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06/02/2022

Erva raposeira

Reseda barrelieri Bertol. ex Müll. Arg.


Para quem vem do centro da Península em direcção ao norte, as montanhas calcárias de Palência anunciam, em modo suave, que estamos a chegar à Cordilheira Cantábrica, deixando para trás as estradas rectilíneas que cruzam planaltos infindáveis. A montanha palentina pode ser vista como um aperitivo modesto para quem vai em busca de paisagens de cortar o fôlego, e anseia por afastar-se de lugares muito marcados pela presença humana. Aqui, os rios correm pachorrentos por declives imperceptíveis, as povoações esparsas são entremeadas por extensos campos de cultivo geometricamente parcelados, e há zonas industriais e pedreiras activas nos arredores de pequenas cidades como Aguilar de Campoo. Mesmo assim, quem percorre as margens do rio Pisuerga em Villaescusa de las Torres, ou ascende aos afloramentos calcários sobranceiros à aldeia, se não encontra "natureza em estado puro" (esse mito romântico tão ao gosto de quem escreve para viajantes de sofá), pelo menos mergulha numa paisagem ordenada onde o que é espontâneo e genuíno na natureza ocupa lugar central.

À lista de preciosidades botânicas de Villaescusa de que já demos notícia (Saxifraga cuneata, Arenaria grandiflora, Telephium imperati, Lactuca perennis e Berberis vulgaris), juntamos agora uma reseda com preferência por substratos calcícolas ou margosos que tem a distinção de ser um endemismo ibérico e que, em espanhol, é conhecida como hopo de zorra (rabo-de-raposa). Com hastes erectas que podem chegar a um metro de altura e floração que se estende de Março a Julho, a Reseda barrelieri (o epíteto homageia Jacques Barrelier, botânico e padre dominicano francês do séc. XVII) apresenta fortes semelhanças com congéneres suas como a R. alba e a R. suffruticosa; da primeira distingue-se pelas flores sésseis (a R. alba tem pedicelos bem desenvolvidos), e da segunda por ter folhas basais menos recortados (as da R. suffruticosa são bipinatífidas). Tanto a R. barrelieri como a R. alba estão assinaladas como espontâneas em Portugal; e ambas, infelizmente, correm o risco de desaparecer do nosso país: a R. alba, que na Lista Vermelha da Flora de Portugal [LVF] foi considerada em "perigo crítico", só era conhecida das dunas de Tróia, e já não é vista desde 2015; a R. barrelieri, tanto quanto se sabe, ainda se vai aguentando na envolvente das antigas minas de Santo Adrião, em Vimioso, mas com um efectivo populacional de poucas dezenas (a LVF considerou-a "em perigo").

Santo Adrião é o maior afloramento calcário de Trás-os-Montes e dá abrigo a algumas plantas únicas. Com o fim das actividades extractivas em 2001, é hoje um espaço natural protegido incluído na Rede Natura 2000. Será isso suficiente para a Reseda barrelieri ter futuro? Em Portugal, e como a campanha do lítio tem eloquentemente mostrado, só interessa proteger a natureza enquanto valores (económicos) mais altos não se levantam.

01/02/2022

Alfavaca de Sicó

No âmbito da elaboração da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal, ficámos a saber que o Astragalus glaux ocorre em tomilhais do maciço de Sicó, em substrato calcário margoso. As plantas desta espécie perene são herbáceas pequenas, penugentas, ramificadas na base e de hábito rasteiro, por vezes com talos delgados quase lenhosos. É relativamente frequente em Espanha e na região mediterrânica, especialmente em zonas montanhosas, mas por cá os registos da sua presença são raros, restritos a alguns núcleos na Beira Litoral, Alentejo e Estremadura.

- Espera. Disseste solo margoso?...

Sim. Esta alfavaca floresce entre Março e Maio, e as inflorescências são racimos arredondados e erectos. As flores são rosadas, com estandartes estreitos mas longos, a apontar para cima, muito bem arrumadas em torno de um centro onde a floração é mais tardia.

- Solo margoso é o que não falta nas faldas da serra de Janeanes, onde vimos o Andropogon distachyos. Poderíamos ir lá em Maio, num dia em que não chova para não nos enterrarmos na argila.



