16/07/2024

Brancura das neves



O branco mais puro é o da neve, e é o Inverno a estação que melhor combina com a alta montanha. Sorte têm os picos que, de tão elevados, só conhecem a brancura imperecível. Mas a serra Nevada, esse inchaço descomunal no sul da Península, tem aos pés o mar Mediterrâneo; e, apesar dos seus quase 3500 metros de altitude máxima, o manto branco que lhe dá nome não resiste às temperaturas estivais. Os cumes rochosos ficam nus, o verde molhado dos prados acolhe as águas do degelo, por todo o lado assomam plantas que despertam da letargia hibernal. Algumas são brancas, como se a neve, antes de se ausentar, as tivesse incumbido da função branqueadora. É o caso da estrella de las nieves, uma tanchagem endémica da serra Nevada que é característica de solos pedregosos e húmidos acima dos 2300 metros de altitude. Apesar de ter uma floração discreta (como é regra no género a que pertence), as suas rosetas em formato de estrela, densamente revestidas por lanugem branca, têm um efeito ornamental inegável, sobretudo quando se juntam em grupos numerosos. Por saber que a união faz a força (ou, neste caso, a formosura), a estrela-das-neves não se faz rogada em salpicar profusamente os prados e os cumes da serra Nevada. É de inteira justiça que seja reconhecida como o mais genuíno símbolo botânico deste maciço, cumprindo papel análogo ao do edelweiss nos Pirenéus e nos Alpes.

Plantago nivalis (L.) Boiss.


Plantago nivalis é o nome científico da planta nevadense, e é de assinalar que o mesmo epíteto reaparece no bilhete de identidade do edelweiss, cujo nome erudito é Leontopodium nivale. Trata-se apenas de uma coincidência, pois as duas plantas pertencem a famílias botânicas muito díspares, e só têm em comum a cor esbranquiçada e a preferência por altitudes elevadas. Dentro do género Plantago, a estrella de las nieves não destoa do figurino habitual: folhas em roseta achatada, desprovida de caule, do centro da qual emergem várias hastes florais de 2 a 6 cm de altura, cada uma delas rematada por uma única espiga quase esférica, com cerca de 1 cm de diâmetro. As flores hermafroditas, compactamente dispostas, têm pétalas e sépalas pouco vistosas; no auge da floração (que, no caso do P. nivalis, decorre entre Julho e Agosto), é o amarelo das anteras que sobressai do conjunto (veja as fotos nesta página).

02/07/2024

Margarida dos pés curtos

Serra da Boneca (Penafiel, Portugal)
Erguendo-se na margem norte do Douro, a pouco mais de vinte quilómetros do Porto, a serra da Boneca atinge uma altitude máxima de 520 metros, o que representa 500 metros de desnível em relação ao leito do rio. Seria exagerado qualificar a paisagem de vertiginosa; mas, com a descoberta de que os adultos gostam de baloiçar-se sobre pequenas amostras de abismo (tirando copiosas fotos para imortalizar o feito), a serra ganhou popularidade nos últimos anos. Tanta que o afluxo de veículos ao fim-de-semana, entupindo o acesso ao parque eólico, obrigou à retirada do baloiço. Voltou o sossego, e quem gosta simplesmente de passear num lugar bonito, que não exige caminhadas longas nem proezas de escalada, continua a ter bons motivos para visitar a serra. Como seja o de apreciar, entre Março e Abril, a floração da margarida-sulfurosa (Leucanthemopsis flaveola), que tem nesta modesta cumeada a sua maior população portuguesa (ou mesmo mundial).

