27/02/2023

Ramalhete de estreleiras (I)

Que fazer com a mercadoria acumulada em armazém, já coberta de pó, que nenhum cliente mostra interesse em comprar? Anunciar descontos, três pelo preço de um, oportunidade única a não perder? Ou até gabar a raridade do produto, coisa antiga como hoje já não se fabrica? (Agora vem tudo da China.) O que temos, na verdade, são flores: flores fotografadas, que não murcham nem perdem a cor, imunes ao pó e à passagem do tempo, sempre na moda porque nunca estiveram na moda. O preço que por elas cobramos é imune à inflação, e exprime-se pelo mesmo número em todas as moedas conhecidas (mesmo as já fora de circulação): zero euros, zero escudos, zero dólares ou zero xelins. Ainda assim, não queremos distribuí-las ao desbarato. Vamo-las dispondo cuidadosamente na montra, não muitas de cada vez, dando-lhes espaço e tempo para serem apreciadas com vagar. Bastará uma semana para que alguém se interesse por elas?

Começamos a época de saldos (chamemos-lhes assim) com um ramalhete de três malmequeres arbustivos do género Argyranthemum, todos endémicos de Tenerife. Das 24 espécies de Argyranthemum actualmente aceites, três vivem na Madeira, uma nas Selvagens e vinte nas Canárias. A espécie mais comum na Madeira, A. pinnatifidum, é conhecida popularmente como estreleira, e esse parece-nos um bom nome para aplicar indistintamente a todas as espécies do género. Estrelas-de-prata também não estaria mal, até porque Argyranthemum, que vem do grego antigo, significa "flores de prata". A ilha mais abonada em estreleiras é Tenerife, com dez espécies (subindo o número para catorze se contarmos subespécies), seguida da Grã-Canária com cinco (nove se incluirmos subespécies), de La Palma com quatro, de La Gomera e El Hierro com três cada, e finalmente de Lanzarote e Fuerteventura com uma espécie por ilha. A maioria das espécies são exclusivas de uma só das ilhas, mas há espécies partilhadas por diversas ilhas, embora por vezes com diferentes subespécies em diferentes ilhas. Um bom exemplo é o A. frutescens, que ocorre em todas as ilhas do arquipélago excepto Fuertventura, e de que se contam sete subespécies, quatro delas endémicas de uma ilha só e três com distribuições mais alargadas. Os habitats ocupados pelas diferentes espécies são dos mais diversos, desde a laurissilva húmida até aos pinhais de Pinus canariensis, desde a costa até aos cumes mais elevados, desde barrancos pouco acessíveis até às bermas das estradas mais movimentadas.

Argyranthemum broussonetii (Pers.) Humphries


Planta robusta, capaz de chegar aos 1,2 m de altura, com folhas grandes e atraentes, duas a três vezes divididas, o Argyranthemum broussonetii (em cima) vive em Tenerife, em lugares umbrosos da laurissilva de Anaga e, mais escassamente, do vale de La Orotova. Até 2021 considerava-se que a espécie estaria também representada em La Gomera por uma subespécie própria (A. broussonetii subsp. gomerensis), mas estudos genéticos e morfológicos (ver artigo) mostraram que as duas putativas subespécies eram evolutivamente afastadas, devendo em vez disso a planta de La Gomera ser tratada como subespécie da endémica A. callichrysum. Com floração prolongando-se entre Fevereiro e Julho, este novel endemismo tenerifenho, bem adaptado a climas frescos, parece feito de encomenda para jardins de regiões temperadas.

Argyranthemum tenerifae Humphries


Sem sairmos de Tenerife, damos um salto à montanha do Teide para admirarmos o Argyranthemum tenerifae ou estreleira-dos-cumes (fotos em cima), que vive a pleno sol nas extensões pedregosas aos pés do grande vulcão. Numa típica adaptação ao habitat inóspito, exibe uma forma compacta e arredondada, e também na folhagem se diferencia radicalmente da sua prima da laurissilva. Quem não gostaria de as ter lado a lado no mesmo jardim? Desejo impossível, pois a casa que convém a uma é inabitável para a outra. E ainda há a suspeita de que, como sucede à maioria das plantas de alta montanha com distribuição restrita, o Argyranthemum tenerifae seja avesso à domesticação e impossível de cultivar em jardins.

