Mostrar mensagens com a etiqueta Canárias - La Palma. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Canárias - La Palma. Mostrar todas as mensagens

17/02/2025

Simplesmente branco

O branco, cor da pureza ou soma de todas as cores, é escolhido por muitas plantas para as suas flores. Não há inocência nem virgindade no gesto: o que elas querem é atrair polinizadores e ser fecundadas. Será possível correlacionar o sucesso reprodutivo com a cor das flores? É improvável. Se houvesse uma cor que suplantasse claramente as outras, então o processo evolutivo teria há muito determinado que essa fosse a única cor floral autorizada. Olhando à nossa volta, o amarelo parece ser dominante entre as plantas de floração hibernal, embora ele provenha em grande parte das exóticas (e daninhas) acácias e azedas. Mas também há malmequeres brancos que escolhem o Inverno para florir: por esta altura do ano, é o Chamaemelum fuscatum que cobre de branco os olivais de norte a sul do país. E quando chegar a Primavera juntar-se-ão à festa muitas outras cores, cada uma com os seus argumentos de sedução mas apostando forte no efeito do conjunto.

Visto do nosso cantinho europeu, o género Echium é pouco dado a variações de cor: à excepção do Echium boissieri, com flores de um branco leitoso, todas as espécies continentais portuguesas têm flores roxas ou azuis. Na Madeira, onde o género foi sujeito aos afamados processos insulares de agigantamento e lenhificação, as três espécies endémicas repartiram entre si as cores disponíveis: azul, roxo e branco. Mas no Echium portosanctensis, a quem coube a cor alva, o branco da corola é disfarçado pelo rosa dos estames proeminentes.

Foi nas Canárias que os Echium mais se diversificaram, tanto no hábito e envergadura das plantas como na coloração das flores. Para uma amostra incompleta de quão diversas podem ser estas boragináceas numa só ilha (neste caso a de La Palma), aconselha-se uma espreitadela a este texto. Além das cores aí ilustradas, há ainda, em Tenerife, o vermelho do tajinaste do Teide; e, distribuídos por diversas ilhas, encontram-se os massarocos de flor branca que são assunto do texto de hoje.

Echium simplex DC.


Quem mais se destaca entre eles é o Echium simplex, endemismo de Tenerife, restrito a zonas pedregosas de média e baixa altitude do maciço de Anaga, no nordeste da ilha. À semelhança do E. wildpretii e do E. perezii, o E. simplex apresenta um caule não ramificado (ou simples, como informa o epíteto) de dois a três metros de altura que emerge de uma grande roseta de folhas basais; e, tal como os outros dois, é uma planta monocárpica: cada indivíduo demora vários anos até florir, mas esse apogeu, marcado pela produção de assombrosa quantidade de sementes, assinala o seu fim.

Vítima das cabras assilvestradas que lhe devoram as rosetas, o Echium simplex tornou-se raro na sua área de distribuição natural. Um modo de acautelar a sua sobrevivência é o cultivo em jardins. O local onde moravam as plantas das fotos aí em cima era um jardim contaminado pela natureza: situando-se em Anaga, talvez as plantas tivessem lá ido parar por sua livre vontade; em todo o caso, já tinham extravasado o muro e cresciam junto ao caminho.

Echium aculeatum Poir.


Os outros dois massarocos de flor branca que temos para mostrar são arbustos lenhosos de médio porte. O Echium aculeatum é mais frequente em La Gomera, mas existe também em El Hierro, La Palma e Tenerife. As flores, que apresentam corola comprimida na base e cálice com lóbulos lineares muito alongados, concentram-se nas extremidades dos ramos, e têm efeito ornamental modesto. É pelas folhas que o Echium aculeatum mais facilmente se distingue de espécies próximas (como o E. leucophaeum): são coriáceas e têm as margens pontuadas por pêlos duros e híspidos; é a isso que se refere o epíteto aculeatum.