Serra Nevada (Granada, Espanha)
Deslocando-nos 620 quilómetros para sudeste estamos na serra Nevada, que multiplica por sete a altitude da serra da Boneca e cujas paisagens suscitam todos os adjectivos denotadores de grandiosidade (vertiginosa, esmagadora, imponente, abissal, etc.) que seria descabido aplicar à nossa serra-de-trazer-por-casa. Tal como na serra portuguesa, há na serra andaluza uma margarida-sulfurosa; e, se em qualidade (ou beleza) não há defeito a apontar-lhe, já em quantidade ela fica muito aquém do nosso produto nacional. Na verdade, e ainda que as diferenças sejam subtis, essa margarida é de outra espécie, de seu nome Leucanthemopsis pectinata. E há uma boa razão para na serra Nevada a margarida em questão (seja ela de que espécie for) ser menos abundante do que na Boneca: a serra espanhola detém uma diversidade vegetal sem paralelo em toda a Península Ibérica; e, com centenas de espécies competindo pelo mesmo espaço, o protagonismo de cada uma fica inevitavelmente diminuído.

Leucanthemopsis pectinata (L.) G. López & C. E. Jarvis


Sendo ambos endemismos ibéricos, o facto de terem distribuições disjuntas impossibilita-nos de alguma vez vermos lado a lado exemplares vivos destes dois Leucanthemopsis: o L. flaveola mora no noroeste peninsular, enquanto que o L. pectinata é exclusivo da serra Nevada, onde ocorre entre os 2000 e os 3200 metros de altitude. Assim, ainda que o segundo seja mais pequeno do que o primeiro (capítulos menores, hastes consideravelmente mais curtas, folhagem mais miúda), isso de pouco nos serve quando comparamos fotos de um e de outro. Mais útil é saber que as folhas do L. pectinata apresentam uma cor glauca e são revestidas por pêlos ásperos; as folhas do L. flaveola, por contraste, são verdes e podem ser glabras ou ter uma penugem macia. Além disso, as flores do L. pectinata ficam avermelhadas quando secam, o que não acontece às do L. flaveola.

Leucanthemopsis pectinata (L.) G. López & C. E. Jarvis
Joan Pedrol i Solanes, revisor do género para a Flora Iberica, reconhece que as linhas de separação entre as diversas espécies de Leucanthemopsis são amiúde difusas, por inexistência de caracteres diferenciadores de valor taxonómico claro e pela grande variabilidade de certas populações. Por esse motivo, de início foi tudo metido no mesmo saco, ou quase: em meados do século XIX, o botânico alemão Heinrich Moritz Willkomm considerou que haveria apenas três espécies do género (então chamado Pyrethrum) em toda a Península. Na Flora Iberica são agora reconhecidas nove, mas apenas duas em Portugal. Para nosso sossego, a distinção entre elas é trivial: uma (L. pulverulenta) tem flores brancas, a outra (L. flaveola) tem-nas de um amarelo pálido. É só quando cruzamos a fronteira que o assunto se complica.

20/06/2024

Alfinetes dos picos

Centranthus nevadensis Boiss.


O nosso cérebro está cheio de curtos-circuitos, fazendo com que memórias distantes e díspares interajam inesperadamente. A memória mais recente é do Verão passado, na serra Nevada, a 2500 metros de altitude. Apoiando-me numa rocha, após uma descida abrupta em que teria sido fácil resvalar para o precipício, fotografava, tentando controlar a tremura das mãos, as inalcançáveis plantas de flores vermelhas que pontuavam o paredão rochoso uns vinte metros à minha frente. Ampliadas as imagens, fiquei a saber que se tratava do Centranthus nevadensis, uma planta rara, restrita à Península Ibérica e a Marrocos, que em Espanha surge só nas quatro províncias mais meridionais: Almeria, Granada, Málaga e Cádiz. Era, afinal, prima direita dos vulgares alfinetes (Centranthus ruber) que enfeitam de beleza desbragada os muros velhos das nossas cidades. Os alfinetes-de-Nevada não lhes são equiparáveis em formosura, e a raridade é o artifício que usam para se fazerem interessantes. E é aí que a segunda memória, essa com vinte anos, contamina a primeira: a lembrança de, no jardim mais acolhedor da minha cidade, ter fotografado alfinetes multicoloridos (vermelhos, rosados, brancos) num muro com vista para o Douro. Num passeio sossegado, urbano e sem riscos, sem viagem longa antes ou depois, foi possível (ainda é possível) encontrar atraentes amostras de natureza. Viajar é preciso, mas é falso que certas vivências só nos aconteçam em paragens longínquas. Para não definharmos, precisamos de exercitar no quotidiano a nossa capacidade de observação do mundo natural. Quando, longe de casa, nos deparamos com o que é novo, é o contraste com aquilo que nos é familiar que enriquece a experiência.

