17/05/2022

O problema da salsa

Petroselinum crispum (Mill.) Fuss


A cozinha popular portuguesa — aquela que é praticada nos restaurantes acessíveis a salários como os nossos, congelados vai para duas décadas — tem vindo gradualmente a prescindir de temperos e condimentos, bastando-lhe o sal para despachar a ração diária de fritos e grelhados. As ervas aromáticas vão sendo descartadas e caindo no esquecimento, prevalecendo talvez a ideia de que o seu uso iria adulterar o sabor natural dos alimentos. Presume-se assim que eles tenham algum sabor independente da preparação a que são sujeitos, e que ao comermos não buscamos o prazer da degustação mas sim o conhecimento de algo supostamente genuíno.

A salsa, essa erva que reputaríamos de indispensável em tantos cozinhados, também tem vindo a perder terreno. Durante algum tempo, abandonado o hábito de a usar como condimento, muitos restaurantes, porque continuavam a tê-la à mão e havia que dar-lhe utilidade, empregavam-na como enfeite. Não havia travessa de filetes de pescada ou de tripas que chegasse à mesa do comensal sem o sainete de um raminho de salsa. O cliente contemplava a salsa, não a achando particularmente bonita, e com um gesto rápido de talheres empurrava-a para a borda da travessa, onde ela permaneceria até que, terminada a refeição, toda a prataria regressasse à cozinha. Talvez sejam caluniosas as suspeitas de que o mesmo ramo de salsa, enquanto mantivesse o viço, regressava periodicamente às salas de refeições enfeitando travessas de sucessivos clientes, porque afinal nunca faltou salsa e, tratando-se de um produto barato, seria imperdoável tanta forretice.

O efeito ornamental da folha de salsa nunca foi convincente. Mesmo sem solicitarem aos clientes que preenchessem inquéritos de satisfação, os restaurantes acabaram por concluir que a salsa só por si era insuficiente para dar um toque de requinte e sofisticação estética aos pratos do dia. E houve a questão do IVA. Enquanto o governo não desceu a taxa aplicada às refeições, a margem de lucro dos restaurantes era tão apertada (a acreditar nas queixas dos proprietários) que até os ramalhetes de salsa encomendados à mercearia da esquina iriam desequilibrar as contas. O IVA acabou por descer, mas já não foi a tempo de salvar a salsa.

Esta situação é lamentável. Urge recuperar a salsa — assim como todos as ervas culinárias que vêm preguiçosamente sendo desprezadas — e, mais do que isso, dar-lhe oportunidade de se regenerar, usando-a como verdadeiro condimento e não como pífio adorno. Mesmo que os restaurantes persistam em desdenhá-la, podemos nós fazer bom uso dela nos nossos cozinhados caseiros. Não é preciso gastar um cêntimo nem dispor de um quintal doméstico onde cultivá-la, porque a planta cresce ao deus-dará pelo país fora e é só servimo-nos do que a natureza oferece.

Há apenas o óbice sério de o Petroselinum crispum (é esse o nome científico da salsa) ser uma umbelífera que um olho menos experimentado facilmente confunde com muitas outras plantas da mesma família, várias delas mortalmente venenosas (como a cicuta e o embude). Colher salsa na natureza sem estarmos treinados para reconhecer plantas silvestres é tão suicidário como colher cogumelos que não saibamos identificar. Quando colhemos salsa, devemos atender ao formato das folhas, à coloração das flores e, sobretudo, ao perfume característico que as folhas emitem ao esfregarmo-las com os dedos.

Cientes de todas estas cautelas, onde podemos afinal encontrar salsa silvestre? Devemos procurá-la no Verão, que é quando a planta floresce e mais fácil se torna de avistar. Tem alguma preferência, não exclusiva, por zonas costeiras, e nos Açores parece ser comum na faixa litoral de todas as ilhas, sobretudo na proximidade das povoações. Procurar salsa pode assim ser pretexto para desfrutar de bonitas paisagens junto ao mar como a que se vê nesta foto de São Miguel, captada no mesmo local onde as plantas que ilustram o texto foram fotografadas.

