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01/09/2026

Erva-loira do padre Lopez

Senecio lopezii Boiss.


Chamamos ervas-loiras aos malmequeres espigadotes, de capítulos totalmente amarelos, incluídos no género Senecio. São a sóbria e elegante resposta europeia aos espalhafatosos girassóis americanos. Temos por cá algumas ervas-loiras muito airosas: S. bayonnensis e S. legionensis no extremo norte do país; S. lusitanicus em algumas serras calcárias do litoral centro; S. pyrenaicus na serra da Estrela; e, por fim, Senecio lopezii, de que hoje nos ocupamos, na serra de Monchique.

Se estas tão apreciadas ervas-loiras fazem parte da flora portuguesa, por que razão o leitor nunca deparou com elas nas suas deambulações de fim-de-semana por montes e vales do nosso país? É que, por azar — e também pelo contributo que certas práticas vêm dando ao depauperamento do nosso património natural —, todas elas são muito raras. Na Lista Vermelha da Flora de Portugal Continental, duas foram avaliadas como vulneráveis, e as restantes três, incluindo a erva-loira de Monchique, como ameaçadas. Estima-se que o contingente português desta última não ultrapasse as quatro centenas de exemplares, sofrendo com a degradação do habitat associado à expansão dos eucaliptais e à presença de espécies infestantes, e até com a destruição pura e simples imposta pela limpeza regular dos taludes de estrada.

Não foi em Monchique, mas sim numa clareira de um sobreiral em Algeciras, no sul de Espanha, que encontrámos o Senecio lopezii. Era o princípio de Abril e tudo estava fresco, as águas de um rio próximo — há muitos rios em Algeciras — corriam abundantes, e a erva-loira de Monchique, expatriada em Algeciras, tinha acabado de abrir os seus grandes capítulos. O adjectivo grande é, neste caso, bem empregado: com 5,5 cm de diâmetro, são dos maiores do género Senecio, e foram eles que nos captaram a atenção quando avistámos um grupo destas plantas a uma centena de metros de distância. As folhas basais compridas e lustrosas, e o porte erecto, ultrapassando um metro de altura, completavam a lista de atractivos do Senecio lopezii tal como ele nos apareceu nessa tarde de Abril. Um encontro feliz mas agridoce com uma erva-loira que também é nossa mas nunca pudemos ver em Portugal.

15/07/2026

De Cádiz a Málaga, à boleia das boninas

Los Alcornocales, Algeciras
Tratadas com desdém e perseguidas com afinco: essa é a vida das boninas (Bellis perennis) nos relvados dos nossos jardins públicos ou privados. Acreditam elas, as ingénuas, que a visão de um relvado pontilhado por malmequeres só nos pode alegrar. Bom, talvez alegre certas boas almas, mas não aquelas que supervisionam, com rigidez burocrática e sentido estético embotado, os chamados espaços verdes — espaços onde o verde é apenas contingente e as plantas formam uma massa indiferenciada cujo crescimento é preciso combater. Ainda assim, as boninas nunca desistem, assim como nunca desistem outras flores de surgimento efémero que aproveitam as curtas semanas de intervalo entre dois cortes rasos.

Da cidade para o campo, as boninas não deixam de nos acompanhar. Contudo, a B. perennis, de apetências mais urbanas, é em geral substituída por uma espécie mais vocacionada para espaços naturais, justamente chamada B. sylvestris. A mesma arquitectura básica — uma roseta compacta de folhas de onde saem escapos rematados por um único capítulo — é partilhada pelas duas espécies, mas a B. sylvestris costuma ter capítulos maiores e folhas mais alongadas e estreitas. Como tira-teimas, podemos desenterrar a planta: a B. perennis, ao contrário da B. sylvestris, é estolhosa, com várias rosetas unidas por caules subterrâneos. E as duas espécies também se diferenciam pelos aquénios: os da B. sylvestris (pelos menos os da subespécie pappulosa, prevalecente em Portugal) são encimados por um penacho, que está ausente na B. perennis.

Bellis cordifolia (Kunze) Willk.