Centranthus nevadensis Boiss.


Torna-se assim obrigatório explicar em que difere o remoto Centranthus nevadensis do doméstico Centranthus ruber. O que os une é evidente: os cachos de flores vermelhas ou rosadas, cada uma dotada de tubo alongado, cinco pétalas assimétricas, um só estame e um só estigma, ambos marcadamente salientes. Contudo, o Centranthus ruber é, por larga margem, o mais florífero dos dois, o que lhe permitiu viajar pelo mundo inteiro à conta do seu mérito ornamental. Também nas folhas os dois primos divergem: as do C. ruber são largas, lanceoladas e acuminadas, enquanto que as do C. nevadensis são pequenas, lineares e de ápice rombudo. Finalmente, o C. nevadensis tem base lenhosa e, amiúde, caules rastejantes ou mesmo pendentes; por contraste, o C. ruber é inteiramente herbáceo e apresenta caules quase sempre erectos.

Nestas duas espécies de Centranthus há um detalhe que só de perto se aprecia: os tubos florais são prolongados na base por um comprido esporão (veja-se a 5.ª foto aí em cima) — que contém, como é usual, o néctar com que a planta atrai e recompensa os polinizadores. Tal morfologia impõe que esses insectos sejam minúsculos (para caberem no tubo) ou disponham de trombas desproporcionalmente compridas. A segunda hipótese é que é válida, pois é sabido que estas plantas são polinizadas por borboletas.

Do que as fotos também dão testemunho é que afinal o fotógrafo conseguiu chegar junto das plantas. Terá perdido o amor à vida, ignorando o perigo do precipício? Nada disso. Sucedeu apenas que, uns dias depois, ainda na serra Nevada, eu e a Maria reencontrámos o C. nevadensis na berma escarpada de uma estrada, e aí a única ameaça à integridade física vinha do trânsito moderamente intenso.

Centranthus ruber (L.) DC.
(jardim da Casa Tait, no Porto)

13/06/2024

Assobios de Miranda



Havendo um período de floração declarado oficialmente nas Floras, o mínimo que se espera é que as plantas o cumpram escrupulosamente para que polinizadores, amadores e fotógrafos não sejam defraudados nas suas justas expectativas de obter nessas datas mel, contentamento e imagens (respectivamente, claro). Mas há espécies que são esquivas como lebres, seres estranhos numa era em que poucos dispensam várias fotos por hora a ilustrar as trivialidades do dia-a-dia. Mostramo-vos hoje uma dessas espécies, que nos obrigou a fazer, durante cinco anos, entre Abril e Maio, cinco viagens a Miranda do Douro. No início de Maio de um ano já só havia cápsulas secas com as sementes; a meio de Abril do ano seguinte ainda nem se notavam as hastes das flores. Só no fim de Abril de 2024 lográmos ver-lhe as flores.

Silene conica L.


Esta herbácea é anual e mede cerca de 15 cm de altura. As flores são diminutas (o cálice da flor não mede mais de 2 cm) e nota-se uma lanugem fina e macia nos talos e folhas. A formosura está quase toda nas cápsulas cónicas, que lembram cebolinhas estriadas, ou balões que apetece apertar para ver se soltam um assobio. Vimo-la sobre as muralhas de Miranda do Douro (ouvindo os pauliteiros a ensaiar ali perto), um local com saibro de fraca estabilidade e demasiado pisoteado; e em prados próximos às muralhas, com solo arenoso, cuja vegetação corre anualmente o risco de ser cortada à escovinha para não parecer que a autarquia é desmazelada a cuidar dos monumentos do concelho.