11/05/2022

Morgada dos canaviais

Com o fim da maioria das restrições à circulação, as nossas cidades reanimaram-se com turistas e com o comércio de produtos mais ou menos genuinamente portugueses. Curiosamente, parecem agora dominar as lojas de um só produto: a que só vende pastéis de nata, mornos e em embalagens de formato patenteado; a das latas de azeite e sardinha, com design arrojado, dispostas em carrosséis dourados; a do pão de farinha ancestral moída em mó de pedra; a dos peluches de baleias e vaquinhas açorianas, de igual tamanho; a dos ovos moles de Aveiro; a das carteiras em cortiça; a dos queijos com designação de origem protegida; ou a que só serve bombocas, o doce feito de uma cobertura fina de chocolate, recheio de marshmallow e uma bolachinha na base. Dir-se-ia que, com a falta de crianças no país, esta última seria uma aposta comercial sem sucesso. Mas não: a loja, pequena e forrada a caixas coloridas, está sempre com fila à porta — e todos sentimos uma pontada de inveja daquela revoada de famílias estrangeiras com muitas crianças, afadigadas a coleccionar coisas boas mais ou menos portuguesas.

Vem este arrazoado a propósito da herbácea de cujas raízes se fazia antigamente o tal marshmallow, como lhe contámos aqui quando ainda não tinhamos visto a planta. Aqui está ela:

Althaea officinalis L.


Actualmente o marshmallow já não se faz com o suco retirado das raízes da Althaea officinalis (é gelatina + açúcar + corante) mas se, apesar disso, ainda quiser conhecer esta planta, pode fazê-lo a partir do meio de Junho nos canaviais e orlas de arrozais que acompanham o rio Pranto, pouco antes de ele se juntar ao Mondego, na Figueira da Foz. Atinge cerca de 2 metros de altura e mostrará então as flores, que são como as dos hibiscos, grandes e brancas com um centro púrpura. As folhas são aveludadas nas duas faces, mas duras, talvez para se defenderem do apetite voraz dos gafanhotos, que têm fama bíblica por comezainas sem pudor deste tipo de plantas em habitats húmidos da Ásia e norte de África. Tome nota: apesar de ser perene, no Outono esta herbácea murcha e já não estará em exibição.

03/05/2022

Pão & queijo ou açafate?



O santuário da montanha Cardón, junto do qual nos quedámos a admirar a esforçada e escassa floração da Spergularia fimbriata, é uma sala quadrangular escavada na rocha que podemos espreitar por entre as grades do postigo de uma rústica porta de ferro. Lá dentro vêem-se imagens de santos nas paredes, um pequeno altar onde pousa um relicário guarnecido com velas, flores artificiais que passam sem rega mas não sem espanador; cá fora alinham-se vasos de sardinheiras com garridas flores cor-de-rosa. O local é consagrado à Virgen del Tanquito e aberto em dias de romaria. Alimentado por manancial de água que, embora escasso, brota todo o ano, o tanquito é pouco menos que um milagre em ilha tão seca. Noutras épocas terá sido vital para os habitantes da ilha, e o culto mariano é o modo de exprimir a gratidão pela generosidade divina.

Lobularia canariensis subsp. marginata (Webb) L. Borgen


Com flores brancas que pouco se destacavam do fundo rochoso manchado por líquenes, uma outra planta nativa dava um ar de sua graça nas escarpas sobranceiras ao santuário. Denunciando nas flores de quatro pétalas a sua pertença à família das crucíferas (que inclui couves, rabanetes e mostardas), assemelhava-se fortemente ao nosso açafate-da-praia (Lobularia maritima), uma planta agradavelmente perfumada, espontânea em quase todo o litoral português, que floresce o ano inteiro — e que, por essas qualidades, é também cultivada em jardins. Por não estar a jeito de a cheirarmos, não pudemos saber se a planta que avistámos na montanha Cardón era igualmente olorosa, mas de resto é difícil apontar em que é que a Lobularia canariensis subsp. marginata (é esse o seu nome completo) se diferencia, à primeira vista, da Lobularia maritima europeia: hábito, folhas, flores e frutos — tudo parece quase idêntico. Asseveram os manuais que as plantas canarinas têm flores algo maiores e frutos com maior número de sementes (até quatro em vez de duas), mas não verificámos esses detalhes.

