29.12.18

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]


Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.

22.12.18

Uvas do mar



Apesar de inóspitas para banhistas, as costas rochosas do sudoeste de Tenerife são a casa ideal para uma grande variedade de plantas, às quais não desagrada a maresia e a exposição ao sol. A que lhe mostramos hoje, fotografada no Malpaís de Güímar, é das mais estranhas que por lá vimos. Ao longe, parecia uma videira atarracada e recheada de cachos ascendentes de uvas verdes (para vinho branco, claro).


Tetraena fontanesii (Webb & Berthel.) Beier & Thulin
Mas as tais uvas eram afinal folhas suculentas, que nascem aos pares no topo de pedúnculos curtos e carnudos. Os frutos são minúsculos, com textura de cortiça e esbranquiçados. A floração decorre entre Janeiro e Junho, por isso não vimos flores; são pequenas, axilares, com cinco pétalas de um tom branco-rosado (foto em baixo). Como é usual noutras suculentas sujeitas aos ventos de beira-mar, a base deste arbusto é lenhosa e, no período de dormência, a folhagem adquire uma coloração púrpura.



De distribuição restrita a algumas ilhas da Macaronésia (Canárias, Cabo Verde e Selvagens) e ao norte de África (Argélia e Marrocos), esta espécie deveria pertencer, de acordo com as regras da nomenclatura botânica, ao género Petrusia. De facto, esta designação foi proposta por Henri Baillon em 1881, oito anos antes do nome Tetraena ser adoptado por Carl Johann Maximowicz para várias espécies da família Zygophyllaceae frequentes em desertos, zonas áridas ou com salinidade elevada. Segundo a Flora Ibérica, os botânicos continuam a usar o nome Tetraena pois a mudança para Petrusia exigiria demasiadas alterações na taxonomia. Alimentando a confusão, algumas Floras preferem o sinónimo Zygophyllum fontanesii. Comum aos três nomes, o epíteto específico homenageia o botânico René Desfontaines (1750-1833), autor da Flora Atlantica que anunciou, em plena Revolução Francesa, a descoberta de cerca de 300 novos géneros de plantas da região mediterrânica e do norte de África.

15.12.18

Macho desdentado


Dryopteris oligodonta (Desv.) Pic.-Serm.


A própria etimologia da palavra sugere que os fetos do género Dryopteris (que designamos por fetos-machos) só aparecem, ou aparecem preferencialmente, onde existem aquelas formações vegetais a que chamamos bosques. Um bosque é dominado por árvores de tamanho respeitável, enquanto que os matos são formados pos arbustos de crescimento rápido e igualmente rápida combustão. Contudo, mesmo tendo apenas em conta as espécies europeias, a ecologia destes fetos é de facto mais diversificada: nem sempre o bosque faz falta, e o mais importante parece ser um elevado grau de humidade ambiental - um requisito que, a latitudes mais meridionais, só os verdadeiros bosques costumam satisfazer. Nas Canárias e na Madeira, os bosques típicos mais bem formados são os da laurissilva, que (como o nome indica) é composta sobretudo por lauráceas, mas alberga também outras folhosas perenifólias. O carácter da floresta laurissilva nos dois arquipélagos é diferente: a da Madeira é muito mais húmida, com árvores de maior porte; nas Canárias, algumas urzes arbóreas integram-se no coberto vegetal quase em pé de igualdade com as lauráceas.

É por isso que os fetos-machos são na Madeira muito mais abundantes do que nas Canárias. Na primeira ocorrem quatro espécies (Dryopteris aemula, D. affinis, D. maderensis e D. aitoniana), todas elas fáceis de obsevar na laurissilva e às vezes também em plantações florestais. Nas Canárias estão igualmente assinaladas D. aemula e D. affinis (a primeira só em La Gomera, a segunda em La Gomera e Tenerife), a que se juntam duas espécies adicionais: D. guanchica (La Gomera, El Hierro e Tenerife) e D. oligodonta. Com excepção da última, todas estas espécies são muito raras no arquipélago. A D. oligodonta, por seu turno, é uma componente usual da laurissilva de Anaga, em Tenerife; e, a julgar pelos mapas de distribuição no portal Anthos, o mesmo deverá suceder na laurissilva das outras ilhas. Só não aparece nas duas ilhas mais áridas, Lanzarote e Fuerteventura, onde a própria laurissilva não teve condições para se instalar.

O feto-macho ilustrado nas fotos, Dryopteris oligodonta, é pois o único do seu género que o comum dos visitantes ao arquipélago encontrará. É um feto grande, com frondes três vezes divididas, dispostas em tufos, capazes de ultrapassar um metro de comprimento. D. affinis, por contraste, tem as frondes só duas vezes divididas (compare-se a última foto acima com esta); e D. guanchica e D. aemula, além de serem bem menores, têm as pínulas mais recortadas, com dentes muito mais pronunciados (veja-se aqui e aqui). O epíteto oligodonta anuncia precisamente que este feto-macho tem poucos dentes, o que é injusto face a congéneres seus mais desdentados.

