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03/08/2023
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27/06/2023
Açoriano tropical

Entre 1998 e 2001, o botânico Hanno Schaefer levou a cabo, no Faial, nas Flores e em Santa Maria, um exaustivo trabalho de campo que lhe permitiu o mapeamento praticamente completo da vegetação vascular dessas ilhas. Entre as novidades então aportadas à flora açoriana sobressaem o trovisco-macho de Santa Maria e, no extremo oposto da escala de tamanhos, um feto epífito diminuto, de poucos centímetros de comprimento, morador dos hiper-húmidos bosques de juníperos com turfeira que preenchem as cotas elevadas da ilha das Flores. Ainda que estreitamente aparentado com Grammitis marginella, feto tropical cuja área de distribuição abrange Jamaica, Costa Rica e partes do Brasil, o feto descoberto nas Flores singulariza-se pela menor pubescência das folhas, pela presença de pêlos glandulosos ao longo das margens, e pelas frondes de menor tamanho e de ápice obtuso. Estas características diferenciadoras bastaram para que o novo feto fosse oficialmente reconhecido como endémico do arquipélago, primeiro como subespécie de Grammitis marginella, mais tarde como espécie autónoma sob o nome de Grammitis azorica. Embora houvesse suspeitas da sua ocorrência noutras ilhas, até 2013 só havia a certeza da sua presença nas Flores. Nesse ano, Rui Bento Elias e Fernando Pereira encontraram dois exemplares na Terceira, ambos epífitos de Juniperus brefivolia mas em dois lugares afastados; e em 2021 os mesmos botânicos da Universidade dos Açores descobriram no Pico dois exemplares de G. azorica, também em lugares distintos. Assim, apesar de haver apenas quatro exemplares adicionais a atestá-lo, sabe-se hoje que a G. azorica vive em pelo menos três ilhas dos Açores: Flores, Terceira e Pico — as mesmas onde está assinalado o único outro feto da família Grammitidaceae na flora açoriana, Ceradenia jungermanioides (foto em baixo).
Estes dois fetos açorianos de ascendência caribenha são fáceis de distinguir mesmo a olho nu: a Ceradenia jungermanioides tem as frondes mais estreitas, compridas e hirsutas, enquanto que as da Grammitis azorica apresentam margens conspicuamente debruadas a negro. Esse é aliás um carácter distintivo do género Grammitis, que já abrangeu centenas de espécies mas foi em anos recentes drasticamente reduzido, cifrando-se em pouco mais de 20 espécies: a maioria das que se mantiveram exibe folhas com margens sublinhadas a traço preto, como se vê nestes exemplos.
As latitudes a que estão situadas as ilhas, e as temperaturas moderadas que nelas se sentem, não autorizam que se chame tropical à floresta húmida açoriana. No entanto, a humidade exacerbada, a abundância de epífitos (não só fetos e musgos, mas também plantas com flor), o solo encharcado e movediço, a profusão de grandes fetos no sub-bosque — tudo isso cria uma ambiência que talvez só encontre paralelo nas florestas tropicais do Novo Mundo. Não será apenas a menor distância para o continente americano a explicar que estes fetos da familia Grammitidaceae tenham colonizado os Açores mas não a Madeira nem as Canárias. É que são muito poucas as afinidades entre a laurissilva da Madeira (e das Canárias) e a floresta endémica dos Açores — à qual, e também pela circunstância de a árvore dominante ser uma conífera, é por isso inapropriado chamar laurissilva, como muitos autores fazem.
Na 3.ª edição (de 2021) do seu livro Flora of the Azores — A Field Guide, H. Schaefer diz da Grammitis azorica ser provável que ela venha a extinguir-se nos próximos anos. Os escassíssimos exemplares que têm sido encontrados reforçam a ideia de que a planta tem grande dificuldade em reproduzir-se, e é também sabido que o desenvolvimento de um único indivíduo maduro, com produção regular de frondes, é um processo que demora anos, e que só pode desenrolar-se em habitats isentos de perturbações. No artigo de 2001 em que reportava a descoberta da planta nas Flores, Schaefer informava ter apenas encontrado 22 exemplares em toda a ilha. É provável que a maioria deles já não exista: à acção dos colectores sem escrúpulos, que nunca hesitam em colher os últimos exemplares de uma espécie ameaçada (sobretudo em locais onde a fiscalização é inexistente ou ineficaz), junta-se a destruição e degradação dos habitats provocadas pela abertura e alargamento de estradas nas zonas ambientalmente mais valiosas da ilha.
