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19/09/2017

Uma távoa para el-rei


Dois dos últimos teixos (Taxus baccata L.) dos Açores


Há por toda esta ilha em redondo muita e grossa madeira de cedro, sanguinho, ginja, pau branco, faias, louros e, sobre toda, a madeira de teixo, somente no Pico, dos teixos que estão sobre a freguesia da vila de São Roque, da banda do norte, légua e meia da dita vila para dentro da serra, onde se acham paus de teixo muito direitos, que parecem paus de pinho e quase servem para mastros de caravelas pequenas, e de grossura no pé até (...) palmo e meio, e daí, adelgaçando para cima, pera a ponta, a modo de paus de pinho, e na nascença deles, da semente que deles cai, como semente de tamujo, não parecem senão pinhos. Há troncos destes que acham ainda agora debaixo da terra, de oito e dez palmos de comprido e de três palmos de largo, os quais servem pera escritórios e mesas muito ricas e fasquiaria de escritórios, por ser madeira de muito preço, pela qual razão se não corta, senão com expressa provisão do provedor da Fazenda de Sua Majestade, e da que é avaliada na Alfândega paga o que a colhe a metade ou, de duas távoas, uma para el-rei, de seus direitos.
Gaspar Frutuoso (1590). Saudades da Terra (Livro VI, capítulo 41)
O teixo, talvez por prometer durar até ao dia do juízo final, era plantado tradicionalmente nos cemitérios. Apesar da sua longevidade, é de entre as nossas árvores nativas uma das mais raras e perseguidas. Em todo o território nacional, só na serra do Gerês existem populações viáveis, capazes de subsistir e de se reproduzir sem ajuda humana. Na serra da Estrela conhecem-se apenas indivíduos isolados, que têm sido duplicados por estaca para reintrodução na natureza. O gradual desaparecimento do teixo em espaços naturais não se deve apenas, como poderia julgar-se pela citação de Gaspar Frutuoso, ao seu uso em marcenaria de luxo. Houve uma perseguição activa por parte dos pastores, que, sabendo-o altamente venenoso, receavam as consequências mortais para o gado que dele fizesse refeição.

O teixo também é nativo dos Açores e da Madeira, e também nesses arquipélagos, pelas mesmas razões que ditaram a sua sorte no continente, ele se fez de uma extrema raridade. A última contagem, reportada em artigo publicado já em 2017, indicava que na Madeira existiam 58 indivíduos adultos, acantonados em ravinas inacessíveis. O relevo menos acidentado das ilhas açorianas não proporcionou igual refúgio - e, de todas as ilhas onde se sabe ter existido (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e São Miguel), só no Pico, onde ocorria em maior quantidade e a sua madeira foi explorada até meados do século XVIII, o teixo não está ainda extinto. Só quando o último teixo morrer, de pé ou tombado, de morte natural ou provocada, é que se pode declarar o óbito da espécie. São quatro ou cinco as árvores que resistem, meio decrépitas, afastadas umas das outras, incapazes de dar semente.

O Jardim Botânico do Faial, apostado em evitar o previsível desfecho funesto, lançou um 2013 um projecto de reprodução vegetativa desses últimos teixos açorianos. O objectivo final é recriar populações que possam perpetuar-se sozinhas. No início de 2017, trinta jovens teixos foram plantados no Pico, em terreno controlado pelos serviços regionais do Ambiente (ver notícia aqui e aqui). É um novo futuro para uma árvore que parecia condenada. Só falta, literalmente, que o projecto dê frutos - ou seja, que entre as árvores clonadas haja indivíduos dos dois sexos (coisa que ainda não se sabe) para ser possível a produção de sementes. Poderão um dia as futuras gerações de açorianos, contemplando rebentos de teixo, concordar com Gaspar Frutuoso em como eles se parecem com jovens pinheiros?

A quem se interrogue sobre a importância de salvar nas ilhas uma espécie que, com maior ou menor abundância, é espontânea em quase toda a Europa, duas respostas se podem dar. A primeira, generalista, é que qualquer extinção local de uma espécie representa um empobrecimento do mundo natural, com consequências que não sabemos avaliar. A segunda é que, tanto no caso do teixo como no de outras espécies que colonizaram as ilhas, a estirpe insular representa um património genético distinto do da continental, mesmo que isso não tenha reconhecimento taxonómico nem se traduza em diferenças morfológicas óbvias. E na verdade, segundo um artigo publicado em 2010 (Taxus baccata in the Azores: a relict form at risk of imminent extinction), o teixo açoriano, além da sua especificidade genética, distingue-se pelo menor tamanho das folhas. O autores do artigo concluem mesmo que ele representa uma linhagem mais antiga do que os actuais teixos do continente europeu e do norte de África.

Numa terça-feira de Agosto, faz hoje quatro semanas, Pedro Casimiro (director do Jardim Botânico do Faial) e Cátia Freitas (uma das responsáveis pelo Banco de Sementes do JBF) apresentaram-nos esses venerandos e ameaçados teixos. Nunca poderemos retribuir por igual tamanha amabilidade. A expedição, algures no Pico, a uns novecentos e tal metros de altitude, foi acompanhada por uma chuva mansa, que esmoreceu gradualmente, e por um nevoeiro algo mais persistente que nos impediu de tirar fotos decentes. Os três exemplares que planeávamos visitar, representando 3/4 dos teixos conhecidos na ilha, situam-se todos em manchas de arvoredo rodeadas por pastagens de bovinos. A postura agressiva de umas tantas vacas em defesa das crias ditou um desvio do percurso, ficando assim um dos teixos por visitar. O prémio foi terem o Pedro e a Cátia descoberto um teixo que nunca tinham visto, o que representa um reforço de 25% da população conhecida da espécie. Será esse o teixo-fêmea que faltava detectar? Prémio adicional foi termos encontrado, no vale encaixado de uma ribeira sem água, um solitário exemplar de Euphrasia grandiflora, espécie raríssima no Pico. E fartámo-nos de ver erva-do-capitão (Sanicula azorica), mas sem surpresa para ninguém.