Echium bethencourtii A. Santos


O E. bethencourtii, endémico das escarpadas falésias do norte de La Palma, compensa o porte mais rasteiro com inflorescências cilíndricas vistosas, composta por flores bem abertas e destacadas dos cálices. As folhas são largas e desprovidas de acúleos agressivos. É uma planta que faria boa figura em jardins, e que só não é mais conhecida e cultivada porque, dentro do género a que pertence, a concorrência é muito forte.

30/05/2024

Super-margarida de La Palma



Quando os meios de locomoção eram rudimentares e as estradas inexistentes, uma ilha não precisava de se esforçar para ser grande. Mesmo que as distâncias medidas em linha recta — e são essas que os pássaros usam — não ultrapassassem dúzia e meia de quilómetros, se o caminho obrigasse a subidas e descidas por ladeiras íngremes, se cruzasse várias ribeiras de caudal impetuoso e zonas densamente florestadas, então ir de A para B poderia consumir todas as horas do dia ou ser totalmente impossível. Populações radicadas em extremos opostos de uma ilha tão pequena como as Flores (17 quilómetros de uma ponta a outra) poderiam viver uma vida inteira sem nunca se encontrarem. Para elas, o mundo desconhecido começava na própria ilha onde viviam, o que era um modo de ela ser infinita. Com as estradas que agora a rasgam, a ilha fez-se irremediavelmente pequena: quem a visita acha que a viu toda em poucas horas, e quem lá mora só quer sair para o vasto e variado mundo. São equívocos insanáveis, pois tudo é pequeno e insuficiente para quem é dominado por uma impaciência voraz.

As ilhas Canárias são, de um modo geral, bem maiores que as dos Açores. As maiores ilhas do arquipélago espanhol (Fuerteventura, Tenerife e Grã-Canária) têm, cada uma delas, uma área duas a três vezes superior à de São Miguel; apenas El Hierro, La Gomera e La Palma são ultrapassadas em área pela maior ilha açoriana. Contudo, a diferença entre La Palma e São Miguel é curta — 708 km2 contra 741 km2 — e há-de ser anulada quando se derem uma ou duas erupçõezitas adicionais. Quem ignore dados geográficos e visite ambas as ilhas terá a impressão de que La Palma é de longe a maior das duas, e esse é o resultado do planeamento engenhoso da rede viária. Em La Palma não há nada que se assemelhe a uma auto-estrada ou via rápida, os túneis são poucos e o traçado das estradas sujeita-se à orografia: ou elas serpenteiam preguiçosamente pelas curvas de nível, ou fazem-se à montanha sem que com isso consigam ser muito mais rectilíneas.

Gonospermum canariense Less. subsp. canariense


Foi por essa razão que a descoberta da super-margarida em flor quase nos fez perder o almoço. Subindo de Santa Cruz de La Palma ao Roque de Los Muchachos, e parando aqui e ali para umas fotos que tinham falhado na visita anterior, achámos que estaríamos sem problemas em Los Llanos à hora do repasto. Mas o trajecto escolhido tinha quase 100 km, apesar de a distância em linha recta entre as duas principais povoações da ilha ser apenas de 16 km. Entre paragens imprevistas e estradas percorridas com o vagar que a prudência impunha, o almoço já tardio acabou por ser num restaurante de berma de estrada (excelente, por sinal) a muitos quilómetros de Los Llanos. A detecção de exemplares floridos da super-margarida obrigou-nos a uma última paragem quando o atraso era já grande.

Dizemo-la super porque esta margarida, de nome científico Gonospermum canariense, é um arbusto lenhoso que pode chegar aos 2,5 m de altura; e o exemplar que nos obrigou à paragem de emergência era mesmo dessa envergadura. Já chamar-lhe margarida parece forçado, pois os capítulos das inflorescências são formados apenas por flósculos tubulares, desprovidos daquelas lígulas brancas que são apanágio das margaridas comuns. Sucede que o género Gonospermum, endémico das Canárias, inclui espécies com esse atributo, como o G. revolutum, endémico de Tenerife. Mesmo aqui na Europa há, entre as compostas, géneros que contam com espécies de inflorescências liguladas e com outras não liguladas (por exemplo, Anthemis arvensis e Anthemis canescens). E pode dar-se essa discrepância dentro da mesma espécie, por exemplo no Chamaemelum nobile.

