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05/07/2020

Correjola imperial

Reconhecer um objecto, ou uma imagem dele, é uma virtude que aprendemos cedo a dominar. Em criança, não hesitamos entre um gato ou um cão, ainda que ambos se possam inicialmente confundir na mente infantil com um triciclo. À medida que o mundo se agiganta e o cérebro de aprimora, a lista de objectos desconhecidos vai-se reduzindo. Conseguimos identificar a maioria instantaneamente, e até os substituimos por entradas num catálogo abstracto, um vocabulário, o que facilita o armazenamento na memória de toda essa informação. Descrito assim, parece fácil criar um algoritmo computacional que permita a uma máquina bem informada repetir este procedimento, segmentando a imagem para destacar elementos do fundo e reconhecer automaticamente o que nela é essencial. Mas não. Na busca de imagens nos motores de pesquisa da internet, o que em regra se procura é uma palavra, ou várias, no texto de apoio às imagens. O que parece batota. Ainda que alguns destes mecanismos consigam seleccionar imagens parecidas com outras, comparando por exemplo a gama de cores que exibem, decerto tais tentativas podem ingenuamente reunir aviões e pássaros numa mesma classe.



Este arrazoado vem a propósito do trabalho de investigação muito interessante que se tem vindo a desenvolver em matemática sobre reconhecimento de imagens, seja para conseguir ler pautas de música antigas e quase ilegíveis, seja para aperfeiçoar a focagem automática nas máquinas fotográficas, ou ainda para se identificarem plantas numa saída de campo. Não temos notícia de que um algoritmo de reconhecimento de plantas por imagens digitais esteja já em uso, mas seria realmente muito conveniente poder fotografar num prado uma planta em flor, e surgir de imediato no écran o nome científico dela. Na falta dessa ajuda, o que fazer? Vejamos um exemplo.



Telephium imperati L.


Nestas fotos estão imagens de uma planta que vimos em rochas calcárias na Cantábria. As flores redondas em cimeiras densas e a folhagem glauca e glabra, com talos de couve e hábito rastejante, lembram, em tamanho grande, as das espécies do género Corrigiola, não? Com este palpite, vamos a alguma Flora consultar a família deste género, que é a Caryophyllaceae, verificar se há alguma espécie parecida. Esta é uma tarefa de comparação que o cérebro humano faz em geral perfeitamente, e que em poucos minutos nos fornece o bilhete de identidade da planta fotografada:

Família: Caryophyllaceae
Subfamília: Paronychioideae
Tribo: Corrigioleae
Género: Telephium L.
Espécie: T. imperati L.

E ficamos a saber, através de um motor de pesquisa da internet buscando pela palavra Telephium, que é um género monoespecífico, e que a sua única espécie ocorre na região mediterrânica, na metade este da Península Ibérica e um pouco mais a leste. Uma nota adicional dá conta de que o nome actualmente aceite, proposto por Lineu em 1753, alude ao deus Telephus da mitologia grega, de quem se diz ter sido ferido por Aquiles na trágica história de Helena de Tróia, e depois curado por uma destas plantas.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

09/10/2019

Cores do deserto



Um deserto não é um lugar vazio: tem plantas e tem bichos, embora pouco de cada. A água que não se vê e quase nunca cai do céu esconde-se nas profundezas ou condensa-se com a friagem nocturna, e há sempre plantas capazes de aproveitar essa improvável e invisível humidade. Desertos há muitos e variados: há os de areia como o de Sahara; os de terra vermelha e pedregosa, ornamentada com cactos, como os que aparecem nos westerns; e os desertos de lava onde a cobertura vegetal obliterada pelas erupções vulcânicas ensaia um regresso que é trabalho para séculos.

O Parque Nacional de Tymanfaya, no sudoeste da ilha de Lanzarote, é um deserto do último tipo. As erupções que deram origem a esta paisagem de pedra negra semeada de vulcões iniciaram-se em 1730, duraram seis anos, e tiveram um encore um século mais tarde, em 1824. O regresso da vegetação tem sido vagaroso, mas o negro absolutamente dominante já vai admitindo algumas tímidas pinceladas de verde, difíceis de detectar à distância. Nas bermas dos caminhos, a maior acumulação de solo, ajudada pela grande carga de visitantes, tem permitido o estabelecimento de uma vegetação de carácter sobretudo ruderal. Certamente para impedir essa contaminação, e para que a vegetação evolua de forma o mais possível natural, boa parte do Parque de Tymanfaya foi vedada a visitantes. Mesmo na parte acessível, as tabaibas e outras plantas nativas vocacionadas para a secura têm colonizado esparsamente campos de lava, fendas de rocha e zonas cascalhentas.