Devíamos talvez ficar agradecidos às vacas por tão frutuosa alteração de planos. Sucede que foi a monocultura da vaca, intensificada a partir dos anos 80 do século passado com os subsídios comunitários, a ditar em pouco mais de 20 anos uma redução de 50% do que restava da vegetação natural dos Açores, desbastada a eito para a abertura de pastagens. O processo foi particularmente notório e intenso na ilha do Pico. De modo que estes fragmentos de bosques delimitando pastagens, ainda que belos, são parte de uma coisa muito maior que se perdeu para sempre, e que há trinta ou quarenta anos ainda existia. Tudo para fazer as vacas felizes.

17/04/2016

À solta no Cachorro


Cachorro, Pico, Açores
Mesmo encostada ao aeroporto, de que está separada apenas por uma estrada e por uma vedação metálica, Cachorro é uma aldeia de 20 ou 30 casas de negríssimo basalto na costa norte da ilha do Pico. O nome vem-lhe da forma que tomou uma das rochas à beira-mar, lembrando um cachorro contemplativo que nunca se cansa do espectáculo das ondas. Se a aldeia em si é típica que baste para atrair turistas, e se o impassível cachorro está sempre disponível para ser fotografado, já para o botânico amador os motivos de interesse incluem uma rara população costeira de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), um manto amarelo de cubres (Solidago azorica), e a maior concentração de camarinhas (Corema album subsp. azoricum) de que há notícia no arquipélago. Por uma vez em consonância de gostos, turistas e botânicos podem, no Verão, deliciar-se com os figos que se oferecem maduros, nas vinhas abandonadas, à gula de quem os queira apanhar.


Hylocereus undatus (Haworth) Britton & Rose
Entre as casas recuperadas para ocupação sazonal e as lojas de artesanato para turistas, sobram ainda, no Cachorro como em todas as aldeias, umas tantas casas abandonadas à espera de quem lhes dê uso. Aquela que se vê na imagem, com o telhado ainda novo, não dá mostras de ruína iminente, mas os tentáculos que por ela vão subindo, aproveitando a longa ausência dos proprietários, ameaçam furar-lhe as paredes e inundar de verde todas as divisões. Esta paciente ocupação clandestina é levada a cabo por um cacto trepador vindo das Caraíbas, de seu nome Hylocereus undatus. É bom esclarecer que este cacto não está naturalizado nos Açores, e que dificilmente terá condições de o fazer: não tolerando temperaturas inferiores a 15ºC, nunca se poderá afastar muito da linha de costa; e a ausência de polinizadores especializados deverá impedir a produção de sementes. Assim, o exemplar que ameaça sufocar a casa foi decerto plantado. Deixado entregue a si próprio, ficou fora de controle, como cão de guarda que, ignorado pelos donos, acaba por se virar contra eles.

O género Hylocereus acolhe umas vinte espécies de cactos trepadores originários da América tropical; traduzido à letra, esse nome significa cacto-dos-bosques, o que dá uma indicação precisa do habitat destas plantas, habituadas a encavalitar-se em árvores, sob generosa sombra, em vez de penarem ao sol do deserto. O Hylocereus undatus, talvez originário em cultivo por hibridação (não se conhece em estado natural), é o mais popular do seu género em jardins tropicais, e também é apreciado pelos frutos. As flores, que são grandes (30 cm de diâmetro), brancas e fragrantes, só abrem à noite. Fica a sugestão, para quem estiver no Pico em Agosto, de uma visita nocturna ao Cachorro em busca desta flor.

13/10/2015

Cabrinha de Sichuan



Onychium japonicum (Thunb.) Kunze



Este feto asiático, que encontrámos numa berma de estrada na ilha do Pico, poderia ter vindo de Sichuan, uma das províncias da China central, mas também de muitos outros lugares e países do extremo oriente, como o Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Vietname, Nepal, Índia, Paquistão e Filipinas. Os horticultores ocidentais comercializam-no com o nome de Sichuan lace, pois as suas frondes muito recortadas e de textura delicada são comparáveis à mais fina renda. Iguais encómios têm merecido alguns fetos do género Davallia: no Brasil, a Davallia fejeensis (que não é portuguesa nem europeia) tem sido chamada de renda-portuguesa. O que temos à mão em Portugal continental e na Madeira é a Davallia canariensis, que apelidamos de cabrinha por causa do rizoma alongado, coberto de escamas arruivadas, que faz lembrar as patas desse bicho. Embora o Onychium japonicum tenha um rizoma curto que não suscita tal comparação, parece-nos desculpável chamar-lhe cabrinha-de-Sichuan. Até porque já houve gente muito qualificada que a confundiu com a verdadeira cabrinha, e que vai daí anunciou ao mundo que a Davallia canariensis é espontânea nos Açores. Os erros de gente qualificada podem ter uma longevidade assombrosa, já que os desmentidos, para produzirem efeito, terão de vir de gente não menos qualificada. Foi em 1899 que Michel Gandoger (que já referimos a propósito do folhado açoriano), no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores, proclamou que, ao contrário do que Trelease (em Botanical observations on the Azores, 1897) afirmara, a Davallia canariensis existia realmente no arquipélago. Quem tinha razão, segundo Gandoger, era Drouet, que defendera isso mesmo em 1866, no seu Catalogue de la flore des îles Açores. Eis o que escreveu Gandoger:
Davallia canariensis Sm. - Cette Fougère, indiquée aux Açores par Drouet, Cat., p. 213, en a été exclue par Trelease, Bot. azor., p. 170, qui dit: «Evidently an error, the specimens perhaps from Madeira.» Mais M. Carreiro vient de l'y retrouver, au Pico do Salomão. Cependant les échantillons des Açores ne cadrent pas exactement avec ceux que je possède d'une quinzaine de localités des Canaries, de Madère, de Portugal et d'Éspagne. La plante des Açores devra être dénommée (...)

