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11/07/2020

Malmequeres carecas



Toda a gente aprende desde criança a reconhecer a flor do malmequer, e dessa aprendizagem inicial deriva muita da ignorância botânica que nos acompanhará pela vida fora. São dois os erros na expressão flor do malmequer: aquilo que nos parece ser uma só flor é de facto um capítulo, ou seja, um aglomerado de minúsculas flores (ou florículos); e malmequeres há muitos e muito diversos, sendo às dezenas as espécies que em Portugal assim podem ser chamadas. Se abstrairmos do tipo de inflorescência, não há qualquer afinidade entre o acetinado e elegante Phalacrocarpum oppositifolium, que encontramos nas serras do norte e centro, e a rasteira Bellis perennis, que coloniza relvados urbanos. Como podemos achar que os conhecemos se, para nós, ambos forem apenas malmequeres?

Cada uma das "pétalas" que enfeitam os capítulos dos malmequeres é na verdade uma lígula, apêndice vistoso dos florículos que bordejam o disco floral e que desse modo se distinguem dos florículos tubulares centrais. As lígulas não servem senão para atrair insectos polinizadores; e, se outros engodos houver (olfactivos, por exemplo), a planta pode dispensá-las por completo. Um malmequer sem "pétalas" não é uma aberração, nem um sinal de que alguém, por maldoso desfastio, resolveu arrancá-las uma a uma. Aconteceu simplesmente que, no processo evolutivo que originou essa espécie, as lígulas a certa altura se perderam por não terem utilidade, tal como nós começámos a perder a cauda quando os primatas nossos antepassados desceram das árvores.

Um malmequer careca pode assim representar um estádio evolutivo mais avançado do que um malmequer convencional, embora para usos ornamentais possamos preferir o segundo. Mas na natureza nenhuma planta evoluiu com o fito de ser agradável aos nossos olhos ou de ficar bonita nos nossos jardins. Se bem que as santolinas, apesar de carecas, sejam muito favorecidas em jardinagem.


Santolina semidentata Hoffmanns. & Link


As santolinas são arbustos compactos, de um verde acinzentado e de folhas lineares mais ou menos carnudas, que na Primavera ou início do Verão fazem brotar inúmeras hastes esguias, cada uma delas encimada por um único capítulo. À sua popularidade em jardinagem não será alheia a antiga reputação medicinal e os possíveis usos em perfumaria. Em Portugal são reconhecidas três espécies espontâneas, todas de aspecto geral semelhante, distinguíveis por minudências da folhagem ou, mais preguiçosamente, pela distribuição geográfica. A que ocorre em Trás-os-Montes, nos afloramentos ultrabásicos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, é a Santolina semidentata (fotos em cima), endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica. Vimo-la, no início de um mês de Junho, a cobrir toda uma ladeira entre um pinhal e uma estrada, e daí ter-nos ficado a ideia de que a planta não é rara. De facto, o estudo de campo no âmbito do projecto da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF) concluiu que a espécie não está ameaçada e atribuiu-lhe o estatuto de pouco preocupante. É daquelas plantas felizes que aprenderam a conviver com o homem e conseguem instalar-se em habitats (moderadamente) degradados.

Na situação oposta está o segundo malmequer careca que hoje apresentamos: segundo a LVF, o Anthemis canescens (fotos em baixo) está "em perigo", significando isto que em Portugal tem vindo a desaparecer e é hoje em dia muito escasso. Apesar de ocorrer em Trás-os-Montes, na Beira Interior e na Estremadura, o efectivo populacional da espécie no nosso país dificilmente atinge a casa dos milhares. No único local onde a vimos, no limite norte do concelho de Bragança, apenas detectámos três exemplares, só um deles em floração.

Embora os capítulos e as hastes compridíssimas lembrem as santolinas, a folhagem do Anthemis canescens rapidamente desfaz a confusão: não há qualquer parecença entre as folhas compostas bipinadas que vemos na 2.º foto abaixo e as folhas simples de uma santolina (exemplo).

E a confusão nem teria chegado a existir se o Anthemis canescens nos tivesse aparecido na sua versão não careca. É que os capítulos tanto se podem apresentar com lígulas como sem elas, e noutros países europeus onde a planta ocorre (ela distribui-se pela Europa mediterrânica desde a Península Ibérica até ao Cáucaso) até é mais frequente a versão ligulada. Talvez a espécie esteja em processo de descartar as lígulas e, nesse aspecto, as plantas portuguesas estejam na vanguarda. Só que as vanguardas também se podem extinguir.


