16/09/2026

Embudes & canaveiras

Aproxima-se do fim mais um Verão — que, como todos os outros, se fez com água e à volta da água, apesar de no clima que nos coube em sorte pouco ou nada chover durante estes meses. Há a água salgada ao fundo do areal, onde a medo molharíamos os pés se a preguiça não nos tolhesse os movimentos. Há a água doce das praias do interior, em rios, lagoas ou albufeiras, onde a nortada não sopra para amenizar a canícula e só uma sombra de árvore nos pode socorrer. Há a água dos parques aquáticos de diversões para quem prefira a artificialidade à natureza. E há a água portátil, sempre à mão no cantil ou na garrafa de plástico, que bebericamos a todo o instante como se corrêssemos grave e permanente risco de desidratação.

Seja para sua sobrevivência ou tão-só para entretenimento, a espécie humana está de tal modo ligada à água que parece um erro evolutivo (ou divino, para quem crê no livro do Génesis) o nosso habitat não ser aquático. É paradoxal não podermos viver sem água e, ao mesmo tempo, não podermos viver na água. Para tornar as coisas ainda mais complicadas, a água de que necessitamos é aquela que é mais escassa no planeta. Vivendo a pé enxuto em continentes ou ilhas, rodeados de água que não podemos beber, espreitamos inquietos as nuvens salvíficas que abastecem os rios e aquíferos de que dependemos.

Se a água é cada vez mais escassa para as necessidades humanas, não espanta que os animais e plantas que vivem em rios ou em outras massas de água doce atravessem tempos difíceis. Algumas das plantas mais ameaçadas da flora portuguesa, várias delas já desaparecidas, habitam (ou habitavam) em rios ou nas suas margens, ou em lagoas e zonas paludosas da faixa litoral do país. Os rios foram profundamente alterados com a construção de barragens; e, no litoral, o avanço urbano e a drenagem de zonas húmidas para fins agrícolas ou florestais obliteraram a maioria desses habitats. Uma das vítimas dessa destruição foi a orquídea Epipactis palustris, que não é encontrada no nosso país desde 1961 mas ainda abundava no Minho e Beira Litoral na primeira metade do século XX.

Oenanthe fistulosa L.


Não tendo ainda sido erradicadas do nosso território, as duas umbelíferas que hoje mostramos, ambas do género Oenanthe, e ambas próprias de lugares alagadiços a baixa altitude, já tiveram distribuições muito mais amplas. A O. fistulosa (fotos acima) aparecia em toda a faixa costeira do Douro Litoral ao Baixo Alentejo, mas agora já não é vista a norte, surgindo sobretudo no Baixo Vouga, no Baixo Mondego, e entre Óbidos e São Martinho do Porto; e a O. globulosa (fotos abaixo) — que, por preferir solos básicos, sempre foi por cá a mais escassa das duas — parece ter-se acantonado na Estremadura, entre Sintra e Mafra. Foi no Baixo Vouga que encontrámos a O. fistulosa, e aliás ela não é nada rara nesses terrenos que permanecem alagados boa parte do ano, e que formam com os milheirais um mosaico desenhado a traço grosso pelo verde dos salgueiros. Já para vermos a O. globulosa rumámos a sul e passámos a fronteira: o local do encontro foi o Parque Natural de los Alcornocales, um recanto andaluz inesperadamente fresco e húmido.

Em contraste com a O. crocata, que é vulgaríssima em margens de rios e demais lugares húmidos por todo o território continental português, as restantes espécies de Oenanthe da nossa flora não têm assegurado um futuro risonho, muito pelo contrário. Tal como aquelas de que tratamos hoje, são umbelíferas discretas, de porte reduzido e floração pouco chamativa. Tanto a O. fistulosa como a O. globulosa se ficam pelos 60 a 90 cm de altura máxima, e as inflorescências da primeira são formadas por apenas duas a quatro umbélulas compactas, cada uma com 1 a 1,5 cm de diâmetro. Em suma: são plantas que mal se dá por elas. Quando se tornarem ainda mais raras, quase ninguém lamentará a sua falta. Mas são estas subtracções feitas pela calada, uma de cada vez, que empobrecem irremediavelmente as nossas paisagens e o nosso património natural.

Oenanthe globulosa L.

08/09/2026

Bando de pássaros

Com a saudável desatenção às notícias durante o Verão, talvez o leitor não tenha reparado que foi descrita em Agosto uma nova espécie de Linaria em Portugal continental. Trata-se de um endemismo raro do Algarve que ocorre em prados e orlas de matos. Junta-se a outra descoberta recente (divulgada em Janeiro), presente em arribas costeiras com solo calcário ou arenoso, e que é um endemismo da Estremadura; e a duas novas espécies de Linaria que são endemismos do Algarve, descritos há poucos anos.

