27/05/2022

Limónios da ilha dos Lobos

A nordeste de Fuerteventura, a cerca de 2km de distância, pode avistar-se uma ilhota arredondada que actualmente não tem habitantes permanentes. Já os teve, a maioria deles pescadores e respectivas famílias, que competiam pela apanha do peixe e moluscos com uma população muito numerosa de lobos-marinhos (de nome científico Monachus monachus). Além de comerem bastante (os adultos medem cerca de 3 metros e pesam uns 300 quilos), estas focas dóceis gostam de dormir em sossego e de relaxar ao sol em praias remotas, sem intrusos nem ruído. E precisam de grutas não perturbadas para cuidar das crias, em locais muitas vezes assolados por ventanias e ondas de mar agitado. Juntemos a este começo de vida rodeado de perigos o apreço durante séculos pela pele, carne e gordura destas focas, e não nos surpreendemos com o resultado desta disputa de terreno, bens e alimentos entre humanos e focas: na ilha dos Lobos não resta hoje nenhum lobo-marinho. A população desta espécie no Atlântico, que se distribuía pelas costas do Norte de África e arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores, conta agora com apenas duas colónias, uma delas na Madeira, com não mais do que 120 focas no total. E a população mundial da foca-monge não augura nada de bom: só tem núcleos pequenos e muito distantes entre si, todos em declínio.



Não fomos, portanto, à ilha dos Lobos para ver os lobos-marinhos. A razão foi outra: nas lagoas do interior da ilha vive a única população conhecida deste endemismo canariense.

Limonium bollei (Wangerin) Erben


O impacto de visitantes à ilha dos Lobos é hoje controlado. O acesso faz-se de barco (alguns de fundo transparente) a partir do porto de Corralejo, em Fuerteventura, e há um limite diário de visitantes. Cada um recebe dois bilhetes numerados (de cores distintas, para se reduzirem os enganos), um dos quais deve ser entregue à chegada à ilha e outro à saída; deste modo, os vigilantes sabem quantos turistas estão em cada momento na ilha e garantem que nenhum fica a pernoitar nela sem licença. Os trilhos são extensos, mas somos recordados a cada passo da proibição de sairmos deles ou de fazermos demasiado ruído. E, claro, há locais de acesso vedado, especialmente em períodos de nidificação de aves.

As Canárias são abrigo de cerca de 20 espécies endémicas de Limonium, quase todas raras e ameaçadas pela destruição do habitat e pela colheita das flores — que, além de serem vistosas (de cálice azul-violeta e corola brancas ou rosa), se mantêm bonitas por muito tempo depois de secas. O L. bollei, que aprecia arribas, areias e sapais junto ao mar, floresce entre Março e Setembro, e a haste floral tem cerca de 40cm de altura. O formato das flores não difere muito do de outras espécies de Limonium, e é pelas folhas que melhor elas se distinguem. Atente nesse pormenor ao comparar o L. bollei com o Limonium arbustivo das fotos seguintes, muito ramificado, quase sem folhas e com inflorescências longas.

Limonium tuberculatum (Boiss.) Kuntze


Do L. tuberculatum, de cuja presença há também registo no norte de África e em Cabo Verde, só se conhece hoje nas Canárias a população da ilha dos Lobos.

17/05/2022

O problema da salsa

Petroselinum crispum (Mill.) Fuss


A cozinha popular portuguesa — aquela que é praticada nos restaurantes acessíveis a salários como os nossos, congelados vai para duas décadas — tem vindo gradualmente a prescindir de temperos e condimentos, bastando-lhe o sal para despachar a ração diária de fritos e grelhados. As ervas aromáticas vão sendo descartadas e caindo no esquecimento, prevalecendo talvez a ideia de que o seu uso iria adulterar o sabor natural dos alimentos. Presume-se assim que eles tenham algum sabor independente da preparação a que são sujeitos, e que ao comermos não buscamos o prazer da degustação mas sim o conhecimento de algo supostamente genuíno.

