28/01/2024

Artemísia das neves

A serra Nevada, na Andaluzia, é a cordilheira de montanhas mais elevada da Península Ibérica, com cerca de 3400 metros de altura. O isolamento, a altitude e a proximidade ao mar Mediterrânico transformaram-na num pote de endemismos, descendentes de plantas nórdicas que ali se refugiaram em épocas demasiado frias no planeta, e que de outro modo não teriam sobrevivido ao calor mediterrânico. Foi este ecossistema raro, que conjuga nichos variados, é favorecido por um clima ameno, é fonte de vários rios e mantém uma biodiversidade excepcional, que visitámos durante uma semana a meio de Julho do ano passado.



A viagem de carro desde o Porto até à serra Nevada é longa, de mais de oitocentos quilómetros, embora por boas estradas (portagens pagas em Portugal, claro, circulação grátis em Espanha). Por isso, houve que fazer uma pausa demorada em Arronches para degustar uma memorável sopa alentejana. Depois da sericaia com ameixas, retomámos o caminho até Granada, penando pela auto-estrada numa das mais graves ondas de calor que afligiram a região mediterrânica no Verão passado. A 3200 metros de altitude, porém, ainda se via gelo nos picos da serra, a temperatura rondava os 17ºC e um vento frio em redemoinho obrigou-nos a usar agasalhos polares.

O acesso aos pontos mais altos da serra (Mulhacén e Veleta) pode fazer-se a pé, mas a nossa lista de plantas a conhecer era extensa e não havia tempo a perder. Subimos, portanto, de teleférico, estrutura que serve de transporte no Verão a partir de 15 de Julho. A primeira impressão é a de que no topo da serra predominam zonas áridas de xisto, com grandes pedras sem vegetação. Mas é nas inúmeras fissuras dessas rochas laminadas que se aninham muitas herbáceas, regaladas com um microclima agradável, sem frio em excesso nem risco de insolação. Como esta espécie minúscula de Artemisia, género da família Asteraceae que conhecemos bem das dunas primárias das nossas praias.

Artemisia granatensis Boiss.


A Artemisia granatensis é una planta perene de pequeno porte (não mais de 20 cm de altura), endémica da serra Nevada, onde só ocorre acima dos 2000 metros. As inflorescências são arranjos densos de margaridas sem lígulas, em tons de amarelo e vermelho, no topo de hastes florais empinadas. Dizem as Floras que a raiz é robusta, fincando-se energicamente nas rochas. Esta artemísia é muito rara e difícil de encontrar na serra — e, apesar dos esforços em contrário, está à beira da extinção, tão perto de desaparecer como o lince ibérico. A culpa é repartida por vários protagonistas, por isso a espécie tem tanta dificuldade em se regenerar e em expandir as suas populações: a cabra montês, bicho voraz que pasta na alta montanha; as supostas virtudes medicinais que se atribuem a esta artemísia, o que levou outrora a uma colheita furtiva desenfreada de que a espécie ainda não recuperou; e, actualmente, os turistas e caminhantes que recolhem amostras das plantas mais icónicas da serra Nevada. Às cabras talvez consigamos desculpar a ignorância e a tolice.

17/01/2024

Serralha palmense

Sonchus palmensis (Webb) Boulos


Quem deseje vida próspera tem que deixar a sua terra e procurar melhores oportunidades em paragens distantes: eis uma verdade que as serralhas (género Sonchus) exemplificam de modo eloquente. As que se deixaram ficar no continente europeu (como estas: 1 & 2) são, na sua maioria, herbáceas anuais e sobrevivem amiúde em lugares degradados; raramente suscitam palavras de apreço mesmo pelos mais devotados amantes da natureza. Por contraste, as que migraram para os arquipélagos da Macaronésia (Canárias, Madeira e Cabo Verde) são muito de encher o olho e ninguém as contempla sem espanto: fizeram-se plantas perenes, engrossaram o caule até ele se tornar lenhoso, cresceram e ramificaram-se ao jeito de pequenas (e às vezes não tão pequenas) árvores, e coroaram o conjunto com abundantíssimos cachos de flores amarelas.