Surpreende-nos que ainda se descubram novidades botânicas em locais relativamente acessíveis em Portugal. Neste caso, porém, isso resultou de um estudo morfológico e genético mais apurado, parte de um plano abrangente de arrumação da flora portuguesa. Que surjam novidades no género Linaria, que abriga cerca de 200 espécies anuais ou perenes, também se compreende, dada a sua fácil adaptação a substratos muito diversos, incluindo dunas no litoral e locais perturbados com solo seco ou pobre em nutrientes. Além disso, é um género propício a variações na folhagem e na pigmentação das flores, embora estas pouco mudem de formato: cada flor resume-se a uma corola levemente inchada com dois lábios (um superior dentado, como duas orelhas, e um inferior que serve de pista de aterragem para os polinizadores), cuja entrada é assinalada por uma coloração mais forte, frequentemente alaranjada, terminando com um esporão mais ou menos longo, mais ou menos curvado, onde guarda o néctar. O resultado é uma flor com perfil de passarinho, embora haja quem ali veja uma boquinha-de-sapo.  

O género Linaria é nativo das regiões temperadas da Europa, Norte de África e Ásia, com um pico de diversidade na bacia do Mediterrâneo, beneficiando a Península Ibérica de uma fatia considerável de espécies endémicas. As fotos seguintes, de plantas do sul de Espanha, mostram espécies vizinhas de Linaria que, além do território, decerto também partilham polinizadores e que, curiosamente, desenvolveram uma pigmentação distinta nas flores.

Linaria aeruginea (Gouan) Cav. [ou talvez não]


Linaria amethystea subsp. albiflora (Boiss.) Casim.-Sor. Solanas & Cabezudo


Linaria pedunculata (L.) Chaz.


Linaria platycalyx Boiss.


Linaria saturejoides Boiss.


Pode dar-se o caso de estas diferenças facilitarem a detecção da flor por este ou aquele polinizador, e este sucesso ser o principal responsável pela invulgar diversidade nestas plantas. Mas, dada a reconhecida compatibilidade genética entre espécies do género Linaria, outra origem plausível de tantas manchas, riscas e pintas, em matizes variados, poderá ser a hibridação natural entre espécies. A mistura de genes é capaz de produzir gradações de cor inteiramente novas, e até versões multi-coloridas. A selecção natural faz o resto se a nova coloração atrair mais polinizadores.

Naturalmente, nada disto seria possível se o mecanismo químico que determina a coloração das flores não contivesse uma paleta de amarelos, laranjas, azuis, violetas, carmins, etc, suficientemente vasto. E é isso mesmo que os estudos moleculares mostram: o género Linaria desenvolveu um sistema complexo (alguns dirão inteligente) de gestão de pigmentos que, por exemplo, se serve de um gene para ajustar a intensidade das cores (e assim gerar um violeta-claro ou um amarelo-intenso) e de alterações genéticas durante a divisão celular para desenhar, em certas zonas da flor, salpicos em tom púrpura que contrastam com o fundo homogéneo da corola.

Os polinizadores destas flores têm de ter uma língua longa e vigorosa para aceder ao néctar. Esta dependência de polinizadores tão especializados, cuja escassez se pode agravar com as alterações no clima a que vamos assistindo, é um perigo para várias espécies de Linaria, cujas populações estão já em declínio por outras ameaças ao habitat. Se não houver programas de conservação que protejam de facto as espécies mais vulneráveis de Linaria, daqui a alguns anos a notícia que aqui lhe daremos será infelizmente outra.

01/09/2026

Erva-loira do padre Lopez

Senecio lopezii Boiss.


Chamamos ervas-loiras aos malmequeres espigadotes, de capítulos totalmente amarelos, incluídos no género Senecio. São a sóbria e elegante resposta europeia aos espalhafatosos girassóis americanos. Temos por cá algumas ervas-loiras muito airosas: S. bayonnensis e S. legionensis no extremo norte do país; S. lusitanicus em algumas serras calcárias do litoral centro; S. pyrenaicus na serra da Estrela; e, por fim, Senecio lopezii, de que hoje nos ocupamos, na serra de Monchique.

Se estas tão apreciadas ervas-loiras fazem parte da flora portuguesa, por que razão o leitor nunca deparou com elas nas suas deambulações de fim-de-semana por montes e vales do nosso país? É que, por azar — e também pelo contributo que certas práticas vêm dando ao depauperamento do nosso património natural —, todas elas são muito raras. Na Lista Vermelha da Flora de Portugal Continental, duas foram avaliadas como vulneráveis, e as restantes três, incluindo a erva-loira de Monchique, como ameaçadas. Estima-se que o contingente português desta última não ultrapasse as quatro centenas de exemplares, sofrendo com a degradação do habitat associado à expansão dos eucaliptais e à presença de espécies infestantes, e até com a destruição pura e simples imposta pela limpeza regular dos taludes de estrada.

