26/05/2026

Sanfeno sem freio



Em anos bons, o solo dos nossos prados no início da Primavera está bastante encharcado, e a cor dominante é o verde das inúmeras herbáceas que começam a lançar novas folhas, ou cuja polinização está a cargo do vento. Pouco depois, ainda o chão está macio de chuva, notam-se extensos tapetes de cor branca, entremeados de manchas amarelas com uns apontamentos de roxo. Sem demora, porém, o calor instala-se, e a mistura de cores nos prados diversifica-se. A tendência é agora menos óbvia, mas apercebemo-nos das primeiras flores cor-de-rosa, azuis de vários tons e vermelhas. Com o Verão a meio, o que notamos é um alvoroço de púrpura, roxo, violeta, amarelo, laranja, castanho, branco, azul, carmim, etc, uma paleta de cores sem leitura simplista. Esta sucessão de cores não é certamente alheia à maior visibilidade da flor pelos polinizadores, até porque, frequentemente, as pétalas exibem matizes que contrastam com o amarelo e o branco, as cores mais usuais, mas não únicas, do pólen. Essa coloração amarelada deriva da presença de pigmentos que protegem a planta de efeitos nocivos da exposição ao sol, e tornam o pólen mais resistente à seca e ao calor. Não seria surpresa se se descobrisse que essas foram as primeiras tonalidades distintas do verde a surgir em flores. Do que desconfiamos, porém, é que, mal apareceu uma flor vermelha, ou com pólen vermelho (cor que atrai pássaros e borboletas), muitas flores terão pensado em mudar de cor.

Hedysarum coronarium L.


Esta herbácea perene tem uma distribuição vasta na região mediterrânica ocidental, estando naturalizada noutros locais, onde tem fama de invasora. Por cá, há registo da sua presença perto do litoral, entre a Nazaré e Oeiras, em pastagens e bermas de caminhos com solo argiloso ou margoso. Floresce entre Março e Junho, altura em que as folhas têm as margens bordadas com um indumento denso esbranquiçado e a inflorescência, em espiga terminal com mais de 30 flores vermelhas raiadas de branco, se avista de longe. A vagem é a parte mais bizarra desta planta: é um lomento, formato comum às espécies do género Hedysarum. Dividida em peças, parece um colar de contas, cada uma das quais lembra uma bolacha redonda e espalmada. Cada uma destas bolachas contém uma semente, e a vagem abre-se precisamente nos nós de junção entre cada par de bolachas para largar uma semente de cada vez. Por contraste, uma vagem de feijão (e grande parte das vagens das leguminosas) abre-se longitudinalmente, expondo todas as sementes em simultâneo.

Por falar em comida, há quem assegure que as plantas e sementes de H. coronarium são muito apreciadas pelo gado, e que as flores têm um sabor doce que é um toque requintado em saladas e receitas com ovos. Mais um pitéu, a juntar às cerejas, morangos, amoras e framboesas, a ser valorizado pela moda vegetariana dos alimentos vermelhos.

06/05/2026

Launaea dos desertos

Almeria: antiga estrada, habitat de Launaea lanifera
É impossível visitar as ilhas Canárias orientais e não notar como uma planta arbustiva espinhosa que parece palha-de-aço, a Launaea arborescens, cobre grandes extensões de solo pedregoso, de resto quase despido de vegetação. A mesma planta surge com assiduidade nas demais ilhas do arquipélago, mas é em Lanzarote e Fuerteventura que a sua omnipresença, amiúde como represen­tante única do reino vegetal, se torna frustante para quem busque alguma diversidade.

Como em tudo, o problema está no excesso. Quando reencontramos o mesmo arbusto em quantidades moderadas no deserto de Tabernas, no sul de Espanha, conseguimos por fim perceber como ele é bonito. E, tendo visitado as Baleares e travado conhecimento com a Launaea cervicornis, uma das célebres almafodilhas (ou coxins) do litoral de Menorca, percebemos que o género Launaea, especializado em ambientes agrestes (desertos, dunas, rochas costeiras), é dos mais interessantes da flora espanhola. Por estar presente tanto no território continental como nos dois mais importantes arquipélagos do país vizinho, pode mesmo funcionar como símbolo de união entre as diversas comunidades autónomas.

Com as duas espécies de Launaea que hoje mostramos, ficam a faltar-nos apenas três pequenas herbáceas (L. pumila, L. fragilis e L. mucronata) para completarmos a colecção das espécies espanholas do género. Que, diga-se, não são apenas espanholas: à excepção da L. cervicornis, endémica das Baleares, todas elas ocorrem também nos países do norte de África.

Launaea lanifera Pau


A Launaea lanifera (em cima) e a Launaea nudicaulis (em baixo) podem assumir, em exemplares bem desenvolvidos, a aparência de pequenos arbustos (raramente excedendo os 50 cm de altura), mas na verdade ambas apresentam hastes de textura herbácea, a que a ramificação profusa dá um ar agressivo. A forma das folhas, quase todas basais, permite sem dificuldade distinguir as duas espécies: mais estreitas e alongadas as da L. lanifera; com lobos maiores e margens claramente serrilhadas as da L. nudicaulis. Quem quiser munir-se de lupa e de paciência, poderá verificar que, na primeira delas, as axilas das folhas e a base das hastes estão revestidas por um indumento lanuginoso, o que explica o epíteto lanifera aplicado a uma planta que, à primeira vista, se diria glabra. Das duas espécies, a L. lanifera é, em regra, a que forma moitas mais nutridas e apresenta ramificação mais densa.

A L. nudicaulis, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta muito viajada: a sua presença na Península Ibérica é tangencial (fica-se pelo sudeste de Espanha), mas de resto ocorre em todas as ilhas Canárias, em toda a faixa sul do Mediterrâneo, e desde a Península Arábica até à Índia. Por comparação, a L. lanifera, que vimos em Almeria e ocorre apenas no sul de Espanha, Marrocos e Argélia, tem uma distribuição algo restrita.

Launaea nudicaulis (L.) Hook. fil.