Paniqueso é o nome dado nas Canárias às plantas do género Lobularia — que são, em geral, herbáceas perenes de base lenhosa. A Lobularia canariensis não é exclusiva das Canárias: existe também em Cabo Verde e nas Selvagens. De facto, as plantas das Selvagens e de Cabo Verde pertencem a subespécies endémicas, distintas das que ocorrem nas Canárias, que também tem sortida amostra de subespécies próprias. A subsp. marginata (fotos acima) ocorre em Fuerteventura e Lanzarote; nas restantes ilhas estão assinaladas quatro subespécies adicionais, algumas delas claramente diferentes do nosso açafate-da-praia. A subsp. intermedia, ilustrada abaixo com fotos obtidas em Tenerife, é talvez a que tem personalidade mais vincada, apresentando flores de cor creme com pétalas estreitas e folhas quase lineares.

Lobularia canariensis subsp. intermedia (Webb) L. Borgen

25/04/2022

Sapinho fimbriado



A ilha de Fuerteventura tem uma espinha dorsal montanhosa que, por ser intermitente e de altura moderada, não representa obstáculo sério à deslocação entre a costa oriental, virada para África, e a costa ocidental aberta ao infinito azul. As estradas esquivam-se agilmente por vales e planícies, servindo o recorte das montanhas para proporcionar um horizonte menos monótono a quem por elas transite. Com poucas excepções, os cumes mais escarpados não têm acesso por estrada, e quem queira ascender a eles terá que se lançar em caminhadas que o calor e a falta de sombra podem tornar penosas. A montanha Cardón, erguendo-se acima dos 660 metros de altitude, está situada a sul da vila de Pájara, e é a última elevação importante antes do istmo arenoso que faz a ligação à península de Jandía. Subindo por um trilho não muito declivoso, são apenas dois quilómetros para chegarmos a uma pequena ermida encravada na vertente oeste da montanha, num lugar onde as paredes rochosas ressumam uma humidade permanente. É o toque de reunir para umas tantas plantas de outro modo incapazes de sobreviver à aridez das encostas circundantes. Até a avenca (Adiantum capillus-veneris), que tão bem conhecemos de muros e fontes em latitudes mais benignas, teve a arte e ousadia de aqui se instalar. A ela se juntam pequenas amostras de vegetação endémica, com destaque para o malmequer arbustivo Asteriscus sericeus e para a crucífera Crambe sventenii, nenhum dos dois com disposição para florir no período natalício, o da nossa visita a Fuerteventura. Lá em cima, na crista rochosa a que só chegaríamos, e com esforço redobrado, se tivéssemos tomado outro trilho, a cobertura vegetal anunciava-se mais rica — valeria bem a visita em época do ano mais propícia, mas desta vez reservámos todo o nosso fôlego para a subida ao pico da Zarza.

Spergularia fimbriata Boiss. & Reut.


Sapinho é o nome comum em português para as plantas do género Spergularia e outras com elas aparentadas. São plantas rasteiras, com folhas lineares, carnudas, e flores pequenas, de cinco pétalas, em tons que vão do branco ao rosa ou ao roxo. Em Portugal continental, a Spergularia purpurea é muito frequente em sítios secos e pedregosos, aparecendo até em caminhos e outros sítios pisoteados; em rochas de beira-mar, surge a S. rupicola (ou, se estivermos nos Açores, a S. azorica); em sapais e estuários, aparecem a S. media e a S. marina.

Embora preferíssemos ter encontrado maior variedade de plantas floridas, foi reconfortante que tenha sido um sapinho a dar um fugaz apontamento de cor à nossa subida à montanha Cardón. Com base lenhosa e flores de um rosa vivo, a Spergularia fimbriata distingue-se facilmente das suas congéneres com que estamos familiarizados, não deixando de ser óbvia a sua inscrição na mesma linhagem. Dessa vez vimos apenas um exemplar, mas é de supor que mais houvesse a altitudes mais elevadas, e atestando isso mesmo a planta novamente se deixou ver (não em flor) no pico da Zarza. É provável, assim, que em Fuerteventura a espécie se restrinja aos picos montanhosos, mas nas outras ilhas onde ocorre (Tenerife, Grã-Canária e Lanzarote) a sua ecologia diversifica-se, e a planta surge também em zonas de baixa altitude próximas da costa.

