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18/09/2025

Coxins de Menorca



Em Maio deste ano voltámos a Menorca com o propósito de ver socarrells em flor. Trata-se de um grupo heterogéneo de plantas que, face a um ambiente difícil de colonizar, adquiriram morfologias semelhantes por seguirem a mesma fórmula de sucesso: tornaram-se arbustos lenhosos em forma de coxim, de contorno mais ou menos arredondado, com talos tortuosos de pontas afiadas e ramagem intrincada e espinhosa. Em Menorca, este fenómeno curioso ocorreu com espécies que ocupam habitats secos e expostos do litoral, que o vento fustiga permanentemente e onde o solo é pedregoso e pouco firme. Para completar o carácter singular desta evolução, noutros locais mais acolhedores e estáveis, algumas destas plantas têm versões que são herbáceas ou trepadeiras não espinhosas.

Launaea cervicornis (Boiss.) Font Quer & Rothm.


A região mediterrânica é rica em espécies do género Launaea, mas esta é um endemismo das ilhas Baleares. Talvez seja o socarrell mais frequente dos que aqui mostraremos, ocorrendo em quase em todo o litoral de Menorca. Aninha-se sem dificuldade em fendas de rochedos calcários costeiros, e floresce abundantemente entre Maio e Julho.

Femeniasia balearica (J. J. Rodr.) Susanna


Este foi o socarrell mais difícil de encontrar. As fotos foram tiradas numa ladeira seca costeira, em Cala Mica. Além de rara, esta asterácea confunde-se, a um olhar desatento, com a anterior quando não está florida. É um endemismo de Menorca, e distingue-se pelos talos grossos e os espinhos agrupados em conjuntos de três. As flores, que surgem de Maio a Junho, parecem-se com as do género Centaurea. Com apenas uma excepção, os restantes socarrells de Menorca pertencem à família das leguminosas.

Anthyllis hystrix (Barceló) Cardona, J. Cont. & E. Sierra


Os coxins deste socarrell, com uns 60 cm de altura mas frequentemente muitos metros de largura, formam matos extensos, vistosos em Maio pelas flores amarelas que cobrem toda a planta. Habita fragas íngremes e rochedos em locais ventosos do litoral. É mais um endemismo de Menorca, fácil de encontrar na costa norte da ilha. A única espécie do género que ocorre em Portugal continental, Anthyllis vulneraria, é uma herbácea rasteira que surge em habitats muito diversos, desde orlas de bosques a areias litorais.

Astragalus balearicus Chater


Este socarrell é mais um endemismo das ilhas Baleares cujo período de floração também inclui Maio. A ramagem é densa, destacando-se nela espinhos erectos e ameaçadores. Prefere solo calcário e ocorre por vezes em matos cerrados. Nota-se alguma semelhança, no emaranhado de talos e na morfologia das flores, com o Astragalus tragacantha, das arribas calcárias do litoral sudoeste do Algarve.

Dorycnium fulgurans (Porta) Lassen


Este é decerto o socarrell mais surpreendente, e é também endémico do litoral das ilhas Baleares. Pertence ao mesmo género e tem fortes parecenças com a herbácea Dorycnium pentaphyllum, sobretudo pela ramagem, glauca e penugenta, e pelas flores brancas pequeninas. Distingue-se pelo arranjo em coxim, que lhe permite segurar-se ao chão mesmo sob forte ventania. O intervalo de floração destas duas espécies de Dorycnium é o mesmo (Abril a Junho) e ambas ocorrem em prados secos. No cabo Favaritx, onde a dose de vento é em geral generosa e persistente, há uma população notável desta forma bizarra de Dorycnium.

Smilax aspera var. balearica Willk.


A Smilax aspera var. balearica, praticamente sem folhas e com ramos grossos não trepadores, parece um engano de fabrico. A sua morfologia coincide em quase tudo com a da trepadeira Smilax aspera, que é assídua nos nossos bosques e é comummente conhecida como salsaparrilha. Contudo, os ramos secos que servem de espinhos e o arranjo almofadado são, de novo, indício de uma adaptação que permitiu a sua sobrevivência no litoral pedregoso de Menorca, onde é particularmente frequente em Punta Nati. Curiosamente, em Maiorca, a mesma variedade de Smilax também ocorre no interior da ilha.