Pela sua inacessibilidade e por se situarem em zonas protegidas, os lugares do Pico e da Terceira onde a espécie foi descoberta têm ficado a salvo de agressões, e não há razões para supor que a alta qualidade desses habitats esteja ameaçada. Há assim uma esperança razoável de que a Grammitis azorica sobreviva nessas ilhas, mesmo quando já tiver desaparecido das Flores.
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16/01/2022
Trovisco das nuvens
No Verão do ano passado, os portugueses voltaram a poder sair de casa. Com um afinco invulgar, despacharam-se a planear férias e viagens, antes que regressasse a ordem de encolher a rotina. As ilhas açorianas pareceram então a muitos o lugar ideal para recordar a vida anterior à pandemia. É que a decisão de obrigar à apresentação de teste negativo à covid ou certificado de vacinação à entrada nas ilhas, além da testagem regular para os não vacinados durante a estadia, manteria baixa a incidência dos infectados com o vírus; além disso, esse esforço de contenção dos contágios não teria custos para os turistas, pois os muitos milhares de testes a realizar seriam pagos pelo governo açoriano. Descontando o uso das máscaras e do desinfectante, a vida nas ilhas prometia ser tão despreocupada como a de 2019.
A nossa visita em Agosto do ano passado à ilha do Pico, programada muitos meses antes, coincidiu por isso com um fluxo pouco usual de turistas, ávidos de actividades fora de portas e ansiosos por ignorar o boletim covid diário. Não foi, portanto, surpreendente a notícia que recebemos à chegada, a de que, nas primeiras 2 semanas de Agosto as licenças para subir ao topo da montanha estavam completamente esgotadas. Note-se o reforço do advérbio completamente, sem o qual a palavra esgotadas pareceria conter ainda a esperança de uma vaga. Nós, a quem interessavam as cotas a meio da montanha e a ampla costa, encolhemos os ombros. O assunto das subidas à montanha regressou, porém, com novo vigor ao pequeno-almoço do dia seguinte: além dos turistas, duas grossas nuvens tinham aportado à ilha e teimavam em estacionar na parte superior da montanha, mantendo-a com um nevoeiro cerrado e impedindo, nesse e nos dias seguintes, qualquer caminhada até aos 2351 metros do topo do Pico. Confiantes na natureza humana, os operadores turísticos sorriram, enquanto aconchegavam o melhor possível a resignação dos hóspedes: se não puderem ver este ano o nascer do sol no Piquinho, decerto voltarão no próximo ano — o que é bom para o negócio, bendito seja o anti-ciclone dos Açores.
Abaixo do anel de nuvens, o céu manteve-se cinzento, é certo, mas a ameaça de chuvisco só raramente se concretizou. Com os turistas amuados nos hotéis, pudemos passear como se a ilha fosse só nossa e das vacas (que, infelizmente, continuam a comer e pisotear em locais que deveriam ser de protecção integral). Num desses dias, descemos com vagar a estrada desde os 1250 metros de altitude, e foi nesse percurso que corrigimos uma impressão anterior, a de que a Daphne laureola é uma espécie rara na ilha do Pico.

Não só o trovisco-louro é fácil de avistar nos locais mais bem preservados da montanha acima dos mil metros, como parece apreciar a humidade que ali é excessiva, o clima frio e ventoso, o sol incerto e as crateras sombrias dos pequenos vulcões na encosta. Ao reparar com mais atenção nos arbustos arredondados de folhagem densa que esta espécie forma, apercebemo-nos de outro pormenor: esta Daphne laureola não tem exactamente a mesma morfologia da que ocorre em bosques de montanha na Europa (vimo-la na Cantábria, mas conhece-se um núcleo na serra de Sintra). Por exemplo, o hábito dos arbustos açorianos é mais baixo e ramificado (como o das plantas nos Pirenéus, identificadas em algumas Floras como Daphne laureola subsp. philippi); as folhas das plantas açorianas são mais coriáceas e pequenas, com ápice agudo, algumas curvadas como se enroladas num caracol (as da variante continental são também arrosetadas mas podem chegar aos 40 cm de comprimento e 12 cm de largura). As flores são esverdeadas (amareladas as europeias), agrupam-se em inflorescências lassas (com as flores muito juntas na versão do continente) e as pétalas também se distinguem na disposição e nervuras. Se estas diferenças são relevantes, resultado de um clima mais favorável ou têm base genética? Não se sabe. Supomos que o assunto aguarda pelo interesse de algum botânico que se disponha a um estudo mais apurado.
