24.7.19

O tempo rasurado

Feto-do-Gerês (Woodwardia radicans) nos jardins do Palácio de Cristal, Porto (Foto: © Daniel Ferreira)

Um antiquário adquiriu por atacado o espólio de um falecido. Entre muita poeira e bricabraque, deparou-se com várias caixas de jóias e adereços femininos. Após rápido exame, atirou ao lixo um colar de ouro que, baço de sujidade, lhe pareceu de latão, e separou com amoroso cuidado, por se lhe afigurarem valiosos, uns brincos de plástico dourado com incrustações de vidro.

Negociante dessa estirpe não mereceria certamente o nome de antiquário. Desacreditado pelos seus pares e pelos seus potenciais clientes, rapidamente se veria obrigado a abandonar uma actividade para a qual não tinha a menor competência.

Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, estão entregues a "jardineiros" que de plantas sabem tanto como esse antiquário sabia de jóias. Move-os uma irreprimível vocação para guardar o pechisbeque e deitar fora o ouro.

A gruta de Camões, rústica estrutura de pedra e betão ao gosto oitocentista de imitação da natureza, dotada de um pequeno lago artificial para recreio dos patos, sombreada por grandes padreiros e castanheiros-da-Índia, está situada no patamar inferior dos jardins, a sul do recinto infantil. Desde há muitos anos (provavelmente desde meados do século passado) que sobre a gruta pendiam as ornamentais folhas do feto-do-Gerês (Woodwardia radicans), que, beneficiando da proximidade da água e da frescura proporcionada pelas árvores, se aclimatou perfeitamente ao lugar, lançando todos os anos abundância de folhas novas. Era um cenário artificial que evocava, de modo notável, as cascatas do Gerês ou dos Açores onde esse feto legalmente protegido em Portugal continental tem o seu habitat.

Nem a beleza do feto, nem a sua óbvia adequação ao local, nem o seu estatuto de espécie protegida: nada pôde salvá-lo da acção ignorante, cega e destruidora dos "jardineiros" do Palácio de Cristal. Na Primavera de 2018, talvez no âmbito de uma renovação de treta cujo ponto alto foi a instalação de uns pindéricos tapetes de relva para disfarçar os estragos causados pelas barracas de feira, todos os exemplares de feto-do-Gerês existentes no Palácio foram cortados e, para garantir que não voltavam, arrancados pela raiz.

A mesma mão bruta que destruiu o ouro deixa em paz o pechisbeque. Plantas invasoras como Acanthus mollis, Tradescantia fluminensis, Ailanthus altissima e Acacia melanoxylon proliferam alegremente em canteiros desmazelados. Nada se planta, nada se cultiva. A única "jardinagem" que ali se pratica, sempre com grande estardalhaço de máquinas, é o corte periódico da vegetação desordenada para que ela não ultrapasse a altura regulamentar.

É por isso moderado o nosso entusiasmo pelas obras de recuperação do Jardim Emílio David, agora em fase de conclusão. O projecto é, com toda a certeza, tecnicamente correcto e historicamente informado, respeitador do histórico jardim e das suas memórias. Mas, sem jardineiros que conheçam e estimem as plantas, que metam as mãos na terra, não haverá jardim digno desse nome, e o Jardim Emílio David recuperado pouco mais será do que uma instalação efémera.



Rhododendron maddenii Hook. f.


A herança de Emílio David não se resume ao desenho, agora escrupulosamente recuperado, dos jardins formais à entrada do Palácio de Cristal. A ele se devem também os dois bosquetes laterais compostos por árvores e arbustos das mais variadas proveniências; e, se parte desse arvoredo é de plantio posterior a 1865 (ano em que os jardins foram inaugurados), é verdade que camélias, rododendros, metrosíderos, ciprestes-de-Lawson e ginkgos denunciam pelo porte uma idade respeitável. Quem por certo lá mora desde o início é o rododendro de flores brancas e tronco avermelhado descascando-se em tiras que se esconde no bosquete do lado nascente. Rodeado que está por árvores de maior envergadura, e florindo apenas entre Maio e Junho, não espanta que este Rhododendron maddenii seja desconhecido até pelos frequentadores mais atentos do jardim.