Argyranthemum adauctum subsp. dugouri (Bolle) Humphries


Eis mais uma estreleira de Tenerife, aqui incluída para aviso e instrução dos nossos leitores. É que, vivendo ela também no Teide, o observador desprevenido pode confundi-la com a estreleira-dos-cumes. Do Argyranthemum adauctum estão descritas sete subespécies nas várias ilhas do arquipélago, e a subsp. dugouri (nas fotos) é uma das duas que são endémicas de Tenerife. Vive sobretudo em pinhais, mas em certos pontos da montanha do Teide os bosques de Pinus canariensis ascendem a altitudes superiores a 2000 metros, e é na orla desses bosques que se podem dar os encontros imediatos entre a estreleira-dos-cumes e a estreleira-dos-pinhais. Contudo, esta última distingue-se sem dificuldade pela indumentação das folhas e das hastes (é muito mais hirsuta do que a sua congénere), pela forma das folhas, e mesmo pelo aspecto geral (tem hastes erectas, pouco densas, contrastande com o aspecto compacto da estreleira-dos-cumes).

Temos mais estreleiras em armazém para despachar — e a seu tempo, depois de lhes puxarmos o lustro para brilharem como novas, aqui as traremos para tentar despertar o desejo de quem nos vier espreitar a montra. Não desdenhe o leitor delas por lhe parecerem antiquadas ou por estar habituado a desconfiar dos produtos de ocasião. Dentro da gama em que nos especializámos, são produtos excelentes, e não encontra melhor nem mais barato nas lojas da concorrência.

21/02/2023

Simetria sem espelho

A Astronomia é a única ciência que tem lugar cativo nas páginas de divulgação científica dos jornais portugueses, a par de uma ou outra notícia mais desenvolvida quando damos uma voltinha por Marte. Entende-se a preferência: todos queremos estar informados de que é feita a matéria escura que parece preencher quase todo o universo, e ser os primeiros a saber mal se descubra um planeta não demasiado longínquo idêntico à Terra. Um tal planeta nem precisa de ser novo, por estrear. Muitos até preferem que seja habitado, crentes de que isso o tornará mais acolhedor, com o conforto de uma casa, um céu azul, água da chuva e uma paisagem que nos alegre a memória. Sabemos, porém, que é improvável que alguma vez se encontre um tal lugar. Não faltam por aí rochas, átomos, energia e força gravítica para fabricar mundos como o nosso, mas são tantas as possibilidades que é muito difícil repetir um formato no universo. Só não nos sentimos sozinhos na Terra, tolhidos de medo e tédio, porque os cientistas ainda não desistiram de procurar.

Atente, agora, caro leitor, no caso de uma semente ou uma planta que, sem a nossa imaginação, aporte a uma ilha onde não há nada reconhecível, nenhuma semelhança apaziguadora com o seu habitat de origem. Não sofre por isso, nem fantasia com monstros, perigos e Solaris. Os seus genes ordenam-lhe apenas que vá e se multiplique. E ela chega, descansa, e toma nota do solo, da água disponível, do lado onde o Sol nasce, de quem a poderá polinizar, trincar as folhas, fazer sombra. E, em não mais do que dois ou três milhões de anos, temos mais uma espécie novinha em folha.

Ora vejamos o exemplo do género Hypericum, cosmopolita, com cerca de 500 espécies e 35 representantes na Península Ibérica. Tem nas ilhas Canárias (e na Macaronésia) várias espécies endémicas notáveis. Há-as de porte arbustivo, outras herbáceas, com ou sem glândulas escuras nas folhas, sépalas e pétalas. Mas todas exibem flores amarelas de estames proeminentes, dispostas em inflorescências vistosas no topo dos ramos. Algumas espécies continentais têm flores brancas ou rosadas, mas a tendência é de as acomodar no género Triadenum.