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Maria Carvalho
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20/12/2021
A finura dos fetos
A floresta endémica açoriana é uma esponja mergulhada num caldo de nuvens. E as nuvens, em vez de serem aquelas brancas manchas etéreas num céu azul, são cinzentas, espessas, quase sólidas, carregadas de água; não precisam de se esfarelar em chuva para nos encharcarem os ossos. E, naqueles raros intervalos de bonança em que as nuvens se ausentam e o céu se torna visível, percebemos que o solo continua empapado de água e que as galochas são a única escolha sensata de calçado para quem se aventure entre o arvoredo.
Como conseguem as árvores, arbustos e herbáceas aguentar rega tão persistente? São quase anfíbias, de tal modo desenvolveram uma predilecção por meio tão aquoso. Com excepção da criptoméria — que, plantada em extensos povoamentos mono-específicos, substituiu, na maioria das ilhas, a floresta original —, são poucas as árvores exóticas que toleram tal regime hiper-húmido. No Pico, os muitos pinheiros que se plantaram na encosta noroeste da montanha estão a morrer aos poucos, dando lugar a uma floresta nativa em franca regeneração. Com o vagar paciente de quem dispõe de todo o tempo do mundo, a natureza vai corrigindo as asneiras dos homens.


Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), azevinhos (Ilex perado subsp. azorica), urzes (Erica azorica), sanguinhos (Frangula azorica), loureiros (Laurus azorica) e troviscos-machos (Euphorbia stygiana) que compõem a floresta nativa mergulham as raízes não propriamente em solo firme mas em grandes almofadões de musgão (Sphagnum). Há muitos fetos que se acolhem no bosque, com predomínio, entre os de maior porte, da Culcita macrocarpa (feto-do-cabelinho) e de diversas espécies de Dryopteris. Mas os fetos de menor dimensão (Polypodium azoricum, Elaphoglossum semicylindricum, Trichomanes speciosum) optam, na maioria das vezes, por se empoleirarem em árvores. Muitas delas têm um revestimento de tal modo espesso de fetos e de musgos que não fica um palmo de tronco à mostra.
Nessas florestas, os fetos epífitos mais abundantes, mas menos conspícuos por causa da sua pequenez, são os do género Hymenophyllum, de que ocorrem duas espécies nos Açores: H. tunbrigense e H. wilsonii. São fetos translúcidos, com frondes de 3 a 4 cm de comprimento, muito finas, da cor da azeitona. Formam um rendilhado muito típico que, nas árvores, fica pendente dos ramos ou da base dos troncos. O H. tunbrigense é de longe o mais frequente dos dois, enquanto que o H. wilsonii tem tendência a restringir-se, em cada ilha, às altitudes mais elevadas. É raro encontrar o segundo sem que o primeiro lhe faça companhia, e por isso se torna importante saber diferenciá-los. A distinção entre eles pode fazer-se à vista desarmada, porque o H. tunbrigense tem frondes planas, com divisões relativamente largas, e o H. wilsonii tem-nas dobradas longitudinalmente (fazendo lembrar as águas de um telhado), com divisões estreitas. Para uma identificação mais segura, porém, a lupa ou a macro-fotografia são indispensáveis: a diferença crucial está nos indúsios (membrana ou cápsula que protege os esporângios), que são redondos e fimbriados no H. tunbrigense (fotos abaixos), e alongados e de margens lisas no H. wilsonii (fotos acima).

