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01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo - veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia - nas dunas de Corrubedo, Galiza

11/07/2020

Malmequeres carecas



Toda a gente aprende desde criança a reconhecer a flor do malmequer, e dessa aprendizagem inicial deriva muita da ignorância botânica que nos acompanhará pela vida fora. São dois os erros na expressão flor do malmequer: aquilo que nos parece ser uma só flor é de facto um capítulo, ou seja, um aglomerado de minúsculas flores (ou florículos); e malmequeres há muitos e muito diversos, sendo às dezenas as espécies que em Portugal assim podem ser chamadas. Se abstrairmos do tipo de inflorescência, não há qualquer afinidade entre o acetinado e elegante Phalacrocarpum oppositifolium, que encontramos nas serras do norte e centro, e a rasteira Bellis perennis, que coloniza relvados urbanos. Como podemos achar que os conhecemos se, para nós, ambos forem apenas malmequeres?

Cada uma das "pétalas" que enfeitam os capítulos dos malmequeres é na verdade uma lígula, apêndice vistoso dos florículos que bordejam o disco floral e que desse modo se distinguem dos florículos tubulares centrais. As lígulas não servem senão para atrair insectos polinizadores; e, se outros engodos houver (olfactivos, por exemplo), a planta pode dispensá-las por completo. Um malmequer sem "pétalas" não é uma aberração, nem um sinal de que alguém, por maldoso desfastio, resolveu arrancá-las uma a uma. Aconteceu simplesmente que, no processo evolutivo que originou essa espécie, as lígulas a certa altura se perderam por não terem utilidade, tal como nós começámos a perder a cauda quando os primatas nossos antepassados desceram das árvores.

Um malmequer careca pode assim representar um estádio evolutivo mais avançado do que um malmequer convencional, embora para usos ornamentais possamos preferir o segundo. Mas na natureza nenhuma planta evoluiu com o fito de ser agradável aos nossos olhos ou de ficar bonita nos nossos jardins. Se bem que as santolinas, apesar de carecas, sejam muito favorecidas em jardinagem.


Santolina semidentata Hoffmanns. & Link


As santolinas são arbustos compactos, de um verde acinzentado e de folhas lineares mais ou menos carnudas, que na Primavera ou início do Verão fazem brotar inúmeras hastes esguias, cada uma delas encimada por um único capítulo. À sua popularidade em jardinagem não será alheia a antiga reputação medicinal e os possíveis usos em perfumaria. Em Portugal são reconhecidas três espécies espontâneas, todas de aspecto geral semelhante, distinguíveis por minudências da folhagem ou, mais preguiçosamente, pela distribuição geográfica. A que ocorre em Trás-os-Montes, nos afloramentos ultrabásicos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, é a Santolina semidentata (fotos em cima), endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica. Vimo-la, no início de um mês de Junho, a cobrir toda uma ladeira entre um pinhal e uma estrada, e daí ter-nos ficado a ideia de que a planta não é rara. De facto, o estudo de campo no âmbito do projecto da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF) concluiu que a espécie não está ameaçada e atribuiu-lhe o estatuto de pouco preocupante. É daquelas plantas felizes que aprenderam a conviver com o homem e conseguem instalar-se em habitats (moderadamente) degradados.

Na situação oposta está o segundo malmequer careca que hoje apresentamos: segundo a LVF, o Anthemis canescens (fotos em baixo) está "em perigo", significando isto que em Portugal tem vindo a desaparecer e é hoje em dia muito escasso. Apesar de ocorrer em Trás-os-Montes, na Beira Interior e na Estremadura, o efectivo populacional da espécie no nosso país dificilmente atinge a casa dos milhares. No único local onde a vimos, no limite norte do concelho de Bragança, apenas detectámos três exemplares, só um deles em floração.

Embora os capítulos e as hastes compridíssimas lembrem as santolinas, a folhagem do Anthemis canescens rapidamente desfaz a confusão: não há qualquer parecença entre as folhas compostas bipinadas que vemos na 2.º foto abaixo e as folhas simples de uma santolina (exemplo).