Em La Palma, o endémico Sonchus palmensis, capaz de atingir dois ou mesmo três metros de altura, é um digno representante dessa estirpe de serralhas gigantes. Fotografámo-lo numa berma de estrada, à saída de uma povoação na vertente leste da ilha, medrando entre funchos e outra vegetação ruderal. Não se tratava, devemos admiti-lo, de um habitat prestigioso, mas nos outros (numerosos) lugares onde o vimos, incluindo a laurissilva mais bem conservada, ele ainda não se apresentava florido no início de Maio.

Pela folhagem e pelo porte, e até pelas brácteas involucrais glabras e pelo tamanho dos capítulos florais, o Sonchus palmensis aproxima-se muito do endemismo madeirense Sonchus pinnatus. É tentadora a suposição de que um deles pode descender directamente do outro, ou de que são variantes da mesma espécie com pequenas diferenças morfológicas induzidas por milénios de separação. Na verdade, as coisas são mais complicadas. Num artigo de 2005 que se propõe deslindar as relações filogenéticas entre as mais de trinta espécies de Sonchus endémicas da Macaronésia (quatro da Madeira, uma de Cabo Verde, as restantes das Canárias), os autores concluem que as quatro espécies da Madeira (incluindo o Sonchus ustulatus, de pequeno tamanho e porte herbáceo) estão evolutivamente mais próximas entre si do que das suas congéneres canarinas. Há assim grande probabilidade de, no género Sonchus, o gigantismo e o hábito lenhoso se terem desenvolvido independentemente em cada um dos arquipélagos (e, em ilhas como Tenerife, em várias ocasiões distintas) a partir de antepassados herbáceos comuns. Fizeram-no em resposta a condições semelhantes de habitat: o ensombramento da laurissilva estimula as plantas a esticarem os caules em busca de luz; e as condições ambientais estáveis, sem grandes oscilações de temperatura ao longo do ano, tornam desnecessários períodos de dormência vegetativa, encorajando a formação de caules perenes e a sua eventual lenhificação.

11/01/2024

Dueto para trombetas



Falamos hoje de plantas do género Convolvulus. O nome vem-lhes da tendência para treparem, a poder de talos, por outras plantas acima. Não é o mesmo, entenda-se, que ser parasita. Apesar de tudo, gasta-se energia numa subida que, quando feita em hélice, enroscando os ramos em troncos alheios, exige também um controle das vertigens. Para as plantas trepadeiras, trata-se de aproveitar a estrutura e o espaço dos outros para aceder a mais horas de sol e, se preciso for, ensombrar integralmente quem serve de escada. Que haja uma palavra delicada, convolvulus, para descrever o ataque ao território de um vizinho, comprometendo a sua sobrevivência, mostra como a linguagem humana se amansou. Para condenar a barbárie, que ultimamente vem exibindo no mundo um arrojo desmesurado, já pouco vocabulário nos resta. Nem suspeitávamos que corríamos esse perigo.

Convolvulus canariensis L.


Na Península Ibérica conhecemos apenas uma espécie de Convolvulus que é arbustiva, com talos inferiores lenhosos e os superiores flexíveis: o Convolvulus fernandesii, com 20 a 60 cm de altura, endemismo do Cabo Espichel que vive em escarpas de arribas calcárias à beira mar. Há semelhanças morfológicas, mas não de habitat, entre esta corriola lenhosa e algumas espécies das Canárias, como o C. lopezsocasii, endemismo de Lanzarote cuja distribuição se restringe a ladeiras rochosas do Maciço de Famara (430-600m de altura), ou o C. canariensis (fotos acima), que aprecia os ares dos barrancos de montanha (400-1000m), e ocorre em El Hierro, La Palma, La Gomera, Tenerife e Grã-Canária. De facto, um artigo de 2004 da autoria de Mark Carine e outros confirma, com elevado grau de certeza, que o C. fernandesii se integra na linha evolutiva dos Convolvulus das Canárias, e é resultado de uma colonização recente do continente português a partir desse arquipélago.

