29.12.18

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]



Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.

22.12.18

Uvas do mar



Apesar de inóspitas para banhistas, as costas rochosas do sudoeste de Tenerife são a casa ideal para uma grande variedade de plantas, às quais não desagrada a maresia e a exposição ao sol. A que lhe mostramos hoje, fotografada no Malpaís de Güímar, é das mais estranhas que por lá vimos. Ao longe, parecia uma videira atarracada e recheada de cachos ascendentes de uvas verdes (para vinho branco, claro).


Tetraena fontanesii (Webb & Berthel.) Beier & Thulin

Mas as tais uvas eram afinal folhas suculentas, que nascem aos pares no topo de pedúnculos curtos e carnudos. Os frutos são minúsculos, com textura de cortiça e esbranquiçados. A floração decorre entre Janeiro e Junho, por isso não vimos flores; são pequenas, axilares, com cinco pétalas de um tom branco-rosado (foto em baixo). Como é usual noutras suculentas sujeitas aos ventos de beira-mar, a base deste arbusto é lenhosa e, no período de dormência, a folhagem adquire uma coloração púrpura.



De distribuição restrita a algumas ilhas da Macaronésia (Canárias, Cabo Verde e Selvagens) e ao norte de África (Argélia e Marrocos), esta espécie deveria pertencer, de acordo com as regras da nomenclatura botânica, ao género Petrusia. De facto, esta designação foi proposta por Henri Baillon em 1881, oito anos antes do nome Tetraena ser adoptado por Carl Johann Maximowicz para várias espécies da família Zygophyllaceae frequentes em desertos, zonas áridas ou com salinidade elevada. Segundo a Flora Ibérica, os botânicos continuam a usar o nome Tetraena pois a mudança para Petrusia exigiria demasiadas alterações na taxonomia. Alimentando a confusão, algumas Floras preferem o sinónimo Zygophyllum fontanesii. Comum aos três nomes, o epíteto específico homenageia o botânico René Desfontaines (1750-1833), autor da Flora Atlantica que anunciou, em plena Revolução Francesa, a descoberta de cerca de 300 novos géneros de plantas da região mediterrânica e do norte de África.

15.12.18

Macho desdentado


Dryopteris oligodonta (Desv.) Pic.-Serm.



A própria etimologia da palavra sugere que os fetos do género Dryopteris (que designamos por fetos-machos) só aparecem, ou aparecem preferencialmente, onde existem aquelas formações vegetais a que chamamos bosques. Um bosque é dominado por árvores de tamanho respeitável, enquanto que os matos são formados pos arbustos de crescimento rápido e igualmente rápida combustão. Contudo, mesmo tendo apenas em conta as espécies europeias, a ecologia destes fetos é de facto mais diversificada: nem sempre o bosque faz falta, e o mais importante parece ser um elevado grau de humidade ambiental - um requisito que, a latitudes mais meridionais, só os verdadeiros bosques costumam satisfazer. Nas Canárias e na Madeira, os bosques típicos mais bem formados são os da laurissilva, que (como o nome indica) é composta sobretudo por lauráceas, mas alberga também outras folhosas perenifólias. O carácter da floresta laurissilva nos dois arquipélagos é diferente: a da Madeira é muito mais húmida, com árvores de maior porte; nas Canárias, algumas urzes arbóreas integram-se no coberto vegetal quase em pé de igualdade com as lauráceas.

É por isso que os fetos-machos são na Madeira muito mais abundantes do que nas Canárias. Na primeira ocorrem quatro espécies (Dryopteris aemula, D. affinis, D. maderensis e D. aitoniana), todas elas fáceis de obsevar na laurissilva e às vezes também em plantações florestais. Nas Canárias estão igualmente assinaladas D. aemula e D. affinis (a primeira só em La Gomera, a segunda em La Gomera e Tenerife), a que se juntam duas espécies adicionais: D. guanchica (La Gomera, El Hierro e Tenerife) e D. oligodonta. Com excepção da última, todas estas espécies são muito raras no arquipélago. A D. oligodonta, por seu turno, é uma componente usual da laurissilva de Anaga, em Tenerife; e, a julgar pelos mapas de distribuição no portal Anthos, o mesmo deverá suceder na laurissilva das outras ilhas. Só não aparece nas duas ilhas mais áridas, Lanzarote e Fuerteventura, onde a própria laurissilva não teve condições para se instalar.