Gonospermum canariense Less. subsp. canariense


Assim, a ausência de lígulas não impede este endemismo da ilha de La Palma, Gonospermum canariense, de pertencer ao clube das margaridas. Há, porém, uma divergência mais séria entre o G. canariense e o G. revolutum: o segundo não é de modo nenhum arbustivo; é uma planta herbácea vivaz, ainda que com base lenhosa. Usando apenas critérios morfológicos, as duas espécies dificilmente integrariam o mesmo género botânico — e, de facto, a planta tenerifenha chamou-se inicialmente Lugoa revoluta. Foi por culpa dos estudos moleculares que o género Gonospermum passou a abarcar esta Lugoa e ainda três margaridas endémicas da Grã-Canária (também liguladas) antes incluídas no género Tanacetum.

Contudo, a arrumação taxonómica destas margaridas canarinas não está ainda estabilizada. Naquele que parece ser o estudo mais recente sobre o assunto, datado de 2011, os autores defendem que, por razões filogenéticas, o género Gonospermum deveria ser incluído em Tanacetum. Uma alternativa, que os autores consideram pouco razoável, seria desmembrar o populoso género Tanacetum (com umas 160 espécies distribuídas pelo hemisfério norte) numa miríade de géneros morfologicamente mal caracterizados.

16/05/2024

Pinheirinho crespo



Antes do advento dos estudos genéticos e da revolução que o Angiosperm Phylogeny Group trouxe às árvores taxonómicas, o género Plantago, ainda que respeitado pela sua diversidade e cosmopolitismo (ocorre em todos os continentes e alberga duzentas espécies), não suscitava particular devoção da generalidade dos botânicos. Além de as espécies que o compõem terem inflorescências pouco chamativas, não lhe incrementa o prestígio que algumas delas (por exemplo, P. lanceolata, P. coronopus e P. major) sejam plantas ruderais muito comuns. Mas o mundo foi virado do avesso e a família Plantaginaceae — encabeçada, como é bom de ver, pelo género Plantago — absorveu uma mão-cheia de plantas vistosas e com uma firme legião de admiradores, como as linárias, as bocas-de-lobo e as dedaleiras, todas elas anteriormente incluídas na família Scrophulariaceae. Ainda hoje há quem não aceite líder tão fruste para plantas tão garbosas, preferindo inventar famílias espúrias como Antirrhinaceae.

Plantago webbii Barnéoud


Há assim motivos para olharmos estas plantas com outro apreço. A versatilidade de formas é um dos atributos do género: além das ervas reduzidas a meia dúzia de espigas florais emergindo de uma roseta basal, há espécies com hastes ramificadas mas que têm ciclo de vida curto (P. afra), e outras que desenvolvem base lenhosa permanente e formam autênticos arbustos. É a esta última categoria que pertencem algumas das espécies endémicas da Macaronésia: P. arborescens (com várias subespécies na Madeira e nas Canárias, entre elas a madeirense subsp. costae), P. famarae (exclusiva de Lanzarote) e P. webbii (ilustrada nas fotos, endémica de La Palma, Tenerife e Grã-Canária).

A crespa ou pinillo blanco (são esses os nomes vulgares do P. webbii) é um arbusto de uns 30 cm de altura que cresce em lugares rochosos em zonas de montanha, geralmente acima dos 1400 metros de altitude. É frequente em La Palma no bordo da Caldeira de Taburiente, e floresce entre Maio e Agosto. As folhas, que revestem as hastes de cima a baixo, como que agasalhando-as do frio, são lineares e quase verticais, o que diferencia a planta, logo à primeira vista, das suas congéneres também lenhosas, pois tanto P. arborescens como P. famarae têm folhas concentradas nas extremedidades das hastes e em posição mais ou menos horizontal.