Anthemis canescens Brot.

27/03/2020

Margarida do rio seco

Andar num vale seco e silencioso onde antes fluiu um rio causa alguma estranheza. O chão, de rocha bem polida, é ondulado, e o percurso ao longo do barranco encaixado é sinuoso, alimentando a cada dúzia de passadas a euforia, ou o receio, da surpresa ao virar da esquina. A impressão inicial é a de estarmos num lugar hostil que, por constantemente nos recordar o caudal de outrora, tem um carácter indeciso, como se a qualquer momento a água pudesse voltar a jorrar, submergindo-nos. Mas basta olhar para as paredes do barranco para se ter a certeza de que esse não é risco que corramos: são inúmeras as plantas que exigem solo enxuto que, uma vez desaparecido o rio, ousaram colonizar esses taludes, e nos vão tranquilizando com a sua presença.

Visitámos o Barranco del Agua, em Anaga, numa tarde quente com céu encoberto. No início da caminhada uns magros pingos de chuva salpicaram-nos, prometendo uma frescura que afinal não se concretizou. Mas na vertente sombreada do barranco notava-se o efeito dessa rara humidade, pois empoleirados em patamares onde o sol não incide e a temperatura é mais amena notavam-se uns poucos exemplares de Ranunculus cortusifolius em flor, o mesmo que encontramos abundantemente nas ilhas chuvosas dos Açores. Algures a meio do passeio vimos esta margarida de folhas carnudas e um verde inesperado num local tão árido, com grandes capítulos dispostos em corimbo.


Gonospermum revolutum (C. Sm.) Sch. Bip.



O género Gonospermum é endémico das Canárias e é quase verdade que a cada ilha coube a sua espécie, diferindo sobretudo no tamanho das inflorescências e na maior ou menor segmentação das folhas. O Gonospermum canariense é endémico das ilhas ocidentais do arquipélago (El Hierro e La Palma) e é um arbusto que pode ultrapassar 2 metros de altura; do G. ferulaceum, famoso pelos corimbos densos de flores, há registo apenas na Gran Canaria; o G. fruticosum, conhecido como corona de la reina, é a espécie mais frequente (dispersão talvez ajudada pela jardinagem), e pode ver-se em Tenerife, La Gomera, El Hierro e La Palma. Temos ainda o G. gomerae, endemismo de La Gomera, e o G. revolutum, com inflorescências menos densas, que só existe no norte de Tenerife, desde Roque Bermejo até Punta del Hidalgo.

O G. revolutum já se chamou Lugoa revoluta mas, depois de alguma controvérsia e estudos de genética molecular, o género Gonospermum passou a abrigar, desde 2001, algumas espécies antes incluídas em Lugoa e Tanacetum. Trata-se de uma herbácea perene, de base lenhosa, com cerca de meio metro de altura e cujas folhas, dispostas em vistosa roseta basal e ao longo da haste floral, exibem margens curvadas para a face inferior. É uma espécie legalmente protegida, classificada como vulnerável na lista vermelha da flora vascular espanhola.

06/03/2020

Salada de estrelas

São duas as estrelas, ambas de Lanzarote, que hoje disputam a nossa atenção. A referência aos corpos celestes não está apenas em Asteriscus, nome do género a que as plantas pertencem e que significa pequena estrela, mas também na própria família, Asteraceae, em que elas estão filiadas. É curioso assinalar que as estrelas não seriam para aqui chamadas se há dez ou vinte anos falássemos das mesmas plantas: em vez de Asteriscus, elas integravam então o género Nauplius; e a família Asteraceae era designada por Compositae. Dessas mudanças, a segunda reflecte apenas uma actualização da nomenclatura, em obediência à regra de que o nome de cada família botânica deve derivar do género que a tipifica e não de alguma característica morfológica das plantas da família (assim, tal como Compositae passou a Asteraceae, que vem de Aster, também Leguminosae passou a Fabaceae, que vem de Faba, e Palmae passou a Arecaceae, que vem de Areca). Quanto à substituição de Nauplius por Asteriscus, isso não corresponde a uma mudança de género, mas sim a uma absorção de um género por outro. Entendeu-se que não havia diferença relevante entre Nauplius e Asteriscus, passando os dois géneros a ser um só; e, para o género resultante da unificação, as regras da nomenclatura botânica impuseram o uso do nome mais antigo, que é Asteriscus. Ao mesmo tempo que era reforçado com novas aquisições, o género Asteriscus via-se despojado de algumas das suas espécies emblemáticas, entre elas uma das plantas mais bonitas da Costa Vicentina, que mudou de Asteriscus maritimus para Pallenis maritima. O resultado da dança de nomes é que nove das dez espécies actuais de Asteriscus eram antes Nauplius. E quatro delas são endémicas (ou quase endémicas) das ilhas Canárias.