O feto-macho ilustrado nas fotos, Dryopteris oligodonta, é pois o único do seu género que o comum dos visitantes ao arquipélago encontrará. É um feto grande, com frondes três vezes divididas, dispostas em tufos, capazes de ultrapassar um metro de comprimento. D. affinis, por contraste, tem as frondes só duas vezes divididas (compare-se a última foto acima com esta); e D. guanchica e D. aemula, além de serem bem menores, têm as pínulas mais recortadas, com dentes muito mais pronunciados (veja-se aqui e aqui). O epíteto oligodonta anuncia precisamente que este feto-macho tem poucos dentes, o que é injusto face a congéneres seus mais desdentados.

Várias fontes garantem que Dryopteris oligodonta é um endemismo das Canárias, contrapondo outras que o mesmo feto existe nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão e do Fogo. Um estudo exaustivo recente [Jacobus P. Roux (2012), A revision of the fern genus Dryopteris (Dryopteridaceae) in sub-Saharan Africa, Phytotaxa 70] confirma a existência da planta em Cabo Verde, embora ela pareça estar agora confinada a Santo Antão, não tendo sido observada na ilha do Fogo desde 1934, ano em que lá foi colhida pela única vez.

9.12.18

Salepeira-não-tão-grande

Por esta altura do ano já se podem observar, na região calcária do centro do país, rosetas de folhas e até um tímido início da haste floral da Barlia robertiana. Entre Janeiro e Fevereiro, a floração desta orquídea robusta e muito vistosa estará no auge. Quase simultaneamente, uma espécie de orquídea muito parecida com a B. robertiana interrompe o seu período de hibernação nas ilhas Canárias. O que nos leva a desconfiar que esse momento para iniciar a floração é uma informação genética herdada de um progenitor comum.


Himantoglossum metlesicsianum (W. P. Teschner) P. Delforge [sinónimo: Barlia metlesicsiana W. P. Teschner]



A Barlia metlesicsiana é endémica de Tenerife e vive em zonas pedregosas onde os escombros de lava foram suficientemente erodidos para daí resultar um solo macio, firme embora seco, que consegue sustentar alguma vegetação. Apesar de ter um substrato ácido, é talvez o habitat mais parecido com os matos rasteiros, mas soalheiros e abrigados de intempéries, que estas orquídeas preferem na região mediterrânea. Os poucos exemplares que vimos desta orquídea muito rara estavam perto de Santiago del Teide, numa zona protegida onde vários avisos requerem dos visitantes o respeito escrupuloso pelas normas de conservação.



Da evolução isolada na ilha de Tenerife, resultaram algumas pequenas diferenças entre a B. robertiana e a B. metlesicsiana, sendo a espécie tenerifenha em geral mais baixa e de aspecto mais frágil, com uma roseta basal de folhas menos robusta, uma haste floral com duas a quatro folhas caulinares que parecem brácteas, e uma inflorescência menos densa. O epíteto específico metlesicsiana é uma homenagem de Walter Paul Teschner, que descreveu esta espécie em 1982, ao botânico austríaco Hans Metlesics (1900-1985).

A designação mais antiga para o género a que estas orquídeas pertencem é Himantoglossum. Por causa disso, e apesar de o basiónimo ser Barlia metlesicsiana, Pierre Delforge propôs em 1999 que esta espécie se designasse Himantoglossum metlesicsianum, e que a sua irmã continental passasse a ser Himantoglossum robertianum. A mudança foi aceite pelo portal Euro+Med PlantBase mas não (ainda?) pela Flora Ibérica ou pela Flora-On.