À data da inauguração dos jardins do Palácio de Cristal, estava no auge entre a elite portuense o entusiasmo pela jardinagem e pelo coleccionismo botânico. O afamado horticultor José Marques Loureiro, estabelecido na Quinta das Virtudes, publicou o seu primeiro catálogo precisamente em 1865. A diversidade das plantas listadas para venda era simplesmente inimaginável: entre inúmeras outras plantas (árvores, arbustos, palmeiras, herbáceas, fetos...) que não cabe aqui nomear, contavam-se mais de 700 variedades de camélias, 75 de rododendros, cerca de 110 azáleas e umas 250 roseiras.

Na pág. 11 do catálogo, e entre sete "espécies novas" de Rhododendron originárias "do Assam e do Butão", aparece o R. jenkinsii, que hoje é tido como sinónimo de R. maddenii. É pois plausível que Marques Loureiro tenha fornecido o exemplar dos jardins do Palácio. Outros rododendros que ainda hoje se mantêm no recinto poderão ter passado pelas suas mãos, entre eles o vistoso Rhododendron arboreum (chamado Rhododendron windsorii no catálogo), que produz grandes cachos de flores cor-de-rosa no início da Primavera.


Polypodium cambricum num muro da Quinta da Macieirinha
A renovação do Jardim Emílio David provocou um dano colateral que pouca gente terá notado; ou, se notou, por certo não considerou importante. É que o solo debaixo dos bosquetes e junto ao gradeamento, onde crescia uma mistura rala de relva, musgos, flores miúdas e fetos, valia como testemunho da passagem dos anos. Ou, se quisermos puxar da erudição, era uma amostra, ainda que em escala diminuta, do trabalho minucioso do tempo, esse grande escultor. Viam-se lá plantas espontâneas que seriam comuns na região quando havia mais espaço para a natureza, mas que no centro da cidade faziam figura de raridades. Eram prova de que, se lhe dermos tempo (um tempo que se mede em décadas), o que é artificial acaba por ser contaminado pelo que é natural. Eis uma lista incompleta dos emissários da natureza que por lá se haviam instalado: morangueiros (Fragaria vesca), violetas silvestres (Viola riviniana), erva-toira-das-heras (Orobanche hederae), fetos variados (Polypodium cambricum, Athyrium filix-femina, Polystichum setiferum), verónicas (Veronica serpyllifolia), e diversos juncos e ciperáceas (Luzula forsteri, Carex divulsa, etc.). Esse solo velho e ricamente infectado pela natureza foi revolvido e obliterado por novas camadas de substrato com os nutrientes na proporção certa para acolher buxos, gilbardeiras e camélias. Nada temos contra esses recém-chegados, mas o tempo foi rasurado, talvez desnecessariamente, e já não estaremos cá para o ver recuperar as décadas perdidas.

17.7.19

O que o Teide tem



A maioria de nós teria decerto dificuldade em viver alguns meses ao relento sob intenso frio e neve (algo que os esquimós conseguem fazer assobiando), aguentando logo depois, e durante o resto do ano, um calor implacável e uma secura extrema (que não atrapalham quem vive junto ao Equador, a saltitar entre riachos e cachoeiras). É a mudança repentina de um regime para outro que não parece ser uma experiência inscrita nos nossos genes, para a qual tenhamos adquirido um meio rápido de adaptação. Pelo contrário, há plantas que resolveram esse problema climático, apesar da sua inexorável imobilidade, permitindo-lhe sobreviver em paragens assim hostis. E algumas até têm um aspecto bastante frágil. Ora veja.



Descurainia bourgeauana (E. Fourn.) O. E. Schulz



Nepeta teydea Webb & Berthel.


No topo da Montanha Branca, no Parque Nacional do Teide, em Tenerife, o que nos rodeia é um mar silencioso de areia cor-de-argila cuja claridade agride os olhos e, já em Maio, é insuportavelmente quente. Mas, entre pausas e muitos goles de água, conseguimos reparar que há afinal plantas tenazes que aqui vivem, e em alguns padrões curiosos: a maioria das plantas hiberna no Inverno, e a floração é curta; a ramagem nova dos raros arbustos (giestas ou retamas) forma uns almofadões densos mas rasteiros; outras plantas têm raízes longas e ondulantes que espreitam entre os torrões secos; outras apresentam folhas pequenas, cobertas de penugem, em compactos arranjos basais; e é frequente a opção de não se desfazerem das partes secas, sejam elas ramos ou cápsulas de frutos já vazias, que se inclinam para o centro da planta e aí despejam toda a água que conseguem captar. Obviamente, estes estratagemas servem para proteger as plantas de ventos fortes (como os que sopram nos desertos e que no cume do Teide são assíduos) e da elevada radiação solar, ao mesmo tempo que lhes permitem reter a humidade do ar, reduzir a perda de água por transpiração e assegurar alguma ração de água.

