10.3.14

Junco dos três bicos


Triglochin maritimum L.

Além de certos grupos humanos, como sejam os estrangeiros em busca de emprego, também há plantas que não podem instalar-se na Suíça. O preço a pagar pelos helvéticos para terem os Alpes e o edelweiss é muito alto, e inclui a necessidade de pedirem licença aos países vizinhos para ver o mar. E depois de o verem e de molharem os pés nas ondas regressam a casa resignados, pois o decreto divino é irrevogável (no sentido que a palavra tinha até Julho de 2013): o mar não vai à Suíça, nem a Suíça vai ao mar. Com o resultado de que esse país fica inteiramente desprovido daquela flora terrestre de vocação marinha que vive em dunas, estuários e sapais.

Embora tenham um aspecto monótono, e o solo lodoso, periodicamente inundado, não convide a passeios a pé, a verdade é que os sapais nos estuários dos rios, onde a água doce e a salgada se defrontam numa fronteira instável, são um refúgio de plantas fascinantes: há limónios, varas-de-ouro, ásteres, salicórnias, espergulárias e uma grande variedade de juncos. A que se junta este Triglochin maritimum, na aparência uma mistura de junco com tanchagem mas que não é nenhuma das duas coisas. O nome científico Triglochin, que Lineu atribuiu a esta planta, provém do grego e significa "com três pontas", por cada um dos seus frutos ser em regra composto por três peças. O junco-dos-três-bicos, chamemos-lhe assim, é uma planta perene, rizomatosa, com hastes até 65 cm de altura, que floresce de Fevereiro a Setembro. Distribui-se pela América do Norte e por grande parte da Europa e da Ásia; no norte de África só há registo dela na Tunísia. A sua presença europeia é desequilibrada em favor do norte: é comum ao longo da costa atlântica desde a Rússia até à Galiza, e também nas ilhas britânicas e na Islândia, mas rareia no Mediterrâneo. Em Portugal é por certo mais vulgar do que os escassos registos no portal Flora-On fazem crer. Encontrámos uma boa população no pequeno sapal na foz do Tornada, em Salir do Porto.


Salir do Porto: foz do rio Tornada

2 comentários :

GL disse...

O que faz a ignorância! Frequentadora assídua de Salir do Porto, de toda a zona que refere, desconhecia os juncos e todas as suas características.
Obrigada, pois!

bea disse...

Nunca tinha pensado nisso, que à Suiça falta o mar com tudo o que faz nascer. Como essa planta.

Como será a alma de um povo que vive sem olhar o mar, que não lagarta na areia dias e dias, que não recebe senão de fugida - sem lhe criar o amor de anos que nos reúne a nós -, espantado e desprevenido, o eterno beijo das ondas, que não sabe a leveza cansada de um dia de mar no corpo e na alma que houver...

A foto de Salir está linda de morrer. Parabéns. E obrigada.