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Paulo Araújo
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15/08/2021
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19/09/2017
Uma távoa para el-rei


O teixo também é nativo dos Açores e da Madeira, e também nesses arquipélagos, pelas mesmas razões que ditaram a sua sorte no continente, ele se fez de uma extrema raridade. A última contagem, reportada em artigo publicado já em 2017, indicava que na Madeira existiam 58 indivíduos adultos, acantonados em ravinas inacessíveis. O relevo menos acidentado das ilhas açorianas não proporcionou igual refúgio — e, de todas as ilhas onde se sabe ter existido (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e São Miguel), só no Pico, onde ocorria em maior quantidade e a sua madeira foi explorada até meados do século XVIII, o teixo não está ainda extinto. Só quando o último teixo morrer, de pé ou tombado, de morte natural ou provocada, é que se pode declarar o óbito da espécie. São quatro ou cinco as árvores que resistem, meio decrépitas, afastadas umas das outras, incapazes de dar semente.
O Jardim Botânico do Faial, apostado em evitar o previsível desfecho funesto, lançou um 2013 um projecto de reprodução vegetativa desses últimos teixos açorianos. O objectivo final é recriar populações que possam perpetuar-se sozinhas. No início de 2017, trinta jovens teixos foram plantados no Pico, em terreno controlado pelos serviços regionais do Ambiente (ver notícia aqui e aqui). É um novo futuro para uma árvore que parecia condenada. Só falta, literalmente, que o projecto dê frutos — ou seja, que entre as árvores clonadas haja indivíduos dos dois sexos (coisa que ainda não se sabe) para ser possível a produção de sementes. Poderão um dia as futuras gerações de açorianos, contemplando rebentos de teixo, concordar com Gaspar Frutuoso em como eles se parecem com jovens pinheiros?
A quem se interrogue sobre a importância de salvar nas ilhas uma espécie que, com maior ou menor abundância, é espontânea em quase toda a Europa, duas respostas se podem dar. A primeira, generalista, é que qualquer extinção local de uma espécie representa um empobrecimento do mundo natural, com consequências que não sabemos avaliar. A segunda é que, tanto no caso do teixo como no de outras espécies que colonizaram as ilhas, a estirpe insular representa um património genético distinto do da continental, mesmo que isso não tenha reconhecimento taxonómico nem se traduza em diferenças morfológicas óbvias. E na verdade, segundo um artigo publicado em 2010 (Taxus baccata in the Azores: a relict form at risk of imminent extinction), o teixo açoriano, além da sua especificidade genética, distingue-se pelo menor tamanho das folhas. O autores do artigo concluem mesmo que ele representa uma linhagem mais antiga do que os actuais teixos do continente europeu e do norte de África.
Numa terça-feira de Agosto, faz hoje quatro semanas, Pedro Casimiro (director do Jardim Botânico do Faial) e Cátia Freitas (uma das responsáveis pelo Banco de Sementes do JBF) apresentaram-nos esses venerandos e ameaçados teixos. Nunca poderemos retribuir por igual tamanha amabilidade. A expedição, algures no Pico, a uns novecentos e tal metros de altitude, foi acompanhada por uma chuva mansa, que esmoreceu gradualmente, e por um nevoeiro algo mais persistente que nos impediu de tirar fotos decentes. Os três exemplares que planeávamos visitar, representando 3/4 dos teixos conhecidos na ilha, situam-se todos em manchas de arvoredo rodeadas por pastagens de bovinos. A postura agressiva de umas tantas vacas em defesa das crias ditou um desvio do percurso, ficando assim um dos teixos por visitar. O prémio foi terem o Pedro e a Cátia descoberto um teixo que nunca tinham visto, o que representa um reforço de 25% da população conhecida da espécie. Será esse o teixo-fêmea que faltava detectar? Prémio adicional foi termos encontrado, no vale encaixado de uma ribeira sem água, um solitário exemplar de Euphrasia grandiflora, espécie raríssima no Pico. E fartámo-nos de ver erva-do-capitão (Sanicula azorica), mas sem surpresa para ninguém.
Devíamos talvez ficar agradecidos às vacas por tão frutuosa alteração de planos. Sucede que foi a monocultura da vaca, intensificada a partir dos anos 80 do século passado com os subsídios comunitários, a ditar em pouco mais de 20 anos uma redução de 50% do que restava da vegetação natural dos Açores, desbastada a eito para a abertura de pastagens. O processo foi particularmente notório e intenso na ilha do Pico. De modo que estes fragmentos de bosques delimitando pastagens, ainda que belos, são parte de uma coisa muito maior que se perdeu para sempre, e que há trinta ou quarenta anos ainda existia. Tudo para fazer as vacas felizes.