Polycarpaea divaricata (Aiton) Poir.


Pese embora a nudez aparente da paisagem, a lista da flora do Parque Nacional de Tymanfaya não é curta: dados oficiais reportam mais de 300 espécies de plantas vasculares, a que se somam umas 150 espécies de briófitos, fungos e líquenes. A Polycarpaea divaricata, acima ilustrada, é uma das duas espécies do seu género que ocorrem em Tymanfaya. Endémica das Canárias, presente em todas as ilhas do arquipélago, é conhecida como pata conejo (= pata de coelho), nome também dado a outras congéneres suas. É uma planta rasteira, glabra ou com pubescência rala, de textura herbácea mas às vezes com base lenhosa, com folhas lanceoladas ou espatuladas, de ápice agudo ou arredondado. As inflorescências são terminais, ramificadas, com uma atraente coloração entre verde, rosa e laranja que é dada pelas sépalas. As flores são diminutas, com cinco pétalas brancas e cinco estames, e parecem abrir cada uma de sua vez: a cada momento a maioria delas apresenta-se fechada.

A Polycarpaea nivea (em baixo), que encontrámos também em Lanzarote, é uma planta mais encorpada, que alcança porte quase arbustivo e que, pelo menos nessa ilha, vive apenas em areias e rochas litorais. As dunas a norte da ilha, encaixadas entre o Malpaís de La Corona e o porto de Orzola, não são muito extensas, mas são das mais bonitas que alguma vez vimos. Elegantes arbustos da família Chenopodiaceae (Suaeda, Salsola, Atriplex, etc.) acolhem a surpresa amarela da Cistanche lutea, aqui e ali surgem tapetes coloridos de Frankenia, um malmequer de flores amarelas (Senecio leucanthemifolius) forma compactas almofadas de folhas carnudas, e até a nossa bem conhecida Euphorbia paralias faz uma breve aparição. É a essa colecção que se junta a Polycarpaea nivea, planta de folhas suculentas, densamente coberta de penugem prateada, que surge em todas as ilhas do arquipélago canário com excepção de La Gomera. Está também assinalada em Marrocos, Mauritânia e Cabo Verde, quase sempre em zonas costeiras muito áridas.

O nome feminino Polycarpaea significa "com muitos frutos". É um género sobretudo africano, sem representantes na flora europeia. Polycarpon, que significa exactamente o mesmo mas no masculino, é nome de um género diferente (embora pertença à mesma família), esse sim integrando espécies europeias. Entre elas avulta o Polycarpon tetraphyllum, uma pequena herbácea anual muito comum no nosso país, sendo até usual encontrá-la em muros urbanos.


Polycarpaea nivea (Aiton) Webb

17/05/2019

Exílio em Lanzarote



A quantidade de termos escolhidos pelos taxonomistas para nomear plantas pequenas, ou de porte rasteiro, e a frequência com que são utilizados revelam que esses cientistas se preocupam com a diversidade do léxico (o que se agradece pois torna a leitura das Floras menos entediante) e dão especial importância a esse pormenor morfológico. Realmente a apreciação do mundo parece mais simples se valorizarmos o contraste, e o dicionário gasta boa parte do seu esforço com antónimos. Ao que é mediano, dito normal, dedicamos em geral apenas a atenção bastante para entender que preenche o entremeio que separa o muito do pouco.

Os botânicos reservam nomes delicados para as plantas pequenas (ou menores do que outras do mesmo género), ou que vivem rentes ao chão, ou ainda que são pouco apelativas: humilis, procumbens, terrestris, parvus, minutus, nanus, tristis são alguns dos mais característicos. A planta que hoje mostramos mal se ergue do solo (e já se chamou Minuartia procumbens) e rasteja espalhando-se nas areias onde habita (e houve quem a designasse Alsine extensa), mas o epíteto que está em vigor é geniculata. Refere-se a joelhos, e alude às dobras dos talos que permitem à planta espraiar-se em muitas direcções, que fariam lembrar joelhos flectidos.