Pinillo, que poderíamos traduzir por pinheirinho, é um nome que em Espanha, segundo o portal Anthos, se aplica, em combinações variadas, a um grande número de espécies vegetais, incluindo, além de diversas espécies de Plantago, alguns Equisetum, várias lamiáceas dos géneros Ajuga e Teucrium, e ainda a composta Leuzea conifera. Igual confusão reina entre os pinheirinhos deste lado da fronteira. Em Portugal e em Espanha, se quisermos falar de plantas sem provocar confusões, os nomes comuns são de evitar.

30/04/2024

Muros de alecrim



Há umas semanas foi divulgado um vídeo em que uma cantora celebrava o seu amor por uma árvore, que não era aquela à sombra da qual cantava. Do que ela gostava, mais do que da árvore, era de um nome, de uma certa combinação de sílabas, e tinha fraca importância que a árvore a seu lado não respondesse por esse nome. "Magnólia", por exemplo, é uma palavra bonita. Quem diz que não podemos dar esse nome a qualquer árvore que nos agrade, mesmo que com isso contrariemos a opinião dos entendidos sobre o que é uma magnólia?

"Alecrim" é outra das palavras associadas ao reino vegetal que, pela sua inexcedível eufonia, exige ser aplicada a muitos outros arbustos além do Rosmarinus officinalis, que é aquele que a palavra oficialmente designa. O Rosmarinus, como é óbvio, deveria contentar-se com "rosmaninho"; mas, por uma daquelas incongruências em que a língua portuguesa é fértil, essa palavra nem se lhe aplica: o rosmaninho é, afinal, uma espécie de lavanda (L. pedunculata ou L. stoechas). Contudo, é verdade que o dicionário nos autoriza a chamar "alecrim" a diversas plantas, tanto arbustivas como herbáceas, desde que acoplemos ao nome uma alusão aos lugares que esse particular alecrim costuma frequentar. Assim, o alecrim-do-rio seria uma certa menta, e o alecrim-do-monte uma espécie de tomilho; mas as mesmas plantas têm designações mais sugestivas e esses nomes raramente são usados. Um nome que realmente goza de correntia é "alecrim-das-paredes": a planta assim chamada, Phagnalon saxatile, pertence à família das compostas e não é especialmente aromática. É, porém, indiscutível a sua propensão para colonizar paredes e muros velhos, mesmo em ambiente urbano. Quem percorra as ruas antigas de qualquer cidade ou vila portuguesa, e preste atenção à vegetação dos muros, dificilmente deixará de a detectar.

Phagnalon umbelliforme DC.


Em castelhano, o Rosmarinus officinalis chama-se romero — e, tal como sucede em português com alecrim, variações desse nome (como romero marino) aplicam-se a plantas muito diversas, incluindo algumas do género Phagnalon. O Phagnalon umbelliforme, ilustrado nas fotos, endémico das Canárias e aí presente em todas as ilhas excepto Fuerteventura e Lanzarote, é conhecido no arquipélago como mecha romero. Não é planta que viva preferencialmente em muros, mas gosta de locais pedregosos e soalheiros. Ainda que não haja falta desse tipo de habitat nas ilhas onde lhe calhou viver, em quase todas elas a planta é bastante escassa. Só parece ser frequente no extremo sul de La Palma, onde tivemos ocasião de a fotografar.

O epíteto umbelliforme, judiciosamente escolhido pelo grande botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle (que viveu entre 1778 e 1841 e nunca visitou as Canárias, tal como nunca visitou a maioria dos lugares de onde provinham as muitas plantas a que deu nome), fornece uma descrição perfeita deste alecrim canário: são as umbelas compostas por várias dezenas de capítulos que o diferenciam claramente de todas as outras espécies conhecidas de Phagnalon. De resto, e a não ser pelo tamanho reduzido, cada um desses capítulos encaixa bem no figurino habitual do género: apresenta formato cilíndrico; as bráteas involucrais são alongadas, inermes e com margem membranácea; e as minúsculas flores que o compõem são todas tubulares (não há "pétalas" visíveis).