A espécie que vos mostramos hoje é um endemismo da Grã-Canária, Tenerife e La Gomera. Distingue-se das demais espécies das Canárias essenciamente pelas folhas. Estas são ovadas, quase glabras, com margens glandulosas (que rescendem a uma substância que afasta os predadores), e nascem em pares opostos a abraçar o caule. O traço distintivo é a folhagem decussada: as folhas dispõem-se em andares muito próximos entre si, estando cada par de folhas rodado de 90 graus relativamente ao que está abaixo, formando os dois pares uma cruz e evitando esconder o sol uns aos outros. As fotos são de Maio, de exemplares do barranco de Añavingo e do barranco de Herques, em Tenerife.

Hypericum reflexum L. f.

12/02/2023

Mato mourisco

Suaeda vermiculata J. F. Gmel. [= Suaeda mollis (Desf.) Delile]


As plantas do género Suaeda são pequenos arbustos ou herbáceas anuais, com folhas carnudas mais ou menos cilíndricas, que vivem em solos arenosos ou argilosos, muitas vezes em locais alagadiços e com alto teor de sal. É por isso curioso saber que Suaeda vem do árabe — é de facto o nome que nessa língua se dá à Suaeda vera, a espécie mais comum do género na região mediterrânica — e significa insossa. Apesar de frequentarem habitats semelhantes, as diversas espécies de Suaeda não acumulam sal como fazem as salicórnias e sarcocórnias, e portanto não têm vocação para tempero culinário.

Mas as Suaedas são mais versáteis do que as salicórnias e aparentadas: não são exclusivas de sapais e estuários, e por vezes vivem longe do mar, dispensando o sal mas não a areia. A proximidade da água, salgada ou doce, não parece ser determinante para espécies que se adaptaram a climas desérticos como o de Fuerteventura, nas Canárias, ou o de Marrocos, no quadrante noroeste do continente africano. Um exemplo é dado pela Suaeda vermiculata, acima ilustrada, que se distribui por quatro das ilhas Canárias (Fuerteventura, Lanzarote, Tenerife e Grã-Canária) e ainda por Cabo Verde e pelo norte de África. Conhecida no arquipélago espanhol como matomoro brusquillo, é um arbusto rasteiro, glabro, com folhas glaucas frequentemente tingidas de vermelho, de uns 5 mm de comprimento, apresentando a face superior plana ou ligeiramente côncava; as suas flores são axilares, reunidas em grupos de duas ou três, e exibem anteras de um amarelo vivo.

São cinco as espécies de Suaeda presentes nas Canárias, todas elas ocorrendo em Fuerteventura, a mais árida das ilhas e também a que, com as suas dunas a perder de vista, tem maior extensão de habitat favorável. Pela coloração das flores e das folhas, a Suaeda vermiculata distingue-se bem de quase todas as suas congéneres no arquipélago, mas não da Suaeda ifniensis — que, em todo o caso, aparenta ter folhas mais estreitas e compridas e estames não tão vistosos.

Na berma de estrada em Fuerteventura onde captámos as fotos, a secura do solo argiloso parecia corroborar o desdém da Suaeda vermiculata pela água. Contudo, uma ligeira depressão no terreno, indicadora da passagem de maquinaria pesada, terá permitido a acumulação de humidade e talvez criado algum efémero charco. Sinais de água não havia, mas as plantas têm sensores mais apurados do que os nossos e estavam à espreita de uma oportunidade. E, além da Suaeda, preparada para sobreviver à mais impenitente secura, algumas plantas anuais, entre elas uns muito apelativos goivos, aproveitavam a inesperada benesse para germinar e florir fora da época prevista.

