Launaea dos desertos
É impossível visitar as ilhas Canárias orientais e não notar como uma planta arbustiva espinhosa que parece palha-de-aço, a Launaea arborescens, cobre grandes extensões de solo pedregoso, de resto quase despido de vegetação. A mesma planta surge com assiduidade nas demais ilhas do arquipélago, mas é em Lanzarote e Fuerteventura que a sua omnipresença, amiúde como representante única do reino vegetal, se torna frustante para quem busque alguma diversidade.
Como em tudo, o problema está no excesso. Quando reencontramos o mesmo arbusto em quantidades moderadas no deserto de Tabernas, no sul de Espanha, conseguimos por fim perceber como ele é bonito. E, tendo visitado as Baleares e travado conhecimento com a Launaea cervicornis, uma das célebres almafodilhas (ou coxins) do litoral de Menorca, percebemos que o género Launaea, especializado em ambientes agrestes (desertos, dunas, rochas costeiras), é dos mais interessantes da flora espanhola. Por estar presente tanto no território continental como nos dois mais importantes arquipélagos do país vizinho, pode mesmo funcionar como símbolo de união entre as diversas comunidades autónomas.
Com as duas espécies de Launaea que hoje mostramos, ficam a faltar-nos apenas três pequenas herbáceas (L. pumila, L. fragilis e L. mucronata) para completarmos a colecção das espécies espanholas do género. Que, diga-se, não são apenas espanholas: à excepção da L. cervicornis, endémica das Baleares, todas elas ocorrem também nos países do norte de África.
Launaea lanifera Pau

A Launaea lanifera (em cima) e a Launaea nudicaulis (em baixo) podem assumir, em exemplares bem desenvolvidos, a aparência de pequenos arbustos (raramente excedendo os 50 cm de altura), mas na verdade ambas apresentam hastes de textura herbácea, a que a ramificação profusa dá um ar agressivo. A forma das folhas, quase todas basais, permite sem dificuldade distinguir as duas espécies: mais estreitas e alongadas as da L. lanifera; com lobos maiores e margens claramente serrilhadas as da L. nudicaulis. Quem quiser munir-se de lupa e de paciência, poderá verificar que, na primeira delas, as axilas das folhas e a base das hastes estão revestidas por um indumento lanuginoso, o que explica o epíteto lanifera aplicado a uma planta que, à primeira vista, se diria glabra. Das duas espécies, a L. lanifera é, em regra, a que forma moitas mais nutridas e apresenta ramificação mais densa.
A L. nudicaulis, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta muito viajada: a sua presença na Península Ibérica é tangencial (fica-se pelo sudeste de Espanha), mas de resto ocorre em todas as ilhas Canárias, em toda a faixa sul do Mediterrâneo, e desde a Península Arábica até à Índia. Por comparação, a L. lanifera, que vimos em Almeria e ocorre apenas no sul de Espanha, Marrocos e Argélia, tem uma distribuição algo restrita.

Launaea nudicaulis (L.) Hook. fil.