14/04/2024

Histórias de piratas



Os piratas eram criaturas previsíveis. Quando, em nome de um rei qualquer, tentavam invadir e saquear ilhas inimigas, procuravam sempre as enseadas que dessem abrigo aos navios e permitissem chegar rapidamente às povoações no interior da ilha. Nas ilhas com falésias cortadas a pique, impossíveis de escalar, os escassos pontos de acesso estavam ciosamente vigiados e defendidos, e pouco mais restava aos piratas do que ensaiar umas canhoadas a uma distância prudente antes de se porem ao fresco. Não era vida fácil, a deles. Mais valia ficarem-se pelos tradicionais assaltos aos navios mercantes: com maior ou menor derramamento de sangue, essas empreitadas sempre lhes traziam algum proveito.

La Palma obedece com rigor ao figurino da inviolabilidade — vencer e subjugar os Guanches não devem ter sido, nesta ilha, tarefas fáceis para os conquistadores espanhóis. Grande parte da costa, sobretudo no norte da ilha, está preenchida com falésias com 100 a 300 metros da altura. Aqui e ali alguns barrancos permitiriam ascender ao interior da ilha; mas, além de serem acidentados e íngremes, não dispunham de ancoradouros nas proximidades. No sul da ilha o panorama muda, e são vários os pontos bordejados por encostas baixas, de fácil escalada — mas seria também aí que as defesas da ilha estariam concentradas.

Os piratas modernos vêm de avião e vão-se embora uma semana depois. A ilha esforça-se por recebê-los bem, talvez porque os novos corsários deixem mais do que levam. Para eles não há falésias inacessíveis e, em vez de as atacarem de baixo, chegam por cima, aproveitando os caminhos de acesso às praias que os habitantes da ilha amavelmente esculpiram nas escarpas. As plantas que viveram em sossego durante os séculos de inofensiva pirataria são agora obrigadas a conviver com visitantes que as pisoteiam distraidamente, sem lhes dedicarem sequer um segundo de atenção. Ainda que façamos parte das hostes invasoras, tratamos as plantas com respeito: evitamos pisá-las, queremos saber-lhes os nomes e como vieram aqui parar.

Polycarpaea smithii Link


A Polycarpaea smithii, que encontrámos em falésias de precário equilíbrio na costa norte de La Palma, e que vive também em La Gomera e em El Hierro, é uma das nove espécies do seu género nas Canárias. Quase todas são endémicas do arquipélago; a excepção é a P. nivea, que ocorre igualmente em Marrocos. O nome Polycarpaea, que significa "com muitos frutos", não é particularmente elucidativo quanto à morfologia deste género de cariofiláceas distribuído por zonas tropicais e sub-tropicais de África, Ásia e América. Incluindo desde herbáceas anuais a pequenos arbustos, as espécies deste género apresentam flores com sépalas hialinas (por vezes avermelhadas) e pétalas diminutas (em geral brancas ou de cor creme), reunidas em cimeiras densas; as folhas, frequentemente carnudas, variam de lineares a obovadas. A P. smithii, que é lenhosa, ramificada e de hábito rasteiro mais ou menos pendente, com hastes de não mais que 30 cm de comprimento, tem folhas lineares carnudas, opostas ou amiúde agrupados em verticilos.

Para se apreciar a variabilidade do género, mostramos em baixo a Polycarpaea carnosa, essa fotograda em Tenerife, na estrada do Teno. Tem o mesmo hábito rastejante e pendente da planta de La Palma, e o mesmo gosto por habitats rochosos; no entanto, as suas folhas são quase orbiculares e as sépalas são de um verde amarelado. No aspecto geral, e até pelas folhas arredondadas e suculentas, a P. carnosa quase se confunde com alguma espécie de Sedum ou de Aeonium.