1.12.18

Reino dos cabeçudos


Cheirolophus burchardii Susanna



As plantas do género Cheirolophus, desprovidas de espinhos mas com grandes capítulos floridos que fazem lembrar os dos cardos, são nas Canárias conhecidas como cabezones, o que em português se traduz por cabeçudos. São muitos os cabeçudos nessas ilhas, que repartem entre si umas 20 espécies endémicas de Cheirolophus. O número varia conforme as fontes consultadas, já que a delimitação das espécies é controversa. Indiscutível é que o arquipélago alberga cerca de dois terços do total das espécies de um género que tem uma distrbuição global restrita, confinado que está às Canárias, à Madeira e a alguns países mediterrânicos (Portugal, Espanha, França, Itália, Argélia e Marrocos). Só em Tenerife são quatro (ou três, ou cinco) as espécies de Cheirolophus.

Como é próprio da sua índole, nem sempre um cabeçudo acata de boa vontade as instruções que lhe são dadas. Se se conformasse à doutrina dos manuais, o Cheirolophus burchardii que mostramos nas fotos só deveria florir entre Abril e Julho, mas quando o vimos, no final de Dezembro, apresentava numerosos capítulos frutificados, sinal de que a floração se tinha prolongado muito para lá da data prevista. Mesmo na berma da estrada, exibia, com vegetal inconsciência e um atraso de muitos meses, as últimas flores da temporada.

Para complementar as fotos, diga-se que o Cheirolophus burchardii é um arbusto capaz de alcançar 1,5 m de altura (embora o das fotos tivesse dimensões mais incipientes) e que os capítulos têm de 2,5 a 3 cm de diâmetro. Distingue-se de outros cabeçudos tenerifenhos pelas folhas inteiras e pelo formato das brácteas involucrais. Observá-lo não requer olho treinado nem grandes proezas atléticas: basta escolher uma altura em que a estrada do Teno, no extremo noroeste da ilha, esteja vedada ao trânsito automóvel (e ao fim-de-semana só não o está ao fim da tarde), e percorrê-la a pé com o vagar que ela merece. Precauções? Quem tiver medo do escuro deve munir-se de lanterna, já que os túneis que a estrada atravessa não são iluminados.

25.11.18

Abraços verdes


Periploca laevigata Aiton

Já aqui vos mostrámos uma trepadeira do género Periploca que em tempos se enroscava no portão de uma das estufas do Jardim Botânico do Porto, entretanto reformada (que é como quem diz «sem a vegetação de outrora»). A espécie que encontrámos em Tenerife também tem flores estreladas que se agrupam em cimeiras axilares, com pétalas que combinam igualmente os tons de púrpura, amarelo e verde. Contudo, a espécie canariense tem porte de arbusto, pode mesmo chegar aos 3 metros de altura, e a folhagem é glabra, coriácea e perene.



O fruto (que se vê na 4.ª foto) é como o dos loendros (Nerium oleander) ou do vincetóxico, no que constitui um traço de parentesco pois as três espécies pertencem à família Apocynaceae: dois fusos longos (cerca de 10 cm) e bicudos, opostos como duas metades de um bigode oitocentista, que se abrem longitudinalmente para libertar as sementes envoltas num penacho de algodão. Podem ver aqui imagens destas cápsulas já abertas, a que o povo espanhol alude quando designa esta planta por cornicabra.

A Periploca laevigata é nativa das ilhas Canárias, Cabo Verde, norte de África, sudeste de Espanha e parte da região mediterrânica, e aprecia ladeiras pedregosas ou areais perto do mar. A Flora Ibérica menciona uma antiga aplicação medicinal de talos, folhas e sementes, por certo em desuso pois as plantas da família Apocynaceae costumam ser perigosamente tóxicas (são, porém, ornamentais, ainda que, com a pressa, mal notemos a sua presença nos separadores das nossas auto-estradas).