E sobre boninas estaríamos conversados. Conhecíamos, claro está, outras espécies de Bellis em nada confundíveis com estas duas espécies irmãs, como a açoriana B. azorica e a sulista (e minúscula) B. annua. Mas a nossa visita a Algeciras em Abril deste ano ensinou-nos que as boninas são assunto mais vasto e intricado do que julgávamos; e, de surpresa, elas ganharam a nossos olhos um interesse renovado. O primeiro episódio foi termos deparado, num dos extensíssimos sobreirais que formam o Parque Natural Los Alcornocales, com umas boninas de folhas grandes e arredondadas, distintamente cordiformes. Eram boninas indiscutíveis, mas as folhas destoavam. Convocada a prestar esclarecimentos, a Flora Iberica não se vez rogada, e de pronto identificou a descoberta como sendo a Bellis cordifolia (acima ilustrada), endémica dessa região da província de Cádiz.

Encantados por uma planta que nos era familiar se ter transmudado em raridade de distribuição restrita, passámos a olhar as boninas com mais atenção. A dada altura já não diríamos que a Bellis cordifolia fosse assim tão rara, pois na Sierra Bermeja, já na província de Málaga, ela parecia surgir com regularidade. Ter-se-ia a Flora Iberica equivocado? Observando com atenção as folhas das plantas de Málaga (fotos em baixo), constatamos que elas, apesar de muito largas, não são de facto cordiformes, ou são-no em grau muito menor que as de Algeciras. A Flora Iberica é da opinião que plantas como esta da Sierra Bermeja, apesar de poderem confundir-se com a B. cordifolia, se situam num extremo de variação da B. sylvestris subsp. pappulosa.

Talvez a história não se fique por aqui. Mesmo com os estudos moleculares, a taxonomia não é ainda uma ciência exacta, e entre os botânicos há, como sempre houve, opiniões divergentes sobre como valorizar certas discrepâncias morfológicas. A verdade é que custa a crer que as plantas de Málaga, de folhas tão diferentes, encaixem na mesma espécie e subespécie que a vulgar B. sylvestris dos nossos montes.

Bellis sylvestris subsp pappulosa (DC.) Coste

06/05/2026

Launaea dos desertos

Almeria: antiga estrada, habitat de Launaea lanifera
É impossível visitar as ilhas Canárias orientais e não notar como uma planta arbustiva espinhosa que parece palha-de-aço, a Launaea arborescens, cobre grandes extensões de solo pedregoso, de resto quase despido de vegetação. A mesma planta surge com assiduidade nas demais ilhas do arquipélago, mas é em Lanzarote e Fuerteventura que a sua omnipresença, amiúde como represen­tante única do reino vegetal, se torna frustante para quem busque alguma diversidade.

Como em tudo, o problema está no excesso. Quando reencontramos o mesmo arbusto em quantidades moderadas no deserto de Tabernas, no sul de Espanha, conseguimos por fim perceber como ele é bonito. E, tendo visitado as Baleares e travado conhecimento com a Launaea cervicornis, uma das célebres almafodilhas (ou coxins) do litoral de Menorca, percebemos que o género Launaea, especializado em ambientes agrestes (desertos, dunas, rochas costeiras), é dos mais interessantes da flora espanhola. Por estar presente tanto no território continental como nos dois mais importantes arquipélagos do país vizinho, pode mesmo funcionar como símbolo de união entre as diversas comunidades autónomas.

Com as duas espécies de Launaea que hoje mostramos, ficam a faltar-nos apenas três pequenas herbáceas (L. pumila, L. fragilis e L. mucronata) para completarmos a colecção das espécies espanholas do género. Que, diga-se, não são apenas espanholas: à excepção da L. cervicornis, endémica das Baleares, todas elas ocorrem também nos países do norte de África.

Launaea lanifera Pau


A Launaea lanifera (em cima) e a Launaea nudicaulis (em baixo) podem assumir, em exemplares bem desenvolvidos, a aparência de pequenos arbustos (raramente excedendo os 50 cm de altura), mas na verdade ambas apresentam hastes de textura herbácea, a que a ramificação profusa dá um ar agressivo. A forma das folhas, quase todas basais, permite sem dificuldade distinguir as duas espécies: mais estreitas e alongadas as da L. lanifera; com lobos maiores e margens claramente serrilhadas as da L. nudicaulis. Quem quiser munir-se de lupa e de paciência, poderá verificar que, na primeira delas, as axilas das folhas e a base das hastes estão revestidas por um indumento lanuginoso, o que explica o epíteto lanifera aplicado a uma planta que, à primeira vista, se diria glabra. Das duas espécies, a L. lanifera é, em regra, a que forma moitas mais nutridas e apresenta ramificação mais densa.