Minuartia geniculata (Poir.) Thell. [= Rhodalsine geniculata (Poir.) F. N. Williams]



A Minuartia geniculata é uma herbácea perene de folhas estreitas e opostas, talos ramificados e glandulosos, e flores rosadas com pétalas em geral menores do que as sépalas, que são debruadas por uma membrana branca e fina. Comum em Gibraltar e noutros pontos da costa mediterrânica, onde os invernos não costumam ser demasiado frios, ocorre também nas Canárias, conhecendo-se populações nas ilhas de Lanzarote, Fuerteventura e Gran Canaria. Os exemplares que vimos, floridos em Dezembro, estavam na Playa de las Conchas, da ilha La Graciosa, a norte de Lanzarote.

Esta espécie também consta da lista da flora de Portugal (e da Flora Ibérica), com o nome Rhodalsine geniculata, mas os últimos avistamentos por cá foram em 1949 e 1951 em Sines, por Abílio Fernandes, e em 1968 na praia de São Torpes, também no concelho de Sines. As prospecções infrutíferas feitas no âmbito da elaboração da Lista Vermelha da Flora de Portugal sugerem que ela está provavelmente extinta em Portugal.

07/02/2018

Erva de quebrar castelos



Petrocoptis pyrenaica subsp. glaucifolia (Lag.) P. Monts. & Fern. Casas


Arrumaríamos esta planta na prateleira do género Silene, como fez Mariano Lagasca que, em 1805, a designou Silene glaucifolia, se tivéssemos acesso apenas a fotos, sem poder notar como a planta é bastante mais pequena do que as silenes que conhecemos (não vai além dos 30 cm de altura) e como são igualmente diminutas as folhas glaucas e as flores, ainda que estas se reúnam em cimeiras muito vistosas. Se atendêssemos ao significado do nome do género onde ela se acolheu em 1988, por proposta de Pedro Montserrat e Fernández Casas, a estranheza não seria menor. É que Petrocoptis significa, em grego, o mesmo que Saxifraga em latim, resultando da junção de pedra (petro, saxi) e fissura (coptis, fraga). Mas a taxonomia não dá licença para estas traduções, e é certo que a planta das fotos, ainda que muito distinta das saxífragas, aprecia como estas as fendas de rochas, que preenche dando a impressão de ter sido capaz de abrir caminho na pedra. Apesar do aspecto frágil, é perene, com as plantas mais antigas formando uma base lenhosa. Gosta de penumbra e de substrato calcário seco, e a floração resiste até meio do Verão.

A espécie P. pyrenaica admite três variantes que foram promovidas a subespécies, distinguindo-se a P. pyrenaica subsp. glaucifolia, que é endémica da cordilheira cantábrica, das outras duas por não ter uma roseta basal de folhas. A distribuição em altitude é outro pormenor curioso desta subespécie. Há registos da presença dela entre 0 e 2000 metros de altitude, afirmando a Flora Ibérica que, em geral, as pétalas nos exemplares que ocorrem em regiões mais altas são esbranquiçadas, sendo cor-de-rosa ou mesmo púrpura nas mais baixas. O nosso passeio nas Astúrias para observar estas plantas fez-se entre os 600 metros (pela estrada muito arborizada que circunda a barragem de La Malva) e os 900 metros da Senda del Oso. Uns 80 km a sul, já na província de Léon, um desvio no percurso de regresso levou-nos ao castelo de Cornatel, em cujas muralhas vive uma outra versão da planta, a P. pyrenaica subsp. viscosa.


Castelo de Cornatel & Petrocoptis pyrenaica subsp. viscosa (Rothm.) P. Monts. & Fern. Casas

05/12/2017

Saponária dos assobios


Saponaria ocymoides L.


A grande vantagem de planearmos os passeios ao milímetro é podermo-nos desviar vários quilómetros da rota traçada. Se o improviso correr mal, se aquele desvio que por impulso fazemos afinal não se revelar compensador, podemos sempre retroceder e conformarmo-nos com o que estava previsto. O planeado é apenas a rede de segurança, um último recurso para que o passeio valha a pena. Mesmo nesta época dos satélites, do Google Earth e do GPS, os caminhos só se conhecem caminhando, e muitos vezes, quando pisamos o local que antevíramos nas imagens aéreas, percebemos que o melhor de dois caminhos é aquele que não tínhamos mapeado.