E a confusão nem teria chegado a existir se o Anthemis canescens nos tivesse aparecido na sua versão não careca. É que os capítulos tanto se podem apresentar com lígulas como sem elas, e noutros países europeus onde a planta ocorre (ela distribui-se pela Europa mediterrânica desde a Península Ibérica até ao Cáucaso) até é mais frequente a versão ligulada. Talvez a espécie esteja em processo de descartar as lígulas e, nesse aspecto, as plantas portuguesas estejam na vanguarda. Só que as vanguardas também se podem extinguir.


Anthemis canescens Brot.

11/09/2019

Histórias da Lista Vermelha: Isatis platyloba



Vistos do alto de São João das Arribas, em Miranda do Douro, os barcos de cruzeiro deslizando no rio parecem brinquedos de criança, e as grandes aves de rapina que os sobrevoam reduzem-se ao tamanho de passarinhos. Nestas escarpas onde cair parece tão fácil e apetecível (não está o rio lá em baixo para nos abraçar?) vive uma planta crucífera de flores amarelas, capaz de atingir um metro de altura, que durante mais de um século se julgou exclusiva deste lugar. Trata-se da Isatis platyloba, assim baptizada em 1821 pelo alemão Ernst Gottlieb von Steudel mas já mencionada por Brotero na sua Flora Lusitanica em 1804 sob o nome de Isatis lusitanica. Sabe-se hoje que a planta existe nas duas margens do Douro pelo menos entre São João das Arribas e a barragem de Picote, e que também ocorre nos rios Duratón e Riaza, afluentes espanhóis do Douro. Talvez a preferência por estes precipícios rochosos escavados pelas águas limite a expansão da planta, afastando-a daqueles troços fluviais onde as margens são menos vertiginosas.

Sem nome vernáculo conhecido, não será inapropriado chamar-lhe pastel-português - não pastel de comer, mas de colorir. A Isatis platyloba, de distribuição tão restrita, é à primeira vista quase indistinguível do verdadeiro pastel, Isatis tinctoria, que se distribui por vastas zonas da Ásia, Europa e norte de África, e foi, até ao primeiro quartel do século XX, um dos mais importantes fornecedores de matéria-prima para a indústria tintureira. Curiosamente, o pigmento que se extrai das folhas verdes e ainda tenras do pastel é azul. Quando o caule se desenvolve e a planta floresce já as folhas pouca cor têm para dar. A afinidade entre as duas espécies de Isatis leva a suspeitar que o pastel-português também tenha vocação tintureira, e há notícias desse antigo uso nas aldeias de Miranda do Douro. Não é contudo improvável que os aldeões usassem o genuíno pastel, pois é sabido (como aqui documentou Francisco Clamote) que as duas plantas coexistem no planalto mirandês, e que a Isatis tinctoria, ao contrário da I. platyloba, tende a ocupar sítios acessíveis como bermas de estrada e terrenos baldios.



Isatis platyloba Link ex Steud.



Além de terem ecologias distintas, as duas Isatis divergem nos seus ciclos de vida: a Isatis platyloba é anual, enquanto que a I. tinctoria é bienal, formando uma roseta de folhas no primeiro ano e florescendo no seu segundo e último ano. Morfologicamente, há pequenas diferenças nas folhas, mas são pouco fiáveis. É quando produzem frutos que a distinção entre as duas espécies se torna óbvia: os da I. platyloba são orbiculares (foto aqui), contrastando com os frutos oblongos da I. tinctoria (foto aqui).

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Isatis platyloba está classificada como vulnerável. O contingente da espécie em Portugal, que talvez fique aquém dos mil indivíduos (número sujeito às oscilações próprias de uma planta anual), tem-se mantido aparentemente estável, sem que grandes estragos ou alterações afectassem o habitat em anos recentes. Tê-los-á havido, e sérios, com a construção das grandes barragens do Douro internacional na segunda metade do século passado. Contudo, a limpeza obsessiva da vegetação espontânea tem vindo a debilitar a população da planta em São João das Arribas, que é a mais numerosa que se conhece. Se essa tendência não for refreada, ou se não tiver em conta o ciclo de vida da planta, ela corre o risco de desaparecer do local.