A L. nudicaulis, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta muito viajada: a sua presença na Península Ibérica é tangencial (fica-se pelo sudeste de Espanha), mas de resto ocorre em todas as ilhas Canárias, em toda a faixa sul do Mediterrâneo, e desde a Península Arábica até à Índia. Por comparação, a L. lanifera, que vimos em Almeria e ocorre apenas no sul de Espanha, Marrocos e Argélia, tem uma distribuição algo restrita.

Launaea nudicaulis (L.) Hook. fil.

22/04/2026

Cardos do sul

Serra Nevada, Granada, Espanha
Quem se inicia na observação botânica costuma ter pouco apreço por cardos: porque os seus espinhos repelem o tacto, porque aparecem em terrenos baldios e em entulhos, porque a sua abundância os torna demasiado fáceis de encontrar. Em suma: os cardos são agressivos, não têm eira nem beira, e ainda por cima são muitos. Contudo, à medida que avança a nossa (sempre incompleta) familiaridade com o mundo vegetal, tendemos a desculpar esses presumíveis defeitos — até que compreendemos que não são na verdade defeitos, ou nem sequer correspondem à realidade.

Certas plantas cobrem-se de espinhos porque têm boas razões para o fazer: se fossem pitéu apetecível para todo e qualquer herbívoro, não chegariam a formar sementes, o que poderia conduzi-las rapidamente à extinção. Assim, os cardos integram o grupo das plantas que, por compreensíveis razões de sobrevivência, preferem não ser comidas indiscriminadamente. Como podemos nós censurar quem apenas se defende?

Mas não é certo que os cardos são uns vadios incorrigíveis? Que, quanto menos recomendável for o lugar onde se instalam, mais em casa eles se sentem? A resposta certa é “depende”. Muitas espécies de cardos são ruderais ou nitrófilas, significando isso que preferem lugares perturbados ou ricos em matéria orgânica como baldios urbanos, jardins abandonados, pastagens, campos cultivados ou pousios. Os rebanhos que não mordem os cardos para não magoar as gengivas ainda fazem o favor de lhes preparar a cama adubando generosamente o terreno. Existindo por todo o lado esses habitats alterados, não espanta que as plantas a eles adaptadas tenham desenvolvido o dom da ubiquidade. Os cardos que vemos nesses lugares são quase sempre os mesmos — no norte do país, Cirsium vulgare, Galactites tomentosus e Carduus tenuiflorus são as espécies mais comuns —, mas há cardos com exigências ecológicas mais refinadas e que, por isso, encontramos menos vezes. Alguns até podem ser raros e converter-se em objectos de desejo, daquele desejo tão humano de ver o que poucos viram.

Mostramos hoje dois desses cardos mais recatados, ambos fotografados no sul de Espanha, e ambos pertencentes ao género Carduus. Cardos aparentados com esses, embora não propriamente iguais, ocorrem em várias regiões de Portugal.

Carduus platypus subsp. granatensis (Willk.) Nyman


O C. platypus, que amiúde ultrapassa um metro de altura, é uma planta espinhosa, ramificada, com capítulos grandes, solitários em cada haste, guarnecidos por brácteas involucrais pendentes e caracteristicamente curvadas. Vive sobretudo em orlas de bosques e clareiras de matos, e dele se reconhecem duas subespécies: a nominal, existente na metade norte de Portugal e no centro-oeste de Espanha; e a subespécie granatensis (nas fotos), que vive no sul de Espanha e encontrámos algures na serra Nevada, a uns 1800 metros de altitude. As duas subespécies distinguem-se tanto pela forma do invólucro (a subsp. granatensis tem brácteas involucrais menos proeminentes) como pela presença ou ausência de pilosidade (na subsp. platypus o invólucro é glabro, mas na subsp. granatensis ele é revestido por pêlos aracnóides).

