Embudes & canaveiras
Aproxima-se do fim mais um Verão — que, como todos os outros, se fez com água e à volta da água, apesar de no clima que nos coube em sorte pouco ou nada chover durante estes meses. Há a água salgada ao fundo do areal, onde a medo molharíamos os pés se a preguiça não nos tolhesse os movimentos. Há a água doce das praias do interior, em rios, lagoas ou albufeiras, onde a nortada não sopra para amenizar a canícula e só uma sombra de árvore nos pode socorrer. Há a água dos parques aquáticos de diversões para quem prefira a artificialidade à natureza. E há a água portátil, sempre à mão no cantil ou na garrafa de plástico, que bebericamos a todo o instante como se corrêssemos grave e permanente risco de desidratação.
Seja para sua sobrevivência ou tão-só para entretenimento, a espécie humana está de tal modo ligada à água que parece um erro evolutivo (ou divino, para quem crê no livro do Génesis) o nosso habitat não ser aquático. É paradoxal não podermos viver sem água e, ao mesmo tempo, não podermos viver na água. Para tornar as coisas ainda mais complicadas, a água de que necessitamos é aquela que é mais escassa no planeta. Vivendo a pé enxuto em continentes ou ilhas, rodeados de água que não podemos beber, espreitamos inquietos as nuvens salvíficas que abastecem os rios e aquíferos de que dependemos.
Se a água é cada vez mais escassa para as necessidades humanas, não espanta que os animais e plantas que vivem em rios ou em outras massas de água doce atravessem tempos difíceis. Algumas das plantas mais ameaçadas da flora portuguesa, várias delas já desaparecidas, habitam (ou habitavam) em rios ou nas suas margens, ou em lagoas e zonas paludosas da faixa litoral do país. Os rios foram profundamente alterados com a construção de barragens; e, no litoral, o avanço urbano e a drenagem de zonas húmidas para fins agrícolas ou florestais obliteraram a maioria desses habitats. Uma das vítimas dessa destruição foi a orquídea Epipactis palustris, que não é encontrada no nosso país desde 1961 mas ainda abundava no Minho e Beira Litoral na primeira metade do século XX.



Não tendo ainda sido erradicadas do nosso território, as duas umbelíferas que hoje mostramos, ambas do género Oenanthe, e ambas próprias de lugares alagadiços a baixa altitude, já tiveram distribuições muito mais amplas. A O. fistulosa (fotos acima) aparecia em toda a faixa costeira do Douro Litoral ao Baixo Alentejo, mas agora já não é vista a norte, surgindo sobretudo no Baixo Vouga, no Baixo Mondego, e entre Óbidos e São Martinho do Porto; e a O. globulosa (fotos abaixo) — que, por preferir solos básicos, sempre foi por cá a mais escassa das duas — parece ter-se acantonado na Estremadura, entre Sintra e Mafra. Foi no Baixo Vouga que encontrámos a O. fistulosa, e aliás ela não é nada rara nesses terrenos que permanecem alagados boa parte do ano, e que formam com os milheirais um mosaico desenhado a traço grosso pelo verde dos salgueiros. Já para vermos a O. globulosa rumámos a sul e passámos a fronteira: o local do encontro foi o Parque Natural de los Alcornocales, um recanto andaluz inesperadamente fresco e húmido.
Em contraste com a O. crocata, que é vulgaríssima em margens de rios e demais lugares húmidos por todo o território continental português, as restantes espécies de Oenanthe da nossa flora não têm assegurado um futuro risonho, muito pelo contrário. Tal como aquelas de que tratamos hoje, são umbelíferas discretas, de porte reduzido e floração pouco chamativa. Tanto a O. fistulosa como a O. globulosa se ficam pelos 60 a 90 cm de altura máxima, e as inflorescências da primeira são formadas por apenas duas a quatro umbélulas compactas, cada uma com 1 a 1,5 cm de diâmetro. Em suma: são plantas que mal se dá por elas. Quando se tornarem ainda mais raras, quase ninguém lamentará a sua falta. Mas são estas subtracções feitas pela calada, uma de cada vez, que empobrecem irremediavelmente as nossas paisagens e o nosso património natural.








