Polycarpaea carnosa C. Sm. ex Buch


31/03/2024

Salsa caprina

Pimpinella dendrotragium Webb


Prosseguimos o nosso ciclo de plantas com aspecto familiarmente europeu mas que são endémicas das Canárias, um arquipélago geograficamente africano. Desta vez é uma salsa, que é como chamamos, preguiçosamente, às umbelíferas cuja folhagem faz lembrar a desse tão popular condimento culinário. Na planta acima ilustrada, as flores de cor branca já são aviso suficiente de que não se trata da verdadeira salsa, pois esta costuma dar flores amareladas. E é de todo desaconselhável colher folhas de presumíveis salsas silvestres com intenção de as consumirmos: as possiblidades de confusão são inúmeras, e algumas destas salsas fingidas são mortalmente venenosas.

Não são apenas os portugueses, tradicionalmente ignorantes em matéria de plantas silvestres, que confundem as salsas. Nas Canárias, todas as espécies endémicas do género Pimpinella, num total de cinco, são tratadas como perejil, que é o nome vulgar da salsa em castelhano. A Pimpinella dendrotragium, endémica de Tenerife e de La Palma, é conhecida como perejil cabruno, o que se traduz por salsa caprina. A menção à cabra vem do epíteto dendrotragium, que combina uma referência ao dito animal (em "tragium"), motivada talvez pelo odor da planta, com uma alusão (através do prefixo "dendro") ao carácter lenhoso dos exemplares idosos.

Distribuídas pela Europa, Ásia e África, há no mundo inteiro cerca de 150 espécies de Pimpinella. Ao contrário da verdadeira salsa, que é folharuda de alto a baixo, a folhagem das pimpinelas costuma concentrar-se na base das plantas. E é atendendo ao recorte e ao número de divisões das folhas basais que é possível, sem dificuldade, distinguir as diferentes espécies do género nas Canárias (na verdade, só em Tenerife, onde ocorrem quatro espécies, é que essa distinção é menos imediata). Das cinco espécies em questão, só a Pimpinella dendrotragium e a Pimpinella cumbrae têm folhas basais simplesmente pinadas; as restantes têm-nas bipinadas ou tripinadas. E, para destrinçarmos estas duas espécies, basta notar que, contrastando com a folhagem verde da P. dendrotragium, as folhas da P. cumbrae são glaucas e apresentam um recorte muito mais regular (veja esta foto). E há a questão da ecologia: como o próprio nome sugere, a P. cumbrae está restrita às maiores altitudes (de 2000 metros para cima) das ilhas onde ocorre, que são Tenerife e La Palma. A P. dendrotragium, que fotografámos nos pinhais de La Cumbrecita, em La Palma, onde a espécie é moderamente frequente, vive entre os 400 e os 1400 metros de altitude.

13/03/2024

Que mil tomilhos floresçam

Micromeria herpyllomorpha Webb & Berthel.


Estes arbustos de folhagem miúda fazem lembrar tomilhos, e aliás é esse o nome que lhes dão nas Canárias, mas a ausência do característico perfume leva-nos a suspeitar que sejam outra coisa. Na verdade, as diferenças entre tomilhos e estas lamiáceas insulares são de tal ordem que justificam a separação em géneros botânicos diferentes. Com excepção de uma espécie em Lanzarote, os tomilhos genuínos (género Thymus) não são parte da flora nativa das Canárias; em compensação, os falsos tomilhos (género Micromeria) são muito numerosos nessas ilhas, contando-se por lá mais de 20 espécies ou subespécies endémicas, quase todas com distribuição restrita a uma só ilha.