Em Maio, na nossa semana de vagabundagem pela cordilheira cantábrica, quisemos visitar a cascata de Las Pisas, em Soncillo, na província de Burgos. O trilho até lá, embrenhando-se por um bosque cerrado, era difícil de adivinhar pelas imagens aéreas, mas pareceu-nos que partiria de Villabascónes, um povoado com cinco ou seis casas convertido ao turismo de habitação. Erro nosso, como poderíamos ter verificado pelo mapa geográfico de Espanha (disponível aqui). Seguimos teimosamente o caminho errado, esperando que ele, dando-se conta do equívoco, guinasse à esquerda e se dirigisse para a cascata. Quando compreendemos que nunca chegaríamos a ela, já tínhamos sido seduzidos pelo ribeiro (arroyo Saúl, informa o mapa) que o caminho insistia em acompanhar, e tornara-se-nos tão impossível retroceder como a um marinheiro arrastado pelo canto da sereia. Havia faias, freixos, amieiros e... tílias, uma novidade para quem, como nós, só as conhecia domesticadas em jardins. Ervas-pombinhas (Aquilegia vulgaris) e madressilvas (Lonicera sp.) acrescentavam azul e amarelo à exuberância do verde; e, nos pontos onde o caminho se afastava do leito encaixado do ribeiro, deu-se o nosso feliz reencontro com o raríssimo (em Portugal) Aphyllanthes monspeliensis, que se empoleirava nos taludes soalheiros.

A certa altura o caminho cruzava um viaduto e desembocava numa estrada, seguindo o exemplo do ribeiro que, no mesmo ponto, desaguava num rio de caudal já respeitável (rio Nela, afluente do Ebro). Quebrara-se o feitiço e já podíamos inverter a marcha. Logo antes do viaduto, atrás do portão de uma casa decrépita, um cão triste ladrava para justificar a existência. Fingindo ir embora, esperámos que ele se calasse para ir, em bicos de pés, fotografar uma planta de flores cor-de-rosa, parecida com um assobio (assim chamamos nós às Silenes), que crescia num muro.

Dar nome à suposta Silene revelou-se intrincado, e o problema só se resolveu quando concluímos que não se tratava de uma Silene. Se fôssemos botânicos conscienciosos (mas nem botânicos somos), uma inspecção à lupa revelaria que a planta tinha apenas dois estigmas em cada flor, enquanto que as do género Silene têm três (ou raramente cinco) -- fotos aqui e aqui. Sendo nós irremediavelmente descuidados, acabámos por nem registar esse detalhe crucial nas fotos. Como iríamos adivinhar estar em presença de uma prima da Saponaria officinalis? Uma planta peluda, de múltiplos caules decumbentes, agarrada a um muro, de flores diminutas: eis um retrato em tudo contrastante com o da erva-saboeira, que é glabra, tem caules erectos, flores e folhas grandes, e cresce em terrenos húmidos.

Em Espanha ocorrem cinco espécies de Saponaria, quatro delas ausentes de Portugal. Vendo-lhes as caras (espreite ao fundo desta página), concluímos que a Saponaria ocymoides, acima ilustrada, se integra bem no conjunto, e que quem mais destoa é a S. officinalis. A S. ocymoides ocorre em grande parte da Europa mediterrânica, desde os Balcãs até Espanha. É uma planta perene de 30 a 50 cm de altura, de base lenhosa nos exemplares mais idosos, que por vezes se apresenta com os caules muito emaranhados. O epíteto ocymoides refere-se à (hipotética) semelhança da planta com o manjericão (Ocimum basilicum).

15/11/2016

Sapinhos no sapal




Spergularia marina (L.) Besser

Os sapinhos do reino vegetal não coaxam nem têm patas, mas pelo menos são verdes. Os nomes comuns das plantas, quando os há genuínos, conseguem ser tão misteriosos como certos nomes científicos. Com um pouco de imaginação, lá se consegue engendrar uma explicação mais ou menos plausível mas sem qualquer base segura. Assim, algumas plantas do género Spergularia dão-se bem em habitats salobros de estuários ou de rias - ou seja, naqueles lugares atraentes para anfíbios a que costumamos chamar sapais. E que haja sapinhos num sapal parece quase uma necessidade. O maior óbice a esta pseudo-explicação é que as espécies mais comuns do género (como a Spergularia purpurea) preferem lugares secos, às vezes pisoteados, e não têm especial apetência pelo sal.