Várias fontes garantem que Dryopteris oligodonta é um endemismo das Canárias, contrapondo outras que o mesmo feto existe nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão e do Fogo. Um estudo exaustivo recente [Jacobus P. Roux (2012), A revision of the fern genus Dryopteris (Dryopteridaceae) in sub-Saharan Africa, Phytotaxa 70] confirma a existência da planta em Cabo Verde, embora ela pareça estar agora confinada a Santo Antão, não tendo sido observada na ilha do Fogo desde 1934, ano em que lá foi colhida pela única vez.

9.12.18

Salepeira-não-tão-grande

Por esta altura do ano já se podem observar, na região calcária do centro do país, rosetas de folhas e até um tímido início da haste floral da Barlia robertiana. Entre Janeiro e Fevereiro, a floração desta orquídea robusta e muito vistosa estará no auge. Quase simultaneamente, uma espécie de orquídea muito parecida com a B. robertiana interrompe o seu período de hibernação nas ilhas Canárias. O que nos leva a desconfiar que esse momento para iniciar a floração é uma informação genética herdada de um progenitor comum.


Himantoglossum metlesicsianum (W. P. Teschner) P. Delforge [sinónimo: Barlia metlesicsiana W. P. Teschner]


A Barlia metlesicsiana é endémica de Tenerife e vive em zonas pedregosas onde os escombros de lava foram suficientemente erodidos para daí resultar um solo macio, firme embora seco, que consegue sustentar alguma vegetação. Apesar de ter um substrato ácido, é talvez o habitat mais parecido com os matos rasteiros, mas soalheiros e abrigados de intempéries, que estas orquídeas preferem na região mediterrânea. Os poucos exemplares que vimos desta orquídea muito rara estavam perto de Santiago del Teide, numa zona protegida onde vários avisos requerem dos visitantes o respeito escrupuloso pelas normas de conservação.



Da evolução isolada na ilha de Tenerife, resultaram algumas pequenas diferenças entre a B. robertiana e a B. metlesicsiana, sendo a espécie tenerifenha em geral mais baixa e de aspecto mais frágil, com uma roseta basal de folhas menos robusta, uma haste floral com duas a quatro folhas caulinares que parecem brácteas, e uma inflorescência menos densa. O epíteto específico metlesicsiana é uma homenagem de Walter Paul Teschner, que descreveu esta espécie em 1982, ao botânico austríaco Hans Metlesics (1900-1985).

A designação mais antiga para o género a que estas orquídeas pertencem é Himantoglossum. Por causa disso, e apesar de o basiónimo ser Barlia metlesicsiana, Pierre Delforge propôs em 1999 que esta espécie se designasse Himantoglossum metlesicsianum, e que a sua irmã continental passasse a ser Himantoglossum robertianum. A mudança foi aceite pelo portal Euro+Med PlantBase mas não (ainda?) pela Flora Ibérica ou pela Flora-On.

1.12.18

Reino dos cabeçudos


Cheirolophus burchardii Susanna


As plantas do género Cheirolophus, desprovidas de espinhos mas com grandes capítulos floridos que fazem lembrar os dos cardos, são nas Canárias conhecidas como cabezones, o que em português se traduz por cabeçudos. São muitos os cabeçudos nessas ilhas, que repartem entre si umas 20 espécies endémicas de Cheirolophus. O número varia conforme as fontes consultadas, já que a delimitação das espécies é controversa. Indiscutível é que o arquipélago alberga cerca de dois terços do total das espécies de um género que tem uma distrbuição global restrita, confinado que está às Canárias, à Madeira e a alguns países mediterrânicos (Portugal, Espanha, França, Itália, Argélia e Marrocos). Só em Tenerife são quatro (ou três, ou cinco) as espécies de Cheirolophus.

Como é próprio da sua índole, nem sempre um cabeçudo acata de boa vontade as instruções que lhe são dadas. Se se conformasse à doutrina dos manuais, o Cheirolophus burchardii que mostramos nas fotos só deveria florir entre Abril e Julho, mas quando o vimos, no final de Dezembro, apresentava numerosos capítulos frutificados, sinal de que a floração se tinha prolongado muito para lá da data prevista. Mesmo na berma da estrada, exibia, com vegetal inconsciência e um atraso de muitos meses, as últimas flores da temporada.

Para complementar as fotos, diga-se que o Cheirolophus burchardii é um arbusto capaz de alcançar 1,5 m de altura (embora o das fotos tivesse dimensões mais incipientes) e que os capítulos têm de 2,5 a 3 cm de diâmetro. Distingue-se de outros cabeçudos tenerifenhos pelas folhas inteiras e pelo formato das brácteas involucrais. Observá-lo não requer olho treinado nem grandes proezas atléticas: basta escolher uma altura em que a estrada do Teno, no extremo noroeste da ilha, esteja vedada ao trânsito automóvel (e ao fim-de-semana só não o está ao fim da tarde), e percorrê-la a pé com o vagar que ela merece. Precauções? Quem tiver medo do escuro deve munir-se de lanterna, já que os túneis que a estrada atravessa não são iluminados.