A lista de endemismos do género Convolvulus nas Canárias que são parentes próximos do C. fernandesii é longa: há pelo menos nove, sem contarmos com subespécies, quase todos arbustivos. As próximas fotos, tiradas em Montes de Luna em La Palma, mostram uma subespécie do C. fruticulosus que essa ilha partilha com El Hierro e Tenerife. As flores dessa corriola, que habita encostas rochosas costeiras, são de cor violácea e nascem entre Março e Maio.

Convolvulus fruticulosus Desr. subsp. fruticulosus


Notem como as folhas são verde-acinzentadas, de pecíolo curto, e como toda a planta é muito penugenta. Desta espécie é conhecida outra subespécie no sul da Grã-Canária, uma trepadeira de folhas pegajosas e flores brancas de Inverno. Vendo bem, sobram poucos meses no ano (Outubro e Novembro) em que não há oficialmente corriolas floridas nas Canárias.

01/01/2024

Flores de Maio



As fotos de La Palma que aqui temos publicado são sobretudo das paisagens rochosas da caldeira de Taburiente ou das extensões desérticas do sul da ilha. Para dar uma ideia mais justa daquela que é, depois de La Gomera, a mais verdejante das ilhas Canárias, convém também mostrar a outra face de La Palma: a dos barrancos sombrios da vertente norte onde o til e o loureiro disputam a primazia, onde há paredões forrados de alto a baixo pelos mesmos grandes fetos (Woodwardia radicans e Diplazium caudatum) que vemos na laurissilva da Madeira, e onde não é raro ouvir a água correr. Há tempos mostrámos um aspecto do barranco de Los Tilos; hoje temos duas imagens do Cubo de La Galga. Nos dois lugares é possível caminhar muitos quilómetros sem nunca abandonarmos a sombra acolhedora das grandes árvores. Como bónus, podemos encontrar em flor, logo a partir de Maio (quando em Tenerife ela não floresce antes de Junho), uma cinerária de flores brancas, Pericallis appendiculata, que é das mais bonitas do seu género no arquipélago.

Pericallis appendiculata (L. f.) B. Nord.


São catorze as espécies de Pericallis nas Canárias, todas endémicas do arquipélago. A maioria é exclusiva de uma ilha só, mas a P. appendiculata está assinalada em cinco ilhas (Grã-Canária, Tenerife, La Palma, La Gomera e El Hierro), sempre no aconchego da laurissilva. É frequente em La Gomera e em Tenerife, escassa em La Palma, e rara na Grã-Canária e em El Hierro. Com base em diferenças pouco convincentes na folhagem, considerou-se que as plantas da Grã-Canária pertenceriam a uma variedade preauxiana, endémica da ilha, mas alguns dos exemplares que vimos em La Palma (fotos acima) apresentavam folhas indistinguíveis dos da Grã-Canária. Características da espécie, seja qual for a variedade, são as folhas longamente pecioladas, ovado-lanceoladas, com a face superior de um verde lustroso e a inferior branca e penugenta, e as inflorescências corimbosas, formadas por 5 a 30 capítulos com lígulas brancas e disco central amarelo.

Pericallis papyracea (DC.) B. Nord.


Uma segunda espécie de cinerária, essa endémica da ilha, ocorre em La Palma: trata-se da Pericallis papyracea, com capítulos rosados de centro roxo. É uma verdadeira planta todo-o-terreno, que aparece desde a costa até aos pinhais de altitude, não desdenhando bermas de estrada e orlas soalheiras da laurissilva. Vivaz e de textura herbácea, atinge um metro e meio de altura em condições favoráveis (1.ª foto acima), mas a sua versão costeira (2.ª foto) é de tal modo mais débil que dir-se-ia pertencer a outra espécie. Ainda que a tenhamos encontrado abundantemente florida, a cor desbotada da folhagem já denunciava o adiantado da época. Quando findasse Maio, com o Verão e o calor mesmo à porta, a planta já teria dado por encerradas as festividades do ano.