Os dados de ocorrência desta Silene em Portugal indicam que é rara por cá (são conhecidos apenas quatro núcleos com poucos indivíduos junto à fronteira leste com Espanha) e que está a perder habitat favorável. Por este andar, não tardará a desaparecer no nosso território. É certo que a sua distribuição é vasta (além da Península Ibérica, existe no centro e sul da Europa, em parte da Ásia e no norte de África), mas seria embaraçoso para cientistas, autarcas e instituições que financiam a investigação neste país que se extinguisse alguma espécie em Portugal neste século — sobretudo uma como esta, com risco de extinção solenemente anunciado na Lista Vermelha da Flora. Ninguém poderá alegar que não foi avisado.

30/05/2024

Super-margarida de La Palma



Quando os meios de locomoção eram rudimentares e as estradas inexistentes, uma ilha não precisava de se esforçar para ser grande. Mesmo que as distâncias medidas em linha recta — e são essas que os pássaros usam — não ultrapassassem dúzia e meia de quilómetros, se o caminho obrigasse a subidas e descidas por ladeiras íngremes, se cruzasse várias ribeiras de caudal impetuoso e zonas densamente florestadas, então ir de A para B poderia consumir todas as horas do dia ou ser totalmente impossível. Populações radicadas em extremos opostos de uma ilha tão pequena como as Flores (17 quilómetros de uma ponta a outra) poderiam viver uma vida inteira sem nunca se encontrarem. Para elas, o mundo desconhecido começava na própria ilha onde viviam, o que era um modo de ela ser infinita. Com as estradas que agora a rasgam, a ilha fez-se irremediavelmente pequena: quem a visita acha que a viu toda em poucas horas, e quem lá mora só quer sair para o vasto e variado mundo. São equívocos insanáveis, pois tudo é pequeno e insuficiente para quem é dominado por uma impaciência voraz.

As ilhas Canárias são, de um modo geral, bem maiores que as dos Açores. As maiores ilhas do arquipélago espanhol (Fuerteventura, Tenerife e Grã-Canária) têm, cada uma delas, uma área duas a três vezes superior à de São Miguel; apenas El Hierro, La Gomera e La Palma são ultrapassadas em área pela maior ilha açoriana. Contudo, a diferença entre La Palma e São Miguel é curta — 708 km2 contra 741 km2 — e há-de ser anulada quando se derem uma ou duas erupçõezitas adicionais. Quem ignore dados geográficos e visite ambas as ilhas terá a impressão de que La Palma é de longe a maior das duas, e esse é o resultado do planeamento engenhoso da rede viária. Em La Palma não há nada que se assemelhe a uma auto-estrada ou via rápida, os túneis são poucos e o traçado das estradas sujeita-se à orografia: ou elas serpenteiam preguiçosamente pelas curvas de nível, ou fazem-se à montanha sem que com isso consigam ser muito mais rectilíneas.

Gonospermum canariense Less. subsp. canariense


Foi por essa razão que a descoberta da super-margarida em flor quase nos fez perder o almoço. Subindo de Santa Cruz de La Palma ao Roque de Los Muchachos, e parando aqui e ali para umas fotos que tinham falhado na visita anterior, achámos que estaríamos sem problemas em Los Llanos à hora do repasto. Mas o trajecto escolhido tinha quase 100 km, apesar de a distância em linha recta entre as duas principais povoações da ilha ser apenas de 16 km. Entre paragens imprevistas e estradas percorridas com o vagar que a prudência impunha, o almoço já tardio acabou por ser num restaurante de berma de estrada (excelente, por sinal) a muitos quilómetros de Los Llanos. A detecção de exemplares floridos da super-margarida obrigou-nos a uma última paragem quando o atraso era já grande.