A Micromeria herpyllomorpha é a representante única dessa estirpe em La Palma. Isso confere à nossa identifcação um grau de certeza que não estaria ao alcance de amadores descomprometidos como nós em ilhas como Tenerife ou Grã-Canária, em cada uma das quais existem 8 ou 9 espécies ou subespécies endémicas de Micromeria. Num género em que as variações morfológicas são pequenas e os caracteres diagnósticos subtis, a distinção entre as várias entidades pode ser problemática, com diferentes especialistas a desentenderem-se quanto ao correcto tratamento taxonómico. Revelando-se os dados morfológicos ambíguos ou enganadores, só o advento dos estudos genéticos trouxe alguma ordem e estabilidade à divisão do género em espécies e subespécies. Em 2015, um artigo de Pamela Puppo e Harald Meimberg na revista Phytotaxa (ver aqui) propôs, com base na filogenia, uma reorganização do género Micromeria nos arquipélagos das Canárias e da Madeira. Houve muitas subespécies promovidas a espécies, e (em menor número) subespécies que transitaram de uma espécie para outra. De um modo geral, os autores concluíram ser inadequado considerar espécies com múltiplas subespécies distribuídas por diferentes ilhas. Da Micromeria varia, por exemplo, foram descartadas todas as seis subespécies em que, para além da subespécie nominal, a espécie havia sido dividida — uma delas era a madeirense M. thymoides.

O tomillo palmero, que floresce (pelo menos) entre Março e Junho, é frequente em La Palma desde as zonas costeiras até às maiores altitudes, mostrando preferência por lugares secos e soalheiros. As plantas das zonas altas da ilha, acima dos 2000 metros, são rasteiras, não ultrapassando os 25 cm de altura, e têm sido segregadas numa subespécie própria (Micromeria herpyllomorpha subsp. palmensis); a subespécie nominal, que ocorre no resto da ilha, integra plantas de porte erecto, capazes de atingir os 70 cm de altura. É a esta última que pertencem as plantas por nós fotografadas no Barranco de la Madera, situado na metade oriental de La Palma.

28/02/2024

História dos sete assobios



Apesar de geograficamente as Canárias serem africanas (como aliás é a Madeira), e de a sua flora ter muito mais elementos africanos do que europeus, ocorrem no arquipélago plantas endémicas que se inscrevem claramente em linhagens europeias. O género Silene é disso bom exemplo: as sete espécies do género endémicas dessas ilhas são todas variações da europeia Silene nutans, distinguindo-se desta apenas por detalhes morfológicos que de modo nenhum disfarçam essa afinidade. Por uma vez, a migração para as ilhas não fez com que as plantas se agigantassem ou assumissem formas excêntricas.

Silene pogonocalyx (Svent.) Bramwell


No mundo inteiro existem quase 900 espécies de Silene, a maioria delas no hemisfério norte. São fáceis de reconhecer pelas flores de cinco pétalas mais ou menos fendidas, com cálices alongados marcados por veias longitudinais paralelas. No entanto, o aspecto geral dessas plantas é muito variável: umas espécies são anuais, outras perenes; umas rasteiras, outras aprumadas; algumas apresentam roseta basal, outras só têm folhas caulinares; umas são peludas, outras glabras. A Silene nutans e as suas congéneres canarinas, entre elas a Silene pogonocalyx com que ilustramos o texto, pertencem todas à secção Siphonomorpha, uma das muitas em que este género tão diverso foi dividido. São plantas perenes, em geral lenhosas na base, com folhas basais mais ou menos espatuladas; têm hastes florais erectas, com nós regularmente espaçados e dois ramos laterais em cada nó; as flores são pendentes, com pétalas profundamente fendidas.

A Silene pogonocalyx, que encontrámos no bordo sul da Caldeira de Taburiente, num lugar chamado La Cumbrecita, só não é endémica de La Palma porque se supõe que exista também em El Hierro, embora não haja confirmação recente dessa presença. Em La Palma, a planta ocorre esporadicamente em todo o perímetro do grande vulcão que domina o centro da ilha, ascendendo à altitude de 2400 metros no Roque de Los Muchachos. Aí vive em zonas quase despidas de vegetação, abrigada em fendas de rochas; mais abaixo, em ambientes menos inóspitos, vegeta à sombra dos pinheiros (Pinus canariensis) que, mesmo nas vertentes mais íngremes, formam uma cobertura quase contínua das zonas de média altitude da ilha.