... e a essa peculiar forma açoriana da cabrinha deu Gandoger o nome de Davallia canariensis var. azorica. Na descrição em latim, Gandoger chama a atenção para a disposição linear dos esporângios, bem diferente da que a Davallia costuma apresentar. De facto, o feto colhido em São Miguel que Gandoger descreveu como um novo táxon não era senão o Onychium japonicum - comparem-se os seus esporângios com os da D. canariensis. Os estudiosos da flora açoriana não se deixaram enganar pelo erro - nem Palhinha nem Franco incluem a D. canariensis na lista de espécies do arquipélago - mas, na falta de um desmentido formal escrito na mesma língua por botânicos igualmente reputados, persiste ainda hoje, em obras de referência francesas (por exemplo no livro, de resto excelente, Les fougères et plantes alliées de France et d´Europe occidentale, de Rémy Prelli, publicado em 2000), a ideia de que a D. canariensis existe nos Açores. Embora, curiosamente, nunca se faça menção da var. azorica.

O Onychium japonicum, que está naturalizado nos Açores há mais de um século, tem-se comportado com louvável comedimento. Mantém-se nas mesmas três ilhas em que foi assinalado - São Miguel, Pico e Faial - e pelo menos nas duas últimas continua a ser muito raro. A razão talvez seja a fraca produção de esporos, já que não conseguimos detectá-los nas plantas que examinámos.

Uma outra confusão rodeia o nome Onychium japonicum, pois esse binómio tanto parece aplicar-se ao feto que apresentámos como a uma certa orquídea também asiática cujo nome actual é Dendrobium moniliforme. Um dos princípios basilares da taxonomia botânica é que o mesmo nome não pode designar duas espécies diferentes. Este caso viola tal princípio de forma agravada: Onychium tanto parece ser nome de um género de fetos como de um género de orquídeas. O que sucedeu foi que em 1825 o holandês Carl Ludwig Blume (1796-1862) baptizou um género de orquídeas com o nome Onychium, ignorando que o mesmo nome já tinha sido atribuído em 1820 pelo alemão Georg Friedrich Kaulfuss (1786–1830) a um género de fetos. Por força da regra da prioridade, o uso do nome Onychium para designar orquídeas é ilegal, e portanto Onychium japonicum é a designação válida de um feto e não de uma orquídea. Mas este estranho caso do feto e da orquídea homónimos ilustra ainda a conveniência de usar nomes botânicos completos, que incluam os respectivos autores: Onychium japonicum (Thunb.) Kunze já é diferente de Onychium japonicum Blume, e só a primeira combinação é válida.


Açores: Pico com São Jorge ao fundo

29/09/2015

Feto limonado



Oreopteris limbosperma (All.) Holub [sinónimos: Lastrea limbosperma; Thelypteris limbosperma]


Os fetos não dão flores e de um modo geral não querem comércio com insectos, e por isso seria despropositado que se fizessem anunciar pelo cheiro. Acontece que o Oreopteris limbosperma - um feto de médio porte com folhas de 50 a 70 cm de comprimento - cheira mesmo a limão, o que é um modo de o distinguirmos de espécies aparentadas como o Thelypteris palustris e a Christella dentata. Não se trata, contudo, de um daqueles perfumes intensos que nos agarram pelo nariz, até porque ele só se manifesta quando esfregamos as folhas com os dedos. Na verdade, o teste olfactivo só serve como tira-teimas e não dá qualquer ajuda na detecção da planta.

Em território português, o feto-limonado só ocorre na Madeira, no Pico e nas Flores, e ter-se-á extinguido no Faial. Nas mesmas ilhas aparece também a Christella dentata: como os dois fetos têm porte e aparência semelhantes, e ambos frequentam recantos sombrios e com forte humidade, põe-se o problema de os destrinçar sem a ajuda do olfacto. De facto, tal problema só se coloca nos meses de Verão, pois o Oreopteris limbosperma tem folhagem caduca, que seca e desaparece no Outono, e só começa a desenvolver folhas novas com a Primavera adiantada. Os caracteres diferenciadores entre as duas espécies são visíveis à vista desarmada, mas a lupa é sempre boa ajuda. A Christella dentata tem a ráquis penugenta, enquanto que a do Oreopteris limbosperma é glabra; neste os soros dispõem-se junto à margem das pínulas (daí o epíteto limbosperma), mas naquela apresentam-se bem afastados; finalmente - coisa que se observa melhor a contraluz - na C. dentata a venação das pinas forma uma rede contínua, mas no O. limbosperma ela é quebrada entre cada pínula e a seguinte (ver foto 5). Outro feto da mesma família também presente nos dois arquipélagos e com preferências ecológicas semelhantes é o Stegnogramma pozoi (feto-de-Pozo), mas aí as diferenças são tão vincadas que só os desatentos poderão fazer confusão. Sublinhe-se, em qualquer caso, que as frondes do feto-de-Pozo são pendentes (as dos outros dois são mais ou menos erectas) e que os seus soros são lineares, desprovidos de indúsio (em contraste, tanto a Christella como o Oreopteris têm soros arredondados).