Asteriscus intermedius (DC.) Pit. & Proust [= Nauplius intermedius (DC.) Webb]


À excepção de uma herbácea anual (A. aquaticus), os Asteriscus são plantas de caules lenhosos que formam pequenos e intrincados arbustos, com folhas sésseis, mais ou menos espatuladas, dispostas em espiral. As brácteas involucrais são longas e verdes, semelhantes às folhas, e os capítulos de centro amarelo exibem numerosas lígulas também amarelas – brancas apenas no caso do A. schultzii.

O Asteriscus intermedius (em cima) é muito frequente em Lanzarote, e é provável que seja endémico dessa ilha, sendo dúbia a sua presença em Fuerteventura. Tem uma atraente folhagem acetinada e floresce mais intensamente entre Janeiro e Junho. Os seus abundantes capítulos amarelos têm de 2,5 a 3,5 cm de diâmetro. Em Fuerteventura existe uma espécie endémica semelhante, A. sericeus, de capítulos maiores e folhas mais largas.

O Asteriscus schultzii (em baixo) compensa o porte rasteiro pela beleza da floração. Tem uma distribuição mais ampla do que o seu congénere – ocorre em Lanzarote, Fuerteventura e no sudoeste de Marrocos – mas é raro e com populações muito esparsas, e à escassez populacional junta-se a ameaça da colheita para fins ornamentais. Em Lanzarote está apenas presente na zona de Famara, tanto sobre areias como entre os matos ralos que revestem a base das falésias.


Asteriscus schultzii (Bolle) Pit. & Proust [= Nauplius schultzii (Bolle) Wiklund]

08/01/2020

Chicória elegante

Durante alguns anos, entre Janeiro e Junho, visitámos com alguma regularidade o centro do país. Habituados à cidade, desconhecíamos algumas das serras da Estremadura, lugares privilegiados para a flora de solos calcários. Foi ali que começámos a interessar-nos pelas plantas de um modo menos informal, e foi também por lá que vimos pela primeira vez algumas das espécies herbáceas mais bonitas da flora nacional. Mas escapou-nos sempre a asterácea que hoje vos mostramos, planta perene que gosta de clareiras de matos e encostas muito secas com solo calcário e argiloso, e cuja distribuição em Portugal se restringe a um local no Ribatejo.


Catananche caerulea L.


Por cá, ela floresce entre Maio e Junho, mas encontrámo-la em flor, e em populações abundantes, durante uma visita em Agosto aos Pirenéus. Na imagem abaixo dos montes de Plana Canal, nos Pirenéus aragoneses, adivinha-se a estrada, denunciada por uma linha mais ou menos horizontal, em cuja berma vimos pela primeria vez a C. caerulea.



As inflorescências lembram as da chicória, mas o formoso invólucro de brácteas transparentes (veja a 2ª foto acima) distingue-as sem dificuldade.

No sudeste de Portugal ocorre outra espécie de Catananche, igualmente rara, a C. lutea, que nunca vimos mas que é frequente na região mediterrânica. É anual e parece mais exigente quanto ao tipo de habitat pois apenas são conhecidos registos da sua presença em afloramentos de rocha ígnea com solo básico, ocorrendo em populações pequenas. Isso é surpreendente tendo em conta que esta espécie tem um esquema de dispersão de sementes muito habilidoso. Senão vejamos.