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17/04/2016
À solta no Cachorro

O género Hylocereus acolhe umas vinte espécies de cactos trepadores originários da América tropical; traduzido à letra, esse nome significa cacto-dos-bosques, o que dá uma indicação precisa do habitat destas plantas, habituadas a encavalitar-se em árvores, sob generosa sombra, em vez de penarem ao sol do deserto. O Hylocereus undatus, talvez originário em cultivo por hibridação (não se conhece em estado natural), é o mais popular do seu género em jardins tropicais, e também é apreciado pelos frutos. As flores, que são grandes (30 cm de diâmetro), brancas e fragrantes, só abrem à noite. Fica a sugestão, para quem estiver no Pico em Agosto, de uma visita nocturna ao Cachorro em busca desta flor.
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13/10/2015
Cabrinha de Sichuan


Este feto asiático, que encontrámos numa berma de estrada na ilha do Pico, poderia ter vindo de Sichuan, uma das províncias da China central, mas também de muitos outros lugares e países do extremo oriente, como o Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Vietname, Nepal, Índia, Paquistão e Filipinas. Os horticultores ocidentais comercializam-no com o nome de Sichuan lace, pois as suas frondes muito recortadas e de textura delicada são comparáveis à mais fina renda. Iguais encómios têm merecido alguns fetos do género Davallia: no Brasil, a Davallia fejeensis (que não é portuguesa nem europeia) tem sido chamada de renda-portuguesa. O que temos à mão em Portugal continental e na Madeira é a Davallia canariensis, que apelidamos de cabrinha por causa do rizoma alongado, coberto de escamas arruivadas, que faz lembrar as patas desse bicho. Embora o Onychium japonicum tenha um rizoma curto que não suscita tal comparação, parece-nos desculpável chamar-lhe cabrinha-de-Sichuan. Até porque já houve gente muito qualificada que a confundiu com a verdadeira cabrinha, e que vai daí anunciou ao mundo que a Davallia canariensis é espontânea nos Açores. Os erros de gente qualificada podem ter uma longevidade assombrosa, já que os desmentidos, para produzirem efeito, terão de vir de gente não menos qualificada. Foi em 1899 que Michel Gandoger (que já referimos a propósito do folhado açoriano), no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores, proclamou que, ao contrário do que Trelease (em Botanical observations on the Azores, 1897) afirmara, a Davallia canariensis existia realmente no arquipélago. Quem tinha razão, segundo Gandoger, era Drouet, que defendera isso mesmo em 1866, no seu Catalogue de la flore des îles Açores. Eis o que escreveu Gandoger:
... e a essa peculiar forma açoriana da cabrinha deu Gandoger o nome de Davallia canariensis var. azorica. Na descrição em latim, Gandoger chama a atenção para a disposição linear dos esporângios, bem diferente da que a Davallia costuma apresentar. De facto, o feto colhido em São Miguel que Gandoger descreveu como um novo táxon não era senão o Onychium japonicum — comparem-se os seus esporângios com os da D. canariensis. Os estudiosos da flora açoriana não se deixaram enganar pelo erro — nem Palhinha nem Franco incluem a D. canariensis na lista de espécies do arquipélago — mas, na falta de um desmentido formal escrito na mesma língua por botânicos igualmente reputados, persiste ainda hoje, em obras de referência francesas (por exemplo no livro, de resto excelente, Les fougères et plantes alliées de France et d´Europe occidentale, de Rémy Prelli, publicado em 2000), a ideia de que a D. canariensis existe nos Açores. Embora, curiosamente, nunca se faça menção da var. azorica.
O Onychium japonicum, que está naturalizado nos Açores há mais de um século, tem-se comportado com louvável comedimento. Mantém-se nas mesmas três ilhas em que foi assinalado — São Miguel, Pico e Faial — e pelo menos nas duas últimas continua a ser muito raro. A razão talvez seja a fraca produção de esporos, já que não conseguimos detectá-los nas plantas que examinámos.