A S. fimbriata não é exclusiva das Canárias, pois tem presença reportada em Marrocos e na Península Ibérica. De facto, ela integra oficialmente a flora portuguesa, por ter sido, em várias ocasiões (todas remontando à década de 80 do século passado), encontrada nas Berlengas e na Ria Formosa. É de recear que esteja extinta no nosso país, mas, se não for esse o caso, talvez um controlo mais empenhado do chorão (Carpobrotus edulis) nas Berlengas possibilite o seu reaparecimento.

17/04/2022

Fim da estação

Cansado de perder suas folhas, o camaleão saiu de cima do outono.
Marina Colasanti, Hora de alimentar serpentes (Global Editora, 2013)

05/04/2022

A soagem que não quis crescer

Echium bonnetii Coincy


Os arquipélagos atlânticos das Canárias e da Madeira têm a fama de proporcionar às plantas com vergonha de serem pequenas as condições ideais para se tornarem grandes. O género Echium foi dos que melhor proveito souberam tirar desse programa de agigantamento; e, na era em que nos calhou viver, são às dezenas as espécies que dão testemunho desse sucesso: entre as nossos favoritas contam-se o Echium portosanctensis (do Porto Santo), o E. famarae (de Lanzarote e Fuerteventura) e o E. wildpretii (de Tenerife). Contudo, seja por azar, inabilidade ou espírito de contradição, há sempre quem fique para trás. Das muitas espécies de Echium endémicas das Canárias, há três ou quatro herbáceas que, na envergadura, não excedem a nossa vulgar soagem (Echium plantagineum), que tão profícua é a pintar de roxo os prados primaveris.

Presente em quatro ilhas (Tenerife, Grã-Canária, Lanzarote e Fuerteventura), o Echium bonnetii (nas fotos) é o mais disseminado representante dessa estirpe que não quis avantajar-se aos seus antepassados. Nas duas primeiras dessas ilhas ele até convive com o próprio Echium plantagineum; e, se as nossas fotos não fossem de Fuerteventura, um olhar menos atento poderia confundir a planta retratada com a soagem comum. De facto, as flores do E. bonneti, além de terem a corola mais densamente coberta de pêlos, são bastante menores do que as do E. plantagineum; e as folhas basais híspidas e lanceoladas do E. bonneti contrastam vivamente com as do E. plantagineum, que formam rosetas semelhantes às da tanchagem (Plantago major).

Nas condições desérticas de Fuerteventura, nenhuma planta prolifera a ponto de contrariar o castanho dominante com uma paleta alternativa de cores. Acresce que Dezembro, mês em que visitámos a ilha, não é o período de floração mais indicado para o Echium bonneti. Tivemos que nos contentar com dois ou três exemplares refugiados numa berma de estrada onde a humidade acumulada em ligeiras depressões de terreno encorajou uma variedade de plantas a florir precocemente.

30/03/2022

Joina da Zarza

O Pico de la Zarza, no Parque Natural de Jandía, é o mais alto em Fuerteventura, com cerca de 800 metros de altitude máxima. A lista de endemismos conhecidos que habitam o topo deste monte é notável, e por isso preparámo-nos para uma visita de um dia inteiro. Estávamos esperançados de lá encontrar humidade e ar fesco que bastassem a um prado verdejante com muitas plantas em flor. Um longo estradão, ondulante e pedregoso, conduz-nos desde Morro Jable até à crista. O olhar vai-se cansando na subida, sob um céu quente e sem nuvens, com a nossa atenção dividida entre as pedras escorregadias do caminho, a vegetação rasteira (composta predominantemente por Launaea arborescens e, mais acima, por uma eufórbia arbustiva e pelo endémico Asteriscus sericeus), a paisagem árida mas reminiscente de antigos rios, e o nível de água nos nossos cantis.