Dizemo-la super porque esta margarida, de nome científico Gonospermum canariense, é um arbusto lenhoso que pode chegar aos 2,5 m de altura; e o exemplar que nos obrigou à paragem de emergência era mesmo dessa envergadura. Já chamar-lhe margarida parece forçado, pois os capítulos das inflorescências são formados apenas por flósculos tubulares, desprovidos daquelas lígulas brancas que são apanágio das margaridas comuns. Sucede que o género Gonospermum, endémico das Canárias, inclui espécies com esse atributo, como o G. revolutum, endémico de Tenerife. Mesmo aqui na Europa há, entre as compostas, géneros que contam com espécies de inflorescências liguladas e com outras não liguladas (por exemplo, Anthemis arvensis e Anthemis canescens). E pode dar-se essa discrepância dentro da mesma espécie, por exemplo no Chamaemelum nobile.

Gonospermum canariense Less. subsp. canariense


Assim, a ausência de lígulas não impede este endemismo da ilha de La Palma, Gonospermum canariense, de pertencer ao clube das margaridas. Há, porém, uma divergência mais séria entre o G. canariense e o G. revolutum: o segundo não é de modo nenhum arbustivo; é uma planta herbácea vivaz, ainda que com base lenhosa. Usando apenas critérios morfológicos, as duas espécies dificilmente integrariam o mesmo género botânico — e, de facto, a planta tenerifenha chamou-se inicialmente Lugoa revoluta. Foi por culpa dos estudos moleculares que o género Gonospermum passou a abarcar esta Lugoa e ainda três margaridas endémicas da Grã-Canária (também liguladas) antes incluídas no género Tanacetum.

Contudo, a arrumação taxonómica destas margaridas canarinas não está ainda estabilizada. Naquele que parece ser o estudo mais recente sobre o assunto, datado de 2011, os autores defendem que, por razões filogenéticas, o género Gonospermum deveria ser incluído em Tanacetum. Uma alternativa, que os autores consideram pouco razoável, seria desmembrar o populoso género Tanacetum (com umas 160 espécies distribuídas pelo hemisfério norte) numa miríade de géneros morfologicamente mal caracterizados.

22/05/2024

Pomponeira dos altos cumes



Crê-se, com alguma razão, que a evolução do que existe na Terra respeita um princípio inevitável: a propriedade dos valores intermédios. Diz ela que entre um dinossauro e um colibri existiu algum elo, nem já réptil nem ainda ave, de tamanho e formato intermédios; que das plantas sem flor, como os fetos, até às orquídeas, de floração muito sofisticada, houve que passar por flores reduzidas ao essencial, verdes, sem pétalas e sem aroma, como as dos ginkgos. Mas nós sabemos que há descontinuidades nestes processos biológicos capazes de desacreditar algumas leis experimentais óbvias e complicar os estudos da história evolutiva da flora no planeta. Bom exemplo disso é a herbácea perene, de prados pedregosos de montanha, que vos mostramos de seguida.

Senecio boissieri DC. [= Jacobaea boissieri (DC.) Pelser]


O S. boissieri é um endemismo espanhol com uma distribuição curiosa: ocorre na Cordilheira Cantábrica, no centro dos Pirenéus e nas montanhas mais elevadas dos sistemas central e bético. Ainda que não se tenham descoberto diferenças morfológicas dignas de menção entre plantas das quatro regiões anteriores, um estudo genético publicado em 2006 mostrou que esta espécie abriga dois grupos distintos: um na cordilheira Cantábrica (a norte de Espanha) e outro nas serras de Guadarrama (no centro), de Baza e Nevada (a sul). Os autores explicam esta disparidade pelo isolamento geográfico e climático da população do norte relativamente às do centro e sul. Mais precisamente, supondo que a área de distribuição desta asterácea tenha sido originalmente mais vasta e menos fragmentada (o que não se sabe ao certo...), e que essa separação do território se tenha dado de modo contínuo de sul para norte (o que também não é inteiramente garantido...), os exemplares vizinhos das serras de Baza e Nevada mantiveram-se conectados com os que ocorrem na serra de Guadarrama, sendo a Cordilheira Cantábrica um refúgio disjunto a norte que se manteve frio por um período mais longo e cuja população de S. boissieri entretanto divergiu das restantes. Estando os cientistas a olhar para um passado de há muitos milhões de anos, admiramo-nos que consigam produzir esta imagem da natureza de outrora que, embora cautelosa e granulada, nos convence.