11/07/2019

Histórias da Lista Vermelha: Rhaponticum exaltatum


Rhaponticum exaltatum (Cutanda ex Willk.) Greuter (= Leuzea rhaponticoides Graells)


Pinhas na extremidade de hastes longuíssimas, que não são pinhas mas sim invólucros para flores que esperam pelo Verão para se mostrarem durante uma breve semana, confiando que os polinizadores não faltem à chamada: eis uma possível descrição desta misteriosa asterácea com folhas que lembram vagamente as do rabanete, moradora de plantações florestais e de bosques de carvalho-negral a norte de Bragança. As brácteas involucrais douradas, imbricadas como as telhas de uma casa, denunciam o parentesco com duas outras compostas de floração também efémera: a Leuzea conifera (= Rhaponticum coniferum), habitante de substratos calcários secos, presente no Algarve, no Centro-Oeste e em três ou quatro lugares de Trás-os-Montes; e a Leuzea longifolia (= Rhaponticum longifolium), endémica do litoral português que surge (muito raramente) em solos húmidos siliciosos ou arenosos.

Apesar de ser mais bonito e mais fácil de pronunciar, o nome genérico Leuzea foi, por força dos estudos filogenéticos, substituído por Rhaponticum. Esses estudos ditaram a fusão dos dois géneros; e, por prevalecer o critério da antiguidade, foi conservado o nome Rhaponticum e descartado o de Leuzea. Talvez a culpa de toda esta instabilidade nomenclatural se deva a Shakespeare e à famosa citação A rose by any other name would smell as sweet. Por muito arrevesados que sejam os nomes que lhes dêem, as plantas nunca deixarão de ser o que são.

O Rhaponticum exaltatum, com os 140 cm de altura que por vezes atinge, é o mais avantajado entre os seus congéneres portugueses, como aliás parece proclamar o seu orgulhoso epíteto específico. É também o mais raro. Em 1889, Joaquim de Mariz, botânico da Universidade de Coimbra, reportou a sua existência nas cercanias de Vimioso, em Trás-os-Montes, nos seguintes termos: «Nos terrenos incultos dos outeiros e por entre as azinheiras e outros arbustos crescem plantas muito apreciáveis, tais como o Lilium martagon, o Orobus niger, o Lathyrus latifolius, uma variedade da Armeria allioides, o Geranium sanguineum, a Inula salicina e a Leuzea rhaponticoides, espécie insigne e nova para a flora portuguesa.» (Uma excursão botânica em Trás-os-Montes, Boletim da Sociedade Broteriana, vol. VII, 1889, pp 3-34). A planta voltou a ser colhida na mesma localidade pelo Padre Miranda Lopes (1872-1942), mas desde essa época nunca mais lá foi vista. Nos anos 90 do século passado, Carlos Aguiar reencontrou-a perto de Rio de Onor, e hoje em dia, no nosso país, ela parece estar confinada ao limite nordeste do Parque Natural de Montesinho. No resto da Península Ibérica (e da Europa), a espécie é apenas conhecida na serra de Gredos, onde aliás é bem mais numerosa. Sabe-se ainda que ocorre em Marrocos.

Além das plausíveis ameaças que afectam uma população escassa, como a herbivoria ou, no outro prato da balança, o adensamento da vegetação arbustiva, o Rhaponticum exaltatum sofre, no nosso país, de óbvias dificuldades de reprodução. Vimos, em vários pontos separados por um ou dois quilómetros, largas dezenas de plantas só com folhas basais. Plantas com haste floral só avistámos cinco, muito distanciadas umas das outras. Mesmo que a planta pratique a autogamia, tão débil estratégia reprodutiva mais parece um suicídio a prazo. Oxalá este tenha sido um mau ano, e em anos mais favoráveis a percentagem de indivíduos em flor seja mais razoável. Em qualquer caso, é inteiramente apropriado que, na Lista Vermelha da Flora de Portugal, o Rhaponticum exaltatum tenha sido considerado Em Perigo Crítico.

23/06/2019

Souto com orquídeas

Em Junho de 2016, o país recebeu uma excelente notícia: tinha sido descoberto num souto do nordeste transmontano, por Américo e Conceição Pereira, um núcleo com bastantes indivíduos de uma das orquídeas mais bonitas e raras entre nós. Infelizmente, os nossos jornais não se interessam por tais assuntos a menos que eles sejam reportados por agências de notícias estrangeiras, e o leitor não terá dado por nada no Facebook. Estamos aqui hoje para remediar essa omissão.