Carduus meonanthus subsp. valentinus (Boiss. & Reut.) Devesa & Talavera


Do C. meonanthus consideram-se igualmente duas subespécies: a subsp. meonanthus, moradora de dunas litorais, presente na costa atlântica andaluza e no cento e sul de Portugal; e a subsp. valentinus (nas fotos), que encontrámos no Cabo de Gata, restrita a elevações costeiras do sul de Espanha. A dificuldade, neste caso, não está em assinalar diferenças mas sim em apontar semelhanças, bastando um curto relance pelas fotos para reconhecer a improbabilidade de confundir as duas subespécies. A subsp. valentinus é ramificada (a outra não costuma sê-lo), e apresenta capítulos grandes e amiúde solitários (na subspécie nomimal os capítulos são pequenos, sésseis, e surgem agrupados em conjuntos de dois ou três). Originalmente, este cardo foi descrito, em 1856, pelo suiço Pierre Boissier e pelo francês George Reuter, como espécie autónoma, sob o nome de Carduus valentinus. Em 1975, João do Amaral Franco considerou-o como subespécie do C. bourgeanus, mas os espanhóis Juan Devesa e Salvador Talavera tiveram opinião diferente; e, na monografia que em 1981 estes autores publicaram sobre o género Carduus na Península Ibérica, subordinaram o C. valentinus, como subespécie, ao C. meonanthus. Atendendo às claras diferenças tanto na morfologia como nas preferências ecológicas, não parece haver grande justificação para amalgamar as duas espécies. Esperemos que os estudos filogenéticos alguma vez tirem o assunto a limpo.

20/03/2026

Elogio da trivialidade

Dente-de-leão (Taraxacum sp.)
(fotografado à beira-rio em Amarante)
Deveríamos estar gratos às flores que aparecem sem serem chamadas, alegrando os recantos que o nosso desmazelo abandonou, ou atenuando a artificialidade da paisagem urbana. Agora que é época dos dentes-de-leão, é vê-los irreprimíveis a florir em caldeiras de árvores, fendas de calçadas e jardins descuidados. Só uma teimosa cegueira, reforçada pelo hábito de desprezar o que é vulgar, explica não serem eles reconhecidos como mais belos e úteis do que a maioria das plantas que acarinhamos como ornamentais. E em Portugal, onde os jardins públicos deixaram de ter jardineiros para caírem nas mãos de implacáveis destroçadores de plantas, ainda menos se entende a perseguição movida a dentes-de-leão, boninas, e demais flores voluntariosas. De modo nenhum elas tiram espaço às flores cultivadas, já que nada se cultiva nos bisonhos relvados em que os jardins se transformaram.

Não é só nas cidades que proliferam os dentes-de-leão. Neste prelúdio de Primavera, muitas são as compostas de flores amarelas que se espalham por campos, bermas de estrada, ladeiras e valetas. Mesmo que a abundância e ubiquidade as façam parecer triviais, cada uma delas, se observada com atenção, revela pormenores sedutores e inesperados: o recorte das folhas e o modo como elas se organizam; os capítulos perfeitamente simétricos que, em vez de serem uma flor só, são uma multidão de minúsculas flores.

Para ilustrar esta dissertação, mostramos em seguida duas compostas de floração primaveril, ambas muito comuns nas Baleares (e em particular em Menorca, onde as fotografámos) mas inexistentes em Portugal — onde, porém, não faltam plantas de aspecto semelhante, amplamente distribuídas de norte a sul do país.

Hyoseris radiata L.


A primeira delas, Hyoseris radiata, é uma herbácea perene que coloniza fendas de rochas calcárias. As folhas com lóbulos imbricados fazem lembrar as dos dentes-de-leão (género Taraxacum), mas são mais estreitas e compridas, e com maior número de divisões. Os capítulos, um por cada haste, são pequenos, e os aquénios (frutos), ao contrário dos do dente-de-leão, não exibem aquela plumagem farta que permitia às crianças de outrora averiguar com um sopro se o pai da coleguinha era ou não careca.

A Hyoseris radiata distribui-se pelo Mediterrâneo ocidental, desde Espanha aos Balcãs, e desde Marrocos à Tunísia. Em Portugal, a representante única do género é Hyoseris scabra, uma diminuta planta anual com floração pouco vistosa.