Um sapinho que gosta mesmo de água com sal é a Spergularia marina que ilustra este texto, fotografada no início de Junho na Barrinha de Esmoriz. O epíteto marina já denuncia, aliás, a sua preferência por habitats costeiros. Para dificultar a vida ao amador de botânica, não é esta a única Spergularia que surge em prados salinos e em juncais de beira-mar: uma outra não menos frequente nesses lugares é a S. media, sendo até habitual encontrá-las juntas. Uma olhada às fotos desta última convence-nos que distingui-las não é trivial, como aliás seria de esperar num género tão uniforme como este. Mas não é tarefa impossível: se atentarmos no aspecto geral da planta, a S. marina é mais grácil, com caules mais finos e flores mais pequenas do que a S. media. Não havendo oportunidade de as observar lado a lado, este critério comparativo de pouco nos serve. Aí socorremo-nos de um outro critério mais objectivo, mas que talvez exija o uso de lupa (ou de um par de olhos bem afinados): a Spergularia marina tem um número variável de estames por flor, em geral seis ou menos (confira nas duas últimas fotos), ao passo que na S. media as flores nunca têm menos que sete estames e quase sempre têm dez (veja esta foto).

Já que o método da contagem se revela, neste caso, tão bem sucedido, eis mais um exemplo da sua aplicação. O nome Spergularia provém de Spergula, e informa-nas que estes dois géneros são semelhantes. E são na verdade tão próximos que alguns autores até os consideram sinónimos. A Spergula arvensis, de flor branca, é presença habitual em pousios ou na orla de campos de cultivo. Não é porém a cor das flores que separa os dois géneros, pois também no género Spergularia há espécies de flor branca (lembremos a nossa bem conhecida Spergularia azorica). O segredo está no número de estigmas, que são aqueles apêndices terminais do carpelo (parte feminina da flor) que recebem os grãos de pólen. Na Spergularia são três os estigmas (última foto acima e também aqui), enquanto que na Spergula eles são cinco (veja aqui).

12/05/2016

O que não se vê


Minuartia hybrida (Vill.) Schischk.
Se o leitor erguer um dos seus dedos mais pequenos, terá uma ideia aproximada do tamanho desta planta. Mesmo em flor, só por mero acaso reparámos nela no chão calcário e magro de uma antiga pedreira em Vimioso. Sendo anual e tão débil, a sua sobrevivência depende de alguma estabilidade neste habitat, garantida enquanto a exploração de inertes não for mais rentável. E, quem sabe, daqui a alguns anos talvez ela atinja a bitola teórica de 22 cm de altura máxima que algumas chaves taxonómicas lhe atribuem.

Quanto ao género Minuartia, já aqui tínhamos mostrado a Minuartia recurva, herbácea perene de ambientes frios e rochosos de montanha e de que, por cá, só se conhecem populações nas serras do Gerês e da Estrela. A Península Ibérica foi favorecida por este género -- cujo nome homenageia o naturalista catalão Juan Minuart -- e conta com não menos que dezoito espécies. Se o leitor tiver tempo, detenha-se a comparar as imagens seguintes de algumas delas: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9.

Entre nós, falta encontrar plantas da terceira espécie que ocorre em Portugal, a M. mediterranea, de que, curiosamente, não há ainda imagens no portal Flora Silvestre del Mediterráneo e só são mostradas sementes no Anthos. Segundo a Flora Ibérica, deveríamos vê-la no centro e sul do país, em particular no Alto Alentejo e Ribatejo, mas há risco de confusão com a M. hybrida, com quem, homessa, até pode hibridar.