Cephalanthera rubra (L.) Rich.


Desta planta, a Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal tinha registo até então de meia dúzia de exemplares perto de Vinhais, receando pela sua sobrevivência. É que estes soutos antigos, com castanheiros de copas monumentais que no Outono servem generosas quantidades das melhores castanhas portuguesas e em cuja sombra algumas orquídeas se regalam, são privados. E, frequentemente, os proprietários desses bosques não gostam que nas suas terras se descubram plantas que sejam alvo de planos de conservação ou de directivas europeias de protecção. Está-se mesmo a ver o prejuízo: torrão onde se encontre uma planta exclusiva não mais (julgam eles) poderá ser lavrado como o dono bem entender. Daí que, sem apelo nem demora, o solo seja revolvido até não restar memória das herbáceas preciosas que ali se nutriam e da biodiversidade que enriquecia aquele habitat. Por isso, os autores da ficha da espécie na Lista Vermelha da Flora de Portugal entenderam que, apesar de se conhecerem agora mais núcleos desta orquídea, ela continua em perigo.

Do género Cephalanthera ocorre em Portugal outra espécie, a C. longifolia, que tem uma distribuição muito mais ampla (surge de Trás-os-Montes ao Algarve) e é, portanto, bem mais fácil de avistar. É parecida com a C. rubra, mas de flores brancas. Falta encontrar a espécie C. damasonium, frequente na metade oriental de Espanha, que prefere solos calcários em bosques com muita sombra e humidade. Conhecem-se núcleos desta espécie não muito longe do extremo nordeste do país; com sorte, daqui a alguns anos ela seguirá o exemplo do urso pardo e virá fazer-nos uma visita.

07/06/2019

Histórias da Lista Vermelha: Allium schmitzii

Allium schmitzii Cout.


Um mês antes do São João já os alhos-porros silvestres (Allium ampeloprasum) começam a despontar nos campos. Foi talvez a sua aparição que nos incentivou a renovar as buscas por um outro alho que há seis ou sete anos faz parte da nossa lista de desejos. Em 2012, quando nos encontrámos em Lisboa para o lançamento do portal Flora-On, o Carlos Aguiar dera-nos a dica: a jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, o Allium schmitzii é tão abundante que o seu cheiro se sente à distância. Fomos lá em Junho de 2013, já a canícula anunciava o inferno em que a Régua se transforma no Verão, mas desses alhos não detectámos qualquer rasto visual ou olfactivo, talvez porque a busca tivesse sido mal planeada, ou a época fosse tardia, ou esse ano a floração fosse escassa. Em 2017, o biólogo Paulo Pereira, ao serviço da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF), visitou a área e confirmou a existência e relativa pujança do Allium schmitzii na Régua, tendo contado uns duzentos exemplares. Dois anos depois, chegou a vez de a nossa insistência ser recompensada, ainda que in extremis. O início de Maio deverá ser a melhor altura para observar a planta. Chegámos com três semanas de atraso, vimos-lhe os frutos (muitos) e quase nos escapavam as flores.

Endémico da Península Ibérica, o Allium schmitzii vive em leitos de cheias de rios. Em Portugal foi assinalado nas bacias do Douro, Tejo, Guadiana e Sado; em Espanha aparece sobretudo na província de Salamanca, com ocorrências isoladas na serra Madrona e nas montanhas do Sistema Ibérico. O seu habitat tem vindo a a diminuir gradualmente desde meados do século XX, quando em Portugal se iniciou o período de construção de grandes barragens. A planta já não existe nas margens do Tejo em Vila Velha de Rodão, local onde foram colhidos os exemplares usados por António Xavier Pereira Coutinho, em 1897, para descrever a espécie no n.º XIII do Boletim da Sociedade Broteriana. O enchimento da barragem de Alqueva, em 2002, quase a fez desaparecer da bacia do Guadiana. E na bacia do Douro ela parece ter sobrevivido em apenas três lugares: Régua e Bemposta, no rio Douro; e Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo), na margem portuguesa do rio Águeda. No decorrer dos trabalhos da LVF, a existência da planta só pôde ser confirmada no Douro (Régua e Bemposta) e no Tejo (Tramagal): a somar aos duzentos exemplares na Régua, avistaram-se oito em Bemposta e uns cinquenta no Tramagal. Dir-se-ia que a sobrevivência do Allium schmitzii no nosso país está por um fio. Contudo, a prospecção foi tida como insuficiente para se obterem estimativas populacionais fiáveis, e por isso na LFV foi-lhe apenas atribuído o estatuto de "Vulnerável".

