30.1.18

Madressilva dos ossos



Lonicera xylosteum L.



Ensina o Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners que xylosteum deriva das palavras gregas xylos, que significa madeira, e osteon, que significa osso. Quereria Lineu dizer que esta madressilva tinha ossos de madeira? Estaríamos então perante nova amostra do pioneirismo do pai da taxonomia, pois o boneco Pinóquio só foi criado por Gepeto cem anos mais tarde. Confessamos, no entanto, que a expressão "ossos de madeira" nos parece uma redundância quando aplicada a árvores ou arbustos. Afinal, se admitirmos, num rasgo de fantasia, que tais criaturas vegetais são providas de ossos, de que outro material poderiam eles ser feitos? Talvez invertendo a ordem das palavras, traduzindo xylosteum por "madeira de osso" em vez de "ossos de madeira", a coisa fique mais inteligível. Terá este arbusto uma madeira especialmente resistente, rija como os ossos? É que, ao contrário das madressilvas espontâneas em Portugal, a Lonicera xylosteum, que fotografámos na Cantábria, não é uma trepadeira, mantendo-se de espinha erguida sem o apoio de muletas. Não é esta porém, nem na Europa nem na Península Ibérica, a única madressilva de porte erecto, como Lineu, que deu nome a três outras espécies arbustivas do género (Lonicera alpigena, L. pyrenaica e L. nigra), não poderia deixar de saber. Põe-se então a hipótese de a Lonicera xylosteum ser, das quatro madressilvas arbustivas baptizadas por Lineu, aquela cuja madeira é a mais dura de roer. O que infelizmente não é verdade, pois os seus caules são ocos e os da L. nigra, por exemplo, são maciços. Ainda que se possa alegar que os ossos, apesar de rijos, também costumam ser ocos, isso é já muito rebuscado e leva-nos, por ora, a desisitir de entender Lineu.

As madressilvas dão flores muito perfumadas, atraem multidões de insectos e, por altura da frutificação, são avidamente visitadas pelos pássaros. Jardineiro que lhes dê espaço no seu jardim transforma-se de imediato num amigo da natureza. Apesar de o tamanho modesto das suas flores poder desencorajar o cultivo, a Lonicera xylosteum partilha de todas as boas qualidades das suas congéneres, com a vantagem de o seu hábito de crescimento se prestar à formação de sebes. É um arbusto que atinge 1 a 1,5 metros de altura, e cuja floração e frutificação decorrem entre Maio e Agosto. Nativo de grande parte da Europa, vive em clareiras de bosques caducifólios húmidos, sobre substratos básicos, em zonas de montanha.

24.1.18

Flor sem maquilhagem

É raro que, vendo uma flor bonita ou tocando numa folha macia, não tentemos cheirá-las para guardar esse dado na memória. Curiosamente, não é fácil descrever um aroma (ora tente dizer como é o da laranja), embora seja trivial reconhecê-lo quando está presente. Acontece o mesmo com muitos dos ingredientes deste mundo, sejam eles cores, texturas ou sons, para os quais há nomes em muitas línguas mas que não conseguimos definir com exactidão. Não são abstracções, como os números ou os electrões, mas também não nos parecem tão reais como o dia ou a chuva. Por isso, muitas vezes falamos do amarelo-limão, do verde-alface ou do preto-andorinha, e com uma palavra extra a cor ganha forma ou sabor, e uma outra existência.


Saxifraga paniculata Rydb.



As flores cor-de-pérola que hoje vos mostramos, na ponta de hastes florais de uns 30 cm, são de uma das espécies mais charmosas do género Saxifraga. Nem é tanto pelas panículas de flores, bem menos maquilhadas que as da S. spathularis; é que as folhas de margens debruadas a branco-de-sal parecem ter dentinhos, num arranjo sorridente em roseta que parece feito por florista inspirada. Esta espécie é perene, e ocorre na América do Norte, Gronelândia e montanhas do centro e sul da Europa, em geral acima dos 1000 m. Os exemplares da foto são do Parque Natural Saja-Besaya, na Cantábria.

