

15/12/2020

Sítios de Interesse Botânico de Portugal Continental

Coordenação: Sociedade Portuguesa de Botânica
Edição: Imprensa Nacional Casa da Moeda
Patrocínio: Câmara Municipal de Lisboa
Data: Novembro de 2020
Este livro (à venda nas lojas da INCM) é o melhor presente de Natal para quem queira conhecer ao vivo, e nos habitats que lhes são próprios, os nossos tesouros botânicos desde o Minho até ao Algarve. Numa edição de grande formato, ilustrada com centenas de fotos, cada um dos 23 capítulos é escrito por quem conhece a fundo os valores naturais dos lugares descritos e tem gosto em partilhar esse conhecimento com o leitor. Como se diz no texto de contracapa, “é a primeira vez, na história da Botânica e da edição em Portugal, que se dá a conhecer uma colectânea de áreas geográficas com valores florísticos excepcionais”.
Eis a lista dos capítulos da obra e respectivos autores:
  1. Afloramentos de carbonatos do Norte de Portugal — Carlos Aguiar & Paulo Alves
  2. Afloramentos ultramáficos do Nordeste de Portugal — Carlos Aguiar & Tiago Monteiro-Henriques
  3. Areias envolventes do estuário do Sado — Carlos Neto, João Paulo Fonseca & José Carlos Costa
  4. Batólito de Arga — Paulo Alves
  5. Bemposta do Douro — Paulo Pereira
  6. Brejos da Marateca — João Farminhão
  7. Cabo Espichel — Paulo Pereira
  8. Encostas de Arruda dos Pisões — Miguel Porto
  9. Eolianitos da costa sudoeste — Manuel João Pinto, Mário Cachão & Helena C. Cotrim
  10. Litoral de Viana, de Areosa a Montedor — Paulo Ventura Araújo
  11. Mata da Margaraça — Jorge Paiva
  12. Morro do Jaspe — José Luís Vitorino
  13. Nordeste leonês: a serra de Montesinho — Carlos Aguiar
  14. Península do Ancão e pinhais do Garrão — André Carapeto
  15. Pesqueiras do rio Minho — Paulo Ventura Araújo
  16. Planalto vicentino — Manuel João Pinto & Helena C. Cotrim
  17. Serra do Cercal — Jorge Capelo
  18. Serra do Gerês e o vale superior do rio Homem — Paulo Ventura Araújo
  19. Serras de Monchique — Jorge Capelo
  20. Serra de Nogueira — Carlos Aguiar
  21. Serras do Porto — Paulo Alves & Estêvão Portela-Pereira
  22. Vale encaixado do Castelo de Paderne — André Carapeto
  23. Zonas húmidas de Covões, Cantanhede — Paulo Ventura Araújo

12/12/2020

Ervilhaca viciosa



Quando queremos fingir que Portugal é como a América, com estradas infinitas que levam a lugares insuspeitados, a solução é abandonar as modernas auto-estradas e enfiar por uma daquelas estradas nacionais que, acumulando curvas sobre curvas, se esforçam sempre por encontrar o caminho mais demorado entre dois pontos. É um truque modesto que substitui a dimensão espacial, em que a exiguidade do país nos obriga a ser pobres, pela dimensão temporal, em que estamos tão bem servidos como o resto da humanidade. Os 226 quilómetros da EN 222 entre a avenida da República, em Vila Nova de Gaia, e os amendoais de Almendra (passe o pleonasmo), em Vila Nova de Foz Côa, convertem-se assim numa rota de evasão para preencher os dias (muitos dias) com o vagar que lhes é devido. É verdade que o troço mais celebrado da estrada, entre a Régua e o Pinhão, não é especialmente curvilíneo, e até encoraja os condutores a lançarem-se em correrias imprudentes. Mas antes e depois, e exceptuando os pontos onde o traçado foi barbaramente "corrigido", a estrada recusa teimosamente alongar-se em rectas.

Nenhuma curva da EN 222 é escusada, nenhum quilómetro é redundante. Talvez por isso nunca lhe tenham suprimido os quatro mil metros a mais que impedem a quilometragem de coincidir com o nome. Entre São João da Pesqueira e Foz Côa, a estrada afasta-se do Douro e desenrola-se num quase planalto entre os 600 e os 700 metros de altitude. A canícula que aflige o vale do Douro nos meses de Verão chega ali atenuada, e os vinhedos que preenchem os socalcos dão lugar a pomares e a manchas esparsas de pinheiros, sobreiros, azinheiras e zimbros. É um bom lugar para orquídeas nos meses de Primavera: a Orchis mascula e a Neotinea maculata chegam a ser abundantes, e com sorte avistamos também a Dactylorhiza sulphurea. Depois de Foz Côa a estrada desce e, ultrapassada a ponte sobre o Côa, reaproxima-se do Douro durante uns breves quilómetros. É não muito longe da ponte, num talude seco rigorosamente virado para sul, que mora, na prestigiosa companhia do feto-de-veludo, a ervilhaca que hoje ocupa o escaparate.