No mesmo artigo em que apresenta o Allium schmitzii, Coutinho descreve outro alho semelhante, esse colhido nas margens rochosas do rio Minho entre Monção e Melgaço, a que chama Allium schmitzii var. duriminium. O primeiro distingue-se do segundo, na opinião do autor, por ter flores menores com pedúnculos mais compridos, pelos estames salientes, pela umbela mais ampla - e, de um modo geral, pelo porte mais avantajado. Ambos estes alhos têm semelhanças marcantes, mais acentuadas na var. duriminium, com o Allium schoenoprasum, que é o cebolinho cultivado nas nossas hortas. Assinale-se porém que as flores do cebolinho, além de terem pedúnculos muito curtos que dão à umbela um aspecto compacto, são quase tubulares, com as tépalas muito mais compridas do que os estames. Na sua Flora de Portugal (1.ª edição em 1913), Coutinho muda de opinião sobre a var. duriminium, acabando por subordiná-la ao Allium schoenoprasum.

Seja ele uma variedade do A. schmitzii ou do A. schoenoprasum, esse alho duriminium parece existir apenas no rio Minho, o que faz dele um endemismo de distribuição muito mais restrita do que o A. schmitzii propriamente dito. Porém, como o troço fronteiriço do rio Minho não foi até hoje adulterado por barragens, o habitat tem-se mantido intacto, e a população de "Allium duriminium" atinge certamente as dezenas de milhares de plantas, ultrapassando largamente a do A. schmitzii. Quem visitar as pesqueiras do rio Minho por estes dias (a floração decorre principalmente em Junho) não poderá deixar de o ver.

As fotos abaixo, obtidas em Melgaço há já uns anos, permitirão ao leitor ajuizar das diferenças e semelhanças entre os dois alhos. A ecologia dos dois não é exactamente a mesma: o "A. duriminium" aparece exclusivamente em fendas de rochas, enquanto que, pelo menos na Régua, o A. schmitzii parece ausente dos afloramentos rochosos, vivendo em solos que estão encharcados ou mesmo submersos durante boa parte do ano.


Allium schoenoprasum var. duriminium (Cout.) Cout.

22/05/2019

Histórias da Lista Vermelha: Phleum arenarium



Phleum arenarium L.


Para a grande maioria dos portugueses, "férias" e "praia" são perfeitos sinónimos: de Maio a Outubro, enquanto a chuva e o frio se mantiverem educadamente ausentes, ir à praia é, para o grosso da população, o único modo de ocupar os períodos de lazer. Que o país inteiro se estenda na praia ao sol não é bom para as plantas dunares, mas a instalação de passadiços de acesso às praias um pouco por todo o litoral contribuiu para minimizar os estragos e, em certas casos, até potenciou uma notável recuperação da vegetação das dunas. Contudo, os tempos já foram melhores, e as ameaças sobre as plantas dunares voltam a avolumar-se. A erosão costeira tem feito recuar o cordão dunar, às vezes de forma dramática, em muitos pontos do litoral norte. E algumas câmaras municipais deixaram de se preocupar com a gestão desses habitats, seja para poupar no orçamento, seja porque a conservação da natureza é moda que já passou e poucos votos rende. Entre as prevaricadoras avulta a Câmara Municipal de Gaia (CMG), que, sob a égide do actual presidente Eduardo Vítor Rodrigues (primeiramente eleito em 2013), deixou de controlar o chorão (Carpobrotus edulis) e outras plantas infestantes nos 15 km de dunas do concelho, mantendo embora de pé os cartazes garantindo que esse controlo é feito. Depois de dez ou mais anos em que nos habituámos a ver essas dunas recuperar gradualmente a sua biodiversidade, eis que regressámos à idade das trevas em que tais preocupações são um luxo desnecessário.