Deve admitir-se que, por culpa da raridade do Oreopteris limbosperma e destes seus parentes próximos, o receituário anterior terá fraco uso mesmo para os afortunados que vivam nas ilhas ou as visitem com assiduidade. O Stegnogramma pozoi, apesar de ter presença assinalada em quase todas as ilhas açorianas, pouquíssimas vezes é observado; e o Oreopteris limbosperma, ao que consta ainda frequente nas zonas altas da ilha das Flores, sofreu, nas últimas décadas, um recuo acentuado no Pico (onde, em Agosto, o vimos num único local) com as desmatações para expansão das pastagens.

É sabido como as ilhas atlânticas serviram de porto de abrigo para a vegetação que a época glaciar fez desaparecer de grande parte do continente europeu. Na Península Ibérica, os locais onde essas plantas puderam sobreviver funcionam hoje como sucursais da vegetação macaronésia. Viajar pela Cantábria pode ser um pouco como viajar nos Açores, pois se soubermos onde procurar reencontramos velhos conhecidos como o feto-do-botão (Woodwardia radicans) e o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Também o Oreopteris limbosperma e o Stegnogramma pozoi têm um pé nas ilhas e outro na Península, mas as proporções invertem-se: ao contrário dos dois anteriores, são muito mais frequentes no extremo norte de Espanha (e, mais geralmente, no norte da Europa) do que nos Açores. Talvez o porto de abrigo no Atlântico tenha sido para eles uma contingência temporária - não mais do que umas poucas centenas de milhares de anos - e agora que o bicho homem apareceu em cena está na hora de voltar para casa.


Pico: lagoa da Rosada

06/06/2015

Encontro das águas (2.ª parte)


Juncus maritimus Lam.

Entre os enigmas da língua portuguesa que mais confundem os aprendizes de naturalista avulta o sapal. Quem nunca pensou no assunto dirá prontamente que se trata de um «espaço dedicado à criação de sapos»; ou, se for um pouco mais sofisticado, um «habitat húmido ou encharcado onde se instalam colónias de sapos e de outros anfíbios». Uma reflexão mais prolongada não tardará a pôr em dúvida estas improvisadas definições. Mesmo aqueles que tenham dificuldade em distinguir entre sapos e rãs saberão que são as segundas e não tanto os primeiros que têm o hábito de viver em locais alagados. Assim, se insistirmos em caracterizar pela presença de algum batráquio aquela zona lodosa dos estuários dominada por uma vegetação halófila especializada, então deveríamos em rigor chamar-lhe ranal (ou talvez ranário) e não sapal. Mas a dúvida sistemática de novo se faz ouvir: há rãs por todo o lado, coaxando os seus cantares onde quer que haja água, e não apenas nesse lugares do litoral que apressadamente rebaptizámos como ranais. Dir-se-ia até que, se os compararmos com os comuns charcos de água doce, os sapais ou ranais não albergam, proporcionalmente à sua área, um contigente muito expressivo de tais bichos. Talvez seja melhor encolher os ombros e admitir que o nosso idioma tem razões que a razão desconhece. Ainda há nele, para nosso apaziguamento, zonas de luz onde a lógica e a semântica não estão de relações cortadas. Um juncal, por exemplo, é mesmo um lugar onde há muitos juncos, e dessa verdade fazemos prova neste texto.

O rio Coura desagua tão perto do mar, num ponto onde o rio Minho está já tão inchado de água salgada, que não será moralmente correcto defini-lo como um afluente. Aí onde se dá o encontro de três águas (dois rios e um oceano) estende-se um juncal que não é só feito de juncos, mas onde os legítimos juncos estão amplamente representados. Particularmente numerosos são os Juncus maritimus, que não são os únicos a viver em estuários mas se distinguem pela inflorescência unilateral disposta em espigas erectas (no Juncus effusus, frequente em habitats diversos e não apenas à beira-mar, as flores agrupam-se em panículas). Fotografadas precocemente, as flores do nosso junco marítimo ainda estavam a desenvolver-se, mantendo-se pudicamente fechadas. O leitor pode no entanto observar nesta foto que as flores dos juncos, embora desprovidas de pétalas de cores garridas, são bastante convencionais, com ovário, estigmas e estames bem diferenciados. Nesse aspecto - mas não nas folhas estreitas, quase lineares - os juncos demarcam-se claramente das gramíneas com que amiúde são confundidos.

Cosmopolita, como tantas vezes sucede com plantas que vivem com um pé na água, o Juncus maritimus marca presença em quase toda a costa portuguesa do Minho ao Algarve. As suas viagens por mar entre os continentes permitiram-lhe estabelecer-se também em algumas ilhas. Nos Açores, por falta de habitat conveniente, é muito raro, mas ainda assim está registado na Terceira (paul do Belo Jardim, à Praia da Vitória), em São Jorge (Fajã dos Cubres) e no Pico (juncal da baía do Castelete, nas Lajes do Pico).