Uma outra confusão rodeia o nome Onychium japonicum, pois esse binómio tanto parece aplicar-se ao feto que apresentámos como a uma certa orquídea também asiática cujo nome actual é Dendrobium moniliforme. Um dos princípios basilares da taxonomia botânica é que o mesmo nome não pode designar duas espécies diferentes. Este caso viola tal princípio de forma agravada: Onychium tanto parece ser nome de um género de fetos como de um género de orquídeas. O que sucedeu foi que em 1825 o holandês Carl Ludwig Blume (1796-1862) baptizou um género de orquídeas com o nome Onychium, ignorando que o mesmo nome já tinha sido atribuído em 1820 pelo alemão Georg Friedrich Kaulfuss (1786–1830) a um género de fetos. Por força da regra da prioridade, o uso do nome Onychium para designar orquídeas é ilegal, e portanto Onychium japonicum é a designação válida de um feto e não de uma orquídea. Mas este estranho caso do feto e da orquídea homónimos ilustra ainda a conveniência de usar nomes botânicos completos, que incluam os respectivos autores: Onychium japonicum (Thunb.) Kunze já é diferente de Onychium japonicum Blume, e só a primeira combinação é válida.

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29/09/2015
Feto limonado



Os fetos não dão flores e de um modo geral não querem comércio com insectos, e por isso seria despropositado que se fizessem anunciar pelo cheiro. Acontece que o Oreopteris limbosperma — um feto de médio porte com folhas de 50 a 70 cm de comprimento — cheira mesmo a limão, o que é um modo de o distinguirmos de espécies aparentadas como o Thelypteris palustris e a Christella dentata. Não se trata, contudo, de um daqueles perfumes intensos que nos agarram pelo nariz, até porque ele só se manifesta quando esfregamos as folhas com os dedos. Na verdade, o teste olfactivo só serve como tira-teimas e não dá qualquer ajuda na detecção da planta.
Em território português, o feto-limonado só ocorre na Madeira, no Pico e nas Flores, e ter-se-á extinguido no Faial. Nas mesmas ilhas aparece também a Christella dentata: como os dois fetos têm porte e aparência semelhantes, e ambos frequentam recantos sombrios e com forte humidade, põe-se o problema de os destrinçar sem a ajuda do olfacto. De facto, tal problema só se coloca nos meses de Verão, pois o Oreopteris limbosperma tem folhagem caduca, que seca e desaparece no Outono, e só começa a desenvolver folhas novas com a Primavera adiantada. Os caracteres diferenciadores entre as duas espécies são visíveis à vista desarmada, mas a lupa é sempre boa ajuda. A Christella dentata tem a ráquis penugenta, enquanto que a do Oreopteris limbosperma é glabra; neste os soros dispõem-se junto à margem das pínulas (daí o epíteto limbosperma), mas naquela apresentam-se bem afastados; finalmente — coisa que se observa melhor a contraluz — na C. dentata a venação das pinas forma uma rede contínua, mas no O. limbosperma ela é quebrada entre cada pínula e a seguinte (ver foto 5). Outro feto da mesma família também presente nos dois arquipélagos e com preferências ecológicas semelhantes é o Stegnogramma pozoi (feto-de-Pozo), mas aí as diferenças são tão vincadas que só os desatentos poderão fazer confusão. Sublinhe-se, em qualquer caso, que as frondes do feto-de-Pozo são pendentes (as dos outros dois são mais ou menos erectas) e que os seus soros são lineares, desprovidos de indúsio (em contraste, tanto a Christella como o Oreopteris têm soros arredondados).
Deve admitir-se que, por culpa da raridade do Oreopteris limbosperma e destes seus parentes próximos, o receituário anterior terá fraco uso mesmo para os afortunados que vivam nas ilhas ou as visitem com assiduidade. O Stegnogramma pozoi, apesar de ter presença assinalada em quase todas as ilhas açorianas, pouquíssimas vezes é observado; e o Oreopteris limbosperma, ao que consta ainda frequente nas zonas altas da ilha das Flores, sofreu, nas últimas décadas, um recuo acentuado no Pico (onde, em Agosto, o vimos num único local) com as desmatações para expansão das pastagens.