Vicia vicioides (Desf.) Cout.


Vicia, que nada tem a ver com "vício", era já o nome latino destas leguminosas de hábito trepador, em especial da ervilhaca-comum (Vicia sativa). O que há de estranho na Vicia vicioides é o nome informar-nos que se trata de uma Vicia parecida com uma Vicia — caso semelhante é o do Halimium halimifolium, em que ficamos a saber que uma certa planta tem folhas dela própria. Tais disparates não pretendem exprimir a verdade filosófica de que cada coisa é idêntica a si mesma, e de facto ninguém tem culpa deles. Resultam apenas de ajustes taxonómicos e da aplicação das regras da nomenclatura botânica: as plantas em causa começaram por chamar-se Ervum vicioides e Cistus halimifolius; e, quando foram transferidas para géneros mais apropriados, essas regras impuseram que se mantivessem os epítetos específicos.

As ervilhacas, que despontam cedo na Primavera e que, em Portugal continental, são comuns em quase todo o tipo de habitats, não nascem todas iguais. Há algumas que são usadas para forragem, outras que nascem onde nenhum gado lhes põe o dente, umas que são muito vulgares, outras que são absolutas raridades. Na Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, há quatro espécies de Vicia com estatuto de vulnerável (V. bithynica, V. onobrychioides, V. orobus e V. peregrina), uma regionalmente extinta (V. tetrasperma), uma quase ameaçada (V. narbonensis) e, finalmente, uma com dados insuficientes, precisamente a nossa V. viciodes. Talvez ela seja ainda mais rara do que aquelas que mereceram algum estatuto de protecção, mas pode ser apenas mais esquiva. Certo é que há registos antigos da sua presença em Santiago do Cacém e em Elvas, mas há muito que não é vista nessas paragens e agora só sabemos dela bem mais a norte, em Foz Côa. As bermas de estrada, mais ainda com as limpezas tornadas obrigatórias, não são refúgio seguro para plantas raras, mas felizmente a V. viciodes fez seguro de vida e está presente pelo menos num outro local do vale do Côa, esse muito mais recatado.

A V. viciodes, que se diferencia bem das suas congéneres pela forma e cor das flores (que são minúsculas, com menos de 1 cm de diâmetro) e pelos cálices densamente vilosos, tem uma distribuição global restrita, ainda que repartida por dois continentes: fora da Península Ibérica, onde é mais frequente entre Málaga e Cádiz, só aparece em Marrocos e na Argélia. A sua precária presença no noroeste de Portugal marca, e por grande distância, o limite setentrional da sua distribuição.

06/12/2020

Bálsamo das ilhas

Decerto o leitor já terá notado que algumas plantas surgem aqui com galardões de qualidade que outras não exibem. A etiqueta «espécie endémica» é um deles, como a que identifica queijos e presuntos de regiões demarcadas. Serve essencialmente como um alerta para a originalidade dessa espécie, ou para o carácter localizado das suas populações nativas. Ser endémico de regiões muito restritas é frequentemente sinónimo de raro, ou a precisar de medidas de conservação, mas é também um bom pretexto para comparações com espécies semelhantes de outros lugares, e para o estudo dos eventuais processos evolutivos que geraram as diferenças. Há, porém, uma questão prévia que ainda não resolvemos: como é que se decide que uma espécie é endémica de um dado local?



Claro que se a espécie tiver uma distribuição muito pontual, o mais provável é que tenha o seu berço nesse habitat. Mas se for cosmopolita, ou ocorrer em várias regiões distantes umas das outras, como se sabe em que locais foi cultivada, de que jardins escapou, ou de onde provém? A vasta literatura indica que podemos estar descansados quanto a esse trabalho de arqueologia botânica: há estudos genéticos fiáveis para responder a estas perguntas, muito mais fáceis afinal do que saber de onde surgiu um vírus.

Cedronella canariensis (L.) Webb & Berthel.