A salsa, essa erva que reputaríamos de indispensável em tantos cozinhados, também tem vindo a perder terreno. Durante algum tempo, abandonado o hábito de a usar como condimento, muitos restaurantes, porque continuavam a tê-la à mão e havia que dar-lhe utilidade, empregavam-na como enfeite. Não havia travessa de filetes de pescada ou de tripas que chegasse à mesa do comensal sem o sainete de um raminho de salsa. O cliente contemplava a salsa, não a achando particularmente bonita, e com um gesto rápido de talheres empurrava-a para a borda da travessa, onde ela permaneceria até que, terminada a refeição, toda a prataria regressasse à cozinha. Talvez sejam caluniosas as suspeitas de que o mesmo ramo de salsa, enquanto mantivesse o viço, regressava periodicamente às salas de refeições enfeitando travessas de sucessivos clientes, porque afinal nunca faltou salsa e, tratando-se de um produto barato, seria imperdoável tanta forretice.

O efeito ornamental da folha de salsa nunca foi convincente. Mesmo sem solicitarem aos clientes que preenchessem inquéritos de satisfação, os restaurantes acabaram por concluir que a salsa só por si era insuficiente para dar um toque de requinte e sofisticação estética aos pratos do dia. E houve a questão do IVA. Enquanto o governo não desceu a taxa aplicada às refeições, a margem de lucro dos restaurantes era tão apertada (a acreditar nas queixas dos proprietários) que até os ramalhetes de salsa encomendados à mercearia da esquina iriam desequilibrar as contas. O IVA acabou por descer, mas já não foi a tempo de salvar a salsa.

Esta situação é lamentável. Urge recuperar a salsa — assim como todos as ervas culinárias que vêm preguiçosamente sendo desprezadas — e, mais do que isso, dar-lhe oportunidade de se regenerar, usando-a como verdadeiro condimento e não como pífio adorno. Mesmo que os restaurantes persistam em desdenhá-la, podemos nós fazer bom uso dela nos nossos cozinhados caseiros. Não é preciso gastar um cêntimo nem dispor de um quintal doméstico onde cultivá-la, porque a planta cresce ao deus-dará pelo país fora e é só servimo-nos do que a natureza oferece.

Há apenas o óbice sério de o Petroselinum crispum (é esse o nome científico da salsa) ser uma umbelífera que um olho menos experimentado facilmente confunde com muitas outras plantas da mesma família, várias delas mortalmente venenosas (como a cicuta e o embude). Colher salsa na natureza sem estarmos treinados para reconhecer plantas silvestres é tão suicidário como colher cogumelos que não saibamos identificar. Quando colhemos salsa, devemos atender ao formato das folhas, à coloração das flores e, sobretudo, ao perfume característico que as folhas emitem ao esfregarmo-las com os dedos.

Cientes de todas estas cautelas, onde podemos afinal encontrar salsa silvestre? Devemos procurá-la no Verão, que é quando a planta floresce e mais fácil se torna de avistar. Tem alguma preferência, não exclusiva, por zonas costeiras, e nos Açores parece ser comum na faixa litoral de todas as ilhas, sobretudo na proximidade das povoações. Procurar salsa pode assim ser pretexto para desfrutar de bonitas paisagens junto ao mar como a que se vê nesta foto de São Miguel, captada no mesmo local onde as plantas que ilustram o texto foram fotografadas.

11/05/2022

Morgada dos canaviais

Com o fim da maioria das restrições à circulação, as nossas cidades reanimaram-se com turistas e com o comércio de produtos mais ou menos genuinamente portugueses. Curiosamente, parecem agora dominar as lojas de um só produto: a que só vende pastéis de nata, mornos e em embalagens de formato patenteado; a das latas de azeite e sardinha, com design arrojado, dispostas em carrosséis dourados; a do pão de farinha ancestral moída em mó de pedra; a dos peluches de baleias e vaquinhas açorianas, de igual tamanho; a dos ovos moles de Aveiro; a das carteiras em cortiça; a dos queijos com designação de origem protegida; ou a que só serve bombocas, o doce feito de uma cobertura fina de chocolate, recheio de marshmallow e uma bolachinha na base. Dir-se-ia que, com a falta de crianças no país, esta última seria uma aposta comercial sem sucesso. Mas não: a loja, pequena e forrada a caixas coloridas, está sempre com fila à porta — e todos sentimos uma pontada de inveja daquela revoada de famílias estrangeiras com muitas crianças, afadigadas a coleccionar coisas boas mais ou menos portuguesas.