Lajes do Pico: juncal com Juncus maritimus, Juncus acutus e Solidago azorica (cubres)


Lajes do Pico

23/09/2014

Ao sol no basalto


Cheilanthes guanchica Bolle


Os anglo-saxónicos chamam lip fern aos fetos do género Cheilanthes, o que etimologicamente se justifica notando que esta palavra de origem grega é composta por cheilos (= lábio) e anthos (= flor). Até os mais distraídos sabem que os fetos não dão flor, mas neste contexto o termo faz referência aos esporos, que são o modo que estas plantas ditas primitivas têm de se reproduzir. Os esporos aparecem resguardados por uma dobra na margem das pínulas que, podemos concedê-lo, são algo semelhantes a lábios humanos. E tal como há lábios grossos ou finos, uns mais rectilíneos e outros mais arredondados, também nos Cheilanthes essa parte da anatomia (ou, mais propriamente, da morfologia) varia consideravelmente, permitindo distinguir espécies que de outro modo se confundiriam. Verdade seja dita que, no trato entre humanos, o expediente de reconhecer as pessoas apenas pelos lábios causaria estranheza. Na verdade, o que as pessoas têm de mais individual (o código genético, a impressão digital) não é usado no quotidiano para nos reconhecermos uns aos outros. As caras são facilmente falsificáveis pela habilidade de um cirurgião plástico ou, muito mais prosaicamente, pelo talento de um actor. Se alguma espécie mais avançada fizesse da nossa objecto de estudo, certamente não se deixaria guiar pelas caras ao catalogar os espécimes estudados.

É então pelos lábios, neste caso algo ressequidos pela estiagem que acontece em Agosto mesmo nas ilhas (as fotos são do Pico), que podemos identificar com segurança este feto como Cheilanthes guanchica, diferente dos seus congéneres que costumamos encontrar em habitats rochosos de diversa natureza (granítica, xistosa, calcária) no continente português. Tal diferença entende-se melhor comparando a terceira foto de hoje com as da última coluna desta página. Os lábios têm uma membrana branca e transparente que os prolonga: chama-se pseudo-indúsio. No C. guanchica o pseudo-indúsio é alongado e praticamente contínuo; no C. maderensis ele é fragmentado em pequenos segmentos; no C. acrosticha é fimbriado; e no C. tinaei ele quase não existe. Só com vista muito apurada, ou com o auxílio de lupa ou de macro-fotografia, é que este receituário se pode usar na prática. E só na presença de frondes férteis, frescas e bem desenvolvidas ele se revela inequívoco. Por isso a melhor altura para destrinçar estes fetos, e para os observar em boas condições, é entre o final do Inverno e o início da Primavera. Ainda que tenham a fama de gostar de sol e de procurar os lugares mais secos e expostos, o certo é que as frondes estiolam e desaparecem durante os meses secos e quentes - podendo no entanto algumas delas reverdecer com o regresso das chuvas.

O Cheilanthes guanchica, que terá origem no cruzamento de dois dos seus congéneres (C. maderensis e C. pulchella, este último endémico das Canárias), é um feto com frondes de 8 a 15 cm de comprimento, dispostas em tufos, que nos Açores surge, e muito raramente, no Pico e em São Jorge, preferindo altitudes baixas e fendas de muros ou rochas basálticas com boa exposição solar. Parece ser a única espécie de Cheilanthes que ocorre no arquipélago, pois as referências à presença do C. maderensis (que já se chamou C. pterioides) dever-se-ão a erros de identificação. Foi originalmente descrito, em 1859, a partir de exemplares colhidos em Tenerife, pelo botânico alemão Carl August Bolle (1821-1909), aludindo o epíteto guanchica aos Guanches, povo que ocupava as Canárias antes da conquista do arquipélago pelos castelhanos. Também há notícia do C. guanchica na Madeira, no norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia), na Grécia, em algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sicília), no sul de Espanha e, em Portugal continental, nas serras de Monchique e de Sintra. Seria um feito assinalável, a merecer recompensa, que o leitor encontrasse o feto nalgum desses lugares e nos enviasse um comprovativo da descoberta.

20/09/2014

Ginja perdida no mato


Prunus lusitanica L. subsp. azorica (Mouill.) Franco



Lembra-se do azereiro? Esse mesmo: uma árvore de folha perene, floração vistosa e perfumada, que, apesar de nativa em Portugal, é rara nos nossos jardins, e que Lineu descreveu em 1753 a partir de exemplares portugueses. As populações de azereiro concentram-se em bosques sombrios e húmidos, margens de cursos de água, carvalhais e loureirais. Vimo-lo nas serras do Gerês, Estrela, Açor e Marão, e Amaral Franco refere-o também em Alvéolos, Buçaco, Pampilhosa e Sintra. Nos Açores, onde lhe chamam ginjeira-do-mato, esta árvore procurou, e encontrou facilmente, o mesmo tipo de habitat em ravinas, crateras de rocha vulcânica e nas margens de ribeiros, fazendo também parte da floresta laurissilva mais bem preservada, a altitudes que rondam os 600 metros. Já terá sido numerosa, mas a desflorestação para aumentar a área de pastoreio ou de uso agrícola, e a invasão de espécies exóticas, colocaram-na quase à beira da extinção: restam nove populações escassas, e apenas em seis das ilhas açorianas. Junte-se a estas ameaças o facto de apenas duas espécies de aves endémicas, o pombo torcaz dos Açores (Columba palumbus azorica) e o melro-preto (Turdus merula azorensis), serem capazes de comer as ginjas inteiras e ajudar à sua dispersão, e entende-se por que está a ginjeira-do-mato no topo de uma lista de cem plantas nativas a exigir há muito medidas de conservação eficientes.