As inflorescências de todas as espécies do género Senecio que são nativas de Portugal continental têm capítulos em tons de amarelo. O tom rosa púrpura dos flósculos no S. boissieri, ainda que não seja invulgar fora da Península Ibérica, é uma raridade aos nossos olhos. As fotos são de exemplares da Serra Nevada, um dos locais de maior biodiversidade botânica, de habitats e de faixas climáticas na Europa, e foram captadas entre os 2500 m e os 3300 m de altitude.

16/05/2024

Pinheirinho crespo



Antes do advento dos estudos genéticos e da revolução que o Angiosperm Phylogeny Group trouxe às árvores taxonómicas, o género Plantago, ainda que respeitado pela sua diversidade e cosmopolitismo (ocorre em todos os continentes e alberga duzentas espécies), não suscitava particular devoção da generalidade dos botânicos. Além de as espécies que o compõem terem inflorescências pouco chamativas, não lhe incrementa o prestígio que algumas delas (por exemplo, P. lanceolata, P. coronopus e P. major) sejam plantas ruderais muito comuns. Mas o mundo foi virado do avesso e a família Plantaginaceae — encabeçada, como é bom de ver, pelo género Plantago — absorveu uma mão-cheia de plantas vistosas e com uma firme legião de admiradores, como as linárias, as bocas-de-lobo e as dedaleiras, todas elas anteriormente incluídas na família Scrophulariaceae. Ainda hoje há quem não aceite líder tão fruste para plantas tão garbosas, preferindo inventar famílias espúrias como Antirrhinaceae.

Plantago webbii Barnéoud


Há assim motivos para olharmos estas plantas com outro apreço. A versatilidade de formas é um dos atributos do género: além das ervas reduzidas a meia dúzia de espigas florais emergindo de uma roseta basal, há espécies com hastes ramificadas mas que têm ciclo de vida curto (P. afra), e outras que desenvolvem base lenhosa permanente e formam autênticos arbustos. É a esta última categoria que pertencem algumas das espécies endémicas da Macaronésia: P. arborescens (com várias subespécies na Madeira e nas Canárias, entre elas a madeirense subsp. costae), P. famarae (exclusiva de Lanzarote) e P. webbii (ilustrada nas fotos, endémica de La Palma, Tenerife e Grã-Canária).

A crespa ou pinillo blanco (são esses os nomes vulgares do P. webbii) é um arbusto de uns 30 cm de altura que cresce em lugares rochosos em zonas de montanha, geralmente acima dos 1400 metros de altitude. É frequente em La Palma no bordo da Caldeira de Taburiente, e floresce entre Maio e Agosto. As folhas, que revestem as hastes de cima a baixo, como que agasalhando-as do frio, são lineares e quase verticais, o que diferencia a planta, logo à primeira vista, das suas congéneres também lenhosas, pois tanto P. arborescens como P. famarae têm folhas concentradas nas extremedidades das hastes e em posição mais ou menos horizontal.

Pinillo, que poderíamos traduzir por pinheirinho, é um nome que em Espanha, segundo o portal Anthos, se aplica, em combinações variadas, a um grande número de espécies vegetais, incluindo, além de diversas espécies de Plantago, alguns Equisetum, várias lamiáceas dos géneros Ajuga e Teucrium, e ainda a composta Leuzea conifera. Igual confusão reina entre os pinheirinhos deste lado da fronteira. Em Portugal e em Espanha, se quisermos falar de plantas sem provocar confusões, os nomes comuns são de evitar.