Custa revelar esta contabilidade que nos desfavorece, mas há que reconhecê-lo: em Espanha há mais de sessenta espécies de Saxifraga, género que parece apreciar o frio em fissuras e rochedos de montanha. Em Portugal continental, só nove espécies se adaptaram ao nosso clima mais ameno, algumas delas em populações escassas. Temos, porém, o galardão de possuir uma espécie endémica, a S. cintrana.

Talvez este ano voltemos ao norte de Espanha para ver a magnífica S. longifolia e rever a única que conhecemos com flores cor-de-rosa.

16.1.18

Viagens com musgos


Huperzia selago (L.) Bernh. ex Schrank & Mart.



Por ser parecida com um ramo de abeto (fir) e no seu primivitismo lembrar um musgo, os anglo-saxónicos chamam fir clubmoss a esta planta. Se a comparação com o abeto é apropriada e inocente, pois ninguém vai confundir estas hastes atarracadas, de 5 a 20 cm de altura, com um árvore de grande porte (nem com um rebento, pois as árvores não crescem curvadas), já o chamar-lhe musgo pode induzir em erro. Há de facto musgos, como o Polytrichum comune, com aspecto vagamente semelhante, mas a H. selago é uma planta vascular e não um musgo. Situa-se, é verdade, na base da árvore evolutiva, e tem por isso o privilégio de encabeçar a listagem da flora de muitos dos países dos quais é nativa. Na Europa continental, onde é a única espécie do seu género, essa primazia é incontestada, mas na Ásia e na América já tem que disputar o seu lugar com numerosas congéneres. Preferindo climas frios e lugares húmidos, é mais abundante no norte da Europa do que no sul, onde se refugia em áreas montanhosas e, às vezes, aproveita o aconchego da neve a mais de 2000 metros de altitude. Está presente nas principais cadeias montanhosas ibéricas, mas Portugal fica fora do seu mapa de distribuição. O que não é grande motivo de queixa, pois Madeira e Açores acolhem duas espécies endémicas do género, Huperzia dentata e Huperzia suberecta, e a segunda delas só se diferencia da H. selago pela (pouco) maior envergadura e por caracteres microscópicos como a ornamentação dos esporos.

Uma característica em que a Huperzia é mais primitiva do que outras licopodeáceas é que a sua parte fértil não se distingue claramente da parte estéril: os esporângios estão aninhados nas axilas das folhas terminais das hastes (3.ª foto), folhas essas idênticas na forma e no tamanho às que estão situadas mais abaixo. Em géneros mais evoluídos, como Lycopodium e Diphasiastrum, os esporângios aparecem agrupados em espigas terminais perfeitamente destacadas (exemplos: 1, 2). Mesmo o licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), que na Europa leva a medalha de prata em primitivismo, apresenta uma diferenciação, embora menos óbvia, entre a parte da planta que produz os esporângios (que é a porção engrossada e terminal das hastes erectas - foto aqui) e a parte estéril (caules rastejantes e metade inferior das hastes erectas). Também considerado primitivo é o tipo de crescimento dicotómico da Huperzia, com as hastes sempre ascendentes bifurcando-se sucessivamente.

Encontrámos a Huperzia selago a uns modestos 1300 m de altitude, algures na cordilheira cantábrica. Nos meses de Inverno o branco dos afloramentos calcários é reforçado pelo branco da neve, e nenhuma outra cor é permitida na paisagem. Era isso que nos diziam um frio e um vento cortantes, atípicos do mês de Maio que atravessávamos. Só para confirmação, as nuvens negríssimas não tardaram em largar uma forte carga de granizo, obrigando-nos a abreviar a excursão.

9.1.18

Globos azulibrancos

Por razões misteriosas, aprendemos tão bem e estamos tão habituados a reconhecer formas tridimensionais que, quando as vemos fotografadas, julgamos detectar volumes e sombras em imagens que, sendo planas, não os possuem. O centro que interpreta o que vemos é perfeito para ser enganado. Este logro, que é afinal um acerto, é uma das razões do sucesso da fotografia. Por vezes, nem temos dúvidas de que uma foto é mais nítida e completa do que a realidade. E todavia, sem referenciais, as fotos podem ser maus testemunhos. Nas que lhe mostramos hoje, o ponto de apoio é dado pelas flores. São de igual tamanho e aspecto em ambas as plantas, por isso pode deduzir-se destes retratos que a folhas da primeira são muito maiores do que as da segunda. Além disso, uma das plantas é lenhosa e vive colada à rocha exposta de calcário, enquanto a outra, em rochedo próximo mas recatada numa fissura, é herbácea e exibe pecíolos longos e hastes florais proeminentes, na extremidade das quais oscilam sedutores capítulos de florinhas azuis.