17.11.18

Nocturno com tabaibas



Euphorbia balsamifera Aiton

Embora haja esperança de que uma directiva europeia venha alterar a situação já em 2019, a verdade é que os dias de Inverno permanecem curtos. Mas, graças à diferença de latitude, são um bocadinho menos curtos nas Canárias, onde no final de Dezembro anoitece apenas às seis da tarde, uma hora depois de o sol se pôr pelas nossas bandas. Quando visitámos o Malpaís de Güimar, na costa leste de Tenerife, os relógios marcavam quatro da tarde. Não estando nós munidos de lanternas, tínhamos uma hora para avançar pelo trilho acidentado, rompendo pela pedra negra como carvão, e uma hora para regressar pelo mesmo caminho sem que a escuridão tornasse os nossos passos ainda mais inseguros. O sortilégio da paisagem fez-nos demorar além do previsto e o regresso fez-se já ao lusco-fusco - que não era assim tão tenebroso e combinava muito bem com o negrume das pedras envolventes, sublinhando a tons de doirado os troncos rastejantes das tabaibas.

"Malpaís" pode traduzir-se por "terra má", e (ensina a Wikipédia) é o nome que se dá nas Canárias, México e sul dos Estados Unidos a uma extensão de terreno inóspita e árida formada por rochas vulcânicas que sofreram pouca erosão. Não é que o episódio vulcânico que lhe deu origem tenha sido recente, mas a chuva e os ventos que, noutras paragens, contribuiriam para uma erosão mais acentuada estão aqui quase ausentes. Chamam-lhe terra má por ser imprestável para cultivo e nem para pastagem servir. Mas não significa que seja estéril: que o digam as tabaibas, os alecrins-do-mar e até certas alfaces.

Esta eufórbia arbustiva, conhecida no arquipélago como tabaiba-doce e eleita oficialmente como um dos símbolos naturais da ilha de Lanzarote, distribui-se por todas as ilhas Canárias e por muitas zonas semi-desérticas da metade norte do continente africano. Os povos nómadas consumiam as suas folhas em tempos de escassez alimentar, o que talvez explique o adjectivo doce. Certo é que o látex desta espécie, apesar de tóxico, não é tão abrasivo como o de outras eufórbias, e terá mesmo sido usado medicinalmente como anestésico.

Nem sempre a tabaiba-doce é tão prostrada como mostram as fotos: em condições mais favoráveis pode ultrapassar os dois metros de altura. O que a singulariza face a outras tabaibas é que cada inflorescência está reduzida ao mínimo, sendo composta por um único cíato (compare as fotos abaixo com as desta página).


10.11.18

Palha-d'aço florido


Launaea arborescens (Batt.) Murb.

Na presença deste emaranhado de ramos denso e ziguezagueante, de aparência espinhosa, diria o leitor tratar-se de uma margarida? Talvez apostasse mais depressa que é um tojo ou um cacto, perdendo a aposta mal lhe visse as flores.




As flores amarelas não deixam dúvidas sobre a filiação deste arbusto nas asteráceas, embora reconheçamos tratar-se de uma espécie invulgar. Nota-se que a ramagem, suculenta e com picos (na verdade, são o que resta dos pés das flores), está adaptada a regiões costeiras áridas, preservando na floração as características da família a que pertence. Os indivíduos podem chegar ao metro e meio de altura, embora formem mais frequentemente novelos baixos, com base lenhosa e raízes robustas. Há registo da L. arborescens no sul da Península Ibérica (na vizinhança de Málaga), no noroeste de África, nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde, e na ilha da Madeira (só na Ponta de São Lourenço). As fotos, que não mostram as folhas (lineares) porque estas duram pouco, foram obidas nas dunas de El Médano, no sul de Tenerife.



O género Launaea abriga meia centena de espécies que ocorrem no Mediterrâneo, no sul da Ásia e em África. É comum, e exibe grande diversidade genética, no norte de África. Tem aí usos medicinais, culinários e na alimentação do gado, embora, segundo consta, tenha sabor azedo e precise de ser cozinhado para se tornar degustável. Na Europa, apenas o sudeste de Espanha e a Sicília parecem ser suficientemente quentes e secos para serem colonizados com sucesso pelas espécies deste género.

O nome genérico foi escolhido pelo botânico Henri Cassini (1781-1832), especialista em malmequeres e trineto do astrónomo Giovanni Cassini, para homenagear o naturalista francês Jean-Claude de Launay (1750-1816).

3.11.18

Tabaiba cor de vinho



Euphorbia atropurpurea Brouss. ex Willd.