Hypochaeris achyrophorus L.


A segunda composta de hoje trazida de Menorca, Hypochaeris achyrophorus, goza também de uma distribuição mediterrânica, se bem que mais oriental: está ausente da Península Ibérica e de Marrocos, mas estende-se até à Turquia, Líbia e Israel. Curiosamente, as duas representantes do género Hypochaeris em Portugal, que são H. glabra e H. radicata, apresentam hastes despidas, contrastando com as da H. achyrophorus, que são híspidas de alto a baixo. Além disso, esta última tem bracteas involucrais bem individualizadas, todas de igual comprimento (penúltima foto acima), ao passo que, nas outras duas espécies, se sobrepõem várias camadas de brácteas de diferentes comprimentos (confirme aqui). São diferenças tão marcantes que parece forçado incluir as três espécies no mesmo género. Isso mesmo entendeu a Flora Iberica ao emancipar a planta baleárica num género autónomo, justamente chamado Achyrophorus. Na área abrangida pela obra, a Flora Iberica distingue, além de Achyrophorus valdesii (sinónimo de H. achyrophorus), duas espécies adicionais, A. rutea e A. stuessy, ambas repartidas entre o sul da Espanha continental e o norte de África.

A Hypochaeris achyrophorus (ou Achyrophorus valdesii) é uma planta anual que frequenta prados, bermas de caminhos, campos cultivados e até, ocasionalmente, clareiras de bosques, sempre sobre substratos calcários. Quando, em Menorca, a vimos pela primeira vez, em Pas d'en Revull, uma passagem de sonho num desfiladeiro calcário, julgámo-la um raro tesouro botânico. Após sucessivos reencontros, compreendemos que, pelo menos nessa ilha, se tratava de um planta trivial — prova acabada de que a trivialidade não significa excesso nem exclui a beleza.

24/01/2026

Mar-me-queres



A costa de Menorca, uma das mais pequenas ilhas Baleares, não é toda feita de praias extensas de areia fina. Em alguns destes locais à beira-mar, o solo é arenoso e avermelhado, com inúmeros afloramentos rochosos de permeio. O vento e a maresia têm suavizado as arestas destas fragas, e criam nelas inúmeros nichos ondulados onde as plantas se refugiam dos excessos do clima mediterrânico e da influência marinha, sejam o calor e a secura extrema no Verão, a chuva intensa na estação fria ou o nível elevado de salinidade. Estes são lugares onde nem sempre é cómodo caminhar, e onde não se pode estender uma toalha para passar a tarde refastelado a bronzear a pele. Talvez por isso mesmo, são habitats bem conservados, que se destacam pela concentração invulgar de endemismos. As plantas que hoje vos mostramos são vizinhas num pedaço de costa pedregoso no norte de Menorca, onde predominam os solos ácidos, e florescem na Primavera.

Bellium bellidioides L.


Este malmequer é uma espécie endémica da região mediterrânica, havendo registos dela apenas nas ilhas Baleares, Córsega e Sardenha. É uma herbácea perene rasteira, de folhas inteiras com 2 a 5 cm de comprimento, que se estende frequentemente em tapetes densos pois também se propaga por estolhos. Prefere habitats húmidos e frescos, e tolera melhor uma exposição longa ao sol do que à geada. Entre Abril e Agosto, cobre-se de pequenos capítulos (um eficiente chapéu-de-sol que protege as rosetas de folhas) cujas lígulas brancas são rosadas na face inferior. As inflorescências lembram as margaridas do género Bellis, que florescem no Outono e Inverno — com excepção da linda Bellis azorica, cuja floração se inicia em Junho e não vai além de Setembro.

Anthemis maritima L.


Esta outra margarida é mais exuberante, além de aromática, rescendendo a camomila. As folhas são muito divididas e carnudas, adaptadas a ambientes litorais com solo pobre, e agrupam-se em formas compactas arredondadas que se resguardam, aninhadas nas rochas, contra o vento frio e seco que sopra na costa norte (a tramontana). Ocorre também no sul de Portugal continental, colonizando dunas secundárias e arribas rochosas.