30/08/2014

Salsaparrilha açoriana



A ilha do Pico é uma montanha jovem com cerca de 2350 metros de altura que parece dividida em três camadas. O primeiro anel, junto ao mar, tem praias de rocha ainda não erodida e é um terreno de inclinação suave pintalgado de telhados vermelhos, casas brancas e vinhas plantadas em resguardos com muros de pedra vulcânica. O topo, feito de rocha escura e quase sem vegetação, com um Piquinho engraçado onde neva no Inverno e se senta no Verão, por vezes, um boné de neblina, é tão alto que, sob criteriosa autorização da Direcção Regional do Ambiente, é possível ver dele o sol a nascer ou a pôr-se, muito mar, baleias e as outras ilhas. No anel do meio, verde e fresco, distinguem-se, se o cachecol de nuvens o permite, vastos prados de solo muito fértil, matos de rapa, vassoura, faia, pau-branco, azevinho e zimbro, e floresta laurissilva muito bem preservada. É este terço médio que nos interessa: é o refúgio de quase todas as plantas que vimos no Pico, algumas em populações abundantes a contrariar o avanço das hortênsias, rocas-da-velha e pitósporos que tanto afligem quem se preocupa com a conservação da flora endémica açoriana.


Smilax azorica H. Schaef. & P. Schoenfelder


A trepadeira Smilax azorica já se chamou Smilax canariensis, espécie que se julgava endémica da Madeira, de seis das ilhas dos Açores e três das ilhas Canárias. Os herbários indicam que foi colhida pela primeira vez por Masson em 1777 na ilha de São Miguel e descrita posteriormente por Watson em 1844. Contudo, em 2009, num artigo publicado pelo Instituto de Estudios Canarios, Hanno Schaefer e Peter Schoenfelder revelaram as conclusões de um estudo genético comparativo destas duas espécies, propondo que a Smilax açoriana se tornasse uma espécie independente, com a designação Smilax azorica. Para quem procura uma ou outra espécie, convirá saber que a S. canariensis é rara mesmo na Madeira; que a S. azorica não ocorre nas ilhas Graciosa, Flores e Corvo, não é fácil de encontrar nas ilhas do grupo central (no Faial só a vimos no Jardim Botânico, mas no Pico avistámos várias populações, com muitos frutos, em bosques de incenso e também em florestas naturais), e é algo mais frequente em São Miguel e Santa Maria. Os autores desse artigo elaboraram uma chave taxonómica para que não restem dúvidas, de que destacamos o facto de os frutos da S. azorica amadurecerem vermelhos como cerejas e os da S. canariensis serem de cor preta quando maduros.

Talvez a Smilax açoriana descenda da S. canariensis, e esta de plantas asiáticas, mas essa árvore genealógica está ainda por comprovar. A única irmã destas Smilax que ocorre, aliás com uma distribuição ampla, na Península Ibérica é a S. aspera, de folhas sagitadas coriáceas com margens espinhosas, cujos frutos amadurecem negros. São todas plantas dióicas e de folhagem perene.

29/09/2009

Salsaparrilha


Smilax aspera L.

Quando em Julho vimos esta trepadeira, a folhagem pareceu-nos de uma Convolvulaceae. Não estava na época de floração, que, sabemos agora, vai de Agosto a Outubro, por isso esperámos por um reencontro que nos elucidasse. É raro, porque exige em geral meses de vigilância e uma disponibilidade que não temos, conseguirmos assistir a todas as etapas da vida anual de uma planta; mas é isso o que, neste caso feliz, as fotos, obtidas numa mesma tarde de Setembro, documentam.

Ao centro está um pé masculino com umbelas de 5-20 flores minúsculas de 6 estames proeminentes. À direita vê-se um pé feminino, perfumado, que no bosque se enroscava sedutoramente no anterior. Nesta imagem pode também notar as duas gavinhas que nascem na base de cada folha. À esquerda retrata-se um cacho de bagas, que serão pretas quando amadurecerem.

A Smilax aspera leva uma vida caprichosa, experimentando vários formatos para as folhas, mais ou menos sagitadas, de base cordiforme com um veio central - ou vários paralelos e em palma - e margens adornadas por minúsculos espinhos aduncos que ajudam na escalada, ou não. Os botânicos têm acompanhado esta volubilidade com igual aprumo: o género Smilax pertenceu à família Liliaceae mas foi recentemente alojado, com mais dois géneros, numa família à parte, Smilacaceae, pequena, com apenas 370 espécies de trepadeiras rizomatosas, 3 das quais da Europa mediterrânica.

A salsaparrilha gosta de bosques cerrados de regiões temperadas ou subtropicais. Os rizomas e as raízes são aromáticos e contêm ingredientes depurativos; a S. medica Schltdl & Cham. e a S. officinalis Kunth têm mesmo uso medicinal. Os frutos não são comestíveis, ao contrário do que asseveraram Dioscórides e Plínio; a planta apresenta um grau respeitável de toxicidade.

A palavra salsaparrilha deriva da castelhana zarzaparrilla. Esta compõe-se de zarza (em português sarça, isto é, silva), aludindo aos espinhos que lembram os das silvas (Rubus sp.), e parrilla, de parra (de uvas ou bagas). Teremos dito outrora sarçaparrilha, mas a erosão do uso levou-a ao som mais liso de salsa, e «o vocábulo azulou»*.

* Carlos Drummond de Andrade, As palavras que ninguém diz