Como o percurso é famoso, somos acompanhados por inúmeros outros visitantes de boné, pingando suor, animados e muito faladores no início da caminhada, calados e poeirentos quando atingem a meia encosta, desunidos e surpreendentemente lestos na descida de regresso aos hotéis. Ultrapassam-nos na subida e cruzam-se novamente connosco ao retornarem porque o nosso passo é mais lento, atentos que vamos às plantas que vão surgindo. Subidos os últimos metros por uns degraus improvisados, estamos finalmente no cimo do pico. Uns tantos corvos pedinchões conversam com turistas, como se fossem papagaios, recebendo contentes restos de almoço. Mas não há nenhum prado, nem se vêem flores; só o mar ao longe e uma praia fabulosa na base do despenhadeiro.



A crista tem uma rede de protecção a que todos se agarram para espreitar melhor o precipício. Sem poder avançar mais, resta-nos tentar detectar nas paredes o perfil das plantas que vínhamos conhecer. E na vertente mais próxima estão afinal umas flores rosadas a espreitar para o lado de cá enquanto nós espreitamos para o lado de lá: são exemplares de um endemismo raro de Fuerteventura.

Ononis christii Bolle


O género Ononis conta nas Canárias com pelo menos 16 espécies, um quarto das quais só ocorrem nestas ilhas. Da O. christii, de flores axilares com estandarte listado de rosa e quilha branca, são conhecidas outras populações no Pico del Mocán, no Morro Cavadero e no Pico del Viento — elevações modestas na Península de Jandía. As plantas desta espécie têm um hábito decumbente, folhas redondas cobertas por uma penugem esbranquiçada e margens serradas. Segundo a magnífica flora ilustrada de T. Muer, H. Sauerbier e F. Cabrera Calixto, a O. christii floresce entre Março e Junho. As flores das fotos, de Dezembro, foram portanto um presente do Pico de la Zarza, em jeito de prémio pelo esforço da subida.

22/03/2022

Erva-pulgueira (com ou sem lã)



Como símbolo de resistência e de esperança, uma flor no deserto é mais eficaz se o encontro com ela for inesperado. Para quem estiver armado de experiência e conhecimento, e souber que o fenómeno nada tem de raro, a flor mais ou menos solitária não funciona como revelação, mas apenas como confirmação apaziguadora de que, no nosso planeta, a vida é a regra e nunca a excepção. A península de Jandía, no extremo sul de Fuerteventura, nunca há-de ter as suas planuras arenosas convertidas em prados floridos: a chuva aqui é desconhecida; e, mesmo que ela caísse, só uma cobertura vegetal rala poderia medrar neste terreno esquelético. Essa vegetação esparsa e rasteira já existe; e, entre as plantas que se adaptaram a condições tão agrestes, são especialmente vistosas estas asteráceas rasteiras com grandes capítulos dourados.

Pulicaria canariensis Bolle subsp. canariensis


O nome científico Pulicaria pode traduzir-se como erva-das-pulgas, o que sugere uma função (a de repelir esses desagradáveis insectos) que nem todas as espécies do género estão equipadas para cumprir. À Pulicaria canariensis, que é endémica das ilhas de Fuerteventura e de Lanzarote, basta-lhe ser bonita; ninguém pede que justifique a existência trabalhando em nosso proveito. É uma planta atarracada, que forma pequenas moitas, com hastes de 10 a 20 cm de altura rematadas por capítulos amarelos de 3 a 5 cm de diâmetro. As folhas são curtas, espatuladas, e toda a planta é coberta por uma penugem mais ou menos espessa. É aliás pelo grau de pilosidade que se diferenciam as duas subespécies que lhe são reconhecidas: a subespécie nominal (fotos em cima, tiradas em Fuerteventura), que ocorre em Fuerteventura e em Lanzarote, é menos tomentosa, e a planta é de cor verde; a subespécie lanata, que só existe em Lanzarote (onde as fotos em baixo foram obtidas), tem um indumento lanoso muito mais desenvolvido, o que dá à planta um tom esbranquiçado.

Pulicaria canariensis subsp. lanata (Font Quer & Svent.) Bramwell & G. Kunkel


Ver plantas tão agasalhadas em lugares tão quentes pode suscitar estranheza. Afinal, quando o calor é muito estamos habituar a despir agasalhos e a reduzir as vestes ao mínimo que a decência impõe. Mas os povos que vivem no deserto, em lugar de usarem trajes sumários, cobrem-se de mantas e capas que lhes tapam o corpo da cabeça aos pés. É a mesma sageza que leva plantas de deserto como esta Pulicaria a protegerem-se revestindo-se com uma espessa penugem: ao minimizarem as perdas de água por transpiração, estão mais aptas a sobreviver à secura impenitente. Mas que água? A que a penugem capta de nevoeiros e orvalhos, e que é depois conduzida sem desperdício às raízes pela folhagem em roseta.