30/04/2024

Muros de alecrim



Há umas semanas foi divulgado um vídeo em que uma cantora celebrava o seu amor por uma árvore, que não era aquela à sombra da qual cantava. Do que ela gostava, mais do que da árvore, era de um nome, de uma certa combinação de sílabas, e tinha fraca importância que a árvore a seu lado não respondesse por esse nome. "Magnólia", por exemplo, é uma palavra bonita. Quem diz que não podemos dar esse nome a qualquer árvore que nos agrade, mesmo que com isso contrariemos a opinião dos entendidos sobre o que é uma magnólia?

"Alecrim" é outra das palavras associadas ao reino vegetal que, pela sua inexcedível eufonia, exige ser aplicada a muitos outros arbustos além do Rosmarinus officinalis, que é aquele que a palavra oficialmente designa. O Rosmarinus, como é óbvio, deveria contentar-se com "rosmaninho"; mas, por uma daquelas incongruências em que a língua portuguesa é fértil, essa palavra nem se lhe aplica: o rosmaninho é, afinal, uma espécie de lavanda (L. pedunculata ou L. stoechas). Contudo, é verdade que o dicionário nos autoriza a chamar "alecrim" a diversas plantas, tanto arbustivas como herbáceas, desde que acoplemos ao nome uma alusão aos lugares que esse particular alecrim costuma frequentar. Assim, o alecrim-do-rio seria uma certa menta, e o alecrim-do-monte uma espécie de tomilho; mas as mesmas plantas têm designações mais sugestivas e esses nomes raramente são usados. Um nome que realmente goza de correntia é "alecrim-das-paredes": a planta assim chamada, Phagnalon saxatile, pertence à família das compostas e não é especialmente aromática. É, porém, indiscutível a sua propensão para colonizar paredes e muros velhos, mesmo em ambiente urbano. Quem percorra as ruas antigas de qualquer cidade ou vila portuguesa, e preste atenção à vegetação dos muros, dificilmente deixará de a detectar.

Phagnalon umbelliforme DC.


Em castelhano, o Rosmarinus officinalis chama-se romero — e, tal como sucede em português com alecrim, variações desse nome (como romero marino) aplicam-se a plantas muito diversas, incluindo algumas do género Phagnalon. O Phagnalon umbelliforme, ilustrado nas fotos, endémico das Canárias e aí presente em todas as ilhas excepto Fuerteventura e Lanzarote, é conhecido no arquipélago como mecha romero. Não é planta que viva preferencialmente em muros, mas gosta de locais pedregosos e soalheiros. Ainda que não haja falta desse tipo de habitat nas ilhas onde lhe calhou viver, em quase todas elas a planta é bastante escassa. Só parece ser frequente no extremo sul de La Palma, onde tivemos ocasião de a fotografar.

O epíteto umbelliforme, judiciosamente escolhido pelo grande botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle (que viveu entre 1778 e 1841 e nunca visitou as Canárias, tal como nunca visitou a maioria dos lugares de onde provinham as muitas plantas a que deu nome), fornece uma descrição perfeita deste alecrim canário: são as umbelas compostas por várias dezenas de capítulos que o diferenciam claramente de todas as outras espécies conhecidas de Phagnalon. De resto, e a não ser pelo tamanho reduzido, cada um desses capítulos encaixa bem no figurino habitual do género: apresenta formato cilíndrico; as bráteas involucrais são alongadas, inermes e com margem membranácea; e as minúsculas flores que o compõem são todas tubulares (não há "pétalas" visíveis).

25/04/2024

Vinte e cinco

Um jardim tinha vinte e cinco árvores. Vinte e quatro eram pequeninas, e uma era enorme: com um tronco grosso e orgulhoso, com o topo parecendo tocar o céu. Visto de cima o jardim parecia ter uma única árvore.
Essa árvore, porém, cresceu tanto que os seus frutos ou eram comidos pelos pássaros, lá em cima, ou caíam: tornando-se autênticas bombas, tal a velocidade com que chegavam ao solo.
O dono do jardim, como não aproveitava nada dessa árvore e como a queda dos frutos se tornava a cada dia mais perigosa, decidiu cortá-la.
Agora quem visse de cima o jardim ficava com a sensação de este ter aumentado, pois conseguia distinguir, claramente, vinte e quatro árvores.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht (Editorial Caminho, 2004)