Cada planta produz dois tipos de frutos (aquénios): uns subterrâneos, com origem em flores que nascem nas axilas das folhas da roseta basal entre Fevereiro e Abril, e que germinam no local onde a planta mãe morre; e outros aéreos, que estão prontos para serem disseminados pelo vento entre Abril-Maio e que resultam da polinização ou auto-fertilização das inflorescências aéreas (com hastes florais elevadas). Cada tipo de aquénio parece ter uma intenção distinta relativamente ao processo de disseminação desta espécie, diferenças que naturalmente obrigam a adaptações morfológicas. Segundo E. Ruiz de Clavijo, autor de um artigo que vale a pena ler na íntegra, os aquénios subterrâneos são uma reserva da planta pronta para germinar no solo, e fazem-no rapidamente. Asseguram que a espécie persiste no terreno onde a planta mãe foi bem sucedida. Os aéreos, cuja dispersão se faz pelo vento e se espera que viajem para longe, permitindo a colonização de novos habitats, têm um prazo de validade maior e o papus (o pára-quedas da semente) é mais bem desenvolvido.

Esta estratégia reprodutiva não é apanágio da C. lutea (veja-se por exemplo a Centaurea melitensis, cujos capítulos sésseis e rentes ao chão têm flores cleistogâmicas, ou a Emex spinosa). No caso da C. lutea, porém, os capítulos na base também abrem, e o processo é mais sofisticado pois há vários tipos de aquénios aéreos e subterrâneos, com diferenças subtis que dependem da posição da flor no capítulo.

Se o leitor tiver tempo, não deixe de espreitar imagens de outras espécies de Catananche do norte de África, decerto parentes e, quem sabe, origem do carácter polimorfo dos frutos da C. lutea.

06/11/2019

Serralha marroquina



Sonchus pinnatifidus Cav.


O limite ocidental da cordilheira do Anti-Atlas (ou Pequeno Atlas), no sudoeste de Marrocos, apresenta uma paisagem e uma vegetação que, a julgar por fotos, lembram irresistivelmente as das vizinhas ilhas Canárias. São os mesmos picos áridos e acidentados, de cores quentes, com a mesma vegetação rala dominada por arbustos rasteiros. Essa região costeira, com vales muito cavados, propícios a servirem de refúgio a um grande número de espécies vegetais, terá sido, noutras eras geológicas, o mais importante berçário da flora canária, fornecendo a maioria das plantas que iriam depois diversificar-se num número assombroso de endemismos. As afinidades observadas levaram alguns botânicos a propor a inclusão dessa região marroquina no conceito bio-geográfico de Macaronésia (cuja realidade é aliás algo dúbia, por abarcar quatro arquipélagos -- Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde -- com coberturas vegetais muito díspares). As convulsões climáticas do período Quaternário afectaram contudo de modo muito mais sério as massas continentais do que as ilhas atlânticas, e as duas floras, pese embora a semelhança das paisagens, reflectem uma acentuada divergência. De acordo com um artigo de 1999 dos botânicos franceses Frédéric Médail e Pierre Quézel (The Phytogeographical Significance of S.W. Morocco Compared to the Canary Islands), das cerca de 1400 espécies ou subespécies registadas no sudoeste de Marrocos menos de 3% são comuns às Canárias. Além disso, a flora das Canárias, ao contrário da de Marrocos, tem um grau muito elevado de endemicidade: de acordo com o mesmo artigo, cerca de 39% das espécies canarinas são exclusivas do arquipélago, enquanto que em Marrocos a percentagem de endémicas ronda os 9%.

A Astydamia latifolia, a Polycarpea nivea e o Sonchus pinnatifidus são alguns dos vinte e poucos endemismos partilhados por Marrocos e Canárias. Ao Sonchus pinnatifidus, hoje no escaparate, que nas Canárias apenas existe nas ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, não será despropositado chamar serralha-marroquina. Não é fácil saber em qual das duas regiões tiveram origem estes endemismos partilhados. As colonizações podem funcionar nos dois sentidos, e uma espécie que tenha evoluído nas ilhas atlânticas, descendente de um remoto antepassado continental, pode muito bem fazer a viagem oposta e estabelecer-se no continente. É provável que tenha sido isso mesmo que sucedeu com a serralha-marroquina, representante de uma estirpe do género Sonchus, caracterizada por caules lenhosos (subgénero Dendrosonchus), que, tirando esta tímida incursão no continente africano, é exclusiva das Canárias e da Madeira.