A ilha de São Miguel conta com o maior contingente desta planta, que aliás se crê ser imprescindível para a sobrevivência do priôlo (Pyrrhula murina), um passarinho que é endémico desta ilha. No Faial só conseguimos vê-la no Jardim Botânico, havendo contudo registos de uns poucos indivíduos na parte ocidental da ilha. No Pico encontrámos algumas ginjeiras isoladas, nitidamente ameaçadas pelo incenso. E nas Flores a população da espécie reduz-se a um único indivíduo. Mas, afinal, por que é tão importante esta contagem? Porque o azereiro dos Açores não é o mesmo que ocorre no continente.

De facto, em 1964, Amaral Franco compilou as diferenças morfológicas mais notórias, propondo então que o azereiro açoriano se designasse Prunus lusitanica subsp. azorica, reservando o nome P. lusitanica subsp. lusitanica para a versão continental. No essencial, resumem-se a isto: a ginjeira não é tão alta como o azereiro; as folhas dela são elípticas, as dele são lanceoladas; as hastes florais da ginjeira têm muito menos flores, embora as corolas sejam maiores; as bagas açorianas são também um pouco mais gordas e redondas, nascendo com um pé ligeiramente mais longo. Repare aqui nestes detalhes, comparando essas imagens com as fotos que lhe trazemos da ginja-do-mato. Naturalmente, estas peculiaridades de forma e tamanho não bastam hoje aos botânicos para aceitarem distinções taxonómicas. E, recentemente, foi feito um estudo da diferenciação genética entre as plantas açorianas, e entre elas e as versões continental e madeirense (Population genetic structure and conservation of the Azorean tree Prunus azorica, de O. Moreira et al., Plant Syst. Evol., 2013). As conclusões apoiam claramente a distinção da subespécie que Franco propôs, mas não a autonomia numa nova espécie (Prunus azorica) como sugeriram Rivas-Martinez et al. em 2002 (Vascular plant communities of Spain and Portugal: addenda to the syntaxonomical checklist of 2001. Part II. Itinera Geobotanica).


Pico: estrada para a lagoa do Paul

09/09/2014

Migrações & metamorfoses


Pellaea viridis (Forssk.) Prantl


Antes de os humanos baralharem tudo, primeiro com as viagens de barco e mais tarde com as de avião, as ilhas eram universos fechados onde as leis da evolução se cumpriam sem interferências externas. Os organismos vivos que o acaso forçara a uma existência tão confinada tinham de se adaptar para sobreviver, e como resultado desse processo surgiam organismos diferentes de quaisquer outros que existissem no resto do planeta. A evolução, como é evidente, também ensaiou as suas habilidades nas grandes massas continentais, mas aí não houve obstáculos geográficos de monta à disseminação das espécies. Existem endemismos continentais de distribuição restrita (temos alguns em Portugal), mas são poucos e, por regra, são parentes próximos de espécies com distribuição mais ampla. Nas ilhas o número de espécies endémicas é percentualmente muito maior, e é mais marcada a diferença em relação às espécies de outras paragens. A Azorina vidalii, que deveria ser símbolo dos Açores em vez da malfadada hortênsia, não se parece com mais nada neste mundo.

Considera-se que uma espécie pertence à flora nativa de uma região se ela (ou alguma sua antepassada) chegou lá por meios naturais: as sementes ou esporos responsáveis pela colonização original foram trazidos pelo vento ou pelas marés, ou foram transportados pelos pássaros. Quando a introdução é feita, mesmo que involutariamente, pelo homem, já a espécie é classificada como exótica. Dito de outro modo, o homem não se considera parte da natureza. De facto, a civilização humana tem sido construída, e de um modo acelerado nos últimos dois séculos, à custa da destruição ou adulteração do mundo natural. Os Açores de modo nenhum escaparam a essa sina, apesar de serem habitados há menos de seiscentos anos. Sabemos, pelas amostras que nos ficaram de herança, como era a floresta nativa das ilhas, composta por juníperos, azevinhos, loureiros, sanguinhos, paus-brancos e faias-da-terra. Sabemos que as criptomérias, as hortênsias, as conteiras e os incensos foram importados do oriente. Mas nem sempre a destrinça entre o exótico e o nativo se faz de modo tão seguro. Compreensivelmente, as preocupações imediatas dos primeiros habitantes não incluíam a elaboração de uma lista exaustiva do revestimento vegetal das ilhas - se bem que o cronista Gaspar Frutuoso tenha feito, século e meio mais tarde, nos volumes das suas Saudades da Terra (1586-1590), um esforço notável mas não sistemático nesse sentido. Quando, no século XIX, os primeiros botânicos visitaram as ilhas já as transformações tinham sido grandes, e em vários casos já seria difícil decidir se uma dada espécie era nativa ou introduzida. Hoje em dia há técnicas para dar respostas mais seguras a essa pergunta: se uma planta deixou vestígios fósseis, por exemplo, não restam dúvidas sobre a sua presença ancestral nas ilhas. Na ausência de tais provas taxativas, a dúvida permanece. Se o habitat da planta parece relativamente intocado, se a planta nunca foi comercializada por não ter interesse ornamental ou económico, se não está associada a práticas agrícolas (como acontece com certas infestantes de campos cultivados), então é razoável supor que não é exótica. No caso açoriano, um atestado adicional de não-exotismo, ainda que algo incerto, é a planta ter sido referida pelos botânicos oitocentistas ou, melhor ainda, por Gaspar Frutuoso.