16/03/2022

Cardón de Jandía

A ilha de Fuerteventura é a mais antiga do arquipélago das Canárias, com cerca de 22 milhões de anos. A idade destas ilhas diminui de este para oeste, tendo El Hierro apenas 1.2 milhões de anos. Por isso, talvez não seja ousado imaginar que Fuerteventura nos mostra o futuro das outras ilhas das Canárias. Fuerteventura também já foi verdejante, e teve picos altos e frescos, mas a chuva que agora por vezes ali cai flui sem uso para o oceano por não haver vegetação que a retenha. A erosão ao longo de milhões de anos aplanou a ilha, enquanto criava extensas dunas e praias de areia fininha, e arruinou a floresta de montanha, os rios e o solo fértil de outrora. Restam em Fuerteventura sobretudo plantas de porte baixo, resistentes ao calor e à secura; e vastas regiões áridas, habitadas por uma ou duas espécies de falsos cactos.

O primeiro exemplar que vimos de Euphorbia handiensis, endemismo da Península de Jandía, estava guardado por uma cabrinha. Mal afastámos o olhar, prosseguiu com o paciente mordiscar da base da planta. Julgámos, portanto, o caso mal parado. Mas não: logo depois surgiu uma montanha cheia de pés desta eufórbia, vigorosos e sem dentadas. Era Dezembro e não estavam em flor; fosse outro o mês, e o cenário seria o de um jardim, ainda que concebido por alguém que só gosta de uma planta.



Com essa idade e esse percurso geológico, não nos surpreende que haja vários endemismos exclusivos na flora de Fuerteventura. E que, por isso, quase todo o interior da ilha, feito de paisagens vulcânicas em tons avermelhados e cinzentos, seja área protegida. Estudos conduzidos recentemente mostram que nas ilhas Canárias (como aliás também nas açorianas) há uma percentagem elevada de endemismos, descendentes de plantas herbáceas do continente, que nas ilhas se tornaram espécies lenhosas. Afirma essa investigação ser garantido que o carácter lenhoso de pelo menos 220 espécies endémicas das Canárias se desenvolveu nas ilhas, após a colonização de locais muito secos, ventosos e com pouca água. E que as eufórbias, em particular as de Fuerteventura, são dos exemplos mais eloquentes deste processo de adaptação.

Euphorbia handiensis Burchard


Em Portugal, as eufórbias são herbáceas frágeis, várias delas dependentes da água nas margens de riachos. As excepções honrosas são a Euphorbia pedroi, com distribuição restrita às arribas marítimas do Cabo Espichel, as açorianas Euphorbia stygiana e Euphorbia santamariae, e as madeirenses Euphorbia piscatoria e Euphorbia mellifera. Nas ilhas Canárias, porém, são muitas as espécies arbustivas do género Euphorbia, e outras cuja morfologia lembra a dos cactos, reminiscentes de plantas do norte de África.

08/03/2022

Balancé das areias

Traganum moquinii Webb ex Moq.


Fuerteventura, a mais árida e mais africana das ilhas Canárias, parece ter sido concebida para estes tempos em que, para a maior parte da população ocidental, férias e lazer são sinónimos de praia. Até terá sido algo sobredimensionada, pois a ilha tem 100 km de uma ponta a outra e a costa é quase um areal ininterrupto. Nem no pico do Verão será preciso procurar muito para encontrar uma praia longe das multidões. Em alguns pontos as dunas penetram vários quilómetros pelo interior da ilha, mas talvez uma praia de onde o mar não se aviste seja insatisfatória mesmo para os veraneantes que só queiram tomar banhos de sol. Já não é praia, mas sim deserto — uma miniatura do Sara onde a solidão, em vez de convidar ao apaziguamento, nos enche de inquietude.