Vem este arrazoado a propósito da herbácea de cujas raízes se fazia antigamente o tal marshmallow, como lhe contámos aqui quando ainda não tinhamos visto a planta. Aqui está ela:

Althaea officinalis L.


Actualmente o marshmallow já não se faz com o suco retirado das raízes da Althaea officinalis (é gelatina + açúcar + corante) mas se, apesar disso, ainda quiser conhecer esta planta, pode fazê-lo a partir do meio de Junho nos canaviais e orlas de arrozais que acompanham o rio Pranto, pouco antes de ele se juntar ao Mondego, na Figueira da Foz. Atinge cerca de 2 metros de altura e mostrará então as flores, que são como as dos hibiscos, grandes e brancas com um centro púrpura. As folhas são aveludadas nas duas faces, mas duras, talvez para se defenderem do apetite voraz dos gafanhotos, que têm fama bíblica por comezainas sem pudor deste tipo de plantas em habitats húmidos da Ásia e norte de África. Tome nota: apesar de ser perene, no Outono esta herbácea murcha e já não estará em exibição.

03/05/2022

Pão & queijo ou açafate?



O santuário da montanha Cardón, junto do qual nos quedámos a admirar a esforçada e escassa floração da Spergularia fimbriata, é uma sala quadrangular escavada na rocha que podemos espreitar por entre as grades do postigo de uma rústica porta de ferro. Lá dentro vêem-se imagens de santos nas paredes, um pequeno altar onde pousa um relicário guarnecido com velas, flores artificiais que passam sem rega mas não sem espanador; cá fora alinham-se vasos de sardinheiras com garridas flores cor-de-rosa. O local é consagrado à Virgen del Tanquito e aberto em dias de romaria. Alimentado por manancial de água que, embora escasso, brota todo o ano, o tanquito é pouco menos que um milagre em ilha tão seca. Noutras épocas terá sido vital para os habitantes da ilha, e o culto mariano é o modo de exprimir a gratidão pela generosidade divina.

Lobularia canariensis subsp. marginata (Webb) L. Borgen


Com flores brancas que pouco se destacavam do fundo rochoso manchado por líquenes, uma outra planta nativa dava um ar de sua graça nas escarpas sobranceiras ao santuário. Denunciando nas flores de quatro pétalas a sua pertença à família das crucíferas (que inclui couves, rabanetes e mostardas), assemelhava-se fortemente ao nosso açafate-da-praia (Lobularia maritima), uma planta agradavelmente perfumada, espontânea em quase todo o litoral português, que floresce o ano inteiro — e que, por essas qualidades, é também cultivada em jardins. Por não estar a jeito de a cheirarmos, não pudemos saber se a planta que avistámos na montanha Cardón era igualmente olorosa, mas de resto é difícil apontar em que é que a Lobularia canariensis subsp. marginata (é esse o seu nome completo) se diferencia, à primeira vista, da Lobularia maritima europeia: hábito, folhas, flores e frutos — tudo parece quase idêntico. Asseveram os manuais que as plantas canarinas têm flores algo maiores e frutos com maior número de sementes (até quatro em vez de duas), mas não verificámos esses detalhes.

Paniqueso é o nome dado nas Canárias às plantas do género Lobularia — que são, em geral, herbáceas perenes de base lenhosa. A Lobularia canariensis não é exclusiva das Canárias: existe também em Cabo Verde e nas Selvagens. De facto, as plantas das Selvagens e de Cabo Verde pertencem a subespécies endémicas, distintas das que ocorrem nas Canárias, que também tem sortida amostra de subespécies próprias. A subsp. marginata (fotos acima) ocorre em Fuerteventura e Lanzarote; nas restantes ilhas estão assinaladas quatro subespécies adicionais, algumas delas claramente diferentes do nosso açafate-da-praia. A subsp. intermedia, ilustrada abaixo com fotos obtidas em Tenerife, é talvez a que tem personalidade mais vincada, apresentando flores de cor creme com pétalas estreitas e folhas quase lineares.

Lobularia canariensis subsp. intermedia (Webb) L. Borgen