Tabaiba é o nome que se dá nas Canárias às eufórbias arbustivas desprovidas de espinhos e com folhas bem formadas; as demais eufórbias endémicas do arquipélago têm a aparência de grandes cactos (embora não sejam cactos) e são conhecidas como cardóns. As tabaibas são parentes próximas dos troviscos-machos açorianos (Euphorbia stygiana subsp. stygiana e E. stygiana subsp. santamariae) e das duas figueiras-do-inferno madeirenses (E. piscatoria e E. mellifera). Só em Tenerife são quatro as espécies de tabaibas, e cada uma das restantes ilhas Canárias apresenta uma diferente selecção destes arbustos, que assumem formas muito diversas, tanto na ecologia e no modo de crescimento como no aspecto da inflorescência. Há as espécies costeiras que se agacham e crescem rastejantes para se protegerem do vento, há as que vivem mais abrigadas em encostas secas e são capazes de atingir os dois metros de altura, e há finalmente as que fazem da laurissilva a sua casa e, competindo pela luz, têm de erguer mais alto os seus ramos. A única espécie neste último grupo é a E. mellifera, a mesma que existe na Madeira e que é muito mais comum nessa ilha do que nas Canárias. O segundo grupo de espécies (que não escapa a alguma sobreposição com o primeiro) é o mais numeroso, e inclui a Euphorbia atropurpurea, endémica de Tenerife, aqui fotografada na zona de Masca, onde é particularmente frequente.

Num concurso de beleza para tabaibas, esta tenerifenha, com o seu porte arrumadinho de árvore em miniatura, as suas inflorescências cor-de-vinho contrastando com as grandes folhas glaucas, convenceria qualquer júri a elegê-la Miss Tabaiba. Se fossem admitidas concorrentes de toda a Macaronésia, como parece justo, seria a E. piscatoria, na versão porto-santense, a escolhida como primeira Dama de Honor.

As inflorescências das eufórbias são complicadas: na 5.ª foto acima, o fruto já desenvolvido, cor de cereja madura, emerge de uma estrutura onde há quatro nectários amarelos e quatro flores masculinas, cada uma delas reduzida a um estame; essa estrutura (chamadas cíato) é envolvida por duas brácteas vermelhas, em forma de rim, fundidas uma com a outra; finalmente, os cíatos, sustentados por pedúnculos do mesmo vermelho tinto, dispõem-se em umbelas compostas por numerosos raios (entre 5 a 15 - ver 4.ª foto). É um conjunto que se singulariza não apenas pelo colorido mas também pela sua forma ampla e aberta. A floração decorre durante praticamente todo o ano (as fotos são do final de Dezembro), mas é mais intensa em Março e Abril.

28.10.18

Amarelo de Inverno



A costa noroeste de Tenerife é uma paisagem vulcânica e árida, exposta ao sol e a longos períodos de secura. Mas não é um deserto: em recantos mais abrigados, cobre-a um mato rasteiro, moldado pelos reveses num lugar tão inóspito. Sem chuva que as livre das elevadas concentrações de sal, as plantas deste ecossistema têm mecanismos eficientes de recolha de água pura do solo salgado e arenoso mas humedecido. Aí dominam as eufórbias, acompanhadas por um número em geral restrito de outras espécies.



Neochamaelea pulverulenta (Vent.) Erdtman [sinónimo: Cneorum pulverulentum Vent.]

A lenha-santa (tradução para o espanhol do nome dado pelos nativos das ilhas, que a terão usado em rituais fúnebres ou pelo seu valor medicinal) é um arbusto de ramagem densa, com folhas acinzentadas e protegidas da insolação por uma camada aveludada de pêlos, que também inibe a evaporação da água. As flores nascem durante o Inverno aninhadas entre as folhas jovens, na ponta dos ramos. Os frutos vistosos, de cor rubra, parecem os das eufórbias e são apreciados por lagartos que, comendo-os, os disseminam.