É sabido como as ilhas atlânticas serviram de porto de abrigo para a vegetação que a época glaciar fez desaparecer de grande parte do continente europeu. Na Península Ibérica, os locais onde essas plantas puderam sobreviver funcionam hoje como sucursais da vegetação macaronésia. Viajar pela Cantábria pode ser um pouco como viajar nos Açores, pois se soubermos onde procurar reencontramos velhos conhecidos como o feto-do-botão (Woodwardia radicans) e o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Também o Oreopteris limbosperma e o Stegnogramma pozoi têm um pé nas ilhas e outro na Península, mas as proporções invertem-se: ao contrário dos dois anteriores, são muito mais frequentes no extremo norte de Espanha (e, mais geralmente, no norte da Europa) do que nos Açores. Talvez o porto de abrigo no Atlântico tenha sido para eles uma contingência temporária — não mais do que umas poucas centenas de milhares de anos — e agora que o bicho homem apareceu em cena está na hora de voltar para casa.

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06/06/2015
Encontro das águas (2.ª parte)
Entre os enigmas da língua portuguesa que mais confundem os aprendizes de naturalista avulta o sapal. Quem nunca pensou no assunto dirá prontamente que se trata de um «espaço dedicado à criação de sapos»; ou, se for um pouco mais sofisticado, um «habitat húmido ou encharcado onde se instalam colónias de sapos e de outros anfíbios». Uma reflexão mais prolongada não tardará a pôr em dúvida estas improvisadas definições. Mesmo aqueles que tenham dificuldade em distinguir entre sapos e rãs saberão que são as segundas e não tanto os primeiros que têm o hábito de viver em locais alagados. Assim, se insistirmos em caracterizar pela presença de algum batráquio aquela zona lodosa dos estuários dominada por uma vegetação halófila especializada, então deveríamos em rigor chamar-lhe ranal (ou talvez ranário) e não sapal. Mas a dúvida sistemática de novo se faz ouvir: há rãs por todo o lado, coaxando os seus cantares onde quer que haja água, e não apenas nesse lugares do litoral que apressadamente rebaptizámos como ranais. Dir-se-ia até que, se os compararmos com os comuns charcos de água doce, os sapais ou ranais não albergam, proporcionalmente à sua área, um contigente muito expressivo de tais bichos. Talvez seja melhor encolher os ombros e admitir que o nosso idioma tem razões que a razão desconhece. Ainda há nele, para nosso apaziguamento, zonas de luz onde a lógica e a semântica não estão de relações cortadas. Um juncal, por exemplo, é mesmo um lugar onde há muitos juncos, e dessa verdade fazemos prova neste texto.
O rio Coura desagua tão perto do mar, num ponto onde o rio Minho está já tão inchado de água salgada, que não será moralmente correcto defini-lo como um afluente. Aí onde se dá o encontro de três águas (dois rios e um oceano) estende-se um juncal que não é só feito de juncos, mas onde os legítimos juncos estão amplamente representados. Particularmente numerosos são os Juncus maritimus, que não são os únicos a viver em estuários mas se distinguem pela inflorescência unilateral disposta em espigas erectas (no Juncus effusus, frequente em habitats diversos e não apenas à beira-mar, as flores agrupam-se em panículas). Fotografadas precocemente, as flores do nosso junco marítimo ainda estavam a desenvolver-se, mantendo-se pudicamente fechadas. O leitor pode no entanto observar nesta foto que as flores dos juncos, embora desprovidas de pétalas de cores garridas, são bastante convencionais, com ovário, estigmas e estames bem diferenciados. Nesse aspecto — mas não nas folhas estreitas, quase lineares — os juncos demarcam-se claramente das gramíneas com que amiúde são confundidos.
Cosmopolita, como tantas vezes sucede com plantas que vivem com um pé na água, o Juncus maritimus marca presença em quase toda a costa portuguesa do Minho ao Algarve. As suas viagens por mar entre os continentes permitiram-lhe estabelecer-se também em algumas ilhas. Nos Açores, por falta de habitat conveniente, é muito raro, mas ainda assim está registado na Terceira (paul do Belo Jardim, à Praia da Vitória), em São Jorge (Fajã dos Cubres) e no Pico (juncal da baía do Castelete, nas Lajes do Pico).


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Paulo Araújo
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