Não foi em Monchique, mas sim numa clareira de um sobreiral em Algeciras, no sul de Espanha, que encontrámos o Senecio lopezii. Era o princípio de Abril e tudo estava fresco, as águas de um rio próximo — há muitos rios em Algeciras — corriam abundantes, e a erva-loira de Monchique, expatriada em Algeciras, tinha acabado de abrir os seus grandes capítulos. O adjectivo grande é, neste caso, bem empregado: com 5,5 cm de diâmetro, são dos maiores do género Senecio, e foram eles que nos captaram a atenção quando avistámos um grupo destas plantas a uma centena de metros de distância. As folhas basais compridas e lustrosas, e o porte erecto, ultrapassando um metro de altura, completavam a lista de atractivos do Senecio lopezii tal como ele nos apareceu nessa tarde de Abril. Um encontro feliz mas agridoce com uma erva-loira que também é nossa mas nunca pudemos ver em Portugal.

11/08/2026

Férias

[Azorina vidalii na costa norte do Pico]
regressamos no início de Setembro

[Daphne laureola em São Jorge]

04/08/2026

A zimbrar na praia



Trinta quilómetros a oeste do grande rochedo, continuamos no estreito de Gibraltar. O céu encoberto promete chuva; o mar inquieto e cor de chumbo já se vai demarcando, pela ferocidade, do plácido lago mediterrânico. Para aqui chegarmos, cruzámos uma imensa duna que ameaçava a qualquer momento soterrar a estrada, mas neste lugar, na praia de Punta Paloma, estamos a salvo de avalanches. Pinheiros-mansos, sabinas, zimbros, estevas, sargaços, piornos, lentiscos e demais vegetação arbustiva dão estabilidade às areias e preparam o habitat para uma variada colecção de herbáceas. Também nos forneceriam o aconchego de uma sombra se precisássemos dela, mas hoje o sol parece incapaz de sacudir a camuflagem de nuvens.

Embora estejamos encantados com tudo o resto — pois raras vezes vimos vegetação dunar tão rica e bem conservada como esta do Parque Natural del Estrecho —, viemos aqui por causa do Juniperus macrocarpa. Trata-se de um zimbro que vive nas areias marítimas do sul de Espanha, entre Gibraltar e a fronteira portuguesa, e reaparece, muitas centenas de quilómetros a leste, em diversos pontos da bacia mediterrânica. Este arbusto ou pequena árvore, tão destemido no modo como se expõe aos salpicos das ondas, não é muito diferente do zimbro-comum (Juniperus oxycedrus) que encontramos nos socalcos do Douro; mas, além do habitat radicalmente diferente, o zimbro-das-areias distingue-se pelas folhas mais largas, pelas bagas maiores, e pela ramificação mais intricada.

Juniperus macrocarpa Sm.


Nesta praia vive também a sabina (Juniperus turbinata) que conhecemos das dunas do nosso litoral centro. Aqui, neste encontro de dois mares, zimbros e sabinas misturam-se com tal profusão que seria difícil avaliar qual deles detém a primazia. Que ambos são Juniperus é atestado pela presença das características bagas carnudas, mas dentro desse género eles representam duas linhagens bem diferenciadas: nas sabinas a folhagem é escamiforme, e nos zimbros ela é formada por agulhas. Há até botânicos defendendo que as duas estirpes deveriam ser tratadas como géneros separados, ficando o nome Juniperus reservado a zimbros e aparentados, e segregando-se as sabinas e espécies afins no género Sabina.

A primeira categoria — a dos zimbros e aparentados — é bastante diversa em território português: além do Juniperus oxycedrus, inclui uma espécie de montanha (J. communis, no Gerês e na serra da Estrela), uma espécie dunar (J. navicularis, maioritariamente no litoral a sul do Tejo), uma espécie da floresta de nuvens açoriana (J. brevifolia, o famoso cedro-do-mato), e uma espécie da laurissilva madeirense (J. maderensis), a que se soma a presença, muito residual e precária, do J. macrocarpa no Algarve. Tanto o J. navicularis como o J. macrocarpa foram em tempos considerados subespécies do Juniperus oxycedrus, mas estudos filogenéticos recentes (veja-se este artigo de 2024) afiançam-nos ser mais apropriado tratá-los como espécies autónomas. Os mesmos estudos revelam, para nossa surpresa, que o J. navicularis (fotos em baixo) é espécie-irmã do J. brevifolia, estando portanto evolutivamente mais próximo do cedro-do-mato açoriano do que do zimbro duriense.

Juniperus navicularis Gand.