E fomos. A população de Astragalus glaux que encontrámos, não exactamente em Janeanes mas mais a sul, já no concelho de Ansião, de apenas vinte plantas, tinha inúmeras flores e alguns frutos: aglomerados globosos que parecem obtidos das inflorescências por substituição de cada flor por um fruto ovóide, peludo e com um bico.

Astragalus glaux L.


Há na natureza, e entre as plantas em particular, muitas instâncias de sincronização, de que os milhares de pirilampos a piscar em sintonia são talvez o exemplo mais famoso. Os renques de jacarandás completamente floridos de roxo parecem sugerir que há um relógio que todas as plantas da mesma espécie consultam, e a que todas as flores de uma mesma planta obedecem escrupulosamente. Mas entre as herbáceas de pequeno porte a opção de gastar todas as flores em poucos dias talvez seja demasiado arriscada. O Astragalus glaux mantém flores e frutos (nada vistosos, aliás) em simultâneo, garantindo desse modo que a atenção dos insectos não enfraquece enquanto há pólen ou sementes para disseminar.

28/11/2021

Hibisco dos arrozais

O rio Pranto mostra, perto da foz, a placidez de um resignado. É um dos últimos afluentes do Mondego e, em Alqueidão, junto à Figueira da Foz, entrega a água com vagar, recriando um pântano gigantesco que por vezes engorda até verter. É um pasto de mosquitos multi-variantes, mas também um refúgio de garças, corvos e flamingos. Desse pachorrento caudal aproveitam os extensos arrozais do Baixo Mondego, num amanhar intensivo da terra que lamentavelmente não dispensa o uso de químicos nem o de máquinas ruidosas para guiar a água. Mas é precisamente na proximidade destes arrozais, em bermas de caminhos margosos ou nas margens de canaviais que juraríamos impróprios para quem aprecia estar vivo, que está a única população portuguesa conhecida deste fantástico arbusto.

Hibiscus-palustris L.


Quando vimos estas plantas no início de Junho, não estavam ainda em flor e a folhagem tinha um aspecto desolador. As folhas, esbranquiçadas na face inferior e com um hábito pendente, pareciam prontas a desabar. Mas um mês depois, como se salvas, exibiam lindas flores solitárias, de enormes pétalas rosadas com uma mancha branca (ou púrpura) na base e um duplo cálice a protegê-las.

Criticamente em perigo, diz o Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal. Não nos surpreende: apesar de ser uma espécie perene, o núcleo conhecido tem cerca de 150 indivíduos e está em declínio, ameaçado pela expansão do regadio, pela limpeza descuidada da vegetação e pela degradação do habitat.

Na Península Ibérica, o Hibiscus palustris tem uma distribuição restrita à Cantábria e à população portuguesa na Beira Litoral. Talvez esta se extinga se avançar o projeto de regadio no vale do Pranto. Que os decisores, frequentemente sem memória útil, não digam mais tarde que não foram avisados deste risco.

12/12/2020

Ervilhaca viciosa



Quando queremos fingir que Portugal é como a América, com estradas infinitas que levam a lugares insuspeitados, a solução é abandonar as modernas auto-estradas e enfiar por uma daquelas estradas nacionais que, acumulando curvas sobre curvas, se esforçam sempre por encontrar o caminho mais demorado entre dois pontos. É um truque modesto que substitui a dimensão espacial, em que a exiguidade do país nos obriga a ser pobres, pela dimensão temporal, em que estamos tão bem servidos como o resto da humanidade. Os 226 quilómetros da EN 222 entre a avenida da República, em Vila Nova de Gaia, e os amendoais de Almendra (passe o pleonasmo), em Vila Nova de Foz Côa, convertem-se assim numa rota de evasão para preencher os dias (muitos dias) com o vagar que lhes é devido. É verdade que o troço mais celebrado da estrada, entre a Régua e o Pinhão, não é especialmente curvilíneo, e até encoraja os condutores a lançarem-se em correrias imprudentes. Mas antes e depois, e exceptuando os pontos onde o traçado foi barbaramente "corrigido", a estrada recusa teimosamente alongar-se em rectas.