No caso do arbusto que vos mostramos hoje, com cerca de um metro e meio de altura, as conclusões sobre a sua origem ainda deixam dúvidas. O género Cedronella é monoespecífico, com uma espécie endémica das Canárias e da Madeira, descrita em 1845 por P. B. Webb e S. Berthelot na revista Histoire Naturelle des Îles Canaries. Não surpreendentemente, Lineu já sabia da sua existência em 1753, mas designou-a então Dracocephalum canariense e este nome foi abandonado a favor do actual. Em 1844, H. C. Watson recebe notícia do botânico amador (e cônsul britânico nos Açores) Thomas Hunt sobre a presença da C. canariensis na ilha de S. Miguel, e divulga a novidade em 1847 no London Journal of Botany. Hunt suspeita que os exemplares de S. Miguel possam ter origem no cultivo, pois das folhas aromáticas da planta prepara-se um chá saboroso, muito apreciado nas Canárias. Há agora também registos da espécie nas ilhas do Faial e de Santa Maria, aparentemente bem adaptada às florestas de Myrica faia e Pittosporum undulatum, e em algumas obras a C. canariensis surge listada como sendo também nativa dos Açores.

Enquanto aguardamos por uma decisão final, notemos que, ao contrário do que é usual na família Lamiaceae, esta «hortelã» tem folhas compostas, com três folíolos de margens serradas num pé longo. No cimo dos talos surgem, no Verão, cachos de flores tubulares rosadas com cerca de 2cm de comprimento. Os exemplares das fotos são de um recanto de floresta laurissilva em Anaga, Tenerife.

29/11/2020

Perpétuas de outras praias

Schizogyne sericea (L. f.) DC.


Em Tenerife, ao longo de toda a linha costeira, em zonas de mato baixo ou em substratos arenosos, este pequeno arbusto prateado, profusamente florido nos meses da Primavera, cumpre o papel que nas praias do continente europeu está reservado à perpétua-das-areias (Helichrysum italicum). É a mesma folhagem linear, a mesma ramificação desordenada, os mesmos capítulos desprovidos de «pétalas» — e é, sobretudo, o mesmo amarelo dourado alegrando habitats semi-desérticos. De facto, os dois arbustos pertencem à mesma divisão (ou tribo) da família das asteráceas, tribo essa que, grosso modo, se caracteriza pelos capítulos só com flores tubulares formando corimbos mais ou menos densos. Fazem também parte da tribo arbustos como o alecrim-dos-paredes (Phagnalon saxatile) e ervas ruderais como o Pseudognaphalium luteo-album. São plantas generosas em néctar que devem o seu sucesso na natureza às honestas relações de proveito mútuo que estabelecem com os polinizadores.

O francês Alexandre Henri Gabriel de Cassini (1781-1832), que em 1823 cunhou o nome Schizogyne (que significa fêmea fendida, numa alusão à morfologia das flores femininas), admitiu que o novo género era muito próximo de Phagnalum; mas, quebrando a tradição, preferiu não usar um anagrama dessa palavra para o baptizar. Já então um quase anagrama, Gnaphalium, era o nome válido de um género botânico, e dentro da mesma tribo são vários os anagramas de Filago (por exemplo, Logfia e Ifloga) que também designam géneros botânicos.

A Schizogyne sericea, espontânea em todas as ilhas das Canárias à excepção de Fuerteventura, e conhecida no arquipélago como «salado blanco», só não é um endemismo canarino por ter sido assinalada nas Selvagens. Se não fosse esse percalço geo-político, o próprio género Schizogyne seria exclusivo das Canárias, já que a única outra espécie conhecida é endémica da Grã-Canária. Trata-se da Schizogyne glaberrima (fotos em baixo), que pelo tom verde da folhagem se distingue facilmente da sua congénere, e que no vernáculo local é apropriadamente chamada «salado verde». 

Misteriosamente, Cassini, no mesmo artigo em que inagura o nome Schizogyne, descreve uma espécie, S. obtusifolia, que seria hoje a terceira do género se a sua existência fosse reconhecida. Cassini baseia a descrição em material guardado no herbário de um Sr. Mérat, e a incerteza quanto ao local de colheita chega a ser cómica: pode ter sido nas ilhas Maurícias ou em Tenerife, ou ainda no Cabo da Boa Esperança. Contudo, a planta que Cassini descreve corresponde, com quase perfeita exactidão, àquela que hoje conhecemos como Schizogyne sericea, nome que lhe foi atribuído apenas em 1836 por Augustin de Candolle (1778–1841). Não sabemos por que razão Candolle, que obviamente conhecia o trabalho de Cassini, achou necessário o novo nome, mas é improvável que Cassini tenha descrito uma planta cujo paradeiro actual seja desconhecido. Certos portais de referência insistem porém que Schizogyne obtusifolia é um nome válido, e sustentam mesmo que a planta em questão é endémica de Tenerife (exemplos: 1, 2). Contudo, esse nome não é incluído em nenhuma listagem actual da flora do arquipélago (exemplos: 3, 4).

Schizogyne glaberrima DC.