Face a outras serralhas lenhosas como o Sonchus fruticosus da laurissilva madeirense, o S. pinnatifidus impressiona pouco, raras vezes ultrapassando um metro de altura. O porte mais atarracado reflecte a adaptação a um habitat soalheiro, árido e ventoso, onde as plantas, muito mais do que competirem entre si (como seria regra no ambiente luxuriante mas sombrio da laurissilva), tiveram de inventar mecanismos de sobrevivência. Único da sua estirpe nas duas ilhas mais orientais do arquipélago, e frequente (às vezes abundante) na metade norte de Lanzarote, o Sonchus pinnatifidus é um verdadeiro caso de sucesso adaptativo.

03/10/2019

Vieiras de Tenerife



Nos últimos tempos, em que as visitas de turistas a Portugal cresceram tanto que já não se restringem ao Verão e à semana da Páscoa, nota-se uma tendência de globalização preocupante: o país parece sentir a obrigação de oferecer serviços e entretenimento idênticos àqueles a que o turista está habituado no lugar onde vive. Há decerto benefício em imitar os melhores, mas a cópia terá sempre menos valor do que o genuíno, o que só existe no reduto que se visita. Afinal não deveríamos viajar centenas de quilómetros para apreciar o que é comum ao pé de casa. É por isso que ninguém escapa ao fascínio das espécies endémicas, as que só se podem conhecer em habitats restritos do planeta. A planta que vos mostramos hoje, fotografada nas rochas da berma da estrada do Teno, está nesse pacote excepcional pois só existe no noroeste da ilha de Tenerife.



Vieraea laevigata (Brouss. ex Willd.) Webb


O porte erecto, com talos que podem atingir um metro de altura, e as flores amarelas de margarida lembram as da Inula crithmoides, sendo ambas apreciadoras de taludes rochosos à beira mar; as folhas bicudas assemelham-se às da Inula salicina, mas, além de serem carnudas, são mais largas, glabras, dentadas e glaucas. A inflorescência mede cerca de 5 centímetros de diâmetro, e é difícil vê-la fresca depois de passada a Primavera.

Por falta de detalhes morfológicos que a irmanassem a alguma espécie de asterácea conhecida, foi criado um género novo (Vieraea) de que esta é a única espécie, chamada laevigata em alusão às folhas glabras. O nome do género é uma homenagem a José de Viera y Clavijo (1731-1813), historiador nascido em Tenerife e autor da obra Las bodas de las plantas (1806), um longo poema que explica alguma da ciência então conhecida sobre a polinização das flores.

07/08/2019

Palmeiras de Famara


Phoenix canariensis Chabaud
Uma vivenda à beira-mar com relvado e palmeira, mais o BMW estacionado na garagem: era esse o sonho possível de prosperidade nos anos pobretes mas alegretes das últimas décadas do século XX. Que se mantém hoje desse sonho? O BMW e a beira-mar, com certeza, mas as vivendas (ou moradias) foram substituídas por prédios de apartamentos, as palmeiras morreram todas, e os jardins (ou espaços verdes) são agora simples rectângulos de terra ressequida ao serviço dos cães e dos seus donos. Talvez não haja muito a lamentar nessa mudança. As defuntas palmeiras eram um símbolo do estatuto conquistado, e a sua presença em relvados nus e rigorosamente aparados sublinhava um enfático desinteresse por plantas e pela jardinagem em geral. Mas a nostalgia está para além da racionalidade: Miramar e Francelos sem palmeiras representam uma amputação da memória.

Por palmeira entendemos, claro está, a palmeira-das-Canárias: embora haja centenas de espécies de palmeira, várias delas cultivadas entre nós, a preponderância da Phoenix canariensis é (ou era) avassaladora. Com a chegada, na última década, do escaravelho-da-palmeira (Rhynchophorus ferrugineus), houve uma mortandade quase total nos jardins privados, esforçando-se algumas câmaras municipais por salvar os exemplares mais emblemáticos em espaços públicos.

Daqui a uns anos, com o gradual desaparecimento das palmeiras citadinas, talvez só as possamos ver se viajarmos para fora do país. E o lugar de eleição para esse reencontro é, obviamente, o arquipélago das Canárias. Afinal a palmeira é endémica dessas ilhas - e, além de a vermos plantada por todo o lado, também a encontramos em estado silvestre, formando pequenos bosques em encostas e ravinas. O temível escaravelho também chegou às Canárias, sem ter porém causado estragos muito visíveis, talvez por o combate ter sido eficaz, ou por o clima seco das ilhas não ser favorável à propagação do bicharoco.