Nenhuma curva da EN 222 é escusada, nenhum quilómetro é redundante. Talvez por isso nunca lhe tenham suprimido os quatro mil metros a mais que impedem a quilometragem de coincidir com o nome. Entre São João da Pesqueira e Foz Côa, a estrada afasta-se do Douro e desenrola-se num quase planalto entre os 600 e os 700 metros de altitude. A canícula que aflige o vale do Douro nos meses de Verão chega ali atenuada, e os vinhedos que preenchem os socalcos dão lugar a pomares e a manchas esparsas de pinheiros, sobreiros, azinheiras e zimbros. É um bom lugar para orquídeas nos meses de Primavera: a Orchis mascula e a Neotinea maculata chegam a ser abundantes, e com sorte avistamos também a Dactylorhiza sulphurea. Depois de Foz Côa a estrada desce e, ultrapassada a ponte sobre o Côa, reaproxima-se do Douro durante uns breves quilómetros. É não muito longe da ponte, num talude seco rigorosamente virado para sul, que mora, na prestigiosa companhia do feto-de-veludo, a ervilhaca que hoje ocupa o escaparate.

Vicia vicioides (Desf.) Cout.


Vicia, que nada tem a ver com "vício", era já o nome latino destas leguminosas de hábito trepador, em especial da ervilhaca-comum (Vicia sativa). O que há de estranho na Vicia vicioides é o nome informar-nos que se trata de uma Vicia parecida com uma Vicia — caso semelhante é o do Halimium halimifolium, em que ficamos a saber que uma certa planta tem folhas dela própria. Tais disparates não pretendem exprimir a verdade filosófica de que cada coisa é idêntica a si mesma, e de facto ninguém tem culpa deles. Resultam apenas de ajustes taxonómicos e da aplicação das regras da nomenclatura botânica: as plantas em causa começaram por chamar-se Ervum vicioides e Cistus halimifolius; e, quando foram transferidas para géneros mais apropriados, essas regras impuseram que se mantivessem os epítetos específicos.

As ervilhacas, que despontam cedo na Primavera e que, em Portugal continental, são comuns em quase todo o tipo de habitats, não nascem todas iguais. Há algumas que são usadas para forragem, outras que nascem onde nenhum gado lhes põe o dente, umas que são muito vulgares, outras que são absolutas raridades. Na Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, há quatro espécies de Vicia com estatuto de vulnerável (V. bithynica, V. onobrychioides, V. orobus e V. peregrina), uma regionalmente extinta (V. tetrasperma), uma quase ameaçada (V. narbonensis) e, finalmente, uma com dados insuficientes, precisamente a nossa V. viciodes. Talvez ela seja ainda mais rara do que aquelas que mereceram algum estatuto de protecção, mas pode ser apenas mais esquiva. Certo é que há registos antigos da sua presença em Santiago do Cacém e em Elvas, mas há muito que não é vista nessas paragens e agora só sabemos dela bem mais a norte, em Foz Côa. As bermas de estrada, mais ainda com as limpezas tornadas obrigatórias, não são refúgio seguro para plantas raras, mas felizmente a V. viciodes fez seguro de vida e está presente pelo menos num outro local do vale do Côa, esse muito mais recatado.

A V. viciodes, que se diferencia bem das suas congéneres pela forma e cor das flores (que são minúsculas, com menos de 1 cm de diâmetro) e pelos cálices densamente vilosos, tem uma distribuição global restrita, ainda que repartida por dois continentes: fora da Península Ibérica, onde é mais frequente entre Málaga e Cádiz, só aparece em Marrocos e na Argélia. A sua precária presença no noroeste de Portugal marca, e por grande distância, o limite setentrional da sua distribuição.

15/11/2020

Bunho triangular



Em 2020, nos meses agora longínquos em que gozámos de uma breve liberdade condicional, visitámos duas vezes o rio Minho. Da primeira vez, ainda em Maio, não vimos caiaques a deslizar nas águas e só nos cruzámos com duas pessoas. Do lado de lá havia quem nos acenasse numa espécie de desespero por não poder chegar mais perto. Quando voltámos, em meados de Julho, já portugueses e galegos se misturavam na ânsia de esquecer os meses em que foram impedidos de atravessar o rio. Caminhar junto ao rio, ou testar a medo a temperatura da água com os pés descalços, dificilmente poderiam ser, dessa vez, experiências solitárias. Ainda assim, são muitos os quilómetros de rio entre Valença, Monção e Melgaço, e pouca gente se dá ao incómodo de fazer centenas de metros a pé para chegar aos pontos mais esconsos. E é nesses lugares de relativo sossego que se refugiam as raridades botânicas.