A sorte da gramínea dunar que hoje apresentamos, de seu nome Phleum arenarium, não depende, felizmente para ela, do empenho do presidente da CMG, ainda que não se possa dizer o mesmo de outras plantas constantes da Lista Vermelha da Flora de Portugal (um exemplo é o Centaurium chloodes, classificado como "Em Perigo", desaparecido há poucos anos do litoral gaiense). Já em tempos recuados a presença do Phleum arenarium no nosso país parecia restringir-se à faixa litoral a norte do Douro. Na Flora Portuguesa de Gonçalo Sampaio, publicada postumamente em 1946, diz-se que a área de distribuição da planta se estendia até ao Alentejo, mas nenhum registo de herbário corrobora tal informação. Actualmente só se sabe dela em três ou quatro pontos nos concelhos de Vila do Conde, Esposende e Viana do Castelo. As dunas entre a Amorosa e o Cabedelo, a sul do Lima, marcam o limite norte da distibuição portuguesa da planta e albergam o seu maior contingente populacional, atingindo a ordem dos milhares. Mas a planta é pequena, uma simples espiga com 10 a 15 cm de altura; e, tratando-se de uma planta anual de surgimento efémero (floresce entre Maio e Junho, depois seca e desaparece), os seus números podem oscilar muito de ano para ano.

O Phleum arenarium (que, segundo a Lista Vermelha, está "Em Perigo" no nosso país) vive na transição entre a duna primária e a duna cinzenta, em zonas ainda não completamente estabilizadas. Não tolera a instabilidade da frente dunar, mas é pouco competitivo e tem dificuldade em colonizar dunas consolidadas com bom coberto vegetal. O refúgio que encontrou entre a Amorosa e a foz do Lima responde de forma exacta aos seus requisitos, e os passadiços que o põem a salvo do pisoteio também lhe proporcionam um importante habitat secundário. Noutros pontos do litoral norte, o habitat da planta terá sido obliterado pelo estreitamento do cordão dunar, pela caótica rede de carreiros de acesso às praias, e pela expansão de plantas invasoras como o chorão e a acácia-de-espigas.

O Phleum arenarium está amplamente distribuído pela costa atlântica europeia, mas desce também ao Mediterrâneo e, atravessando-o, espeta uma modesta lança em África, não se aventurando para lá de Marrocos. Não é o único penacho-das-areias em miniatura que temos na nossa flora, mas é talvez o mais raro. Se o leitor lograr encontrá-lo, parabéns. Mas, antes de festejar, tire algumas fotos e certifique-se de que aquilo que está a ver não é, por exemplo, o Lagurus ovatus, que tem um aspecto bastante mais fofo e sedoso e é comum em dunas de norte a sul do país.

17/05/2019

Exílio em Lanzarote



A quantidade de termos escolhidos pelos taxonomistas para nomear plantas pequenas, ou de porte rasteiro, e a frequência com que são utilizados revelam que esses cientistas se preocupam com a diversidade do léxico (o que se agradece pois torna a leitura das Floras menos entediante) e dão especial importância a esse pormenor morfológico. Realmente a apreciação do mundo parece mais simples se valorizarmos o contraste, e o dicionário gasta boa parte do seu esforço com antónimos. Ao que é mediano, dito normal, dedicamos em geral apenas a atenção bastante para entender que preenche o entremeio que separa o muito do pouco.

Os botânicos reservam nomes delicados para as plantas pequenas (ou menores do que outras do mesmo género), ou que vivem rentes ao chão, ou ainda que são pouco apelativas: humilis, procumbens, terrestris, parvus, minutus, nanus, tristis são alguns dos mais característicos. A planta que hoje mostramos mal se ergue do solo (e já se chamou Minuartia procumbens) e rasteja espalhando-se nas areias onde habita (e houve quem a designasse Alsine extensa), mas o epíteto que está em vigor é geniculata. Refere-se a joelhos, e alude às dobras dos talos que permitem à planta espraiar-se em muitas direcções, que fariam lembrar joelhos flectidos.