06/02/2023

Folhado rijo

Há uns anos, uma notícia surpreendeu cientistas e vigilantes da natureza: durante a estação seca, num período particularmente quente, centenas de antílopes no sul de África foram envenenados por árvores do género Acacia. Depois de vários meses sem chuva, estas plantas desesperavam para manter alguma folhagem, e havia que impedir a herbivoria. O mecanismo de defesa incluiu então duas etapas, a cumprir em não mais de meia hora: a emissão de um alerta (com etileno) pelas plantas com folhas já danificadas, avisando sobre a presença de predadores; e a produção extra e imediata de tanino pelas árvores notificadas, tornando as folhas mais amargas. O objectivo deste processo não era matar os animais, para quem essas árvores sempre foram a fonte principal de alimento. O sabor desagradável das folhas deveria repeli-los e levá-los a procurar alimento noutras paragens, evitando desse modo que dizimassem as plantas. Infelizmente, sem alternativa num local tão árido, os bichos comeram as folhas tóxicas — e os botânicos descobriram que afinal as plantas, sempre tão silenciosas, comunicam entre si.

Esta é uma instância dramática de adaptação da folhagem ao habitat, mas há outras mais fáceis de reconhecer e menos perigosas. Se as folhas são coriáceas e pequenas, de textura rija ou mesmo espinhosa, é bastante provável que a espécie esteja exposta a um clima quente e seco, ou muito frio. Pelo contrário, as folhas grandes e mais frágeis, que parecem depender de bastante água e sombra, são mais comuns em plantas de bosque, com temperaturas amenas e chuva frequente. Nas florestas tropicais, onde a humidade é elevada, há longos períodos com temperaturas muito altas e a acção dos herbívoros pode ser debilitante, é fácil encontrar plantas com folhas enormes mas duras, rugosas e indigestas, com margens recurvadas e veios centrais vincados para que o excesso de água escorra facilmente, e venação pinada para que a seiva nutra devidamente as folhas grandes.

Na região mediterrânica, origem de muitas das espécies da flora da ilhas Canárias, o clima é quente e seco no Verão, mas ameno e húmido no Inverno. Não peca nem pelos destemperos do clima oceânico, muito chuvoso e dado a ventanias (o das ilhas açorianas), nem pelos ardores do clima semi-árido do norte de África (e o de várias ilhas das Canárias). Algumas das espécies que dali migraram para a Macaronésia mantiveram o porte arbustivo, ou até se esticaram para árvores, mas as folhas tornaram-se mais pequenas, ou mais rijas, ou mais espinhosas. É o caso do género Viburnum.

Viburnum rigidum Vent. [= Viburnum rugosum Pers.]


As espécies do género Viburnum que ocorrem em Portugal (V. tinus, V. opulus e V. lantana) gostam de orlas de bosques sombrios, da proximidade de cursos de água e de solos férteis. Têm folhas verdes, largas e mais ou menos lustrosas, que se dispõem horizontalmente de modo a maximizarem o benefício do calor e da luz. O Viburnum rigidum, endemismo do arquipélago das Canárias (que ocorre em El Hierro, La Palma, La Gomera, Tenerife e Gran Canaria) parece ser morfologicamente próximo do V. tinus. Em particular, a folhagem é igualmente perene, embora o porte seja mais alto, atingindo os 7 m de altura. Pode encontrar-se em bosques de laurissilva, mas é frequente em barrancos pedregosos e quentes, onde os ribeiros há muito desapareceram e raramente chove. Em resposta a este tipo exigente de habitat, ou a solo pobre em alguns nutrientes, a folhagem tornou-se mais tolerante à falta de água e pouco atraente para os herbívoros. As folhas do V. rigidum são longas (10-20 cm) mas têm textura coriácea e áspera, penugem densa em ambas as faces e ao longo das nervuras, margens inteiras e ápice agudo.



As fotos são de exemplares de um pinhal em Arafo (Tenerife). As umbelas densas de flores brancas (que desabotoam entre Fevereiro a Maio) são semelhantes às do V. tinus, mas mais vistosas. Pelo contrário, os frutos carnudos, escuros quando maduros, copiam o padrão do género na região mediterrânica.