Devemos admitir que, aplicando tais critérios à Pellaea viridis, o tribunal botânico, reunido para lavrar sentença, está fortemente inclinado a considerar que nos Açores ela é culpada de exotismo. Só em 1937 ela foi pela primeira vez detectada numa das ilhas, mais exactamente no Faial, e desde então foi vista também em São Miguel, Terceira e Pico. Não sendo moradora das labirínticas florestas de nuvens, mas sim dos lugares desbravados e humanizados do litoral das ilhas, é pouco provável que, se já existisse no arquipélago, a sua presença escapasse aos Hochstetter, Watson, Drouet e Trelease, todos eles pioneiros do estudo da flora açoriana nos idos de oitocentos. E é sabido que ela é estimada por jardineiros e coleccionadores, e que já se naturalizou em lugares distantes como a Austrália e o Hawai. Nas alegações da defesa, algo débeis e pro forma, é lembrado que a área de distribuição natural deste feto abrange boa parte da África, incluindo Madagáscar e o arquipélago de Cabo Verde, além da Índia e de algumas ilhas do Pacífico. Não deverá admitir-se que quem já tanto viajou sem ajuda não teria dificuldades em dar o pequeno salto de 2200 Km entre Cabo Verde e os Açores? Acha bem, meritíssimo senhor juiz - e o advogado de defesa tenta, num último esforço, jogar a cartada emocional -, que se negue a cidadania açoriana a uma das mais elegantes e fotogénicas plantas das nossas ilhas sem haver provas irrefutáveis da prática de exotismo por parte da ré?

O juiz reconhece a fotogenia, mas não a considera como circunstância atenunante, e não muda o teor da sentença condenatória. Sente, porém, um discreto contentamento por ter tido oportunidade de fotografar a Pallaea viridis, ré neste processo, na berma da estrada que liga Cachorro a Lajido, na ilha do Pico. O dossier judicial, ilustrado com as fotos, ficou muito bonito. Agora é só esperar que a sentença transite em julgado.


litoral do Pico entre Cachorro e Lajido

06/09/2014

Camarinha de outras praias



Corema album (L.) D. Don subsp. azoricum P. Silva


Em quase toda a costa atlântica da Península Ibérica, a colonizar dunas protegidas e orlas de pinhais ou zimbrais, ocorre uma planta muito semelhante à que hoje aqui mostramos. A das fotos é dos Açores, onde a ocorrência do género Corema foi primeiramente reportada por Watson em 1843. Nas ilhas, aparece em rochas costeiras de basalto ou em escorrências de lava próximas do litoral, mas pode subir aos 350 m de altitude em lugares expostos e soalheiros. Comparemos as duas versões de Corema album, usando as fotos da Flora On.

À primeira vista, notamos que a folhagem nos Açores é menos densa mas forma almofadões compactos, sem deixar ramos ou a base da planta à vista, talvez para se proteger de uma maior exposição aos ventos e à maresia. Além disso, os frutos das plantas açorianas, igualmente brancos e, por vezes, nacarados, são em geral mais pequeninos. Pouco mais as distingue, a menos que se decida comer um fruto: depois do esgar por causa do sabor ácido, comum a bagas continentais e insulares, podemos ter a sorte de nos calhar um fruto açoriano com mais do que quatro sementes, podendo até chegar às nove. Ora o fruto continental costuma dar três sementes, raramente duas, nunca ultrapassando quatro. (Refira-se, a propósito, que a polpa das bagas tem fama de ser febrífuga e que, por isso, em 1877 houve quem (Boiss. ex Willk. & Lange) chamasse a esta planta Corema febrifugum.) Estes detalhes pareceram, nos anos sessenta do século passado, ao botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992) razão suficiente para propor que a versão açoriana fosse considerada como uma subespécie autónoma, de nome azoricum. E, em 2002, outros botânicos aduziram mais argumentos que, no seu entender, legitimam mesmo uma independência como espécie, propondo a designação Corema azoricum. A Flora Ibérica mantém a opinião de que se trata de uma só espécie sem diferenciação em qualquer categoria. Agradecemos que, quando chegarem a um acordo, nos informem.

No continente, e embora não se veja com igual frequência ao longo de todo o litoral, a camarinha é fácil de detectar (e só não o é nos Açores por causa da sua raridade): na época da floração, a meio da Primavera, notam-se as flores masculinas com as anteras de cor púrpura (o pólen costuma ser amarelo, não é?) e as femininas com o estigma igualmente avermelhado; e, em qualquer estação, basta seguir o aroma resinoso a que rescendem as folhas (curiosamente, o odor é o mesmo aqui e nos Açores). A polinização está a cargo do vento e os frutos agradam aos pássaros, que tendem a largar as sementes (cuja viabilidade se conserva até dois anos) em espaços abertos, e aos coelhos, que desperdiçam mais porque as deixam nas moitas e a camarinha não germina em lugares demasiado fechados.