Schoenoplectus triqueter (L.) Palla


A raridade que hoje mostramos dá pelo nome de Schoenoplectus triqueter; chamamos-lhe bunho-triangular por causa do caule esquinado com três faces bem marcadas. Trata-se de uma ciperácea robusta, com hastes de mais de um metro de altura, que aprecia substratos lodosos em remansos de rios ou estuários, e que, em Portugal, tendo desaparecido do litoral centro, apenas se encontra algures no Guadiana e, em muito maior número, no troço do rio Minho entre Caminha e Monção. Só há poucos anos se soube da sua presença no extremo noroeste de Portugal; mas, tirando essa boa novidade, a perda ou degradação do habitat da planta têm sido generalizados, tanto assim que ela foi incluída na Lista Vermelha da Flora de Portugal com o estatuto de vulnerável. Da mesma lista constam três outras plantas ameaçadas que também têm no rio Minho as suas principais (ou únicas) populações nacionais: a cravina-das-pesqueiras. o golfão-pequeno e a espiga-de-água.

A vida em Portugal não está fácil para os bunhos: duas outras espécies de Schoenoplectus, S. erectus e S. litoralis, figuram em destaque na Lista Vermelha. Ambas estão em perigo crítico de extinção, e é provável que a primeira, com última morada conhecida no baixo Mondego, já não exista em território nacional. Dentro do género, o S. lacustris, que se distingue por ter caules mais altos e de secção perfeitamente circular, é o único que tem dado mostras de pujança, com muitos núcleos populacionais tanto no litoral como no interior do país.

08/11/2020

Árvore dos fusos

Quando falamos de bosques, imaginamo-los umbrosos e acolhedores no Verão, abertos e húmidos no Inverno, abrigando carvalhos, azinheiras, sobreiros, padreiros, zelhas, pilriteiros, medronheiros, cerejeiras e uma profusão de arbustos que se regalam com os solos frescos e férteis destes locais. Com sorte, há ainda regatos ou penas de água que alimentam avelaneiras, amieiros, salgueiros, freixos e herbáceas excepcionais, além de taludes de rochas raras e fetos ainda mais invulgares. São habitats fáceis de destruir, porém, e restam poucos no nosso país. No nordeste transmontano sobram alguns dos melhores carvalhais do país, e é lá que mora a única população portuguesa conhecida de Euonymus europaeus.

Parque Natural Collados del Asón, Cantábria
Euonymus europaeus L.


Esta é uma planta de ampla distribuição na Europa e na Ásia, frequente nas montanhas do norte da Península Ibérica. É resistente ao frio e ao calor intensos, mas não parece apreciar o clima mais ameno do oeste da Península. Foi na Cantábria que vimos inúmeros exemplares desta árvore de copa magnífica, a bordejar margens de rios caudalosos, em solo calcário e bem drenado. As flores têm pedicelo longo, mas são minúsculas e branco-esverdeadas; o seu fraco efeito decorativo é compensado pelos frutos muito vistosos, da cor do coral, de fazer inveja a qualquer cerejeira.

Os vários nomes por que é conhecida, aludindo precisamente aos frutos (barrete-de-padre, bonetero), indicam que já foi mais abundante. Muitos recordam que a madeira, densa, homogénea, perfumada e de cor amarelo-claro, foi outrora a das rocas e fusos (até das histórias de fadas), e dos arcos de violino. Mas em Portugal a fuseira está ameaçada, sobretudo porque os poucos indivíduos remanescentes podem ser vítimas do corte indiscriminado de carvalhais ou do desbaste da vegetação de sebes. Consta da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental com o estatuto de vulnerável, o que não é boa notícia.