Terá sido um processo gradual de colonização, com sucessos e recuos. A paisagem vegetal do Teide oferece ocasião, como as ilhas Galápagos noutro século, para uma aventurosa lição (até em férias) sobre a evolução da natureza em circunstâncias adversas.

11.7.19

Histórias da Lista Vermelha: Rhaponticum exaltatum


Rhaponticum exaltatum (Cutanda ex Willk.) Greuter (= Leuzea rhaponticoides Graells)


Pinhas na extremidade de hastes longuíssimas, que não são pinhas mas sim invólucros para flores que esperam pelo Verão para se mostrarem durante uma breve semana, confiando que os polinizadores não faltem à chamada: eis uma possível descrição desta misteriosa asterácea com folhas que lembram vagamente as do rabanete, moradora de plantações florestais e de bosques de carvalho-negral a norte de Bragança. As brácteas involucrais douradas, imbricadas como as telhas de uma casa, denunciam o parentesco com duas outras compostas de floração também efémera: a Leuzea conifera (= Rhaponticum coniferum), habitante de substratos calcários secos, presente no Algarve, no Centro-Oeste e em três ou quatro lugares de Trás-os-Montes; e a Leuzea longifolia (= Rhaponticum longifolium), endémica do litoral português que surge (muito raramente) em solos húmidos siliciosos ou arenosos.

Apesar de ser mais bonito e mais fácil de pronunciar, o nome genérico Leuzea foi, por força dos estudos filogenéticos, substituído por Rhaponticum. Esses estudos ditaram a fusão dos dois géneros; e, por prevalecer o critério da antiguidade, foi conservado o nome Rhaponticum e descartado o de Leuzea. Talvez a culpa de toda esta instabilidade nomenclatural se deva a Shakespeare e à famosa citação A rose by any other name would smell as sweet. Por muito arrevesados que sejam os nomes que lhes dêem, as plantas nunca deixarão de ser o que são.

O Rhaponticum exaltatum, com os 140 cm de altura que por vezes atinge, é o mais avantajado entre os seus congéneres portugueses, como aliás parece proclamar o seu orgulhoso epíteto específico. É também o mais raro. Em 1889, Joaquim de Mariz, botânico da Universidade de Coimbra, reportou a sua existência nas cercanias de Vimioso, em Trás-os-Montes, nos seguintes termos: «Nos terrenos incultos dos outeiros e por entre as azinheiras e outros arbustos crescem plantas muito apreciáveis, tais como o Lilium martagon, o Orobus niger, o Lathyrus latifolius, uma variedade da Armeria allioides, o Geranium sanguineum, a Inula salicina e a Leuzea rhaponticoides, espécie insigne e nova para a flora portuguesa.» (Uma excursão botânica em Trás-os-Montes, Boletim da Sociedade Broteriana, vol. VII, 1889, pp 3-34). A planta voltou a ser colhida na mesma localidade pelo Padre Miranda Lopes (1872-1942), mas desde essa época nunca mais lá foi vista. Nos anos 90 do século passado, Carlos Aguiar reencontrou-a perto de Rio de Onor, e hoje em dia, no nosso país, ela parece estar confinada ao limite nordeste do Parque Natural de Montesinho. No resto da Península Ibérica (e da Europa), a espécie é apenas conhecida na serra de Gredos, onde aliás é bem mais numerosa. Sabe-se ainda que ocorre em Marrocos.

Além das plausíveis ameaças que afectam uma população escassa, como a herbivoria ou, no outro prato da balança, o adensamento da vegetação arbustiva, o Rhaponticum exaltatum sofre, no nosso país, de óbvias dificuldades de reprodução. Vimos, em vários pontos separados por um ou dois quilómetros, largas dezenas de plantas só com folhas basais. Plantas com haste floral só avistámos cinco, muito distanciadas umas das outras. Mesmo que a planta pratique a autogamia, tão débil estratégia reprodutiva mais parece um suicídio a prazo. Oxalá este tenha sido um mau ano, e em anos mais favoráveis a percentagem de indivíduos em flor seja mais razoável. Em qualquer caso, é inteiramente apropriado que, na Lista Vermelha da Flora de Portugal, o Rhaponticum exaltatum tenha sido considerado Em Perigo Crítico.