Minuartia geniculata (Poir.) Thell. [= Rhodalsine geniculata (Poir.) F. N. Williams]



A Minuartia geniculata é uma herbácea perene de folhas estreitas e opostas, talos ramificados e glandulosos, e flores rosadas com pétalas em geral menores do que as sépalas, que são debruadas por uma membrana branca e fina. Comum em Gibraltar e noutros pontos da costa mediterrânica, onde os invernos não costumam ser demasiado frios, ocorre também nas Canárias, conhecendo-se populações nas ilhas de Lanzarote, Fuerteventura e Gran Canaria. Os exemplares que vimos, floridos em Dezembro, estavam na Playa de las Conchas, da ilha La Graciosa, a norte de Lanzarote.

Esta espécie também consta da lista da flora de Portugal (e da Flora Ibérica), com o nome Rhodalsine geniculata, mas os últimos avistamentos por cá foram em 1949 e 1951 em Sines, por Abílio Fernandes, e em 1968 na praia de São Torpes, também no concelho de Sines. As prospecções infrutíferas feitas no âmbito da elaboração da Lista Vermelha da Flora de Portugal sugerem que ela está provavelmente extinta em Portugal.

08/05/2019

Histórias da Lista Vermelha: Scrophularia bourgaeana



Scrophularia bourgaeana Lange



As escrofulárias, assim chamadas por se acreditar serem úteis para debelar certos inchaços do pescoço, são herbáceas altas e erectas, frequentemente de caule simples, com as folhas dispostas aos pares. As flores, agrupadas em cachos, são diminutas mas muito características: de forma tubular, inchadas na base, com cores que variam entre o vermelho, o laranja, o amarelo e o branco, apresentam as pétalas superiores salientes e reviradas para cima, formando um espécie de pala. Algumas espécies preferem lugares muito húmidos (como a Scrophularia auriculata), outras não desdenham habitats ruderalizados (como a Scrophularia grandiflora, endémica de Coimbra e arredores), e outras ainda têm gostos versáteis, surgindo um pouco por todo o lado. Entre as últimas sobressai a Scrophularia scorodonia, capaz de crescer em meio urbano sobre velhos muros mas surgindo também em ambientes naturais como margens de ribeiras.

Distinguir as diversas espécies de Scrophularia exige observação atenta. A Scrophularia bourgaeana, de que falamos hoje, apresenta semelhanças vincadas não apenas com a vulgaríssima S. scorodonia mas também com a rara S. herminii, que surge esporadicamente em zonas montanhosas do norte e centro do país. Tanto nas flores como nas folhas (que, nos três casos, são simples e de margens recortadas), as três plantas parecem, à primeira vista, pouco diferir entre si. Contudo, a S. bourgaeana tem pêlos muito curtos, e por isso um aspecto muito menos hirsuto do que a S. herminii (compare as imagens acima com estas: 1, 2); e os cálices das suas flores são desprovidos de margens escariosas, ou têm-nas muito estreitas, o que permite distingui-la da S. scorodonia (compare a penúltima foto acima com esta).

Habilitado que está a reconhecer a Scrophularia bourgaeana, onde poderá o leitor pôr em prática os conhecimentos adquiridos? Em Portugal é difícil, pois a população nacional da planta (que é um endemismo ibérico, e cujo principal contingente mora na serra de Gredos, em Espanha) reduz-se, muito provavelmente, a não mais que quatro dezenas de exemplares, todos eles acantonados numa área muito restrita da serra de Arga. Até Abril de 2017, data em que essa população foi descoberta pelo botânico Paulo Alves no âmbito da preparação de um atlas florístico da serra de Arga, julgava-se que a espécie estava extinta em Portugal, pois há quase 40 anos que ela não era avistada no vale do Ramiscal (Parque Nacional da Peneda-Gerês), único local onde tinha sido assinalada no nosso país.

Essa feliz redescoberta pode revelar-se também o canto do cisne. Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Scrophularia bourgaeana é avaliada, com inteira justiça, como estando em "Perigo Crítico". Os pouquíssimos exemplares existentes vegetam nas cercanias de uma aldeia, em habitats artificiais e precários como sejam as margens muradas de uma ribeira entre campos de cultivo ou as paredes de uma casa arruinada. Em Maio de 2018, quando estas fotos foram obtidas, notámos que o dono de um dos campos tinha aspergido as margens da ribeira com herbicida, matando assim um número importante de exemplares. Se essa prática tão nociva persistir, a Scrophularia bourgaeana não tem futuro em Portugal.