Uma característica simpática das palmeiras-das-Canárias é que sempre acolheram de palmas abertas as pequenas herbáceas que sobre elas se quiseram instalar: fetos, dentes-de-leão, malmequeres, gramíneas... Todo um jardim clandestino em miniatura que era muitas vezes o único rasgo de cor nos manicurados jardins suburbanos. E essa índole hospitaleira da Phoenix canariensis já lhe vem de origem: nas Canárias não há palmeira, mesmo cultivada, que não tenha inquilinos. Um exemplo entre muitos é dado pelas palmeiras que ladeiam a Ermida de Las Nieves, no maciço de Famara, em Lanzarote (foto acima). Entre as plantas nelas empoleiradas detectámos quatro endémicas das Canárias, três delas exclusivas de Lanzarote e Fuerteventura.



Reichardia famarae Bramwell & G. Kunkel ex Gallego & Talavera


Os dois dentes-de-leão que se hospedaram nas palmeiras de Famara são endémicos das duas ilhas mais orientais do arquipélago, e ambos aparecem com abundância na crista rochosa de Famara, não raro em paredes perfeitamente verticais. A verticalidade do habitat disponível no espique de uma palmeira não é pois coisa que lhes cause vertigens. Talvez a maior visiblidade das plantas nas palmeiras as obrigue ao esforço suplementar de uma floração precoce, já que quando as vimos, no final de Dezembro, eram elas as únicas entre as suas iguais que estavam em flor.

A Reichardia famarae (em cima) é uma planta rasteira, glabra, com hastes florais de não mais que 15 cm de altura, quase sempre rematadas por um único capítulo, e com folhas glaucas, algo carnudas, de margens dentadas, dispostas em rosetas basais densas.

A Crepis canariensis (em baixo) tem folhas maiores, verdes, formando uma roseta mais difusa, e as suas hastes, além de pubescentes, são mais empertigadas (até 50 cm de altura) e várias vezes ramificadas.

No canto inferior esquerdo de duas das fotos espreita uma terceira endémica destas mesmas ilhas: trata-se de uma planta suculenta, o Aichryson tortuosum, que foi avaro em mostrar-nos as flores (fora de época, é verdade) e por isso apresentamos só de raspão. Bonito como todos os seus congéneres, singulariza-se por ser uma planta perene e formar tapetes rastejantes (os Aichryson mais costumeiros são plantas anuais, com hastes erectas bem individualizadas).


Crepis canariensis (Sch. Bip.) Babc.

11/07/2019

Histórias da Lista Vermelha: Rhaponticum exaltatum


Rhaponticum exaltatum (Cutanda ex Willk.) Greuter (= Leuzea rhaponticoides Graells)


Pinhas na extremidade de hastes longuíssimas, que não são pinhas mas sim invólucros para flores que esperam pelo Verão para se mostrarem durante uma breve semana, confiando que os polinizadores não faltem à chamada: eis uma possível descrição desta misteriosa asterácea com folhas que lembram vagamente as do rabanete, moradora de plantações florestais e de bosques de carvalho-negral a norte de Bragança. As brácteas involucrais douradas, imbricadas como as telhas de uma casa, denunciam o parentesco com duas outras compostas de floração também efémera: a Leuzea conifera (= Rhaponticum coniferum), habitante de substratos calcários secos, presente no Algarve, no Centro-Oeste e em três ou quatro lugares de Trás-os-Montes; e a Leuzea longifolia (= Rhaponticum longifolium), endémica do litoral português que surge (muito raramente) em solos húmidos siliciosos ou arenosos.

Apesar de ser mais bonito e mais fácil de pronunciar, o nome genérico Leuzea foi, por força dos estudos filogenéticos, substituído por Rhaponticum. Esses estudos ditaram a fusão dos dois géneros; e, por prevalecer o critério da antiguidade, foi conservado o nome Rhaponticum e descartado o de Leuzea. Talvez a culpa de toda esta instabilidade nomenclatural se deva a Shakespeare e à famosa citação A rose by any other name would smell as sweet. Por muito arrevesados que sejam os nomes que lhes dêem, as plantas nunca deixarão de ser o que são.