25/10/2020

Uma Volutaria por outra

Nos jornais portugueses, são raras as notícias sobre a flora lusitana e a natureza é, jornalisticamente falando, uma paisagem incompreendida e mal etiquetada. Aos poucos redactores que os jornais ainda empregam não se perdoaria a desatenção face ao notável programa de conservação do lince ibérico no Vale do Guadiana. Mas, quanto a plantas, elas são mencionadas aquando dos grandes incêndios, sendo então referidas colectivamente como floresta, ou são capa dos suplementos dos jornais ao fim-de-semana como vegetais cozinhados. Decerto por insistirem nesta abordagem superficial da flora, os jornais portugueses perderam recentemente duas excelentes notícias:

1. Portugal deixou de integrar a lista de países europeus (eram 3) que não têm uma lista vermelha da sua flora nativa. Apresentada oficialmente a 13 de Outubro, a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental é o resultado de vários anos de trabalho de uma equipa diligente de botânicos que, com o apoio de amadores, conseguiu elaborar um mapa muito fiel da distribuição e do nível de ameaça a que estão sujeitas mais de 600 espécies de plantas nativas em Portugal continental. O país possui finalmente um guião detalhado para uma acção concertada de conservação de habitats e espécies da sua flora espontânea.

2. No âmbito do esforço de prospecção botânica que a elaboração desta lista vermelha exigiu, reencontrou-se uma pequena população de uma asterácea muito rara, a Volutaria crupinoides, planta de locais pedregosos e secos de origem calcária, de que, no continente europeu, só há registo em Portugal. Os poucos indivíduos (que não conhecemos) ocupam uma área muito reduzida nas arribas marítimas da serra da Arrábida.

O género Volutaria é essencialmente tropical, com um ascendente comum asiático, havendo registo de cerca de 18 espécies distribuídas pelo norte de África, região mediterrânica, Ásia, Península Ibérica e ilhas Canárias. São herbáceas anuais que se têm disseminado com sucesso após o aparecimento nessas regiões de vastas zonas abertas com vegetação rala e regimes de precipitação semi-desérticos.



Nas Canárias, onde pouco chove e já quase não há rios, contam-se duas espécies endémicas de Volutaria (V. bollei, de Lanzarote e Fuerteventura, e V. canariensis, presente em todas as ilhas), além de populações de V. tubuliflora. Os capítulos florais deste género são muito vistosos, com cálices penugentos e flores hermafroditas ao centro, notando-se outras, estéreis e grandes, no bordo (enfeites que decerto tentam os polinizadores). A floração dos exemplares de V. canariensis que vimos em Maio de 2019 em Tenerife estava quase terminada, e há que aguardar que a pandemia deixe de ser notícia para os vermos mais floridos.

Volutaria canariensis Wagenitz

04/10/2020

Angélica galega


Angelica pachycarpa Lange


É de alguma injustiça que, no comércio hortícola internacional, esta planta seja conhecida como Portuguese Angelica. Um nome muito mais apropriado, e neutro quanto à nacionalidade, é Shiny Angelica — o brilho lustroso das suas folhas é notório nas fotos aí em cima. E por que não deve a Angelica pachycarpa ser vendida como portuguesa? Acontece que esta endémica do noroeste peninsular, típica de falésias costeiras, é muito mais frequente na Galiza do que em Portugal, onde só ocorre ao largo de Peniche, nas Berlengas. Tratando-se de uma planta bienal (as folhas brotam num ano e a planta floresce no ano seguinte, morrendo após a dispersão dos frutos), o número de exemplares na natureza pode oscilar de ano para ano, mas calcula-se que nas Berlengas elas nunca ultrapassem as duas centenas. Conhecendo a sua abundância em certos pontos da costa galega (cabo Silleiro, por exemplo), temos que admitir que as angélicas (verdadeiramente) portuguesas são uma pequeníssima minoria dentro da população global da planta. E, como nunca fomos às Berlengas e apenas a vimos na Galiza, é angélica galega que gostamos de lhe chamar.