14/04/2024

Histórias de piratas



Os piratas eram criaturas previsíveis. Quando, em nome de um rei qualquer, tentavam invadir e saquear ilhas inimigas, procuravam sempre as enseadas que dessem abrigo aos navios e permitissem chegar rapidamente às povoações no interior da ilha. Nas ilhas com falésias cortadas a pique, impossíveis de escalar, os escassos pontos de acesso estavam ciosamente vigiados e defendidos, e pouco mais restava aos piratas do que ensaiar umas canhoadas a uma distância prudente antes de se porem ao fresco. Não era vida fácil, a deles. Mais valia ficarem-se pelos tradicionais assaltos aos navios mercantes: com maior ou menor derramamento de sangue, essas empreitadas sempre lhes traziam algum proveito.

La Palma obedece com rigor ao figurino da inviolabilidade — vencer e subjugar os Guanches não devem ter sido, nesta ilha, tarefas fáceis para os conquistadores espanhóis. Grande parte da costa, sobretudo no norte da ilha, está preenchida com falésias com 100 a 300 metros da altura. Aqui e ali alguns barrancos permitiriam ascender ao interior da ilha; mas, além de serem acidentados e íngremes, não dispunham de ancoradouros nas proximidades. No sul da ilha o panorama muda, e são vários os pontos bordejados por encostas baixas, de fácil escalada — mas seria também aí que as defesas da ilha estariam concentradas.

Os piratas modernos vêm de avião e vão-se embora uma semana depois. A ilha esforça-se por recebê-los bem, talvez porque os novos corsários deixem mais do que levam. Para eles não há falésias inacessíveis e, em vez de as atacarem de baixo, chegam por cima, aproveitando os caminhos de acesso às praias que os habitantes da ilha amavelmente esculpiram nas escarpas. As plantas que viveram em sossego durante os séculos de inofensiva pirataria são agora obrigadas a conviver com visitantes que as pisoteiam distraidamente, sem lhes dedicarem sequer um segundo de atenção. Ainda que façamos parte das hostes invasoras, tratamos as plantas com respeito: evitamos pisá-las, queremos saber-lhes os nomes e como vieram aqui parar.

Polycarpaea smithii Link


A Polycarpaea smithii, que encontrámos em falésias de precário equilíbrio na costa norte de La Palma, e que vive também em La Gomera e em El Hierro, é uma das nove espécies do seu género nas Canárias. Quase todas são endémicas do arquipélago; a excepção é a P. nivea, que ocorre igualmente em Marrocos. O nome Polycarpaea, que significa "com muitos frutos", não é particularmente elucidativo quanto à morfologia deste género de cariofiláceas distribuído por zonas tropicais e sub-tropicais de África, Ásia e América. Incluindo desde herbáceas anuais a pequenos arbustos, as espécies deste género apresentam flores com sépalas hialinas (por vezes avermelhadas) e pétalas diminutas (em geral brancas ou de cor creme), reunidas em cimeiras densas; as folhas, frequentemente carnudas, variam de lineares a obovadas. A P. smithii, que é lenhosa, ramificada e de hábito rasteiro mais ou menos pendente, com hastes de não mais que 30 cm de comprimento, tem folhas lineares carnudas, opostas ou amiúde agrupados em verticilos.

Para se apreciar a variabilidade do género, mostramos em baixo a Polycarpaea carnosa, essa fotograda em Tenerife, na estrada do Teno. Tem o mesmo hábito rastejante e pendente da planta de La Palma, e o mesmo gosto por habitats rochosos; no entanto, as suas folhas são quase orbiculares e as sépalas são de um verde amarelado. No aspecto geral, e até pelas folhas arredondadas e suculentas, a P. carnosa quase se confunde com alguma espécie de Sedum ou de Aeonium.

Polycarpaea carnosa C. Sm. ex Buch