O Rhaponticum exaltatum, com os 140 cm de altura que por vezes atinge, é o mais avantajado entre os seus congéneres portugueses, como aliás parece proclamar o seu orgulhoso epíteto específico. É também o mais raro. Em 1889, Joaquim de Mariz, botânico da Universidade de Coimbra, reportou a sua existência nas cercanias de Vimioso, em Trás-os-Montes, nos seguintes termos: «Nos terrenos incultos dos outeiros e por entre as azinheiras e outros arbustos crescem plantas muito apreciáveis, tais como o Lilium martagon, o Orobus niger, o Lathyrus latifolius, uma variedade da Armeria allioides, o Geranium sanguineum, a Inula salicina e a Leuzea rhaponticoides, espécie insigne e nova para a flora portuguesa.» (Uma excursão botânica em Trás-os-Montes, Boletim da Sociedade Broteriana, vol. VII, 1889, pp 3-34). A planta voltou a ser colhida na mesma localidade pelo Padre Miranda Lopes (1872-1942), mas desde essa época nunca mais lá foi vista. Nos anos 90 do século passado, Carlos Aguiar reencontrou-a perto de Rio de Onor, e hoje em dia, no nosso país, ela parece estar confinada ao limite nordeste do Parque Natural de Montesinho. No resto da Península Ibérica (e da Europa), a espécie é apenas conhecida na serra de Gredos, onde aliás é bem mais numerosa. Sabe-se ainda que ocorre em Marrocos.

Além das plausíveis ameaças que afectam uma população escassa, como a herbivoria ou, no outro prato da balança, o adensamento da vegetação arbustiva, o Rhaponticum exaltatum sofre, no nosso país, de óbvias dificuldades de reprodução. Vimos, em vários pontos separados por um ou dois quilómetros, largas dezenas de plantas só com folhas basais. Plantas com haste floral só avistámos cinco, muito distanciadas umas das outras. Mesmo que a planta pratique a autogamia, tão débil estratégia reprodutiva mais parece um suicídio a prazo. Oxalá este tenha sido um mau ano, e em anos mais favoráveis a percentagem de indivíduos em flor seja mais razoável. Em qualquer caso, é inteiramente apropriado que, na Lista Vermelha da Flora de Portugal, o Rhaponticum exaltatum tenha sido considerado Em Perigo Crítico.

17/04/2019

Histórias da Lista Vermelha: Senecio bayonnensis

Senecio bayonnensis Boiss. [sinónimo: Senecio nemorensis subps. bayonnensis (Boiss.) Nyman]


Há plantas que passam despercebidas pela sua pequenez ou pela modéstia das suas flores, mas desta erva-loira (como é uso chamarmos às compostas do género Senecio), capaz de ultrapassar a altura de um adulto e senhora de uma floração exuberante, dir-se-ia que o mais difícil é não a ver. No entanto, quando em Julho de 2018 o biólogo Paulo Pereira, membro da equipa da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a encontrou em Castro Daire, foi a primeira vez que alguém por cá a observou a sul do Douro. Até então, a planta só era (mal) conhecida nos arredores da aldeia de Alcobaça, em Melgaço, no extremo norte do país. E o que se encontrou não foram dois ou três exemplares refugiados num esconso só acessível por maus ou inexistentes caminhos. Entre as aldeias de Almofala e Bustelo, um rio Varosa ainda na infância, vigiado por uma estrada que lhe acompanha as voltas, serpenteia tranquilamente no seu planalto à sombra de freixos e amieiros, rodeado por lameiros e cultivos. Nenhum pescador (se houver que pescar, e se a pesca for autorizada) terá dificuldade em escolher nas suas margens poiso que lhe agrade. Quem diria que um rio assim plácido se prepara (ou preparava, quando não havia barragens) para uma descida tumultuosa até ao Douro? Pois é nesse troço manso do rio, ao longo de quase dois quilómetros, que este Senecio bayonnensis vai aparecendo com infalível regularidade, aqui e ali aproveitando algum abandono dos campos para reforçar um contingente que atinge as centenas de exemplares. Há que dizê-lo: plantas deste tamanho às centenas vêem-se demasiado bem. Como é possível que até 2018 ninguém tenha dado por elas?