A vegetação das dunas, em Fuerteventura, não é uniforme, dependendo do grau de proximidade do mar e da maior ou menor consolidação do substrato arenoso. Há plantas que gostam de ser regularmente salpicadas pelas ondas e banhadas pelas marés (por exemplo, a Suaeda vera), outras que se mantêm distantes da linha de costa mas preferem as dunas fixas (como a Salsola vermiculata), e finalmente aquelas que vivem em dunas instáveis — às quais, na nossa latitude, chamaríamos dunas primárias, mas que em Fuerteventura podem estar a uma distância considerável do mar. Um exemplo desta última classe é o Traganum moquinii, que nas Canárias é conhecido como balancón, quem sabe se por viver sobre chão tão oscilante. Por sinal, as três plantas arbustivas que demos como exemplo pertencem todas à família Amaranthaceae (e integravam antes a família Chenopodiaceae), que é largamente dominante entre as comunidades vegetais de baixa altitude em Fuerteventura. As duas primeiras, porém, ocorrem também na Europa (e, em particular, em Portugal, sobretudo na metade sul), enquanto que o Traganum moquinii apenas está presente nas Canárias, em Cabo Verde e no litoral de Marrocos.

Arbusto rasteiro e muito ramificado, embora capaz, com a idade, de atingir 2 ou 3 metros de altura, o Traganum moquinii tem uma silhueta muito reconhecível quando se avista ao longe na crista das dunas. Mais ao perto, distingue-se pelas folhas suculentas, curtas, com ápice arredondado, dispostas em fascículos densos, e pelas flores diminutas, de cinco pétalas amarelas, que surgem aninhadas nas axilas das folhas.

03/03/2022

Cebolona albarrã



Esta é a imagem que retemos da chegada ao Barranco de Las Peñitas, em Fuerteventura. Por aqui já correu um rio, o Palmas, num desfiladeiro fundo ladeado por impressionantes taludes rochosos. Do rio e das suas águas pouco resta, para além do gigantesco paredão da albufeira que o aprisionava para que ele não fugisse para o mar sem antes ter alguma serventia. A impressão à entrada é, portanto, desoladora: um calor intenso no ar seco e sem brisa, nenhuma esperança de sombra, e um silêncio da passarada que nos avisa que o lugar é inóspito e que, se insistirmos em prosseguir a caminhada, o problema é nosso.

E lá fomos. Uns minutos depois cruzámo-nos com meia dúzia de pessoas, cansadas, suadas, de semblante carregado, rostos castanhos de poeira, sem sinal de regozijo. Mau sinal, pensámos. Dois passos adiante, porém, encontrámos as primeiras plantas que vínhamos ver, da espécie Volutaria bollei, endémica de Lanzarote e Fuerteventura. É certo que só havia plantas mirradinhas, mas ficámos contentes por saber que será possível noutra altura (entre Janeiro e Maio) vermo-las ali formosas e fresquinhas.

Animados, avançámos em direcção a um núcleo de palmeiras (Phoenix canariensis, muito vulgares em jardins portugueses), parte do que terá sido outrora um oásis de verdura. Apesar da sombra escassa, nos rochedos das margens notavam-se pequenas cavidades onde a temperatura era bastante mais amena. Encavalitados como cabritos, espreitámos. Começámos por ver inúmeros tufos de Cosentinea vellea, um feto de frondes peludinhas que aprecia fissuras de rochas em locais secos e soalheiros, e que suporta a desidratação por períodos prolongados. Isto está a correr bem, dissemos. Mais adiante, aconchegados à sombra de uma espécie muito comum nas Canárias, Launaea arborescens, havia também muitos pés de Caralluma burchardii, um endemismo canariense raro, da lista de espécies em perigo. Antes de descermos cautelosamente a encosta rochosa reparámos numa forma tubular roxa ondulante, escondida num desvão escorregadio e de difícil acesso — mas perfeitamente alcançável pelo fotógrafo destemido que ilustra este blogue.

Scilla latifolia Willd. [= Autonoe latifolia (Willd.) Speta]


Esta Scilla robusta, com inflorescências densas que lembram caudas de raposa, é nativa de Marrocos e das ilhas Canárias. Floresce no Outono, por isso foi uma sorte vê-la florida em Dezembro. Fortuna que parece ter bafejado apenas a nós, naquele dia de tantos visitantes ao Barranco de Las Peñitas.