16/02/2016

O cravo dos cravos


Dianthus armeria L.
Algumas herbáceas hesitam entre um regime anual ou um ciclo bianual se o habitat tem poucos recursos ou é de elevado risco. O ano extra que por vezes se concedem serve para poupar as sementes que, desconfiam elas, não germinariam naquele ano em boas condições. Esta estratégia permite-lhes resistir em solos com poucos nutrientes, aguentar climas agrestes ou sujeitos a longos períodos de seca, e perdurar em locais improváveis. O cravo das fotos é um exemplo desse esforço de sobrevivência em condições extremas, nem sempre bem sucedido. As plantas do género Dianthus que ocorrem em Portugal, país rico em cravos silvestres, alguns deles endémicos, necessitam de boa exposição solar e, por isso, é frequente encontrarmos grandes populações deles em escarpas, taludes de estrada, dunas, clareiras de matos, afloramentos rochosos em leitos de cheia ou zonas pedregosas de montanha. Mas a espécie D. armeria é mais exigente, e requer prados e terrenos baldios ou em pousio na orla de bosques, com substrato arenoso ou argiloso. Além disso, tende para a indolência, e só algum distúrbio do solo no Inverno parece encorajar a germinação das sementes. Não surpreende, por isso, que os registos desta espécie em Portugal estejam confinados a meia dúzia de sítios no nordeste (embora a Flora Ibérica o assinale também na Beira Baixa) e sempre com número reduzido de indivíduos. A mesma redução de efectivos é notória em Inglaterra, Escócia e Irlanda, onde as populações decresceram para níveis alarmantes após a conversão de muitos prados em terrenos arados, florestados ou impermeabilizados - mas onde, por certo, recuperará através do zelo louvável de ecologistas, botânicos e amadores que costumamos testemunhar em outras ocasiões.

Vimos estes exemplares em Campo de Víboras, num dia de Julho quente e com muita luz, a conviver com zelhas, peónias e orquídeas. O mais alto media cerca de 60 cm, sem requebros nem a formar moitas como é comum noutras espécies de Dianthus; notavam-se-lhe bem as folhas opostas (duas por nó) e penugentas, e as rosetas basais de cor verde nítido em vez do tom glauco mais frequente na folhagem deste género. Havia poucas flores (têm cerca de 15 milímetros de diâmetro), que não são perfumadas mas são muito vistosas pelo rosa purpurino das pétalas maculado de sardas. Podem ver na última foto que elas se agrupam em cimeiras justas como vassouras, protegendo-se com enormes brácteas.

O nome vernáculo em inglês é Deptford pink, atribuído em 1633 pelo naturalista Thomas Johnson que, neste local perto de Londres, o confundiu o Dianthus deltoides. Em português não se conhece designação comum; o título acima refere-se apenas ao facto de os epítetos Dianthus e Armeria significarem ambos cravo.

28/11/2015

Cravo arrepiado


Dianthus hyssopifolius L. [= Dianthus monspessulanus L.]


Poucas vezes falamos de cravos, a não ser talvez para lamentar que o símbolo da liberdade em Portugal seja uma planta de estufa. Os nossos cravos espontâneos, embora sejam presença assídua em afloramentos rochosos de qualquer natureza de norte a sul do país, nunca atraíram o interesse dos horticultores. Se, quarenta anos depois, uma nova revolução nos viesse sacudir do torpor, mais uma vez não haveria nas floristas cravos silvestres para colocar na lapela. E, agora que as flores passaram de moda e a tristeza dos nossos jardins não tem remédio, talvez nem nos lembrássemos de eleger uma flor como bandeira revolucionária.

Não são porém razões políticas que nos levam a não dar a vez (e a voz) aos cravos. É que a tarefa de destrinçar espécies é muitas vezes impossível, como aliás reconhecem os autores da revisão do género Dianthus na Flora Iberica (vol. II, 1990). Raramente nos deparamos com exemplares cuja identificação seja inequívoca, o que sobremodo nos transtorna a organização do arquivo fotográfico. Na Cantábria, o cômputo final foi equilibrado: dos dois Dianthus que fotografámos, um deles foi engrossar as hostes dos não identificados, e o outro é hoje orgulhosamente exibido no escaparate. O Dianthus hyssopifolius, a fazer fé na Flora Ibérica, ocorre em Portugal nas províncias do Minho, Douro Litoral, Beira Alta e Beira Litoral, mas os únicos registos no portal Flora-On reportam-se, em vez disso, a Trás-os-Montes. Se a sua presença no nosso país é residual, as suas abundantes populações no norte de Espanha e noutras regiões montanhosas da Europa mais do que compensam esse défice. Até porque na metade sul de Portugal temos outro cravo, Dianthus broteri, que, pelas suas pétalas igualmente longas e fimbriadas, parece ser obra do mesmo artista.

Herbácea perene, cespitosa, habitante de clareiras de matos, prados alpinos e substratos rochosos, o Dianthus hyssopifolius singulariza-se pelas folhas compridas, às vezes com mais de 10 cm de comprimento, e pelas flores grandes e vistosas, com cerca de 3 cm de diâmetro. A sua floração é sobretudo estival, mas, como acontece com a generalidade dos seus congéneres, pode-lhe acontecer florir esparsamente em qualquer época do ano.