Pocinho, Pico
Depois de, sob uma chuvinha retemperadora, vermos a camarinha açoriana junto ao farol da Ponta da Ilha, no Pico, na boa companhia de Lotus azoricum, Myosotis maritima e Spergularia azorica, fomos almoçar peixão num pequeno restaurante por perto. No fim, por tradição local, entregaram-nos uma concha para inscrevermos no seu interior uma mensagem a registar a visita. Desenhámos uma camarinha, legendando o rabisco com o nome científico e o vernáculo que utilizamos aqui no continente. Quem nos serviu o pitéu não sabia que a Ponta da Ilha é um paraíso botânico e desconhecia esta planta até de nome.


Ponta da Ilha, Pico

02/09/2014

A vida por uma foto


Ceradenia jungermanioides (Klotzsch) Bishop
No afã mais ou menos científico de tudo conhecer, colectar e classificar, e amiúde com o pretexto de ajudar a definir medidas de conservação que raramente são postas em prática, os botânicos profissionais (e alguns amadores convencidos da sua própria importância) podem causar danos irreparáveis. A história deste feto nos Açores ilustra exemplarmente como a pulsão de possuir, herborizar, coleccionar ou tão só fotografar pode ser cega e destrutiva. Corria a Primavera de 1973 quando ele foi pela primeira vez observado nos Açores, algures nas musgosas florestas do Pico, pelos botânicos alemães Helga Rasbach e Kurt Rasbach. Dada a necessidade de colher uma amostra para posterior estudo e identificação, e sabendo que o reconhecimento de uma espécie como parte da flora de uma região exigia (ainda exige, segundo alguns) que se depositasse uma planta completa num herbário, os Rasbach não tiveram dúvidas (e, no lugar deles, poucos botânicos teriam) em colher o único exemplar que encontraram. Ao mesmo tempo que a flora açoriana era oficialmente enriquecida com uma nova espécie, o próprio acto que permitiu oficializar a novidade poderia ter provocado (ou apressado) a sua extinção no arquipélago. Assim terá parecido durante quase 20 anos, até que em 1991 outros botânicos reencontraram a Ceradenia jungermanioides no Pico, e em 2000 Hanno Schäfer a descobriu nas Flores e na Terceira. No mesmo ano, também nas Flores, Schäfer encontrou um feto epífito da mesma família que se revelou endémico dos Açores e ficou a chamar-se Grammitis azorica.

Os géneros Grammitis e Ceradenia distribuem-se predominantemente pela América tropical, e a C. jungermanioides, que ocorre desde o sul do México até à mata atlântica do Brasil, chegou talvez aos Açores por via caribenha, colonizando as ilhas através de esporos trazidos pelo vento. Cada planta é composta por um rizoma curto de onde saem numerosas frondes pendentes e lineares com 3 a 8 cm de comprimento; os soros, que são circulares e sem indúsio, dispõem-se em duas fiadas paralelas no verso de cada fronde. Embora elas possam secar e cair durante o Verão, o número de frondes por planta aparenta ser proporcional à idade; Schäfer, que encontrou plantas com mais de 100 frondes, conjecturou mesmo que o seu número corresponde aproximadamente aos anos de vida da planta. Mas mesmo essas plantas tão prolíferas são, pela sua pequenez, difíceis de detectar entre os musgos e líquenes que revestem espessamente os troncos dos juníperos e azevinhos onde elas costumam encavalitar-se. E, no que a fetos diz respeito, estes dois da família Gramittidaceae são singularmente morosos e incompetentes a reproduzirem-se. Com (muita) sorte e empenho encontram-se plantas isoladas, mas nunca populações significativas. O número total de indivíduos de C. jungermanioides nas Flores rondará as dezenas, no Pico chegará talvez às centenas. Tendo em conta a super-abundância de habitats favoráveis (cada um dos muitos milhares dos juníperos e azevinhos das florestas húmidas dessas ilhas é um poleiro possível), e a fraca acessibilidade de muitos deles, mergulhados em almofadões de Sphagnum ou rodeados por floresta densa, encontrar um único destes fetos é já uma proeza considerável. E, uma vez encontrado, devemos respeitá-lo, pois, seja qual for a razão invocada, é indigno destruir uma planta raríssima que levou anos de vida paciente e silenciosa a formar-se.

Mas esse código ético nem sempre é acatado por quem faz da botânica o seu hobby ou profissão. Alguns porque consideram que, mais do que a conservação de uma espécie em perigo (que aliás as autoridades locais pouco fazem para proteger), importa que o herbário da instituição em que trabalham ou o seu próprio herbário pessoal guardem colecções tão completas quanto possível. Se todos os herbários importantes, europeus e americanos, quiserem (como alguns quiseram) os seus exemplares açorianos de Grammitis e Ceradenia, as duas espécies, únicas da sua família na flora europeia, ficarão a um passo da extinção. Mas há pior: há quem faça tudo por uma fotografia. O que está nesta página (veja a foto ao fundo), de um francês com fracas luzes de geografia (os Açores são na Madeira?!) que em França respeita todas as normas mas acha que as ilhas atlânticas são o faroeste, é de uma sacanice repugnante.

P.S. O autor da foto comprometedora, Benoit Bock, já a retirou da página. Isso não vai salvar as cinco plantas que ele criminosamente sacrificou por um motivo mais que fútil. Para que conste, reproduzimos a foto aqui em cima.


Mistérios da Prainha, ilha do Pico