Globularia nudicaulis L.





Globularia repens Lam.



É um enigma que espécies distintas do mesmo género coexistam independentes num mesmo habitat. Mas a crer em algumas simulações de jogos, não é garantido que, florescendo ao mesmo tempo e a poucos metros de distância uma da outra, sejam rivais na atracção de polinizadores. O mais certo é que tenham uma estratégia solidária no uso dos bens que o habitat oferece, vencendo em grupo em vez de cada uma arriscar perder individualmente.

Espanha conta com nove espécies de Globularia, algumas de regiões com invernos muito frios (como estas que vimos na Cantábria), ou que preferem taludes rochosos expostos ao sol e à secura ou que, pelo contrário, dão primazia à proximidade de cursos de água. Com preferências tão variadas, dir-se-ia ser um género de distribuição vasta. Por cá, porém, só há registo de duas espécies, e são ambas raras.

2.1.18

Na senda do urso



"Trilho do urso" seria a tradução correcta de "senda del oso". Como fazem todos aqueles com uma relação difícil com línguas estrangeiras, fiamo-nos nos falsos amigos e optamos pela tradução fonética. Dizendo que estivemos "na senda do urso", damo-nos ares de intrépidos exploradores da vida selvagem, sugerindo que andámos deliberadamente no rasto do bicho.

Na verdade não foi bem assim. A "senda del oso", nas Astúrias, é um percurso ciclável, recomendado para toda a família (humana, não ursina), que decorre em grande parte numa antiga linha férrea mineira. Tal como quem visita as Terras do Lince não espera dar de caras com o felino, pois ele já lá não está e se estivesse não era para se mostrar, também quem percorre o "trilho do urso" sabe que, havendo embora ursos nas Astúrias, eles preferem trilhos mais recatados, longe da nossa vista. É pois esse o percurso ideal para quem, visitando as Astúrias, queira ter a garantia de que para ele os ursos continuarão a ser apenas aquelas criaturas fofas dos programas de David Attenborough.

Se não foi para ver ursos, ou se foi até, usando de maior franqueza, para não ver ursos, que temos nós para contar ao internauta apaixonado pela natureza à distância de um clique? Ouvimos um restolhar na folhagem que bem poderia ser um esquilo, mas deve ter trepado ligeiro por alguma árvore (uma faia, pois só havia faias) e não chegámos a vê-lo. As faias e as plantas em geral não são esquivas como os animais, nem enganadoras como as paisagens (que nos puxam adiante mas nunca conseguimos alcançar, como a linha do horizonte ou o lado de lá do arco-íris.) Falemos então de uma das plantas que vimos nos mil metros da "senda del oso" que percorremos desde o desfiladeiro de Teverga.

Phyteuma spicatum L.




Aquando de uma anterior visita ao norte de Espanha, apresentámos aqui uma espécie de Phyteuma, género da família das campânulas que tem zero representantes na flora portuguesa, cinco na peninsular e mais de vinte na europeia. As flores, agrupadas em espigas ou capítulos, têm uma forma muito característica, com as pétalas soldadas na ponta formando um tubo alongado; quando ainda fechadas, fazem lembrar um cacho de bananas. Phyteuma hemisphaericum, que vimos antes, é uma planta alpina, de estatura baixa e folhas lineares, que espera pelo degelo para surgir em fissuras de rochas e em prados. Phyteuma spicatum, por contraste, é uma planta alta (até 1 m de altura), com folhas basais largas, que vive a altitudes moderadas na orla de bosques caducifólios húmidos. Tanto no trilho do urso como nos vários pontos na berma da estrada onde depois a encontrámos, só a vimos de flores azuis, mas ela também dá flores brancas, que aliás são preponderantes nas populações extra-peninsulares. É estimada como ornamental, e são poucos os países da Europa onde ela não ocorre: Portugal, Irlanda, Grécia e (só para confundir o retrato) Bélgica.