Se a Angelica pachycarpa aparece, e com frequência, entre Baiona e A Guarda, ali mesmo junto à foz do Minho, por que não dá ela o salto para terras de Caminha ou Viana? Acontece que já deu, mas da incursão resultou apenas uma população escassa e efémera. Em 1999, Henrique Nepomuceno Alves encontrou menos de uma dezena de plantas nas dunas atlânticas de Caminha, junto à mata do Camarido, e o encontro repetiu-se em várias ocasiões até 2009, mas depois disso ninguém mais logrou avistar a Angelica pachycarpa na costa norte de Portugal. Talvez alguma intervenção destrutiva nas dunas tenha apressado o desaparecimento, mas a verdade é que a ecologia estava errada: a Angelica pachycarpa não é uma planta de dunas; não está equipada para lidar com a instabilidade do solo arenoso, e precisa da dureza da rocha para se firmar. No litoral minhoto, as altas falésias em que a Angelica pachycarpa poderia ser feliz, e que são tão frequentes na costa galega, estão quase totalmente ausentes, assinalando-se o promontório de Montedor como única excepção de monta. (Esta lembrança de que as linhas costeiras do Minho e da Galiza têm fisionomias muito contrastantes é o nosso contributo para incentivar o intercâmbio turístico entre as duas regiões.)

Embora de porte modesto para o seu género (menos de 1 m de altura), a Angelica pachycarpa tem um aspecto muito robusto, com grandes folhas semi-suculentas e caules sólidos e ramificados. O epíteto pachycarpa significa frutos grossos, referindo-se à espessura da membrana que os envolve. No aspecto geral, e mesmo em alguns detalhes morfológicos, a Angelica pachycarpa é uma versão reduzida da magnífica Angelica lignescens açoriana. Mas aqui talvez a ordem dos factores esteja trocada: não sendo improvável que a planta insular descenda directamente da planta continental (estudo que, tanto quanto sabemos, está por fazer), é mais correcto dizer que a A. lignescens é uma versão aumentada da A. pachycarpa.

Nota. Atendendo ao magro contingente da espécie em território nacional, e ao seu presumível desaparecimento da costa minhota, a Lista Vermelha da Flora de Portugal atribuiu à A. pachycarpa o estatuto de "em perigo".

14/09/2020

Erva-azul dos gatos

Uma das afirmações mais intrigantes que a ciência nos deu no século XX é a de que não é possível medir o tempo de modo universal. Dito assim, soa complicado, porque o conceito de tempo é criação nossa e, portanto, não deveria poder fugir ao nosso controle. Na verdade, embora todos usemos fracções da hora para o medir, e os relógios sejam cada vez mais precisos, o tempo não tem carácter absoluto: a velocidade a que passa depende do nosso próprio movimento; e quanto mais depressa vamos, mais lentamente ele decorre. Depois da nossa visita ao Castro de Santiago, em Mogadouro, a que se acede vagarosamente por ladeira íngreme e pedregosa, sem sombra que alivie o calor desmedido, esta relatividade do tempo ganha outro sentido: o tempo é tão rápido a passar que só ao fim de 1 hora, e uns tantos impropérios, completamos um percurso que julgámos ser capazes de percorrer em vinte minutos.



No topo do castro, porém, ao vermos esta planta fabulosa em flor na orla do bosque, damos o esforço da subida como bem empregue, e a nossa aflição com o tempo gasto é agora apenas um problema para resolver à descida.


Nepeta caerulea Aiton


Estamos na extremidade sudoeste da serra do Variz, a cerca de 950 metros de altitude, junto a um cume quartzítico de onde se avista o planalto de Miranda. Aqui há um mato ralo mas bem conservado de carvalho-negral (Q. pyrenaica) e um coberto vegetal que, uns meses antes do Verão, deve ter mostrado uma variedade notável de herbáceas. Lamentavelmente, abriram-se por ali vários estradões que, ainda que nos poupem segundos na subida e tenham revelado aos historiadores indícios de um povoado da Idade do Ferro que ali existiu, poderão destruir um habitat raro, que se julgaria parado no tempo.

O género Nepeta bem pode orgulhar-se de só ter espécies vistosas, algumas com hastes florais que ultrapassam 1 metro, outras de porte baixo mas entre as plantas mais formosas que conhecemos. Da N. caerulea, que é um endemismo da Península Ibérica, conhecem-se poucos núcleos em Portugal e quase todos com poucos indivíduos.

01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo — veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia — nas dunas de Corrubedo, Galiza