Também chamada oliveira-tabaiba (tradução livre do nome inglês, spurge olive), a N. pulverulenta é um endemismo das ilhas Canárias, frequente na Grã Canaria e em Tenerife mas ausente de Fuerteventura, Lanzarote e La Palma. É a única espécie do género Neochamaelea, designação proposta em 1952 por O. G. Erdtman. Alguns botânicos, porém, entendem que a criação de um género para abrigar esta espécie é desnecessária: estudos recentes indicam que ela se inclui no género Cneorum, dando assim razão a E. P. Ventenat - que, em 1802, a descreveu como Cneorum pulverulentum. Sob qualquer destes sinónimos, é uma espécie protegida por lei devido à sua distribuição restrita num habitat em risco, alvo da concorrência de espécies não autóctones mais resistentes.

20.10.18

Orquídea dos três dedos


Habenaria tridactylites Lindl.



À medida que nos aproximamos dos trópicos, esbatem-se as diferenças entre as estações do ano. É verdade que, com as alterações climáticas, também nos climas temperados se assiste à descaracterização das estações intermédias - um exemplo eloquente é este Outono de 2018 que tarda em descolar do Verão. No entanto, as plantas que durante muitos milhares de anos evoluíram num certo clima continuam para já a comportar-se como se nada tivesse mudado. Mesmo com o tempo meteorológico às avessas, elas obedecem ao calendário para que foram programadas: há muitas mais flores na Primavera do que no Outono, e é na Primavera que as árvores ganham folhas novas, deixando-as cair no Outono. É assim na Europa continental, mas não nos arquipélagos da Macaronésia - onde, só para começo de conversa, não há árvores nativas caducifólias. Na Madeira são várias as plantas endémicas que florescem no Inverno, e nas Canárias ainda é maior o desrespeito pela convenção eurocêntrica que proíbe um Inverno florido. Em rigor, Inverno e Outono são, nessas ilhas, conceitos postiços.

Esta orquídea é uma das plantas que, nas Canárias, florescem nos meses que para nós são de Inverno; a semana entre o Natal e o Ano Novo é uma boa altura para a observar. Com duas únicas folhas basais, largas e achatadas, e uma haste esguia de 10 a 40 cm de altura sustentando umas tantas pequenas flores esverdeadas, não é das orquídeas mais vistosas, nem de cor mais apelativa. Pelas suas flores discretas e pelo aspecto geral, esta Habenaria tridactylites canarina faz aliás lembrar as orquídeas açorianas do género Platanthera. Tanto assim é que estas últimas foram inicialmente incluídas (em 1844, por Maurice Seubert, na sua Flora Azorica) no género Habenaria, erro que só seria corrigido em 1920 por Schlechter. Se atendermos aos detalhes, contudo, a orquídea das Canárias é bem diferente das açorianas: não possui folhas caulinares, e as flores, que estão dispostas de forma menos densa, têm o labelo dividido em três segmentos lineares que se assemelham a dedos longos e finos (daí o epíteto tridactylites), além de apresentarem um esporão muito mais comprido.

Contando com sete orquídeas nativas, das quais apenas três são endémicas, as Canárias não são um destino prioritário para os orquidófilos: tanto em quantidade como em diversidade, qualquer ilha do Mediterrâneo, por pequena que seja, é incomparavelmente mais rica em orquídeas do que Tenerife - que é a maior das ilhas Canárias, nela ocorrendo todas as espécies de orquídeas presentes no arquipélago. Mas em Dezembro ou Janeiro não há, no Mediterrâneo ou na Europa continental, orquídeas silvestres para admirar, e um saltinho às Canárias para ver a Habenaria tridactylites é um modo de amenizar a espera. Acresce que o género Habenaria não está representado na flora europeia, o que significa que a orquídea-dos-três-dedos é totalmente diferente de qualquer orquídea que possamos encontrar na Europa. (Nisto a Europa faz figura triste, pois calcula-se que haja umas 840 espécies de Habenaria distribuídas por zonas tropicais e subtropicais de todo o mundo, 240 delas só em África.)

Foi à vista dos ilhéus de Anaga, na ponta nordeste de Tenerife, que encontrámos pela primeira vez esta orquídea. Mas vimo-la depois, às vezes em grupos de largas dezenas, em muitos outros lugares da ilha, sobretudo em clareiras de matos em zonas de média ou baixa altitude.