Portugal sempre teve um défice de naturalistas - ou seja, de pessoas que, à paixão esclarecida (passe o paradoxo) pelas coisas da natureza, aliem o interesse em conhecer o seu país; pessoas que não se fiquem pelo deslumbre fácil com a paisagem e sejam capazes de nomear os elementos que a compõem. Os locais mais atraentes (Gerês, Estrela, Algarve, vale do Douro) ou mais acessíveis (faixa litoral do país) do nosso território monopolizaram durante muitas décadas o interesse dos profissionais, e o resultado é que sobram ainda vastas parcelas por explorar e segredos por descobrir. Mas os profissionais não chegam para as encomendas, e na maioria dos países civilizados o conhecimento detalhado da distribuição dos "valores naturais" depende sobretudo do contributo de amadores. Em Portugal, portais como o Flora-On têm-nos vindo a aproximar a passos largos dessa salutar meta.

A julgar por tão eloquente amostra, é de supor que o maciço de Montemuro seja dessas parcelas do país que os botânicos (profissionais ou amadores) esqueceram - ou, se não esqueceram, terão explorado de forma pouco sistemática. A juntar a essa razão geral há uma questão prática: mesmo uma planta tão conspícua como o Senecio bayonnensis pode não ser avistada se não passarmos por ela na época certa; neste caso, entre Julho e Agosto, quando está em flor.

Na Alcobaça de Melgaço não há mosteiro, mas um rio, de seu nome Trancoso, que, apesar de estreito e com menos de dez quilómetros de extensão, tem a glória de ser 100% internacional, assegurando a fronteira entre o Minho e a Galiza ao longo de todo o seu percurso. É nas margens do rio, e também na orla dos campos e bermas de caminhos em redor da aldeia, que se concentra a população nortenha do Senecio bayonnensis. Foi nessa mesma Alcobaça que Gonçalo Sampaio viu e colheu a planta em 1919, e é uma boa notícia que um século depois a população se mostre tão vigorosa. Curiosamente, no mesmo concelho de Melgaço, dois ou três quilómetros a sul, já dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, vegeta a única população portuguesa de uma outra erva-loira de grande porte, o Senecio doria. As duas plantas distinguem-se facilmente pelas folhas: de margens inteiras e quase todas basais no S. doria, de margens dentadas e distribuídas de alto a baixo do caule no S. bayonensis.

Apesar de a existência destas espécies no nosso país estar documentada desde os tempos de Sampaio, não tem sido pequena a confusão à volta delas. João do Amaral Franco (Nova Flora de Portugal, vol. II, 1984) nega a ocorrência de S. doria em Melgaço e afirma que só a outra erva-loira, a que ele chama S. nemorensis subsp. fuchsii, está presente em Portugal. São dois os erros cometido por Franco; o segundo deles (o nome atribuído à planta) tem sido reproduzido por muitos autores e foi incorporado na Checklist da Flora de Portugal publicada em 2010. A obra Flora Europaea (de que a de Franco é uma tradução adaptada) reconhece, no seu vol. IV (1976), duas subespécies de S. nemorensis: a subsp. nemorensis e a subsp. fuchsii. Uma observação atenta não deixa dúvidas de que as plantas presentes no nosso país apresentam caracteres morfológicos mais próprios da subespécie nominal do que da subsp. fuchsii (as brácteas suplementares são tão ou mais compridas do que o invólucro; as folhas são largas, com uma relação comprimento-largura muito inferior ao valor 5-7 indicado para a subsp. fuchsii; e a parte superior dos caules é pubescente). É pois de crer que Franco, ao decretar que o que há em Portugal é a subs. fuchsii, nem sequer cuidou de examinar os exemplares de herbário.

Entretanto, houve alguma evolução no tratamento taxonómico do S. nemorensis e espécies aparentadas. O nome actualmente aceite para a planta que ocorre na Península Ibérica (e que é um quase-endemismo ibérico, existindo em França apenas na região de Baiona) é Senecio nemorensis subps. bayonnensis, que alguns preferem tratar como espécie autónoma sob o nome de Senecio bayonnensis. (Na Flora Europaea, S. nemorensis subps. bayonnensis é considerado sinónimo de S. nemorensis subps. nemorensis.)

Mesmo com a descoberta da população de Casto Daire, esta erva-loira continua a ser extremamente rara e vulnerável em Portugal. À luz dos critérios da UICN, a equipa da Lista Vermelha considera que esta espécie está "Em Perigo". Independentemente do nome e do estatuto taxonómico que se lhe atribua, é merecedora do mais alto grau de protecção.